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segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Os problemas do anarquismo

Se, ao contrário do protestantismo, do capitalismo e do comunismo o anarquismo jamais esteve a ponto de substituir o papismo e de unificar a Europa ou o mundo, nem por isso sua origem e facetas deixam de ser interessantes.

Quem o criou...

Não se pode saber com exatidão - Pois alguns autores apontam os 'Diggers' da Revolução inglesa e outros até mesmo os 'Levellers'. Outros, em termos de continuidade apontam Godwin: Esposo de Mary Wollstonecraft, pai da segunda Mary e genro de Shelley, o qual como Paine e Benthan era democrata, politicamente liberal e miniarquista, mas de modo algum anarquista - Tal o caso dos revolucionários do século XVII: Todos no máximo republicanos exaltados ou jacobinos... Nem os diggers, nem os jacobisnos, nem Babeuff, Paine, Benthan ou qualquer outro jamais concebera o homem abstratamente como uma espécie de ilha ou numa perspectiva não social.

Quem então teria criado o anarquismo...

Atrevo-me a apontar como seu criador o luterano alemão Johann Kaspar Schmidt, de Bayreuth, mais conhecido como Max Stirner, aluno de Hegel e Feuerbach e autor da obra " O uno e sua propriedade". O qual é apontado por muitos autores como precursor do anarco capitalismo e do pós anarquismo. Curiosamente fez ele parte do clube dos livros ou dos jovens hegelianos, juntamente com Marx e Engels (A História tem dessas), merecendo inclusive uma impugnação por parte do primeiro na obra "A Ideologia alemã".

Além de ter antecipado o pós modernismo e o nihilism, Stirner, que era anti católico, anti socialista, anti comunista, anti humanista, anti democrático, etc teve ao menos a ombridade de definir-se como Egoísta, pois argumentava não apenas pela destruição do Estado ou do Macroestado mas da Sociedade ou do convívio humano. 

Esse Stirner exerceu influência decisiva sobre Spooner e Tucker, dentre outros, aqui do outro lado do Oceano e podemos traçar a linhagem até M Rothbard, M Friedman e Ayn Rand. De fato foi ele a matriz de todos os anarquismos individualistas. 

Aqui um aparte, pois embora não conheçamos detalhadamente o luteranismo de Bayreuth, podemos, por via do pietismo, conjecturar que o anarquismo Stirneriano foi, a exemplo, do capitalismo, do destino manifesto ou do nazismo (cf Georges Santayana "O Egotismo na Filosofia alemã") uma secularização da busca por uma redenção individualista, dissociada da igreja, da comunidade ou do outro.

Outro o caso do francês Pierre J Proudhon, o qual escreveu ao cabo de décadas e também é apontado por alguns como pai do anarquismo. Polímata e polígrafo da estatura de um Marx ou de um Weber leu ele toda bibliografia precedente sobre o tema das liberdades, dos direitos, do Estado e da vida política - Por isso é, o conjunto de sua obra contraditório e confusionista ou caótico, pois reflete suas revisões, correções e assunções sobre o assunto. Assim, suas obras iniciais ainda ressentem a influência de Stirner, da qual se vai desprendendo nas obras da maturidade até, já no fim da vida, resgatar as tradições comunais da França campesina. 

Em certo sentido prenunciou o primitivismo, o retorno da História, a não linearidade do progresso, etc - Pelo que mereceu ser combatido tanto pelos positivistas quanto por Marx, na "Miséria da filosofia" - Julgo todavia que J S Mill, com sua economia estacionária, teria simpatizado com ele. 

A partir daí com os nobres russos M Bakunin e P Kropotkin, toma o anarquismo outro caminho, a ponto de podermos já falar em anarquismos: O ocidental, sempre incerto e tributário de Stirner e o Oriental ou russo, de tradição comunal e portanto comunista ou socialista. 

Bakunin por sinal é quem, com sua genialidade, impõem forma definitiva a um anarquismo que podemos chamar de clássico. E o faz orbitar em torno de três pontos: O micro estado, em oposição ao macro estado; a policracia ou democracia direta, em oposição a democracia representativa ou burguesa dos anglo saxões e a miniarquia e oposição ao totalitarismo de então. Quanto a este último ponto cumpre esclarecer que ao contrário de Rousseau - Com sua vontade geral totalitária e absoluta que tudo invade. - Bakunin (Herdeiro do liberalismo inglês) situou o poder coercitivo do grupo na esfera do 'Bem comum' ou daquilo que é propriamente político, reconhecendo que os costumes, a moralidade ou a vida privada não deveria ser objeto de controle. Uma visão avançada e grandiosa, ninguém pode negar.

Aqui é Bakunin que faz retorno ou petição ao passado, retomando o ideal grego da democracia direta e sendo, em certa medida, reacionário, e não futurista inconsequente como Stirner ou Marx. Alias, sobre a 'Ditadura do proletariado' proposta por Marx e seus comunistas, declarou ele "A liberdade jamais procederá da tirania... Devendo não ser dada ao povo porém conquistada por ele."

Era esse Bakunin herdeiro da tradição Blanquista e assim da sedição ou do jacobinismo (E por aqui toca o comunismo de Marx.), noutras palavras dessa mística revolucionária intensa, legada a Lênin por G Sorel, autor das "Reflexões sobre a violência". Já Kropotkin, mantendo o legado de Tolstoi, assume um programa pacifista ou no mínimo tímido e realista face ao emprego da violência. Pelo que repudiou essa mística revolucionária em torno de uma transformação radical da cultura por meio da força. 

Ainda aqui o anarquismo soube ser bem mais refinado que o comunismo. Pois ambas as vertentes - Inclusive a de Bakunin, ao menos enquanto preparação necessária para a Revolução. - russas ou orientais buscaram investir na educação ou na formação da consciência (E por ai já se vê que não eram todos materialistas ou deterministas economicistas.) criando escolas e idealizando uma instrução alternativa e paralela a estatal. Na Espanha e na Itália chegaram inclusive a produzir uma corrente pedagógica, representada por Ferrer y Guardia. 

E no entanto tal projeto foi internamente sabotado e veio abaixo - Sendo vital para nós saber exatamente porque.

Sucedeu com o anarquismo o que já se havia sucedido com o protestantismo ou com o capitalismo. Pois em determinado momento deixou de ser mera construção social e política, para converter-se em metafísica ou mística totalizante, e invadir outros setores da existência como a Gnoseologia\Epistemologia, assumindo opiniões tão corrosivas quanto o ceticismo, o subjetivismo, o relativismo... E desembocando no pós modernismo atual - Chegando inclusive, com P Feyerabend, a querer reformular o método científico. 

Enfim os anarquistas chegaram a concluir que a razão, a racionalidade e o racionalismo eram limitações impostas pelo poder ou uma forma de dominação que também devia ser demolida e levantaram críticas similares (Estas em parte justas face a um ideário positivista que era quase sempre acrítico face ao poder.) a ciência.

O problema aqui é que toda essa história de pós modernismo, por verdade, imaginário coletivo, narrativas, etc desguarneceu a civilização e a cultura face aos ataques do fetichismo, das mitologias e dos fundamentalismos, em especial protestante e islâmico. O que tornou nossa civilização 'mal feita' vulnerável a projetos ainda mais desastrosos, com referenciais postos na Arábia do século VII d C.

Naturalmente que o anarquismo 'político' tornou-se inócuo e despovoado, subsistindo hoje apenas como um resíduo pós modernista e incomodo, tendo em vista nossa resistência as demais culturas de morte circundantes. 

Invadido, em certos setores, por um ideal de linearidade histórica ou evolutiva, e ao mesmo tempo infestado pelo irracionalismo, o anarquismo não mais consegue responder aos principais questionamentos emitidos por seus críticos.

Quero dizer que tal e qual os comunistas, os anarquistas materialistas e de tendência positivista não podem admitir que o protestantismo ou o islamismo > Formas religiosas ultrapassadas, inócuas e inofensivas (kkk) possam tomar posse do poder e ameaçar a 'sifilização' tornando-a ainda pior... 

Diante disto eles continuam - Apesar da intifada fundamentalista que assistimos em quase todo mundo. - sustentando candidamente a abolição do exército e da polícia... Organizações viciadas e indesejáveis, e no entanto, face a realidade atual: Necessárias. Do contrário quem impedirá os pastores ou os ulemás de tomarem o poder pela força e construírem suas teocracias movidas pela Tanak ou pela Sharia... A ameaça é real.

Grosso modo é este problema derivado de outro, a que os anarquistas jamais prestaram a devida atenção: Como manter a soberania do micro estado ou das pequenas aldeias indígenas (Caso obtenham independência ou autonomia política.) face as aspirações imperialistas de macro estados como os EUA... 

Alias os Comunistas da URSS também falharam por completo, apesar das sensatas advertências de um Trotsky, ao tentar manter seu sistema dentro das fronteiras, abdicando 


Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte': 


  • Americanismo
  • Conservadorismo
  • Positivismo
  • Protestantismo
  • Capitalismo
  • Comunismo
  • Fascismo
  • Pós Modernismo
  • Sionismo 
  • etc







quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Problemas em torno do anarquismo: anarquismo, socialismo e individualismo III

III - Os fins ou objetivo do anarquismo: estado, autoridade e poder; Sociedade ou Individuo???
SOCIALISMO OU INDIVIDUALISMO???

Chegamos agora a questão dos fins ou do objetivo do anarquismo e é questão crucial porque se define quem é anarco socialista ou socialista libertário e quem é anarco individualista; enfim quem pertence a uma ou outra destas correntes opostas, incompatíveis e rivais.

Durante das discussões entre meus amigos anarquistas não poucas vezes ouvi (por parte dos individualistas) a tese de que todos eram anarquistas e que portanto deveriam trabalhar juntos. Isto porque os individualistas parecem conhecer muito melhor suas fontes e seus objetivos do que os 'socialistas', quase sempre demasiado ingênuos ou superficiais, ou mesmo confusos.

Como o socialismo esta cindido em duas correntes: autoritária e liberal, libertária ou democrática também o anarquismo esta cindido em dois partidos: o socialista e o individualista ou stirneriano.

E tal divisão diz respeito aos fins.

Ambos declaram aspirar pela destruição do que chamam de Estado.

Agora enquanto os socialistas pretendem substitui-los (tomo por guias a Bakhunin e Kropotkin) por algum outro tipo de organização social os individualistas, tomando ESTADO POR SOCIEDADE ou GRUPO SOCIAL tenciona aniquilar o estado para transferir o poder e a autoridade para os indivíduos. Observe-se que esta diferença é radical! Para Bakhunin e Kropotkin deve ser substituído por outro tipo de modelo ou organização social, para Stirner, Rand, Rootbarth, etc será substituído por individuos ou por organizações de carater puramente econômico.

Talvez, prezado amigo anarquista voce imagine que Bakhunin e Kropotkin tomavam Estado por Sociedade ou que, a semelhança de Stirner e seus sequazes cogitavam em abolir todo e qualquer tipo de autoridade. Há em certos anarquistas uma forte tendência para hostilizar e negar todo e qualquer tipo de autoridade. Mas tal tendência não esta presente em Bakhunin ou Kropotkin nem esta de acordo com o anarquismo socialista ou 'russo'.

Os alemães legatários de Lutero e sua tara anti eclesiástica é que conceberam a ideia de abolir todo e qualquer tipo de autoridade colocando o individuo acima de todas as coisas ou acima de tudo. E negando, consequentemente a existência da Sociedade (ou proclamando sua destruição) tal e qual o despadrado alemão negava a existência da igreja visível, No entanto apesar do despadrado a igreja de Roma continuou a existir visivelmente, como existe visivel e materialmente a Sociedade.

De fato o que Bakhunin e Kropotkin aspiram por destruir é o Estado concebido como um governo arbitrário exercido por um ou vários ou como a estrutura hierárquica de um macro estado. Neste sentido buscam a fragmentação do macro estado e sua substituição por pequenas unidades, comunas ou municípios e isto por uma razão bastante compreensível: Para que o governo arbitrário de um ou vários: a monarquia, a aristocracia ou a democracia formal e indireta pudessem ser substituídas pela democracia direta ou pura a semelhança do que temos no Landsgemeine suiço. 

Logo, no pensamento de um e outro há bastante espaço para um grupo social ou sociedade em termos de COMUNA, a qual sobrepõe-se a todos os individuos e exerce autoridade com a participação de todos i é numa perspectiva democrática. E tal é o poder desta autoridade social ou democrática em sua esfera ou espaço que aqueles que negam-se a admiti-la - afirma Bakhunin - podem ser postos fora dela, abandonados a solidão ou exilados. Assim, para viver a anarquia de Bakhunin é necessário conviver ou viver em sociedade. Apenas o tamanho desta sociedade é reduzido e por uma questão funcional: permitir a participação de todos no processo decisório, segundo o modelo da democracia pura ou direta, da POLICRACIA ENFIM.

Claro que Bakhunin e outros teóricos reservam um espaço para a pessoa humana. Espaço de direito natural que encontra-se para além da forma democrática e acima dela. Eles não eram menos inteligentes que Russeau nem tinham Russeau em conta de tonto. Isto em termos de personalismo. Pois a esfera pessoal ou particular das escolhas humanas contrapunham a esfera comum ou pública do político, buscando um sadio equilíbrio. Assim o espaço da pessoa com suas garantias e direitos não implicava na inexistência ou negação de um espaço comum ou seja da Sociedade. Antes implicava a busca duma concepção harmoniosa.

Com Kropotkin (vide artigos contra Stirner e Spencer na Enciclopédia Britânica) penso que em tais termos não haja acordo possível. O ideal de Stirner é um caos de indivíduos separados, dispersos e isolados (o que nos leva necessariamente a um estado de luta ou ao darwinismo social - lei do mais forte, super homem e outros delírios) ou a anomia, império de arbitrariedades e injustiças; numa palavra o Leviatã de Hobbes. O ideal dos anarco socialistas russos é a convivência fraterna dos antigos gregos.

O fundamento da primeira cidade é o individualismo peculiar aos povos do Norte, afirmado e alimentado pela reforma protestante. A negação da Igreja, a negação da Sociedade, a negação da Comunhão e da Convivência... O fundamento da segunda cidade remonta a Clistenes e ao modelo helênico. São duas cidades não apenas distintas mas rivais. Uma busca a liberdade na convivência com as pessoas e num clima de respeito mútuo e fraternidade. A outra busca afirmar a ação descontrolada dos individuos... como se ve não há acordo possível entre as correntes individualista e socialista do anarquismo. São reinos tão distintas quanto os socialismos democráticos e o socialismo autoritário dos comunistas.




 

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Relativismo moral




É difícil fazer uma abordagem acerca da moral por vários motivos e entre esses, o que mais influi: a cosmovisão.

Os teístas, como eu, afirmam que a moral não é relativa, mas absoluta, os ateus via de regra são relativistas, principalmente os seguidores de Max Stirner e Friedrich Nietzsche.
Se a moral é absoluta então é válida para todas as épocas e lugares, porque foi deus que a implantou na mente do homem.

No caso dos ateus, eles negam que exista deus/deuses, não há um absoluto fora do universo. Logo não há uma lei moral a qual obedecer. Os anarquistas individualistas ateus como Stirner e Nietzsche dão um valor sem medidas ao "eu", tornando o outro um nada. Eles reeeditaram no século XIX Protágoras que afirmou há 24 séculos que "o homem é a medida de todas as coisas".
Nietzsche e outros ateus partem do princípio que em moral não existe nem o certo nem o errado, o certo e o errado foram criados pelos fracos que desejavam dominar todos os indivíduos, principalmente através da religião com seus códigos morais. Os seguidores de Nietzsche e Stirner se convenceram que a moral é uma criação dos homens, portanto sem valor algum. Segundo eles, cada pessoa deve criar sua própria moral e viver conforme bem entender, deve viver de acordo com seus instintos.

Se não existe o certo e o errado, nem bem nem mal, então ajudar alguém ou prejudicar dá na mesma, posto que não tem valor em si mesmo. Tanto faz estuprar, roubar, matar como cuidar de enfermos, órfãos e dos carentes. Mas se eu crio meus próprios valores, e eles são válidos para mim, ninguém no mundo pode me contestar, não posso ser julgado por nenhum tribunal, nem mesmo por deus, uma vez que não existe.

Mas os anarquistas nitzscheanos que não tem coerência, dizem que temos que ajudar as pessoas e até perguntam você não se sente melhor ajudando as pessoas do que prejudicando-as? A única diferença é que você faz por livre e espontânea vontade, não há mandamentos, deus ou qualquer autoridade que lhe obrigue a a fazer o bem.

Sinceramente, um ser humano que se ache a medida de todas as coisas poderá amar alguém? Duvido. Nós somos 7 bilhões de seres humanos, então imagina se cada um tiver seus próprios valores... De acordo com esses relativistas já não existe justiça nem direito, nem certo nem errado. Mas mesmo eles absolutizando seu relativismo, sabem que existe bem e mal, pois pregam que se possa fazer o bem, ajudar, cooperar. Então como dizem que não existe nem bem nem mal? Acaso se eu quiser dar um soco por pura vontade na cara de um anarquista nietzscheano/stinereano, ele vai aceitar, só porque senti vontade ou ficará indignado?

Uma coisa é a moral e outras são tabus e tabus devem ser derrubados, porque não são válidos para todos os povos nem para todos os tempos, antes são localizados no tempo e no espaço. Agora, prejudicar o semelhante seja roubando, traindo, matando isso é imoral em todas as épocas. Da mesma forma que amar e querer bem ao outro é moral e louvável em todas as épocas. A moral, a verdadeira moral é aquela que  se refere no que toca ao outro: se ajudo, faço o bem; se prejudico, faço o mal, nada mais do que isso. Questões como homossexualismo, roupas, vocabulário que uma pessoa usa, não pertence ao domínio da moral mas do puritanismo, logo da hipocrisia.

Se a moral é relativa, se não há certo e errado por que dizem esses anarquistas que toda autoridade é má? Por que dizem que o capitalismo é mal? Onde está sua coerência?