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domingo, 15 de outubro de 2017

Entrevista com o 'inocente' útil, isto é com o pobre liberal

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Pobre liberal: A pobreza é fruto da vagabundagem. Pobre é pobre porque não quer trabalhar e viver decentemente de salário. Rico é rico porque trabalhou, porque se esforçou.
Outro: E você, é rico ou pobre?
Pobre liberal: Sou pobre...
Outro: Logo?
Pobre liberal: Quero dizer não sou rico nem pobre, ou seja, nem uma coisa nem outra.
Outro:????
Pobre liberal: Quero dizer que ainda estou trabalhando para enriquecer, afinal ainda sou jovem.
Outro: Excelente. E seu pai?
Pobre liberal: Meu pai o que?
Outro: Seu pai é rico ou pobre?
Pobre liberal: Pobre, claro.
Outro: Logo, vagabundo...
Pobre liberal: Não...
Outro: Veja, se seu pai trabalhou por vinte ou trinta anos, economizou e não enriqueceu quer que eu pense o que dele?
Pobre liberal: É que meu pai passou por certas dificuldades.
Outro: E os outros, os outros pobres vagabundos e os patrões vitoriosos acaso não passaram por dificuldades ou as dificuldades são apanágios exclusivos do seu pai?
Pobre liberal: Quando disse que todos os pobre são vagabundos não quis dizer todos os pobres.
Outro: Evidentemente que quis excluir sua família.
Pobre liberal:... Até concedo que existam alguns pobres esforçados que não chegam a lugar algum...
Outro: Pelo que vejo já chegamos a algum lugar...
Pobre liberal: A maioria no entanto é mesmo acomodada.
Outro: Acomodada?
Pobre liberal: Sim acomodada.
Outro: Acomodada como?
Pobre liberal: É sempre possível buscar um emprego melhor.
Outro: Com tanta gente desempregada formando esse enorme mercado de reserva o amigo é capaz de crer que alguém receberá ou recebe muito mais pelos mesmos serviços oferecidos?
Pobre liberal: Se você percebe que sua profissão não é rentável tem que mudar de profissão?
Outro: Como mudar de profissão se a aquisição de uma nova técnica exige aprendizado efetivo?
Pobre liberal: Sei lá, tornando a estudar ou fazendo um curso técnico.
Outro: Neste caso como poderá fazer economias tendo de pagar pelo curso em questão ou pelo material, além de ter de alimentar-se melhor para poder estudar e trabalhar ao mesmo tempo, gastar com passagem de ônibus, etc
Pobre liberal: Claro que enquanto estuda e trabalha não poderá economizar.
Outro: Neste caso economizará quando?
Pobre liberal: Quanto estiver formado e em posse de um emprego melhor.
Outro: Quando a maioria dos brasileiros e brasileiras costumam fazer algum curso já passaram os vinte.
Pobre liberal: E?
Outro: Significa que essa pessoa que terminou seu curso e conseguiu um empreguinho pouco melhor agora tem família para sustentar i é tem filhos, sem que no entanto tenha casa própria, tendo de pagar aluguel.
Pobre liberal: Se essas pessoas não tem condição de ter por que põem filho no mundo? Por que se casa? Por que abandona a casa dos pais e vai morar de aluguel?
Outro: Porque na maior parte das vezes nascem nessas condições e imitam seus pais, tal a força da cultura. Especialmente entre pessoas pouco ou mal escolarizadas. Certas situações sociais tendem a ser reproduzidas. Por isso muitas vezes essas pessoas já nascem em casas alugadas. Por outro lado, conforme a situação dos humildes em geral vai piorando de geração em geração a tendência é que em determinado contesto social apareça um número cada vez maior de conflitos. Quero dizer que os pais e responsáveis tendem a fugir cada vez mais a realidade vivida, a frustração e a falta de esperança recorrendo a bebida, a droga e a própria sexualidade. Com isto o número de filhos ou de crianças aumenta cada vez mais enquanto a condição delas vai se tornando cada vez mais precária. Um número cada vez maior de jovens e crianças tende a ficar exposto a situações de agressão. Disto decorre que o lar, ao invés de apresentar-se como ambiente acolhedor, apresente-se cada vez mais como um ambiente saturado de violência e portanto indesejável. Diante disto mal o jovem consegue um emprego surge a ideia de alugar um comodo, construir um barraco e juntar-se a alguém que esteja nas mesmas condições. Melhor do que ter de entregar todo dinheiro nas mãos de um pai ou de uma mãe violenta e ser agredido... A formação de um lar, por piores que sejam as condições, tende a insuflar alguma esperança naqueles corações, embora posteriormente tais esperanças se mostrem ilusórias, cedendo lugar a frustração, a angústia, a falta de perspectivas e a fuga por meio dos já citados vícios ou do fanatismo religioso. Renovando-se de geração em geração o mesmo ciclo. Não é questão romântica, de escolha, mas de condições dadas. Ninguém dá aquilo que não tem ou o que não recebeu.
Pobre liberal: E o papel da educação na vida dessas pessoas, acaso não existe Escola perto da casa delas?
Outro: Percebo que estudou.
Pobre liberal: Apesar de ter nascido pobre meus pais faziam questão de mandar-me a escola, de irem as reuniões, de olharem o boletim e até de fornecerem alguma explicação sobre as lições.
Outro: Percebo que não nasceu em comunidade de periferia ou na roça.
Pobre liberal: A bem da verdade nasci num bairro de classe média baixa ou quase de classe média baixa.
Outro: Tipo com água quentinha no chuveiro, cama arrumadinha...
Pobre liberal: Mas que vem isso ao caso?
Outro: Já pensou em como deve ser legal ir para a Escola de barriga vazia ou com o estomago apertado de fome?
Pobre liberal: Até onde sei a escola fornece merenda.
Outro: De fato em S Paulo temos umas bolachinhas de maizena e uns copinhos de suco de laranja...
O quanto basta para atrair um certo número de crianças pobres que lá vão merendar, raramente aprender, pelo simples fato de terem trabalhado em algum outro período do dia, de estarem desnutridas, de terem sido espancadas, de terem a afetividade inibida, etc
Pobre liberal: Melhor estarem na escola do que em casa né?
Outro: Sem dúvida, em tais condições a escola equivale a um refúgio face as mazelas da vida. O que não significa que aquelas crianças estejam em condições de aprender muita coisa, pelo simples fato de que o aprendizado depende de certas condições materiais, afetivas e psicológicas as quais já nos referimos.
Pobre liberal: Acaso os professores não estão ali para isso? Acaso não são pagos para isto?
Outro: Fossem suficientemente pagos não precisariam cumprir duas ou três jornadas para poderem sobreviver e certamente poderiam preparar e ministrar aulas muito melhores.
Pobre liberal: Se estão insatisfeitos com seus salários por que não mudam de profissão?
Outro: Não mudam porque não tem uma opção melhor, alias a bem da verdade os melhores professores não permanecem no serviço público estadual e isto já diz tudo, é um sistema retém intencionalmente os educadores menos competentes i é os que menos tempo tem para capacitar-se, sim pois os que teem menos tempo para capacitar-se e se destacam na profissão passam a outros sistemas de Ensino, nos quais inclusive contam com uma estrutura de apoio muito superior.
Caso o estado (S Paulo) quisesse manter os melhores professores e investir na qualidade do ensino remuneraria melhor os seus professores de modo a que não precisassem cumprir dupla ou tripla jornada, destarte poderiam capacitar-se como os demais e nem teríamos professores de segunda classe, mas temos, porque sendo mal remunerados precisam sobrecarregar-se.
Pobre liberal: Bobagem, quem quer ensinar ensina de qualquer jeito, independentemente das condições.
Outro: Somente uma pessoa que não compreende absolutamente nada em termos de ensino aprendizagem poderia dizer uma pérola destas. Não existe ensino feito no ar ou independentemente das condições sejam psicológicas, emocionais, intelectuais, econômicas ou materiais e isto pelo ensino aprendizagem ser um ato complexo em que entram todos estes fatores. Basta dizer que o ensino depende de determinadas técnicas, que estas técnicas dependem de determinados materiais e que estes determinados materiais, tendo custos, implicam investimento por parte daquele que gerencia a Educação. O professor faz sua parte na medida em que ama seus alunos e aspirar cumprir honestamente com sua função. Não é no entanto um taumaturgo ou seja não faz milagres, ficando sempre na dependência das condições naturais que são em parte materiais. Na falta de livros, giz, quadro de giz, retroprojetor, slide, vídeo, ônibus, etc ou na base do improviso, sua ação torna-se cada vez limitada, até tornar-se de todo improfícua. Quando ultrapassa-se o número de vinte alunos por turna e salas convertem-se em depósitos de jovens e crianças, digo que o ato de ensinar é intencionalmente obstruído. A escola privada, excepcionalmente, pode contar com profissionais de qualidade inferior, os quais no entanto sempre poderão produzir medianamente, devido ao apoio pessoal ou material oferecido a tais profissionais. A escola pública com os melhores profissionais e as melhores intenções ficará sempre atrás da escola privada caso não haja significativo investimento em termos de estrutura pessoal e técnica. É exatamente o que acontece. E tem uma razão de ser. Afinal a construção de uma Sociedade menos desigual começa com oportunidades ou chances iguais para todos. Todavia como falar em oportunidades iguais quando a qualidade do Ensino não é Igual???
Pobre liberal: Não compreendo essa Filosofia que consiste em aliviar as responsabilidades das pessoas de baixa renda, das crianças da periferia, dos professores públicos, etc e lança-la toda sobre as costas largas do Estado.
Outro: Uma vez que existe um Estado certamente não existe de enfeite, comportando determinada missão. Para tanto pagamos impostos e somos onerados por uma carga tributária que muito querem reduzir em benefício do patrão mas que sempre poderia ser mantida e revertida em benefício dos trabalhadores e da gente humilde por meio de investimentos nos setores da educação, saúde, habitação, lazer, segurança, etc a exemplo do que ocorre nos países do Norte da Europa, em especial na Escandinávia. Uma vez que lá os tributos revertem a população sob a forma de qualidade de vida por que não poderia acontecer o mesmo aqui? Certamente há pessoas, administradores inclusive, que não desejam que o estado cumpra com sua função social e de certo, e para que? Para que todos os serviços sejam assumidos pela iniciativa privada revertendo em favor do Mercado e endossando ainda mais a ordem liberal ou neo liberal.
Por outro lado não se trata aqui de aliviar a barra de quem quer que seja mas sim de considerar diversos fatores e fazer justiça. O amigo é que fundamentado num idealismo, vulgar, grosseiro e aberrante ou numa concepção romântica da existência, desconsidera tudo quando em termos de materialidade influência as ações humanas executadas no tempo e no espaço ou seja num universo material e corpóreo. Daí achar que a boa intenção tudo pode ou que a boa vontade tem poderes mágicos. São certamente fatores vitais, os quais jamais podemos excluir, mas que isoladamente pouco ou nada produzem. Precisamos certamente de muita boa vontade, mas também nos meios necessários para faze-la acontecer. Parto de uma perspectiva realista, considerando a realidade das pessoas sejam trabalhadores, alunos e professores, os quais são necessariamente influenciados pelo meio.
Liberal pobre: Quem quer fazer as coisas faz independentemente das condições.
Outro: É obrigação do Estado oferecer as condições necessárias para que o ofício de professor e a vocação de aluno concretizem-se no nível mais intenso, aproximando-se de um ideal de perfeição. Se a iniciativa privada fornece tais condições a seus docentes e alunos, o poder público não pode ficar atrás. Isto sob a pena de termos dois padrões de qualidade diferente, um para os ricos e outro para os pobres. Caso as condições sejam consideradas por um sistema de ensino deverão ser igualmente consideradas pelo outro.
Liberal pobre: Se de fato aspiram por uma educação igual para todos por que não aprovam a privatização das escolas?
Outro: Antes de responder a sua pergunta devo dizer que privatização não é nem de longe garantia de qualidade como costumam declarar os meios de comunicação patrocinados por corporações liberais. Para tanto devemos considerar que o maior desastre ambiental acontecido neste país foi consequência da falta de controle de qualidade por parte do setor privado e não do estatal. Outro exemplo não menos clamoroso diz respeito aos abusos, recorrentes alias, cometidos pelos planos de saúde. Dos quais tem resultado gravíssimos danos a seus afiliados. Via de regra afirma-se que caso o SUS funcionasse ou fosse superior não existiriam planos de saúde. Sabemos no entanto que boa parte das pessoas, pelo simples fato de custearem igualmente o SUS, na prática, acabam servindo-se de ambos os sistemas. Então a primeira pergunta a ser feita é se a qualidade dos planos seria a mesmos caso inexistisse o SUS? Já a segunda pergunta a ser feita diz respeito - adotando-se a ótica da privatização - ao que aconteceria com aquela parcela da população incapaz de pagar por um plano de saúde caso o SUS deixasse de existir? Seriam deixados a mingua na sarjeta para morrer como mostrou Michael Moore em seu documentário sobre a assistência médica nos EUNA ou teriam de hipotecar suas casas, automóveis, etc em caso de doença???
Liberal pobre: Uma vez que todos ganhassem suficientemente bem?
Outro: Todos?
Liberal pobre: Uma vez que a maior parte das pessoas pudesse pagar por tais serviços.
Outro: Poderia pagar por eles um trabalhador assalariado, mormente quando os senhores da mesma maneira a fixação de um salário mínimo por parte do Estado?
Liberal pobre: Os salários devem obedecer a lei da oferta e da procura.
Outro: Neste caso com tanta gente desempregada e procurando por serviços temo que jamais seriam suficientes para custear tais serviços.
Liberal pobre: Evidentemente que se trata de uma Sociedade em que mérito de alguns poucos seria bastante reconhecido.
Outro: Como você poder falar em mérito se a concorrência parte de planos diferenciados, de condições de vida preexistentes, de qualidades de ensino diferente, etc??? Como você espera que o pobre alcance o rico se o rico sempre parte a frente dele. Acaso já assistiu a alguma maratona em que os corredores partam de pontos diferentes? De fato até poderíamos falar em merecimento, esforço, etc desde que a concorrência partisse de oportunidades iguais para todos.
Liberal pobre: Como chegar a algum lugar sem fazer sacrifícios?
Outro: Nada mais canalha do que pedir sacrifício aos demais enquanto recebemos a fortuna de bandeja por meio da herança. A homem algum assiste o direito de exigir dos outros aquilo que ele mesmo jamais fez...
Liberal pobre: Você fala tanto em realidade e ignora que as coisas sempre tem sido assim, desde o começo do mundo.
Outro: Quem ignora supinamente as lições da História são vocês, haja visto que a primeira tentativa de reforma social foi implementada há cerca de quarenta e cinco séculos pelo rei Urukagina de Lagash. Grosso modo somos autorizados a dizer que algumas sociedades jamais cessaram de conceber, imaginar e implementar instituições cada vez mais eficientes no sentido de estabelecer ou de, se possível fosse, esgotar a demanda da justiça.
Liberal pobre: Quer dizer que nem sempre fomos capitalistas?
Outro: Basta olharmos para a Idade Média, para as civilizações antigas ou para as culturas primitivas...
Liberal pobre: Seja como for tem o homem de evoluir e tal qual o homem a Sociedade.
Outro: Sem sombra de dúvida, no entanto a opinião segundo a qual o Capitalismo constitui uma evolução face aos sistemas precedentes, inda que apoiada pelo odiado K Marx, não passa de um juízo de valor.
Liberal pobre: De fato nem mesmo Marx ousaria colocar o sistema estamental das ordens feudais acima do nosso capitalismo.
Outro: Como não sou marxista ortodoxo, direi na esteira de um heterodoxo marxista, que apesar de sua deficiência em termos de técnica a Idade Média jamais cogitou em colocar o TER acima do SER. Com efeito se nossos ancestrais medievos morriam devido a fome ou a enfermidade é certamente porque não havia comida ou medicamentos. Morriam porque não se sabia fabricar este ou aquele remédio, porque inexistia este ou aquele aparelho, por falta de técnica ou de conhecimento enfim e não pode má vontade. O medievo jamais conceberia a destruição deste ou daquele gênero alimentício como meio lícito para aumentar seu valor enquanto parte dos cidadãos estivesse morrendo de fome, lhes pareceria monstruoso! Se produzimos alimentos em quantidade suficiente para extinguir a fome em termos globais, por que cargas d água ainda há gente passando fome no mundo? Se não há problema técnico quanto a produção então o que? Onde esta o problema? O problema aqui diz respeito a distribuição dos alimentos enquanto fruto da vontade humana? Afinal esta distribuição é feita conforme os interesses do Mercado ou do Capital/lucro e não dos seres humanos... Temos técnica, o que não temos é Ética. O defeito deles dizia respeito aos meios, o nossos diz respeito ao caráter. Como se diz então que este sistema assumido por homens sem caráter era superior ao deles?
Liberal pobre: O capitalismo com todas as suas mazelas e defeitos é o que de melhor ou de menos mal temos em termos sociais. Pois ao menos possibilita, como nenhum outro sistema jamais possibilitou, a ascensão da maior parte de seus membros.
Outro: Tudo quando o sistema Capitalista tem possibilitado é de um lado o acumulo de uma quantidade cada vez maior de bens nas mãos de um número cada vez menor de pessoas e do outro a partilha de um montante cada vez menor de bens nas mãos de um número cada vez maior de pessoas. Do que decorre um nicho cada vez menor em que o mérito possa inserir-se, e não um nicho cada vez maior ou ao menos estável. Mesmo com relação aos que supostamente possuem méritos é exigido um grau cada vez maior de esforço, pois as chances restringem-se mais ao invés de ampliarem-se. Destarte se há um sistema desfavorável para as classes médias é o capitalismo.
Liberal pobre: Importa que o acesso a tal nicho seja franqueado aos melhores.
Outro: Assim fosse... No entanto a dar por melhores ou mais excelentes os cientistas ou intelectuais não podemos dizer que os pináculos do sistema estejam franqueados a eles. No frigir dos ovos podemos dizer que no sistema capitalistas o corpo é comandado pelas mãos e pés, não pelo cérebro, uma vez que os intelectuais e cientistas ocupam sempre posições subalternas já com relação ao poder econômico já com relação ao poder político. Segundo a organização capitalista os mais excelentes obedecem ou executam enquanto que os medíocres ou espertos, assim digamos, governam o mundo como deuses. É um sistema feito para espertalhões e medíocres... Os demasiado éticos ou os demasiado reflexivos jamais chegam a pertencer a cúpula do poder.
Liberal pobre: Se ao menos o pobre economizar parte de seus salário...
Outro: Dirá você que ele chegará a ser rico?
Liberal pobre: Certamente nem todos...
Outro: Como o seu pai...
Liberal pobre: Ao menos alguns...
Outro: Para com isso meu amigo. Quantos assalariados você conhece que já viraram milionários, banqueiros ou grandes empresários?
Liberal pobre: Bem... Conhecer pessoalmente não conheço, no entanto acredito ter lido na Revista Veja ou visto no Globo Repórter alguma reportagem sobre alguns pobres que se esforçaram, venceram e se tornaram milionários.
Outro: Afinal de contas quantos?
Liberal: Certamente mais de trinta ou quarenta pessoas. Afinal é mais de uma reportagem, talvez cinco..
Outro: Nada mal para duzentos e sete milhões de brasileiros. Basta dizer que os ricos compõem 10% da população brasileira ou seja vinte e sete milhões de pessoas e o amigo vem me falar em dezenas de pobre que se tornaram ricos. Ainda que fossem centenas ou mesmo milhares de pessoas, que vem elas ao caso num montante de vinte e sete milhões de seres humanos??? Que fossem quinhentos mil pobres a se tornar ricos por meio do trabalho numa geração! Seria uma ascensão social a cifra de 2% a cada dez ou quinze anos, e portanto de no máximo 20% de novos ricos a cada cem anos! Agora quantos pobre temos (estamos excluindo a classe média intencionalmente)? Admitido que haja neste pais 50% de pobres chegamos a cifra de 103 milhões de pessoas. Caso nos atenhamos a extrema pobreza temos de nos haver com 1/4 da população, ainda assim com 52 milhões de almas. Diante disto que significa a ascensão social de meio milhão de pessoas a cada quinze anos ou década? Assegurado que pessoa alguma viesse a se tornar pobre, precisaríamos de mil ou mesmo de dois mil anos para erradicar a miséria deste pais! Queremos dizer com isto que em termos sociais a tão decantada mobilidade social oferecida pelo capitalismo é pura e simplesmente inexpressiva. Afinal sequer consideramos os que baixam de posição e cujo montante não é desprezível...
Liberal pobre: Caso as pessoas não enriqueçam por meio do salário, do trabalho honesto ou da economia, de que modo enriquecem?
Outro: A bem da verdade a maior parte dos ricos já nasce rica limitando-se a aumentar o montante de riqueza recebida quando não tem a desgraça de perde-la, o que por sinal é bastante fácil num sistema que privilegia o capital financeiro. Imagine alguém que tenha ganhado na loteria. Tal aquele que por acaso nasce no seio de uma família rica e é contemplado pela herança. Caso o herdeiro seja medíocre conseguirá talvez conservar o que recebeu, situação que poderá ser revertida pela esperteza do herdeiro subsequente. A fortuna vai conservando-se de geração em geração, embora oscile.
Liberal pobre: Uma vez que a herança não pode remontar a eternidade deve ter tido um ponto de partida i é as economias frutos do trabalho.
Outro: Quisera de boa vontade que assim fosse mas...
Se até mesmo os padres da Igreja, que floresceram nos primeiros séculos desta Era, foram capazes de  perceber - e muito facilmente - através do estudo da História, que diversa era a origem da riqueza: Aqui o roubo de terras, ali a pirataria, mais além a corrupção e por fim a pura e simples exploração do trabalho alheio... Que haveremos de dizer nós, os filhos do século XXI? Que tudo mudou e entrou os eixos após a adoção do modelo capitalista? Haja ingenuidade...
Aqui as terras tomadas aos índios, ali o rapto e escravidão dos africanos, mais além a exploração insidiosa da mão de obra estrangeira na lavoura e por fim a clássica obtenção da 'mais valia' nas fábricas...
Liberal pobre: Mais valia? Afinal que vem a ser isso?
Outro: A parcela mais considerável do quanto a produzido pelo operário e que ele jamais recebe por meio do salário, digamos assim, a parte do leão.
Liberal pobre: No entanto, uma vez que o empresário adquiriu ou comprou já os meios de produção, ja a matéria prima, venhamos e convenhamos, é justo que ele retenha para si uma determinada porcentagem do quanto é produzido pelo operário.
Outro: Uma coisa seria reter certa parcela do que é produzido, parte a guiza de compensação, parte a guiza de lucro. Outra totalmente distinta é reter a quase totalidade do que é produziu pagando ao operário um salário de fome ou necessário apenas para que aquele subsista ou mantenha a vida. De fato a miserabilidade só não cresce a passos mais largos devido a instituição do salário mínimo. Fosse o salário deixado ao alvedrio do patrão onde não teríamos chegado, isto pelo simples fato de que a dinâmica do Mercado é definida em termos da obtenção de um lucro máximo e não de uma retribuição justa em termos de necessidades humanas ou familiares, segundo o ponto de vista da Ética.
Liberal pobre: O valor os salário é determinado objetivamente pela lei da oferta e da procura.
Outro: Como o operário jamais tem como controlar o fator da procura ou das vendas... a tal objetividade tresanda sempre em subjetividade, curvando-se a doutrina da maximização dos lucros. Compreende-se que a partir de semelhante prática, que consiste em despojar o trabalhador da quase totalidade daquilo que produz, fique fácil acumular uma vasta fortuna em pouco tempo... Tanto melhor para aquele que foi contemplado pela herança já ao nascer, e que jamais teve de trabalhar de fato pegando numa marreta ou numa pá. Limitando-se a administrar o que ganho de mãos beijadas tornar-se-a ainda mais rico. Enquanto que aquele que fato produz, empenhando suas energias, permanecerá sempre pobre, a menos que se torne miserável.
Tal o quado sinistro do capitalismo: Aquele que vive de renda vai se tornando cada vez mais próspero, enquanto aquele que pega no batente vive e morre pobre.
Liberal pobre: Acredito na honestidade e probidade do patrão.
Outro: Como disse Freud cada qual acredita no que bem quer, havendo quem por isso mesmo creia no saci pêrere, na cuca ou na fada do dente
No entanto como você não é patrão esperarei até ve-lo converter-se em patrão e só depois acreditarei em você.
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domingo, 10 de setembro de 2017

Por que os professores se tornam socialistas ou comunistas - Uma leitura de Max Nordau


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Após ter, apenas de passagem, aludido a minha fé Socialista numa determinada redê social de que faço parte, um de meus amigos enviou-me a seguinte mensagem:

Percebo que a maioria dos professores são comunistas - socialistas, por que?
Existiram e existem vários lugares em que não deram certo.
Na prática aqui no Brasil daria certo?
Não é uma ideologia ultrapassada?
A ideia de Marx daria certo no nosso contexto hoje?

Por tratar-se de um jovem sincero e de boa vontade, animado pelas melhores intenções e não de um 'conspirador burguês e malvado' segundo o clichê de alguns radicais, vou tentar responder as questões levantadas segundo minhas possibilidades.

Como se tratam de cinco questões, vamos por partes, analisando uma de cada vez.

Percebo que a maioria dos professores são comunistas - socialistas, por que?

De modo geral não sei se a maioria dos professores são socialistas e menos ainda comunistas.

Eu suponho, diante da distinção que faz - socialistas/comunistas - que esteja a par da diferença existente entre os socialistas ou sociais democratas (grupo com que me identifico) e os comunistas, bolchevistas, marxistas ortodoxos, etc

Seja como for vou reforçar. A distinção é muito bem marcada por Kautsky discípulo de Engels nas Tres fontes do marxismo em suas derradeiras páginas; retomada e muito bem exposta pelo argentino Lisandro de La Torre no seu "A questão social e os cristãos sociais". Lisandro na esteira do velho Kautsky declarava que embora os objetivos do Socialismo e do Comunismo sejam próximos ou mesmo idênticos, eliminar a injustiça e estabelecer uma condição de igualdade social, estão em desacordo quando aos métodos uma vez que o socialista, via de regra, aceita a via institucional da democracia e das sucessivas reformas enquanto o comunista, via de regra, opta pela solução da força ou da sedição.

Sem embargo disto há outras disparidades não menos importantes; o aparato conceitual do Comunismo é um. Os socialismos possuem diversos aparatos conceituais, mas, em geral não dogmatizam ou insistem doentiamente sobre o ateísmo e o materialismo, havendo inclusive grupos de Católicos que sempre se apresentaram como socialistas ou sociais.

O comunismo é monolítico. São chamados 'revisionistas', 'traidores' ou renegados os que flertaram com alguma forma de social democracia; assim Plekhakov, Kautsky, Bernstein, Rosa, Bukharin, Lucaks, Althusser, etc Os quais são para o PC o que os heréticos são para a Igreja Católica. Socialismos há quanto cabeças, o Católico, o marxista heterodoxo, o anarquista, o humanista, o babovista, o georgista, o keynesiano, o distributivo, etc

Todo o que pretenda controlar externamente o Mercado, no mínimo grau, interferindo em sua dinâmica externa, pode ser definido, partindo do conceito liberal, como socialista.

Quanto a sua pergunta não tenho certeza de que a maioria dos professores atuais seja socialista.

Talvez tivessem constituído a maioria - provavelmente constituiram - entre os anos 60 e 80.

Hoje sua prevalência da-se apenas no campo das ciências humanas e o mínimo que podemos dizer é que de modo geral os professores de humanidades - História, Geografia, Sociologia, Filosofia e Psicologia, dentre outros - adotam uma postura crítica face ao sistema capitalista, que suspeitam dele, que repudiam-no e que uma parte considerável do professorado adere a algum tipo de solução socialista, havendo até certo número de comunistas.

Seja como for a identificação do professor de humanas ou mesmo de História com o militante comunista não prevalece.

Quanto ao professorado de modo geral, englobando os professores de ciências exatas e naturais, posso dizer que há um bom número de neutros e não posicionados a respeito dos problemas sociais, e um resíduo de liberais e conservadores cada vez mais atuante.

Por que a maior parte dos professores de humanidades são socialistas?

Tal sua pergunta.

Num primeiro momento direi que os professores de humanidades tendem a refletir bastante sobre o homem e a sociedade levando em conta a diversidade história no decorrer do processo histórico. Quero dizer que costumam ter uma visão de conjunto, bem mais ampla que a do leigo, e que amiúde levam em consta as variantes.

O que os leva a questionar a realidade dada ou predominante.

A maioria de nós é levada a crer a a pensar que o mundo sempre foi tal e qual o encontramos ou que as sociedades não mudam.

O Historiador no entanto pode traçar uma lista cronológica em que conste o ano em que surgiram o computador, o avião, o automóvel e tudo quando o homem de hoje julga ser indispensável a vida.

Ele sabe até mesmo que diversos modelos de organização social, assim de matrimônio, vigoraram em determinadas épocas e locais.

O que o leva a adotar uma postura tanto mais crítica e questionadora a respeito do atual modelo de organização social.

Geralmente imaginamos que as coisas são assim porque são e que não poderiam ser de outro jeito.

O Historiador, o Sociólogo, o Geógrafo, vão noutra direção e costumam a indagar se as coisas não poderiam ser diferentes e por que são diferentes.

Tendem portanto a não se contentar com o que é, tendem ao progressismo ou a mudança. O que já os aproxima do Socialismo.

Agora por que aderem a soluções socialistas?

Primeiramente porque mesmo no tempo presente - embora cada vez menos - o socialismo subjaz na cultura e especialmente no terreno da ética.

Basta dizer que nossas Sociedade até bem pouco tempo foi agrária e tradicional. O índice de coesão social e solidariedade mesmo sendo inconsciente, é bastante marcante em tais sociedades.

Temos, em nossa maior parte, ancestralidade indígena. Os índios certamente não possuem uma ideologia ou teoria socialista - como não há possuíam os antigos orientais, inclusive os judeus - na prática todavia seu modo de viver esta mais perto do modelo socialista pelo simples fato de que os índices de coesão social e de solidariedade são marcantes em tal sociedade. O que vale para todas as comunidades primitivas cf A grande transformação de Karl Polayni 

Oriundo de uma Sociedade agrária e tradicional também o Catolicismo trás este legado socialista em seu bojo. Haja visto que nossa oração padrão é o Pai Nosso não Pai meu e que nossa liturgia também possui certo índice de consciência social. A adoração Católica é regulada ou comum.

O que quero dizer é que o socialismo esta no ar ou na cultura e que suas raízes no Ocidente remontam a Sócrates, Platão e Aristóteles de modo que o simples estudo das doutrinas sociais destes pensadores nos põem em contato com ele.

Os próprios romanos apesar de sua boçalidade insistiram demasiadamente a respeito do que chamamos justiça e criaram todo um aparelho legal destinado, ao menos em parte, a promove-la.

Para onde olhamos damos com um socialismo difuso presente em diversas fontes. Não precisamos sequer olhar para Marx ou recorrer a ele.

Aqui estão Platão, Jesus e Treboniano em coro dizendo que algo esta errado em nossa Sociedade... E insistindo aqui e acolá numa princípio ideal chamado justiça.

Segundo o qual deve ser dado a cada um o que lhe pertence.

O próprio Marx, que folgava ser ateu, principia suas críticas no capital, tomando um verso do antigo testamento - não dos esqueçamos de que um dos Isaías insiste bastante a respeito da justiça em sua dimensão social - "Ganharás o pão com o suor do teu rosto." o que o leva questionar sobre o porque daquele que sua não ter pão ou morrer de fome enquanto aquele que não sua banquetear-se fartamente... Estará isto de acordo com a tal ordem divina???

Se colocarmos a pergunta nestes termos: Estará isto de acordo com a ordem natural? ou ainda Estará isto de acordo com a Ética? Não mudamos muita coisa...

De modo que tal pergunta ocorre muito facilmente aos estudiosos no campo das ciências humanas.

Há no entanto um outro fator decisivo que empurra os professores de humanidades a uma solução socialista.

Em geral os professores são pessoas muito inteligentes, as quais por algum motivo - quase sempre de ordem econômica - não puderam tornar-se bacharéis no ramo em que licenciaram-se ou seja advogados, beletristas, psicólogos, sociólogos, historiadores, etc Tornamos mais uma vez a questão das elites que são circulam ou dos homens capazes que não ascendem socialmente.

O máximo que tais pessoas conseguem é se tornar professores ou funcionários públicos, quiçá inserindo-se na ordem mais baixa da classe média.

Um professor, especialmente se funcionário público não ascenderá aos píncaros da classe média e menos ainda comporá com as elites dirigentes.

Em geral as pessoas mal informadas, medíocres, sofridas, faltas de inteligência, alienadas, etc conformam-se com o que tem. Pelo simples fato de que suas necessidades pessoais são básicas ou porque ignoram quais as condições de vida das elites. cf Max Nordau 'Mentiras convencionais de nossa civilização'
O funcionário público, em geral o professor, não só é melhor informado sobre o regime de vida das elites, como ciente de seus méritos e possibilidades. Tornando-se consciente de que não ascende ou de que não vai mais longe porque é barrado e barrado justamente por um sistema que alega hipocritamente franquear-lhe todas as possibilidades. Mas ele sabe que esta fadado a ser professorzinho de aldeia, jamais medico da corte ou advogado de renome...

Como qualquer pessoa este professor ou funcionário público tem sua família e despesas. Foge a penúria, satisfaz suas necessidades básicas definidas como alimentação, roupa, educação dos filhos, etc num termo médio de insumos. Mas certamente não lhe resta nada ou quase nada. Para viver ou manter-se gasta tudo quanto ganha, quando, por ocasião de uma crise não se endivida e passa por apuros.

E no entanto este tipo de homem, intelectualizado, não vê porque deva passar por apuros e vexames ocasionais sendo bem mais sensível a eles do que qualquer outro homem. Inimaginável a posição de um pequeno funcionário público, professor de aldeia ou intelectual de periferia, que esteja prestes a perder sua única casa... Há quem aceite o fato e vá para o cortiço ou para debaixo da ponte debulhado em lágrimas. Quanto a este homem, simples ameaça ou perigo remoto de passar por semelhante situação é capaz de leva-lo ao paroxismo, a instabilidade ou insegurança econômica inerente ao sistema capitalista incomoda-o instintivamente.

E no entanto este professor de aldeia ou pequeno funcionário público aspira ler Ovídeo ou Italo Calvino (cultura tem custo), ir ao Teatro, frequentar assiduamente o cinema, bebericar um Benedictine ou Hanessy, adquirir lá uma tela ou antiguidade, etc Tem necessidades estéticas ou culturais que não são experimentadas por outras categorias da sociedade. Aspira, inda que moderadamente, ter acesso aos mesmos prazeres que a elite econômica cuja mediocridade costuma perceber. Destarte saber que eles podem provar patê de figado de ganso ou assistir a Antígona, enquanto ele não pode, exaspera-o. cf Nordau.
O Intelectual ou homem capacitado que não atinge seu fim por saber-se limitado arbitrariamente já pelas oportunidades iniciais impostas arbitrariamente pelo sistema, torna-se frustrado, revoltado, exasperado... E naturalmente abraçará a uma proposta qualquer que acene com o velho ideal da justiça: A cada um o que lhe pertence.

Aspirará no mínimo por chances ou oportunidades iguais para as crianças e jovens (seus filhos e netos) ou por uma igualdade absolutamente necessária no começo da corrida.

Os professores via de regra são intelectuais e enquanto tais mais sensíveis a qualquer grau de injustiça, miséria, privação ou necessidade, e este aspecto psicológico tenderá, em caso de que a circulação das elites seja estancada - o que o capitalismo não cessa de fazer - a lançar todos estes homens e mulheres descontentes nos braços do Socialismo. Quanto aos princípios e valores já estão embutidos e dispersos por toda cultura latina e brasílica.




quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Bons professores e salários baixos uma contradição invencível


                                            Imagem retirada do site: www.guiaindaial.com



É impossível que haja bons professores com salários baixos e isso por diversos motivos. Os professores como os outros seres humanos precisam sobreviver: alimentar-se, vestir-se, pagar aluguel, impostos, contas, despesas com filhos, etc... Evidentemente que se o(a) professor(a) ganha pouco, ele não terá como "honrar" seus compromissos, logo ele terá dois ou três cargos: dois públicos, um público e um privado e até mesmo dois públicos e um privado, será nesse caso um(a) verdadeiro(a) escravo(a) e quem perde com isso são os alunos e isso porque o(a) professor(a) acorda cansado(a) e pouco disposto(a), vai trabalhar sonolento(a) e ao fim do dia vai estar exausto(a) e estressado(a).

Eu já passei por isso, quando tive que lecionar em escolas de duas prefeituras, acordava cansado, pouco tempo para preparar aulas, e eu de duas uma, ou preparava aula para os alunos da manhã ou preparava aulas para os alunos da EJA, vivia esse dilema constante, isso porque precisava dos salários de ambos os municípios, senão estaria em maus lençóis. Os ex-alunos que tive naquela época nunca reclamaram do meu desempenho, principalmente os alunos da EJA, mas eu me cobrava internamente mesmo sabendo que em parte a culpa não era minha mas do sistema massificante.

Tenho ouvido de alunos que certos professores dormem em sala de aula, outros mandam copiar lição do livro, isso porque não tiveram tempo de preparar aulas, há pouco tempo alunos meus contaram de uma professora de geografia que passou a mesma prova durante o ano todo e não sabia explicar a matéria de modo que alguns tomaram horror pela disciplina que leciono, geografia.

Se o salário de um professor fosse bom o suficiente para que ele não precisasse trabalhar em dois ou três empregos, a educação só teria a ganhar, pois o profissional da educação poderia descansar mais, trabalhar com disposição e bom humor e preparar suas aulas coisa que raramente acontece e por isso a maioria das aulas são tão maçantes.

Felizmente desde o ano passado disponho de tempo para alimentar minha mente, estudar e preparar minhas aulas mas por outro lado ganhava muito pouco, cerca de R$ 1.500 mensais, ano passado eu queria fazer uma pós-graduação mas por causa do meu baixo salário por ter pego poucas aulas não me sobrava dinheiro para que eu pudesse especializar-me, então tinha que especializar-me por conta própria o que sempre fiz pois sou autodidata. Mas muitos professores que não tem a cultura do autodidatismo precisam fazer cursos de especializações mas acontece com eles o que aconteceu comigo, sobra pouco dinheiro e mais uma vez quem sai perdendo são os alunos.

Ademais nem governo, nem os alunos, nem a equipe gestora, nem o povo em geral pode exigir uma educação de qualidade enquanto o professor tiver um salário baixo e sendo obrigado a trabalhar em duas ou três redes.

Certos esquerdistas acham importante lutar por R$ 0,20 da passagem de ônibus mas não vejo ninguém lutar por uma educação de qualidade, não vejo ninguém questionando para onde vai o dinheiro do Fundeb e nem vejo as pessoas entrando para os conselhos de educação. Enquanto o professor estiver proletarizado (causa) a educação também estará proletarizada (efeito).

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Da falência da educação brasileira



Não há quem não se interesse por educação, todos os setores da sociedade, todos os grupos sociais e indivíduos que adotam as mais diversas ideologias. Padres, pastores, espíritas, ateus, comunistas, conservadores, economistas, políticos, anarquistas, todos se interessam por educação.

Desde que me tornei professor sempre me interessei por educação, mais especificamente por pedagogia, didática e neurociências. Pois tenho consciência que um bom professor precisa conhecer pedagogia a fundo, ter uma boa didática e saber como funciona o cérebro humano e como este processa as informações, como aprende e apreende.

Muito se escreve e se publica sobre pedagogia e teorias pedagógicas então por que cargas d'água a educação no Brasil está falida como bem mostrou o Enem do ano passado? Se há tanta gente discutindo educação, se há tantos sábios e entendidos no tema por que a educação do Brasil está falida em todos os sentidos?

A falência da educação brasileira tem vários componentes: Aprovação automática, salas superlotadas, professores desmotivados pelos baixos salários, falta de reconhecimento pela equipe gestora, salas superlotadas, burocratização do ensino, professores mal preparados principalmente pelos discursos à distância, outro dia ouvi um professor falar menas ao invés de menos e outro li no facebook uma futura professora atropelando a ortografia, não que eu seja um Olavo Bilac ou um Rui Barbosa mas tem coisas que os professores não podem errar, primeiro porque devem ensinar e depois porque os alunos independentes da matéria sempre perguntam ao professor como se escreve ou se pronuncia tal ou qual palavra e se ele ou ela ensina errado os alunos vão acreditar e reproduzirão esse e outros erros.

Quanto aos professores despreparados, um professor contou-me que uma professora de ciências era criacionista e uma coordenadora contou-me que uma outra professora de ciências não acreditava que o núcleo da Terra fosse sólido, uma vez que o núcleo é mais quente que o manto. Isso para não falar nos professores que tenho encontrado ao longo de minha carreira, um pior que o outro. Quando tinha competência não tinha caráter e quando tinha caráter não tinha competência. Poucos professores conheci que realmente merecem o título de mestre/professor.

Temos no país uma receita pronta para o caos. Evidentemente que os políticos brasileiros se interessam pela educação somente em época de eleição, depois premiam seus amigos como secretários da educação, leiloam cargos de confiança e por aí vai. Os professores que deveriam ser politizados constituem uma categoria individualista e imediatista. Acho engraçado, esses professores que logo ao concluir faculdade e ingressam no estado (estado de SP) como categoria Ó, se acham gente, se enxergam como superiores e muitas vezes esses péssimos profissionais dominam suas próprias matérias.

Há ainda aqueles professores que tem conhecimento da matéria que lecionam mas não tem didática e reproduzem aquele discurso mais do que ultrapassado: "Eu ensinei, eles é que não aprenderam", quando na verdade só há ensino quando há aprendizagem.

Ano passado eu tive o imenso desprazer de conhecer um professor de matemática que foi meu colega de trabalho, um homem já velho, arrogante, cujas aulas eram ditatoriais. Esse homem em suas conversas na sala dos professores mostrou-se racista e homofóbico e sempre pronto defender os valores patrióticas e o discurso do... "antigamente"...

Como se pode notar a educação tem vários problemas e nenhuma solução, não porque não existam soluções, o que não existe é a vontade de mudança seja dos professores, seja das equipes gestoras, seja dos pais dos estudantes e dos próprios estudantes de escolas públicas.

Penso que a solução, é uma escola democrática, com uma gestão descentralizada, com professores altamente preparados com salários dignos da profissão e com pouca ou nenhuma burocracia. Se assim não for nada mudará, porque como alguém escreveu mui sabiamente: "De nada adianta procurar  resultados diferentes fazendo sempre as mesmas coisas".






sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Da educação libertária



Não há quem não se interesse pelo tema educação, sociólogos, jornalistas, filósofos, padres, militares, pastores, políticos, marxistas e até anarquistas. Pois todos esses grupos sabem como a educação é importante. Se querem dominar o povo (no caso dos anarquistas emancipar o povo) precisam assenhorar-se da educação.

Durante muito tempo no Brasil a educação esteve à cargo da Igreja Católica Romana e mesmo depois da separação entre a igreja e o Estado, a Igreja romana continuou a se imiscuir na educação oferecendo educação religiosa nas escolas públicas. Mas quando a Igreja já não tinha mais tanto poder sobre a educação pública o Estado tomou o encargo da educação e lançou outros vícios nas mentes juvenis, vícios como o amor à pátria, ensinando obrigatoriamente o hino nacional, o hino da cidade, exigindo uma disciplina militar dentro das escolas e não permitindo questionamentos, claro que desde à década de 1930 muita coisa tem mudado e a educação pública hoje é deficitária mas já não ensina aquele amor despudorado pelo conceito abstrato de pátria, ou de servir à nação contra os "inimigos externos", os estrangeiros.

Eu sou professor de escola pública e, faço o meu melhor enquanto professor, porque acredito na educação e acredito na educação porque antes de tudo acredito em mim, acredito em meu potencial. Quando vou à escola é para lecionar e mais para ser professor, porque nos dias atuais ser professor não é apenas ser mediador do conhecimento mas também ser psicólogo, confidente e mesmo pai e mãe, de jovens que não são aceitos por seus pais.

Mudando um pouco de assunto, tenho ouvido em rodas de conversas e também lido no facebook assuntos que versam sobre a revolução, mas vou confessar uma coisa, eu não acredito mais em imediatismo e tampouco em espontaneísmo, principalmente quando as massas seguem líderes, a vanguarda do partido, quadros ou quando não seguem ninguém mas estouram em manifestações tal e qual uma boiada, muitas dessas pessoas rebeldes sem causa. Sinceramente, não acredito que isso vai mudar uma vírgula sequer na vida desse povo sofrido.

Por isso penso que o anarquista mais inteligente ou um dos mais inteligentes de todos os tempos foi Francisco Ferrer Y Guardia criador da Escola Moderna que sabia da importância da educação e sabia que para engendrar uma sociedade nova precisava de novos homens e novas mulheres sem esses preconceitos embutidos pela religião e pela escola laica com seu nacionalismo e pregação das "virtudes do cidadão de bem". Ferrer sabia mais que ninguém que para criar uma sociedade nova não se faz necessário uma revolução ou manifestações espontaneístas como querem certos revolucionários e anarquistas que amam mais o sangue que a instrução. Sim, sim Ferrer sabia que uma sociedade nova se faz através de uma nova educação, educação laica, racional e científica, que não ensine o medo de Deus às crianças, que não ensine à submissão aos padres (no caso hoje que não ensine submissão aos pastores), que não ensine o amor pela pátria e os valores cívicos para que não se venha a gerar nacionalistas que vejam os estrangeiros como inimigos e para que não se tornem carne sacrificada à Ares. Francisco Ferrer tinha muita razão quando escreveu a senhorita Henriette Meyer: "Para transformar a maneira de ser da humanidade, não compreendo que haja coisa mais urgente do que o estabelecimento de uma educação, tal como o concebemos, que dando frutos facilitará o progresso e tornará a conquista de toda ideia generosa muito mais fácil. Eis porque me parece que trabalhar agora para a abolição da pena de morte e para a greve geral, sem saber como havemos de educar os nossos filhos é começar pelo fim e perder tempo". [1]

Fonte:
1. PENTEADO, João. A Gerra Social. Ano 01 - Nº 19 - Rio de Janeiro - RJ. 03.04.1912.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Eu exonerei do meu cargo de professor de geografia




Algumas pessoas ficaram surpresas com a minha declaração de exoneração do meu cargo de professor de geografia do estado de São Paulo. Eu exonerei por vários motivos: baixa remuneração, muita cobrança, pouco ou nenhum reconhecimento, alunos que não querem aprender, isto é, em sua maioria, alunos mal-educados e uma categoria totalmente desunida que é a categoria dos professores.

Passei no último concurso para professores do estado de São Paulo, fui  convocado fiz o curso da EFAP e uma segunda prova, assumi meu cargo como professor, trabalhando por 4 meses, numa carga de 24 aulas, fora as aulas que eu tinha que preparar em casa, preparar provas e correção das provas. Uma verdadeira escravidão, só quem está em sala de aula sabe. São salas superlotadas, os professores tem que fazer chamada quase berrando porque os alunos conversam ao mesmo tempo em que os professores, tem que chamar a atenção dos alunos, enfim se aborrece muito e se aborrece de tal forma que chega em sua residência esgotado.

Como o senhor desgovernador do estado de São Paulo não deu aumento e nem melhorou as condições de trabalho, e, como eu não quero destruir minha saúde física, nem minha sanidade mental, achei por bem me exonerar, até porque na escola não estou fazendo um papel de professor mas de palhaço, de babá, de carcereiro, de psicólogo dentre outras funções que não fazem parte dos deveres da docência.

Não sou professor para aturar má educação de alunos ou para aturar comportamentos inadequados, não. Sou professor para ensinar o que aprendi, sim, transmitir conhecimentos, e, desculpem-me os pedabobos que não gostam desse discurso, mas é muito fácil falar quando se é um teórico, quando se faz palestras, se escreve livros sem nunca ter pisado numa sala de aula. Deixo claro que aqui não estou falando dos grandes teóricos como Piaget, Vigotsky, Wallon, Freinet entre outros, estou falando dessa gente que ganha dinheiro às custas da educação, ensinando os professores serem professores sem que estes escritores tenham sido professores ou se o foram não mais o são.

Minha saída do estado tem vários motivos e o principal deles é dizer um NÃO contra os desmandos do Geraldo Alckimin e de seu partido demagogo, fascista e mentiroso, sim mentiroso pois nas propagandas diz que o PSDB investe na educação, é isso.


quarta-feira, 27 de março de 2013

A escola desinteressante

Ultimamente tenho ouvido e lido muitas críticas à escola e aos professores e uma delas é esta: "A evasão escolar ocorre porque a escola já não é interessante" se preferir tem essa versão: "Os alunos não querem mais estudar porque a escola é desinteressante". Essas frases são típicas de pessoas que não estão em sala de aulas, de pedagogos de gabinete que ganham a vida escrevendo livros sobre como ser professor e como deve ser a escola sem nunca terem entrado numa ou se entraram já não entram mais.

A mídia, o governo e os pedabobos querem uma escola que seja interessante para os alunos, mas esses "gênios" se esquecem que a rotina faz parte da vida escolar, que estudar demanda esforço intelectual e todo esse discurso cai por terra, pois nossa vida é pura rotina: casamento, relacionamentos, trabalho, estudo, etc... Mesmo que fizéssemos uma escola "interessante" isso também se tornaria rotina com o passar do tempo, até a diversão se torna rotina quando é feita todos os dias. Não adianta querer enganar os alunos oferecendo soluções fáceis, fórmulas mágicas que não os levarão a lugar algum, o bom professor tem que ser sincero e falar que a obtenção do conhecimento demanda esforço, não é algo que se obtém por meio de iluminação ou de osmose, a propósito Aristóteles disse: "A educação tem raízes amargas, mas os seus frutos são doces". 

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Quem não cola não sai da escola


Quem não cola não sai da escola, acredito nisso! O(a) leitor(a) deve estar espantado(a) e se perguntando: Meu Deus como um professor pode dizer isso? Será que ele pirou? Não, não pirei, estou em plena posse de minhas faculdades mentais. E vou dizer mais: eu incentivo meus alunos a colarem em algumas de minhas provas. Daqui deste lado já ouço protestos, deixe-me explicar. A cola nas provas é um ótimo método pedagógico para trabalhar. Como assim? - você me pergunta. Veja só, se o aluno prepara a cola dele em casa, ele tem que ler e não só ler, mas tem que escrever também e muitas vezes tem que se esforçar em fazer tirinhas. Ora, tudo isso demanda um grande esforço que sem perceber o aluno acaba gravando na memória a matéria a ser estudada. Você nunca parou para pensar nisso?

É evidente que meus alunos estranham meus métodos,  (a cola pedagógica não fui eu que inventei, mas um outro professor que deu uma palestra para os professores da rede municipal de São Vicente) pois a cola é vista sempre como algo feio, desaprovada por todos os professores e se um professor se distancia desse discurso é porque deve estar maluco.

Quando marco uma prova com cola, aviso com uma semana de antecedência, peço para os alunos fazerem suas colinhas (individuais) porque no dia da prova não permito que se usem livros e cadernos, apenas a cola que foi preparada em casa ou mesmo em sala de aula. Sem que os alunos percebam acabam estudando e memorizando e não como uma obrigação, mas com prazer. Esta semana um de meus alunos perguntou: professor, para que serve a cola, se eu nem usei a cola na prova, se eu já sabia de tudo? Justamente - respondi - a cola serve para você estudar e sem perceber você memoriza, grava e aprende. É para isso que serve a cola.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Faltam professores

Tenho conversado com professores amigos das redes públicas (municipais e estaduais) e eles me disseram que  estão faltando professores, sinceramente pra mim não é novidade, pois quem vai querer trabalhar com uma clientela desinteressada, indisciplinada e mal-educada e ainda com um salário baixo? Só quem ama muito a educação ou não encontrou coisa melhor.

Há escolas que professores de história lecionam geografia, professores de ciências ensinam artes, advogados ensinam língua portuguesa e por aí vai nossa educação farsa educacional.

O governo não dá estrutura alguma para os professores trabalharem: classes com 40 alunos, salas mal iluminadas, salário baixo, não é de admirar que as licenciaturas estejam fechando. É evidente que isso é culpa do governo que transformou a categoria de professores em babás, obrigando esses profissionais a fazer o que as famílias dos alunos deviam ter feito e não fizeram: educar. Fora que os professores ainda podem ser agredidos por menores e nada podem fazer, porque aqui no Brasil menor tem direito a tudo. Sinceramente, eu espero que haja cada vez menos professores porque só assim nós professores seremos valorizados.

sábado, 17 de setembro de 2011

Ô categoria desunida

Se existe uma categoria desunida, e existe, essa é a dos professores. Os professores são uns exímios reclamões mas péssimos reivindicadores. Reclamam de tudo: do salário, dos alunos, das péssimas condições de trabalho, das cobranças da direção, coordenadores, etc...Mas quando alguém pretende desfraldar a bandeira da luta, aí não aparece nenhum professor, dizem eles: "estou no probatório", "tenho contas para pagar", "tenho família", etc... Ótimas desculpas para justificar a covardia, mas alguém disse mui sabiamente: "Todo vício tenta se justificar". E os rappers da Facção Central numa de suas músicas cantam: "O que adianta sermos milhões se não somos um?". De fato, a categoria dos professores conta com milhares de professores por todo o território nacional, somos milhares de milhares mas não somos um, somos divididos e por isso, sofremos merecidamente, os desmandos dos governos: federal, estaduais e municipais.

A mim como professor não me interessa ouvir discursos do quanto sofremos e tenho ouvido isso quase que diariamente nas salas dos professores, sei que sou mal remunerado para exercer ofício tão estressante, sei que sou muito cobrado, que tenho prazos, que tenho que documentar tudo bonitinho e burocraticamente e o pior que tenho que suportar adolescentes malcriados sem poder fazer nada.

Eu mesmo já tomei minha decisão, se os professores não se juntarem, pretendo num futuro próximo mudar de profissão, trabalhar menos e ganhar mais e não mais entrar em salas de aulas nas quais tenho que me submeter aos desmandos para receber um salário indigno de um mestre.

Os professores que se pretendem como seres autônomos não fazem greves, nem paralisações, são individualistas me dão vergonha. Não, os professores não são emancipados, nem autônomos, ao contrário são mesquinhos e por isso, fazem toda a categoria sofrer. Não estou dizendo com isso que todos os professores são maus profissionais, não. Há muitos bons professores, mas estão presos a esse modo de produção capitalista: ter duas ou três jornadas de trabalho para não perder a renda e o status quo, isto é, seu poder de compra. E isso é vergonhoso, deixar de lutar. Por serem individualistas e a maioria da categoria é individualista,  todos os professores são explorados sem dó nem piedade. Mas de uma coisa os professores sabem muito bem: Que a UNIÃO faz:


sábado, 5 de fevereiro de 2011

Professor é um educador sim!

Ontem numa conversa amena pelo Twitter o amigo @guifernandoo perguntou se o professor é um educador respondi que sim. Todo professor é um educador mas nem todo educador é um professor. Hoje ao acessar o meu Twitter (@Fernando_Felix_ caso alguém queira seguir) vi nas menções que ele deixou um link de seu blog com a postagem: Professor ≠ Educador, que foi escrito por sua mãe a pedagoga Luci Cândida Depetris.

A professora Luci antes de entrar no assunto define os conceitos de professor, educador e educação. Também eu trarei algumas definições.

A palavra professor tem vários significados: o que faz profissão de, o que se dedica a, o que cultiva. Ainda temos a seguinte definição de professor: professor tem uma atividade que deriva do Latim professus, “aquele que declarou em público”, do verbo profitare, “declarar publicamente, afirmar perante todos”, formado por pro-, “à frente”, mais fateri, “reconhecer, confessar”. Trata-se de uma pessoa que se declara apta a fazer determinada coisa – no caso, ensinar.


Educador: «latim educātor,ōris, "o que cria, nutre; diretor, educador, pedagogo".»

Educação é a forma nominalizada do verbo educar. Aproveitando a contribuição de Romanelli (1960), diremos que educação veio do verbo latim educare. Nele, temos o prevérbio e- e o verbo – ducare, dúcere. No itálico, donde proveio o latim, dúcere se prende à raiz indo-européia DUK-, grau zero da raiz DEUK-cuja acepção primitiva era levar, conduzir, guiar. Educare, no latim, era um verbo que tinha o sentido de “criar (uma criança), nutrir, fazer crescer. Etimologicamente, poderíamos afirmar que educação, do verbo educar, significa “trazer à luz a idéia” ou filosoficamente fazer a criança passar da potência ao ato, da virtualidade à realidade. Possivelmente, este vocábulo deu entrada na língua no século XVII.

Definidas as palavras vejamos se o professor é ou não um educador.

As disciplinas que as crianças e adolescentes aprendem na escola chama-se educação, ora se essas disciplinas são chamadas de educação como não podem ser educadores os professores?

Não discordo da professora Luci quando diz que "a educação vem do berço", pois esta educação é a educação informal, e a educação informal não é perfeita, não é acabada em si mesma, não é completa. Esta prepara para a educação escolar no convívio com a sociedade (colegas, professores, serventes e demais funcionários da escola).

Há alunos que chegam à escola sem terem recebido a educação necessária para um convívio pacífico onde saibam respeitar a liberdade alheia. Certamente que por ter havido falha na primeira educação, o aluno problema não conseguirá aprender as disciplinas necessárias para seu progresso físico e intelectual.

Todavia discordo da professora Luci quando esta afirma que professor não é educador, um professor que não é educador sequer merece ser chamado de professor. Em minha prática docente já lidei com alunos problemas e lidei com eles com afeto, respeito e carinho de modo que esses alunos que tinham notas ruins, que bagunçavam, que eram respondões começaram a me respeitar e demonstraram interesse em aprender o que eu ensinva. Evidentemente que o professor que não cria vínculos afetivos com seus alunos não se torna um educador, mas apenas um profissional da educação.

A palavra pedagogo por exemplo significa aio que era um escravo que conduzia uma criança. O professor é esse aio, é esse condutor de crianças e adolescentes. A pedagoga Luci diz que educação é dever é função social de todos e que não é preciso ter um curso superior. Concordo em parte com essa afirmação. Todos tem o dever de educar, mas nem todos podem ou sabem educar. Há quem pense ainda hoje por esse mundo afora, que educar é reprimir, disciplinar, adestrar. Não poucos indivíduos justificam castigar fisicamente seus filhos com o versículo bíblico: "Aquele que poupa a vara aborrece a seu filho; mas quem o ama, a seu tempo o castiga". (Pv 13,24) Educar é uma coisa e saber educar é outra. Por isso, o professor é o educador por excelência.

Sêneca que foi mestre de Nero disse: "De que adianta ensinar o que é uma linha reta se antes não se ensina o que é retidão?".

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Dia dos professores II





São 23 horas e 40 minutos do dia 15 de outubro de 2010, ou seja faltam poucos minutos para findar o dia dos professores e não quero deixar este dia passar em branco, quero falar dos professores que marcaram minha trajetória. Este ano vou falar dos professores que tive na faculdade.

Eu tive muita ajuda na faculdade, tive professores compreensivos, é deles que desejo e vou falar.

Entrei no curso de geografia por acaso, nunca gostei de geografia, aliás eu detestava geografia, porque a geografia que eu tinha aprendido durante toda minha vida escolar era uma geografia "decoreba", sem conexão com a realidade. Um rapaz muito filho da puta safado me fez cursar geografia, em troca de um estágio remunerado num determinado museu do qual ele era curador, me formei no final de 2007, sou professor e estou esperando o estágio até a presente hora. Entrei no curso de geografia por acidente, um verdadeiro "acidente geográfico" na acepção máxima da palavra.

Por que fiquei no curso de geografia? Por causa de um professor. Quem? Luiz Maria. Luiz Maria é um senhorzinho com cabelos brancos e olhos azuis, uma pessoa muito simples e de grande saber, sabia e sabe muito. Mas o que mais me impressionava nesse homem era sua humildade e sua bondade. Nunca vi esse professor se desfazer de um aluno, nunca vi esse professor tirar sarro de alunos ou fugir de perguntas mesmo que não fossem de sua alçada. Luiz Maria era o cara! Luiz Maria não precisava de livros, ele era e é uma biblioteca viva e racional. Para dar aulas Luiz Maria precisava de 3 coisas:
1ª Sua voz;
2ª giz;
3ª nossa atenção.
A professora Vera Lúcia Avim, que hoje está morando na Irlanda, é minha ex-professora mas não minha ex-amiga. Foi uma professora competentíssima, brincalhona, culta e bondosa. Recordo-me que uma vez fiquei muito doente, peguei uma virose, não tinha pegado atestado e, portanto teria que fazer uma outra prova, esta paga. Conversei com a professora Vera Lúcia, e qual foi minha surpresa? Ela disse que eu não precisaria fazer sua prova, ela iria me atribuir a nota do primeiro bimestre, que tinha sido 9,0. Disse-me que eu não tinha que provar nada à ela, pois ela sabia de minha capacidade. Aprendi com ela uma grande lição: a da confiança no aluno!
A professora Eliane não era de geografia, ela lecionou para minha turma práticas pedagógicas. No último semestre eu quase não tinha ido à faculdade, estourei de faltas, praticamente "dp" (dependência) em todas as disciplinas. Eu estava com depressão e a beira do suicídio. A professora Eliane fez de tudo para me ajudar, e se eu consegui me formar foi graças à ela que correu "atrás do prejuízo" por mim.
A professora Raquel que me lecionou didática, e depois aulas de metodologia científica também me ajudou bastante, ajudou-me a formatar meu TCC, sem o que eu não teria me formado.
A professora Ângela Frigério, professora inteligentíssima, de quem no último semestre, só assisti duas aulas, me ajudou muito, deu-me um trabalho de compensação de faltas e para as notas. Ela justamente poderia ter me deixado de "dp", mas não deixou.
Aprendi com esses meus professores a lição das lições: a empatia. Muitas coisas eu já esqueci, mas alição que me faz mais humano essa eu levarei comigo pela vida afora. Provavelmente este texto será lido por minha querida amiga e ex-professora Vera Lúcia Avim, e eu a agradeço por tudo o que fez por mim e em sua pessoa agradeço os professores maravilhosos que tive na Faculdade Don Domênico.

Dia dos professores I

A minha primeira professora foi minha mãe e foi também a melhor. Infelizmente minha mãe já não está viva para ler estas linhas e as linhas seguintes.
Lembro-me quando eu estava na 1ª série do primeiro grau (hoje ciclo um do ensino fundamental), eu era um menino tímido e que tinha muita dificuldade para aprender a ler. Cheguei numa lição da cartilha que eu não conseguia passar de jeito nenhum. E se não me falha a memória, a lição era a da lata. A professora mandou um recado para minha mãe, acerca de minhas dificuldades de aprendizagem e minha mãe tornou-se minha professora particular, e me ensinava a ler com todo o carinho e atenção, toda tarde depois do colégio, e ela era dona de casa. Eu consegui terminar a cartilha graças aos esforços de minha mãe e ganhei o livro que seria usado na 2ª série.

Quando eu ganhei o livro eu não cabia em mim de tanta felicidade, eu sabia que devia isso a minha mãe. Mais tarde, quando comecei a me interessar por teologia, ela comprava ou me dava dinheiro para eu comprar os livros, ou seja, ela me incentivou a ler.

Em parte, o que sou devo-o a minha falecida e inesquecível mãe: Elisa Pereira (Elisa Pereira Araújo, depois que casou de novo). Se há uma imortalidade da alma, quero encontrá-la no além-túmulo, se não existe que tragédia! Eu perdi a melhor das pessoas com quem convivi.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Cognição e afetividade

O médico Henri Wallon demonstrou mais que suficientemente que a aprendizagem está ligada ao afeto. Como professor/educador tenho isso bem claro, mas os sistemas de ensino, não. Eu sou professor contratado e tenho minhas turmas que ano que vem não serão minhas, e se continuar como contratado, pegarei novas turmas com as quais não tenho nenhum vínculo.

É duro para um(a) professor(a) construir um vínculo quase durante um ano inteiro e quando chega no ano seguinte, ele(a) perde seus alunos para outro(a) professor(a), assim como o(a) outro(a) professor(a) perdeu seus alunos.

Tudo o que foi construído a duras penas, com sacrifício é desfeito num piscar de olhos. Todo o esforço do professor foi por água abaixo. E aí no ano seguinte tem que começar tudo de novo, a partir do zero. E quando este vínculo está começando a ser construído, chega o fim do ano e ele é destruído.

E essa situação não acontece somente com professores contratados, mas também com efetivos. Porque certos professores estão mais interessados em ter um melhor horário do que ter vínculo com seus alunos, ou pode ser o caso que a turma mude de horário e aí os professores não podem continuar a acompanhar o progresso de seus alunos.

Se a escola pública com toda essa lenga-lenga das SEDUCS da vida, ou das Diretorias de Ensino, realmente quisessem revolucionar o ensino, a primeira coisa que fariam é obrigar os professores a terem vínculos com seus alunos. Pois a convivência entre professores e alunos, cresceria e ao fim do ciclo, professores e alunos seriam amigos, mais ainda, uma segunda família.

Se os professores (PEB II - Ensino Fundamental II) pudessem pegar turmas de 6ºs anos (antigas 5ª séries) até os 9ºs anos (antigas 8ª séries) criariam vínculos afetivos com seus alunos, eles conheceriam as vidas e as realidades de cada um de seus alunos e saberiam como lidar com cada um. Mas isso é impossível, durante um ano letivo, impossível por causa desse troca-troca de professores, pois os alunos sempre veem os professores como seres distantes, como estranhos e quando começam a ver como amigos, tudo se desmancha como um castelo de areia derrubado por uma onda.

O vínculo afetivo não é construído em 10 meses, leva tempo. Mas os sistemas (des)educacionais pouco se importam, pois esses pedagogos de gabinetes, esses secretários de educação, provavelmente nunca tiveram em uma sala de aula.

Com o vínculo afetivo, haveria menos violência nas escolas, haveria menos indisciplinas, pois os alunos veriam sempre os professores como uma espécie de familiares. Agora, digam-me como os alunos respeitarão os professores que vêem num ano e no outro ano não?

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Profissão Perigo



Quem tem a minha idade ou um pouco menos teve a oportunidade de assistir a profissão perigo que passava aos domingos na Rede Globo aos domingos nas décadas de 80 e 90. O herói MacGiver era um gênio fabricava armadilhas com chicletes e outras quinquilharias. Mas não é dessa serei que eu quero falar, aliás não quero falar de série nenhuma. Quero falar da verdadeira Profissão Perigo, que é a profissão de professor.

Esta semana eu soube de dois professores amigos meus que tiveram problemas cardíacos devido ao estresse a que estão submetidos, e ambos são jovens, um deles é uma moça de 30 anos professora dedicada, competente e superculta, o outro é um professor com menos de 30 anos que teve princípio de enfarte, homem estudioso, sério e que gosta de lecionar.

A professora em questão trabalha na mesma escola que eu, então eu sei pelo que ela passa, porque também passo pelas mesmas dificuldades. Há certas turmas que são verdadeiramente infernais, e aqui não falo de um ou de outro aluno, mas de classes com quase 40 alunos, onde mais da metade é indisciplinada.

Eu mesmo vivo a me estressar em sala de aula dependendo da classe na qual leciono, (todavia confesso que há excelentes alunos em todas as salas de aula) e sei que também posso cair morto fulminado por um enfarte.

A profissão de professor é sim a verdadeira Profissão Perigo, perigo de morrer por um enfarte, perigo de ser agredido por alunos menores de idade, perigo de cair em depressão, perigo de perder o emprego, etc...

Visto que essa profissão é perigosa e não é qualquer um que enfrenta uma sala de aula, penso que o professor devia ter direito a insalubridade porque a docência é uma profissão perigosíssima.

Qualquer professor deixa MacGyver no chinelo!!!!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A Mãe




Pode ser que o leitor pense que vou falar sobre a obra de Máximo Gorki: A Mãe. Não caro leitor que me lê, não é dessa obra nem dessa mãe que eu quero falar, é de outra mãe, ou melhor, é de outras mães que vou falar.

Na escola onde trabalho às vezes somos obrigados a chamar os responsáveis dos alunos indisciplinados e quando conhecemos suas mães acabamos por conhecer a causa da indisciplina. Para o meu desprazer tive a infelicidade de atender duas mães que defenderam seus filhos pelo único fato de serem seus filhos. Infelizmente a maioria das mães, estraga os filhos e chego a conclusão que a guarda de muitos filhos deveria ser tirada de certas mães e pais também.

Mas voltando ao assunto para não perder o fio da meada. Uma das mães, tem um filho que é o cão chupando manga superindisciplinado. Pois bem, o inspetor trouxe a mãe até a sala de aula. E aí a mãe acusou os professores de estarem perseguindo "o santo", o "mártir" de seu filhinho, e que por causa dos professores ele levou uma surra do pai, etc... Disse ainda que os outros alunos bagunçam e que ninguém vê isso, e que o seu filho não é mau, antes é mal-entendido pelos professores que são verdadeiros carrascos de Dachau e Auschwitz (ela não disse isso, estou a usar um recurso literário para que o tom fique mais dramático).

Agora passo a falar da outra mãe que tive a imensa insatisfação de conhecer nesta semana. É uma criatura arrogante, petulante, egoísta que se julga a dona da verdade. Ela é aquela criatura que não educa os filhos, a única coisa que sabe fazer é estragar os filhos.

A mãe ficou toda cheia de melindres ao ser convocada e já chegou a escola numa postura agressiva, defendendo o filho antes que eu pudesse mostrar a ocorrência de seu "anjinho". Tentei falar mas a mãe com toda a deseducação que lhe é peculiar me cortava o tempo todo, e uma coisa que poderia ser resolvida em menos de 5 minutos, levou 20 minutos, tempo esse precioso para mim, tempo no qual poderia estar lecionando, ao invés de ouvir a biografia do "santo" em questão.

A mãe disse que não admite ameaças ao filho como se eu tivesse ameaçado o seu filho, e ainda questionou o meu trabalho, disse que eu sou todo "nervosinho e já entro na aula estressado gritando com os alunos" (sic). Foi isso que o seu filho lhe contou. A minha sorte é que na sala dos professores estava o inspetor de alunos que me defendeu dizendo que o "professor Fernando é tranquilo até demais e um dos melhores professores da escola" (sic). Uma outra professora que estava lá, também me defendeu, senão a mãe descontrolada, terminaria o seu julgamento, me condenaria e me executaria caso pudesse fazê-lo.

Aí perdi minha compostura e disse-lhe: "Mãe o problema é esse, esse e aqueloutro, estou pedindo sua colaboração para resolvermos esse problema porque quem vai perder não sou eu, uma vez que se o seu filho aprende ou deixa de aprender, vou continuar recebendo o meu salário. Outra coisa eu não saio de minha casa para vir à escola para fazer "futricas" de alunos, o meu interesse é ensiná-los e para isso preciso de uma classe disciplinada. Caso a senhora não esteja satisfeita com o meu trabalho, vá até a SEDUC e me denuncie por escrito.

Após isso a mãe, disse que não queria dizer isso, mas não admite injustiças e que os outros alunos são bagunceiros, etc... Apresentei o caderno de ocorrências e a fiz assinar, arrependido de a ter chamado à escola.

Moral da história: Fazer filhos é fácil, difícil é educá-los!

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A maldicão dos professores

O texto não é meu, foi tirado da internet. Há várias versões do mesmo texto: tecnólogos, advogados, etc... A que segue fala dos professores. Muito engraçada.


Conta a lenda que, quando Deus liberou o conhecimento para os homens de como ensinar, determinou que aquele "saber" ficaria restrito a um grupo muito selecionado de sábios. Porém, neste pequeno grupo, onde todos se achavam "semi-deuses", alguém traiu as determinações divinas. Aí, o pior aconteceu........


Deus, bravo com a traição, resolveu fazer valer alguns mandamentos:



1º-Não terás vida pessoal, familiar ou sentimental.



2º-Não verás teus filhos crescerem .



3º-Não terás feriado, fins de semana ou qualquer outro tipo de folga.



4º - Terás gastrite, se tiveres sorte. Se for como os demais terás úlcera.



5º - A pressa será teu único amigo e as suas refeições principais serão os lanches, as pizzas e o china in box.



6º - Teus cabelos ficarão brancos antes do tempo, isso se te sobrarem cabelos.



7º - Tua sanidade mental será posta em cheque antes que completes 5 anos de trabalho.



8º - Dormir será considerado período de folga, logo, não dormirás.



9º - Trabalho será teu assunto preferido, talvez o único.



10º - As pessoas serão divididas em 2 tipos: as que ensinam e as que não entendem. E verás graça nisso.



11º - A máquina de café será a tua melhor colega de trabalho, porém, a cafeína não te fará mais efeito.



12º - Happy Hours serão excelentes oportunidades de ter algum tipo de contato com outras pessoas loucas como você.



13º - Terás sonhos, com planejamentos, cronogramas e provas, resolverás problemas de trabalho neste período de sono.



14º - Exibirás olheiras como troféu de guerra.



15º - E, o pior........ inexplicavelmente gostarás de tudo isso...

terça-feira, 27 de abril de 2010

Professores ou babás elitizadas?




Faz um tempinho que não escrevo, mas isso acontece por eu ser um filho de Cronos e como tal devorado inteiro pelo mesmo, e não há Zeus para salvar-me desse impiedoso deus. Sei que algumas pessoas não gostam do que escrevo, não é para elas que escrevo. Eu escrevo para aquelas pessoas que se identificam de algum modo com o que eu penso, bem sei que elas partilham de meus pensamentos, porque os meus pensamentos também são os seus.

Feita esta breve introducão, quero hoje abordar o tema da educação. Não se preocupe caro leitor, eu não sou o Gilberto Dimenstein nem o Rubem Alves.
Uma ex-professora minha da faculdade e hoje minha amiga a professora Vera Lúcia Avim, mulher bonita , inteligente, elegante, etc... Sempre me alertou a respeito da educação e contava-me casos escabrosos ocorridos nas escolas públicas da baixada santista.

Entrei para a educação e vi e ouvi com meus olhos e ouvidos coisas inadimissíveis numa escola. Acontece que eu gosto de lecionar, gosto de ver os adolescentes aprenderem, gosto de ver seus olhos brilhando por uma nova descoberta feita por eles mesmos, apesar do salário ridículo que recebo, apesar da burrocracia burocracia escolar e das exigências com que os professores são sobrecarregados.

A Vera Lúcia, minha ex-professora mas não minha ex-amiga, sempre me diz que os professores são babás elitizadas e nesse ponto tenho que concordar com ela. Os pais não se preocupam com seus filhos, apenas os depositam no mundo e a escola que se foda vire com a responsabilidade de educá-los. Mas o professor não fez um curso universitário para ser babá, mas para lecionar: filosofia, história, geografia, matemática, ciências, biologia, física, química, etc... Caso haja alguém cursando alguma licenciatura não se iluda pensando que vai lecionar sua disciplina tranquilamente, porque não vai! Falo isso de cátedra.

Uma professora colega minha de trabalho contou-me essa história:

"Uma professora no fim do ano letivo foi cobrada pela secretaria municipal da cidade na qual trabalhava por não ter cumprido com o plano de ensino, seus superiores lhe disseram que ela não fez nada.
- Como eu não fiz nada? Eu fiz muita coisa por meus alunos. Eu os ensinei a falar como gente civilizada, os ensinei a pedir licença ao entrar e ao sair da sala de aula. Eu os ensinei a mastigar de boca fechada, a fazer uma fila certa. Ensinei-os a não resolver seus problemas por meio da violência. Ensinei-os a falar direito e a escrever com letra legível. Eu não fiz meu dever de professora, é fato, fiz mais, assumi a responsabilidade que competia a seus pais. Pois não se pode ensiná-los se nem sequer trouxeram o mínimo de educação de casa para a escola. Por isso, eu não devia ser castigada, mas premiada por meus esforços homéricos".

Não sei se a história é verdadeira ou não, o que sei é que tem um fundo moral e retrata bem a realidade vivenciada pelos professores. Eu não sou um professor, sou uma babá elitizada! Chic né? Talvez para os prefeitos e governantes, para mim isso é trágico e uma falta de respeito com quem tem o dever de formar homens de verdade para o futuro. Com esse sistema de ensino só formamos marionetes. As vezes conseguimos salvar uma ou outra alma, mas não é graças ao governo que não nos apóia em nada, mas graças aos nossos esforços sobre-humanos!