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quarta-feira, 15 de março de 2023

Psicologia, psicanálise, Freud e a questão da multiplicidade de existências - Reflexões sobre a obra de Hermínio C Miranda 'A memória e o tempo' Edicel 1984 - Parte I

Ao passar por uma Banca de Jornais - Esta convertida e Bazar enquanto outras tantas foram convertidas em mini Shoppings por obra e graça do mundo digital. - avistei uma pilha de livros velhos, da qual extraí um bom número de volumes interessantes, dentre eles uma brochura esverdeada, de umas cento e cinquenta páginas e intitulada 'A memória e o tempo'. Nem é preciso advertir de que a comprei e também os mais volumes interessantes, num total de vinte e poucos.

Havia, dentre eles, a Biografia completa do sr Kardec por Zeus Wantuil em três alentados volumes, dos quais eu havia tido um só e perdi há muitos anos. Diversos volumes de Parapsicologia, alguns volumes do Herculano Pires, um do Bozzano, etc E como disse fiz a ceifa.

Quiçá alguns tenham já concluído: Quanta baboseira ou que desperdício... Julgo porém que, ao contrário do genial Karl Sagan, diriam a mesma coisa da Odisseia de Homero, do Teatro de Sófocles ou da República de Platão. Refiro-me aos materialistas crassos, aos positivistas inveterados e aos cientificistas a exemplo do falecido Mário Bunge, enfim de toda essa gente que jamais fora capaz de escrever uma opereta medíocre ou um draminha satírico - Gente tão alienada quanto a outra gente que tanto gostam de criticar.

A exceção das baboseiras esotéricas - Que se embrenham pelos campos da História, da Geografia ou da Astronomia. - divulgadas por Churchward, Posnansky, Braghine, Donnely, etc leio praticamente tudo. 

Há mais de trinta anos tomei por divisa está pequenina frase: "Examinai tudo e ficai com o que proveitoso é." e dela não me aparto. Tanto isto é verdade que, mesmo não sendo adepto das Ideologias ateísta e materialista, bem como da mística positivista. contínuo a ler diversas publicações congêneres tendo em vista garimpar algumas coisas boas e formular uma visão de mundo, quanto possível mais equilibrada.

Naturalmente que leio muito Freud, o qual apesar de seus erros, alguns dos quais aberrantes - ainda me encanta. E Darwin, e Marx, e Weber, e Malthus, etc na medida em que a leitura dos clássicos me permite. Nada do quanto seja humano ou mesmo natural me é indiferente...

Claro que a exceção da fé Cristã não respeito Ortodoxia ou sistema algum - Embora admire certos construtos como o de Sócrates, o de Aristóteles, o de Malthus e o de Max Weber - pelo simples fato de saber que não existem seres humanos infalíveis... Sou sinceramente Católico Ortodoxo por julgar que tal sistema, quanto a sua parte mais íntima (A dogmática) seja divina ou Revelada por Deus. No campo da própria Teologia sou já rebelado e portanto suspeito...

Portanto não creio em ortodoxias, sistemas fechados, místicas secularizadas ou igrejolas humanas... 

Concordo portanto com os agnósticos, filhos de Huxley, quando apresentam o ateísmo e o materialismo como são i é como elaborações metafísicas e tão metafísicas quanto o teísmo e o espiritualismo, pelo simples fato de ultrapassarem os dados imediatamente sensíveis em sua rude simplicidade. Excluída a reflexão racional (Metafísica) impugnada pelo rude escocês, só nos resta silenciar sobre todos esses assuntos ou calar a boca...

E não concordo menos com os espíritas, quando apontam o materialismo dos cientificistas, como igualmente ideológico e não como científico. Especialmente no que tange os domínios da Psicologia - Aqui o estrago e a tragédia são muito maiores! 

Podemos admitir sem maiores problemas que a exceção da Psicologia, a ciência ou as ciências são materiais pelo simples fato de que o campo devassado por elas é a materialidade. Cumpre-nos repetir aqui a lição do agnosticismo: Uma coisa é ter a ciência, de modo geral, como material e outra por materialista; pois ali cumpre com seu escopo> Investigar a matéria, enquanto aqui, ultrapassa a si mesma e a seu escopo, predicando - Sem mínima legitimidade! - que nada há para além da dimensão material do ser, predicação que foge tanto ao empirismo como a ciência...

Criticam os marxistas quando invadem o campo das ciências humanas, a começar pela História e pela Geografia, introduzindo sua Ideologia grande parte ideativa ou metafísica (Weber!) e sem embargo disto, imitam-nos - O Dawkins, o Harris, o Dennett e outros - invadindo o campo de ciências que por definição são exatas ou naturais e introduzindo opiniões metafísicas como se empíricas fossem ou como tivessem dado com o princípio materialista na gema do ovo ou com o ateísmo na partícula do Argônio... Mas onde encontraram e isolaram tais 'elementos''... E como os formularam sem o auxílio da 'razão' impugnada por Hume.

Bem aventurados os materialistas e ateus que não se fantasiam como cientistas, céticos ou positivistas assumindo o caráter metafísico de suas crenças mais queridas. No entanto em tempos nos quais é a Filosofia sistematicamente repudiada e a honestidade escasseia tal postura se torna rara.

Ateísmo e teísmo, materialismo e espiritualismo, etc não são questões religiosas - Que se resolvem por meio da fé ou de livros autoritativos. - e menos ainda questões científicas a serem solvidas num gabinete científico ou laboratório e sim questões de ordem metafísica a serem examinadas e julgadas por cada pessoa com máxima liberdade > Embora para tanto deva haver preparo i é investigação, pesquisa, estudo ou leitura.

Vender tais lucubrações por elementos científicos, como faz a ralé positivista até os dias de hoje, é pura e simples falta de caráter.

Por isso os espíritas e alguns romanos tem plena razão ao denuncia-los, respirando indignação inclusive.

Tanto pior o resultado dessa falsa propaganda no campo daquele tipo de conhecimento que é por assim dizer o único que foge ao estrito campo das demais ciências: A Psicologia...

Principiou a falsa ciência 'materialista' na França, com o ideólogos De Holbach, La Metrie e Clothes, dentre outros... Asseverando que NÃO HAVIA imaterialidade alguma e que a existência do espírito era falsa. Tudo quanto havia era matéria ou materialidade... Tal o materialismo crasso, formal e mecanicista dos quais muitos teóricos acharam por bem desprender-se no decorrer do século XIX quando a barquinha começou a fazer água.

No entanto os resistentes ou 'ortodoxos' asseveravam, de geração em geração, que na geração seguinte, a inexistência do espírito ou a fábula do imaterial seria rigorosamente demonstrada num laboratório. 

O primeiro foi Broussais, o francês... o qual chegou a declarar - Como Branly um século depois - que caso testificasse qualquer evento de natureza imaterial NÃO ACREDITARIA rsrsrs Após ele foi a vez do comunista Joseph Dietzgen, o qual tendo declarado que a ciência havia demonstrado experimentalmente o princípio do materialismo, foi advertido e corrigido pelo próprio Engels. Pouco depois Engels declarou que os comunistas não eram materialistas formais ou crassos pelo simples fato de não negarem a existência do imaterial e sua interação com o material inclusive. Por fim assomou o inteligente Lênin, o qual numa obra de inegável valor 'Materialismo e empiro criticismo' e opinou que não tardaria muito tempo para que o princípio materialista fosse empiricamente demonstrado.

A questão é que desde aquele tempo, a geração de Engels, os dois campos tiveram que reformular o conceito de materialismo tendo em vista sua sobrevivência no âmbito das ideias. Pois conforme a ciência progredia se tornava cada vez mais difícil o óbvio, que era a existência de um elemento imaterial ou espiritual. Eram os tempos de Ch Darwin, o qual demonstrou o princípio da Evolução no campo da biologia, abrindo novas perspectivas, das quais se aproveitaram diversos pensadores, como um Spencer por exemplo. 

A recomposição deu-se justamente nesse sentido, da evolução - A princípio existia, apenas o elemento material (Daí monismo materialista.) o qual, a cabo de um lento processo evolutivo, se foi depurando ou tornando menos denso (Espiritualizando...) até dar origem ao espírito ou ao imaterial... Portanto se havia algo de imaterial ou espiritual no mundo esse algo teria se originado a partir do elemento material, pelo que o material seria a origem de tudo. Creio que tal construção remonte inclusive a Lucrécio, mas não sei exatamente.

Em meio a tantas revoluções ou transformações o conhecimento da mente não pode deixar de cindir-se em duas correntes não apenas distintas mas rivais: O que ora chamamos Psiquiatria e a que ora chamamos Psicologia... sabendo que está última remonta a Th Fechner e Wundt e que a primeira não teve dificuldade alguma em ser reconhecida como legítima ou científica. 

Outro o caso da segunda....

Importante salientar que ainda hoje, em pleno século XXI, há ideólogos - Positivistas, cientificistas, materialistas... - que repudiam não apenas a parapsicologia, como a psicanalise e até mesmo a psicologia não colonizada ou não behaviorista, como construtos semelhantes as diretrizes comunistas ou a astrologia... Um sujeito de rara inteligente como Popper, inclusive, enredado por Hume, lançou a Psicanálise, a parapsicologia e a Evolução das espécies no mesmo balaio que a astrologia e as diretrizes marxistas, o que nos possibilita antever o caráter sectário desde tipo de mentalidade.

Outros positivistas lançam ainda História, a Filosofia, a Jurisprudência... no mesmo balaio, de modo que só seria ciência o que eles querem e do jeitinho que querem, e isso mais de século após W Dilthey ter pulverizado seus preconceitos sectários. 

Para que a crença querida do materialismo seja científica toda ciência precisa ser materialista...  Portanto caso o campo científico em questão - Pelo simples fato de ser humano e não sideral, mineral ou vegetal. - destoe do materialismo cessa por isso mesmo de ser científico ou respeitável. Engenhoso não...

Que pensem assim os físicos e químicos e ainda alguns naturalistas por serem reducionistas e paladinos da monocausalidade com as bençãos do capelão Ockhan bem se compreende. Agora que tais prejuízos se tenham afirmado no campo da Psicologia, que é uma ciência da mente, é bem outra coisa...

Durante a segunda metade do século XIX, o conflito não estourou abertamente devido as personalidades conciliadoras e respeitáveis dos já citados Fechner e Wundt. Tratava-se de um conflito apenas latente, em que a Psicologia nascente era muito mal vista e encarada com suspeição enquanto a Psiquiatria era muito bem acolhida pelos líderes cientificistas. 

Assim até os idos de 189... ou até a última década do século XIX. Período em que, após a morte de J M Charcot, a controvérsia Salpêtrière - Nancy tendia a serenar. Foi no entanto quando justamente tornou-se universal. Pois junto a Charcot estava um jovem ateísta e presumidamente materialista, S Freud, e do outro lado do Reno, Wagner Jauregg e Emil Kraepelin. 

O quanto podemos dizer é que nesse período - Ao menos até a criação do behaviorismo por Watson! - surgiu um divisor de águas entre Psiquiatria e Psicologia que possibilitou a plena expressão da última. E tal se deve, paradoxalmente, a S Freud. É com Freud que a Psicologia desprende-se, como deveria, da psiquiatria ou da determinação somática unilateral para postular a existência de fenômenos psicosomáticos. 

Até hoje, um século depois, ainda podemos testemunhar a rivalidade existente entre essas duas áreas - Psiquiatria e Psicologia, as quais para o bem dos seres humanos, deveriam caminhar juntas. A resistência no entanto é quase sempre mais viva nos domínios da Psiquiatria, partindo obviamente dos cientificistas, animados pela ideologia materialista. O resultado disto é a rejeição seja da Psicologia ou da Psicanalise por eles, e o reconhecimento exclusivo - Por motivos que nos parecem óbvios. - dessa Psicologia esvaziada e aparente chamada behaviorismo.

O behaviorismo é sempre bem vindo por qualquer psiquiatra pelo simples fato de negar a mente e por extensão qualquer coisa de imaterial ou espiritual. 

Antes da criação desse ente aberrante chamado behaviorismo, era a Psicologia repudiada em bloco por parte significativa de psiquiatras.




sábado, 15 de fevereiro de 2020

Observando o fenômeno religioso contemporâneo - Salmos, Evangelhos, seios, bundas e finalidade...


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Enquanto faço meu passeio vespertino cruzo com uns seios túmidos ou turbinados cobertos com uns versículos bíblicos tomados aos Salmos.

E como não poderia deixar de ser semelhante contemplação suscita meu senso crítico. Creio-me semelhante a diabetes que minha meu organismo, a qual me faz beber e logo em seguida ir ao vaso despejar... a semelhança do tonel das danaides... Na mesma medida em que leio, estudo ou observo sinto a necessidade de produzir algo, de registrar, de escrever ou mesmo de comunicar, embora a prioridade seja escrever para mim mesmo, e observar as futuras variações.

Por isso os tais seios cobertos por palavras que se creem divinas ou sagradas suscitaram minha reflexão.

Num mundo em que os fanáticos religiosos adoram bater na tecla da finalidade sexual - Em termos de uma estrita ortodoxia - penso que não seja honesto, mas leviano, restringir a tal finalidade a esfera da sexualidade humana. A coerência nos obrigaria a aplica-la as demais esferas da existência, assim a própria fé e seus veículos.

A leviandade e a incoerência no entanto parecem ser os pecados originais deste triste tempo.

Antes de tudo, quando contemplei aqueles seios, que muitos consideram como belos e que noutros tantos suscitam impulsos eróticos, e li as palavras gravadas sobre eles - Que bem poderiam ser: "Quem tem sede vem a mim e beba.", "Minha carne é verdadeira comida." ou qualquer frase isolada tomada aos Santos Evangelhos - não pude pensar em bundas, pênis ou vaginas... Órgãos contra os quais nada tenho em absoluto, ao contrário dos neo maniqueus.

Tudo quanto pensou Deus e chamou a existência, digno e puro é.

Pelo que não haveria maiores problemas, ontologicamente falando, em gravar tais versos, inclusive as palavras do Verbo Jesus sobre os panos ou tecidos que cobrem tais partes. Isto não me indignaria mais do que ve-las gravadas sobre os tecidos que ora cobrem peitos, barrigas ou costas... Para mim dá tudo no mesmo e não há diferença alguma. Se se pode ou deve gravar as palavras divinas sobre determinada peça de roupa destinada a cobrir uma certa parte do corpo pode-se revestir qualquer parte do corpo com tais peças, uma vez que o corpo assumido pelo Verbo Jesus é sagrado em sua totalidade e não há nele parte suja ou menos digna.

Claro que não me refiro aos Salmos ou a qualquer parte aleatória do antigo testamento, pelo simples fato de não ser judaizante ou partidário de um 'corão' cristão... A maior parte dos seios por sinal são mais puros, dignos e belos do que a maior parte das passagens da Tanak ou da Torá, inclusive dos tais Salmos. Não pelos Salmos... Pois como o grande Camilo Castelo Branco - autor do "Amor de perdição" - não os aprecio nem faço caso deles, a exceção daqueles que reportam-se profeticamente ao advento do Messias Jesus. Há por certo um sentido existencial nessas produções judaicas, há religiosidade sincera, grandeza e lirismo, o que por certo faz delas uma obra prima da literatura universal. Não o podemos negar... Todavia como Cristão, Católico e Ortodoxo prefiro e creio mais excelente a produção hinográfica do Cristianismo nascente ou medieval, assim as produções de Efraim, Ambrósio, Romanos, Prudêncio, Damasceno, Germano, André, etc O Simeron, o Akatistos, o Adeste, o Exultet, etc Em tudo isto vejo mais providência, presença do Espírito Santo, significado Cristão e fartura espiritual. Após o Evangelho é a hinografia Cristã primitiva que alimenta meu espírito. Pois o panorama ideal ou ético destes Salmos, em seu quadro geral, é bastante baixo, vulgar e grosseiro, haja visto os tais Salmos deprecatórios, cujo objetivo é amaldiçoar ou fazer mal aos inimigos, quando o abençoado Redentor obriga-nos a abenço-los, a suplicar por eles, a ama-los e a estar disposto a perdoa-los... Ora tais, Salmos, acham-se em franca oposição a este ideal sagrado e por isso, a exceção dos que apontam profeticamente para o Senhor Jesus Cristo, repito - Não faço caso deles, ao contrário dos fanáticos...

Pouco se me dá que sejam impressos em tecidos e ostentados sobre quaisquer partes do corpo humano, sejam elas bundas, barrigas ou seios. O problema aqui restringir-se-a aos fanáticos que encaram tais partes como sujas e irreverentes e os tais Salmos como divinos. Já vimos todavia que a coerência não é padrão para tal tipo de gente ou para as massas.

Outra coisa são as palavras de Jesus Cristo ou as passagens do Evangelho, as quais tomo a sério como coisa preciosa ou como regra de vida. Reconheço, como Liberal convicto, o direito de tais pessoas gravarem versos do Evangelhos ou as palavras Sagradas de Jesus sobre tecidos ou peças de roupa e cobrirem com elas quaisquer partes de seus corpos, mas, discordo resolutamente da prática, na qual não vejo qualquer sentido religioso ou espiritual. Claro que por uma questão de coerência ou de justiça, estendo esta crítica a moda, assumida pelos neo católicos ou carismáticos - Sempre levados a imitar ou assimilar práticas protestantes! - de imprimir as figuras de Jesus, da Virgem ou dos Santos sobre suas camisas ou camisetas, o que dá no mesmo. E como os católicos tendem a ser tanto menos complexados ou incoerentes há cerca de uns vinte anos ou mais, foi publicamente lançada, no programa da falecida Hebe Camargo, uma linha de roupas íntimas ou cuecas que traziam estampadas sobre si as figuras de Jesus Cristo e da Santa Virgem sua mãe. Nesse momento os mesmos puritanos hipócritas que a muito ostentavam as 'Sagradas ícones' sobre seus túmidos seios ou barrigas flácidas, puseram-se a gritar como loucos. Mas... por uma questão de princípios, cara a racionalidade católica, tinha de chegar onde chegou... Tal a imprudência e leviandade dos neo católicos que assumem práticas protestantes e julgam poder conte-las arbitrariamente em seus estreitos limites. Difícil conter os católicos, especialmente os moderados, já habituados a pensar criticamente o quanto não seja dogma...

O que quero dizer é bastante simples, a ponto de qualquer protestante sumariamente letrado ou de qualquer católico nutrido nos elementos do catecismo poder entende-lo ou até de aceita-lo, caso tenha boa vontade. Nada no Evangelho nos indica que as palavras do Mestre Jesus devessem ser impressas sobre tecidos com o objetivo de enfeitar peças de roupas destinadas a cobrir o corpo humano. Não foi certamente com este objetivo, cobrir ou enfeitar os corpos dos crentes, que o Senhor comunicou expressamente seus ensinamentos. O objetivo da palavra escrita é ser conservada fielmente, lida, meditada e enfim posta em prática. Outro não foi nem é o objetivo da palavra ou das cenas de nossa Redenção pintadas nas paredes de nossos tempos, tal o Evangelho dos analfabetos... Tudo isto, estendendo a pregação oral do Verbo foi posto para a leitura, a reflexão e a vida, não para adornar nossas vestes externas e corporais fazendo aparência.

As palavras do Mestre Jesus deveriam ter passado da oralidade original ao papel, as paredes dos templos e dai ao espírito ou ao fundo dos corações, para que se tornando vivas e operantes transformassem este nosso mundo. A modernidade superficial e leviana deu-lhes um novo e estranho caminho: Os corpos e peças de roupa!!! Convertendo-as em modas e pasme, marcas... A partir das quais se toma lucro! Os sectários protestantes já se precipitaram neste abismo farisaico, a ponto de comercializar peças de roupa marcadas com o 'nome' adorável... Aqui nossos amigos ateus, materialistas, agnósticos, budistas, xiitas, etc que por estes e outros motivos descartaram a fé Cristã tem pleno direito de rir, e nós, que ainda temos alguma esperança e que com esperança nostálgicas contemplamos o passado, temos o direito de deplorar e de chorar este hiante abismo de incoerência e leviandade, através do qual o repisado discurso sobre a finalidade,apressadamente traído por seus partidários. Talvez, com Voltaire, seja melhor rir, apenas rir, pelo fato de retermos alguma esperança.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Marxismo uma abordagem válida, mas superficial do capitalismo.

Longe de nós negar a propriedade da crítica marxista em termos de estrutura material ou meios de produção.

Cuidamos no entanto que o marxismo por defeito estrutural jamais poderia ter posto, como não pôs, o dedo no fundo da ferida do capitalismo.

Deslindou o seu ser mas não quis tocar e não tocou as fontes deste ser.

Fontes que segundo cremos encontram-se no coração do homem.

Kafka sem querer chegou bem mais perto da verdade quando escreveu: "Capitalismo não é apenas uma certa 'ordem' presente no mundo mas UM ESTADO DA ALMA."
Recôndito em que o materialismo crasso não pode penetrar!

Tudo quanto Marx escreveu de válido e verdadeiro, escreveu sobre um epifenômeno cuja causa mais remota acha-se no interior do homem.

Em certo sentido somos levados a concordar com os liberais quando dizem que o homem possui um instinto inato para o capitalismo. Queremos dizer para o acúmulo ou a avareza. Quiçá seja este instinto que os antigos nomearam por pecado original...

Cônscias de tal instinto destrutivo as sociedades primitivas no dizer de Karl Polainy conceberam e estatuíram instituições sociais com o objetivo de conte-lo ou reprimi-lo. A religião em especial foi estabelecida com o intuito de levar o homem a sublimar tais tendências, dirigindo-as para outros setores da existência quais fossem as artes e ciências: a poesia, a música, a pintura, a escultura, a filosofia, etc

O reino do espírito é que impediu as gerações do passado a mergulhar no abismo da materialidade absoluta.

Haviam certamente 'Homens carnais' que ignoravam as 'coisas do espírito'. Estes no entanto eram discretos e não estavam dispostos a enfrentar uma opinião pública pautada nos decretos da autoridade religiosa.

Por incontáveis séculos a religiosidade cumpriu com sua função social. convencendo a maior parte dos seres humanos de que sua destinação encontrava-se na dimensão da imaterialidade e que seu fim último era o sagrado.

Enquanto a religião foi capaz de cumprir sua relevante missão i é de informar o homem sobre o verdadeiro objetivo desta vida, as relações de caráter econômico, mantidas dentro de seus limites eram encaradas como uma parte apenas do todo...

No momento em que certa instituição religiosa falhou miseravelmente por estar muito abaixo da função que lhe fora dada, o econômico sobrepôs-se as demais esferas da existência afirmando-se como superior. A esta revolução silenciosa, ocorrida a nível das consciências; a esta falência espiritual... a estar crise religiosa é que se deve a gênese do economicismo contemporânea.

Não foi por mero ou simples acaso que o capitalismo sucedeu a reforma protestante. Sendo seu advento concomitante ao da incredulidade, da indiferença ou da irreligião.

Na medida em que a pseudo reforma cuidava em adquirir os antigos privilégios concedidos aos catolicismos sem apresentar qualquer contrapartida em termos sociais poderíamos seguir 'pari passo' os caminhos desta grande decepção espiritual, ao termo dos quais parte da sociedade européia cessou de ser Cristã. Sem que com isto se torna-se judia ou maometana mas cética ou descrente e, consequentemente materialista.

Agora não podia este materialismo satisfazer os anseios de um coração cujo objeto é por assim dizer o ilimitado.

A transferência do sentido ou da busca pelo ilimitado para o plano material, resultou naturalmente na doutrina do lucro máximo ou do acúmulo irrestrito de bens materiais. Pois os objetos materiais e limitados são sempre incapazes de satisfazer as mais intimas aspirações de nossa natureza...

Importa saber que as pretensões do liberalismo econômico são tão utópicas quanto as do paraíso marxista...

As aspirações religiosas do homem jamais poderão ser completamente satisfeitas por coisas ou objetos materiais. Daí essa busca incessante que jamais chega ao fim! Daí essa febre do ouro que jamais abaixa! Daí esse acumular de bens sempre incapaz de serenar ou apaziguar o espírito...

Quanto mais este homem tem mais quer porque na verdade o que quer, o que deseja, o que procura é o ilimitado, o sagrado, o numinoso, o transcendente... e essa 'fome' espiritual só pode ser saciada quando entre lágrimas e suspiros o homem reconhece-se a si mesmo como destinatário de uma vida superior...

Enquanto considerar a si mesmo como entidade puramente material e o universo que o rodeia como formado apenas por partículas materiais, este homem buscara satisfazer suas necessidades religiosas materialmente e não haverá dinheiro, riqueza ou fortuna que lhe baste. O dinheiro será o seu deus! No entanto o dinheiro por ser material é limitado... daí o sujeito querer ter sempre mais!

Uma aspiração ilimitada por seres que são por natureza limitados é algo que não se encaixa.

Produz uma demanda utópica... incapaz de ser satisfeita.

Deve o homem buscar sua realização integral; quanto ser material e espiritual.

Deve buscar pão para a boca ou relativo conforto material; sem perder de vista o pão do espírito: a música, a poesia, o drama e por que não a prece, a liturgia?

Qualquer desequilíbrio, num ou noutro sentido, produzirá consequências destrutivas...

O áthos capitalista, infenso a qualquer tipo de limitação ou barreira, possui este selo ou distintivo sagrado e espiritual posto sobre o elemento errado.

É uma inversão espiritual, uma religiosidade, uma mística, um culto voltado para a dimensão material da realidade.

Culto em que a matéria assume o lugar do Supremo Ser... tornando-se divina.

Declaram os liberais que o comunismo é uma religião.

Reverto a acusação e declaro em nome da religião, que o capitalismo é uma religião da qual o comunismo é um cisma!

Religião do lucro, do capital, do dinheiro, do acúmulo... a qual afirmou-se após o colapso de parte da Cristandade, a saber, da Cristandade protestante.

Foi a falência do protestantismo e sua imperícia no sentido de afirmar os princípios e valores autenticamente Cristãos que possibilitou o surgimento de uma nova ordem materialista economicista.

Uma vez que o Cristianismo antigo corresponde ao tipo de religiosidade mais evoluído ou refinado e que o protestantismo apresentou-se desde o princípio como um retorno a esse padrão, como esperar que após a falência do protestantismo, os homens voltassem seus olhos para qualquer outro tipo de responsabilidade.

Grosso modo os protestantes, mais do que seus rivais os Católicos, acreditavam ter percorrido até o fim ou até os últimos limites os domínios da religião revelada.

Sendo assim, a ruptura com o fé ancestral, lançou-os nos braços da irreligiosidade, a princípio do deísmo, em seguida do agnosticismo, até que por fim do materialismo e do ateísmo no século XIX.

Neste contesto abriu-se a jaula, ficando 'livre' a ambição ou a avareza...

E livre pode alastrar-se impunemente. A ponto de pautar as relações humanas e produzir 'cultura'.

Agora como não podia este homem destruir sua FITRA, fez com que esta fosse voltada para a aquisição de bens materiais... de que resultou a religião do Mercado ou fé no dinheiro.

E esta fé ou ideia encarnou-se como o Cristianismo antigo (ao menos em parte) mas estruturas materiais de produção ou meios de produção capitalistas.

Grosso modo jamais deixamos de assistir a uma sucessão de credos. Uns religiosos e espirituais como Catolicismos e protestantismo, outros materiais ou econômicos, como o capitalismo e o comunismo. A expressão bem pode ser econômica, o móvel no entanto, inda que inconsciente, é a fitra, ou a busca pelo sentido, no lugar errado!

Tal percepção ajuda-nos a compreender porque o capitalismo tal e qual o Comunismo a que vive acusando, jamais foi capaz de produzir uma Ética humanista... seguindo pelos caminhos da democracia puramente formal, dos fundamentalismos, do nazismo, do fascismo, do anarco individualismo... ou seja pelos caminhos tortos das culturas de morte.

Aqui o veredito luminoso de Edmundo Scherer:

"Saibamos nós ver as coisas como de fato são: a Moral, boa, verdadeira, antiga, imperativa, TEM NECESSIDADE DO ABSOLUTO; ASPIRA A TRANSCENDÊNCIA, NÃO ENCONTRA SEU PONTO DE APOIO SENÃO NO SAGRADO... A CONSCIÊNCIA É COMO NOSSO CORAÇÃO; PRECISA DE UM ALÉM. O dever ou é sublime ou não é e a vida torna-se frívola sempre que deixamos de observa-la pelo prisma da eternidade." "Études sur la litterature contemporaine" VIII p 182 sgs

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

A afirmação dos fundamentalismos nas Sociedades Ocidentais

Um dos problemas mais sérios com que nos deparamos no tempo presente é a afirmação dos fundamentalismos religiosos seja no contexto Cristão (assim temos a expansão do pentecostalismo na América Latina e a resistência do calvinismo no Bel Bible - USA) ou no contexto judaico sem falarmos no islamismo, o qual é por assim dizer o Império do fundamentalismo e o baluarte do pensamento teocrático.

Este tipo de padrão de pensamento, peculiar a cultura proto judaica ou israelita florescente no período que vai do século VII ao século I a C ou a cultura árabe do século VII desta nossa Era, já o conhecemos muito bem e consiste sobretudo em acreditar que tudo quanto se deve saber ou crer a respeito de todas as coisas tenha sido escrito num determinado livro infalível. Livro infalível face ao qual devemos sacrificar não só o intelecto mas a própria sensação e percepção.

Nada mais anti natural e degradante do que alguém sacrificar a própria percepção, a própria capacidade intelectual e a própria dignidade as exigências de um livro escrito a 3000 ou a 1400 anos passados...

Se sequer perceber suas contradições, antinomias, desacertos, frioleiras, etc

Trata-se no entanto de um pensamento em ascensão.

Nos EUA como já dissemos resiste o Biblismo com sua insistência mórbida no criacionismo. No Brasil assistimos a expansão do pentecostalismo associado a deletéria teologia da prosperidade. Na Europa afirma-se dia após dia o islamismo... É como se a sombra do fundamentalismo pairasse sobre este nosso hemisfério do globo, eclipsando o Sol da Filosofia e as luzes do pensamento científico... e pondo em risco nossa civilização democrática.

Em termos de sociedade e cultura estamos assistindo a uma contra revolução anti helenística ou a uma intifada fetichista que remonta a expansão do islã e aos albores da reforma protestante.

Arabia e USA são os dois pólos desta revolução religiosa. Europa e América latina encontram-se como que entre Cila e Caribdes...

Importa saber quais foram os fatores que conduziram a civilização a beira do abismo.

Passemos em revista cada um deles:

  1. A falência do materialismo no sentido de fornecer-nos uma Ética essencial (absoluta)
A partir do século XVI entramos na Era das Revoluções.

A revolução protestante fragiliza o sentido ÉTICO, SOCIAL OU IMANENTE do Cristianismo típico dos modelos Católicos. A revolução Inglesa instaura as bases de uma nova ordem, rematada pela revolução francesa e implementada da Inglaterra a partir de 1830; estamos diante de uma nova ordem materialista economicista ou capitalista. Concomitantemente, a partir do século XVIII, papistas e protestantes assistem a abertura de um novo nicho religioso: a religião natural ou deísmo.

Ao fim deste mesmo século no entanto é a capacidade da razão rudemente atacada pelo pensador protestante I Kant. Antes dele por sinal a credibilidade da percepção havia já sido posta em dúvida por Hume.

É Assim que chegamos ao século de Comte e Littré: sem fé, e sem razão; sem religião e sem metafísica, sem teologia e especulação. Restava no entanto a ciência...

Até as críticas de Hume serem retomadas... A partir de Nietszche e sobretudo dos pós modernos: Foulcault, Deleuze, Gatarri, Derrida, Lacan, Camus, Heidegger, etc até mesmo o santuário da ciência é profanado e a cultura científica enquanto construção artificial e subjetiva, nivelada as demais culturas.

Os novos dogmas do subjetivismo, do relativismo e do ceticismo retiram tudo, absolutamente tudo ao pobre homem: fé, razão, ciência, sentido e até mesmo a Ética, já anatematizada pelos positivistas.

Aqui não sobra espaço algum ao humanismo ou a ética essencial da pessoa humana, pois é a Ética, segundo dizem e declaram construção subjetiva e relativa feita por um sujeito prisioneiro de uma determinada cultura.

Percebem como a partir desta perspectiva não só se torna impossível tecer qualquer crítica objetiva e consistente as mazelas do capitalismo, como se tornar perfeitamente possível negar a realidade do sofrimento humano???

Num primeiro momento este padrão de pensamento emancipado favoreceu as doutrinas egoístas de Stirner, Nietszche e sobretudo da 'profetiza' Ayn Rand. Bastando-lhes argumentar que Benthan e Mill haviam associado arbitrariamente o conceito de SOCIEDADE ao utilitarismo... outra não foi a cruz do pragmatismo... Pois os conceitos de pragmatismo e utilitarismo não possuem qualquer nexo interno e orgânico com o conceito de SOCIEDADE ou GRUPO.

Aqui a critica dos individualistas é imbatível, não a nexo ontológico e natural entre utilidade e sujeito... assim aqueles que como Benthan, Mill, W James, etc enfatizaram a dimensão social do utilitarismo ou do pragmatismo, foram sucessivamente acusados de terem assumido valores CRISTÃOS (eu diria Católicos) secularizados, mas Cristãos.

Individualistas, liberais e Católicos em diversas obras demonstraram cabal e extensamente, que toda e qualquer petição ética em torno de SOCIEDADE ou GRUPO parte quase sempre de uma fonte religiosa secularizada; a saber, do Cristianismo antigo ou primitivo. Alias para o liberal o veneno do Cristianismo antigo, não depurado pela visão 'protestante' esta justamente neste travo social ou socialista, comum a toda cultura antiga.

Tal percepção implica duas coisas:

  • O materialismo crasso em termos de ética jamais é ou será capaz de ultrapassar o individualismo ou de desenvolver qualquer sentido social ou gregário. 
  • A ideologia individualista por suas relações internas e orgânicas com o relativismo e o subjetivismo tornando o nazismo, o fascismo e o comunismo inatingíveis em termos de essência, limitou-se a condena-los em termos meramente externos ou políticos. AGORA COMO ESPERAR QUE UMA SOCIEDADE NAZISTA OPONHA-SE AO NAZISMO OU QUE UMA SOCIEDADE FASCISTA OPONHA-SE AO FASCISMO??? Este vazio que jamais atinge as fontes e raízes de um mal que é absoluto foi o que desarmou por completo a democracia meramente formal face as culturas de morte.

Conclusão: Partindo da reforma e do Capitalismo, chegando ao materialismo crasso e embarcando nas canoas furadas do relativismo e do subjetivismo como poderíamos chegar ao individualismo crasso sem chegar ao extremo da mística estatólatra com o comunismo, o fascismo e o nazismo??? Que nos impede ou impediria de vagar entre os dois extremos??? Que justifica um extremo que não possa justificar o outro??? Que nos permite condenar comunismo, nazismo, fascismo e absolver os egoístas de Rand e Stirner??? Que nos impede de chegar as doutrinas do super homem e do darwinismo social?

Senhores, ou podemos e devemos condenar a ambos em nome da mesma dignidade da pessoa humana ou estamos sendo hipócritas! Puro farisaísmo condenar o lado estatólatra e aplaudir o egoísta! Simples juízo de vontade e conveniência! Por isso enquanto assistirmos cabisbaixos o florescimento desta doutrina monstruosa que é a do egoísmo, assistiremos igualmente o florescimento dos totalitarismos... porque ambos estribam-se nos mesmíssimos princípios: a negação da metafísica, do ser, da ética, da verdade... ou seja nos dogmas do relativismo e do subjetivismo...

Em termos de pessoa humana não receberemos solução alguma do materialismo puro ou do ateísmo incontaminado. Postulem a solidariedade e seus próprios companheiros apontarão vossas fontes secularizadas de Cristianismo.

O liberal é consequente: Se o socialismo é mau sua fonte o 'catolicismo' também o é. Assim como socialista não posso deixar de simpatizar vivamente com os Catolicismos ou com o Cristianismo antigo tendo em vista o nível de sua consciência social.

     2. O fastidio do TER

O homem materialista inserido no contexto economicista liberal aderiu a ideologia do consumo acreditando que ela lhe acrescentaria muita coisa.

Não acrescentou quase nada. Pois é um crescimento de fora para dentro... e nós crescemos humana e moralmente apenas de dentro para fora.

Não comprando coisas ou tranqueiras mas adquirindo princípios e valores saudáveis.

Consumir objetos materiais de que não se tem extrema precisão é como beber água do mar, quanto mais se bebe mais se quer beber - porque este tipo de água é incapaz de matar a sede (pelo contrário é apto para aumenta-la) - até que se afoga...

Chegamos assim a depressão, que é o mal do século.

Parte das pessoas acreditou que quando estivessem plenamente inseridas na sociedade do capital e do consumo, ganhando um bom salário e podendo comprar tudo quanto quisessem seriam felizes. Esqueceram-se que Jacqueline Onassis suicidou-se, bem como Raymond Roussel, Marilyn Monroe, Maria Callas, Michael Jackson, Whitney Houston, Curt Cobain, Amy Winehouse, dentre outros... Tais pessoas tinham tudo quanto podiam comprar mas não encontraram qualquer sentido para a vida, o que é imensamente trágico.

No entanto a obsessão pelo dinheiro, pelo lucro, pelo capital, pelo TER faz com que a pessoa deixe passar as pequenas coisas, que tornam a vida relativamente feliz; que deixem que criar vínculos afetivos, que se alienem do outro. O consumo aliena o homem. Passado muito tempo ele não mais encontra a si. Perdeu o outro, perdeu a si, não tem paz de consciência, sente-se amargurado.

Quando o homem esgotou todas as suas possibilidades: religião (que perdeu), razão (de que duvida), percepção (iden), ética (que ignora), e enfim a fé no consumo chegou o momento de imitar ao jovem Werther... não há qualquer outra coisa que lhe possa ser oferecida. Então deve filosofar no sentido de Camus ou seja decidir se deve viver uma vida que não faz sentido ou suicidar-se. Por coerência da incoerência suicidar-se-a!

Em certas sociedade 'civilizadas' suicidio tornou-se epidemia.

Materialmente falando não falta absolutamente nada a tais pessoas.

Apenas inverteram a ordem da vida ética sobrepondo o TER ao SER.

O problema crucial aqui não é que tenham feito isto, mas a questão das cultura.

Produzimos um padrão de cultura materialista economicista que conduziu-nos a esta inversão aberrante.

Alguém lá atrás ou em algum lugar afirmou que valorizando mais os objetos ou coisas do que as pessoas seriamos felizes. Quem proferiu tal obcenidade enganou-nos; enganou a mim, a ti e a todos, e envenenou nossas vidas!

Existimos para viver em comunhão de amor com o próximo. Eis a chave da felicidade! Então se o Catolicismo acertou é inutil deitar-lhe pedras! Existimos para o outro, para o semelhante, para solidariedade. É mitigando os sofrimentos alheios que mitigamos nossos próprios sofrimentos! É lançando bálsamo as dores alheias que encontramos o bálsamo para nossas feridas! Coisa que o dinheiro não paga e que a moeda não comprar! O financeiro fez-nos perder esta noção de valor moral!

Amigo leitor o amor da tua mãe, a dedicação do teu pai, a cumplicidade da tua esposa, o sorriso do teu filho e a acolhida do teu cão, são coisas que não tem preço, que dinheiro algum neste mundo pode comprar! Se em troca de cada um destes valores darias todas as riquezas do mundo sabes bem do que estou falando e és um ser humano de verdade! Agora se duvidas...

Se duvidas das coisas excelsas e belas que teu cartão de crédito não pode comprar, lamento por ti e espero que jamais possas comprar tudo e terminar desiludido como uma Maria Callas ou uma Jacqueline Onassis!!!

A cultura é que conduziu-nos a beira do abismo.

A cultura materialista e economicista afirmada pelo capitalismo.

Prometeu-nos um paraíso, mas era artificial.

Prometeu-nos o bem e a paz que não poderia dar-nos.

Muitos acreditaram e se decepcionaram.

Outros testemunharam a decepção alheia e perceberam quão falacioso é o sistema.

      

      3. O recalque espiritual e ignorância religiosa

O terceiro fator ligado a ascensão dos fundamentalismo tem a ver com a irreligiosidade fanática.

Quando a irreligiosidade não é fanática é capaz de perceber valores relacionados com a dimensão religiosa do ser ou ao menos a reconhecer a influência social das religiões e a estuda-las.

Já a irreligiosidade fanática engendra mitos.

Assim aquele segundo qual todas as religiões são iguais; ou todas igualmente boas ou todas igualmente más.

Tal a divisa ou a senha de quem jamais estudou seriamente a História das religiões e crenças.

Se há religiões boas precisamos conhece-las por pura e simples questão de honestidade e justiça.

Não precisamos crer ou ser religiosos paras ser justos. É imperativo categórico que procede da consciência.

Agora se há religiões nefastas e danosas é vital estuda-las com maior empenho ainda. Aqui o estudo das religiões funcionaria como uma espécie de vacina, antidoto ou contra veneno.

Nem digo que seja necessário conhecer-lhes as respectivas teologias mas apenas e tão somente suas relações com as sociedades humanas, a ética, o humanismo, a promoção humana, o pensamento científico, etc

Compreendo inclusive que as religiões institucionais sejam acusadas e repudiadas por este ou aquele motivo. É questão de pesar os argumentos ao invés de repetir 'boatos'...

Compreendo até que algumas pessoas não tenham necessidade de uma religião definida e que outras permaneçam indecisas. Compreendo enfim que algumas pessoas sejam opostas a todo e qualquer tipo de religiosidade, mesmo natural...

Agora uma coisa espero ou ouso esperar dos irreligiosos convictos! Que abstenham-se de imitar ou de reproduzir o que reprovam e condenam nos fanáticos que é a imposição arbitrária da fé.

Por isso não compreendo a atitude de certos intelectuais irreligiosos que indispõem-se com seus país, cônjuges, filhos, etc pelo simples fato de não abraçarem seus pontos de vista ou aqueles que ousam impor a negação religiosa em seus lares, mortificando a esposa ou os filhos menores.

Educar, orientar, dialogar... é uma coisa.

Impor é e será sempre sinal de intolerância e fanatismo, partindo ou não de uma pessoa religiosa.

É necessário que cada pessoa faça seu caminho, informe-se, tenha suas experiências... buscando inclusive contemplar a dimensão espiritual ou religiosa da existência.

Neste sentido informar sempre será a melhor saída.

Pois possibilitará que a pessoa faça as melhores escolhas possíveis ou as menos danosas para si e para os outros.

É como dizer a alguém que tem fome: Controle-se você não precisa comer!

Quando a fome atingir uma intensidade muito grande esta pessoa estará disposta a comer qualquer coisa ou a ingerir qualquer porcaria.

Assim o efeito das restrições arbitrárias no domínio da religiosidade humana também pode ser catastrófico, particularmente quando associado a falta de conhecimentos religiosos.

Se a religião corresponde de fato a uma espécie de infecção ideológica talvez seja necessário entrar nela e sair dela para criar anti corpos e imunidade.

A ignorância religiosa no entanto pode encaminhar o sujeito a sistemas demasiado fechados ou sectários. Adiando por muito tempo ou impossibilitando sua saída...

Uma contenção precoce e arbitrária sempre poderá levar a uma afirmação obstinada e fanática ou a uma oposição ferrenha mais adiante...
Diante dos resultados contra producentes temos que a irreligiosidade não tem sabido lidar com a religiosidade. 


      4. A falência de nosso modelo educativo


Em larga escala - tomo por exemplo a educação de estados inteiros como os Estados de S Paulo e Rio de Janeiro - a educação tem falhado ou deixado de cumprir seu papel enquanto formadora de um éthos crítico reflexivo e de uma cultura científica.

É algo que se deva deplorar.

É por meio da educação que transmitimos ou reelaboramos nossa cultura.

Interesses econômicos no entanto postulam que nossas Escolas devam ser privatizadas.

Antes de serem privatizadas no entanto devem entrar em colapsou ou falhar.

Devem além disso falhar para conter as massas no respeito i é longe da esfera do político.
Nem pode o estado fazer com que as escolas acertem aqui e falhem acolá.

Assim por falta de insumos materiais os espaços educativos tornaram-se obsoletos e inadequados.

O que dificulta ao máximo a atividade do professor consciente. Levado a assumir uma postura tradicional que sabe ser ineficaz.

Para piorar ainda mais a situação temos de considerar os professores 'descompromissados'...

Que ali estão apenas para ganhar o pão de cada dia, que assimilaram os postulados do individualismo, que são conformados, que jamais questionam, que limitam-se a executar ou reproduzir, que ignoram a personalidade do educando... etc

Os professores que desconhecem os pressupostos pedagógicos... os que ignoram os conteúdos das matérias... os que ministram a velha educação bancária (cópia e questionários).

Tudo isto faz parte da realidade complexa e calamitosa do universo escolar.

Um universo que funciona cada vez menos...

Diante disto a massa de manobra, massa humana e inconsciente... vai aumentando pelas beiradas.

Não formados apenas massas manipuláveis tendo em vista certas necessidades políticas. Não formamos apenas massas para trabalhar e consumir sem reclamar...

Formamos massas no pleno sentido da palavra.

Incapazes para interpretar e conhecer, para decidir, para optar conscientemente a respeito de qualquer assunto, inclusive de natureza religiosa.

Concedemos papéis falsos a criaturas que fogem aos padrões lógicos de pensamento, que são incapazes de avaliar a importância do método científico, que sequer tomaram gosto pelo hábito de aprender!

E estes zumbis ou vagantes não haverão de alimentar somente a esta demagogia ou democracia meramente formal e ao mercado... alimentarão também e alimentam toda sorte de misticismos.



Conclusão:

Localizamos e isolamos quatro fatores responsáveis pela afirmação do fundamentalismo religioso nas diversas sociedades Ocidentais, em especial na nossa, a Paulista:

  • A falência do materialismo em termos de ética.
  • A sobreposição do TER ao SER.
  • Os recalques e a falta de informação característicos da Sociedade não religiosa
  • A falência do ensino público.
Em contraposição preconizamos:

  • O retorno a uma espiritualidade natural nos termos do deísmo
  • A sobreposição do SER ao TER e questionamento da cultura de mercado
  • Reconhecer a importância do conhecimento ou do estudo das diversas religiões
  • Lutar por melhores condições de ensino e pelo caráter estritamente laico da escola pública.