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sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Foi Maquiavel maquiavélico?

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Sem dúvida alguma é o florentino Nicolau Maquiavel (+1527) objeto de uma das principais polêmicas no que diz respeito as Ciências políticas, a Sociologia e a Ética. Calcule-se o fragor desta controvérsia pelo número de refutações com que brindaram o príncipe após Innocent Gentilet (1576)... Até Frederico, o grande, passando por Solorzano, Ayala e inumeros outros.

Seja como for todos tivemos de ler 'O príncipe' nos bancos da academia e de ouvir a interpretação de Benedetto Crocce vulgarizada por Chabod (1958).

Conforme dizem tais autores pugnava Maquiavel pela autonomia do político face a moralidade Cristã convencional. Ficava assim o florentino sendo um 'bom garoto'...

Mais razão assistia a Cassirer (1946) quando apresentou Maquiavel 'Cientista ou técnico da vida política', o qual procedia como um entomologista ou classificador de formas... De fato Maquiavel evoca, antecipadamente, as fúrias do positivismo ou do cientificismo, empirista ou materialista. Na medida exata em que importasse apenas com as estruturas e despreza ou minimiza não a 'moralidade Cristã' mas todo e qualquer tipo de Ética... inclusive a ética racionalista dos antigos gregos. Ele certamente devia encara a ética tal e qual a moralidade ou seja como mera convenção...

E se expressa com bastante clareza: "Assim o principado não desejará empregar aqueles métodos injustos e cruéis que REPUGNAM A QUALQUER COMUNIDADE, não somente a Cristã, MAS QUALQUER UMA FORMADA POR SERES HUMANOS." não no 'Príncipe' mas nos 'Discorzi...'

O que esta em jogo não é a moral - de fato convencional e até tola - mais judaica do que Cristã e a autonomia da vida política face a este tipo, peculiar de moralidade. O que esta em jogo é a Ética como um todo. A Ética racional e humanista de um Sócrates ou de um Platão. A simples ideia de um direito ou de uma lei natural. Nada há de novo debaixo do sol, apenas os papéis se invertem e agora é Creonte que arrosta Antígona...

Tudo quanto existe são 'razões de Estado', assim o direito puro ou positivo, acima de toda convenção.

Outro erro comum cometido por tantos quantos leem apenas O príncipe com exclusão dos 'Discorzi' é imaginar que - no Príncipe - o florentino esta apenas sendo realista e apresentando a política do tempo, tal qual era, ou seja, sem falsos moralismos.

Tudo no Príncipe é tão crú que acabamos fazendo a volta do parafuso e supondo que Maquiavel - a bem da verdade um republicano convicto (Quentin Skiner) - limita-se a descrever o que é um principado monárquico, tirânico ou despótico. Reduzido o príncipe aos termos de uma monarquia ou de uma ditadura Maquiavel não podia deixar de estar certo... Então o que ele pretendeu foi isso mesmo e apenas isto: Descrever sem atenuantes o que foi ou era o regina da Signoria...

E podíamos ficar nisto... Caso não tivéssemos examinado sua outra obra igualmente clássica sobre as Décadas de Tito Lívio, isto é, os 'Discorzi'...

Do qual extraímos o fragmento acima... que bem se encaixaria no Príncipe. Pois o Maquiavel, o autor, é o mesmo.

A bem da verdade não acreditamos que Maquiavel fosse republicano ou democrata. E tampouco despótico. Tudo quanto ele objetivava era a unificação de sua querida Itália. Assim os fins empalideciam face aos meios... os princípios face aos instrumentos... Com efeito - "Certas ações condenáveis podem ser justificadas graças a seus resultados, e quando o resultado for bom... fica justificada a ação." Discorzi... ' Primeiro Discurso. E exatamente aqui que Maquiavel justifica o fratricídio. Como todos sabem Rômulo, mítico fundador da cidade de Roma, assassinara seu irmão Remo. O florentino diz mais ou menos assim: Ok, tudo bem, Rômulo matou Remo, mas não cometeu crime algum pois tinha em vista o bem da república... "Ele merece ser desculpado... pois quis garantir a segurança da nova cidade." tais suas palavras e se fosse um matricídio ou um parricídio não seriam outras. Afinal o valor supremo não é a família ou a reverência para com os mais velhos mas a conservação da cidade!

A propósito, quanto a Maquiavel não ser nada em tempos de forma ou regime político é sabido que escreveu O príncipe e dedicou-o ao vitorioso Lourenço imediatamente após a queda da República que até então servirá, visando, obviamente alguma colocação. E isto soou tão mal que ele chegou a manipular sua correspondência e o próprio texto do livro para fazer supor outra data mais recuada... Não deu certo. O Médici jamais confiou nele... Assim sendo, alguns anos antes do levante que derrubou os Médici, em 1527, visando uma possível colocação, compôs os Discorzi - certamente tentando passa-los por mais antigos do que eram. Inutilmente, porque os republicanos vitoriosos bem conheciam seu oportunismo. Não tardou a desesperar-se e a sucumbir, descendo a tumba.

Maquiavel sempre mudou de lado e buscou compor-se com os vitoriosos tendo em vista uma possível obtenção de cargos ou seja por amor ao poder.

Não me parece que fosse qualquer coisa. Embora seja certo que desejasse a unificação da península, fosse sob a forma republicana ou sob a forma despótica. Seu sonho era o ressurgimento do antigo Império romano... Neste sentido foi o predecessor perfeito de Mussolini.

Certamente que não se pode ser agressivo, belicoso ou odinista sem sacrificar a ética. Por isso Maquiavel risca-a de seu caderno... Não a moral cristã convencional, a qual certamente não amava e sequer olhava com simpatia, mas uma simples ética racionalista e humanista nos termos de um Sócrates ou de um Platão. Por isso esta ele tão próximo do cientificismo contemporâneo com suas pretensões anti éticas, do positivismo e, consequentemente do direito puro e de Mussolini... Admitido que nada haja em termos de essencialidade e que tudo seja mera convenção, como deixar de curvar-se reverente face ao Leviatã, seja seu sobrenome 'razão de estado' ou 'vontade geral'. Afinal a pessoa nada é... E nem se pode levar a tese segundo a qual cada um possa fazer tudo quanto queira... Pendendo o prato da balança ao estado ou a sociedade, e sem contra peso. O homem desaparece... É esmagado pelo príncipe, pelo líder, pelo ditador, pelo déspota, pelo soberano, pela comunidade... Creonte manda supliciar Antígona e tudo fica por isso mesmo. E ai de Tirésias caso ouse abrir a boca - Hobbes e Maquiavel amordaça-lo-ão... E como Fisher de Rochester ou o divino Morus irá ao cadafalso...

Enfim, lido em sua completude Maquiavel parece mesmo maquiavélico e só nos resta declarar que Gentilet, Solorzano, Ayala e outros quiçá mereçam ser lidos com um pouquinho mais de atenção ou complacência...

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

O critério da boa política 'sicut' Aristóteles

Segundo o pensamento contemporâneo é a forma que dá legitimidade a política, no caso a forma democrática. Para os teóricos da modernidade a democracia corresponde a uma espécie de estrutura 'Revelada' ou sagrada e sua negação, seja por via da aristocracia ou da monarquia equivaleria a uma heresia.

Claro que os ingleses que são um povo por temperamento tradicional, em dado momento de sua História formularam um sistema eclético chamado parlamentarismo. Por essa solução mantem-se a velha forma monárquica, esvaziada do poder e implementa-se uma democracia.

As demais Sociedades optaram por soluções mais drásticas. Baniram a monarquia ou a aristocracia, como se queira, e estabeleceram o que chamamos de República mas que é na verdade o presidencialismo, se bem que mais tarde tenham se produzido um sincretismo entre a República e o Parlamentarismo.

Os EUA adotaram o modelo republicano presidencialista, organizado-o a sua moda. E endossaram a fórmula de Rousseau segundo a qual a soberania parte sempre da vontade popular ou que todo poder pertence e parte do povo, ao qual cabe escolher representantes para si, efetuando a transferência de poder por meio do voto ou das eleições, o que em suma remonta a John Locke. J J Rousseau no entanto insiste na vontade popular enquanto critério de legitimidade. Parece que o genebrino jamais cogitou que a vontade popular pudesse optar conscientemente pela tutela do Rei, e pior, que uma vontade popular desorientada pudesse optar pela guarda de um déspota, tirano ou ditador. Claro que ele sequer podia cogitar na teoria Freudiana sobre o sentimento de culpa ou o masoquismo.

As coisas de fato são assim e nossos juízos incidem quase sempre sobre as formas políticas. Até certo ponto isto não é um problema e alguns tem ensaiado justificativas interessantes. O problema e o grande problema é que em matéria de democracia nos habituamos a identificar nossas formas e nossos juízos com os dos antigos gregos, falseando a História.

Claro que não havia um juízo unitário entre eles, mas opiniões divergentes.

No entanto mesmo sem ser predominante a de Aristóteles era certamente uma das mais conhecidas e discutidas.

Grosso modo podemos dizer que Sócrates, Platão e Aristóteles não partilhavam deste nosso fervor em torno da forma democrática. Eram bem mais realistas, ao menos o primeiro e o terceiro, e todos os três, certamente, muito bem intencionados.

Sem chegar a ser um anti democrático Sócrates destacou-se como crítico da democracia leviana. Por democracia leviana queremos dizer aquela em que os cidadãos não precisam de preparo algum para participar, e que franqueava tudo a todos. Para Sócrates a escolha devia se dar entre homens dignos e as candidaturas abertas a todos que buscassem dignificar-se pelo saber, pela habilidade, pela perícia... Temos aqui uma democracia responsável ou com condições e certamente um tema bastante atual. Afinal a inserção das massas na democracia - das massas incultas e despreparadas (sic) - sempre poderia degenerar em Oclocracia.

Platão como todo sabem não acreditava nas formas democráticas, e sim o ofício do ditador/educador, tendo inclusive chegado a crer numa organização social fixa e imutável conforme o modelo das formigas ou termitas. Nesta Sociedade desigual a chave seria a colaboração entre as castas.

Aristóteles não é nem democracista nem adversário a democracia. Mas ele não acredita que qualquer modelo de política deva ser julgado pela sua forma. Homem genial ele imaginava que cada cultura, povo ou nação haveria de identificar-se como determinada forma. Melhor dizendo - Acreditava que qualquer grupo social podia tentar compor e recompor as três formas ecleticamente e assim produzir uma forma adequada a sua realidade. E desconfiava das soluções tipo bula de remédio ou receita de bolo.

Quanto a julgar as formas ou estruturas a demanda por um critério fez com que ele conceitua-se o que chamamos de 'Bem comum'. Desde então a política de modo geral foi conectada com a doutrina do bem comum, em oposição ao interesse particular. Foi Aristóteles que acenou com uma distinção mais nítida entre o objeto da política ou o que chamaríamos de público - em latim 'res publica' coisa pública - e o que chamaríamos de privado e que posteriormente seria reservado a ação pessoal.

É o BEM COMUM aquilo que é útil ou benéfico a todos os habitantes de polis i é da cidade.

Conforme a doutrina do Filósofo existiriam três formas ou estruturas, ambas politicamente admissível ou aceitável e três formas corruptas ou adulteradas que corresponderiam a um desvio por parte das formas aceitáveis. O padrão que separaria umas das outras seria, como já foi dito, o bem comum.

Segundo aduzimos de seus escritos a Monarquia corresponderia ao governo de um só homem, tendo por objetivo O BEM COMUM. E este objetivo a faria legítima. A Aristocracia corresponderia ao governo de parte ou de alguns tendo em vista O BEM COMUM. Já a Democracia corresponderia ao governo de todos ou da maioria tendo em vista o mesmo BEM COMUM.

Em oposição a estas formas teríamos a Tirania, que seria o governo de um só tendo em vista seus interesses particulares. A Oligarquia seria o governo de alguns tendo em vista os mesmos interesses particulares. A Demagogia enfim seria o governo de muitos tendo em vista o mesmo fim, a saber, interesses particulares.

Por ai se vê que Aristóteles partilhava da crença de Platão quanto a possibilidade de um monarca, absoluto inclusive, interessar-se pelo bem estar ou pela qualidade de vida dos cidadãos. Como acreditava que um grupo qualquer fosse capaz de encarnar este ideal de abnegação.

Necessário dizer que partindo de semelhante juízo fica impossível estabelecer o dogma da necessidade absoluta da democracia. O máximo é que se pode chegar dentro da linha de raciocínio de Aristóteles é que a democracia, sem ser a única forma autorizada, seria a forma mais segura, eficaz ou excelente pelo simples fato de corresponder a um maior número de cidadãos pensantes, o que nos levaria ao adágio 'várias cabeças pensam melhor do que uma.'. Segundo esta perspectiva a democracia, sem corresponder a única forma ortodoxa, seria a que nos ofereceria melhores garantias. Isto é deduzível a partir do pensamento aristotélico, o jacobinismo radical ou democraticismo, de modo algum.







segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A formação da política inglesa, a ascensão e queda do socialismo/trabalhismo

Este artigo esta fundamentado nas obras dos seguintes autores:

  • Harold J Laski
  • Christopher Hill 
  • Eric Hobsbawm
Dentre outros


Como quase todos os países europeus (Portugal, Espanha...) também a Inglaterra possui uma tradição aristocrática ou democrática - como queiram - que remonta a idade Média, as cortes, aos barões, aos municípios, etc No caso específico da Inglaterra esta tradição cristalizou-se na carta magna de 1215 assinada por João sem terra.

No entanto não é menos certo e exato que esta tradição ou espírito foi completamente obscurecido pela ascensão do absolutismo tudoriano em meados do século XVI. Mais do que em qualquer outro pais talvez, a presença da igreja romana na Inglaterra constituia uma espécie de 'poder moderador' situado entre a alta nobreza e o 'povo' ou entre a coroa e os nobres, buscando sempre conciliar as partes em conflito e evitar a concentração unilateral de poderes.

Assim sendo, quando Henrique VIII, estabelece uma igreja nacional ou independente (e este não é o problema) e submete-a a si (o problema é este) convertendo a fé em departamento de Estado e arvorando-se - como sustenta Hobbes - em chefe da igreja ou em 'Bispo secular' este equilíbrio é subitamente rompido em benefício da coroa e desta acumulação de poderes espirituais e temporais origina-se uma autocracia bastante forte.

Todavia essa mesma revolução que conferiu poderes absolutos da monarquia alimentou também seus inimigos que são esses burgueses enobrecidos pela posse das terras até então pertencentes a Igreja. Isto porque a coroa não tomou posse da totalidade delas mas partiu-as entre seus apoiantes e esses apoiantes, ao menos em parte, transformaram tais riquezas em capital primitivo, investiram e consequentemente aumentaram seus lucros, sua riqueza e seus poderes. A ponto de em cem anos poderem quebrar o absolutismo real, desafiar a coroa e a igreja, decapitar o rei e criar a primeira república em moldes burgueses de que temos notícia, isto pelos idos de 1649.

Evidentemente que ao tempo de Henrique, suas filhas e mesmo de Tiago I ninguém cogitava a respeito de um futuro tão insólito. No entanto ao mesmo tempo que aumentavam seu poder econômico os senhores burgueses afastavam-se da poderosa igreja nacional, pelo que a oposição política como sói em tais ocasiões converteu-se também em oposição e controvérsia religiosa entre os Bispos da coroa e os puritanos. Aqui misturaram-se os elementos econômicos e religiosos numa amalgama que em certo sentido esboça nossa visão culturalista da História.

A burguesia puritana, que há cem anos apropriara-se - com as graças de sua majestade - do espólio papista, aspirava agora apropriar-se das 'terras comunais' pertencentes aos campônios e desaloja-los de suas pequenas propriedades aumentando inclusive a oferta de mão de obra servil. Aqui no entanto suas pretensões chocaram-se com a opinião dos Bispos chefiados pelo grande Dr W Laud. Além de ter percebido a relação existente entre o poder econômico e o puritanismo, o velho Bispo anglicano percebeu igualmente que o controle de mais terras aumentaria ainda mais a riqueza e o poder dos puritanos a ponto de ameaçarem a um só tempo a Igreja episcopal e a coroa. Em que pese a tardança Laud convenceu o rei a atalhar e dificultar o acesso dos Lordes a tais terras...

Segundo a mentalidade episcopal e inglesa o argumento contrário as aspirações monopolistas dos puritanos foi retirado da 'tradição' atraindo de imediato a simpatia do povo, especialmente dos camponeses. Mais uma vez formou-se a conhecida aliança Coroa + povo contra a nobreza ou Monarquia + 'democracia' (permitam-nos esta liberdade) X aristocracia (de sangue e grana). O elemento de 'contato' entre a coroa e o povo foram os bispos do Estado chefiados por Laud e o veículo deles as igrejas, missas e sermões.

Desde então a Sociedade inglesa ficou completamente cindida em dois campos, os realistas, de modo geral papistas e anglicanos e campônios, e os rebeldes, de modo geral puritanos, sectários, burgueses e pessoas de ambiente urbano. Também estou disposto a crer que a maior parte dos cidadãos estivessem com a coroa. No entanto desde que a pólvora e as armas de fogo principiaram a ser utilizados, quantidade jamais foi problema em situações de guerra. Após cem anos a coroa havia dissipado parte de sua grana tomada a Igreja romana, e já não havia ameaça iminente de invasão espanhola que justificasse tributações. Esgotados os fundos e normalizada a política internacional a coroa inglesa passou a ter dificuldades para obter fundos. Pois segundo a tradição constitucional os impostos sempre deviam ser referendados pelo Parlamento... Ora formado majoritariamente pelos puritanos ou burgueses enobrecidos... Destarte como a coroa optara por dificultar o acesso deles as terras comunais e a fazer estardalhaço em torno das velhas regalias medievais de caráter popular, o parlamento optou por fechar as torneiras da coroa.

Desde então e por algum tempo a coroa passou a ter dificuldades para manter seu 'fausto'. O único caminho aqui era dividir o poder com a burguesia, recuando, satisfazendo suas aspirações e autorizando a grilagem das terras. Evidentemente que se tratava de um caminho sem volta! Pois os burgueses jamais abririam mão do poderio facultado e a coroa ficaria cada vez mais fraca até converter-se numa marionete em suas mãos ou num departamento da 'mão invisível'. O monarca britânico, confiado no apoio dos Bispos e da igreja anglicana optou por resistir e por recorrer a uma solução que lhe era facultada no sentido de obter recursos e decretar impostos a revelia de seus súditos: 'Paramentar-se', subir ao trono e como diríamos hoje baixar uma 'medida provisória' que dispensasse a aprovação do parlamento...

Os puritanos bem sabiam que caso a coroa pudesse obter recursos suplementares e 'armar-se' contra eles, seria muito mais difícil curva-la e tomar posse do poder. Portanto o empenho da coroa em obter recursos e baixar impostos de maneira 'arbitrária' deu lugar a guerra aberta, a guerra civil inglesa, ao cabo da qual os puritanos muito mais ricos e portanto bem armados esmagaram seus oponentes e derrubaram a monarquia. Desde então medidas econômicas de caráter impopular foram adotadas e os pobres camponeses esbulhados de suas terras comunais, pois Laud havia sido enviado ao cadafalso juntamente com o rei e os Bispos anglicanos postos fora da lei e substituídos por pregadores calvinistas.

Acontece que desde algumas décadas havia já em Londres e algumas outras grandes cidades uma espécie de proletariado, cuja situação era bastante precária. De acordo com uma tradição revolucionária e socialista legada pelo anabatismo (pois remonta a Thomaz Muntzer) alguns deles - eram chamados True Levellers (niveladores) ou Diggers (cavadores) - como Gerrard Winstanley principiaram a espalhar teorias e doutrinas comunistas, anarquistas e revolucionárias. O número destes panfletários anônimos não foi pequeno e o impacto de suas obras tampouco uma vez que aqueles que sabiam ler começaram a le-las em seus conventículos de modo que seu ideário tornava-se cada vez mais popular apesar da vigilância exercida por Cromwell e seus partidários. Ademais era Cromwell um lider carismático...

Seja como for o florescimento das teorias radicais não deixava de exasperar tanto aos puritanos quanto a seus adversários realistas ou anglicanos. Naquele momento não poucos foram capazes de extrair a medula do pensamento economicista liberal ou conservador segundo o qual a deposição ou a execução dos monarcas e a alteração brusca das formas políticas abria caminho para a contestação da ordem social facilitando a emergência de um pensamento econômico igualitário ou socialista. A própria implementação da igualdade política sugeria a implementação de uma igualdade econômica e apenas esta aterrorizava os donos do poder. Pois no frigir dos ovos quem controla a econômica acaba sempre interferindo na dinâmica democrática e viciando-a. Democracia associada ao liberalismo econômico é coisa que não se temia pelo simples fato de converter-se em plutocracia, apesar do nome. O que se temia na verdade é que a partir da igualdade política o povo além de deduzir uma igualdade econômica e, habituado a mudanças, passasse a lutar por esse ideal.

Noutras palavras o povão sempre poderia imitar a atitude dos burgueses e nobres e ataca-los da mesma maneira como eles haviam atacado a monarquia e deposto o rei.

Tudo levava os senhores ingleses a crer que as coisas tomariam este caminho, portanto cumpria atuar rapidamente e - pasme o leitor - dividir o poder, reconciliar-se com a monarquia e empossar um rei. Importava apenas que o poder daquele rei não fosse mais absoluto mas regulado pelo parlamento. Tratava-se de uma tentativa de composição entre a monarquia e a aristocracia ou de um modelo misto, germe das monarquias constitucionais e do parlamentarismo, cujas formas foram sendo delineadas após a restauração no decorrer do século seguinte (XVIII). Tudo quando podemos adiantar é que se trata da retomada da forma mista preconizada por Políbio segundo o modelo romana e que o primeiro delineamento teórico foi esboçado por John Locke. A esta composição entre monarquia e aristocracia (de sangue e grana) batizaram como democracia, trava-se no entanto de um 'liberalismo político' não democrático pelo simples fato de que o povão ainda não tinha como inserir-se.

Claro que a atitude dos puritanos foi acolhida de braços abertos pelos realistas. Afinal após a derrota e a execução do monarca eles haviam perdido o poder e não estavam em condições de negociar ou de exigir qualquer coisa. Sendo assim a monarquia consentiu em representar a velha farsa e em transformar-se em espantalho da democracia popular e do socialismo contendo as massas supersticiosas, ao menos por algum tempo, no respeito. A monarquia foi oficialmente restabelecida e todos acharam por bem fingir e afetar respeito para com a pessoa 'sagrada' do monarca. Todavia deste então as decisões políticas passaram a ser cada vez mais tomadas pelos líderes burgueses ou seja pelos membros do parlamentos e primeiros ministros após terem consultado e ouvido os banqueiros e industriais.

Graças a esta estratégia, que é uma pérola do primitivo pensamento conservador, o espectro de uma Revolução nos moldes populares de uma Revolução francesa pode ser conjurado por mais de século e no caso de Albion até os dias de hoje.

Todavia ainda faltava um elemento e o mais delicado e perigoso.

Afinal o próprio progresso técnico e necessidade de lidar com máquinas cada vez mais complexas, com o fluxo de compra e venda, com pagamentos de salários, etc determinou que ao menos parte dos proletários tivessem de receber uma instrução básica em termos de escrita a cálculo. A própria demanda administrativa gerada pelo capitalismo impedia que todos fossem mantidos na ignorância crassa tal como no século precedente e segundo as aspirações de Voltaire. Ao menos alguns precisavam receber uma formação sumária. O problema foram as novas perspectivas franqueadas pelo letramento de parte das massas. Afinal quem é que garantia que tais homens limitar-se-iam a ler apenas as planilhas, os livros e firma e a Bíblia?

No caso da França um letramento insipiente foi o quanto bastou para que as ideias revolucionárias suscitadas pela teoria democrática se alastrassem muito rapidamente entre as massas, já porque havia o recurso da leitura comum realizada em conventículos. Em que pesem as fiscalizações, restrições e intervenções punitivas da coroa. Solapada pelos ideais democráticos a monarquia francesa também veio a cair em 1789 e embora os girondinos, que representavam a alta burguesia nacional, forcejassem por conter a revolução nos limites do constitucionalismo e dos moldes ingleses tradicionais seus titulares foram encarcerados na torre e decapitados. Tal e qual os espertos girondinos temiam após a morte do monarca e a adoção de um republicanismo radical principiaram mais uma vez, como cem anos antes, a fermentar ideias de caráter socialista e anárquico (no sentido de uma democracia mais popular ou direta). E eis que surgem os Herbetistas e enfim os babovistas, herdeiros de Robespierre. O qual por sinal acabou decapitado...

Desde então a burguesia reassumiu o controle e guilhotinação no sentido de conduzir a república a seus limites normais i é políticos e evitar quaisquer transformações de caráter econômico.

Mais uma vez os argutos ingleses, herdeiros de um pensamento conservador atilado, perceberam os 'sinais dos tempos' deduzindo que era necessário adiantar-se e fazer uma nova composição (recomposição) de poderes ou assistir o desabrochar de uma catástrofe sem precedentes. Ademais a Sociedade inglesa estava bastante vulnerável ainda em razão da Guerra da Independência Norte Americana. Sob o impacto deste trauma e a ameça de algumas pequenas rebeliões e levantes isolados os lordes ingleses puderam compreender perfeitamente o sentido da 'fumaça' o que havia na base. O fogo deveria ser apagado a qualquer custo. Urgia implementar o pão e circo (afinal inglês algum toleraria ser enviado aos 'brioches' pelo monarca!) e incorporar certo elemento verdadeiramente democrático a estrutura do poder.

Para os lordes ingleses esta constatação deve ter causado profundo impacto e produziu verdadeiro trauma porque exatamente naquele momento cogitavam revogar por completo todas as poucas leis sociais remanescentes do período medieval e estabelecer o regime da concorrência ou livre mercado segundo os cânones clássicos de Smith e Ricardo. Logo dar poder ao povo naquele momento bem podia significar um entrave a este projeto. Felizmente o pão e circo das leis assistenciais pareceu surtir efeito, ficando as reformulações proteladas... Até que surgisse algum perigo. Mesmo porque os guardiães ingleses eram hábeis em identificar os perigos.

Curiosamente uma nova reação popular, alias bastante compósita e intensa, só veio a ocorrer após os lordes terem revogado as leis assistenciais e introduzido a dinâmica capitalista nos já citados moldes clássicos. Desde então a lutra revestiu-se de dois aspectos: a revindicação da ampliação do liberalismo político num sentido cada vez  mais democráticos e a partir da ampliação do poder político das massas a revindicação de mudanças econômicas opostas as aspirações do capital. Assim a luta inglesa foi a um tempo politica e institucional e a outro econômica. E eles usavam do poder politico adquirido para golpear o liberalismo econômico ou restringi-lo. Esta política contou com o apoio de um grupo ideologicamente bastante heteróclito formado por Anglicanos da alta igreja, metodistas, 'Católicos' sociais, espíritas, deístas, ateus, alguns quackeres e anabatistas, etc Religiosamente a resistência capitalista teve por janízaros os calvinistas (antigos puritanos) e sectários.

Como naquela dinâmica havia uma compreensão mútua entre as partes o processo encaminhou-se justamente naquela direção já prevista pelos ancestrais do conservadorismo e consistiu em abrir mais e mais a brecha feita pela democracia até conter as pretensões do liberalismo econômico e - algumas décadas antes de J M keynes - implementar um estado de bem estar social representando por um aparelho de inclusão e promoção humanas. Queremos dizer com isto que os liberais não estavam dispostos a questionar a viabilidade da democracia até a exasperação de seus contrários e o estourar de uma Revolução nos moldes da temida Revolução Francesa cujo fantasma sempre perseguia-os. Então eles conheciam os limites da resistência e até onde podiam ir sem maiores perigos. Grosso modo toda política inglesa ulterior, pautada na negociação e na conciliação a partir de uma estrutura eclética teve como parâmetro a Revolução Francesa. E quando a Revolução Francesa sai de cena pelos idos de 1900 estoura outra revolução não menos virulenta, a Russa.

A bem da verdade quando a Revolução Russa estoura em 17 o modelo trabalhista inglês ou modelo anglo saxão de bem estar social já estava completamente acabado. No entanto o fato de ter sido mantido por quase um século, até a era Tatcher que corresponde a sua demolição só pode ser compreendido a luz da Guerra fria e do receio instintivo dos ingleses face a simples possibilidade de uma nova Revolução. Os ingleses sempre foram bastante práticos, jamais perderam a cabeça e sempre souberam que eram melhor negociar e perder parte de seus privilégios ou compartilha-los do que perde-los por completo. Neste sentido souberam ser inteligentes.

Por isso que desde 1880 e ao cabo de um século adotaram um modelo socialista de bem estar e o mantiveram premidos como encontravam-se por duas Revoluções, a francesa e a russa. Eles sabiam que após ambas as revoluções o mundo não seria mais o mesmo e que a totalidade das antigas organizações não podia ser mantida. Como os passageiros de um avião que esta a cair lançam fora as bagagens eles sabiam que precisavam sacrificar algo e alterar e recompor seu modelo econômico. Dai esta associação eclética entre monarquia (elemento tradicional e simbólico), aristocracia (elemento financeiro) e democracia (elemento popular), que muitos tem em conta de genial. Que semelhante estrutura política propiciou a restrição das ambições capitalistas e consequentemente a implementação de um modelo socialista nos domínios da institucionalidade e portanto sem efusão de sangue e destruição de patrimônio cultural ninguém pode negar.

Dirá o amigo leitor que estou enganado pois o modelo trabalhista inglês acabou sendo demolido e a tal 'Revolução pacífica' ou institucional revertendo mais uma vez ao capitalismo. Neste caso eu lhe pergunto a respeito da Revoluções agressivas ou violentas. Qual delas não acabou revertendo?

A francesa reverteu em questão de alguns poucos anos após a morte do 'incorruptível'... A Russa manteve-se por cerca de setenta anos... A mexicana perdurou por trinta e seis anos (até 1946) apesar do saldo de dois milhões de mortos. Assim se a situação política e econômica da Grã Bretanha acabou revertendo ao menos a implementação do novo modelo (trabalhista) fora feito pacificamente, sem que um único cidadão tivesse de perder a vida. 

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

A sexta monarquia... ou a afirmação das monarquias tupiniquins

Depusemos D pedro II.

Novos tempos.

Era necessário arquitetar uma nova estrutura mais evoluída, algo semelhante a República ou democracia.

Incoerentes não começamos por criar uma cultura democrática.

Quero dizer que não realizamos um plebiscito consultando os interessados i é o povo, a sociedade, os brasileiros.... indagando se preferiam a monarquia ou um novo regime.

Penso que seria contra producente. A monarquia venceria.

Por isso fizemos um golpe e impusemos anti democraticamente a forma republicana.

Sobrepusemos uma forma republicana a uma cultura ou imaginário monárquicos arraigados por uma tradição secular.

Do que resultaram diversos golpes e reversões ditatoriais; sempre tendo em vista 'salvar' a democracia....

Chega a ser uma história rocambolesca a destes golpes de 91, 30, 64...

Disse que a monarquia sairia vencedora num plebiscito e por diversas razões.

Uma delas por sinal psicológica e relacionada até certo ponto com o sucesso deste regime proclamado velho, antigo, ultrapassado...

Não eu não sou monarquista, pelo contrário, sou policrata, ou seja, adepto da democracia direta.

No entanto como dialogo com a cultura numa perspectiva realista busco compreender as razões da monarquia.

E fazer justiça ao velho Pedro II, o Imperador democrata...

Justiça é algo que se faz a qualquer um independente da ideologia, da crença, do partido, da concepção social, etc

Torne-mos porém as razões da monarquia ou melhor a razão, porque contentar-me-ei com assinalar uma apenas.

Parte das pessoas tendem a encarar os governantes, mesmo os representantes da democracia formal, como cuidadores, enfim como substitutos de seus pais...

Ninguém melhor do que o rei ou a rainha com sua presença constante encarna a imagem do pai ou da mãe.

Para alguns esta relação parece ser reconfortante.

Pois o pai é alguém que não apenas cuida mas em certo sentido livra-nos da responsabilidade e protege-nos da liberdade na medida em que decide as coisas por nós.

Sempre que errar poderemos culpa-lo.

Jamais nos tornando culpados.

Por incrível que pareça certo número de pessoas aspira porque outros tomem decisões no lugar delas. Não estão preparadas para optar, decidir, julgar, determinar, etc

Então consideram vantajoso ser tuteladas.

Sentem-se protegidas inclusive.

Trata-se com certeza de pessoas imaturas, que não cresceram interiormente, que não desenvolveram suas capacidades.

Pessoas inseguras desejam que a existência de seus pais prolongue-se para sempre.

De modo que continuem a decidir por elas.

Exceto no caso de se casarem com um cônjuge autoritário que reproduza a relação nos mesmos termos de dependência.

Quando não há alguém que controle e decida apegam-se a imagem genérica do pai, assim a do papa, assim a do rei...

O qual passa a ser identificado com o Pai dos crentes ou com o pai comum da nação...

Nem se pode negar que para algumas mentes demasiado leves esta imagem deste pai comum fortaleça e consolide os laços sociais...

A fantasia cria laços artificiais sem que haja qualquer relação ontológica ou essencial. A função social no entanto é preenchida... e possíveis conflitos inclusive, suavizados, pela presença da imagem paterna no governante.

De minha parte não posso deixar de considerar este tipo de relações apolíticas com decorrências políticas ou de relação política disfarçada como algo bastante primitivo e vulgar.

O homem ou a mulher amadurecidos devem assumir o ônus da liberdade e da responsabilidade fazendo suas opções tanto na esfera da vida privada como na esfera da vida pública, neste caso exercendo a cidadania e objetivando administração do bem comum.

Devem ser formados para a cidadania desde pequeninos na perspectiva da cultura. Implica que os pais criem seus filhos para o mundo ou para a vida, para os outros, para a autonomia... Os pais no entanto tem dificuldade para compreender esta dimensão democrática da educação e visam, ao menos parte deles, manter os laços de dependência e sob a forma mais estrita.

E criam cidadãos dependentes... excelentes para as monarquias asiáticas ou para as necessidades artificiais do mercado, mas inaptos para a gestão democrática da comunidade.

Morto o pai sobrevive na figura do rei...

A sobreposição arbitrária de uma forma republicana sobre este tipo de cultura mostra-se sempre inócua.

De modo que em qualquer situação de crise ou perigo o 'ditador' ou déspota é acolhido entusiasticamente como salvador da pátria.

Não as pessoas não aspiram por ser autoras de sua redenção.

O neo Cristianismo - com a ideia monergista de que deus salva o homem sem o homem e de que o homem nada tem a fazer- a seu tempo, reforça ainda mais esta concepção comodista segundo a qual devemos esperar uma salvação a ser dada por outro sem que nada tenhamos a fazer...

E perpetua esta cultura de pais salvadores...

Nem somos capazes de encarar a nós mesmos como agentes da redenção comum.

Tudo nos leva a repousar nos braços da monarquia ou da ditadura como em berço esplêndido.

Evidência de que a cultura permanece e prevalece temos a mão cheia...

Servindo inclusive a propósitos ideológicos.

Por menos que aprecie a monarquia devo reconhecer que tal rei tal povo.

O povo tende a assimilar os costumes de seu modelo, o rei.

Eis porque preferiria um Pedro II, o erudito barbado que frequentava as sessões do I H G B, a um rei imbecil, estúpido ou degenerado.

Se há que se ter rei e nobres que sejam probos, virtuosos, honestos... enfim dignos de imitação pelos méritos do espírito cultivado e não uns porcos de Circe, como diria Sócrates.

Em tais esquemas hierárquicos a virtude tende a ser assimilada verticalmente.

Melhor que os reis e príncipes sejam temperantes, operosos, justos, bondosos, pacíficos, instruídos, amigos da ciência...

O velho Pedro II foi mais ou menos tudo isto. Foi melhor que muito presidente, a exceção talvez de Getúlio, Juscelino, Jango e Lula. FHC não dá a unha do dedo mindinho do grande monarca bragantino...

Eis porque a cultura reteve certo saudosismo da monarquia qual fosse nossa Belle Époche tupiniquim...

Ficou o costume de designar pela alcunha de rei aquele que na Sociedade destacava-se dos demais; assim rei da voz para o melhor cantor e rei do gado para o melhor pecuarista...

Disto apropriaram-se os meios de comunicação de massas, especialmente a TV globo com o intuito de a um tempo resgatar e fortalecer este imaginário decadente e a outro com o intuito de influenciar negativamente o povo, tornando-o mais bronco, deseducado, alienado e rude.

Forjou pois a imprensa falsas monarquias de caráter plebeu e profano colocando-as a serviço de falsos valores.

Eis porque ouvimos constantemente as expressões: 'rainha dos baixinhos', 'rei da melodia', 'rei do futebol'... designando estes falsos monarcas da vulgaridade.

Particularmente nada tenho contra a sra Maria da Graça Xuxa Menegel, absolutamente nada. Muito pelo contrário até chego a admira-la por sabe-la solidária face ao sofrimento e a dor alheia e mantenedora de diversas instituições benemerentes. Além de sabe-la perseguida e caluniada pelos fanáticos religiosos.

Nem por isso aprecio-lhe como cantora ou dançarina; embora algumas de suas músicas tenham certo encanto e sejam úteis para entreter as crianças.

Nem por isso posso encara-la como uma espécie de rainha das crianças ou dos pequeninos.

Implicaria reconhecer que todos os pequeninos teem os mesmos gostos e que todos devem apreciar o tipo de ritmo cultivado por ela...

Considero esta promoção de um culto pessoal e acrítico na fase infantil da existência como algo perigoso senão nocivo. O mito fica enraizado e o 'ídolo' passa a ser encarado como uma espécie de super homem ou como uma espécie de criatura sobre humana... podendo ser transferido para o plano político ou religioso muito facilmente e com consequência catastróficas.

Não são súditos ou bobos de corte que devemos formar mas seres humanos criativos, autonomos e com iniciativa própria.

Triste ver como nossas meninas e garotas vão ficando padronizadas na medida em que imitam os gestos e expressões da tal rainha...

Compreendo até que seja uma fase. Coisa a ser superada e suplantada não alimentada.

No entanto há coisa muito pior do que a realeza do X...

Tomemos o sr Braga, digo Roberto Carlos. A imprensa ousa proclama-lo como rei da música com que direito? Alguém disse, a imprensa reproduziu e os demais continuaram a repeti-lo como um dogma, em que pese haver vozes muito mais belas e cultivadas do que a sua, como a do falecido Agostinho dos Santos ou a do nosso Mauricy Moura, dentre outros é claro.

No entanto após a TV globo imprimir o rótulo ou a etiqueta, fica o personagem entronizado e já não se pode questionar a realeza artificial e ficticia sem acirrar os ânimos da massa.

Importa questionar a quem aproveita tais títulos.

Quem lucra com eles?

Obviamente que atendem a uma necessidade variegada, a qual não é estranho o Mercado!

Compra-se aquele disco, fita ou DVD porque é do 'rei' e não aquele outro porque é de plebeu.

E não se dá qualquer chance para o plebeu provar que canta melhor ou que seu repertório é mais belo porque o título de rei concedido pela imprensa condiciona a maior parte das pessoas.

É um tipo de canonização profana destinada a eliminar o senso crítico.

Deve-se gostar do 'rei' afinal todos dizem que é o 'rei' e até fica chato discordar!

Cria-se um culto.

Já não é questão de música, mérito, beleza ou valor mas de mística, como aquela que envolve roupas e produtos.

Ser 'rei' coroado pela mídia equivale a ser de marca, trás assim a enganadora mística do nome.

Afinal que é um nome?

Até os monarquistas mais zelosos conviriam que o que faz um rei não é o nome ou o título mas a pessoa ou seja conduta.

Assim o 'título' de rei não é garantia absoluta de qualidade.

Ivan IV o terrível foi rei... como Henrique VIII foi rei...

Midiaticamente falando no entanto ser coroado rei por meio de um pacto é a melhor garantia de sucesso e lucro.

Há no entanto coisa bem pior.

Porque duma maneira ou de outra tanto a citada apresentadora loira como o sr Braga parecem-me cidadãos mais ou menos virtuosos, e nada há que pese muito gravemente sobre suas reputações.

Toquemos agora ao monarca supremo ou imperador midiático, o tal rei do futebol, sr Edson Arantes do Nascimento. Nada temos de pessoal contra ele.

Não o conhecemos. Conhecemos de vista sua mãe Dna Celeste, senhorinha que julgo tão boa quanto minha veneranda mãe.

Como não apreciamos modas ou imposições sociais nem de futebol gostamos.

Nem podemos negar ou julgar o talento deste sr como jogador. Não o pretendemos, não ousamos, não podemos...

Sapateiros não ultrapassamos os sapatos!

Todos sabem no entanto que o Brasil contou com muitos outros futebolistas de valor.

Quando era menino recordo-me de Zico, de Sócrates e outros.

No passado remoto houve um Friedenreich 'el tigre' e mais próximo de nós um Garrincha.

Não entendemos bem o assunto mas julgamos que a escolha do sr Pelé deva ser puramente subjetiva e não objetiva.

Até somos levados a crer que este mito foi construído com finalidade social e política pelo simples fato do sr E A N ser negro.

Afinal sabemos muito bem que após a abolição formal da escravatura proclamou-se a República sem que os negros alforriados tirassem qualquer proveito disto.

Alias parte dos apoiantes do novo regime compunha-se de escravocratas paulistas malquistados com a princesa Isabel e sedentos de vingança. Triste fato, mas real...

Falou-se muito em liberdades mas os negros ficaram ai largados ao deus dará ou a ver navios.

Programa algum foi elaborado tendo em vista sua inserção na boa sociedade brasileira. Oportunidade ou chance alguma lhes foi dada.

Até serem implantadas as 'cotas' para afrodescendentes com grande escândalo por parte das elites brancaronas.

A propósito das políticas afirmativas introduzidas pelo governo dos trabalhistas a partir de 2003 ocorre-me a famosa frase de Jacob Gorender: 'No Brasil, implementar pequenas reformas é ser revolucionário.' devido ao caráter ferozmente conservador de nossa sociedade patriarcal e latifundiária. Caráter que o fundamentalismo religioso emergente veio a fortalecer ainda mais nos últimos anos.

Tornemos porém ao mito do Pelé; jovem negro de origem humilde que fez carreira e tornou-se milionário jogando bola...

Como o negro não havia sido inserido na Sociedade brasileira, encontrando-se discriminado e posto a margem dela, forjou-se um mito, o mito Pelé.

E este mito contém uma mensagem perigosa:

"Qualquer jovem negro ou pardo da periferia pode vencer na vida e tornar-se milionário jogando futebol OU SEJA SEM A NECESSIDADE DE DEDICAR-SE AOS ESTUDOS E INSERIR-SE NO MUNDO ACADÊMIA."

Formação superior, escola, estudo... para os meninos brancos filhos das elites. Ao negro ou pardo ficava a esperança ou a ilusão de tornar-se rico e famoso jogando futebol.

Os resultados desta mensagem subliminar ou deste currículo oculto os professores que atuam na periferia sabem de cor. Parte da clientela masculina, especialmente negra ou parda, preocupa-se apenas com as aulas de educação física, as quais por sinal, resumem-se a partidas de futebol. Quanto as demais categorias de estudos é comum ouvi-los declarar: "Não preciso estudar isto, vou ser jogador de futebol como o Ronaldo ou o Neymar!"que são os meninos de periferia que substituiram o Pelé no imaginário deles.

Não poucos sonham com o ficar facilmente ricos, ir para o exterior e namorar moças brancas ou mesmo loiras, residentes em 'locais melhores'....

Trata-se de algo muito triste mas o educador que trabalha com a clientela mais humilde, via de regra, não tem foco no vestibular ou na faculdade. Já exauridos pelo trabalho não cuidam fatigar-se e sacrificar-se ainda mais estudando... afinal puseram em suas cabecinhas de vento que há um modo muito mais facil de vencer na vida: tornando-se craque de futebol como o Pelé...

No entanto quantos e quantos Pelés existem no Brasil???

Em que isto muda uma realidade social partilhada por milhões???

Há única coisa que poderia muda-la seria a democratização do ensino compreendida como acesso livre e igualitário a educação superior.

É isto que os afrodescendentes deveriam cobrar e por isso que deviam mobilizar-se ao invés de manterem seus olhos e os de seus filhos fixados neste ídolo de pés de barro que é o sr Pelé.

Neste sentido a gênese do mito Pelé é essencialmente reacionária.

Por injetar falsas esperanças em nossos jovens de periferia e faze-los abdicarem da única esperança concreta que teem: a instrução, a formação a educação superior.

Agora como as esperanças falsas vão morrendo precocemente ao curso da vida, ao mito do Pelé e a ilusão do futebol sucede muito facilmente a imagem do Fernandinho Beira mar (ou do líder da boca mais próxima) e a ilusão do tráfico com a mesma promessa de acesso facil a riqueza.

Resta-me finalizar deplorando a atitude deste falso monarca que não soube ser pai - logo ser humano - por ter repudiado até o fim a sra Sandra Arantes do Nascimento sua filha ilegítima.

Que tenha tido uma filha bastarda é plenamente compreensível e até comum no cenário cultural brasileiro.

Agora saber ter uma filha em tais condições e renega-la até o fim de seus dias; carne de sua carne e sangue de seu sangue é absolutamente monstruoso. Notório pela falta de ética ou como se dizia antigamente pela imoralidade.

Se este homem é rei, só pode ser rei da imoralidade, da crueldade, da vileza...

O pior no entanto é que as massas guiadas pelos meios de comunicação e pela propaganda, assimilam o comportamento destes falsos monarcas, idolos podres e mitos inconsistentes... e vai degenerando a Sociedade de geração em geração.

Tornando-se mais individualista, mais intemperante, mais insensível, mais rude e mais grosseira.

Em tempos de Pelé D Pedro II não faz mais escola!