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sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Ainda o fascismo e seus problemas

Ainda a propósito da unidade social e da cessação do conflito entre burguesia e proletariado (Não inventado por Marx mas constatado por Sismondi de Sismondi.), provocado pela ambição descontrolada dos patrões, voltou o fascismo, seu olhar - mais uma vez, para o passado.

E a ideia, advinda do Ariston Metron e da Mediocritas aurea foi tentar ampliar a classe média. O que já havia sido sugerido por Defoe e Swift na Inglaterra do século XVIII. E fica posto o ideário: Reduzir a distância entre os extremos da alta fortuna e da miséria, interferindo politicamente tendo em vista a expansão da classe média.

Como se vê, o que temos aqui, foge definitivamente ao Marxismo ou  Comunismo. O qual aposta no avanço do capitalismo, no recrudescimento do conflito e no papel heroico do proletariado tendo em vista a tomada do poder.

Aqui, a classe média é encarada como entidade pequeno burguesa, que serve como uma espécie de mola destinada a aliviar a tensão do conflito. É de fato encarada como uma vilã contra revolucionária por estar na contra partida do processo e deve ser (Talvez com um empurraozinho) engolida ou abatida por ele. 

Assim o programa fascista, que supõe a atenuação do conflito pela ampliação dessa classe por meio de intervenções restritivas (As assim chamadas Reformas.) face as ambições do mercado é avaliado como algo essencialmente maligno.

De fato avaliando o protocolo fascista (Relacionado aqui com o protocolo social democrata.) como reformista, os líderes comunistas só podem encara-lo como um retorno indesejável ao passado, como um saudosismo ou ainda como algo essencialmente reacionário em oposição a noção linear de progresso legada pelo positivismo.

É como se a orientação fascista fosse capaz de impedir ou de atrasar a tão sonhada revolução ao atenuar o conflito. Daí o ódio irascível.

O que nos ajuda a entender uma dinâmica contemporânea em que, paradoxalmente, os comunistas aliam-se aos liberais extremados contra quaisquer Reformas propostas pelos reformistas ou pelo centro, se que lhes importe a condição das pessoas, uma vez que a meta suprema é a Revolução.

E é justamente a percepção dessa cosmovisão, assustadora, devido a sua insensibilidade ou crueldade, que tem afastado o povo do comunismo e não poucas vezes aproximado-o do fascismo. Afinal se é algo que o povo não quer ou deseja é o avanço do protocolo Neo liberal. Em parte devido a cultura cristã católica, o povo aspira, em certa medida, pela paz e não por qualquer tipo de revolução.

E no entanto esse mesmo fascismo, cuja proposta no campo da economia me parece interessante, aproxima-se a outro lado desse mesmo comunismo truculento, da abominação nazista e da monstruosidade islâmica e aparta-se tanto do anarquismo quanto do liberalismo político ou da democracia, a qual chega encarar com uma corrupção.

No campo da autoridade ou do poder político é o fascismo liberticida, despótico, ditatorial, tirânico, totalitário e repressor... até estatolatria paga ou o culto cego ao líder.

É ideologicamente irracionalista e agostiniano... sem dúvida que é. Desconfia do potencial da razão, lança dúvidas quanto a liberdade e encara os humanos como 'lobos' (Sic) vorazes. O que sabe o "Leviata" de Hobbes. 

Por onde toca ao militarismo e assume um aspecto anti humanista. Assume posturas como o critério da força e a obediência cega, renovando o choque entre Trasímaco e Sócrates, este partidário de uma racionalidade crítica, que levou-o a desobedecer, ao invés de cometer uma injustiça, e eliminar Leão de Égina.

Essa resistência mecânico formal a ordem dada, em nome de  princípios éticos ou direitos inerentes é inaceitável do ponto de vista do fascismo, o que desvela parte de seu espírito.

Curioso que, partindo do fascismo, os anarquistas não se tenham dado conta que o irracionalismo, via de regra (E com a mesma intensidade que os maniqueismos.) tem servido de apoio ao despotismo. Uma vez que o exercício do livre arbítrio está conectado a capacidade racional.

Sugere o irracionalismo, que sendo o ser humano incapaz de avaliar ou refletir é, consequentemente, incapaz de deliberar/decidir. Devendo ser tutorado ou controlado pela autoridade arbitrária sancionada pela Tradição.

Naturalmente que os alunos de Sócrates e os seguidores de Jesus não podem concordar com os teóricos do fascismo, pelo simples fato de afirmarem decididamente tanto a capacidade racional como a vontade livre dos seres humanos.

A partir daí, forma-se uma outra cosmovisão, posta para a afirmação de direitos essenciais numa realidade democrática ou cidadã. E uma oposição marcada ao ideário fascista, o qual, em seu conjunto, só podemos classificar como mais um anti humanismo e enfim como uma cultura de morte.

Enfim não acreditamos que a Redenção social parta da submissão passiva ou acrítica a uma autoridade caprichosa e a isso damos o nome que merece: Escravidão ou servilismo. E não menos que um anarquista qualquer repudiamos a ela.

De fato não nos resta qualquer ditadura: Dos líderes religiosos (Como Calvino), dos políticos (O Diretório), do proletariado, dos cientistas, dos militares... De esquerda, de direita, de centro... Pois somos filhos daquela liberdade que tem por berço o Evangelho. 

Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte': 


  • Americanismo
  • Protestantismo
  • Capitalismo
  • Comunismo
  • Anarquismo
  • Conservadorismo
  • Positivismo
  • Pós Modernismo
  • Sionismo 
  • etc

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Shyamalan bate à porta.







Como admirador declarado sou insuspeito para mencionar Shyamalan. 

Cuja obra em geral me encanta, mais pelos enredos do que por qualquer outra coisa. O sujeito é engenhoso e tem imaginação ou criatividade.

E "Batem à porta" é produção sua - Mais uma.

Claro que fui ao Cine assistir. É claro.

Logo que o filme começou e os assediadores da cabana declararam que precisavam da permissão dos ocupantes para entrar, intuí que se tratava de uma trama que envolvia vampiros. 

E como não aprecio muito filmes que envolvem vampiros ou lobisomens -  A princípio, pela pobreza habitual do enredo, fiquei bastante chateado.

Num segundo momento todavia, quanto os marcianos ou homenzinhos verdes me vieram aos miolos, pensei em levantar-me e deixar a sala de projeção. 

Nada contra um enredo em que os humanos saem da terra e deparam com sociedades evoluídas noutras galáxias ou constelações. A exemplo do Avatar II, excelente produção.

Agora essas xaropadas de alienígenas que atravessam anos de luz para construir pirâmides ou palácios ou raptar alguns humaninhos... É pensar demasiado alto sobre o planeta ou a espécie...

Aliens fazendo turismo no planeta azul me cheira aos 'Deuses astronautas' de Von Daniken, assim a charlatanismo ou a falsificação histórica...

Por isso ao lembrar de Vellekowsky, Sichtin, e outros cogitei debandar...

Alias não aprecio ficção, ficção...

Então por que assiste filmes de terror que envolvem o sobrenatural... 

De fato os filmes de terror que aprecio são aqueles que envolvem almas penadas, espíritos, casas assombradas ou, no máximo, zumbis.

Aqui não gastarei meu tempo precioso justificando a preferência, porém, a meu ver, tais fenômenos ou temas não pertencem a ficção ficção ou a imaginação somente. Historiador, não sou nem um pouco positivista, e não julgo que a História seja apenas História daquilo que é visível ou material. 

Claro que os Zumbis fazem parte da ficção. Concedo-o naturalmente... ou teria que tomar pipas ou canecas de Rivotril, Zolpidem, etc

Porém quando assisto filmes que envolvam zumbis, sempre reinterpreto em termos de alguma epidemia ou vírus, jamais como mortos vivos nos termos de um Oscar Romero.

Já os de Fulci, Argento ou Bava - Giallo, mesmo quando fogem por completo a realidade, me encantam quer pelo enredo/narrativa, quer pelo figurino gótico ou de qualquer forma muito rico.

Seja como for continuo não apreciando vampiros, lobisomens, possessões, etc 

Tornemos agora a Shyamalan... 

A dinâmica do filme acabou por indicar outra coisa.

Não sei se pior ou menos pior, porém totalmente diversa.

Pois foi pelo caminho ou direção dos mitos religiosos. INSANIDADE.

Não quero dar Spoiler, porém o enredo avançou pela trilha do apocalipticismo.

Apresentando a divindade como um ser arbitrário e caprichoso, além, é claro de rancoroso e vingativo.

Posto que sentindo-se atingido pelas ações dos diminutos seres humanos, decide ela matar um quarto da humanidade com febres, outro tanto com raios de fogo, outro tanto com terremotos, etc

A propósito - Acabamos de testemunhar, na última segunda feira, um grande terremoto no Sul da Turquia. E as cenas, da vida real, foram arquipavorosas (Algo de deixar Romero, Shyamalan, King, Stoker, Lovecraf e outros no chinelo.)... Posto que milhares de criaturas humanas foram esmagadas por pesados blocos de concreto enquanto outras tantas pereceram sepultadas vivas debaixo das lajes! 

Triste dilema - Ser triturado ou enterrado vivo...

E no entanto pessoas marcadamente religiosas atribuem um tal evento a Excelsa divindade, apresentando-a como um Ser cruel e abjeto.

Tais os tempos... Oh tempora, oh mores! Oh fides...

Pois não julgamos os humanos que viveram em tempos pretéritos.

Que o apocalipticismo, com suas punições e castigos arbitrários, cruéis e insensatos tenha existido um dia é deplorável - Que subsista em nossos dias é monstruoso.

Supor que seja o Bom Deus, cruel é a suprema blasfêmia. 

Que as seitas bíblicas chafurdem num tal lamaçal compreendemos.

Que um Shyamalan traga tal temática as telas surpreende-nos.

E no entanto o filme oferece-nos outros nuances bastante interessantes.

Posto que também há triteísmo expiacionista nele, bem a gosto da mentalidade calvinista ou sectária.

Pois os três personagens que devem eleger um para se sacrificar pela humanidade e fazer cessar o pavoroso cataclismo, representam claramente as pessoas da Nobre e Excelsa Trindade.

Naturalmente que a crítica fundamentalista ou sectária, a 'crítica' nomeadamente bíblica ou protestante, a crítica farisaica fará imensa gritaria pelo simples fato que duas das pessoas da Trindade são representadas por um casal gay... É o quanto bastará para enfurecer os hipócritas e fanáticos.

E já posso ouvir os gritos: Blasfêmia! Blasfêmia!!!

Agora aprecie amigo leitor o teor da coisa -

Pois o que temos aqui é deus matando deus para aplacar deus ou um destino superior a deus...

E eles admitem que deus se divida ou parta em frações que se oponha uma a outra...

Assim um Pai iracundo que determina, ele mesmo, o sacrifício de seu unigênito Filho, pertencente a mesma natureza!!! 

O Pai não apenas atua como ente separado do Filho ou como um outro Deus, como exige que se sacrifique pelas ínfimas partículas humanas que se arrastam sobre este planetoide.

E eles dão a entender que o Filho imola a si mesmo porque o Pai se deixa afetar ou irritar por nossas ações!!!

Que as pessoas da Trindade excelsa se separem e oponham até converterem-se em dois ou três deuses não os escandaliza.

Que as pessoas divinas decretem o assassinato umas das outras não os exaspera.

Que o expiacionismo torpe os faça trocar o monoteísmo trinitário por politeísmo crasso não os incomoda nem um pouco! 

E depois ainda se atrevem a dizer que os Ortodoxos são idólatras ou politeístas porque reverenciam os Santos ou suas representações - Quando eles, protestantes, bíblicos, calvinistas e expiacionistas, sendo triteístas é que são verdadeiramente politeístas ou adoradores de três deuses!

Deus que mata deus para aplacar deus - Eis algo muito pior do que o agnosticismo duvidoso e quiçá que o ateísmo...

Claro que os piedosos críticos do homossexualismo, puritanos, moralistas, etc sequer se deram conta disso... Do Triteísmo ou do politeismo incluso em seu sistema expiacionista.

Parece que o filme de Shyamalan induz aqui um elemento diverso, quiçá tomado a Mitologia grega, que é o Destino ou um fado, superior a própria divindade. 

Pois é essa força ou poder que exige o sacrifício de um dos três. Algo, como já foi dito, simplesmente arbitrário. Afinal exigir que três ou mesmo que um inocente, imole-se por um grupo de culpados é algo absolutamente injusto e inaceitável. E sequer preciso ser judeu, budista ou hinduísta para admiti-lo!

Que pensar então do mistério da cruz e da morte de Cristo...

Devemos pensar antes de tudo que a nobre e Excelente Trindade não se separou e menos ainda se opôs - Pois o caráter e a vontade das três pessoas é uno! Por isso dizemos indivisível Trindade, porquanto as pessoas se distingam umas das outras pela origem, jamais se apartam ou separam quanto o caráter e a vontade, posto que o caráter e a vontade pertencem ao elemento divino que é Uno por definição!

Em seguida que inexiste qualquer ser exterior ou superior a essa Trindade inefável e onipotente.

Para concluir que a Trindade em sua Unidade e inteireza decidiu imolar-se em benefício dos mortais.

Impelida pela Suprema perfeição, que é o amor, a Trindade excelsa decretou aproximar-se dos mortais e recupera-los, recupera-los de si mesmos, de seu egoísmo, de sua maldade, de seu ódio... Posto que dela se haviam alienado livremente. 

A perspectiva de Shyamalan, dos bíblicos, calvinistas, expiacionistas, sectários, fanáticos, etc é aberrante porquanto o sacrifício é externamente imposto ou arbitrariamente exigido por um outro. A auto imolação, fruto do amor, é algo imensamente belo. A ideia de um deus arbitrário, caprichoso, rancoroso... é absurda.

O terceiro aspecto negativo do último filme de Shyamalan e o que mais me incomodou é a sugestão de que os visionários possam estar corretos.

Esperei até o fim do filme, ansiosamente, para que a resolução da trama se desse em termos de truque por parte dos 'mensageiros', no sentido de que tudo se trata-se de uma armação...

Shyamalan no entanto mergulhou de cabeça no abismo da irresponsabilidade - Pelo simples fato de dar razão aos profetas ou iluminados, ao invés de apresenta-los como loucos, quiçá como honestos e sinceros, mas no mínimo como loucos.

Para mim apresentar pessoas que invadem a propriedade alheia com o objetivo de promover qualquer tipo de terrorismo - Psicológico ou físico. - como 'certas' é de fato o cúmulo da leviandade.

É abrir a porta para delírios semelhantes ao pentecostalismo, o mormonismo, etc com suas visões, audições, vozes do céu, etc É passar o mórbido ou doentio como divino.

E devemos repetir com insistência que se onde surgiu a aberração pentecostal houvesse um serviço psiquiátrico eficaz, os pioneiros dessa aberração teriam sido devidamente tratados, com glóbulos e injeções, de modo que o estrago teria sido muito menor!

Aqui mesmo no Brasil já assistimos cenas semelhantes as desse filme, só que reais e tristemente reais. Com pessoas da mesma família matando umas as outras após terem falando com deus... Filhos matando pais! Empregados assassinando patrões! Mães ou pais sacrificando filhos pequeninos! - Tudo porque pessoas mentalmente instáveis foram ensinadas a crer que seus delírios eram divinos e que o quanto procedia das próprias mentes era celestial e digno de ser não apenas crido mas posto em prática.

'Bela' a religião que ao invés de reprimir o que há de mais perigoso ou mesmo tenebroso nos seres humanos - Como a loucura! - apresenta-o como sagrado! 

Aqui incentivam a avareza, ali alimentam a insanidade, mais além patrocinam a crueldade... Tais os líderes religiosos canalhas em sem consciência. 

Agora que um renomado produtor de Cinema associe-se a eles, apresentando ao grande público a loucura como normal, a sensatez como absurda, os truques do charlatanismo como reais, isto de fato me preocupa!

Pois quantos futuramente, ao surtarem, não se recordarão desse filme... Para em seguida invadir a morada alheia, torturar, matar e cometer os mais nefandos crimes em nome de deus ou do livro...

Num tempo em que os falsos cristãos desviados do Evangelho e fixados nesse livro - Do Apocalipse! - estão a esperar por visões, vozes e comunicações divinas não serão produções como essas mais um estopim ou uma fagulha num palheiro...

Espero estar totalmente errado e supor que uma tal produção seja encarada como pura ficção ou brincadeira de mau gosto... Muito mais realista o 'Nas ondas da fé' do comediante Brasileiro Adnet.

Nota 10 para Adnet que brincando soube ser sério e abordar um tema socialmente relevante com a necessária coragem. Para Shyamalan e seu novo filme não daria mais do que um 04 - E estou sendo generoso!



sábado, 31 de julho de 2021

Porque não sou um estorvo ao sistema ou porque sobrevivo.






Viver em semelhante conjuntura é deprimente ou até comprometedor por ser, em certa medida e até certo ponto, sinal de criminosa cumplicidade ou ao menos de impotência. 

Se vivo ou sobrevivo em meio a um sistema tão podre é porque até certo ponto devo ser conivente ou ao menos inócuo. Se sou conivente não sei, tenho no entanto a consciência de ser inócuo.

Nem em sonho vivemos num sistema respeitoso face aqueles que o ameaçam. Certamente não vivemos mais os tempos das inquisições papais ou bíblicas (Esta última mais virulenta que a primeira!), romana ou protestante... E tampouco nos achamos no período vitoriano em que os 'dissidentes' culturais eram diagnosticados como loucos e internados em sanatórios ou hospícios. 

Em tempos de direitos humanos e democracia, quando por hora não se pode mais torturar ou matar abertamente só resta mesmo recorrer ao assassinato, e portanto a eliminação categórica dos inimigos. Do que temos inúmeros exemplos: Garcia Moreno, Delmiro Gouveia, Oscar Romero, Chico Mendes, Dorothy Stang, etc A mensagem é de prístina simplicidade: Caso você ameace algum grupo hegemônico prepare-se para morrer. Pois se representa uma ameaça real ao sistema não sobreviverá.

Se passar do discurso as obras e ao exemplo, postando-se intransigentemente ao lado da justiça e denunciado corajosamente as injustiças - Na medida em que representar uma ameaça real ao sistema econômico vigente você terá poucas chances de sobreviver. 

Claro está que um sistema que deseja ser considerado manso ou liberal recorrerá a todos os modos e maneiras possíveis com que neutralizar seus críticos sem derramar sangue. Tal será quase sempre possível, porém nem sempre...

Aos teóricos ou que apreciam sobretudo palavras e discursos vazios bastará ao sistema opor denunciantes contratados. Ficando desmoralizada assim a imensa maioria dos revolucionários - Sejam comunistas ou anarquistas - que pouco se preocupam com a virtude e que tão rapidamente assimilam os métodos maquiavélicos de seus oponentes.

Logo em seguida vem os Cristãos que tem algum conhecimento do Evangelho e que sem ser perfeitos buscam opor-se a iniquidade. Quanto a estes é suficiente que a imprensa ameace denunciar alguns de seus pecados episódicos ou ocasionais, revelando algum caso, algum amante ou ex amante, etc o que equivale a desmoralização... Com isso se cala 99% do clero apostólico, seja romano ou ortodoxo, o qual fica amordaçado, mudo, silencioso e calado, limitando-se a tartamudear indiretas...

Já quanto aos leigos Cristãos de diversas orientações, anglicanos, espíritas, etc, judeus, budistas, teístas humanistas, etc de modo geral é suficiente lançar contra eles a 'mão invisível' i é fechar-lhes todas as portas ou possibilidades honestas, retirar-lhes o emprego e sobretudo ameaçar-lhes a estabilidade econômica, convertendo-os em párias ou mendigos. Isto sem que - Ao menos antes da Internet - pudessem vir a público espernear. O que a esquerda cirandeira reproduz sob o termo 'Cancelamento' ou boicote, já é feito há muito pelo poder econômico estabelecido contra seus críticos ou dissidentes de vária lavra. 

Que a mídia sendo privada ou paga negue a palavra aos Cristãos apostólicos e aos socráticos e mesmo aos socialistas mais intrépidos é fato. Não temos uma imprensa democrática a serviço do bem comum - Já pensou nisso? Temos uma imprensa paga ou privada a serviço de valores econômicos ou do lucro. Como pode haver liberdade de fato ou democracia sem real liberdade de expressão? No entanto a liberdade de expressão continua sendo atribuída apenas aos 'economistas' científicos de Chicago, a certas Xuxas da filosofia e no máximo a padres bailarinos... Quando foi que a Globo ou o SBT deram espaço a qualquer sacerdote papista para divulgar a doutrina social da igreja romana? Quando foi que os grandes canais de Televisão promoveram simpósios ou cursos sobre Sócrates, Aristóteles, Platão, Confúcio, etc??? Jamais...

Os próprios partidos políticos não deixam de funcionar como filtros políticos, como dizia M Nordau, e assim os sindicatos... Bastando para o sistema subornar os dirigentes políticos e sindicais sem Ética ou humanismo. 

Suponhamos no entanto que alguém consiga furar filtro após filtro... Empenhando-se em favor da virtude como um Teori Zavascki. Haverá defeito na turbina e o avião cairá. Para que se evite derramamento de sangue... O sistema está perfeitamente a par do tertulianesco dístico: Sangue de mártir é semente de Cristãos... Sangue de mártir é semente ideológico. Pois não poucos são os que despertam por darem crédito aos que se deixam morrer por suas crenças. Sendo melhor não criar mártires em demasia. 

Todavia se preciso for...

Antes o mártir que o sistema.

Mas professor, por que faz o senhor declarações tão amargas?

Sinto-me impelido após ter lido e relido as vidas de um Buda, de um Confúcio, de um Jesus e sobretudo de um Sócrates, os principais críticos ou reformadores sociais sobre os quais muito sabemos.

Antes de tudo eram tais personagens rigorosamente atidos ao princípio da justiça e refratários a toda sorte de injustiças, partissem elas donde partissem.

Dos dois últimos temos que foram mártires, embora o primeiro tenha morrido com certa de quarenta anos e o segundo com certa de setenta. Quanto aos outros dois, posto que tendo vivido em sociedades não tão corruptas, não chegaram a ser imolados, o que não quer dizer que tiveram uma existência agradável. De fato tanto Confúcio quanto Buda, em certos períodos de suas vidas foram atrozmente perseguidos.

Quanto ao divino Jesus não possuímos reflexões suas sobre o assunto. Temos porém algumas declarações enfáticas:

Se me odiaram odiarão a vós.

Haverão vocês de ser perseguidos.

Bem aventurados quando forem vocês perseguidos por conta da justiça.

...

Há porém no tempo presente milhões ou bilhões de Cristãos formais espalhados pelo mundo que não sofrem qualquer tipo de perseguição, vivendo até muito bem...

De fato, afinal por que perseguiria este mundo do dinheiro os calvinistas que lhe deram a vida ou as emprejas que lhe tomaram o método?

De fato não creio que os poderes deste mundo haveria de perseguir aqueles cristãos nominais que servem ao dinheiro ou ao Estado mas sim aqueles que se recusam servir a Mamon i é ao dinheiro, ao lucro, ao capital... Conforme está escrito: A Deus e ao dinheiro não podeis servir.

De fato não me parece que o Redentor esteja se referindo a essa Cristandade de Liturgia, Missa ou Culto, que se satisfaz com a adoração e sim aos que ultrapassando a adoração (Sem jamais repudia-la.) buscam imitar o Cristo, assimilando seu comportando e regulando a vida pelo Evangelho. A estes que acumulam bens no Reino dos céus e não neste mundo e que odeiam a injustiça, e que não toleram qualquer forma de maldade, e somente a estes persegue o mundo e extermina o sistema sem piedade.

Por isso os mártires foram levados ao suplicio antes de tudo por terem repudiado - Em grande parte ao menos e em que pese Paulo. - a abominação escravista e ao ataque a outros povos. 

Outro o caso de Sócrates porquanto este refletindo sobre sua morte, deu-se conta da situação que envolveu sua existência. Perguntando a si mesmo por que não havia sido morto ha muito tempo atras i e quando mais moco... 

Tenho tal reflexão por atual e crucial.

Sem postular o que hora chamam de revolução, furtou-se Sócrates inclusive ao insercionismo ou seja a participar ativamente da vida politica (Como politico profissional.) no auge da democracia grega. Justificando tal opção e priorizando uma ação politica indireta ou não estrutural por meio de uma formação. Claro está que Sócrates exerceu uma ação politica indireta pelo simples fato de ser educador, não sendo alias pela abstenção dogmática e sectária mas pelo preparo. De fato Sócrates acreditava ser mais importante preparar cidadãos para a democracia do que exerce-la ele mesmo.

E contemplando aquele despreparo categórico, atribuía-o ao fato dos cidadãos dirigentes priorizarem o lucro, dos negócios ou do dinheiro que o auto conhecimento, da formação ética ou a virtude, descuidando inclusive (cf Laquetes) a educação dos filhos... Parece que era já aquela Atenas no seculo V a C proto economicista, como que adiantando-se a seu tempo e antecipando o nosso.

Agora que resultava disto?

Infiltrada a sórdida avareza ou a paixão pelo lucro na estrutura do poder ou na politica uma apenas pode ser a consequência> O florescimento da Injustiça no mais alto grau! Portanto era a monarquia, e era a ditadura, e era a oligarquia, e era a democracia, e era a oclocracia - enfim, cada uma delas - usada com o proposito de cometer crimes e exações... Perdido o conceito de bem comum, modelo politico algum podia salva aquela sociedade, pois o problema não era politico estrutural mas ético. Aquelas pessoas amavam o ouro e odiavam a justiça. Diante disto milagre algum podia ser feito...

A uma maquina diabólica sucedida outra.

E nosso Sócrates ficava sempre alheio, a parte, de fora... E por que?

Vos responderei exatamente como ele -

Por que seu Daimon, seu inconsciente, sua intuição, sua mente, seu guia, seu tutor providencial ou seja la o que fosse advertia-o para que jamais se dedicasse a atividade politica, pois caso contrario, assumindo com intransigência o paradigma da justiça e afrontando os poderosos, os avarentos e os injustos seria logo morto, sequer chegando aos quarenta ou cinquenta anos. Entrando pela senda politica e opondo-se as ilegalidades, crimes, arbitrariedades e injustiças não tardaria a tombar o filho de Fenarete! Todavia era necessário que vivesse ou ao menos que prolongasse sua nobre existência ate os setenta anos de idade, de modo a educar uma multidão de homens, formar uma constelação de cidadãos e garantir uma hoste inumerável de discípulos. Tal sua missão ou vocação atribuída pela Providencia celestial.

Destarte o socratismo prepararia o elemento humano e daria vida a democracia ainda em nossos dias i e vinte e cindo seculos depois. Porquanto a vida esta no ideal e não na estrutura.

Decorre do discurso de Sócrates que aquele tempo o sistema, cooptado por gente vil, ja matava, assassinava e suprimia a vida dos reformadores movidos pelo ideal.

E não havia espaço para críticos capazes de ameaçar a normalidade. 

Sócrates, amigo leitor, e quem pinta este cenário aterrador.

Observem agora como em nossos dias as coisas não fogem a esse padrão. Tendo um bom numero de vereadores, deputados e políticos virtuosos tombado sob cortante aço ou atingidos pela bala por se terem postado contra essa maquina de injustiça, denunciado seus pares e devassado seus crimes. Pois não e hoje este sistema menos feroz do que aquele.

Importa saber que a simples atividade educativa quando bem executada jamais se torna improfícua. Assim se nosso homem, evitando exercer cargos públicos, ultrapassou os sessenta não pode ultrapassar os setenta anos de idade. Pois enfim sua atividade tornou-se ameaçadora e tal foi sua gloria. Foi Sócrates bem sucedido como educador ético porque enfim incomodou o Estado ou a estrutura e tudo quanto ela representa, sendo enfim supliciado. Foi justamente a morte que coroou sua atividade educadora. Pois caso a não representar qualquer risco para o sistema não teria suscitado qualquer forma de repressão.

Por isso para o educador ético, humanista e consciente e dos mais luminosos.

Devendo saber ele que enquanto estiver vivo e seguro não cumpriu com seu dever e nada fez de duradouro. Devendo saber que enquanto não for ameaçado ou sentir-se incomodado não representa perigo algum - Por isso pode o homem falar ou discursas livremente. Pode no entanto ameaçar ou representar qualquer medida de risco livremente? Julgue e responda você mesmo amigo leitor. Pois estamos numa época em que muitos vangloriam-se quanto a audácia de seus discursos ou palavras enquanto comodamente vivem... sem serem molestados pelo poder estabelecido. Por isso me pergunto> Que fazem eles para não serem molestados? Pois vejo que Sócrates e Jesus não morreram confortavelmente em seus leitos.

De modo geral acredito que a vivencia, a vida e o exemplo de algumas pessoas rigorosas e intransigentes face as injustiças e mais ameaçador - Para o poder do dinheiro! - do que certos discursos revolucionários iconoclásticos dos quais muito desconfio. Confio mais no testemunho dado por certos homens e mulheres quando confrontados pelo sistema, assim como quando alguém que exerce autoridade toma coragem e se posta ousadamente em favor da fauna, da flora ou de alguma pessoa injustiçada ou ainda de qualquer grupo humano oprimido, pois estes, sabem que correm risco de morrer.

E uma situação concreta da vida que nos poem em risco quando fazemos a opção correta. 

Sempre podemos fugir e estar durante certo tempo a margem do sistema. Todavia quando estando nele - Em maior ou menor medida - oferecer-mos qualquer risco seremos exterminados ou ameaçados por algum matador profissional, capanga ou justiceiro - Sempre formalmente desvinculado, mas, moralmente vinculado... 

Ha quase trinta anos fui convidado para ser politico profissional ou para exercer ativamente a vida politica, e como sou policrata e não abstenceísta sempre tenho sido inquirido por meus alunos (Ao cabo de quinze anos.) sobre o porque de ainda não me ter candidatado ou disputado eleições quando tenho imensa possibilidade de vir a ganha-las tornando-me vereador e implementando uma pauta verdade ou social... Hoje, por meio desta reflexão dou publica resposta e fundada razão ao interrogantes.

Meio constrangidamente confesso que mesmo não temendo a própria morte temo pela segurança de meus entes queridos, de minha mãe idosa, irmão, animais de estimação... Tal a minha covardia e fonte da restrição. Por isso mesmo quando me excedo, grito, denuncio, etc e sempre como articulista ou escritor, jamais como politico atrelado ao poder. Pois não sei por quanto tempo seria tolerado ou viveria. E certamente encontraria um trágico fim.

Por isso me sinto envergonhado quando me dizem que faco parte dessa coisa chamada opinião publica ou que influencio pessoas. Talvez por meio dessas páginas influencie um ou outro, todavia não um número suficiente de pessoas com que ameaçar a 'desordem estabelecida' ou este sistema iníquo de coisas a que chamam estrutura. Pois caso ameaçasse de fato não seria minha sorte melhor que a de Jesus ou que a de Sócrates. Tendo eles recebido a cruz e a cicuta, escaparia eu - Aluno de ambos! - a bala ou a ponta do gládio? Certamente que não - Pois não pode o aluno estar acima de seus instrutores.

Portanto se vivo estou e porque sou inofensivo, inerte e inútil - E sofro por ter plena consciência disso...

Espero que chegando aos setenta ou oitenta tenha já incomodado suficiente o sistema a ponto de obter o que chamam de martírio - Prêmio com que se coroa uma vida honesta! E que a Providência divina e celestial me predisponha a tanto.





 

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Revolução, violência, razão e Cristianismo.

Poucos temas há, tão polêmicos quanto o tema da violência.

Tema em que se vai da rejeição absoluta ou do pacifismo crasso a aceitação absoluta assim ao odinismo, entre os quais há toda uma série de gradações.

No Evangelho damos ora com Jesus Cristo mandando Pedro embainhar sua espada ora com o próprio Jesus expulsando os fariseus do tempo com um chicote. 

Textos que tem dado o que falar e sido empregados por pacifistas como Tolstoi e por odinistas como Sorel.

De modo geral a Igreja Antiga ou dos padres, ao menos no plano da fé, repudiou decididamente o apoio da força ou da violência. Outro o caso das relações pessoais, onde predominou igualmente o pacifismo, alias crasso. E por fim outro o caso das relações sociais, havendo cristãos pacifistas, cristãos revolucionários e cristãos equilibrados ou partidários do emprego a violência circunstancial ou contida.

Agora por que o mesmo Jesus que empunha o chicote aqui repreende Pedro acolá, mormente quando ele Pedro exercita a defesa enquanto que ele Jesus ataca?

Há quem diga, equivocadamente, que Jesus aqui procede como Deus enquanto que Pedro ali procede como mero homem. Não aprecio todavia esse tipo de interpretação, a qual me sabe a monofisita. Evidentemente que quando perdoa Jesus os pecadores sabemos que tal ação tem seu motor primário na natureza eterna e divina. Agora quando exerce certa violência ou força contra os mercadores sacrílegos não temos como saber com exatidão qual seja o motor primário ou mais remoto de tal atitude. 

Direi então que o motor mais provável dessa ação Cristológica executada pela natureza humana seja a natureza divina, embora não possamos demonstra-la. 

Todavia meu ponto de vista e bem outro e consiste em distinguir que faz Jesus do que faz Pedro. Pois Pedro empunha uma espada que fere e mata. Enquanto Jesus emprega um feixe de cordas (Ev de João 2,15).

Insistirei resolutamente quanto a esta distinção, a ponto de apresenta-la como fundamental: Pedro não empunha um feixe de cordas e Jesus não utiliza uma espada. Pois os partidários de que a violência é sancionada por Deus quanto as coisas profanas costumam alegar que dá no mesmo Jesus ter empregado uma feixe de cordas ou chicote, uma espada, uma lança, uma metralhadora ou uma bomba. Advirto porém que o texto em questão não diz respeito ao emprego da violência no plano social, e sim ao suposto emprego da violência no plano religioso ou da fé, o que acaba por chocar-se contra o conjunto dos ensinamentos de Jesus. O qual a um tempo condenou radicalmente o emprego da violência no plano do ideal e a outro jamais imiscuiu-se em questões formais de sociologia ou política, as quais são indiferentes ao Evangelho.

Ora, justamente por tal narrativa estar vinculada a piedade religiosa não cabe recurso a violência ou mesmo a força. 

Segundo a narrativa sumária de S Mateus Jesus expulsou ou teria expulsado os vendedores, derrubando suas mesas e cadeiras. Agora como fez isto? Onde Mateus silencia S João completa: Valeu-se dum feixe de cordas a guiza de chicote. Donde concluem alguns que teria batido nos cambistas. A narrativa todavia indica que com o chicote espantou os animais que ali se achavam. De que resultou terem as mesas, cadeiras e moedas caído pelo chão (Outras foram derrubadas pelo próprio Jesus) e a fuga de ao menos alguns mercadores devido a surpresa e ao pavor, afinal aquele tipo de ataque era algo atípico e inesperado. 

Teria o Senhor ao menos batido nos animais que ali se achavam com o objetivo de espanta-los?

Também isto tenho por demasiado improvável.

É coisa a respeito de que a letra do Evangelho igualmente silencia e o Redentor sempre poderia ter feito girar e zunir aquele chicote com cordas, bem como bater com ele no chão e nas mesas e cadeiras para assustar os animais po-los em fuga e causar todo aquele tumulto assombroso.

Nada no Evangelho impõem a crença ou ensinamento de que chicoteou Jesus os pobres animais e menos ainda que tenha surrado a sacerdotes e cambistas, e isto sempre será ultrapassar a letra, profanar a divina Revelação e simplificar as coisas.

Nem pode aquilo que sequer se equipara a um chicote ser equiparado a lanças, espadas, machados, revólveres, metralhas e bombas... E apenas alguns cérebros doentios poderiam concebe-lo. Ademais o quanto teríamos aqui seria a aprovação quanto ao emprego da violência no âmbito da fé ou da religião. Sendo assim por que os primeiros Cristãos não partiram para o ataque e conquistaram o império romano recorrendo a guerra e a espada? Deixando-se inclusive condenar injustamente sem esboçar resistência? Acaso não compreenderam o sentido 'oculto' do Evangelho?

Admitia essa versão nada teríamos em Jesus além de um outro Moisés ou Maomé, alias, neste caso Zwinglio e Calvino o teriam compreendido melhor do que quaisquer outros. Tal a versão odinista do Jesus fascista e do Jesus fascista uma vez que os Comunistas ao menos não se importam com ele a ponto de distorcer seu caráter e ensinamentos.

Implica essa constatação admitir que o emprego da violência quanto as relações sociais e políticas não é norteado pela Lei religiosa e ética de Jesus Cristo - A qual obviamente remove-o das relações ou do convívio pessoal. - mas pela experiencialidade e sobretudo pela reflexão. 

Apesar disso há algo desse espírito evangélico que se estande remotamente as relações sociais, como que a guiza de inspiração. Trata-se aqui da condenação do primeiro motor do odinismo ou daqueles que estimulam a agressividade e a conquista associadas a violência. Então a violência para ser lícita deve romper com o paradigma anti Cristão da belicosidade ou da conquista. E circunscrever-se a esfera da defesa. O uso político e social da violência na perspectiva Cristã estará sempre a serviço da defesa, jamais da agressão ou da conquista.

Não pode portanto a violência, no sentido Cristão, servir ao assim chamado imperialismo seja qual for ele.

Tal a única baliza ou exigência ética.

Para além disto temos de conceder que é a violência um fenômeno tão instrumental quanto a estrutura política formal de nossa democracia. O qual por isso mesmo deve servir a algum propósito ideal ou ético. Quero dizer que a violência não pode ser avaliada em si mesma como algo bom (Como fazem os odinistas) ou mau (Como faz o pacifismo crasso.) mas sim quanto a seu fim ou objetivo. Então a pergunta a ser feita é se esse fenômeno pode estar a serviço de algo digno como o bem, a justiça ou a virtude, ainda que circunstancialmente.

Pois não pensamos como os revolucionários i é em acionar qualquer gatilho social por meio dela e assim criar novo homem ou nova humanidade. Eis o que não se pode ou deve esperar da violência, engendrando veleidades místicas. Podemos dizer sim a violência, mas não a sua mística. Não posso ver como a violência em si mesma ou mesmo enquanto meio possa entusiasmar o homem reflexivo.

Nem entusiasmar nem demonizar mas apenas avaliar até que medida podemos usa-la vinculando-a a uma boa causa.

Claro que ao utilizarmos a violência em benefício das crianças, dos idosos, das mulheres, dos deficientes, dos injustiçados, da natureza, etc estaremos fazendo um bom uso dela. 

Importa saber que a violência precisa ser administrada pela razão e assim sempre planejada, contida, limitada, etc 

Nem podemos conceber (Ao modo dos odinistas) a violência ou a força física como as diversas culturas de morte afirmam o mercado, a fé, a política, a ciência, etc i é como algo fora do controle da ética ou acima dela. Simples assim: A estância da Ética deve predominar em todos os setores da existência humana. Daí não estarmos de acordo com um uso irracionalista, cego ou voluntarista da violência.

Ao contrário dos Revolucionários, que imaginam a violência como gatilho ou motor primário da mudança, o quanto pretendemos é usa-la em algumas situações sociais circunstanciais, apenas com o objetivo de substituir umas pessoas por outras, assim as más, egoístas e injustas por outras que sejam éticas e tanto mais dignas. Não pretendemos tocar as estruturas, crendo que tenham elas seu fluxo, e que virão a ser alteradas pelas pessoas dignas e conscientes através dos meios educativos, políticos e sociais. Nós acreditamos na evolução orgânica das estruturas ou em sua transformação interna através do acúmulo de reformas acionadas pela formação ética dos cidadãos. É coisa de cultura não de murros, pontapés e bombas.

É por isso mesmo que não atribuímos as situações de violências, guerras, batalhas e conflitos a solução de todos os nossos problemas. Pois de fato nada resolverão. Limitando-se a criar novas possibilidades de ação, conforme delas resulte a troca dos quadros. É recurso destinado a arejar as estruturas e não passe de mágica que as altere radicalmente e a partir delas a sociedade como um todo. Toda essa mecânica social imaginada pelos metafísicos anarquistas, comunistas, nazistas, fascistas, etc é furada e assim as idéias de revolução e contra revolução.

Continua











segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Uma omissão significativa ou Jesus Cristo, Evangelho, Cristianismo e a produção do conhecimento científico

Certa vez, estando eu discutindo com um cientificista, leitor do antigo Draper, declarou-me ele incompatibilizar-se com Jesus e com os Evangelhos por conterem absolutamente nada em termos de ciência. Como homem de ciência meu amigo sentia-se consternado face a tal omissão por parte dos nossos livros santos, os quais nem mesmo lhe pareciam belos. Jesus para ser significativo deveria ter elaborado um ou outro discursinho sobre ciências naturais. Mas... O Evangelho é isto, um completo vazio em termos de imanência, e ele não aborda o tema, o tema da ciência... E nosso Evangelho não pode pretender ser um manual de ciências a exemplo do Corão ou da Tanak. Decerto nosso Jesus focaliza a transcendência, e prioriza (Como Sócrates, Confúcio, Buda...) a Ética.

Após ter ouvido as queixas de meu amigo lembrei-me do terceiro Califa 'bem orientado' Ommar Ibn Khatib. Aquele mesmo Ommar que mandou Amr ibn al Ash incendiar a famosa biblioteca de Skandarya. Sucederam tais eventos ao tempo de Sofronius, Batrak de Jerusalém (Al Kudush) - O Basileus era Heráclito - Ubaidah, o infiel, havia cercado a cidade e exigia rendição. O Patriarca no entanto recusava abrir as portas a menos que o Califa viesse tomar posse da cidade e assinar o acordo. Claro que se qualquer outra cidade fizesse tal exigência teria sido varrida da face da terra. Jerusalém no entanto era considerada Sagrada pelos agarenos, os quais acreditavam que Maomé a visitará, montado na égua branca Al Borak... Tentaram passar Khalid Aal Wallid, a 'espada' pelo Califa, mas o plano não deu certo. Diante disto o 'piedoso' e justo Ommar teve de deixar Madinat e vir a Jerusalém. Diante dele as portas da cidade santa foram abertas e o acordo assinado, com certa vantagem para os Cristãos...

Até aqui a conquista.

Na qual há um pequeno episódio, que bem ilustrará a omissão dos nossos Evangelhos ou a lacuna imperdoável nos ensinos de Jesus.

Contam os cronistas infiéis que estando Ommar em Al Kudush durante a prece a que chamam Al Zuhr, o Batrak sofronius convidou o Califa a fazer suas preces no Santo Sepulcro. Ao que Ommar recusou educadamente, declarando não ser prudente faze-lo, uma vez que os muçulmanos seriam levados e imita-lo e quem sabe tomar a igreja e transforma-la numa Mesquita. Omitiu-se assim de ali rezar para não abrir precedentes a seus comandados.

Encaro nesta mesma perspectiva a omissão de Jesus ou dos Evangelhos em torno da ciência ou da imanência e encaro-a sobretudo como um ato ou tributo de respeito face a esse tipo de saber. O qual não pode nem deve ser confundido com a Revelação divina.

Não quis, nosso Jesus, dizer uma mínima palavra sobre este tema para que futuramente os Cristãos não misturassem as coisas e revindicassem para a divina Revelação o controle da ciência, invadindo assim sua esfera e eliminando sua autonomia. E por isso temos uma lacuna significativa, a partir da qual podemos dizer: A ciência é um saber natural, cuja liberdade temos de reconhecer.

Tome agora por modelo o antigo testamento.

Cuja origem sócio, histórico, cultural é bem outra e anterior não apenas ao Evangelho, mas ao surgimento da Filosofia e da Ciência. Aquele registro não podia furtar-se a elaborar ao menos alguns discursos em torno da imanência, exprimindo-se por meio de mitos e fábulas cujas origens remontam a antiga Suméria. A Tanak dos judeus, como o Corão dos muçulmanos, possui um conteúdo de imanência destinado a substituir uma ciência que ainda não fora construída...

Foi uma necessidade e os antigos hebreus não devem ser levados a mal por isto... Estavam em sua época ou tempo. O problema são os nossos 'bíblicos' ou fundamentalistas, os quais - Negando o raciocínio e a experiência - ousam afirma-lo em pleno XXI, i é após Copérnico, Galileu, Kepler, Agrícola, Newton, Hutton, Darwin, Wegener, etc ou seja após a afirmação da Filosofia e da Ciência após o fim da Idade Média. De certo modo o problema não é a Tanak, a Torá ou o Gênesis mas a leitura irrefletida de nossos 'cristãos' alienados e imbecis...

Mal orientados acreditam eles que as partes não proféticas dos livros judaicos seja iguais o Novo Testamento ou o Evangelho - Tal a doida doutrina da inspiração plenária, a que juntam outra pior, a da inspiração linear e mesmo a inspiração verbal... E diante da presença deste discurso pré científico, que envolve a imanência, na Tanak dos judeus, concluem que a Revelação divina possui um conteúdo científico e portanto que cabe sim a Religião, a fé, aos pastores, etc intrometerem-se nos domínios da ciência e julga-la ou controla-la.

Toda esta pretensão totalitária dos sectários fanáticos deriva exatamente disto: Que encontram um discurso pré científico voltado para a imanência nos escritos dos antigos judeus. Diante disto invadem ou negam, sem maiores cerimônias, os domínios da ciência ou do conhecimento científico, anatematizando todos os que sucederam a Copérnico e nos ajudaram a compreender este mundo natural, cujas leis, tão belas, fixadas foram por Deus, pelo Deus do Evangelho.

Como a tal bíblia fixou em suas mentes o paradigma do fetichismo, com seu deus interventor e sucessivas correções, eles não podem reter o conceito básico de lei natural que vai, em linha reta, de Copérnico aos dias atuais. Então a questão aqui não é Deus - O qual é perfeitamente compreendido pelos cientistas Católicos como aquele que concebe, conduz, dirige e orienta o processo natural - mas sempre o Gênesis - Encarado como manual de ciências ou Enciclopédia, ou a letra do Gênesis, sempre naquela perspectiva mágica, irredutível a causas segundas... A mente sectária das massas parece não poder captar ou assimilar algo tão simples.

Diante desta tragédia imagine só se Jesus de fato tivesse discursado sobre o mundo natural...

Como toda essa gente tosca, deslumbrada face as soluções simplórias da mitologia hebraica, não haveria de clamar e de dizer que esta certa e que o controle da ciência pertence a religião. Como não iam misturar e confundir tudo, em benefício do fundamentalismo, do totalitarismo credal ou mesmo da teocracia...

Nós no entanto, que somos sinceros, estamos autorizados a corrigi-las, repetindo até a exaustão que nosso Jesus jamais deu aulas de ciência a seus ouvintes ou seja que ele jamais invadiu o terreno da imanência, concentrando seus discursos no mundo invisível ou no mundo futuro. Do contrário, se o discurso da imanência pertence a Revelação nosso Evangelho esta INCOMPLETO. Todavia esta ele bem completo, justamente porque a predicação científica não pertence a fé religiosa, estando os domínios da fé e da ciência eternamente separados quanto a seus objetos, pelo que jamais se confundem.

Percebo assim - E espero que você, amigo leitor, também perceba! - que esta omissão denunciada por alguns cientificistas foi intencional e estratégica, resultando dela a possibilidade dos Cristãos mais instruídos estruturaram um discurso próprio honestamente favorável a autonomia da ciência e a liberdade da investigação científica face a qualquer revindicação de controle por parte dos sectários e fanáticos.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Observando o fenômeno religioso contemporâneo - Salmos, Evangelhos, seios, bundas e finalidade...


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Enquanto faço meu passeio vespertino cruzo com uns seios túmidos ou turbinados cobertos com uns versículos bíblicos tomados aos Salmos.

E como não poderia deixar de ser semelhante contemplação suscita meu senso crítico. Creio-me semelhante a diabetes que minha meu organismo, a qual me faz beber e logo em seguida ir ao vaso despejar... a semelhança do tonel das danaides... Na mesma medida em que leio, estudo ou observo sinto a necessidade de produzir algo, de registrar, de escrever ou mesmo de comunicar, embora a prioridade seja escrever para mim mesmo, e observar as futuras variações.

Por isso os tais seios cobertos por palavras que se creem divinas ou sagradas suscitaram minha reflexão.

Num mundo em que os fanáticos religiosos adoram bater na tecla da finalidade sexual - Em termos de uma estrita ortodoxia - penso que não seja honesto, mas leviano, restringir a tal finalidade a esfera da sexualidade humana. A coerência nos obrigaria a aplica-la as demais esferas da existência, assim a própria fé e seus veículos.

A leviandade e a incoerência no entanto parecem ser os pecados originais deste triste tempo.

Antes de tudo, quando contemplei aqueles seios, que muitos consideram como belos e que noutros tantos suscitam impulsos eróticos, e li as palavras gravadas sobre eles - Que bem poderiam ser: "Quem tem sede vem a mim e beba.", "Minha carne é verdadeira comida." ou qualquer frase isolada tomada aos Santos Evangelhos - não pude pensar em bundas, pênis ou vaginas... Órgãos contra os quais nada tenho em absoluto, ao contrário dos neo maniqueus.

Tudo quanto pensou Deus e chamou a existência, digno e puro é.

Pelo que não haveria maiores problemas, ontologicamente falando, em gravar tais versos, inclusive as palavras do Verbo Jesus sobre os panos ou tecidos que cobrem tais partes. Isto não me indignaria mais do que ve-las gravadas sobre os tecidos que ora cobrem peitos, barrigas ou costas... Para mim dá tudo no mesmo e não há diferença alguma. Se se pode ou deve gravar as palavras divinas sobre determinada peça de roupa destinada a cobrir uma certa parte do corpo pode-se revestir qualquer parte do corpo com tais peças, uma vez que o corpo assumido pelo Verbo Jesus é sagrado em sua totalidade e não há nele parte suja ou menos digna.

Claro que não me refiro aos Salmos ou a qualquer parte aleatória do antigo testamento, pelo simples fato de não ser judaizante ou partidário de um 'corão' cristão... A maior parte dos seios por sinal são mais puros, dignos e belos do que a maior parte das passagens da Tanak ou da Torá, inclusive dos tais Salmos. Não pelos Salmos... Pois como o grande Camilo Castelo Branco - autor do "Amor de perdição" - não os aprecio nem faço caso deles, a exceção daqueles que reportam-se profeticamente ao advento do Messias Jesus. Há por certo um sentido existencial nessas produções judaicas, há religiosidade sincera, grandeza e lirismo, o que por certo faz delas uma obra prima da literatura universal. Não o podemos negar... Todavia como Cristão, Católico e Ortodoxo prefiro e creio mais excelente a produção hinográfica do Cristianismo nascente ou medieval, assim as produções de Efraim, Ambrósio, Romanos, Prudêncio, Damasceno, Germano, André, etc O Simeron, o Akatistos, o Adeste, o Exultet, etc Em tudo isto vejo mais providência, presença do Espírito Santo, significado Cristão e fartura espiritual. Após o Evangelho é a hinografia Cristã primitiva que alimenta meu espírito. Pois o panorama ideal ou ético destes Salmos, em seu quadro geral, é bastante baixo, vulgar e grosseiro, haja visto os tais Salmos deprecatórios, cujo objetivo é amaldiçoar ou fazer mal aos inimigos, quando o abençoado Redentor obriga-nos a abenço-los, a suplicar por eles, a ama-los e a estar disposto a perdoa-los... Ora tais, Salmos, acham-se em franca oposição a este ideal sagrado e por isso, a exceção dos que apontam profeticamente para o Senhor Jesus Cristo, repito - Não faço caso deles, ao contrário dos fanáticos...

Pouco se me dá que sejam impressos em tecidos e ostentados sobre quaisquer partes do corpo humano, sejam elas bundas, barrigas ou seios. O problema aqui restringir-se-a aos fanáticos que encaram tais partes como sujas e irreverentes e os tais Salmos como divinos. Já vimos todavia que a coerência não é padrão para tal tipo de gente ou para as massas.

Outra coisa são as palavras de Jesus Cristo ou as passagens do Evangelho, as quais tomo a sério como coisa preciosa ou como regra de vida. Reconheço, como Liberal convicto, o direito de tais pessoas gravarem versos do Evangelhos ou as palavras Sagradas de Jesus sobre tecidos ou peças de roupa e cobrirem com elas quaisquer partes de seus corpos, mas, discordo resolutamente da prática, na qual não vejo qualquer sentido religioso ou espiritual. Claro que por uma questão de coerência ou de justiça, estendo esta crítica a moda, assumida pelos neo católicos ou carismáticos - Sempre levados a imitar ou assimilar práticas protestantes! - de imprimir as figuras de Jesus, da Virgem ou dos Santos sobre suas camisas ou camisetas, o que dá no mesmo. E como os católicos tendem a ser tanto menos complexados ou incoerentes há cerca de uns vinte anos ou mais, foi publicamente lançada, no programa da falecida Hebe Camargo, uma linha de roupas íntimas ou cuecas que traziam estampadas sobre si as figuras de Jesus Cristo e da Santa Virgem sua mãe. Nesse momento os mesmos puritanos hipócritas que a muito ostentavam as 'Sagradas ícones' sobre seus túmidos seios ou barrigas flácidas, puseram-se a gritar como loucos. Mas... por uma questão de princípios, cara a racionalidade católica, tinha de chegar onde chegou... Tal a imprudência e leviandade dos neo católicos que assumem práticas protestantes e julgam poder conte-las arbitrariamente em seus estreitos limites. Difícil conter os católicos, especialmente os moderados, já habituados a pensar criticamente o quanto não seja dogma...

O que quero dizer é bastante simples, a ponto de qualquer protestante sumariamente letrado ou de qualquer católico nutrido nos elementos do catecismo poder entende-lo ou até de aceita-lo, caso tenha boa vontade. Nada no Evangelho nos indica que as palavras do Mestre Jesus devessem ser impressas sobre tecidos com o objetivo de enfeitar peças de roupas destinadas a cobrir o corpo humano. Não foi certamente com este objetivo, cobrir ou enfeitar os corpos dos crentes, que o Senhor comunicou expressamente seus ensinamentos. O objetivo da palavra escrita é ser conservada fielmente, lida, meditada e enfim posta em prática. Outro não foi nem é o objetivo da palavra ou das cenas de nossa Redenção pintadas nas paredes de nossos tempos, tal o Evangelho dos analfabetos... Tudo isto, estendendo a pregação oral do Verbo foi posto para a leitura, a reflexão e a vida, não para adornar nossas vestes externas e corporais fazendo aparência.

As palavras do Mestre Jesus deveriam ter passado da oralidade original ao papel, as paredes dos templos e dai ao espírito ou ao fundo dos corações, para que se tornando vivas e operantes transformassem este nosso mundo. A modernidade superficial e leviana deu-lhes um novo e estranho caminho: Os corpos e peças de roupa!!! Convertendo-as em modas e pasme, marcas... A partir das quais se toma lucro! Os sectários protestantes já se precipitaram neste abismo farisaico, a ponto de comercializar peças de roupa marcadas com o 'nome' adorável... Aqui nossos amigos ateus, materialistas, agnósticos, budistas, xiitas, etc que por estes e outros motivos descartaram a fé Cristã tem pleno direito de rir, e nós, que ainda temos alguma esperança e que com esperança nostálgicas contemplamos o passado, temos o direito de deplorar e de chorar este hiante abismo de incoerência e leviandade, através do qual o repisado discurso sobre a finalidade,apressadamente traído por seus partidários. Talvez, com Voltaire, seja melhor rir, apenas rir, pelo fato de retermos alguma esperança.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

A paródia da Porta dos fundos e a Paródia de Jesus...

Caso esteja você a ler estas linhas saiba antes de tudo que foram escritas por um Cristão consciente e convicto. Por um Cristão atanasiano ou niceno, alias um dos poucos Cristãos atanasianos pertencentes aos altos meios acadêmicos. Por alguém que acredita piamente não apenas na divindade de Jesus mas também na Virgindade perpétua de sua mãe. Por alguém que lê o Evangelho todos os dias, que estuda a Tradição patrística, que julga ser estritamente Ortodoxo, que exerce um apostolado e estima a doutrina. Por alguém que recita as horas, faz a Páscoa e tem a seu encargo a instrução dos fiéis... Seja portanto mais rápido no ler do que no julgar. Pois certamente ficará bastante surpreendido com o que tenho a lhe dizer.

Afinal tenho quase 110% de certeza de que 99% dos cristãos que iniciarem esta leitura deste artigo julgarão que acusarei o citado grupo de comediantes ameaçando-o não apenas com os fogos eternos do inferno mas também com a violência do poder temporal... Por isso digo que vocês ficarão surpreendidos ou mesmo exasperados. Alguns ficarão indignados com o que estão por ler e da mesma forma como desejaram o câncer para os atores da porta, deseja-lo-ão para mim. E praguejarão... amaldiçoarão, etc

Sei que será assim porque nasci e fui educado como protestante. Porque tendo passado pela igreja romana conheço o que há de melhor e de pior nela. Enfim porque me tornei Católico Ortodoxo... Estando habituado a ouvir ameaças e escutar pragas por parte daqueles que deveriam antes de tudo ouvir, abster-se de julgar e abençoar; sim abençoar, pois Ele disse: "Abençoai os que vos maldizem!". Como disse: "Sereis perseguidos.", jamais: "Sereis perseguidores ou algozes." - Logo há algo de muito estranho neste novo cristianismo feroz, dos perseguidores e dos que amaldiçoam.

Partindo do princípio de que o programa humorístico em questão levou a paródia e assim ridicularizou a adorada figura de Jesus.

Não é a primeira vez que ouvimos semelhantes rumores - Caio Fábio fez-nos o favor de trazer-nos a memória 'Jesus Cristo super star'. Recordei algumas tiradas de Monty Phyton, outras tiradas bem mais agressivas do Charlie, o polêmico filme 'A última tentação de Cristo'... outras tantas personagens passaram-me pelos miolos: O Dr Binet Sanglé, Leon Tolstoi, Kazantzakis, M Mastroianni, etc De modo que bem poderia eu citar: "Nada há de novo debaixo dos céus." ou ainda "A História se repete primeiro como tragédia e em seguida como comédia."

Tudo quanto vemos e pensamos porém, em termos de distorção, blasfêmia, sacrilégio, irreverência, etc nada tem de original. Tudo 'palha' em comparação com o que tem feito os cristãos nominais no decurso dos últimos séculos. De fato a Porta nada fez ou faz além de devolver o presente confeccionado pelos cristãos nominais nas oficinas a que chamam igrejas. E já vou dizendo que não há maior nem melhor fábrica de blasfêmias e sacrilégios do que elas, e que todos os dias a humanidade tem sido levada a maldizer a pessoa de Jesus Cristo graças a tais organizações sectárias.

Nenhum Jesus mais falso do que este apresentado pelos neo Cristãos, no decurso do último século, por esta Escola de ateísmo chamada 'Teologia da prosperidade'.

Que pensar, com efeito, daqueles que pintam o Deus que aniquilou a si mesmo, despojando-se de sua glória, a semelhança de um nababo ou milionário?

Leem que seu Senhor nasceu numa manjedoura ou gruta e imaginam ter nascido ele num palácio ou berço de ouro...

Ouvem a exortação sagrada: Não junteis tesouros neste mundo... e utilizam-se de sua palavra com o objetivo de amealhar tesouros.

Escutam dia após dia: Não podeis servir a Deus e as riquezas. E acumulam riquezas em nome de Deus!

Recitam a todo instante: O que de graça recebestes, de graça dai. E cobram, e vendem, e traficam... em nome Dele.

Ouvem que Lázaro, o rico egoísta, foi lançado as chamas, e imitam-no.

Fingem acreditar ser mais fácil uma corda ou um elefante passar pelo fundo de uma agulha do que o rico entrar no paraíso celestial e tomam posse de imensa fortuna.

Sabem que ele deseja misericórdia, não sacrifício e declaram que ele deseja dinheiro! Cônscios de que ele demanda pelos corações dos homens ocupam-se apenas das bolsas e cofres...

Testemunham o Redentor conflitante com os escribas e fariseus, e cobram dízimos...

Observam o Justo ser suspenso nu, no alto de um madeiro, como espetáculo as nações; e declaram ter sido ele bem sucedido....

Percebem-no expulsando os vendedores do santuário e apresentam-no como empreendedor.

Ouvem-no proclamar Felizes os desapegados e proclamam que a verdadeira bênção é a prosperidade.

Duvidam de que Deus derrubara os poderosos de seus tronos e exaltara os pequeninos. Buscam as grandezas da terra...

Embora ele não tivesse uma pedra sobre a qual depor sua fronte cansada eles habitam em castelos.

E não tendo nascido num castelo é sepultado num túmulo emprestado.

Em sua maldade tem ousado comparar a jumenta com que entrou em Jerusalém a uma Ferrari, ignorando que seja um puro sangue árabe...

É até se esforçam por demonstrar que este nosso Jesus foi um milionário ou avarento.

Todas as bem aventuranças exaltadas pelo Senhor eles substituem pela posse de bens materiais e para eles o Mestre até Poderia ter sido um banqueiro ou Senhor de escravos.

Avançado pela senda da iniquidade autorizam a venda de toda sorte de amuletos e bugigangas, estabelecem taxas e proclamam feliz ou bendito o comprador.

Por fim, completando todas as medidas, afirmam que Deus ama e recompensa aquele que paga ou oferece dinheiro com sinais e prodígios; assim que o Santo comercializa seus dons e vende suas graças; embora ele diga e repita - NÃO FAÇO EU ACEPÇÃO DE PESSOAS.

Mas eles assegura que este Jesus favorece o rico e prefere o milionário.

Oferecem a pobre humanidade um Jesus que se vende, um Jesus corrupto, um Jesus venal, um Jesus avarento e prostituido!!! Eis o ídolo podre que tem eles oferecido aos tolos nestes últimos cem anos! Eis a paródia... Substituíram Jesus por Tetzel, o traficante de indulgências desmoralizado por Lutero, e este que seu mestre apresentou como ímpio e vil transformaram em Deus.

Que tem de concreto, histórico e real este novo Jesus 'empreendedor' e financeiramente bem sucedido, concebido a imagem e semelhança dos pastores avarentos? Nada.... Absolutamente nada.

Tendo recebido a oferta desse Jesus estranho, como uma espécie de tapa ou bofetada, a humanidade - insultada pelo pentecostalismo - revida por meio da Porta dos fundos...

Recebemos por paga uma paródia da paródia que fizemos. A nossa no entanto foi feita por supostos homens de fé...

Julgo que a paródia do Gregório seja depurada ou menos maliciosa e grosseira.

Esperneia agora esse mesmo 'bom cristão' ou cidadão exemplar que há mais de século assiste Jesus ser apresentado como vendilhao sem jamais ter pensado em protestar...

Pelo menos dos Católicos o protesto chega com atraso.

Acaso não tem eles engolido essa teologia podre da prosperidade... Sem soltar um suspiro ou dar um grito....

Verdadeira blasfêmia não é a porta dos fundos apresentar o Redentor como um homossexual, que isto não muda coisa alguma nem o atinge....

Verdadeiro sacrilégio é você Ortodoxo ou romano 'devoto' sem obras - é portanto de alma protestantizada - sair da liturgia ou da Igreja e passar pelo pobre ou pelo mendigo, batizado, membro de Cristo e irmão seu, sem sequer olhar para ele ou dar-lhe a esmola de uma palavra... Julgando ser ele um parasita ou vagabundo.

Se isso não é capaz de choca-lo ou de sensibiliza-lo julgo que Nosso Senhor poderia apontar para si e dizer aos atores - Maior pecado tem quem finge ou afeta crer em mim e NÃO crê ou NÃO vive...

Vivemos assim num tempo em que fariseus batizados continuam a coar elefantes e no qual os vendilhões, expulsos pelo Senhor do templo, parecem ter se refugiado na Igreja ou no corpo da cristandade nominal...







domingo, 12 de janeiro de 2020

A porta da frente da inquisição ou da sharia.

 Gregório Duvivier e Fábio Porchat no 'Especial de Natal Porta dos Fundos: A primeira tentação de cristo' Foto: Divulgação




Em diversas publicações e miríade de autores, dou com a informação de que 'no passado não muito distante 'eram os homens proibidos de tecer a mais leve crítica a religião vigente. Os que ousavam, eram, não poucas vezes condenados a morte e antes de morrer torturados com requintes de sadismo (Os blasfemadores por exemplo, tinham suas línguas perfuradas por pregos ou alfinetes, quando não arrancadas). Tudo em nome do BOM DEUS... E imagine só se NÃO fosse bom...

Eis o que lemos nos livros de História... E posso responder 'Uma ova'. NÃO porque não tenha acontecido até a vulgaridade, mas justamente porque ainda acontece em grande parte do mundo por nós habitado.

Assim onde impera a sharia e o fundamentalismo sunita/hambalita/wahabita/salafita - perdoem o monstro conceitual - se você ousar tecer críticas ao Corão ou negar a missão sagrada de Maomé, dizendo ser ele um homem comum, seu destino será o apedrejamento ou a forca, conforme a receita do ISIS...

Aqui no Oeste decadente há quem sinta saudades de semelhante regime e sonhe com fogueiras ou barrotes....

Aspirando punir meras palavras ou opiniões - que a DEUS certamente não atingem - hoje com o silêncio forçado, amanhã com fogueiras, uma vez que não as podem reascender da noite para o dia...

Cristão, Católico e Ortodoxo 'um tanto conhecido' ou famigerado, vanglorio-me de ter composto umas boas defesas da fé, da metafísica, da credibilidade dos Evangelhos, dos motivos e fundamentos da fé, etc Por isso deploro que a Excelsa Trindade ou o Verbo encarnado tenham de sofrer injustos ataques por parte dos que não professam nossa fé. Aos que sinceramente creem e amam é certamente doloroso ver o que se ama ridicularizado. Não que seja Deus atingido. OS ATINGIDOS SOMOS NÓS...

E no entanto conhecemos muito bem os Cristãos, em especial os sectários e fanáticos que ditam moda aos tempos... Então parece que há coisa muito mais séria que a porta dos fundos... E a justiça começa sempre em casa. "Por causa de vós o nome é blasfemado!". Palavras sábias e prudentes, escritas NÃO por mim...

Cristão com espírito judaico ou islamizado. Trocando palavras por vidas... apenas porque seus delicados ouvidos sentem se feridos. Mas... ao contrário do BOM Samaritano, nosso cristão devoto - fazendo companhia ao sacerdote e ao levita- passa a largo do irmão, do pobre, que vê largado a beira do caminho... E pau na porta dos fundos! Acaso não é isso querer soprar o cisco da vista alheia tendo um poste na própria??? Então se a porta dos fundos responder e perguntar pelo essencial: AMOR, JUSTIÇA, MISERICÓRDIA, PAZ, COERÊNCIA... Como não dar razão a porta dos fundos e merecer o título de fariseu hipócrita.

Direi mais é irei além!

Cristo, se algo o abala, deve sentir-se bem menos abalado ao ser apresentado como homossexual, prostituto ou bêbado do que ver seus adoradores e servos associando seu augusto nome a uma das mais degradantes formas de idolatria conhecidas: A avareza, o culto de Mamon, o capitalismo! Apenas porque SEU FILHOTINHO, o comunismo, esta errado. Desde os dias do falso profeta Calvino vocês tem professado esse binarismo maligno ou falso dilema e se nosso Deus e redentor fosse pintado pela Porta dos fundos como um empresário vitoriano bem sucedido ou como um Scroge, definido por S Ambrósio ou S Basílio como bandido (entre nós homem de bem!) todos assistiram e aplaudiriam encantados.

TIVESSE o Jesus da Porta três mil funcionários miseráveis, sem direitos e vivendo de salário. Como a família Raferty, descrita no Vale da decisão vocês nada veriam de estranho. E acharam cristianissimo o quadro das mães esqueléticas e crianças ranhentas chorando por uma côdea de pão velho... enquanto nosso Jesus empreendedor estaria badalando em Paris ou NY... Seria um fracasso porque vocês não ririam e jamais compreenderam o verdadeiro sentido de blasfêmia ou sacrilégio. Por que a mentalidade de vocês nada tem de Evangélica mas de farisaica.

É o eterno coar mosquitos...

Vocês só se interessam pelo que as pessoas comem, bebem, vestem ou fazem em matéria de sexualidade, mas desprezam a vida e a dignidade do próximo, que é um filho de Deus batizado... E nem mesmo diante de cenas pintadas por um Dostoievski, por um Dickens ou por um Gorki vocês se comovem e fazem penitência. Lavam o exterior dos vasos e poluem o conteúdo, quando não o destroem. E não a pingo de consciência Cristã nesse puritanismo afetado. Deseja Cristo empatia e não esse moralismo insensível, digno do espírito das trevas.

Vocês com a mesma língua viperina louvam Jesus e no instante seguinte sancionam a agressão, o julgamento, a arrogância, o morticínio, o ódio gratuito... Tudo quanto ele anatematizou! Além de apoiarem decididamente a opressão, a injustiça e descuidarem da vida! Nada mais ímpio do que essa anti ética, fundamentada na avareza e no egoísmo. APENAS ALMAS ESPIRITUALMENTE OCAS OU VAZIAS PRECISAM JUNTAR BENS MATERIAIS ATÉ O INFINITO...

Isto quanto a ética, que vocês subverteram.

E quanto a fé???

Se o muçulmano facilmente tomará a Evolução das espécies como heresia, sacrilégio e blasfêmia, a honestidade nos constrange a reconhecer que nossos Ortodoxos não se sairiam melhor associando a Trindade Excelsa, a Encarnação do Verbo e aos Sacramentos frioleiras tais como 14 mil (rsrsrs) Santos inocentes ou as 11 mil (kkkkkkkk) companheiras de S Úrsula, e mais ícones que vertem mel ou sangue, que choram, etc Os neo papistas canonizado todos os delírios dos pastorinhos, da irmã Faustina, do Pé Gobbi, de Jacarei... igualariam todas essas aberrações ao Evangelho e se mataria uns aos outros, acusando os que não creem ou os mais cautelosos de heresia...

Então se você ousasse criticar algumas dessas lendas toscas sobre os Santos e supostos milagres ou falsas revelações, seria forçado por lei a calar-se do que resultaria o triunfo, não dá fé esclarecida e sóbria, que honra Jesus Cristo, e sim da credulidade e da superstição.

Afinal qualquer grupinho de fanáticos sente-se melindroso ao ser criticado. A divina Revelação porém não tem o que temer e tampouco pode ser atingida por qualquer crítica. É portanto benéfico a comunicação da verdade que todos possam ser criticados ou mesmo expostos ao ridículo por seus oponentes. Exatamente por isto o Cristianismo nascente sempre reivindicou o direito de criticar ou mesmo de escarnecer certos aspectos do paganismo antigo. E não podemos ser dúplice ou hipócritas - Tal direito estende se a todos, inclusive a nossos adversários e não podemos reivindicar a liberdade apenas para nós, como se monopólio fosse.

Ou imitaremos os antigos pagãos, com os judeus e maometanos???

Por isso a todos os homens, concordem ou não conosco, atribuímos o exercício da liberdade, a liberdade de pensamento e de expressão. Sem quaisquer limites ou pretensão de domínio.

Imagine agora então se o cristianismo protestante dá de canonizado politicamente  bíblia inteira ou todo velho testamento, pondo Moisés na carcunda de Jesus??? Alegando que é sacrilégio, é portanto ilegal, tirar sarro da mulher costela, do tal dilúvio cobrindo os Himalaias, da burra falante, etc POIS É EXATAMENTE AQUI QUE OS PROTESTANTES QUEREM CHEGAR - TORNANDO SEU LIVRO INVULNERÁVEL OU INATINGÍVEL POR LEI.

E isto teria consequências infinitamente mais catastróficas do que as bobagens ou tolices da Porta dos fundos.

Num prazo bastante curto a nova Genebra de Calvino - com que vivem a sonhar nossos pastores fanáticos - deveria lugar a sharia dos sunitas e ao fim de nossa sociedade tão precariamente civilizada. Toda e qualquer ordem repressora ou inquisitorial seria a porta da frente do salafismo. Por isso a liberdade - mesmo quando redunde em injustiças- é nossa suprema garantia.

POR ISSO COMO CRISTÃO DEVOTO, CONSCIENTE E MILITANTE aplauso de pé a decisão do STF, que consolidando os fundamentos da democracia, garantiu os direitos da Porta dos fundos e dos que desejam assistir o que ela tem a oferecer-lhe. Ninguém está sendo obrigado a assistir, como ninguém ou estância alguma, tem o direito de decidir por outrem. QUEM NÃO QUISER ASSISTIR NÃO ASSISTA - DESLIGUE A TV E PRONTO.... OU FILIE-SE AO ISIS E VÁ PRA MEDINA, MECA, BAGDA, DAMASCO...

Pois o grande perigo não é a porta dos fundos ou suas piadas mas o sectarismo intolerante dos nossos cristãos 'bíblicos', o fundamentalismo islâmico, as inquisicoes, a sharia, a teocracia... Tais os espectros arrepiantes que assombrarão nosso futuro.

O mais - Nossos grandes pecados: avareza, injustiça, egoísmo, insensibilidade, arrogância, hipocrisia, etc - já conhecemos muito bem.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Pecado ancestral, tentação, Super ego, Freud e o Evangelho... Por uma nova compreensão em torno do Super ego (Ensaio de semi pelagianismo)


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É a doutrina Ortodoxa do pecado ancestral uma versão bastante mais atenuada do pecado original proposta por Agostinho de Hipona do século IV. A qual pode ser entendida inclusive naturalisticamente e em conexão com a doutrina de Freud sobre o Super ego. É antes de tudo a experiência do mal no homem uma experiência humana e natural.

Admitido que Freud metafisicou bastante em torno de suas constatações - editando-as como generalizações nem sempre bem fundadas - podemos relaciona-lo com Agostinho, o qual do mesmo modo metafisicou a respeito de coisas que não podia compreender a seu tempo, chegando aos confins do maniqueísmo.

Para os naturalistas ingênuos ou otimistas como Rousseau, é o homem uma criatura perfeita ou melhor harmoniosa. A Sociedade no entanto contamina-o ou infecta-o e nele introduz o mal. Temos de admitir que Rousseau, o otimista, estava absolutamente correto, ao identificar a Sociedade ou seu produto a cultura, como fonte do mal ou do pecado. Seu erro consiste em imaginar o homem, em qualquer tempo ou fase de sua vida separado da Sociedade, pois é este homem um ser social, social do berço ao túmulo. Social porque assim que nasce deve ser limpo, alimentado, aquecido, protegido... por outros seres humanos ou por um pequeno grupo social chamado família. E nem as famílias vivem isoladas umas das outras. Sendo o homem ao nascer um ser familiar, é concomitantemente um ser social, que pela família entra em contato com outros homens.

Uma vez que a sociedade ou a cultura estão impregnadas pelo pecado - mas não só por ele - o homem, gerado, nascido e criado em contato com a sociedade e a cultura terá sua mente preenchida em parte com memórias, recordações ou elementos pecaminosos. Temos assim no pecado ancestral uma potência que pelo pecado atual ou pessoal converte-se em ato.

Evidencia-se com prístina claridade a genialidade da doutrina do alexandrino, repetida por S João Damasceno na 'Fé Ortodoxa' é o pecado ancestral transmitido pelo exemplo humano, pela sociedade e pela cultura enfim. E assimilado pelos sentidos e pela memória - pela mente enfim - desde a vida infra uterina. Assim antes que atinjamos o estágio operatório formal, lógico ou racional - estágio em que nos tornamos aptos para julgar e decidir - temos já um substrato pecaminoso ou maligno em nossa mente.

Podemos então falar, quanto a diversos casos, num super ego pecaminoso, fonte das tentações com que o inconsciente opõem-se, diversas vezes, a deliberação racional. Dando lugar ao tão conhecido estado de combate ou ambivalência porque chegamos, não poucas vezes a neurose. Mas não estou a falar a lingua de S Freud, i é, em sexo ou sexualidade. Cristão Ortodoxo, não maniqueu ou judaizante, estou a falar em verdadeiros pecados ou dilemas éticos - postos pelo Santo Evangelho - e assim em princípios divinos como honestidade, justiça, solidariedade, amor, lealdade, etc é disto que estou a falar, numa concepção autenticamente Cristã ou Católica de pecado ou virtude e não em baboseiras puritanas ou moralistas.

Somos capazes de armazenar em nossas mentes, segundo o ambiente em que fomos criados, uma massa de princípios anti éticos. Noutras palavras um inferno interior ou um Diabo interior e todos conhecem a clássica imagem do anjo e do diabinho. E no entanto a composição do homem interior ou da mente jamais será totalmente má mesmo majoritariamente má. Tudo dependerá do ambiente, da educação, da formação, dos valores concretamente manifestados pelas pessoas com quem entramos em contato... O que nos faz avançar na direção da tese a respeito de um super ego majoritariamente ético ou bom, harmonizado com o aparato consciente ou racional.
Por meio de um super ego majoritariamente pecaminoso, face a uma deliberação racional saudável impoẽm-se o cenário de um drama - o drama do homem enquanto ser dividido ou fragmentado. Cindido entre o consciente ou o aparato racional e um inconsciente pecaminoso. Este drama, percebido por Agostinho e antes dele por Paulo é um drama real e vivo. Com que sentimentos não registrou o apóstolo: Faço o mal que desejo e o bem que desejo não faço. Que significa isto senão a luta ou a guerra entre o homem exterior, cônscio de seu dever e o homem interior dominado por instintos atávicos e más memórias?

Admitida esta compreensão podemos dar por desnecessária e fútil a ação externa de um suposto diabo. É o homem, e algumas parcelas do Novo Testamento já o sabiam, tentado por si mesmo e não por qualquer agente exterior, embora possa também ser sugestionado por outros homens. Claro que uma tentação que parte do interior ou de dentro será sempre mais intensa e incomodativa, afinal é difícil ao homem fugir de si mesmo. Outra constatação é a de que inexiste qualquer transmissão mágica em torno deste pecado... e tampouco qualquer tipo de culpa ou pena, pelo simples fato de não haver assentimento e portanto 'pecado' propriamente dito. Semente não é fruto. Pecado ancestral não é pecado pessoal ou atual, e portanto não implica culpa, e por não implicar culpabilidade não serve de obstáculo entre nós e o sagrado.

O que ele faz é predispor-nos ao pecado pessoal e desde então cindir por assim dizer, a pessoa humana, convertendo-a num campo de batalha, disputado por forças diametralmente opostas; as impressões maléficas e a deliberação racional ou consciência. Eis uma realidade a que não podemos fugir e mesmo os naturalistas são obrigados a encara-la no terreno da Psicologia. Todo homem que aspirar viver conforme os ditames da consciência e deliberação racional encontrará dificuldades e experimentará conflitos interiores.

Freud topou com mentalidades dominadas por conflitos de ordem sexual porque exerceu sua atividade num contexto saturado de puritanismo ou maniqueísmo. Noutros contextos sociais, em que a sexualidade, por não ser demasiadamente reprimida, não se tornava obsessiva, daria com outros problemas, inclusive com dilemas éticos. Assim as relações que descobriu e a que chamou complexas foram produtos de determinadas situações culturais.

Destarte poderíamos supor um outro tipo de Super ego, tanto mais próximo da consciência ou em harmonia com ela. Claro que isto implica a adoção de uma determinada lei ou padrão e de um padrão ético por parte dos educadores, dos pais, das famílias e mesmo da sociedade. Um contexto social em que predomine a ética da pessoa produzirá um substrato mental ou um super ego virtuoso e portanto em sintonia com a deliberação racional. Do que resultará uma vida equilibrada.

Claro que a pergunta que se faz é se além dos bons exemplos que se fixam na memória por meio do esforço cultural a que chamamos educação existe algo de bom imanente no próprio homem. E é claro que estamos invertendo a doutrina de Agostinho e postulando a presença de um bem metafísico. Se em termos de intelecto nossa resposta é um sonoro ou rotundo não, no sentido de que não há conteúdo de virtude ou de ética que anteceda a experiência vivida ou a operação sensorial (empirismo), em termos de uma vontade informe, intuição ou atração podemos dizer que sim e que este homem, possuindo elementos bons e mais em sua mente, identifica-se com os bons, tendendo ao bem. Por isso mesmo o homem natural com experiências de pecado continua sendo atraído pelo bem e realizando coisas excelentes, apenas violando a si mesmo, a sua natureza, a sua condição, o âmago de sua consciência, transforma-se num monstro.

Neste caso, se o homem contém algo de bom em si e tende ao que é bom para que a graça i é a Unidade de Jesus Cristo.

No plano natural por mais que aspire pelo bem, pela virtude e pela perfeição não pode este homem deixar de cometer o mal ou de pecar ao menos episodicamente, devido a ação deste super ego, no qual, em maior ou menor medida existe o mal. Do estado de combate contínuo a que esta exposto, ao menos em algumas ocasiões, resultará a derrota deste homem e, do ponto de vista puramente natural, um afastamento com relação ao Sagrado ou uma profanação. Outro seria o caso se os primeiros homens aos quais coube a deliberação racional tivessem sido fiéis a suas consciências e repudiado o que estavam habituados a fazer. Ao que parece não fizeram isto, cederam livremente a fragilidade e cometeram o primeiro pecado atual e após este alguns outros... até que o mau exemplo contaminou a todos e pelo exemplo fixou-se em todas as mentes, tornando o ideal da impecabilidade impossível.

Por isso manifestou-se o Verbo eterno Jesus Cristo, nosso Legislador e Mestre com o duplo objetivo: De fixar um padrão absoluto de ética por meio de sua Lei, o Evangelho ou o Sermão do monte e de auto comunicar-se a todos os homens de boa vontade, ou que se sentiam desconfortáveis face as situações de pecado. Por auto comunicar-se compreenda-se: Agregar-nos espiritual e intimamente a si, ligar-nos a sua Unidade e oferecer-nos a sua amizade que é a graça.

No entanto não é esta graça elemento neutro ou de enfeite mas um elemento ativo ou capacitador, o qual vem em socorro de nossa boa vontade ou do bem que há em nós reforçando-o contra as tentações. Coadjuvados pela ação da graça podemos resistir heroicamente as tentações internas e vence-las, podemos resistir ao pecado e romper concretamente com ele, podemos cessar de pecar e nos tornar santos, podemos cumprir o mandamento de Jesus Cristo: Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito. Isto é a conversão, 'Metanoia' ou mudança, não de opinião ou crença, mas de vida.

Podemos assim, por meio de uma educação ética, conforme os princípios do Evangelho, produzir super egos cada vez mais puros e diluir o drama do conflito. Como podemos com o auxílio da divina graça superar o conflito e assumir uma vida de santidade e perfeição. Uma mente nutrida do Evangelho desde o berço e posta em contato com a graça do Senhor trilhará a passos largos a senda do bem, do amor e da justiça. Uma memória impregnada por bons exemplos e socorrida pelos Sacramentos não poderá deixar de frutificar abundantemente e de dar bons frutos cem por um.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

É o Evangelho produto do judaísmo antigo?

A Claudio Machado



Cristãos, mas antes de tudo homens e homens dotados de sentidos e racionalidade, admitimos, sem maiores problemas, que o 'ritmo' deste universo é progressivo ou que ele se desenvolve de fase em fase, de período em período, de era em era... aumentando em complexidade ou evoluindo. Esta Evolução, incontestável, é a um tempo física, química, biológica, psicológica e social. Sem ser 'simples' ou linear, mas complexa e sujeita já a recuos, já a variações, nem por isso deixa esta dinâmica de ser perceptível ou constatável.

Para nós a teoria sintética ou o que chamam de darwinismo mitigado é 'teoria' destinada a explicar um 'fato', este fato a Evolução. A Evolução não é apenas um esquema conceitual ou teórico elaborado pelo intelecto, foi e é algo real, algo que aconteceu e que acontece, em termos chãos - Um fato... Reconheço que a expressão é defeituosa, mas didaticamente aceitável.

A História do homem em Sociedade - porque jamais damos com o homem de Rousseau isolado dos demais como uma 'ilha' - segue a mesma trajetória, a qual não sendo linear - mas sujeita a crises e recuos em sua assunção cultural - nem por isso tornasse brusca no sentido de que os acontecimentos sucedem-se sem qualquer conexão ou relação, ou dependência face aos precedentes i é como algo totalmente insólito.

Há quem a partir de marcianos e atlantes ou mesmo 'magos' sustente o insólito. Deveriam no entanto começar pela demonstração da existência dos magos ou dos atlantes; ou da vinda dos marcianos a este mundo para carregar pedras... Dão por certo que as grandes construções legadas por Incas e Egípcios foram erguidas pelos extra terrestres, quando por meio da pesquisa séria e sóbria sabemos como, por que e para que nossos ancestrais edificaram tais monumentos - De modo que a navalha de Ockham acaba cortando os Ets ou tornando sua presenta absolutamente inútil... Afirma-los obstinadamente entra pelos domínios da antropologia filosófica, pois implica presumir muito pouco dos homens, digo, de nossos ancestrais. Puro pessimismo infundado.

Claro que a História humana conhece enigmas a serem melhor decifrados, e não são poucos. A escrita de Harappa é um deles, a escrita etrusca ou toscana é outro, o eclipse da civilização Maia, o povoamento das Américas, a trajetória de nossos primeiros ancestrais pela Europa e Ásia, etc São alguns destes enigmas a serem decifrados ou melhor resolvidos. Enigma humano ou ser humano por assim dizer 'deslocado' de seu sítio ou nicho há um só Jesus de Nazaré...

Apesar daqueles que aspiram por fazer de Jesus, numa perspectiva natural ou evolutiva, uma rabino convencional ou um bom judeu em perfeita sintonia com o judaísmo, ele continua deslocado e incompreendido, diria, empregando suas palavras, que ele converteu-se no escândalo da História, justamente por ir na contracorrente do universo natural em que nos movemos, e representar algo insólito.

Grosso modo o insólito não é aceitável do ponto de vista natural ou científico, como não são aceitáveis Ets, atlantes e magos... Mas Jesus ainda ai esta sendo cultuado, de um modo ou de outro, por bilhões de pessoas e quiçá levado mais ou menos a sério por algumas centenas de milhões, o que vem a ser impressionante se o tomamos por Mito. Quero dizer que para alguns cientificistas a única solução possível é negar sua existência afirma-lo como uma construção social feita 'a posteriori' - Compreenda-se um grupo de homens ou de seres humanos de uma época futura (mais evoluída) e certamente muito bem preparados em termos de cultura foram os responsáveis por construir sua 'estória' ou sua farsa...

O 'mito' de Jesus parece não ter sido um mito comum ou ordinário, de elaboração espontânea ou natural com seus defeitos, mas um mito muito bem construído, e por isso, segundo muitos - produto de uma ficção intencional. Jesus só pode ter sido uma falsificação elaborada por um grupo fora do tempo e ambiente natural em que esta situado. Em Jesus parece haver algo do extremo Oriente, associado a algo do pensamento greco romano mais refinado... Mas este Jesus viveu numa das regiões mais remotas e atrasadas do planeta e dentro de uma das culturas mais fechadas do tempo - Na Galileia, entre hostes de fariseus e essênios profundamente ciosos de sua cultura (até a arrogância) e respirando ódio face a tudo quanto fosse politeísta, idólatra ou pagão...

Jesus ficaria um pouco menos enigmático entre os sofisticados judeus de Alexandria, onde floresceu Fílon. Apresentando como poliglota, frequentante diário da Biblioteca de Alexandria e leitor compulsivo. Mas nada indica que tenha frequentado tal estabelecimento ao menos por uma ou duas décadas...

As grande rotas internacionais de cultura passam bem ao Norte, pelo Norte da Síria, outras, menos importantes, descem pelo litoral da Palestina, habitado pelos descendentes dos antigos pagãos fossem filisteus ou fenícios, até chegarem ao Egito. A cultura internacional não flui pelo meio da Palestina por ser pagã ou politeísta e portanto repudiada como má pelos senhores de Jerusalém. Suponhamos Jesus no Khumran, que encontraria ele em termos de literatura grega? Apenas a República ou algum outro livro de Platão... Será que todos os 'monges' essênios tinham acesso franqueado a este tipo de literatura gentílica parcamente representado? Podemos supor seu conteúdo restrito inclusive.

Por ser muito difícil conceber a figura de um Galileu do século I lendo a Darmapada em aramaico ou folheando as obras de Anaxágoras em grego clássico, a figura de Jesus foi lançada aos domínios do mito e sua existência negada desde os tempos de Emílio Bossi. Afinal tudo quanto não podemos compreender perfeitamente em termos de natureza causa espanto e assusta. A negação arbitrária só faz destacar ainda mais as dimensões deste vulto.

Ademais julgo que por mais genial que este homem tenha sido, caso se tivesse limitado a tecer eruditos comentários sobre a Tanak, a compor uns diálogos filosóficos em torno do Ser, a deduzir novas fórmulas que convulsionassem as matemáticas ou a inventar algum instrumento socialmente impactante... não teria sua existência negada. Creio que tentariam compreende-lo ou situa-lo, mas... Jesus foi Mestre de Ética. E que Mestre! Aquele que ensinou-nos a amar o próximo como a nós mesmos, a abster-nos de julgar e condenar, a cultivar a paz, a sobriedade e a misericórdia, a colocar-se no lugar do outro, a ajudar concretamente nossos semelhantes... Diante de tudo isto fica até fácil saber porque sua existência deveria e deve ser negada. Além de ser 'insólito' Jesus nos incomoda a partir de seus ensinamentos Éticos. Ainda hoje não estamos preparados para aceitar o outro, nos incomodamos dele e nos fazemos de vítimas... Se uma mulher se veste como homem ficamos indignados e enfurecidos - se mente, fofoca, agride fisicamente, tortura, mata, etc não nos indignamos!!! Se um homem coloca um vestido ou uma peruca nos mostramos melindrados - caso deixe de pagar pensão ao filho pequenino, nos limitamos a sorrir... O ano 2018, e como ainda estamos próximos do pensamento daqueles 'homens de bem' que mandaram crucificar Jesus após terem-no apontado como imoral, como ainda carregamos alegremente o jugo dos fariseus hipócritas! E mesmo assim, parte de nós paga seu tributo ao fingimento declarando-se Cristão. Poucos estão dispostos, como o Dr Binet Sangleé, a declarar que Jesus era louco ou a classifica-lo como canalha ou positivamente mau.

Claro que aqui a negação apresenta-se como a atitude mais oportuna ou conveniente. Admitir sua existência ou leva-lo a sério e refletir escolasticamente sobre o tema até a derradeira conclusão seria assaz perigoso. Caso admitamos que este homem existiu de fato e consideremos racionalmente sua existência como deixar de concluir com o já citado Rousseau que se a morte de Sócrates foi a morte do maior de todos os mortais, a morte do Nazareno foi como a morte de Deus??? O perigo esta posto e a negação é a melhor saída...

No entanto este Jesus não é um marciano vindo de Órion ou das Plêiades numa nave espacial... Nem cobre seu túmulo uma lápide como a de Pakal, rei de Palenque... Tampouco é este Jesus uma espécie de missionário Atlante como Quetzalquoatl ou Kon tiki Viracocha, ou Tonapa, ou Sumé... o qual evapora-se na direção do mar oceano. Nem é uma espécie de Merlin a mover as pedras de Stonehange com sua varinha de condão... Tampouco apresenta maiores semelhanças com os deuses 'tarados' do paganismo antigo... Afortunadamente ele não se identifica com Hórus, com Tamnouz ou com Mitras como asseveram todos esses panfletários que pouco ou nada sabem sobre mitologia antiga, ignorando seriamente o caráter de tais deidades... Mas eles vão garimpando por ai e a gente simples lhes dá ouvidos.

Evidências Históricas a respeito da existência de Jesus há diversas - O original de Josefo, reconstituído pela soviética e ateia Dra Irina Sventsitskaia, o Talmude dos hebreus, Paulo, Tácito, Plínio, Suetônio... No mínimo.

Assim a negação da existência de Jesus até pode ser um recurso prático e fácil, o que de modo algum supõem é honestidade. Se Jesus não existiu personagem alguma do nosso passado existiu, afinal o que dele se exige, num contesto peculiar inclusive, não é exigido por mais ninguém e pouquíssimos dos grande homens de Roma ou Atenas passariam pela 'prova' arbitrária dos positivistas...

Agora, admitido que este Jesus tenha existido, como teria pensado sua relação com o judaísmo???

Pensou-a ele???

Exprimiu-a???

E com que palavras, luminosas e claras -

"O vinho novo não cabe nos odres velhos - Se você tentar colocar o vinho novo dentro dos odres velhos, os odres se rompem."

Ao que parece Jesus tinha plena consciência de que sua mensagem transcendia os limites estreitos da fé judaica ou da lei de Moisés ou da Tanak. Sabia que estava ultrapassando e superando a religião de seus ancestrais. Estava perfeitamente cônscio quanto a Revolução que suas palavras acalentavam. Sabia muito bem que não era um rabino beócio ou conformado com o judaísmo rabínico. Jesus não apenas contestava, questionava e criticava o que os demais consideravam sagrado ou tabu - sabia que contestava e compreendia o valor da contestação.

Leiam o Sermão do Monte e depois me digam se face uma religião REVELADA como judaísmo ou islã, não temos ai uma declaração de guerra???

Vocês sabem o que foi ensinado aos ancestrais declara Jesus, e adiciona ou acrescenta 'sacrilegamente' (sic): Eu porém vos digo! Ele opõem seu próprio EU, sua autoridade (sic) as tradições religiosas do povo, a Tanak, a Torá, a Moisés, aos Sacerdotes...

É exatamente aqui que manifesta-se a desonestidade, surpreendentemente arquitetada não pelos ateus ou materialistas de nossos tempos, mas por clérigos 'cristãos', pastores protestantes de modo geral, mas também alguns padres (como a besta do Pe Murillo), todos judaizantes. Pois bem que dizem estes senhores? Dizem que Jesus não esta, de modo algum, a criticar ou a contestar Moisés, a Torá, a Tanak ou ao que chamam de Velho testamento, mas as tradições orais dos fariseus que posteriormente vieram a formar o que chamamos Mixná e Guemara... As quais, acrescentam maliciosamente tais homens, haviam corrompido o judaísmo ou a lei de Moisés. De modo que Jesus esta pura e simplesmente removendo a impureza talmúdica e combatendo para restaurar a pureza da lei de Moisés ou para reformar o judaísmo; não para demoli-lo.

Estarão certos?

Basta analisarmos tanto mais de perto cada parcela do Sermão do Monte para constatar indubitavelmente que não. Que Jesus não esta a contestar o rabinismo, o farisaismo, o talmudismo, mas as próprias leis de Moisés, a fonte mais remota do judaísmo antigo e tida em conta de sagrada ou divina. É a ela, a lei de Moisés, que Jesus golpeia sem misericórdia, declarando que estava errada! Por isso contesta a medula por assim dizer daquela lei, que era a doutrina de Talião ou 'Olho por olho - dente por dente'... Mas semelhante expressão não se encontra na lei mosaica, declaram os desonestos. De fato tal expressão não se encontra literalmente presente na Tanak, sem que por isso deixe de ser seu princípio operatório e presente em diversos de seus preceitos, assim 'Aquele que matar será morto'... Poderás odiar tem adversário i é o princípio da vingança ou da justiça com as próprias mãos, de que resultou a instituição dos locais de refúgio... Jesus diz que tudo isto é grosseiro, bárbaro, inaceitável... Não se pode odiar ao inimigo, exercer vingança, perseguir, matar como autorizava expressamente o judaísmo antigo em nome de Deus! É mister amar, estar sempre disposto a perdoar, confiar na justiça divina, abster-se de matar, cultivar a paz, etc Como negar que estamos diante de uma outra lei, a lei do Evangelho, verdadeira lei dos céus, autenticada pelo que há de melhor em nós???

A lei dos judeus autorizava a vingança e a matança. Jesus nos proíbe até mesmo de ultrajar os contrários (dizendo louco) e nos manda dar a outra face quando atacados! Decreta que estejamos perpetuamente abertos ao perdão (perdoai setenta vezes sete). Declara que devemos amar os inimigos, sim amar os inimigos! Você pode buscar por esse amor universal no judaísmo antigo e não o encontrará e menos ainda pelo amor aos inimigos, o qual, como observa S Freud, não existe no judaísmo e nem poderia existir por ser, declara Freud - absurdo.

Quanto ao amor ao próximo ou a todos os homens poderá aventar, com certa plausibilidade, que Jesus tenha plagiado o chinês Mo Tse, que viveu cinco séculos antes dele e a mais de dez mil kilometros - Ah, e cuja doutrina já estava esquecida há muito entre os antigos chineses ao tempo de Jesus. Saberia Jesus ler ideogramas chineses? Teria ido a Chine e voltado? Haviam os escritos de Mo Tse sido traduzidos ao aramaico ou ao grego??? Busquem pelas evidências... Agora uma coisa é absolutamente certa: No contesto do judaísmo estamos diante de uma novidade que não é nem um pouco lisonjeira face a antiga religião - Favorável ao etno centrismo e a vingança.

Mas, dirá algum afoito - Jesus mesmo declarou que traço ou pingo algum da Lei passaria e que não havia se manifestado para demolir a Lei e as profecias.

Claro que não podia demolir as profecias, cujo objetivo era anuncia-lo previamente, mas concretiza-las. E também não podia demolir a essência da verdadeira Lei positiva, expressão da mesma Lei natural, manifestação da vontade de Deus e portanto de sua vontade. O cerne da questão implica em saber qual seja esta Lei divina e é exatamente aqui que Cristãos e judaizantes separam-se definitivamente. Pois os judaizantes como os judeus imaginam que Jesus esta a falar na permanência ou divindade de toda Torá ou mesmo da Tanak, que ora chamam Bíblia. Enquanto nós Cristãos compreendemos que esta Lei divina ou Revelada restringe-se ao DECÁLOGO ou aos assim chamados dez mandamentos, que eram a versão da lei natural corrente entre os antigos judeus. Para nós esta é a Lei divina e inviolável e não a totalidade da Torá ou da Tanak, elemento puramente natural e não revelado que identificamos com a cultura judaica. Essa cultura judaica para nós é puramente humana, nada tendo de sagrada. Assim o restante do código judaico ou as normas e regras que estão para além do Decálogo, as quais puderam ser livremente criticadas e contestadas por Jesus.

Isto é tão certo que atualmente os próprios judeus, em sua maioria, abriram mão de tais leis, reconhecendo-as como puramente humanas, porquanto também entre eles a lei evoluiu e já não podem viver como seus bárbaros ancestrais. Alias os judeus não costumam lançar objeções demasiado sérias a respeito e sentem-se muito pouco apegados a seus mitos, fábulas e leis; a exceção de algumas poucas que são exequíveis. Aqui os judaizantes mostram-se sempre muito mais obstinados... E no entanto, tal e qual os judeus modernos, nem mesmo eles podem viver a Torá em sua totalidade como os antigos judeus; enfim eles defendem uma solução que não colocam em prática porque de modo geral vestem-se e alimentam-se como os demais... Apenas um grupo de protestante peruanos ousou restaurar, em pleno século XX, o modo de vida dos judeus ao tempo de Cristo substituindo calças e camisas por túnicas e automóveis por cavalos e camelos... Nem preciso dizer que habitam em tendas e usam madeira e fogueiras para cozinhar, enquanto suas mulheres manuseiam o tear e o moedor de grãos. Felizmente, esta espécie de menonismo ultra ancestral, é fenômeno isolado. Os demais judaizantes não são tão sérios e contentam-se apenas com discursos pomposos em torno da tal lei de Moisés concentrando seus fogos nos Catolicismos, a que chamam de idolatria e no espiritismo, a que chamam de magia...

Os judaizantes não se mostram menos profanadores do que nós na medida em que, após terem afirmado a integralidade da Lei dos judeus ou da Torá como revelada ou divina, põem-se a selecionar o que vale e o que não vale como se Deus e as coisas divinas pudessem variar, mudar ou sofrer alteração. Por isso estão divididos em tantas e tantas seitas conforme aceitam ou repudiam este ou aquele regulamento da lei dos judeus. Assim há entre eles que retorne a dieta dos antigos judeus como os adventistas do sétimo dia, há quem repudie a transfusão de sangue como as jeovistas, há quem condene o uso de tatuagens como certas seitas pentecostais, há quem condene a moda unisex, há quem condene o corte da barba por parte do homem, etc, etc, etc Cada seita faz seu talho e escolhe seu corte ou pedaço da lei dos judeus, o qual canoniza... Desprezando todos os outros rsrsrsrsrsrs Tal a cegueira deles, porquanto esta escrito: Quem pecar contra um regulamento da lei pecou contra a lei toda! Assim selecionando profanam a totalidade da Lei que teimam em declarar como sagrada; mas que de modo algum vivem ou põem em prática.

Por isso Jesus procedeu liberalmente com relação as demais partes da Lei dos judeus tornando-se Herético para eles - O grande herético do judaísmo. Porque declarou sua dietas e distinções alimentares absolutamente vãs. Porque avaliou suas abluções como inúteis. Porque opôs-se a guarda supersticiosa do Sábado. Porque violou todos os seus preconceitos de natureza moral estabelecendo contado com - Prostitutas, publicanos, homossexuais, pagãos, crianças, leprosos, pescadores, etc tudo quanto era desprezado ou odiado pelo farisaísmo azedo. Deixou-se tocar por leprosos... E conversou a sós com uma mulher - samaritana e pecadora - junto ao poço!!! Para nós, aquele que nós fez o bem, foi santo e impecável, mas para os judeus foi um grande pecador. Pois violou conscientemente a lei que teem por divina.

Jesus foi tão contestatório para os judeus de seu tempo quanto os anarquistas e comunistas de hoje para os conservadores. Não que ele tenha sido anarco individualista ou comunista, as perspectivas de Jesus eram outras e ele não dos parece nem individualista, sob qualquer aspecto, nem autoritário ou totalitário. Postulou a autoridade, no caso divina, sem - a modos de jave - eliminar por completo a esfera da liberdade humana. Postulou a justiça e uma igualdade relativa sem endeusar a autoridade humana ou recomendar métodos violentos como uma bula de remédio. De modo geral exerceu a paz e foi pacífico; mas quando teve de erguer o chicote não hesitou, parece ter sido moderado ou equilibrado em todas as circunstâncias, quando por via de regra são os homens exaltados e amigos do extremismo.

Não me parece que se opusesse as solução democrática ou policrática ou a uma igualdade relativa em termos sócio econômicos - O Evangelho diz que ele pura e simplesmente não levava em consideração as distinções sociais de que tanto fazemos caso, e que tratava a todos, grandes e pequenos, da mesma maneira - Sem fazer acepção de pessoas... Não posso deixar de classifica-lo como socialista. Não é claro como um socialista naturalista, materialista ou economicista do século XIX - sobre o qual pesa a condenação da Igreja - mas como um Socialista Religioso dos tempos pretéritos a maneira de Urukagina de Lagash ou dos antigos profetas (Como aquele que disse: Amaldiçoado seja o que adiciona casa a casa, campo a campo...). Tornou-se vanguardista até nossos dias por ter condenado categoricamente o acumulo ilimitado de riquezas ou bens materiais: 'Não acumuleis bens neste mundo em que a traça e a ferrugem destroem, juntai bens no mundo celestial' foi ordem sua a que muitos ainda hoje se fazem moucos, fingem ignorar ou o que é pior falseiam descaradamente. E para que não pudesse haver escapatória ou alternativa aos desonestos, adicionou: Não podeis servir a Deus e as riquezas. Ai daquele que cogitar 'ganhar o mundo inteiro' - expõem-se a apartar-se de seu destino espiritual... "Mais fácil é uma corda passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos céus."... Em Mateus cap vigésimo quinto, determina que sejamos solidários e atentos as necessidades de nossos semelhantes - Tive fome e me destes de comer... tive sede... - com os quais identifica-se. Retira a caridade da esfera da livre vontade e converte-a em lei > Amai-vos uns aos outros e sereis meus alunos... Como resultado disto temos que os primeiros Cristãos vendiam seus bens e adotavam vida regular e comum, de modo a não existir necessitados entre eles. Pobres certamente existiram durante todo tempo em que viveram os santos apóstolos, fabricados pelo judaismo e paganismo antigo, não pelo Cristianismo, cuja regra de vidas era a partilha. Paradoxalmente os Cristãos acreditavam que quanto mais partiam seus bens materiais com os irmãos, mais ricos se tornavam porquanto investiam nos céus ou no mundo espiritual.

A bem da verdade a Lei dos judeus era muito interessante neste sentido, e como o amigo Carlos Seino, não posso deixar de admirar as instituições da reforma agrária, dos jubileus, da colheita, cobrança de jurus, etc Sabendo que ao tempo do Senhor tais leis já não eram postas em prática há séculos e que, curiosamente, judaizante ou sectário algum tentou restabelece-las (também nenhum deles cogitou cortar a pele do pênis ou restabelecer a circuncisão)... O que quero dizer é que tais reflexões, semelhantes aos do velho Sócrates, em torno da vida sóbria, moderada, regular ou temperante, deve ter chocado bastante os nababos fariseus... Como atualmente choca os neo fariseus 'cristãos'...

Aos que aspiravam pela perfeição recomendou que vendessem todos os seus bens e dessem aos pobres... Se queres ser perfeito... E da perfeição fez uma exigência para os seus: Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito...

Alias mesmo sendo de origem divina - Não podemos deixar de chegar a esta conclusão - Jesus reconheceu a livre iniciativa humana, daí ter deplorado a opção dos habitantes de Jerusalém, os quais recusaram-se a tomar seu jugo... E dizem ter chorado a triste sina da cidade.

Não apenas chocou os antigos judeus. Continua a chocar, perpetuamente os judaizantes de toda casta... Os autoritários, os capitalistas/materialistas, os maniqueus, os puritanos... Enfim a toda essa gente...