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domingo, 18 de julho de 2021

O Karma ou a roda do Comunismo, de Marx e de Sorel...

Sabido é que mantenho franco diálogo com representantes de pensamento, isto a ponto de ter assistido, como convidado de honra e observador, a todo tipo de reuniões ideológicas. Tenho os ouvidos abertos a todos pois gosto de conhecer ou de aprender e não apenas por meio dos livros, embora eles também ajudem muito, especialmente quando vamos as fontes primárias ou aos autores e suas obras. Alias só não atendi aos convites dos maçons e não as reuniões a que fui convidado porque não me interesso pelo que seja oculto, mas apenas pelo que é público. 

Por isso quando mais moço fui as reuniões dos comunistas, os quais alegavam - Alguns quiçá sinceramente, e outros por bravata. - se terem conciliado com o pensamento democrático e superado o paradigma da Revolução violenta. Observei tudo muito atentamente e não tardei a perceber a terrível contradição existente entre o pensamento de Lênin e o pensamento de Marx e Sorel, mesmo quando Lênin tenha tomado seu éthos revolucionário a Marx e seu método a Sorel. Sucede no entanto que por questões de princípios e coerência lógica Marx e Sorel eram etapistas, julgando que a Revolução seria acionada pelo máximo desenvolvimento do modo capitalista de produção, assim na Inglaterra, na Alemanha ou nos EUA, jamais na Rússia, quase feudal e eminentemente agrária do Czar. 

Posto está que numa Rússia agrária e feudal Lênin não esperou pelo kairós assinalado por seu guru mas ousou agir sem esperar pelo momento histórico e cuidou poder fazer avançar o processo histórico, e agindo assim inverteu e subverteu o marxismo, enquanto esquema dado e modelo pronto, antepondo a Revolução ao desenvolvimento das forças de produção que deveriam aciona-la e transplantando o desenvolvimento das forças de produção capitalistas para depois da Revolução soviética. 

É portanto, perfeitamente natural e compreensível, que a decisão de Lênin e o sucesso da Revolução tenham planteado aos revolucionários bolcheviques toda uma série de problemas jamais imaginados por Marx, Engels ou Sorel, o quais haviam imaginado outro esquema ou outra realidade. Tais problemas a seu tempo receberam distintas respostas por parte dos pensadores comunistas russos, do que resultou a fragmentação, o sectarismo, o conflito e a confusão - Até Trotzky, Preobrajenski, Bukharin, etc ninguém sabia ao certo como lidar com aquela realidade a parte do esquema.

Basta dizer que parte dos Comunistas, e começaremos a crônica da loucura por aqui, eram favoráveis a promover o desenvolvimento das forças de produção nos termos capitalistas ou liberais, enquanto outros propunham a industrialização forçada do campo quase que nos mesmos termos, e por ai adiante.

Claro que outros tantos comunistas ficavam chocados diante de tais propostas e no entanto eram elas coerentes e partiam do etapismo marxista. 

Faço agora uma pausa e torno a minha experiência com os comunistas.

Vez por outra tive ocasião de em alguns autores apostólicos romanos - Quem sequer pertenciam a teologia da libertação, sendo quase todos anteriores ao Vaticano II - (Alguns padres inclusive.) que apesar de seus vícios e erros possuía o comunismo uma vantagem face ao liberalismo econômico ou o capitalismo, e era esta vantagem um sincero desejo de resgatar o homem da opressão (Um certo humanismo), certa compaixão pelos oprimidos e um sentido de justiça social... Após ter convivido com os comunistas de hoje e buscado conhece-los não mais posso corroborar esta premissa humanista... Após ter lido as "Reflexões sobre a violência" de Sorel devo confessar que ao menos parte dos comunistas não partilham de tais princípios. Marque isto leitor amigo!

Todavia antes de tornar ao marxismo para confrontar os marxistas fortes e coerentes, devo dizer duas palavrinhas sobre o anarquismo e declarar que sua condição é muito pior, posto que ao veneno materialista mecanicista juntam um psicologismo mais forte, um iconoclasmo mais amplo e certa doze de individualismo (O que faz dele uma ideologia muito mais virulenta.) O Comunista coerente, após percorrido o caminho, aspira derrubar o modelo econômico atual que ajudou a desenvolver-se, certo de que a estrutura cairá por si mesma. Enquanto o anarquista tudo aspira derrubar e destruir junto com o modelo econômico sem aguardar qualquer transformação orgânica. 

Quando passei a conviver com os comunistas - Como convivi com os fascistas, com os anarquistas e até (Pasme leitor!) com os protestantes (Pois meu irmão e eu fomos observadores num curso de Teologia protestante.) - algo chamou de imediato minha atenção, o famoso grupo do 'Quanto pior melhor', amiguinhos do DEM ou do antigo PFL e do PSDB, que pretendem assistir impassíveis ou melhor complacentemente a marcha do capitalismo e seu fortalecimento no Brasil. Parte dos quais não apenas nutrem um ódio feroz contra aqueles que por meio de reformas procuram atenuar ou conter o capitalismo como chegam a unir-se frequentemente com os janízaros do capital contra os socialistas parlamentares ou sociais democratas.

Na primeira reunião deles que assisti chamei um desses srs a parte e pus-me a solicitar suas razões, motivos, etc Ele no entanto não soube ou não quis responder-me. Posteriormente outro deles, este leitor compulsivo dos teóricos (O que não é comum entre eles!) polemizou com meu irmão alegando que os socialistas parlamentares, sociais democratas e reformistas eram os inimigos por excelência, traidores e apostatas por haverem abdicado do ideal revolucionário e dos meios porque seria ele atingido: O livre desenvolvimento do Capitalismo ou do modo de produção burguês, o qual de modo algum deveriam ser atalhado ou combatido, já porque continha em si mesmo os germes de sua destruição. 

Contendo ou suavizando o capitalismo por meio de reformas políticas inspiradas por uma Ética humanista o quanto fazíamos era conter o fluxo da História e postergar a Revolução. 

Lembrava-me disto e sabia o sentido mas não havia aquilatado a malignidade intrínseca. 

Até o dia em que lí, e a leitura é recente, as "Reflexões sobre a violência" de G Sorel, o qual, quanto a isto, é marxista ortodoxo e mais exaltado que os próprios comunistas.

Pois nada equivale a testemunhar um teórico do Escola referendando com suas palavras tudo quanto havíamos já havíamos intuído sem no entanto querer acreditar, por ser o que é... Mas é.

Também meu irmão, que chegou a ser anarquista ao modo de Tolstoi e Kropotkin, tendo por isso convivido com os 'ocidentais' de Bakhunin e com os libertários dos EUA (Aos quais jamais poupou severas críticas, até desvincular-se do anarquismo por causa deles.), tem se perguntado a cada dia, durante os últimos seis anos, por que os mesmos anarquistas que moveram guerra atroz a ex presidente Dilma toleraram de muito bom grado não apenas o ultra liberal canalha do Temer mas até mesmo o Bolsonaro, esse fantoche da teocracia e títere da bancada evanjéguica?

Pois é questão que se planteia e grave questão.

Por que raios os comunistas aderiram a aliança liberal contra esse mesmo Vargas que de bom ou mau grado reconheceu os direitos dos trabalhadores? Por que na Espanha foram contra Franco, em Portugal contra Salazar, na Argentina contra Peron e na França contra De Gaulle quando todos estes eram combatidos pelos liberais economicistas? Por amor ao política liberal ou as instituições democráticas? Pera lá - Não são os comunistas inimigos inconciliáveis da democracia burguesa e da política parlamentar, partidários da Ditadura do proletariado e do liberalismo moral ou pessoal? Então por que raios se uniram a oposição capitalista em todos esses países? Qual o segredo de tostines?

Sabido é que parte desses ditadores, tal e qual Hitler e Mussolini, foram alçados ao poder num cenário político formalmente democrático pelas massas lançadas numa situação de extrema penúria e angústia, pois haviam captado os anseios imediatos das massas e acenado com reformas destinadas a conter o espírito do capitalismo em ascensão. O que de modo algum havia ocorrido aos comunistas e anarquistas, os quais tentaram em vão conquistar os trabalhadores ( E de fato não pouparam e não poupam esforços para isso.) e mesmo camponeses com suas propostas abstratas e futurescas na direção de uma metafísica revolucionária, insistindo na preparação da Revolução futura. O bom povo no entanto, sejam funcionários públicos, camponeses ou mesmo a maior parte do que chamam de proletariado, jamais se interessou pela tal mudança cósmica futura. E mesmo na Rússia eles só conquistaram a adesão dos camponeses e obtiveram a vitória acenando com a Reforma Agrária.

Quanto aos países protestantes - Onde Marx e Sorel, péssimos conhecedores da cultura, imaginavam explodir a tal Revolução - um ideal funesto imposto pelos pastores tem resistido a todas as forças produtivas por mais de século e meio...

Os nossos no entanto, a suportar a indignidade imposta por um capitalismo plenamente consciente e imperioso, preferiram cair nas garras dos ditadores e demagogos que lhes acenavam com reformas.

Naturalmente que os janízaros do capital denunciaram-nos e combateram-nos desde o princípio, alegando motivações democráticas, quando as verdadeiras motivações eram econômicas: Manter a auto regulação ou as imunidades do capitalismo, e fugir as odiosas reformas. O quanto eles desejavam era manter o trabalhador como vil escravo e é de fato chocante que a proposta de uma emancipação sumária tenha partido de ditadores, porém tal se deu em todos os países citados. São fatos - Que fazer? Assim o é ou foi.

Agora por que raios os revolucionários comunistas fizeram pacto de aliança com os tais Capitalistas e burgueses se não comungavam do valor comum em torno da democracia formal? Alguém me pode dar uma resposta satisfatória? 

A partir de Sorel, interprete fiel do sr Marx posso da-la eu.

Justamente por que os tais ditadores odiosos eram tão reformistas quanto os socialistas parlamentares e a sra Dilma Roussef. E basta ser reformista ou pensar conter o capitalismo para exasperar todos os revolucionários sejam comunistas ou anarquistas. Pois foge a seu esquema etapista, segundo o qual cumpre ao capitalismo desenvolver ao máximo suas forças, aprofundar a luta ou conflito social, inspirar ódio mortal ao proletariado e acionar a desejada revolução, não havendo outra via de acesso, passagem ou caminho.

É o desenvolvimento modo de produção burguês que criará as condições para a Revolução comunista, é ele que nos conduzirá a ela, é ele que a deflagrará. 

Sociólogos humanitários, clérigos justicionistas, socialistas parlamentares, democratas reformistas, ditadores sagazes, sindicalistas imediatistas, etc são todos e efetivamente todos adversários da Revolução na medida em que tentam conter ou fazer recuar o poder do grande capital ou amenizar as mazelas produzidas por ele. Para que surja a revolução a tensão deve agravar-se e não diminuir. 

Perceba, para o comunista leal, para o marxista coerente e para o materialista compenetrado, tais grupos só podem ser vistos como perniciosos e odiosos em máximo grau, pois são os traidores que repudiam formalmente os ensinos de Marx e Engels e que fazem abortar o grande dia. O reacionário portanto, aquele que sonha com uma sociedade economicamente equilibrada ou com a extensão das classes médias, com a estabilidade e com a paz social, é o inimigo por excelência, o proscrito, o maldito.

Quem sabe por que os comunistas maravilhosos se opuseram a Vargas não tardará a intuir porque os anarquistas que combateram Dilma não se empenham em combater seus sucessores. Dilma era a inimiga, assim Lula, posto que uns e outros pretenderam conter a fúria capitalista ou liberal por meio de reformas, i é, porque eram reformistas. Dilma e Lula eram e são ameaças concretas ao destino da sociedade brasileira pelo simples fato de terem buscado a justiça social e aliviado a situação de milhões e milhões de criaturas humanas. No entanto se o preço pago pela promoção humana e pela justiça social é postergar a gloriosa ruptura chamada revolução é um preço demasiado caro - Ferre-se a justiça e vá as favas a promoção humana, pois o que importa é o 'ideal' ou projeto futuresco de Revolução.

É Sorel quem o diz e em alto e bom som: O Verdadeiro revolucionário seja comunista ou anarquista não cogita em Justiça, conceito subjetivo e embaralhado sem maior conteúdo ou valor (Aqui Litreé, Ayer e outros positivistas concordam.). Tampouco (Sendo ateísta.) considera ele algo a semelhança de uma lei natural ou em termos de essencialidade, o que serve unicamente aos poderosos (Aqui mostra ele imensa ignorância em termos de História já quanto o socratismo grego, já quanto o Cristianismo antigo.). Ademais o Revolucionário nada busca de imediato, nem mesmo aliviar os sofrimentos, dores, e angústia dos trabalhadores, mas apenas a Revolução futura, a qual absorve todos os seus cuidados...

Portanto o que dizem alguns Cristãos e padres sobre a busca dos comunistas pela justiça social e dos anarquistas quanto aliviar o sofrimento humano, pode até ser válido por parte de alguns deles - Mormente quanto aos que procedem do papismo, da ortodoxia, do espiritismo, do judaísmo ortodoxo, do budismo, etc e que mantém os valores recebidos ou a cultura (Mesmo caso dos ateus não marxistas ou anarquistas.) - mas não quanto a totalidade deles, especialmente quanto a parcela que nasceu e foi educada no sistema, estando familiarizada com os ensinamentos de Marx e chegado a introjeta-los. Caso sejam coerentes eles chegarão a doutrina do 'Quanto pior melhor'.

Posso pensar ou imaginar algo semelhante a tal padrão de pensamento, materialista, evolucionista, linear e mecanicista?

Sim posso e de fato existe um sistema religioso bastante parecido nos confins do Oriente.

Compreendo que parte do espiritismo kardecista tenha se esforçado, a luz do Evangelho a separar o veículo instrumental da reencarnação da doutrina metafísica do Karma. Por isso parte majoritária dos espíritas preconizam a prática fervorosa das boas obras. Ocorre-me no entanto, ao folhear certo livro doutrinário de origem espírita, em que o autor atribui esse zelo pelas 'imoderado' por boas obras a cultura 'católica' ou melhor apostólica romana, prevalecente no Brasil. Advertindo que a doutrina do Karma considera que é sempre melhor não beneficiar o outro, pois o benefício aparente equivale na verdade a um estorvo.

Advirto mais uma vez que a maior parte dos espíritas não compactuam com tal juízo extremado, buscando manter a doutrina da reencarnação, sem no entanto apresentar a doutrina do Karma como uma roda inexorável ou samsara. Por isso mesmo os espiritas que de algum modo referem ao Karma e buscam exercer a caridade são frequentemente apresentados como incoerentes não apenas pelos papistas e ortodoxos mas até mesmo pelos protestantes. Situação delicada.

Outro o caso do hinduísmo. O qual não se tendo deixado influenciar pelo Evangelho ou pelo Cristianismo, além de carregar o conceito de Karma ou samsara aduziu uma série de postulados éticos ou morais que consideraríamos aberrantes.

Se no marxismo temos uma metafísica materialista e determinista mecanicista no hinduísmo temos uma metafísica espiritualista ou espiritual igualmente determinista mecanicista, a qual face a dor e ao sofrimento leva as mesmas e exatas conclusões: A inação, a não interferência ou a omissão, enfim a uma insensibilidade monstruosa.

Não, não exageramos ao comparar a metafísica marxista com a metafísica hindu, posto que são ambas deterministas, mecanicistas e etapistas.

O princípio do Marxismo já expusemos tanto neste artigo como no anterior, sobre as correntes sociológicas. O princípio do hinduísmo ou da samsara fundamenta-se na crença de que todo e qualquer sofrimento porque passe o homem no curso desta vida é resultado de algum crime ou pecado cometido da vida precedente. Afinal reencarna o homem para fazer penitência ou pagar pelos pecados cometidos durante a existência anterior. Algo tipo a pena de Talião: Pé por pé, mão por mão, cabeça por cabeça. A conclusão é obvia: Cada sofrimento neste vida é uma oportunidade para pagar uma maldade cometida na outra e purificar-se. É o sofrimento físico o modo porque nos purificamos e nos aproximamos da perfeição. Daí a necessidade de aceitar resignadamente os sofrimentos... Tal no entanto não basta, pois na medida em que por compaixão interferimos no processo, com o objetivo de aliviar ou eliminar o sofrimento alheio estamos privando aquela pessoa de uma oportunidade para purificar-se. Portanto ao conceder-lhe um benefício imediato ou material estamos na verdade a prejudicando-a, tipo fazendo-lhe mau quanto ao plano mais elevado ou espiritual.

Por isso o hindu consciente e devoto tenderá ser indiferente aos sofrimentos humanos, já que sofrimento equivale a purificação.

A doutrina ou a teoria pode até ser bela, as consequências no entanto são monstruosas.

Perceberam como o Comunismo, sacrificando uma situação imediata, concreta ou atual de dor, tendo em vista o desenvolvimento desse sistema cruel chamado capitalismo e seu ideal metafísico e futuresco de revolução é análogo hinduísmo, posto que seu etapismo social corresponde a uma espécie de karma material ou materialista?

Os odiados e execrados reformistas ou socialistas parlamentares é que de fato se preocupam com o problema imediato, atual e concreto da injustiça social, da dominação, da exploração e do sofrimento humano. Eles é que se mostram sensíveis e comprometidos quanto a eliminar tais males agora, i é no momento presente, ao invés de recomendar aos sofredores que se conformem (Até que a Revolução estoure!) ou que tenham paciência; ou ainda que saiam lançando bombas em meio a população civil. 

Enquanto os revolucionários inumanos limitam-se a condenar qualquer tentativa no sentido de minorar as situações sociais de vulnerabilidade e angústia. 

A bem da verdade - E o leitor ficará com essa pérola ao termo deste artigo. - os meigos revolucionários (Ou Psicopatas) contam com tais situações de dor, angústia e sofrimento para exasperar ou enlouquecer (E o sofrimento de fato enlouquece.) o povo e lança-los nos braços da Revolução. Sabendo que parte das pessoas são amantes da paz ou acomodadas, por uma questão de cultura, contam esses ideólogos com o sofrimento para torna-las agressivas ou move-las a violência. É como os boiadeiros que para lançar um pobre boi num rio cheio de piranhas (O Araguaia) picam-no sem dó até que entre e seja devorado... Os anarquistas e comunistas encaram os trabalhadores como um boi de piranha, o qual deve ser picado pelo sistema capitalista até entrar no bojo da revolução...

E depois de tudo isso esses demagogos sem consciência ainda tem o desplante de virem a baila para censurar os trabalhadores e camponeses preocupados apenas com si mesmos i é com a condição dos trabalhos que realizam face a Lei ou que lutem por melhorias imediatas, ao invés de focarem na tal Revolução. 

Por isso nada é mais comum em suas reuniões e assembleias eles reclamarem que o povo ou mesmo o proletário é insensível a causa, de modo que as reuniões são formadas majoritariamente por intelectuais, professores e funcionários públicos... Quase todos oriundos das 'classes médias' que censuram e dizem odiar... - Não por proletários, pobres e muito menos camponeses. Diante disto eles se perguntam repetidamente: Por que? Por que? Que devemos fazer para atrair os trabalhadores, por quem lutamos. 

Minha Santa Simone Weill, essa boa gente jamais se colocou no lugar dum proletário ou trabalhou como um... Ideólogos lindinhos eles trabalharam quase sempre instalados em confortáveis poltronas, com ar condicionado, merenda, lanchinho, aguinha gelada (Oh odioso paraíso burguês!)... Assim o é. Agora que lhes tem a oferecer além de um roteiro metafísico cristalizado na palavra (Mágica) revolução? Nada, absolutamente nada. 

Negam que a alma sobreviva a morte do corpo ou que haja uma outra viva e ainda esperam que o trabalhador sofrido abdique do presente e viva em função do futuro.

Contam que os operários, camponeses e pobres sejam uns estúpidos ou idiotas, mas não são e a demonstração cabal é que essa mística materialista que assume a forma monstruosa de uma samsara não penetra eles. 


 

domingo, 1 de março de 2020

Nótulas sobre o pensamento contemporâneo

- Como já dissemos nem Descartes nem Spinoza foram iconoclastas no sentido de negar por completo o passado ou o pensamento antigo. Criaram algo novo, novos espaços e setores, os quais todavia conectaram aquele passado. Tampouco Hume ou mesmo La Mothe Vayer, assim Montaigne criaram algo que fosse radicalmente novo, remontando sempre aos céticos do passado ou a tradição agostiniana. Kant é quem criou algo de novo ou um novo sistema, merecendo ser classificado como Copérnico ou Lutero da Filosofia. Foi ele que, buscando elaborar uma solução de compromisso entre o ceticismo e o dogmatismo, produziu o idealismo transcendental ou crítico condenando o exercício da Metafísica ou melhor da Teodiceia e buscando justificar o conhecimento derivado do empirismo, do que resultou a ideologia positivista. Buscou assim Kant evadir-se ao materialismo, ao espiritualismo, ao teísmo e ao ateísmo, lançando as bases do agnosticismo.

No entanto este mesmo Kant, enquanto pensador do conhecimento ou gnoseológico, fugiu a simples empiria e praticou a especulação metafísica. Resulta disto que não repudiou a Metafísica como um todo, e que fez um recorte, focalizando sua crítica na Teodiceia i é em Deus e por ext na imortalidade da alma, com o objetivo de apresentar tais problemas como intangíveis ao intelecto e assim como insolúveis. Agora por que fez Kant este recorte, fixando arbitrariamente (Onde achou ou quis.) as "Colunas de Hércules" da reflexão? Para dar competente resposta a indagação acima devemos ter em mente que esse tão aclamado Kant era Luterano - Jamais rompeu formalmente com essa fé - e que Lutero, irracionalista e fideísta (Agostiniano), tinha Aristóteles, a Filosofia greco romana, o pensamento clássico, a Teodiceia naturalista e a própria razão em conta de seus principais inimigos (Mais do que o Papa romano). Lutero queria tudo atribuir a fé e Kant seguiu-o, atribuindo o tema de Deus a religião, a fé ou aos livros religiosos, e dando todos os antigos gregos por perfeitos estúpidos. Kant foi um imitador de Pirro no sentido de buscar justificar metafisicamente ou filosoficamente um preconceito de origem religiosa, no primeiro caso o Luteranismo e no segundo o Busdismo... a dinâmica é a mesma - A Epoché continua sendo budista (Assim a ataraxia) e o fideísmo gnoseológico continua sendo luterano, sem que haja verdadeiro conteúdo filosófico em tais afirmações. No primeiro caso temos apenas uma mutilação arbitrária e no segundo uma fuga face a reflexão filosófica. (cf Kant e a Teologia)

- Quanto a linguagem ou expressão, bastante complexa, com que nos deparamos na obra de Kant há muita crítica injusta e destemperada. Que hajam graves contradições - Apontadas com habilidade pelo Pe Thiago Sinibaldi - em seu pensamento é assente e demonstrável, que tenha cunhado expressões ocas nos parece exagerado e injusto. Kant visava dar golpe de misericórdia na escolástica (A qual recusava-se a estudar - O que nos parece bem pouco filosófico). Para tanto foi a suas fontes mais remotas i é a Aristóteles (Campeão da Teologia natural) cujo vocabulário técnico, bastante complexo, adota e assume. Kant não tem culpa de que os modernos ou pós modernistas ignorem supinamente o aparato conceitual aristotélico.

- Resta dizer que quem é por Kant, esta em conflito aberto com tudo quanto o antecede, assim com Parmenides, Anaxágoras, Sócrates, Platão, Aristóteles, Speusipos, Straton, Dikaiarkos, Xenócrates, Crantor, Zenon, Antioco, Cícero, Sêneca, Filiponos, Eurígena, Aquino, Scottus, Phleton, Ficcino, Pomponnazi, Telésio, Erasmo, Bacon, Descartes, Spinoza...

- Outro é o caso de Hegel, metafísico confesso, o qual prosseguiu decididamente na senda traçada por Leibnitz, construindo expressões ainda mais grotescas, pomposas e vazias (cf Schopenhauer)  Criou uma Filosofia de bolha de sabão ou bexiga, a custa de tais expressões sem sentido e disto resultou outro sistema bastante aclamado em torno do Estado, o qual a partir de um lento processo imanente identifica com o pensamento divino. Deste homem confuso e desorientado partiram todos os idealistas alemães como Fichte, Schelling e aqueles tão criticados por Marx na 'Ideologia alemã', cada qual apresentando uma versão própria da 'filosofia' e pagando tributo a um subjetivismo desbragado. A reação, como não poderia deixar de ser, foi a 'inversão' de Marx, i é, em termos já de materialismo/ateísmo ou de positivismo. Em certo sentido Hegel, pela via da compulsão, conduziu a metafísica alemã ao colapso e a morte, fortalecendo a posição dos kantianos e marxistas.

- Marx, não se satisfazendo com a metafísica materialista mecanicista dos iluministas franceses (Helvetius e De Holbach), adicionou alguns temperos hegelianos e a partir de uma análise histórico social, formulou sua doutrina do materialismo dialético. O preconceito materialista seja sob um ou outro rótulo, cegou-o e desviou-o para sempre de um são realismo. Ele jamais pode reconhecer, em pé de igualdade com as forças materialistas de produção, o potencial concreto das ideias fossem ou não religiosas. Concedemos que deparou com uma Sociedade materialista e economicista e com uma religiosidade - Representada pelo protestantismo - derrotada e servil... No entanto este encontro não justifica a generalização abstrata com que pretendeu, a partir desta realidade particular ou específica, explicar todo processo histórico, desde a História primitiva, incluindo a Antiguidade e a I Média. Fugiu aos limites do simples recorte e metafisicou.

A simples existência dos mártires Cristãos dos primeiros séculos ou da substituição do paganismo antigo pelo Cristianismo, a dinâmica do islamismo ou do Japão e China budistas e o significado do socratismo deveriam te-lo alertado a respeito de suas precipitações. Especialmente após Fustel de Coulanges - Antecipando Weber, Graves, Dawson, Butterfield e Voeglin - ter publicado sua monumental 'Cidade antiga'.

- Atenuando as críticas nem sempre justas e sensatas de Popper convém admitir que a obra de Marx possui dois aspectos: Um objetivo ou como dizem científico que é sua análise crítica do capitalismo mormente representada pelo Capital. Esta não apenas permanece válida como foi utilizada por J M Keynes. O outro aspecto parece fugir a sua orientação - Não a nossa! - materialista, pré positivista, anti metafísica, etc é seu apelo a uma normatividade ética ou ideal ou seu futurismo. Marx, ao contrário dos demais empiristas/materialistas ressente, ao fim de tudo, uma influência Socrático/Cristã. Pelo simples fato de não contentar-se com uma realidade dada (O que é) tida em conta de injusta, ousando crítica-la e substitui-la por uma outra ordem, a qual só pode ser derivada de princípios ou valores ideais. Disto resultou a Ideologia Comunista, a qual apesar de seus equívocos monstruosamente bizarros, foge ao conformismo anti ético e até cruel de seus críticos ateus, materialistas, positivistas e cientificistas. Ora os humanistas e Cristãos, mesmo discordando quanto aos métodos propostos por Marx e seus colaboradores, não podem acompanhar os ateus, materialistas, positivistas e cientificistas quanto a aceitação passiva de uma realidade ingrata ou injusta. E por isso, em que pesem os erros gravíssimos do comunismo, ousam declarar que a posição de parte de seus críticos é ainda pior e mais grave.

- Já aludimos diversas vezes ao erro de Freud. Como Marx ele fugiu aos limites do recorte e dando com uma realidade cultural ou particular, abstraiu do tempo do tempo e do espaço, elaborando uma metafísica pan sexualista posteriormente emendada ou reformada com base nas sensatas críticas elaboradas por seus ex discípulos. De modo que num determinado momento o próprio Freud - Sem jamais retratar-se formalmente - rompe com o paradigma sexualista e admite outros princípios de regulação. Sua abstração metafísica, como a de Marx, é grotesca. Não seu método ou o caráter relativo de suas constatações, menos ainda o resultado de sua crítica ao puritanismo/moralismo vigente. Claro que a partir de suas críticas parte da Sociedade passou ao extremo contrário, i é a um sexismo desbragado, com sérias consequências sociais, políticas e culturais. Em que pese este desvio continuamos buscando utopicamente por um padrão de equilíbrio em que a sexualidade humana seja aceita com naturalidade, mas, sem ser deificada ou exaltada acima de tudo.

- Darwin alias é anterior a Freud. Porém queríamos estabelecer uma conexão entre o erro de um e de outro. Darwin não pertence aos domínios da Filosofia ou do pensamento abstrato posto que pesquisador ou naturalista. Era ele um homem do empirismo. No entanto sua formulação teorética - já antecipada por Lamarck, St Hillaire e outros - não poderia deixar de incidir sobre todos os domínios do pensamento humano - Psicologia e teologia, passando pela economia e pela sociologia. Foi a partir dele que o naturalismo converteu-se num paradigma, mais do que a própria evolução. Assim ele coroa a obra de Copérnico, Agricola, Newton, Hutton e Buffon/Lamarck/St Hilaire, demonstrando que o corpo humano esta inserido na ordem natural e que também este homem vaidoso não passa de um animal, ainda que racional. Não é o centro do universo, tampouco o centro da terra e sequer o centro da vida. Destarte terá este homem de procurar sua particularidade gloriosa na capacidade perceptiva e racional para a reflexão e para a apreensão das verdades metafísicas. A Filosofia é que lhe trará o sentido especial que sempre buscou por caminhos errados. É este homem um dentre tantos animais, vagando sobre um grão de pó na periferia do espaço... E no entanto, como dizia Pascal nos 'Pensamentos', tem consciência de si ou pensa, enquanto que nem Júpiter, nem o Sol, nem Arcturo tem consciência de si ou capacidade para pensar. É um caniço, um verme, um grão de poeira ou uma átomo perdido na imensidão do universo, e ainda assim caniço, verme, poeira ou átomo pensante...

- Einstein, o qual jamais supos que sua teoria física da relatividade geral fosse gnoseologicamente relativa ou duvidosa, demoliu o mito do espaço absoluto. Tudo quando temos em nosso universo é uma relação entre corpos em movimento. Neste universo que se expande ou amplia tudo esta em movimento, pois o estado de repouso é relativo a certas situações vividas por nós humanos. Este computador bem pode estar em repouso com relação a mim... Move-se no entanto caso esteja eu num trem. Move-se com as placas tectônicas, com o planeta, com a galáxia, com o universo... Tudo é movimento. E o tempo uma propriedade deste universo em expansão. Por isso nosso referenciais de tempo são relativos a terra ou ao sol, não absolutos. Quiçá o aspecto mais interessante da teoria da relatividade geral não seja a teoria em si - Simples dedução com base nas experiências feitas por Morley em 1881 - mas sua expressão (Tomada a Descartes e Newton) em termos matemáticos cujo sentido e exatidão pouquíssimos intelectuais foram capazes de compreender.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Marx, Darwin e Freud, três intelectuais face ao Sagrado.


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Caso houvesse concurso de mentiras ou lorotas não sei quem ganharia. Se os neo ateus cientificistas ou seus desafetos fundamentalistas. Basta dizer que uns e outros amam classificar o grande Ch Darwin como ateu em suas publicações ineptas... E por ai vai - Os sectários fanáticos classificam como ateus e materialistas, irreligiosos, etc a tantos quantos repudiam seu deus retangular, a bíblia e os neo ateus, aplaudem e declaram: É exatamente assim, encampando um bom número de irreligiosos e agnósticos que jamais negaram a existência de um Supremo Ser ou de uma Consciência universal...

Fenômeno curioso este de dois grupos extremistas e fanáticos explorando os mesmos boatos, fábulas e mentiras. Sem pingo de dor na consciência... Uns quiçá por crerem que o rubro sangue do Nazareno tudo lave, e outros por repudiarem um padrão universal de bem ou virtude.

Por isso resolvi escrever algumas linhas sobre os grande ateus ou sobre os grandes ateus inventados. E começarei por Karl Marx. O qual era ateu de fato, mas de modo algum fanático como seus pretendidos seguidores ou sucessores, que parecem ter chegado a fobia...

Materialista convicto não podia Marx admitir a existência de um princípio espiritual ou imaterial paralelo, por inferência era ateu num sentido muito próximo do de Sartre: A existência dum tal Ser não lhe interessava, além de é claro parecer-lhe sem sentido. Alias, como um materialista poderia encontrar sentido numa entidade Imaterial e Invisível. No entanto Marx não perdia seu tempo precioso buscando convencer os religiosos e teístas ou visando converte-los ou salva-los. De fato ele não entrava em discussões metafísicas como o teófobo Seb. Faure... Não se empenhava em demonstrar ou provar, através de argumentos, a inexistência de Deus.

Mais ainda. O odiado Marx parece até ter tido respeito e sabido lidar muito bem com os sentimentos religiosos alheios, não lhe faltando até certa delicadeza. Ocorre-me ter lido, quando moço, trechos da correspondência que trocará com uma garota ou menina, na qual a mesma aludia ao costume de ir a Missa com a família todos os Domingos. Em certo momento Marx assim se expressa: 'Como de costume sei que iras a Missa...' e 'Porém depois que chegares da Missa...' sem revelar a jovem qualquer sentimento amargo ou negativo. Enquanto qualquer pentecostal fanático diria a queima roupa: A Missa é uma cerimônia demoníaca... em nome de seu belo deus e de seu teísmo azedo e supersticioso. O ateu e 'diabólico' Marx no entanto não procede assim. Parece até saber compreender, tolerar e colocar-se no lugar do outro... Parece que aprendeu muitas coisas boas com o capeta ou com o não deus...

Freud é outro departamento. Ao contrário de Marx e Sartre era ateu forte... tendo o costume de destilar seu ateísmo a todo instante. E juntamente com ele, por admirável força de coerência, toda sua falta de esperança. Um ateu não deveria abrigar o veneno metafísico da esperança em seu coração dizia ele. Evolucionismo, progressivismo e outros vestígios de misticismo Cristãos haviam sido lançados ao limbo por ele bem antes da crítica ácida de Grayling e outros. Para este grande representante do ateísmo, mais do que para o fanático Agostinho de Hipona, os bebês nada mais eram que malvados polimorfos e o homem algo semelhante a um verme ou parasita.

Apesar disto Freud, como todos os neo ateus sentia imenso mal estar em dialogar ou discutir sobre a teísmo natural dos antigos gregos. Em "O futuro de uma ilusão" não hesita sair pela tangente e declarar que esse Deus, o da metafisica racional, de Platão, de Aristóteles ou dos Filósofos, não o interessava. O deus que interessava a Freud, como a Dawkins e a tantos outros, era apenas o espantalho fetichista dos fanáticos religiosos e fundamentalistas i é à la Genesis... Assim, lançando-se contra esse espantalho, fica mesmo fácil...

Agora onde procurar as fontes do ateísmo freudiano? Há uns poucos anos lí uma análise psicanalítica segundo a qual Freud transplantou o ódio que sentia pelo pai e rival para Deus... Achei delicioso, no entanto minha opinião é bem outra. Quiçá a dor e a indignidade física tenham consolidado o grande psicólogo em sua posição. Afinal desde 1920 até a ocasião de sua morte passou ele por cerca de vinte intervenções cirúrgicas, devido a um câncer bucal extremamente invasivo. A cabo do processo esta terrível enfermidade lhe havia destruído a mandíbula e arrancado a lingua. As dores eram lancinantes e a morfina já não conseguia alivia-las... Por fim houve uma rejeição da prótese e necrose, o cheiro tornou-se tão repugnante que afugentou-lhe os queridos cães. Diante disto ele suplicou por uma dose maior de anestésicos e... Pense então numa pessoa que padece de dores atrozes e que por fim se vê apodrecer viva. Coloquem-se no lugar dela. Tentem identificar-se... Difícil estar no lugar de Freud sem pensar como ele ou até revoltar-se. Fácil falar sentado sobre as poltronas do sofá... Julgo melhor tentar compreender mais e julgar menos. Quero dizer apenas que Freud, a partir de sua experiência diária ou de sua vivência, não tinha lá motivos muito fortes para mudar de posição face ao problema de Deus.

Tanto pior se me disser que o deus 'sábio' serviu-se da moléstia que o consumia para castiga-lo. Ora todo castigo vindo de um Ser Bom, Generoso e Filantropo só pode ser a recuperação do homem e não para sua exasperação. No entanto supostas punições, dolorosas e desumanas como estas, só serviram mesmo para exasperar e produzir revolta nos corações dos mortais. Concluo que o deus dos fanáticos nada sabe sobre atrair e reconciliar os seres que criou. Sua pedagogia é um completo fracasso ou um reforço do ateísmo. Já a simples hipótese de estar ele exercendo vingança não passa de sadismo, i é o reforço do sacrilégio e da blasfêmia. Melhor aceitar o fato de que semelhantes desgraças são meros acidentes com que nos brinda a natureza ou a sorte, sem que a excelsa divindade tenha qualquer coisa a ver com elas...

Chegamos assim a Darwin. O qual jamais professou qualquer forma de ateísmo. Haja visto sua reflexão a respeito da sabedoria divina e do processo evolutivo em termos naturais contida na própria Origem das espécies. Religioso durante a primeira quadra da vida e destinado ao ministério eclesiástico confrontou-se aquela mente, antes de tudo, com a grosseria do Gênesis e da mitologia hebraica, porque se batem até hoje os fanáticos bíblicos, não com Deus.

Os advogados da mitologia no entanto, como Sedwigck, não pouparam esforços para fazerem-no avançar em sua posição. O que tal e qual no caso Freud foi reforçado pela própria vivência ou pela experiência pessoal. Pois Darwin teve de assistir a morte de dois de seus rebentos amados, o pequeno Charles, levado pela escarlatina e sua filha predileta e companheira Anne, após lenta agonia, aos dez anos de idade. Desde então parece ter perdido a fé e se tornado deísta. A partir daí podemos observar sucessivas crises existenciais oriundas duma existência tocada pelo sentido trágico da vida, por delicadeza, lirismo e recaídas religiosas... Foram sucessivas crises, idas e voltas, revisões, jamais privadas de uma grave consciência espiritual.

Sua trajetória no entanto, sequer parou por aqui, pois Darwin apenas encontrou escolhos metafísicos jamais vislumbrados antes e assim dignos de nota. Com efeito em suas ulteriores pesquisas pode observar o que compreendeu como um certo índice de malignidade presente na própria natureza ou no mundo natural. Observou o excesso de vida e a carência de alimentos, assim a fome. Observou em certos animais costumes bastante bizarros, que chegam a crueldade. Observou que ao menos em parte o processo evolutivo é estimulado pelo incomodo ou pela dor, enfim por situações de sofrimento, catástrofes, etc Passou então a ter dificuldades para relacionar tais fatos como conceito de um Deus bom e misericordioso... Tanto mais pesquisava e mais parecia divisar uma face maléfica na natureza, representada alias por sua seleção natural. Diante disto, nos últimos anos de vida, parece ter passado do deísmo ao agnosticismo e chegado a duvidar da existência de Deus, sem no entanto jamais obter qualquer certeza a respeito.

Em seus últimos dias Ch. Darwin a todos recebia em seu convívio fossem clérigos, religiosos ou teóricos ateístas... Com uns rezava, em companhia de Emma, com outros ouvia, não poucas vezes ferozes preleções contra a fé religiosa ou mesmo favoráveis ao ateísmo, sem todavia jamais endossa-las formalmente e até exigir certo decoro ou respeito. A atitude muito parecia-se com a de um agnóstico, ao qual fugiam todas as certezas e ambas as metafísicas: A teísta e a ateística... Darwin jamais declarou estar convencido sobre a inexistência de Deus ou tentou demonstra-lo. Tampouco desejava polemizar fosse com os ateus ou com os religiosos... Sua atitude sabe a neutralidade ou isenção, bem a gosto da divisa: Ignorabimus et ignorabimus. Tal parece ter sido seu ponto de vista definitivo, no momento em que abandonou esta existência, portanto apresenta-lo como ateu ou ateu forte sabe a mentira grossa e cabeluda.

Religiosos e ateus sejam antes de tudo honestos, evitando atribuir suas opiniões aos outros ou o que é ainda pior atribuir-lhes uma concepção que julgam ser indigna, porque em ambos os casos vocês, falseando a realidade histórica - Em nome de seus queridos sistemas! -  é que se tornam indignos.


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Os cavaleiros do apocalipse vs obscurantismo bíblico/protestante


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Já assinalamos que quase um século antes de ter sido, o heliocentrismo, condenado pelo papa romano, fora condenado, na pessoa de Copérnico, pelo pai e criador do protestantismo... Significativo que a Igreja Romana não tenha sido fundada pelo tal papa mas que o movimento protestante seja obra desse Lutero obscurantista.

Ora este Copérnico, juntamente com Darwin e Freud foi um dos responsáveis, aliás o primeiro, a atingir a megalomania humana no coração. Afinal o diácono polonês deslocou o pobre homem do centro para a extrema periferia do universo. Assim como Darwin lançou dos céus na terra ou no mundo animal a que pertencia por definição, inda que apresentado como rei... Ora ser racional não é ser rei e tampouco a racionalidade elimina a animalidade... Freud - Cujas teses meio metafísicas são bem mais duvidosas e questionáveis - por fim demonstrou que não é este homem uma unidade estável mas uma fragmentação dinâmica.

Agora se Copérnico ou heliocentrismo, cujo anátema foi levantado pela igreja luterana com vinte anos de atraso face ao papismo (Encarado por muitos como a quintessência da obscuridade), foi assim tratado pelas 'bens bíblica, imagine o amigo leitor o que estava reservado aos continuadores de Copérnico inseridos nessa cultura protestante que muitos julgam tão progressista.

O próprio Servet, mandado queimar a lenha verde pelo reformador Calvino na praça Champel sob a acusação de arianismo ou anti trinitarismo, aliás mero fruto ou resultado de seu livre exame não tão livre, não deixou de ser ridicularizado pelos fanáticos por ter defendido a circulação do sangue movido pelo coração, o que efetivamente foi demonstrado por Acquapendente e Harvey meio século depois.

Também Melanchton, ao ser confrontado por Clavius e Maestlin sobre as manchas solares, preferiu fechar obstinadamente os olhos, o que repercutiu no luteranismo, fazendo com que Ihonnes Kepler, como seu mestre Tycho Brahe seguissem em demanda da Áustria, centro do império Habsburgo, papistas. Ali foi que, sob os auspícios de uma monarquia 'católica' desenvolveram seus roteiros de pesquisa e fizeram suas descobertas, alheios à cultura protestante ou bíblica, a qual por fim abjuraram, o segundo positivamente, o primeiro presumivelmente.

Em meados do século seguinte foia vez do luterano dinamarquês Niklaus Stenius ser confrontado pelos pastores luteranos já por ter sido um dos primeiros homens modernos a estudar os fósseis - Sendo apontado por muitos como o pai da Paleontologia - já por suspeitar apenas quanto a validade da cronologia curta ou massoretica. Foi o quanto bastou para atrair o furor dos bibliolatras... Diante disto concluiu ele que a igreja papa era mais flexível e aderiu a ela, chegando a tornar-se prelado.

A seguinte vítima da intolerância científica protestante foi o astrônomo sueco Nils Celsius, cujo caso, bem mais grave do que o de Galileu, posto que ocorrido em 1679, é muito pouco conhecido e divulgado entre a gente 'culta'. Pois nesse infausto ano foi o dito cientista condenar o pela Universidade de Upsala, em nome da bíblia, já por ensinar o odiado heliocentrismo de Copérnico, já por questionar a doutrina da inspiração plenária. Disputas e edições foram proibidos e ainda em 1691, nove anos após Sir Isaac Newton ter divulgado a lei da gravitação universal, Spole e outros acadêmicos suecos, que há muito ensinavam Copérnico, tiveram de ajudar e tornar ao modelo egocêntrico, tão caro ao sectarismo bíblico...

Segue -se o caso Rousseau. Cuja primeira edição do Emilio foi publicamente queimada em Genebra e o autor condenado, isto em pleno século das Luzes i é o décimo oitavo. Pouco faltou para Rousseau não se converter num novo Servet, com dois séculos de atraso. Diante disto transferiu se o ilustre genebrino para Neuchatel, onde apesar da proteção com que contava da parte dos homens mais ilustres e influentes da Europa foi ameaçado e perturbado pelos pastores locais, os quais queriam po-lo a ferros. Ora isto não foi obra da Igreja velha ou do papa, mas do protestantismo 'progressista' e levada a cabo no seu centro ou coração.

É verdade que a mesma obra fora condenada e queimada pouco tempo antes por ordem do Parlamento de Paris, em tese formado por bons católicos. Bravata, pois a este tempo ainda era o Parlamento de Paris, dominado, senão pelos jansenista - agostinianos fiéis e excomungados - ao menos por seu espírito, essencialmente oposto aquele que se reflete no Emílio, o qual de imediato atraiu o odio, não dos papistas - Exceto se minoria liderada pelo cardeal Morris- mas dos rebeldes filo jansenistas. Ora o que os cripto jansenistas fizeram os calvinistas suíços souberam fazer bem melhor. O primeiro campo de concentração da humanidade - segundo o insuspeito Van Paasen - (Genebra) ainda não havia abandonado suas tradições. Afinal  a pouco menos de dois séculos, o principal ícone intelectual da Europa, Erasmo (Vida Zweig ou R Bainton) havia sido igualmente ameaçado e expulso de Bale, pelos mesmos calvinistas...

Ocioso creio eu mencionar o químico inglês Joseph Prestley cujo laboratório valioso fora invadiďo e depredado por uma massa de fanáticos  (Como sempre instigada pelos pastores em nome da bíblia) protestantes as vésperas do século XIX. Ele concluiu como Celsius, que apesar das aparências, a cultura papistas era mais tolerante. Cerca dos anos 20/30 foi a vez do velho Moleschott, abandonar a querida Holanda protestante e instalar se a metros do Vaticano i é em Roma, onde pode confortavelmente professar e divulgar seu materialismo.

Quanto a Darwin, passados século e meio, o terrorismo protestante ou criacionista está longe de cessar. Nem se trata aqui de introduzir Deus como motor ou dirigente do processo evolutivo, como alegam os ateus e materialistas por ingenuidade ou má fé, mas de afirmar e impor, como dogmática e indiscutível a letra do Genesis e isto mais de quinze séculos após Agostinho de Hipona ter composto o clássico Genesis ad Literam... Do que resultou, nos anos vinte do passado séculos o infame 'Processo do macaco' contra o professor Scopps, em pleno Estados Unidos!!! Quanto aos que enchem a boca pata falar sobre o index papal temos de dizer que em pleno ano de 1860 foi vedada a entrada da 'Origem das espécies' no Trinity College... Isto sem contar o fiasco de Wilbeforce. Imaginem só o estado de tensão que desabou sobre aquela Cristã sincera chamada Emma, sem que Jesus ou o Evangelho o sugerissem i é  apenas devido a caturrice dos pastores judaizantes e a sua teologia ultrapassada da inspiração plenária ou do Corão Cristão, que ainda hoje teimam opor não apenas a Darwin mas a ciências contemporânea como um todo e isto a ponto de se terem precipitado no terraplanismo e no geo centrismo, pois querem tudo retroceder não a fase anterior a Copérnico mas ao Israel do século VII a C, a plena barbárie anti científica após todo caminho percorrido pela ciência desde Tales ou ao menos destes cinco últimos séculos. O protestantismo desconsidera tudo isto, e nem a embriologia, nem a cladística, nem o estudo comparado dos fósseis abala seus aderente.

Nos catolicismos Ortodoxo, romano ou anglicano temos - Triste é admiti-lo - criacionistas, e contumazes. Tais comunhões todavia não se apresentam como criacionistas. No protestantismo ativo de nossos dias temos a Torre de vigia e o adventismo com suas organizações e edições falaciosas, além de imenso número de divulgadores. Imagine agora a situação do pentecostalismo, cujos membros de modo geral nada sabem ou podem saber sobre ciência ou evolucionismo, por serem tais elaborações sacrílegas ou blasfemas e ponto, porque esta na bíblia ou o pastor falou, e não se questiona ou argumenta por se pecado, punido com castigos eternos. A que estão destinados todos os evolucionistas, marxistas e freudianos, a maior e melhor parte.

Que dizer agora a respeito de K Marx, homem honestamente equivocado quanto a seus pressupostos, método, reduções e propostas futurísticas ou normativas (Como o Comunismo)? Basta dizer que nos EUA é o prato principal dos pastores fabricantes de fabulas em conflito com a Lei divina. Afinal, por mais que discordamos de sua proposta - O comunismo (Não de sua análise das estruturas capitalistas ou de sua posição crítica) isto não nos autoriza a julgar sua pessoa e menos ainda a calunia-lo da forma mais vulgar, grosseria que foge não apenas ao Evangelho mas a qualquer Ética naturalista que se preze. SEGUEM no entanto os pastores que vivem de dízimo ou rápida, denunciando o trabalho intelectual desse autor ( A que chamam vagabundo diante do espelho!) ou simplesmente declarando que era um satanista ou adorador de Belzebu!!! O que só vem a relevar a natureza do sectarismo protestante...

Basta dizer que os protestantes de modo geral são ferozmente anti evolucionistas ( É não apenas anti darwinistas, nem Lamarck ou St Hilaire servem para eles), anti marxistas e anti freudianos, levando sua cruzada fundamentalista até a raiz das árvores i é até Copérnico... Equivalente disto temos somente no islamismo sunita mais virulento, de Hambal, Wahaab, etc Os nossos protestantes todavia não se acham na periferia da Civilização mas em seu bojo.

Meu objetivo aqui não foi nem é ocultar as limitações, vícios e mazelas da organização que assassinou Giordano Bruno, mas demonstrar que a consciência dos Católicos de modo geral, sempre foi mais aberta e flexível do que a mentalidade do protestante ortodoxo ou sectário de matriz calvinista ou pentecostal com seu paradigma da bibliolatria. A bem da verdade a própria cúpula da ICAR parece ter sido bem mais tolerante do que a multidão de seitas protestantes onde tiveram estas acesso ao poder político. ESTAS sempre se mostraram impermeáveis ou inacessíveis as formas mais desenvolvidas do conhecimento científico, pelo simples fato de sua religião, a bíblia, ser criticada ou sofrer restrições. ESSENCIALMENTE. Fetichista e mágico como o antigo testamento que Ad Literam idólatra e prisioneiro dessa caixa, não pode nosso sectário compreender ou aceitar o mundo natural seja nos termos de um Copérnico, de um Agrícola, de um Stenius, de um Rousseau, de um Darwin, de um Marx, de um Weber ou de um Freud... ou conceder mínimo espaço ao naturalismo, pois está fora de seus padrões mentais e exaspera-o, suscitando um furor destrutivo ou iconoclastico.

As massas que ora fabricamos não conseguem ultrapassar o padrão baixo e fetichista das partes menos nobres do Antigo Testamento. O que até mesmo os judeus modernos lograram fazer. Eles não conseguem superar os moldes ou limites da Tanak e muito se assemelham aos criticos de Anaxágoras ou Sócrates como Diopeites e Licon, homens culturalmente superados na Grécia do século V a C.

A consequência prática se tudo isto é que nossos liberais, cientificistas, comunistas, anarquistas, etc perderam o trem da História por não terem sabido aquilatar o significado e os riscos do protestantismo enquanto biblismo ou doutrina de inspiração plenária que autoriza um livro a julgar todas as coisas ou conhecimentos inapelavelmente. Até hoje desconsideram o aspecto virulento dessa fé e por isso estrategicamente tem mirado no alvo errado ou chutado cachorro morto. Comportando-se como aliados ingênuos do protestantismo teem dado sucessivos tiros nos próprios pés ou cometido suicídio.

Já está mais do que na hora de rever essa postura incoerente, não no sentido de blindar o papismo ou qualquer setor dos Catolicismos, mas, de trazer a luz as obras do protestantismo ao invés de ignora-las ou de oculta-las. Como ex protestante e pesquisador garanto que são mais amplas e graves. Vamos testar???

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Os cavaleiros do apocalipse ou a intelectualidade vs obscurantismo bíblico/protestante

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Como ex protestante ousarei declarar que a humanidade tem pegado pesado com o papismo ou com os catolicismos de modo geral, e pegado demasiadamente pesado com o protestantismo e o princípio estreito do biblismo, abismo que se abre aos pés de nossa civilização, ora arrancada de seus fundamentos.

Observe o leitor que a bíblia - mesmo o Evangelho, cujo tema é a transcendência e não a verdade imanente ou científica - ou o antigo testamento, que é um livro ou registro escrito, jamais poderá pronunciar -se objetivamente no sentido de reconhecer a Evolução biológica dos seres vivos. Outro o caso do papismo, o qual na pessoa de seu chefe ou líder, Pio XII, na Encíclica "Humani generis", pode posicionar -se claramente no sentido de permitir que suas ovelhas assumissem como empiricamente veraz a Evolução do corpo. Tal pode parecer muito pouco aos olhos de alguns, porém, em comparação com o descontrole protestante assume contornos bastante significativos.

PERMITIU o livre exame, superficial e imvecilmente exercido pelas massas, que elas firmassem e afirmassem uma cultura fetichista/criacionista tomada a letra do Genesis e mantendo a letra do Genesis ao invés de dar passagem a uma solução crítica e libertadora. O que daqui resultou não foi nada libertador mas servil no mais alto grau posto que, o protestantismo ortodoxo e sectário, que vomitou injúrias sobre a Igreja antiga e a Tradição Cristã jamais pretendeu ou ousou criticar a bíblia, quero dizer os escritos judaicas e isto pelo simples fato de, com Calvino, ter canonizado a tese de um Corão cristão, infalível de capa a capa sob todos os aspectos. Tal a doutrina da inspiração linear ou plenária, a quintessência do obscurantismo protestante.

A parte disto parte do catolicismo antigo foi, por tradição, aberto a especulação racional ou ao padrão de pensamento grego, daí o surgimento da Teologia sistemática com Clemente e Orígenes, em Alexandria, a sombra da grande Biblioteca e enfim da corrente escolástica, da qual resultou, mesmo a partir de uma postura crítica ou hostil, o ressurgimento da Filosofia enquanto atividade autônomo. Nem Erasmo, nem Bacon, nem Descartes, nem Montaigne foram queimados ou excomungados pela igreja antiga. Mesmo Pomponazzi e Telesio puderam construir seus ousados sistemas na terra dos papás romanos e tal deve ser considerado.

O protestantismo, sendo ferozmente racionalista com Lutero e estreitamente bíblico com Calvino, tendia a ser mais negativo, como tende até hoje. Por isso pricipia ele, na pessoa do próprio fundador Lutero - Tido por muitos em conta de progressista - condenando Copérnico e o heliocentrismo, por ext., nos termos mais severos e categóricos, setenta anos antes do Vaticano. Totalmente injusto e absurdo fazer clamor em torno da condenação de Galilei pelo papa e passar em branco a condenação destemperada de Copérnico - aliás diácono da Igreja Romana! - pelo pai do protestantismo.

Talvez por isso cientistas como Agrícola terem repudiado tacitamente a nova fé, cujo real conteúdo aquilatatam. Mesmo um pensador ousado como Erasmo acabou por fim voltando se contra ela. Tampouco fora endossada pelo condenado Galileu, o qual, num de seus livros, põem abertamente em cheque a crença supersticiosa na inspiração plenária, explicitando que a ciência não é objeto ou parte da Revelação divina.

Logrou o protestantismo posterior ludibriar a platéia pelo simples fato de se ter cindido em múltiplas seitas, e de, no contesto europeu, seus ramos históricos, terem adotado - ao menos em parte - uma crítica naturalista que reverteu contra a bíblia e produziu uma religiosidade não apenas liberal mas incrédula.

Confiados na fragmentação do protestantismo em múltiplas seitas e na aparição de um grupo liberal, - De que faziam parte materialistas e ateus inclusive - os pensadores e cientistas incrédulos, em sua maior parte, jamais se deram ao trabalho de combate-lo, quando não o encararam, ingenuamente, como um aliado.
O papismo ou os catolicismos, em sua unidade credal e extensão pareciam bem mais ameaçadoras.

Foi uma análise precipitada e equivocada, posto que as aparências enganam. O protestantismo sobretudo, por atribuir a gente semi analfabeta um método monacal e acima de suas forças, tinha mesmo de fomentar um sectarismo de massas e assim um ethos fundamentalista calçado numa visão unitária (Por isso cooranica do Lívŕo) e numa visão superficial. Nem a visão de mundo estreita e não científica que possuíam exigia mais deles.

Tenho declarado, em minhas polêmicas com os defensores do livre exame bíblico, que tal exame até pode encaminhar a fé Ortodoxa é Católica, que é o conteúdo da verdade revelada ou ao menos a algum sentido histórico do Cristianismo, na periferia da objetividade ou da tradição. Para tanto porém jamais poderia ser livre quanto a forma, mas estrito, metódico, erudito, técnico e cientifico. Claro que estamos falando de um método restrito e elitista, exportado dos mosteiros cristãos. O qual dependia de toda uma estrutura educativa difusa, ainda hoje inexistente, quanto mais aquela época. Não era e não é algo para ser posto no acesso da gente simples, analfabeta ou sumariamente letrada.

O erro cabal dos protestantes foi querer estender este método ao povo. Um método ainda hoje reservado a teólogos ou a estudiosos consagrados ao estudo dos Evangelhos. O exame dos Evangelhos em sua dimensão literária (Deus originais são gregos como a República e a Memorabilia) assim cultural, histórica, geográfica... é coisa de médico ou jurista. Imaginem só os leigos e semi letrados praticando direito ou medicina??? Foi exatamente o que o protestantismo fez no âmbito da religião ou das Escrituras promovendo uma versão superficial, subjetiva e distorcida quase sempre judaizante e anti Cristã, mas também anti científica e irracionalista, pelo simples fato de estar calcada nos antigos mitos do antigo testamento, cujas raízes sumerianas tocam aos albores da História.

Eis porque este livre exame voluntarista e irresponsável, estimulado pela reforma nascente, tinha de resultar por fim num robustecer da consciência mitológica e numa postura a princípio irracionalista e enfim anti científica.

Em tempos de racionalismo e empirismo ou de controle mecânico por parte da Igreja antiga, nada disto assustava. Muito pelo contrário mais temiam os cientificistas dos catolicismos, devido a coerência interna que tais sistemas apresentavam e a couraça escolástica, buscando não poucas vezes enfraquece-los com o auxílio dessas seitas bíblicas, aliás bem mais próximas do modelo norte americanista ou capitalista que acalentavam. Aliás as seitas ainda servem  este propósito cultural inserido na imanência...

Todavia em tempos de pós modernismo, - Quando pensadores é filósofos da ciência tornam a Hume e Kant, arrematado contra a experiência e o raciocínio, e arvorado as bandeiras do ceticismo e do relativismo, (Aliás semeados pela prática do livre exame protestante.) - inverteu-se a situação em benefício do irracionalismo, do emocionalismo, do voluntarismo, do moralismo e das citadas seitas, que mais e mais vão abrindo espaço e adquirindo poder.

Há no entanto algo ainda mais obscuro. A falharem miseravelmente quanto a sua ideologia por falta de um aparelho educativo que produzisse qualidade, os próprios reformadores canonizaram a degeneração na medida em que canonizaram o fetichismo e anteciparam a manobra pentecostal. Na medida em que preconizavam a iluminação ou inspiração individual, ensinando irresponsavelmente que as massas receberiam a instrução bíblica diretamente do espírito santo, sem a necessidade do estudo, santificaram a ignorância e conferiram-lhe uma chancela social. Hoje entre as massas livre examinadoras ser igorante ou sumariamente letrado equivale a virtude... Como levar consciência científica a este nicho?

Para ser povo livre é necessário mais que letramento formal ou elementar. É necessária uma educação de qualidade, que traga consciência. É consciencia ou sentido que qualifica um povo diz com razão Freire. Massas não podem ser livres e se a Igreja velha, por não ter educado com suficiência e dado sentido mais amplo, falhou e produziu ou manteve massas, ao menos ajudou o antigo regime elitista a controla-las. Da mesma forma o partido Comunista, quando falhou igualmente em produzir consciência. FOI O SECTARISMO PROTESTANTE, ESPECIALMENTE PENTECOSTAL, que viabilizou está horrenda rebelião de massas iconoclasticas mais do que o Comunismo ou o Anarquismo, a partir desta democracia formal que inconsequentemente admite o voto do analfabeto ou do analfabeto funcional. O clamor dessas massas é triplo - Aspiram pelo fim das liberdades e direitos fundamentais, o aniquilamento da ciência ou de uma visão mais naturalista do mundo e enfim o controle do poder - Moralismo puritano, fetichismo e teocracia são as três parcas para nós e palavras de ordem ou programas para eles.

É necessário revelar ainda o quanto estes sectários perversos, não menos do que a intifada cultural do islã tem se beneficiado dos erros táticos cometidos ainda a pouco e obstinadamente repetidos já pelos neo darwinistas ateus, cientificistas, positivistas, etc Já pelos comunistas e anarquistas ou até mesmo por espíritas e esotéricos mas avisados cujas críticas igualam todas as formas religiosas ou priorizam a velha e combalida igreja romana, em parte degenerada aliás pela influência protestante fundamentalista. É como chutar cão morto, enquanto o cão vivo se multiplica. Hoje porém é bem mais fácil cooptar um romano ou Católico medianamente instruido do que um crente raiz conformado com a própria ignorância. O protestantismo no entanto tem tirado largo proveito disto, no sentido de apresentar se as massas incultas como inocente e puro, como anjo de luz e mesmo amigo do progresso...

DAI  a necessidade extrema de expor seu caráter essencialmente obscurantista anti libertário, anti científico e anti policratico. Por isso nada melhor do que registrar tudo quanto ou ao menos parte do que os principais homens de ciência e pensamento, como Rousseau, Prestley, Darwin, Marx ou Freud tiveram de sofrer por parte das massas fanáticas, dos pastores e desta cultura bíblica anti humanista (Dale Nogare). EIS UMA HISTÓRIA OU CRÔNICA A SER ESCRITA E DIVULGADA NUM PAIS CADA VEZ MAIS SECTÁRIO E AZEDO!!!

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Freixo, Lula... Bolsonaro, Edir, Malafaia - Rolando de abismo em abismo...

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Errar uma vez é cometer simples erro, porém errar repetidamente, diz o adágio, é burrice e rematada burrice.

E se na vida corrente ou comum a burrice produz sérios danos, quanto mais na vida política ou no gerenciamento do Bem Comum. Afinal é a política arte ou ciência de bem gerir o Bem comum, assegurando a todos os cidadãos máxima qualidade de vida. Tal a importância da política...

E por ser assim tão importante deveria ela estar a salvo das eventuais idiotices cometidas pelos mortais.

Isto do ponto de vista da idealidade.

Pois do ponto vista da realidade é o que não se dá. Temos uma política, ou pior, temos diversas políticas burras, independentemente da orientação ideológica.

Caso pudesse condensar meu pensamento em poucas palavras diria que eles não leram, que jamais leram Délcio Monteiro de Lima - Os demônios descem do Norte - e menos ainda Max Weber. E que se leram Marx e Engels, aos quais teem por gurus, nada compreenderam. Daí cometerem sucessivamente os mesmos erros. E comprometerem a Civilização.

Curiosamente cometem o mesmo erro na Europa, alias na França, onde a esquerda imbecil tem, tradicionalmente, defendido os interesses dos muçulmanos, em que pesem seus ideias assumidamente teocráticos e liberticidas.

Aqui e lá a esquerda desorientada busca apoiar-se na 'Cana quebrada' do fundamentalismo, aqui do bíblico, pentecostal ou protestante; importado dos EUA (A fé essencialmente burguesa descrita por F. Engels, a qual segundo o imortal Weber, seria responsável pela afirmação do modelo capitalista.) e do outro lado do Atlântico, do fundamentalismo sunita, hambalita, wahabita, salafita... com o eterno ideal da sharia e seu padrão cultural árabe. Cana quebrada que poderá furar-lhe as mãos, aqui ou lá... Aqui e lá...

Da curiosidade passamos ao enigma ao constatar que há quase meio milênio um autor francês: Guillaume Postel - Em obra que lamentavelmente passou em 'branca nuvem'- ja assinalava as semelhanças existentes entre o islamismo e o protestantismo nascente.

Tanto pior aqui nos rincões do Brasil. Onde a intelectualidade marxista sequer lê Marx e Engels. Que dizer então de Max Weber ou dos clássicos franceses???

Veja que estava folheando ainda ontem uma parlenga do Roger Garaudy - Pensador romano que após ter abraçado o marxismo Ortodoxo ou Comunismo acabou por aderir ao islã! - publicada em francês pelos idos de 1942 - "Comunismo e moral." (Em espanhol "Comunismo, moral y cultura"). Uma filípica dirigida aos críticos romanos ('Católicos') do materialismo, na qual Garaudy principia apresentando Descartes (Antonio Damásio teria um infarte ao ler isso...) como 'materialista' e Spinoza como ateu (Exatamente como os padres babões que estava criticando), e por ai seguem as monstruosidades ideativas... Concebidas pelo tal marxista, para quem os opositores 'católicos' do Comunismo ou de Stalin seriam todos Hitlerianos ou nazistas, mesmo quando assumidamente democratas. Em seguida, o destacado comuna falseia a noção da liberdade, asseverando que ela só é possível no âmbito coletivo e assim estatólatra, deixando bem claro que nada sabe a respeito daquela liberdade pessoal que delineia os atos morais, como qualquer nazista ou fascista totalitário.

Acho natural que certa parcela de comunistas identifique-se - por patético que possa parecer - com os muçulmanos ou com os calvinistas, i é, com os sectários religiosos que se opõem a noção de liberdade pessoal, esboçando algum tipo de determinismo religioso, em termos de destino ou predestinação. Tornamos a G. Postel e sua análise genial... Mesmo em 'terra brasilis' há tipos assim e eu já tive a oportunidade de dialogar com um Calvinista Ortodoxo que é, igualmente, formador comunista e, marcadamente, adversário da doutrina do livre arbítrio ou da liberdade pessoal.

Naturalmente que nem todos os comunistas tem consciência de tais 'afinidades eletivas', passando muito a largo delas. Tanto pior em nossa 'província'... Que dizer então de Freixo ou Lula... Os quais sequer são comunistas, sem que por isto sejam sociais democráticas ou pertencentes a qualquer escola socialista. Nem Lula é socialista nem Bolsonaro é fascista - Afinal este jamais leu uma página de B. Musolini como aquele jamais leu vírgula de Jaurés, Herr, Blum, etc Bolsonaro pratica autoritarismo militarista associado minimalismo, algo bem norte americano... Lula, durante muito tempo praticou um socialismo bem sucedido. No entanto mesmo seus críticos petistas e socialistas assumem que ele falhou em não produzir uma consciência socialista, que service de suporte a si e a seus sucessores. Lula nem poderia, alheio ao culturalismo, trabalhar a teoria da cultura ou formar uma consciência socialista e por isso mesmo seu projeto reverteu. Pois ele formou apenas consumidores, engrossando as fileiras de uma classe média alienada.

Votei nele por duas vezes e com mais razão em Dilma, teria votado nele uma terceira vez, como tive de votar - a contragosto - em Hadad, mas, tal e qual um grande amigo meu, pelo mesmo motivo, não votarei nele, Lula, pela quarta vez. Como não teria votado em Freixo.

Temo que pessoas como Lula ou Freixo se tenham apegado ao poder e adotado o lema do fim que tudo justifica. Salvo lhes mova apenas a ignorância crassa, o que, no caso deles ambos, não é menos grave.

Tanto Freixo quanto Lula conhecem por experiência que é a nociva bancada evangélica e quais são seus propósitos, em termos de teocracia ou de privilégios. Mesmo assim Lula optou ou optara por conceder-lhe mais poder e visibilidade, inclusive nomeando o atual prefeito do Rio M. Crivella, ministro de Estado. Sucedeu-se exatamente o que havíamos dito e previsto; obtendo ainda mais poder e força na gestão de Dilma nenhuma plataforma tornou-se mais hostil ao programa levemente socialista desta senhora do que a dita plataforma ou bancada evangélica, cujo líder, o pastor pilantra Ed. Cunha deu início ao golpe que acabou por derruba-la e por impor ao povo brasileiro, mais uma vez, um ideário liberal economicista. O que quero destacar é justamente o papel dos fanáticos religiosos, dos bíblicos e fundamentalistas neste processo que acabou por comprometer a ordem democrática e a institucionalidade, travando inclusive a reforma política...

Em todo este processo que sabotou o futuro de nossa sociedade estavam ativamente inseridos os políticos protestantes ou bíblicos. O que não foi novidade para mim, ex protestante que sou.

Em seguida trataram de instrumentalizar os neo católicos' (romanistas) ingênuos e em parte já protestantizados e de apoiar a candidatura do norte americanizante Bolsonaro, recorrendo para tanto, ao fabulário com que os pastores sempre atacaram ou satanizaram não apenas o Comunismo mas qualquer forma de socialismo existente (inclusive o Cristão). Marx foi apresentado como o anti Cristão, Engels como a Besta, Lula como possesso e os socialismos todos como a pura e simples apostasia. O liberalismo econômico como sempre foi canonizado e apresentado divino a partir da dita bíblia, com um empurrãozinho do livre exame... Por fim todas as questões puritanas ou moralistas foram lançadas aos quatro ventos, baralhando ainda mais o cenário. Com o livro negro nas mãos e um pouquinho de imaginação os sectários esmagaram o lulopetismo e encadearam ao que chamam luladrão...

O mais curioso face a este cenário doentio é que o próprio lulopetismo e setores psolistas representados por Freixo, falseando consciente ou inconscientemente a questão, declararam que apenas uma ínfima minoria de evangélicos havia tomado parte em tais eventos e que a maioria deles era progressista ou mesmo - pasmem! - socialista... Não podia crer no que estava a ler, mas lí... Bem, eu sou ex protestante e por experiência conheço relativamente bem o mundo e o ideário protestante. Não sei portanto de onde Freixo e Lula tiraram semelhantes impressões, exceto pelo propósito de agradar a todo custo e assim de obter apoio e poder.

Claro que também há progressistas no meio protestante, e até haveria um número significativo caso
admitissemos que a maior parte dos anglicanos ou anglo católicos, sejam protestantes; quando são episcopais, e, em número considerável, ideologicamente Católicos. Alias, tal distinção é irrelevante caso consideremos que no Brasil protestantismo é sinônimo de Pentecostalismo e não de protestantismo histórico. Daí a construção do mito do pentecostalismo progressista, afinal se é pentecostal é marcadamente 'ortodoxo', bíblico ou fundamentalismo. Basta entrar numa livraria protestante qualquer para dar-se conta de que para os pentecostais, em quase sua totalidade, o liberalismo teológico e moral - Assumido por algumas igrejas históricas da Europa ou do Norte dos EUA - nada mais é do que uma abominável heresia ou detestável apostasia. O imaginário coletivo dos protestantes brasileiros i é dos nossos pentecostais pouco se distingue do ideário vigente nas seitas do Sul dos EUA, donde foi importado.

Por isso a propaganda anti socialista ou anti Comunista forjada naquelas terras ter sido importada com tanto sucesso para esta. Até a destruição do projeto lulopetista... Não nos impressiona este fato, já o havíamos predito e assinalado!!! Admira-nos Freixo e Lula fantasiarem ou ocultarem o problema, afirmando ingenuamente que os fundamentalistas são nossos aliados e que os trabalhistas, petistas, comunistas, sociais democratas, comunistas e socialistas de toda casta deveriam associar-se a esta gente e buscar seu apoio. Isto sim é assombroso porquanto Lula e Dilma já foram atraiçoados por esse povo! E porque o recente golpe foi ativamente apoiado por eles, a ponto de - Como na Bolívia - ter sido batizado com o nome de 'golpe evangélico'. Leiam protestante ou pentecostal ou ainda fundamentalista e terão lido corretamente. Pois sem a cooperação de um Malafaia, de um Macedo, de um Feliciano e de outros tantos charlatães, escudeiros de Ed Cunha, tal golpe não teria tido chance de sucesso. Basta ver o quanto os 'crentes' empenharam-se a favor de Cunha e de Temer nas redes sociais!!! Os papistas sem dignidade, foram de carona - como fazer já a quase meio século graças a RCC e ao ecumenismo - num segundo momento, uma vez que já não dispõem de consciência própria e assimilam cada vez mais princípios e valores exógenos de origem protestante.

O que quero dizer ou repetir a exaustão é que toda esta dinâmica do insólito deve ser analisada, lida, interpretada e bem entendida a luz do culturalismo. O protestantismo, ao contrário do que supõem ou dizem Freixo, Lula e outros jamais poderá ser aliado de qualquer tipo de política socialista por ser uma fé 'essencialmente burguesa' (Fr Engels), a qual desde seus primórdios promoveu a afirmação das forças econômicas, materiais ou capitalistas na mesma medida em que pela negação da necessidade de obras Éticas, abandonou o cenário das relações pessoais, sociais e políticas para incidir apenas sobre a fé. Este vácuo ou esta lacuna aberta pelo protestantismo nascente - a qual interpretamos como um recuo do ideal Cristão primitivo - foi que deu espaço as forças econômicas em ascensão ou ao que chamamos economicismo, o qual veio a plasmar toda cultura subsequente, ao menos a partir do século XVIII.

Eis porque o liberalismo econômico teve de surgir e impor-se antes de tudo e primeiramente numa sociedade protestante ou numa sociedade disputada pelas inúmeras seitas advindas da Reforma, nenhuma das quais poderia capitanear uma possível resistência as forças econômicas ascendentes. Destarte tiveram as seitas de omitir-se ou mesmo de apoiar a nova estrutura em formação.

Na terra pura dos EUA, na qual as culturas ancestrais foram eliminadas ou empurradas e não havia resíduo de cultura Católica, pode ser elaborado o novo modelo de agregado social, mais ou menos equilibrado, sob a égide das forças econômicas, mas mantendo uma aparência de religiosidade, concentrada apenas no além e que jamais ocupasse em questionar e transformar a realidade. Eis o Cristianismo conformista, ora ocupando a função de servo ou lacaio, e assim justificando, defendendo ou mesmo canonizando certa forma de organização social, não tão antiga. Os Ortodoxo e papistas deveriam saber, antes de todos, qual o discurso habitualmente empregado pelos pastores yankes com o objetivo de apresentar sua fé como superior a nossa... É simples: Jamais qualquer ideia socialista logrou arraigar-se nos EUA!!! E jamais qualquer esboço de simples sedição... Jamais o espectro sangrento da Revolução, que tantas vezes assombrou, ameaçou e solapou essas sociedades Ortodoxas ou Papistas do Velho mundo - evidenciado que há algo de muito errado nelas, donde procede sua vulnerabilidade - obscureceu o céu azulado dos bíblicos e puritanos... E já foi isto objeto de investigação por parte dos sociólogos da cultura... Adivinhem qual tenha sido a resposta???

É a Sociedade Norte americana estável e invulnerável face a propaganda socialista devido ao - dentre outros fatores - o ideário individualista dos puritanos e sua relação com a predestinação e aquisição de riquezas e sucesso material, faceta alias marcante do calvinismo...

O que quero repetir é que a assimilação da fé protestante, bíblica, calvinista ou pentecostal por parte dos cidadãos brasileiros acarretará, cada vez mais, uma negação de nossas autênticas tradições culturais e a paulatina assimilação de princípios e valores protestantes, do que resultará uma nova estrutura ou constelação cultural bastante semelhante a que percebemos da grande república do Norte. Da mesma maneria e modo como a assimilação do Islã com sua sharia levará qualquer sociedade a uma arabização em termos de cultura a assimilação do fundamentalismo bíblico não poderá deixar de conduzir qualquer sociedade a uma americanização e consequentemente a afirmação de uma política cada vez mais formal (em termos democráticos), puritana, minimalista, etc Marcadamente conservadora em sentido moral ou moralista. Exatamente como estamos assistindo no Brasil de hoje, momento em que Freixo e Lula mais parecem duas belas adormecidas...

Despertemos antes que tarde seja e nos vejamos numa nova Genebra de Calvino ou numa nova Meca de Maomé, tornemos as fontes de nossa cultura e a nossas tradições, princípios e valores próprios.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Problemas de marxismo - Engels, a revolução e a democracia ou 'Os caminhos da social democracia'.

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Muito se tem discutido a respeito do posicionamento de K Marx e F Engels face as instituições democráticas, o que torna a questão no mínimo controversa. Há um grupo em especial que exasperasse face ao tema: O dos jacobinistas irredutíveis ou dos que admitem como única forma possível de luta o confronto violento entre proletários e burgueses e consequente tomada de poder pelos últimos, fazendo uso da força bruta é claro. Este grupo repudia como falacioso todo e qualquer discurso em termos de inserção na 'política burguesa' ou democrática, que vá na direção da social democracia, a qual amiúde classificam como uma traição ou apostasia face ao ideal revolucionário legado pelos panfletários alemães.




Claro que o número de compreensões a respeito deste tema é bastante variado.

De nossa parte, sem assumir compromisso com qualquer das partes, pretendemos acompanhar a cronologicamente a trajetória ideológica de Marx e Engels numa perspectiva evolutiva, salientando as derradeiras conclusões a que chegaram um e outro; e antes disto apontar as fontes em que beberam os principais conceitos afirmados em suas obras e em que medida tais conceitos foram sendo sucessivamente reformulado. Embora o pensamento de Marx e Engels não nos pareça contraditório como ou de um Proudhon, não é menos claro que conheceu um desenvolvimento orgânico e no mínimo algumas reformulações.

Antes de tudo, partindo de um princípio realista - designação cara ao 'jovem' Marx - temos de levar em conta o momento histórico em que Marx e Engels estavam situados e conecta-los com diversas outras correntes ideológicas quais sejam a Revolução francesa, o babovismo, o blanquismo, o st simonismo, o positivismo, etc Do contrário não chegaremos a lugar algum. Consideremos aqui uma época de instabilidade e transformação, em que os velhos clubes da Revolução - estruturados por Benjamin Constant - transformam-se em ligas e as ligas em partidos... Marx e Engels vivem esta e outras tantas transformações.

Quanto a Marx  - Surpreendam-se - foi antes de tudo um homem de vasta leitura ou um erudito e faz saber ao velho Aristóteles. Exilado em Londres foi frequentante assíduo da Biblioteca municipal. Onde pode ler os principais teóricos do liberalismo clássico - uma de suas três fontes - em sua totalidade. Como havia lido os 'utópicos' (st Simon, Fourier, Owen, Cabet, etc) e como lerá Comte... E aqui e ali vai coletando os elementos presentes em sua no mínimo 'grandiosa' síntese (nem mesmo o profo Olavo de Carvalho destoará de nós - apenas os liberaizinhos de merda!) em Babeuf, Blanqui, St Simon, Fourier, Stein, Sismondi, etc, etc, etc

A Lorenz Von Stein (As correntes socialistas na Revolução Francesa - 1842) tomou a ideia do conflito como motor da História, de Babeuf a ditadura do proletariado, de Blanqui o método insurrecional, de Sismondi o valor do trabalho, etc

Comecemos observando o drama da Revolução francesa e quiçá o de todas as Revoluções. O povo como um todo não esta preparado para a nova ordem das coisas. Há massas alienadas em quantidade e assim, o ambicioso projeto democrático fundamentado na antiga república romana, no paradigma de Bruto e Cássio, sai forçosamente de cena, dado lugar - pasme leitor querido! - ao espectro de Júlio César, o ditador odiado... Assoma Robespierre, e após ele Napoleão, e em seguida Lênin, Stalin... e jamais se sai disto. Os positivistas delineiam uma aristocracia de sábios, cientistas, juristas, etc a testa da qual esta o 'tirano educador'. Babeuf e Blanqui concebem algo pouco diferente, a ditadura do proletariado, enquanto minoria educadora, sempre representada por um líder ou déspota, um déspota esclarecido.

É 1852, Marx e Engels adotam a solução comum da ditadura do proletariado; apenas formalmente, pois haviam já adotado o conceito alguns anos antes.

Agora por que adotaram esta solução?

Adotaram-na por que antes adotaram a solução jacobinista ou revolucionária legada por aquele evento histórico e transmitida conforme a tradição de Babeuf Buonarroti e Blanqui, o insurrecionismo. Com o qual Marx e Engels rapidamente romperão, após terem refletido sobre os sucessos de 1848 e 1870. É Engels que sem sacrificar completamente o ideal da Revolução, substitui o método arcaico da insurreição e suas barricadas pelo modelo da conspiração ou da formação a longo prazo. Ademais Marx e Engels, como o próprio Kaustky e muitos outros, sabiam que as condições para a Revolução não podiam ser criadas, devendo ser dadas, conforma o Capitalismo fosse substituindo as estruturas precedentes e se desenvolvendo, conforme o ideário etapista. Blaqui, sendo bem mais, ingênuo - assim como os anarquistas - não levava em conta tais condições, perdendo-se nos meandros do espontaneísmo, se bem que condenasse veementemente - como Marx e Engels - a prática dos atentados isolados posta em prática por parte dos anarquistas.

Aqui uma pausa importante. Marx, Engels e tampouco Blanqui, recomendaram a adoção de métodos terroristas postos em prática por indivíduos ou a explosão de bombas em praças ou prédios públicos por onde circulavam populares inocentes. Sempre tiveram em mente alguma forma de organização e ação social ou comum, assim como guerrilhas... Os anarquistas desde o início foram contaminados pela ideologia individualista e chegaram a crer que indivíduos isolados fossem capazes de alterar o curso da história; assim Ravachol, assim Takchev... Os marxistas e blanquistas jamais.

No entanto os blanquistas, como foi dito, não levavam em conta as condições materiais e mesmo o desenvolvimento técnico do estado burguês, como declara Engels na 'Introdução' a obra de Marx sobre a luta de classes da França (1891). De modo que o método deles ficou desatualizado, tornando o proletariado vulnerável. Diante disto os marxistas tiveram de reformular a tática, no sentido de levar em conta o apoio da maioria - já estava embutido na teoria deles - o armamento, o treino, a posse das armas e munições, etc Produzindo uma doutrina revolucionária bem mais prudente e comedida, associada a prática parlamentar ou a inserção.

Chegando a este ponto impõem-se o questionamento - Qual a derradeira opinião de Marx e Engels sobre a inserção parlamentar???

Vamos tentar traçar o panorama ideológico com que nos deparamos ainda hoje:

- Num extremo temos um grupo de sociais democratas que, guiados por Bernstein, assumiram um pacifismo absoluto, abdicando por completo de quaisquer soluções violentas. Para eles a inserção parlamentar é suficiente ou basta. É inegável que eles mutilaram o prefácio elaborado por Engels em 1891 e por isso nós empregaremos exclusivamente - neste artigo - a Ed soviética integral publicada por Riazanov em 1930.

- No extremo oposto temos os que negam, por parte de Engels e Marx qualquer aproximação com a social democracia ou com a ideia de inserção parlamentar, sustentado que a única forma viável de ação seja o confronto direto ou a revolução violenta. Este grupo converge com os anarquistas para o abstenceísmo.

- Num meio termo damos com Engels, e Kautsky, e Rosa Luxemburgo, e Gramsci e uma infinidade de outros teóricos e podemos definir esta opção em torno da definição fornecida por Otto Bauer (Linz 1926)- A aplicação da violência ou da resistência armada apenas como recurso de defesa (Violência defensiva) ou quando o jogo democrático for violado pelos liberais ameaçados ou seja apenas em caso de golpe, o que faz lembrar a velha doutrina da Guerra justa formulada pelos Católicos a partir de Agostinho.

Repassemos as três.

Contra os sociais democratas que excluem por completo e aprioristicamente o recurso a força ou a violência, temos que Liebknecht mutilou o referido prefácio elaborado por Engels com o intuito de favorecer as opiniões de Bernstein, do que se queixa amargamente numa carta a Lafargue, datada de 03 de Abril de 1895. A honestidade nos obriga a declarar que Engels jamais aderiu a um pacifismo ingênuo ou absoluto, depositando todas as suas confianças na política parlamentar, na direção da qual caminhou no entanto...

Quanto aos jacobinistas irredutíveis - que continuam apresentando a política parlamentar como o anti Cristo, a inserção como uma heresia e a revolução violenta como uma receita de bolo em moldes metafísicos, as objeções são muito mais graves e fortes.

A princípio concentram suas baterias nas mutilações feitas por Liebknecht e chegam a falar em falsificação. Ao mesmo tempo de dizem ter sido Engels pressionado pela Richard Fisher no sentido de atenuar seu discurso. Esta última alegação é fútil, faz supor que Engels trairia seus princípios... é injuriosa para com ele, pois atenuar é uma coisa e alterar, mentir, falsear, sacrificar, são coisas bem distintas.

Então eles afirmam que jamais houve esta aproximação, inda que nímia, face a democracia. E centram suas baterias no prefácio de 1895, como se se tratasse do único documento ou dum testemunho isolado.

No entanto além do prefácio integral - prenhe de significados - temos o testemunho de Eleanor, filha de Marx e mais, as últimas cartas enviadas por Engels a Bebel, Victor Adler e Kautsky. Podem dizer que Eleanor mentiu, traiu ou caluniou seu afamado pai, mas sobre as cartas acima citadas não pesa suspeita alguma quanto a autenticidade; PELO QUE NÃO TEM SIDO PUBLICADAS PELOS COMUNISTAS 'ORTODOXOS' embora constem em MEW, donde todos podemos extrair cópias ou simplesmente le-las!

Ora eu mesmo lí uma destas cartas, endereçadas por Engels a Kautsky numa publicação marxista heterodoxa onde deparei com praticamente a mesma fórmula empregada por Bauer em Linz 1926 i é em torno da violência defensiva. Engels dizia a seu interlocutor que o jogo democrático deveria ser mantido até os burgueses violarem-no, quando só então os comunistas deveriam tomar as armas e contra atacar os 'golpistas'. Foi o que li com estes olhos que a terra há de devorar um dia, e o dito livro esta tombado em minha Biblioteca.

Noutra publicação deparei com este não menos elucidativo fragmento tomado a uma carta endereçada ao mesmo Kautsky a 29 de Junho de 1891 - "Se uma coisa é certa é que nosso partido e a classe operária, só podem chegar ao poder sob a forma de uma República democrática. Esta é inclusive A FORMA ESPECÍFICA DA DITADURA DO PROLETARIADO." in Bottomore; Zahar 2012 p 499Esta solução é endossada pelos austríacos, por Kautsky e por Rosa, de modo que o primeiro é apresentado como renegado e a segunda como revisionista pelo russo Lênin, um dos paladinos do jacobinismo. Kautsky alias, fiel ao pensamento de Marx e Engels, declarava insistentemente que inserção ou reforma alguma impediriam o colapso do Capitalismo, determinado por sua própria evolução ou desenvolvimento, e que a Revolução aconteceria de qualquer modo. Já veremos que o próprio Engels teve de lançar água fria a fervura dos mais afoitos, declarando que não haveria revolução alguma sem que o processo histórico produzisse uma nova oportunidade, similar a de 1848. Entrementes, continua Engels, os comunistas, inda que estimulados por seus adversários, não deveriam fomentar qualquer tipo de sedição.

Passemos agora a terceira versão ou ponto de vista, a que chamaremos de social democracia realista ou crítica, em oposição a ingênua ou pacifista.

Para tanto passaremos a resumir o texto integral do prefácio de 1895.

Qual a ideia central desse texto?

Dando provas de supina honestidade Engels, nas primeiras linhas do prefácio faz lembrar que o Manifesto de 1848, aludia a uma luta pela democracia nos termos do assim chamado 'sufrágio universal'.

Concentre-mo-nos primeiramente neste ponto. Do sufrágio universal.

De fato quando nós, cidadãos do século XXI, ouvimos falar em democracia ou na democracia do século XIX, imaginamos que era idêntica, e que todos votavam ou participavam, inclusive os pobres e trabalhadores. Nada mais equivocado. Pois se a democracia principia na França revolucionária com o sufrágio universal, este só será implantado na Alemanha em 1870, nos EUA em 1856, na Dinamarca em 1849 e por ai em diante.

Até os idos de 1850 apenas os burgueses escolhiam representantes tomados a seu grupo com o objetivo de governar a nação, de modo que a democracia estava nas mãos da burguesia, não passando de uma plutocracia. Os pobres, os trabalhadores e os campesinos não tinham voz. Continuavam a ser comandados como antes. Não mais pelos nobres, mas pelo ricos.

A adoção do sufrágio universal no entanto, por franquear as eleições e candidaturas aos pobres e trabalhadores, oferecia novas perspectivas. E Engels avalia-as como promissoras, ao contrário dos anarquistas, presentes a algum tempo nos países 'latinos' i é Espanha e Itália. O próprio Engels afirma que eles não acreditavam de modo algum no sufrágio universal, definindo-o como mais um 'doce' com que a burguesia pretendia entreter o proletariado, enfim como uma ilusão.

Partilhará Engels de semelhante preconceito?

Vejamos.

"O primeiro grande benefício que os trabalhadores alemães prestaram a sua causa consistiu no simples fato de sua existência como partido socialista... sub ministraram a seus camaradas de todos os países uma arma nova, uma das mais afiadas, ao fazer-lhes ver como se utiliza o sufrágio universal.


Nos países latinos eles encaravam o sufrágio universal como mais um engano empregado pelo governo. Na Alemanha não foi assim. JÁ O MANIFESTO COMUNISTA HAVIA PROCLAMADO A LUTA PELO 'SUFRÁGIO UNIVERSAL' E PELA DEMOCRACIA COMO UMA DAS PRIMEIRAS E MAIS IMPORTANTES TAREFAS DO PROLETARIADO MILITANTE E LASSALLE HAVIA ENFATIZADO ESTA DIREÇÃO. E quando Bismarck se viu forçado a introduzir o sufrágio universal... nossos trabalhadores tomaram a coisa a sério e enviaram Bebel ao Reichstag constituinte e desde aquele dia em diante TEM USADO O DIREITO AO SUFRÁGIO DE TAL MODO, QUE TEM TRAZIDO PARA ELES INCONTÁVEIS BENEFÍCIOS E SERVIDO DE MODELO AOS OPERÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES." 
Prefácio completo

A partir daí desenvolve Engels o seguinte raciocínio - Na medida em que os trabalhadores forem tomando consciência de classe e inserindo-se no Parlamento acabariam por interferir cada vez mais na política econômica até faze-la reverter contra a burguesia e esmaga-la. Ele mesmo apresenta alguns exemplos neste sentido por parte de ilustres representantes da burguesia e podemos dizer que com isto Engels se dá conta não só da importância do político - já assinalada por Blanqui - mas sobre a tensão existente entre o liberalismo político e o liberalismo econômico; e chega a conclusão de que o governo pode ser tomado pelo proletariado. Os anarquistas, por questões de metafísica em torno da autoridade - que concebem como um mal em si mesmo e sempre como algo pessoal - é que negam-no, peremptoriamente. Mas Engels vai na direção oposta...

E saca uma conclusão vital no sentido de compreendermos o papel da violência e da Revolução classicamente definida em seu esquema de pensamento. Uma vez que a democracia tende a passar ao controle do proletariado segue-se que este ditando a política, será capaz de despojar institucional ou legalmente a burguesia. Como esta no entanto não estará disposta a ser deixar despojar, impõem-se uma conclusão necessária: Em algum momento subsequente a burguesia terá de violar as regras do jogo democrático ou de apelar a um golpe, assumindo formas totalitárias e repressoras. Neste momento os proletários deverão estar preparados para resistir, revidar e tomar o poder.

Em algum momento Engels, mostrando sua genialidade, constata que o melhor caminho para a Revolução, o mais efetivo, é a inserção parlamentar, por meio da qual, ao menos durante algum tempo, o proletariado poderia despojar a burguesia, até o instante em que a burguesia, arrancando sua máscara, apelasse ao golpe, a força e a coerção, atacando os socialistas. A esta altura, como já dissemos, entra a doutrina da violência defensiva e com ela ou atrelada a ela, uma Revolução adrede planejada nos mínimos detalhes. Temos aqui uma síntese equilibrada e magistral, que não se contenta com o pacifismo ingênuo dos sociais democratas à la Bernstein e tampouco com o velho jacobinismo legado por Babeuf.

Dir-se-ia que o velho Engels, sem jamais abdicar do ideal de Revolução, postergou-o tendo em vista não apenas as oportunidades oferecidas pelo processo histórico, mas as ulteriores mudanças políticas e técnicas. Ele deduziu que a Revolução exige um lento preparo, treino e organização. Foi um passo importantíssimo que os jacobinistas não aceitam.

Diante disto que dizem eles, os jacobinistas?

Antes de tudo apelam a um fragmento em que Engels declara que aquela solução era a solução apenas para a Alemanha daquele tempo e não para os demais países, Itália, França, Espanha, Inglaterra, etc É tudo quando podem opor ao óbvio... E como compreende-lo?

É possível e provável que Engels, na perspectiva da cultura, encarasse seus alemães como um povo especial, superior ou mais evoluído. E aqui teríamos o germanismo superestimado... Seja como for ele faz, no mínimo, uma exceção a regra geral, e sabemos que exceções levam a exceções. Pelo simples fato de que, se a situação futura da Alemanha podia mudar, também a das outras nações podia mudar e tornar-se semelhante as daquela Alemanha, i é da Alemanha favorável a social democracia... Em questão de princípios não se faz exceção. Mas é normal que um alemão faça exceção a sua Alemanha. Anormal é que não alemães acompanhem-no. Ademais se os estádios do processo estavam atrelados a produção econômica, na mesmo medida em que a produção dos demais países atingi-se o mesmo estádio que a produção da Alemanha aquele tempo, produzir-se iam as mesmas transformações sociais e condições políticas, no caso favoráveis a social democracia.

Em todo caso estava Engels negando que a Revolução violenta correspondesse a uma receita de bolo ou bula de medicamento aplicável a todas as épocas e lugares. É dedução que salta a vista.

Ademais costumam nossos adversários citar certas alusões depreciativas ao termo 'Social democracia' tomadas aos primeiros escritos de Marx e Engels. Esta claro, diz Bottomore, com razão absoluta, que não poderiam estar se referindo a social democracia alemã pós 1870, mas a outro tipo de tentativa, totalmente diversa, levada a cabo pelos franceses, e com temperos de proudhonismo. Quando a social democracia alemã dos anos 70, Engels reconhece - Volkstaat 1894 - que era perfeitamente aceitável.

Aluídas tais críticas nada resta de muito sério ou relevante.

Temos aqui um quadro perfeitamente discernível: Sem chegar a compactuar com Bernstein e os pacifistas ingênuos dispostos a acordos comprometedores, Engels, que sobreviveu a Marx quase quinze anos, vai gradativamente afastando-se do jacobinismo extremo legado pela revolução francesa, do insurrecionismo de Blaqui e mesmo de qualquer tipo de revolucionarismo apressado que não levasse em conta as circunstâncias externas para, a partir da afirmação do sufrágio universal, entusiasmar-se - esta é a palavra certa - pela teoria da inserção, sem no entanto abdicar do uso da força numa Revolução futura e conscientemente planejada que julgava a um tempo distante e a outro inevitável.

A partir de sua posição outros tantos teóricos partidários da inserção na política parlamentar foram capazes de apresentar-se como continuadores seus, mesmo quando se afastavam dele, pelo simples fato de ter sido ele um continuador de Marx em que pese ter se afastado dele - Se é certo que Marx morreu apegado ao quando escrevera na Crítica ao programa de Gotha (Eleanor Marx e Engels negam-no explicitamente) ou irredutível - na mesma medida em que afastou-se da receita de bolo ou mapa da Revolução violenta ou da insurreição.