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domingo, 26 de novembro de 2023

Religião, credulidade e incredulidade





                                                          OS MILAGRES


Acho mesmo muita canalhice alguém afirmar que Deus é bom e maravilhoso só porque está tudo bem com ela. Quer dizer que quando der ruim Deus ficará sendo feio e mau...

A meu ver essas pessoas que acreditam que a divindade atua exclusivamente em favor delas ou de seu grupo são pessoas sem caráter, egoístas e centradas em si mesmas.

Não tenho motivo algum para julgar que atue Deus em favor delas enquanto nada faz pelas criancinhas famintas da África ou da Ásia - Mesmo porque as criancinhas são inocentes enquanto que elas...

Por outro lado leio na pura palavra de Deus, que ele - Deus, não faz acepção de pessoas; mas que faz chover sobre justos e injustos, sendo imparcial...

Enquanto o ego carnal se apresenta como especial ou como algo da predileção divina, declara Deus que todos são iguais e portanto que não atua em favor de A, B ou C.

Imagina só o caboclo se matando de estudar para passar no vestibular ou no concurso público e Deus ajudando e promovendo sujeito que não estudou, i é, um vagabundo parasita.

Tampouco me parece digno que altere Deus a ordem de um mundo que ele mesmo criou... Afinal porque consertaria Deus algo que poderia ter feito melhor desde o princípio...

Enfim julgo que pessoa alguma daria o melhor de si para evitar algum erro caso contasse com o bom Deus para consertar suas 'cagadas'. Nesse ponto um sadio deísmo ou naturalismo, que exclui o fetichismo, oferece-nos melhores garantias em termos de prevenção de acidentes... E de fato penso que qualquer profissional que qualquer profissional que acredite em milagres ou intervenção divina, tenda a ser mais displicente que um cesssacionista.

Por fim a busca por milagres e eventos sobrenaturais corresponda a uma alteração da ordem divina na medida em que apresenta a divindade como estando a serviço das criaturas ou como executora da vontade delas.


EXTREMA SIT TAGUNT

São nossos neo ateus notáveis por confundir a totalidade das pessoas religiosas com radicais protestantes ou muçulmanos i é com pentecostais/calvinistas e sunitas... O que me parece uma deturpação da realidade ou pura e simples desonestidade.
Também me parecem equivocados quando associam a existência de Deus ao discurso religioso ou quando atribuem a questão da existência de Deus a autoridade, livros, fé, religião, etc e, ainda aqui, se mostram herdeiros de Kant, um pensador luterano alemão que buscava justificar o fideísmo ou exaltar a fé cega.
De fato, seguindo a mesma linha do agostiniano pessimista Lutero Kant tinha por lema abater a a percepção, a racionalidade e a metafísica naturalista ou a capacidade especulativa dos seres humanos para glorificar a fé ou a Revelação divina. Acho incrível mesmo que os céticos, agnósticos e ateus elevem aos céus um autor cujo pensamento deriva justamente do universo religioso e de um universo religioso deplorável. Os protestantes, bíblicos e fundamentalistas agradecem, - Pois situando a divindade no plano da fé cega o debate se torna impossível, e consequentemente qualquer tentativa de impugnação. Segundo o critério de Kant o deus dos fanáticos é sempre intangível.
De fato se a existência da religião revelada depende da existência de Deus, Deus sempre poderia existir sem se ter comunicado com os seres humanos, como predicam os deistas. De modo que a relação não é natural ou necessária e da falsidade das religiões em seu conjunto nada se poderia aduzir de concreto sobre a existência Deus, exceto que seus supostos ou pretensos porta vozes são falsos. A questão em si, da existência de Deus, continuaria sendo tema da metafísica ou da teodiceia, exatamente como foi colocado pelos grandes pensadores gregos: Xenófanes de Colofon, Diógenes de Apolônia, Anaxágoras, Parmênides, Sócrates, Platão, Aristóteles, Crísipo de Solis, Cleanto de Assos, etc
Acho curioso que os modernos passem da fé cega numa religião qualquer diretamente ao ateísmo ou a negação de Deus, sem sequer examinar o agnosticismo ou o deísmo, ao contrário de nossos nobres e prudentes ancestrais. Coisas da bíblia é claro, digo eu, pois apenas a leitura despreparada e irrefletida desse livro poderia causar um tão estranho prodígio.
'Tocam-se os extremos" como diria o 'estagirita' - E de um extremo a outro vão as massas.


PROTESTANTISMO E INCREDULIDADE.


Coisa notável é o protestantismo por produzir, nas massas idiotizadas, um topor estúpido e nos humanos mais inteligentes, materialismo e ateísmo, i é, apostasia. Disto talvez resulte, no futuro, um grande conflito social entre os dois extremos.

quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Os erros e acertos do Sardinha (Antonio in 'Glossário dos tempos' 1942) - Prólogo





Sempre interessados pela literatura - Tanto quanto nos interessamos pelas ideias... e portanto em Gil, Camões, Bernardes, Vieira, Garrett, Herculano, etc resolvemos folhear 'O testamento de Garrett (Opus cit p 53).

E ao folhear topamos ali com a costumeira mistura de luz e trevas com que topamos e toda obra humana ou ideológica. Posto que os criticantes, como Sardinha, presumem estar muito acima dos criticados como os liberais políticos, constitucionais ou democratas ou, em termos atuais, os comunistas e anarquistas. 

Porém, considerando tudo em seu conjunto, ou como sistemas fechados, acabados e prontos, Comunismo, Anarquismo, Fascismo e Capitalismo são praticamente a mesma coisa, embora acredite eu que o último ou quarto modelo seja o mais tenebroso, eu que em POLÍTICA, sou ultraliberal intransigente ou policrata.

Já expus em diversos artigos aquilo que alguns teóricos chamam liberalismo, em singular, não existe ou é grosseira ficção construída por ideólogos e panfletários. Existem liberalismoS, como existem renascimentoS, ReformaS e SocialismoS... Alias liberalismos em conflito como assinalaram Polanyi e Arendt dentre outros, tendendo o Liberalismo econômico, a restringir o espaço do Liberalismo essencial - O político - e a reduzir-lhe a qualidade, por onde, com sua educação ineficaz, a miséria e o fundamentalismo religioso chegamos a OCLOCRACIA e jamais a democracia.

E de fato muito do que os autoritários ou fascistas, e comunistas, e outros liberticidas tem criticado e combatido, não é democracia (E menos ainda policracia.) mas pura e simples oclocracia ou comando de massas acríticas manipuladas por uma elite econômica sem consciência.

Sócrates combateu, não a democracia, porém o espectro da oclocracia ou sua ameaça ao apontar os defeitos de uma democracia demasiado ingênua (A nossa é puramente formal ou como dizem 'positiva' - Vício análogo), e por isso foi morto. Prestou porém imenso serviço a causa democrática, como prestam todos os críticos que apontam os defeitos que a tornam vulnerável. De modo que as críticas deles - Exceção feita aos teocráticos ou fundamentalistas com suas citações de livros! - sejam comunistas, fascistas ou anarquistas devem sempre ser examinadas com todo cuidado e levadas em consideração caso queiramos produzir uma democracia de qualidade na qual a Liberdade e a Autoridade, o Direito e o Dever, a Pessoa e a Lei, caminhem juntas num estado ideal de equilíbrio.

Tornando aos sistemas fechados, temos no Comunismo o defeito supremo da Ditadura do proletariado, pelo simples fato de que Marx, lúcido crítico da estrutura capitalista ou de mercado, era coxo no terreno da ciência política não sendo digno de desamarrar as sandálias de um N Poulantzas... Apesar disso os comunistas, como os socialistas - E quem o diz ou confessa são os sisudos padres romanos ou tridentinos a exemplo de um H Chambre, de um Bastos de Ávila, de um Lebret ou de um Abbé Pierre (Assim o leigo Tasso da Silveira em seu artigo sobre M Gorki)  - Tinham sensibilidade suficiente para perceber que a pessoa humana estava sendo triturada pelas estruturas econômicas importadas da Inglaterra ou dos EUA, o que até hoje é rejeitado pelos partidários cegos ou apóstolos do liberalismo econômico.

Negam inclusive, e escrevo-o em 2023 - as transformações climáticas de caráter antrópico impulsionadas por seu modelo e ainda mais: Mostram-se totalmente céticos face a degradação ambiental, desastres, calamidades e extinção de formas de vidas ultra milenárias deflagradas pela cobiça insaciável de alguns... Chegando a atribuir tais fatos a imaginação de seus adversários ideológicos, em especial aos comunistas, apelando a solução conspiracionista como qualquer ideólogo vulgar ou como os sectários religiosos. Assim tem se portado os defensores do liberalismo econômico, e diante disso não posso absolve-los da pecha de mau caratismo...

Por sua falta de consciência humana, ética, empatia, senso de justiça, sensibilidade, etc não posso deixar de encara-los como piores do que os comunistas totalitários, mesmo quando considero todas as crueldades e misérias do comunismo, as quais não são poucas. No entanto para assassinar, matar ou suprimir vidas sequer é necessário derramar pequena gota de sangue e menos ainda extrair vísceras ao modo dos partidários do antigo regime ou dos revolucionários mais atilados... Pois é coisa que se faz por omissão inclusive. Com privações e excesso de trabalhos torna-se o assassinato banal e nem se percebe a inanição ou a fome, fenômenos que por assim dizer passam batidos.

E se alguém compôs um livro negro do comunismo este bem poderia ser dado em troca do outro livro não menos escuro e sinistro, o do capitalismo ou do mercado. Não seria um livro vermelho, escarlate ou rubro como a bandeira dos comunistas apenas porque não teria havido efusão de sangue, mas isto não significa que não houve luto em abundância. 

Parece-me que o único mérito do liberalismo econômico é ventilar o problema da liberdade econômica ou da livre iniciativa privada no setor econômico, tese com a qual não podemos deixar de concordar desde que se trate de uma liberdade limitada - Alias como todas as mais liberdades, pois ao contrário do que queria Sartre não existe qualquer liberdade ilimitada no mundo em que os seres humanos são múltiplos. - reduzida, controlada e posta a serviço do ser humano ou das necessidades humanas. Claro que quando falamos em controle não nos estamos referindo a um controle necessariamente político e menos ainda ditatorial, mas antes de tudo num controle democrático interno sob a forma de colegiado a exemplo da Idade Média e quando postulamos um controle político ou um planejamento é claro que supomos um modelo político democrático ou melhor policrático, direito e exercido pelos cidadãos.

Não pode haver setor algum da atividade humana desvinculado do Bem comum ou alheio a uma finalidade social. O que remete-nos sempre a um controle político, enquanto veículo dessa estrutura social. Que o econômico aspire separar-se do político é pura falácia, pois uma tal aspiração implica sempre uma dominação e portanto uma subversão a partir da qual passa o Bem comum a segundo plano e os interesses puramente particulares, insaciáveis e egoístas passam ao primeiro plano. Tal a Sociedade econômica, essa carroça posta diante dos cavalos ou bois.

Desarvorado o econômico absorve e destrói o político ou o liberalismo político e logo em seguida o humano ou a esfera de nossas liberdades privadas seja por meio do moralismo sectário ou do controle militar dos quais depende para impor-se e manter-se. 

Apesar disso reconhecemos a premissa liberal de uma liberdade econômica relativa ou não absoluta. 

E quanto o anarquismo...

O anarquismo tem por virtude uma consciência política muito mais acurada ou refinada, pelo simples fato de opor-se a quaisquer modelos totalitários ou a quaisquer ditaduras de direita ou esquerda, do tal ditadura do proletariado aos golpes 'liberais' responsáveis pela derrubada de quaisquer regimes democráticos que se afastassem da ideologia capitalista visando controlar o mercado. 

Notável é o anarquismo quanto declara que nosso modelo democrático é muito pouco democrático necessitando ser aprofundado ou ampliado. É uma visão grandiosa essa passagem da democracia formal ou anglo saxônica para uma democracia real, semi direta, direta ou policrática mesmo quando suponha a demolição do macro Estado e a construção de pequenas comunidades políticas.

Apenas os anarquistas não percebem que esse ideal, quando suponha a criação de centenas ou milhares de micro estados, é incompatível com a existência de um colossal império econômico como os EUA, o qual não teria mínimo escrúpulo em incorporar pela força bruta todas essas comunidades livres, fortalecendo ainda mais seu imperialismo sórdido. Por isso um crítico lúcido já observou que a demolição do macro Estado, se necessária, deveria começar necessariamente pelos EUA que é o centro do poder político e econômico atual.

Outro defeito grave do anarquismo - E pelo qual esta ligado ao Comunismo e ao Fascismo hodierno - é a sanha revolucionária ou o ideal jacobinista legado por Robespierre, Babeuf ou Blanqui. Em sua maior parte os adeptos do movimento anarquista recusam-se a admitir que se possa ampliar a democracia que temos por dentro ou institucionalmente i é por meio de leis e antes delas por meio de greves, protestos, referendos, plebiscitos ou mesmo algumas conjurações oportunas. Iconoclastas, postulam uma demolição total das estruturas sociais vigentes de cujas cinzas surgirá como a Fênix uma nova sociedade. Creem numa transformação radical por meio de uma efusão de violência e não numa possível evolução orgânica.

Um terceiro defeito desse modelo é o furor pela inovação, o que os situa no terreno oposto do conservadorismo acrítico e ingênuo. Estes querem tudo conservar, e a exemplo de Zenon suprimir o movimento ou a transformação. Aqueles, a exemplo de Heráclito, mergulhar a sociedade na instabilidade absoluta pela negação de tudo quanto remeta ao passado enquanto construção histórica de uma cultura. 

O quanto defeito implica por fim em transpor o anarquismo, enquanto uma espécie de rebeldia sem causa ou negação total do passado histórico, para todos os setores da existência humana. Cessando ele de ser uma solução política derivada do princípio da liberdade para converter-se ele mesmo num princípio metafísico compreendido como um 'culto a novidade'. Destarte migra ele, o anarquismo iconoclástico, para outros campos, como a arte e a literatura ou a arquitetura, a ética, etc endossando acriticamente a rebelião modernista engendrada pelo CAPITALISMO, e ampliando seus danos ao infinito até atingir o centro da pessoa.

Este último aspecto do anarquismo, por onde toca o modernismo e o pós modernismo, quiçá seja seu defeito mais grave ou seu ponto mais negativo, pois chega a tocar a gnoseologia e a epistemologia, logo a apreensão da realidade e o sentido, até - Caso seja levado a seus termos finais. - destruir a própria indignação, o modelo ideal, a fé revolucionária na transformação, etc e desembocar no nihilismo crasso.

A revolução devora a Revolução e a subversão aniquila a subversão.

Quanto aos defeitos do Fascismo ou do integralismo formam um cacho... E seus adeptos de tanto criticarem o liberalismo político, o comunismo e o anarquismo tornam-se incapazes de olhar para o próprio umbigo e de contemplar a própria miséria. Certamente não me refiro aqui a abominação nazista com o grosseiro critério de raça... mas ao fascismo bem compreendido.

Antes quero repisar o que sempre tenho dito com absoluto destemor, o Fascismo tem uma compreensão muito mais realista e saudável da cultura e portanto da formação das estruturas político sociais em conexão com outros elementos. É precioso, é a anti tese do anarquismo alienado, mas não passa disso. 

E seu pecado original é a ideia de submissão cega a autoridade, a qual dá vezo a todos os achaques de autoritarismo, tirania, despotismo, opressão, domínio e controle arbitrário que esmagam a pessoa humana. Daí sua admiração pelo modelo militarista e a necessária antropologia pessimista muitas vezes bebida a Agostinho ou a teóricos irracionalistas e deterministas protestantes como Lutero e Calvino. 

No liberalismo absoluto ou crasso - Assim no capitalismo, e no anarquismo temos a ideia de um ser humano angelical ou totalmente bom em sua condição original, e ao qual não se deve impor quaisquer limites ou restrições, o que reporta em parte a J J e aos pós freudianos (Não a Freud, o qual por ser bastante realista e criticava apenas alguns aspectos ou excessos da repressão, jamais ignorando o que fosse educar.). Para tais teóricos, ultra otimistas, a causa de todos os males era justamente o controle ou a restrição em qualquer grau.

Ao lado diametralmente oposto damos com todos os totalitarismos despóticos ou ditatoriais seja o Fascismo ou o Comunismo. E aqui topamos sempre, na raiz ou na base, com Agostinho, tributário por fim de Manes, do que resulta uma antropologia negativa ou pessimista, enfim a ideia de que o ser humano é limitado, incapaz ou malevolente por natureza. Daí a necessidade de controle, tão ardorosamente defendida pelos jansenistas. 

Antes que algum modernista ouse corrigir-me apontando para Pirro de Elis e seus sucessores, com o objetivo de afirmar um pessimismo antropológico naturalista e grego, remeto o leitor a Victor Brochard, e advirto-o de que Pirro de Elis, tendo estado com Alexandre na Índia, tomou seu pessimismo antropológico e sua ataraxia ou quietismo, aos Bicos budistas que por lá deambulavam e portanto duma fonte religiosa ou credal, o que foge aos termos do naturalismo. Buda acreditava que a vontade do ser humano era a fonte do mal, e não preciso dizer mais nada quanto a isso.

Aqui Buda, ali Agostinho ou Manes ou Elchai, sempre esse exótico e místico Oriente, nada de concreto, de empírico ou de racional.

Parece uma ideia ingênua não... Admito que pareça. 

As consequências no entanto foram as piores possíveis. 

Pois a partir desse modelo antropológico pessimista é que João Calvino inaugurou o primeiro imenso campo de concentração da História (cf Pierre Van Paassen) na infeliz Genebra. Quis transformar o mundo inteiro num mosteiro ultra rigorista ou melhor numa imensa caserna movida por um disciplina mecânica e cega, e seu ideal podre foi secularizado pelos fascistas. 

Continua



quinta-feira, 15 de julho de 2021

A metafisicalização das verdades e a deturpação da realidade.

Nobre é a busca pela verdade e preciosa sua aquisição.

Há mais de milênio e meio disse alguém que toda e qualquer verdade procede, ao menos remotamente, do Espírito divino.

De fato qualquer verdade, por ínfima e humilde que possa parecer é como que uma cor ou tom no caleidoscópio do infinito.

Da combinação química presente no molho béarnaise e da formula da água as complexas fórmulas matemáticas que exprimem a realidade da física, assim a Teoria da Relatividade.

Agora por belas e majestosas que sejam certas verdades matemáticas expressas por gênios como Tales ou Pitágoras, Euclides ou Arquimedes, Euler ou Gauss, tem elas seu próprio lugar ou espaço no plano da realidade. 

E mal fica que um Pareto as queira transplantar a fina força para o plano da economia com a esfarrapada desculpada de que é a economia uma ciência exata e assim tão matemática como a física.

Como mal fica a matematicização total iniciada por Descartes e completada por aqueles (Dentre todos por Comte.) que, a modos de novos Pitágoras, aspiraram levar as fórmulas newtoneanas a Filosofia, a Biologia, a Geografia, e assim por diante. E daí surgiram sistemas ideológicos aberrantes.

Não que deseje increpar as matemáticas apenas. Que os matemáticos, face os religiosos, os biólogos, o sociólogos e outros foram humildes. 

Comecei pelos matemáticos e ideólogos matematicizantes, geralmente de inspiração positivista, apenas para obter exemplos.

A partir dos quais a escamoteação da realidade ficasse suficientemente clara, e se pudesse perceber o processo de metafisicalização urdido pelos ideólogos inconsequentes.

O qual consiste em detectar uma verdade qualquer situada em determinado campo da realidade e estende-la a todos os outros campos, qual fosse, um princípio universal capaz de tudo explicar quando na verdade mística e obscurece a contemplação da realidade.

E é esta manobra tão aberrante a ponto de que, quando certo fato nela não se encaixa, destoando do esquema, bastar para que o dito fato - E outros mais - seja negado. E negam-se fatos que são verdades em nome da teoria ou do esquema querido. 

Partindo da fé religiosa por exemplo, que é, do ponto de vista Cristão Ortodoxo e Católico, imutável e autoritativa, concluiu certo grupo, representado de modo geral pelos integralistas, que também a organização política e social deva ser imutável e autoritativa ou autoritária, isto a ponto de apresentarem seu monarquismo ou despotismo e seu conservadorismo tosco como espécie de dogmas de fé (O que de fato converte-os em heréticos.). Quanto ao papismo já disse que o insuspeito Joaquim Pecci ou Leão XIII, desferiu rude golpe sobre tais homens desorientados ao declarar, como era esperado e justo, que a organização democrática é perfeitamente compatível com a fé, o que é igualmente válido quanto a fé Ortodoxa ou qualquer Igreja apostólica. 

Já quanto o conservadorismo tosco, que é um pensamento rasteiro e falsa apreensão da dinâmica social escusado seria que um papa romano, patriarca, Bispo, presbítero ou clérigo qualquer o refutasse.

Afinal quem autorizou tais pessoas a ultrapassarem os limites do sagrado e aplicar as notas que pertencem exclusivamente a revelação divina, a realidade sublunar e as instituições humanas. Agora porque a Revelação divina é autoritativa e divina desde quanto as instituições políticas e sociais devem ser autoritativas e divinas? Nada mais ímpio do que divinizar o humano, pois é aproximar-se da idolatria. 

É o quanto basta sobre nossos irmãos desorientados. 

Passo agora os agostianianos e heréticos da mesma cepa, representados por Calvino e por diversas seitas protestantes, os quais estendem sua crença ímpia sobre a corrupção total da natureza humana e a inexistência do livre arbítrio ou o determinismo sagrado a realidade vivida como um todo. 

E tocando a questão da epistemologia advogam que o homem nada pode saber fora da Revelação, posto que os sentidos e a razão enganam-no. Pronto temos o ceticismo...

Agora como é o homem um ser sempre depravado, apesar da graça e do batismo, é necessário que seja objeto de uma educação repressora. Pronto temos o moralismo ou puritanismo.

E como mesmo essa educação não basta para redimi-lo precisamos de uma estrutura eclesial ou secular com que fiscaliza-lo e disciplina-lo, mantendo-o sob controle. Pronto temos o autoritarismo.

E como todo esse ordenamento procede da fé imutável temos o conservadorismo.

E como a experiência e a reflexão nada são, a ciência - Especialmente se oposta aos mitos judaicos do antigo testamento. -  tampouco vale alguma coisa - Pronto temos o negacionismo, do qual procedem criacionismo, geocentrismo, terraplanismo, etc 

Agora veja como temos aqui um perfil ideológico bem definido procedente do agostianismo/calvinismo com sua antropologia e psicologia estendidas a diversas outras áreas da existência.

E não é para admirar que a mesma criatura que se recusa a reformar a Sociedade ou a moralidade, após ter reformado muito mal o Cristianismo ora pretenda reformar a História, a Geografia, a Física, a Química, a Biologia, a Psicologia e todos os conhecimentos sólidos e seguros aduzidos pelo gênero humano.

É toda uma escolástica de matriz religioso parte parte de um dado equivocado.

Pois aqui não se trata de verdade alguma. No entanto mencionamos a tragédia, por ser correlata ao fenômeno que relatamos quanto a profanação da verdade.

Ainda no plano religioso dos erros temos o princípio individualismo canonizado pelo protestantismo já em seus primórdios, o qual foi sendo sucessivamente secularizado e aplicado a outros campos da realidade pelos protestantes. De que resultou uma economia individualista a que chamamos liberalismo econômico ou capitalismo. Uma negação da política, a que chamamos anarquismo, especialmente a partir de Stirner. E uma proposta 'ética' que conservou o termo individualismo com Ayn Rand, havendo quem por força de coerência sejam protestante, capitalista, a anarquista e individualista - Assim um ANCAP. E temos pessoas com esse perfil nas Igrejas Ortodoxa e romana nas quais as normas e regras são totalmente opostas a esta visão, por partirem de um princípio diametralmente oposto ao individualismo, como o solidarismo ou fraternalismo.

No entanto essa infecção ideológica saiu de controle, deixou seu campo - que era o protestantismo, um campo religioso - e contaminou diversos outros, produzindo alias um sistema de cultura, tanto mais firma nos EUA e tanto mais preciso sob a forma ANCAP, que é produto final de tudo isso.

A partir do anarquismo, surgiu esse negacionismo iconoclástico radical, adversário de todas as instituições e não apenas da política, o qual estendeu-se ou alastrou-se a quase todas as áreas da realidade como uma espécie de rival do conservadorismo. E se o conservadorismo, sem fazer mínima distinção entre bem e mal ou entre o que merece e não merece ser conservado segue seu caminho, o anarquismo, assumindo um progressivismo virulento de origem metafísica, vai pelo extremo oposto. 

No plano institucional esse anarquismo (A que Sorel credita o mérito de o te-lo em conta de incoerente. Rappoport) negou-se a inserir-se onde quer que fosse: Parlamento, sindicato (Sorel, Kropotkin e os seus o fizeram por conta e risco e enfrentaram o repuxo da 'Ortodoxia'.), escola, igreja, etc apregoando a deserção do mundo e a destruição completa do mundo burguês por meio de uma Revolução não poucas vezes sangrenta. Pouco mais tarde completou o anarquismo seu trajeto e coroou sua visão totalizante com a negação da cultura teórica: Da Filosofia, assim da gnoseologia; da ciência, assim da epistemologia e enfim da estética, negando o passado em sua totalidade. Aqui encontrou-se ele com o ceticismo, em parte já secularizado e com o relativismo/subjetivismo kantiano tributário de Lutero e assim de Agostinho. Sem averiguar as possíveis fontes de suas crenças carregou e trouxe consigo o anarquismo, um travo pessimista quanto o passado do homem, no qual viu apenas opressão.

De modo que o partindo da negação do parlamento ou do politico e passando pela negação das instituições atuais, chegou o anarquismo a manifestar-se e impor-se como modelo ideológico completo, aqui sustentando posições céticas e relativistas, ali posições anarquistas (Vide a posição de Feyerabend quanto a pesquisa científica.), e por fim quanto as artes, posições psicologistas que ajudaram a criar essa arte sinistra que é a arte moderna, alias com grande dose que pragmatismo burguês advindo da cultura capitalista. 

Podemos dizer assim que o espírito anarquista alastrou-se pelo universo e consolidou-se em diversas áreas que sequer faziam parte da proposta primitiva. E produziu-se como dissemos uma visão anarquista totalizante, um óculos ou uma lente a partir da qual se busca ver o mundo através da mesma perspectiva e manter certa dose de coerência.

O que queremos dizer ao fim deste artigo é que elementos das matemáticas cartesiana e newtoneana, da Revelação Cristã ou da heresia agostiniana e enfim da postura anarquista - E são apenas alguns exemplos - foram recortados ou descolados e inseridos artificialmente noutras tantas áreas da existência ou do conhecimento de modo a tudo explicarem ou darem origem a visões de mundo que obscurecem a própria realidade. Daí resultaram diversas ideologias ora reinantes como o positivismo, integralismo, o puritanismo, o conservadorismo, o autoritarismo, o determinismo, o negacionismo científico, o irracionalismo, o ceticismo, o negacionismo social, o psicologismo, o modernismo estético, etc todo esse cipoal que não poucas vezes se enlaça e encontra, complicando ainda mais a compreensão e consequentemente a exposição das ideias.






quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Notulas sobre o pensamento medieval

- Após as invasões germano/árabes, as simples escolas e instituições educativas clássicas desapareceram. Que dizer então de uma Filosofia agonizante? Doravante a reflexão Filosófica será posta a serviço da Teologia Católica ou Ortodoxa, enquanto tentativa de se compreender racionalmente os elementos da fé Cristã. Enquanto atividade autônoma, iniciada mil anos antes pelos gregos a Filosofia chega ao fim.

- Julgo jamais ter existido uma Filosofia escolástica. No entanto diversos problemas de ordem filosófica foram postos e examinados no contesto da Teologia escolástica, sem que a profundidade da reflexão ficasse comprometida.

- O primeiro teólogo Cristão a servir se largamente da Filosofia clássica foi S Clemente de Alexandria, a quem devemos a transcrição de cerca de trezentos fragmentos clássicos, doutro modo perdidos. Seu exemplo foi seguido por Orígenes, famoso escolarca alexandrino, por Eusébio de Cesárea e outros, até S João Damasceno, primeiro expositor a fazer uso de Aristóteles e guia, por assim dizer de Tomás de Aquino.

- Parte dos cristãos ocidentais ou latinos, mais afeitos a gramática ou a arte retórica bem como as instituições do direito romano, chegou a nutrir sérios preconceitos contra o manejo da Filosofia pelos crentes, do que temis exemplo no 'anti teológico' Tertuliano.

- A principio Agostinho assimilou o pensamento Oriental, chegando a compor uma obra contra os académicos, há muito comprometidos com o ceticismo. Posteriormente no entanto, toda sua concepção de mundo é sua teologia foram afetadas pela queda do Império Romano ou pela Invasão de Roma por Alarico. Desde então assumiu ele uma posição maniqueísta, deturpando o conceito de pecado ancestral, negando o livre arbítrio, afirmando a predestinação e construindo um sistema próprio chamado agostinianismo ou grafismo o qual serviu de base ao luteranismo e ao protestantismo de modo geral. Tal sistema é pessimista da antropologia a epistemologia, havendo alguma evidência disto ja nas Confissões. Com efeito está a Agostinho nas bases de - Al Achari, Al Gasali, Ockhan, Lutero, Montaigne, Jansenio, Pascal, dos 'tradicionalistas', de grande parte dos neo conservadores e de outros tantos irracionalistas.

- Devemos ao Cristianismo histórico, Católico, Ortodoxo, tradicional ou episcopal, em termos de literatura a conservação de parte significativa da produção clássica compilada pelos monges da Assíria a Irlanda. Em termos de Ética a retomada ou conservação do ideário humanista/reformista proposto por Sócrates e Platão, o que foi constatado tanto por um Nietzsche quanto por um Werner Jaeger. Em termos de gnoseologia realista um certo apego  velha tradição aristotélica bem como a metafísica grega tradicional. É o quanto nos liga ao mundo antigo, enquanto elemento de continuidade. Neste sentido a Igreja histórica ou antiga é como que um cordão umbilical que ainda nos liga a Cultura clássica.

- O falacioso conceito agostiniano de pecado original, com toda sua carga de pessimismo, remete nos a queda ou a morte do Homem grego romano enquanto ideal/padrão posto pela cultura, assim ao trauma ou impacto produzido por esta queda. A falência dos projetos Socrático e Aristotélica, ao cabo de quase mil anos, não podiam deixar de repercutir no ideário dos Cristãos iletrados do Ocidente produzindo um paradigma negativo.

- Não poderia nem pode o islã produzir qualquer contribuição ao pensamento Filosófico. No entanto, a princípio - Tal e qual os judeus a partir de Aristóbulo e Filon - Continuados no decorrer da Idade Média por Avicebrom e Maimonida - e os já citados padres Cristãos - não podiam os muçulmanos, instalados na orla do Mediterrâneo ou nos domínios do Império Persa, permanecer impermeáveis ao patrimônio cultural clássico. Ali instalados quase que de pronto foi o pensamento Filosófico introduzido por convertidos Cristãos (Ou mesmo por clérigos Assírios, Siríacos, Coptas e Bizantinos) ou Zoroastrianos resultando em duas vertentes rivais: A Mutakallim ou Alh al Kalãm e a Mutazila. A primeira, representada por Al Isfaraini 'Ostad' fazia uso da Filosofia com o objetivo de compreender ou justificar o sentido tradicional dos elementos da fé. A segunda, representada por Ibn Ubayd e pelo próprio Averróis (Ibn Rodh), adotou um posicionamento mais crítico, buscando soluções de compromisso bastante ousadas.

Ao cabo de três séculos foi a Mutazila condenada pelos líderes religiosos e teólogos ortodoxos do islã como uma contaminação ou poluição grega e classificada como heresia. Por fim no século XI, Al Achari e Gazali, usando de material grego fornecido pelo ceticismo ou pelo agostinianismo - E antecipando Ockhan, Lutero e Kant - atacaram já a percepção, já a razão em benefício da fé cega, assim dos livros e profetas. O que se seguiu após eles foi uma inquisição feroz... O remanescente dos Mutazilas refugiou-se em Al Andaluz junto aos últimos Umayas, onde em pouco tempo veio a extinguir-se cedendo espaço a estreita ortodoxia sunita. E como diz Reilly o pensamento racional e livre jamais tornou a renascer no seio do Islã, prova de que era de fato um elemento exógeno, em oposição a cultura árabe ou semita. Possivelmente Averróis foi o único Filósofo situado no contesto islâmico.

- A Teologia escolástica de modo geral não sufocou o exercício Filosófico, antes estimulou o mesmo quando o fazia convergir para outro fim e o subordinada à outra área do saber. Penso na Escolástica como um período de gestação ou ventre, em que foi gestada a Filofosia moderna, novamente senhora de si.  O próprio Descartes não foi capaz de romper por completo com esta tradição, embora como Filósofo da Natureza ou epistemologo científico buscasse já por um.novo critério ou padrão.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Pecado ancestral, tentação, Super ego, Freud e o Evangelho... Por uma nova compreensão em torno do Super ego (Ensaio de semi pelagianismo)


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É a doutrina Ortodoxa do pecado ancestral uma versão bastante mais atenuada do pecado original proposta por Agostinho de Hipona do século IV. A qual pode ser entendida inclusive naturalisticamente e em conexão com a doutrina de Freud sobre o Super ego. É antes de tudo a experiência do mal no homem uma experiência humana e natural.

Admitido que Freud metafisicou bastante em torno de suas constatações - editando-as como generalizações nem sempre bem fundadas - podemos relaciona-lo com Agostinho, o qual do mesmo modo metafisicou a respeito de coisas que não podia compreender a seu tempo, chegando aos confins do maniqueísmo.

Para os naturalistas ingênuos ou otimistas como Rousseau, é o homem uma criatura perfeita ou melhor harmoniosa. A Sociedade no entanto contamina-o ou infecta-o e nele introduz o mal. Temos de admitir que Rousseau, o otimista, estava absolutamente correto, ao identificar a Sociedade ou seu produto a cultura, como fonte do mal ou do pecado. Seu erro consiste em imaginar o homem, em qualquer tempo ou fase de sua vida separado da Sociedade, pois é este homem um ser social, social do berço ao túmulo. Social porque assim que nasce deve ser limpo, alimentado, aquecido, protegido... por outros seres humanos ou por um pequeno grupo social chamado família. E nem as famílias vivem isoladas umas das outras. Sendo o homem ao nascer um ser familiar, é concomitantemente um ser social, que pela família entra em contato com outros homens.

Uma vez que a sociedade ou a cultura estão impregnadas pelo pecado - mas não só por ele - o homem, gerado, nascido e criado em contato com a sociedade e a cultura terá sua mente preenchida em parte com memórias, recordações ou elementos pecaminosos. Temos assim no pecado ancestral uma potência que pelo pecado atual ou pessoal converte-se em ato.

Evidencia-se com prístina claridade a genialidade da doutrina do alexandrino, repetida por S João Damasceno na 'Fé Ortodoxa' é o pecado ancestral transmitido pelo exemplo humano, pela sociedade e pela cultura enfim. E assimilado pelos sentidos e pela memória - pela mente enfim - desde a vida infra uterina. Assim antes que atinjamos o estágio operatório formal, lógico ou racional - estágio em que nos tornamos aptos para julgar e decidir - temos já um substrato pecaminoso ou maligno em nossa mente.

Podemos então falar, quanto a diversos casos, num super ego pecaminoso, fonte das tentações com que o inconsciente opõem-se, diversas vezes, a deliberação racional. Dando lugar ao tão conhecido estado de combate ou ambivalência porque chegamos, não poucas vezes a neurose. Mas não estou a falar a lingua de S Freud, i é, em sexo ou sexualidade. Cristão Ortodoxo, não maniqueu ou judaizante, estou a falar em verdadeiros pecados ou dilemas éticos - postos pelo Santo Evangelho - e assim em princípios divinos como honestidade, justiça, solidariedade, amor, lealdade, etc é disto que estou a falar, numa concepção autenticamente Cristã ou Católica de pecado ou virtude e não em baboseiras puritanas ou moralistas.

Somos capazes de armazenar em nossas mentes, segundo o ambiente em que fomos criados, uma massa de princípios anti éticos. Noutras palavras um inferno interior ou um Diabo interior e todos conhecem a clássica imagem do anjo e do diabinho. E no entanto a composição do homem interior ou da mente jamais será totalmente má mesmo majoritariamente má. Tudo dependerá do ambiente, da educação, da formação, dos valores concretamente manifestados pelas pessoas com quem entramos em contato... O que nos faz avançar na direção da tese a respeito de um super ego majoritariamente ético ou bom, harmonizado com o aparato consciente ou racional.
Por meio de um super ego majoritariamente pecaminoso, face a uma deliberação racional saudável impoẽm-se o cenário de um drama - o drama do homem enquanto ser dividido ou fragmentado. Cindido entre o consciente ou o aparato racional e um inconsciente pecaminoso. Este drama, percebido por Agostinho e antes dele por Paulo é um drama real e vivo. Com que sentimentos não registrou o apóstolo: Faço o mal que desejo e o bem que desejo não faço. Que significa isto senão a luta ou a guerra entre o homem exterior, cônscio de seu dever e o homem interior dominado por instintos atávicos e más memórias?

Admitida esta compreensão podemos dar por desnecessária e fútil a ação externa de um suposto diabo. É o homem, e algumas parcelas do Novo Testamento já o sabiam, tentado por si mesmo e não por qualquer agente exterior, embora possa também ser sugestionado por outros homens. Claro que uma tentação que parte do interior ou de dentro será sempre mais intensa e incomodativa, afinal é difícil ao homem fugir de si mesmo. Outra constatação é a de que inexiste qualquer transmissão mágica em torno deste pecado... e tampouco qualquer tipo de culpa ou pena, pelo simples fato de não haver assentimento e portanto 'pecado' propriamente dito. Semente não é fruto. Pecado ancestral não é pecado pessoal ou atual, e portanto não implica culpa, e por não implicar culpabilidade não serve de obstáculo entre nós e o sagrado.

O que ele faz é predispor-nos ao pecado pessoal e desde então cindir por assim dizer, a pessoa humana, convertendo-a num campo de batalha, disputado por forças diametralmente opostas; as impressões maléficas e a deliberação racional ou consciência. Eis uma realidade a que não podemos fugir e mesmo os naturalistas são obrigados a encara-la no terreno da Psicologia. Todo homem que aspirar viver conforme os ditames da consciência e deliberação racional encontrará dificuldades e experimentará conflitos interiores.

Freud topou com mentalidades dominadas por conflitos de ordem sexual porque exerceu sua atividade num contexto saturado de puritanismo ou maniqueísmo. Noutros contextos sociais, em que a sexualidade, por não ser demasiadamente reprimida, não se tornava obsessiva, daria com outros problemas, inclusive com dilemas éticos. Assim as relações que descobriu e a que chamou complexas foram produtos de determinadas situações culturais.

Destarte poderíamos supor um outro tipo de Super ego, tanto mais próximo da consciência ou em harmonia com ela. Claro que isto implica a adoção de uma determinada lei ou padrão e de um padrão ético por parte dos educadores, dos pais, das famílias e mesmo da sociedade. Um contexto social em que predomine a ética da pessoa produzirá um substrato mental ou um super ego virtuoso e portanto em sintonia com a deliberação racional. Do que resultará uma vida equilibrada.

Claro que a pergunta que se faz é se além dos bons exemplos que se fixam na memória por meio do esforço cultural a que chamamos educação existe algo de bom imanente no próprio homem. E é claro que estamos invertendo a doutrina de Agostinho e postulando a presença de um bem metafísico. Se em termos de intelecto nossa resposta é um sonoro ou rotundo não, no sentido de que não há conteúdo de virtude ou de ética que anteceda a experiência vivida ou a operação sensorial (empirismo), em termos de uma vontade informe, intuição ou atração podemos dizer que sim e que este homem, possuindo elementos bons e mais em sua mente, identifica-se com os bons, tendendo ao bem. Por isso mesmo o homem natural com experiências de pecado continua sendo atraído pelo bem e realizando coisas excelentes, apenas violando a si mesmo, a sua natureza, a sua condição, o âmago de sua consciência, transforma-se num monstro.

Neste caso, se o homem contém algo de bom em si e tende ao que é bom para que a graça i é a Unidade de Jesus Cristo.

No plano natural por mais que aspire pelo bem, pela virtude e pela perfeição não pode este homem deixar de cometer o mal ou de pecar ao menos episodicamente, devido a ação deste super ego, no qual, em maior ou menor medida existe o mal. Do estado de combate contínuo a que esta exposto, ao menos em algumas ocasiões, resultará a derrota deste homem e, do ponto de vista puramente natural, um afastamento com relação ao Sagrado ou uma profanação. Outro seria o caso se os primeiros homens aos quais coube a deliberação racional tivessem sido fiéis a suas consciências e repudiado o que estavam habituados a fazer. Ao que parece não fizeram isto, cederam livremente a fragilidade e cometeram o primeiro pecado atual e após este alguns outros... até que o mau exemplo contaminou a todos e pelo exemplo fixou-se em todas as mentes, tornando o ideal da impecabilidade impossível.

Por isso manifestou-se o Verbo eterno Jesus Cristo, nosso Legislador e Mestre com o duplo objetivo: De fixar um padrão absoluto de ética por meio de sua Lei, o Evangelho ou o Sermão do monte e de auto comunicar-se a todos os homens de boa vontade, ou que se sentiam desconfortáveis face as situações de pecado. Por auto comunicar-se compreenda-se: Agregar-nos espiritual e intimamente a si, ligar-nos a sua Unidade e oferecer-nos a sua amizade que é a graça.

No entanto não é esta graça elemento neutro ou de enfeite mas um elemento ativo ou capacitador, o qual vem em socorro de nossa boa vontade ou do bem que há em nós reforçando-o contra as tentações. Coadjuvados pela ação da graça podemos resistir heroicamente as tentações internas e vence-las, podemos resistir ao pecado e romper concretamente com ele, podemos cessar de pecar e nos tornar santos, podemos cumprir o mandamento de Jesus Cristo: Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito. Isto é a conversão, 'Metanoia' ou mudança, não de opinião ou crença, mas de vida.

Podemos assim, por meio de uma educação ética, conforme os princípios do Evangelho, produzir super egos cada vez mais puros e diluir o drama do conflito. Como podemos com o auxílio da divina graça superar o conflito e assumir uma vida de santidade e perfeição. Uma mente nutrida do Evangelho desde o berço e posta em contato com a graça do Senhor trilhará a passos largos a senda do bem, do amor e da justiça. Uma memória impregnada por bons exemplos e socorrida pelos Sacramentos não poderá deixar de frutificar abundantemente e de dar bons frutos cem por um.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

O sentido da cidade de Deus em Agostinho e Paulo Orósio

O ano: 410




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Jerônimo de Stridon arrasta-se entre lágrimas pelo chão de sua caverna nas proximidades de Belém...

Outros estavam firmemente persuadidos de que o Cristo não tardaria a aparecer no alto dos céus rasgando as nuvens.

Outros ainda alegava que os homens estavam enfrentando a fúria dos deuses tutelares, os quais, desde Constantino e Teodósio, já não eram alimentados com sacrifícios rituais.

Tudo porque o comandante Gôdo Alarico havia invadido e pilhado a antiga capital do Império, Roma, a 'Cidade eterna'...

Afinal a última invasão havia ocorrido oito séculos antes a 18 de Julho de 390 a C.

Desde então Roma jamais fora invadida ou conquistada, nem mesmo pelo grande Anibal.

Tornara-se inexpugnável e convertera-se em mito.

Para as massas a Cidade de Roma, coração do Império e capital do Mare Nostrum era impossível de ser conquistada.

Por isso que as vésperas de sua queda, centenas de milhares de cidadãos, vindos de todos os cantos da Itália, lá se achavam apinhadas e julgando-se protegidas pelas multi seculares muralhas.

Tanto o fantoche imperial Honório, filho de Teodósio, o grande; quanto as famílias senatoriais da mais alta nobreza, haviam sido arrogantes e mais do que isto, imprudentes, por terem dado morte a Estilicão.

Disseram a Alarico que havia muita gente na cidade.

Respondeu o Gôdo, declarando que estando densa e grossa a erva, achava-se pronta para ser cortada.

Solicitou uma montanha em ouro e prata... Foi quando os orgulhosos senadores perguntaram-lhe:

Que nos restará então? E ele respondeu-lhes: Vossas vidas!

Optaram os romanos pro bromar...

Alarico retirou-se em demanda de Ravena, a nova capital, onde se achava Honório. Os pântanos no entanto fizeram-no recuar e tornar a antiga capital do Império.

Após alguns dias de saque, a fome e a peste fizeram com que os próprios cidadãos abrissem a porta Salária.

Era Bispo de Roma Inocente I, o qual impetrou ao godo alguns lugares de refúgio. Alarico concedeu-lhe as duas Basílias dos Apóstolos - S Pedro do Vaticano e S Paulo, fuora muri.

Evidente que não abarcavam a toda população da cidade, alias engrossada pelos refugiados.

Os jardins de Salústio foram incendiados pelo invasor e certo número de patrícios passado a fio de espada. O saque foi feito 'casa a casa' e acompanhado por uma sucessão de estupros e torturas...

De modo geral Roma sofreu bem mais dos vândalos e ostrogodos...

O primeiro saque foi relativamente ameno, porém traumático.

Pois significava o fim de um mundo, e o começo de outro.

Apresentaram-se então uma série de questões:

  • Por que o Império romano havia caído?
  • Por que caiam os impérios?
  • Haviam os romanos sido punidos pelos antigos deuses?
  • Por que havia Deus permitido que os Cristãos fossem molestados de um tal modo?
  • Que pensar sobre as freiras que tinham sido estupradas e ainda sentiam complexos de culpa?
  • Que se sucederia após o fim do Império?
  • Acaso a destruição do império não significava que o mundo estava prestes a acabar?

Agostinho de Hipona na "Civita Dei" (Encerrada em 425) pretende responder a tais questões focalizando a História da própria Roma servindo-se para tanto do que havia de melhor em termos de fontes, as obras de Terêncio Varrão sobre as origens do Império.

A obra demorou longos quinze anos para ser concluída e adotou um viez moralista, refinado a seu tempo pelo maometano Ibn Khaldun nos 'Prologomenos'.

Não é que a análise de ambos seja totalmente falsa ou equivocada, limito-me a classifica-las como superficiais.

A tese geral de Agostinho é que os impérios e civilizações, sendo contingentes, nascem, morrem e sucedem-se uns aos outros.

Havendo vislumbre desta lição já no livro judaico atribuído a Daniel.

Resta saber quais sejam as leis que presidem o nascimento e a morte dos Impérios.

Segundo o hiponenses, os primeiros romanos eram cultivadores da terra - Aqui faz eco a Catão, o antigo - e portanto homens operosos, exercitados, treinados e portanto aptos para serem bons soldados.

Não é ocioso advertir que antes da invenção das armas de fogo, o aparato bélico era bem mais pesado e portanto dificil de ser transportado.

Com certo sabor de Sócrates nos "Ditos memoráveis", Agostinho alega que a parcimônia, a simplicidade, as privações, a sobriedade enfim, imposta pelo ambiente rural transformaram o primitivo romano no soldado por excelência. Assim a precariedade da vida correspondia a uma espécie de ascese ou disciplina natural.

Ainda acompanhando os sucessores do velho Catão e testemunhas do declínio imperial, o Bispo africano conclui que a expansão do Império, a afluência de recursos a Península Itálica e a consequente adoção de hábitos civilizados, refinados ou urbanos pelos antigos romanos acabou por amolece-los. Tendo sido abandonado o trato da terra com sua ascese natural seguiu-se a degeneração dos costumes, definida como a busca pelo prazer, dos banquetes, bebedeiras e orgias...

Obviamente que este homem dado a prazeres requintados, coberto de seda, bem nutrido, perfumado, ostentando anéis e colares de ouro não haveria de ser bom soldado, intrépido, valente, corajoso; pelo simples fato de que a vida havia deixado de ser penosa e se tornará apetecível para ele.

Assim os mártires do Cristianismo antigo, foram o que foram porque eram antes de tudo ascetas, ou seja, jejuadores, abstinentes, sóbrios e morigerados. A ascese seja natural, social ou mística é o que torna a vida humana indesejável. A amarga e destrói as fontes de vida. Eis porque os ascetas são sempre os melhores soldados e os melhores mártires, os melhores matadores e os melhores a serem mortos...

É claro que Agostinho nem poderia pensar em algo assim, como não foi suficientemente profundo para relacionar este amolecimento das massas e da sociedade em geral com o 'Pão e circo', com a inviabilidade das guerras, com a falta de mão de obra escrava e com a produção de bens e a inflação, atingido as causas mais profundas do colapso.

Para além de Roma, Ibn Khaldun é levado as mesmas constatações que Agostinho, embora de modo mais preciso, na medida em que relaciona a ascese natural com o meio e com a mobilidade dos povos.

Refere assim que os locais mais rudes como montanhas e desertos, já devido ao labor que envolve a subsistência, propendem a estimular o deslocamento de suas populações ou seja o nomadismo, que o nomadismo, bem mais do que o sedentarismo, torna o homem exercitado, treinado ou preparado; a ponto deste homem, face a civilizações urbanas e refinadas, tornar-se um predador por excelência.

Vislumbra o conflito ancestral entre as primeiras civilizações urbanas, altamente desenvolvidas, e as culturas nômades porque foram sucessivamente engolidas e destruídas. A apreensão da realidade aqui é bem maior.

Seja como for o escritor africano ressente a limitação de seu trabalho e solicita que seja ampliado por outros. Cerca de 417 o presbítero hispalense Aulus Orósio compõem sua estimada "História contra os pagãos", obra que veio a converter-se em clássico durante a Idade Média. Afinal trata-se da primeira História do mundo escrita por um Cristão ocidental - Sexto Júlio Africano, Hipólito romano e Mar Eusébio de Cesáreia já haviam escrito suas crônicas mundiais nos século III e IV (em grego), sendo a Eusébio (Alias 'Pantodape Historiae' ou História mundial ) traduzida para o latim pouco antes que Orósio completasse a sua.

Orósio segue o esquema limitado do pseudo epígrafe de Daniel - dito livro do Profeta Daniel - com os quatro reinos representados pelos animais míticos. Em Daniel os tais reinos seriam: Neo babilônico, Medo, Persa e Macedônico ou grego, desconsiderando assim, por ignorância os impérios mais antigos: Sumério, Egípcio, Babilônico e Assírio, dentre outros (Pois poderíamos acrescentar o indiano, o chinês, etc). Já noutra parte o autor de Daniel refere quatro reinos distintos: Neo babilônico, Persa, Grego e Romano, entrando em contradição consigo mesmo.

Talvez por isto, tendo observado a variação, Orósio esforça-se por compendiar a História de quatro reinos: Babilônia, Grécia, Cartago e Roma, omitindo o reino dos Persas (Certamente por ignorar a Pérsica de Ctsias de Cnido) e pondo Cartago em seu lugar.

A partir daí o teólogo espanhol vai pintando com as mais negras cores - E no entanto absolutamente reais - a sucessão de atrocidades cometidas por cada um destes Impérios até chegar ao Romano, focalizando com maior interesse as guerras e invasões e salientando a crueldade com que eram levadas a cabo pelos antigos. Então imaginem só que prato cheio teria sido para este cronista o conhecimento do antigo império assírio, cujos reis, a exemplo do grande Assurbanipal deliciavam-se lendo bons livros e cortando as orelhas e narizes de seus prisioneiro de guerra.

O que ele pretende assinalar é que graças ao predomínio do Cristianismo, em meados do século IV d C, as invasões, guerras e saques haviam se tornado bem menos calamitosas. Já Agostinho referia na citada obra que sob a égide do Cristianismo as basílicas e igrejas das cidades invadidas eram tidas em conta de asilos invioláveis pelos próprios inimigos e que as vezes até mesmo a visão dos Bispos, clérigos e monges entoando litanias era suficiente para moderar a ferocidade de conquistadores cruéis. O que nos faz recordar o encontro entre Leão, o grande e Átila, rei dos hunos, ocorrido quase meio século depois...

A bem da verdade a própria Filosofia pagã muito havia contribuído para suavizar o flagelo tremendo das guerras entre os helênicos e mais ainda entre os romanos, devido aos militares influenciados pelo estoicismo.

No entanto sua contribuição mais interessante parece ter sido a naturalidade com que encarou a sucessão dos Impérios, considerando que a partir das ruínas de um surge outro.

É o quanto basta para saltarmos no tempo até o século XVIII com Volney e suas ruínas... E ao século XX com Spengler, Huizinga e Toynbee com suas teorias sobre o nascimento, maturidade, declínio, morte e sucessão das civilizações.

Com Vico temos a ideia de um corso, pautado em três fases - Divina, heroica e humana - (O que nos leva a classificação tripartida de Comte) - e num ricorsi ou numa recorrência cíclica dos corsoS. Terminado um iniciasse outro... Claro que Vico não podia estender este ciclo para sempre, uma vez que sendo Católico devoto, admitia a consumação de todas as coisas e a segunda vinda de Cristo. Hegel estendendo este ciclo infinitamente, tende a encarar este processo histórico e esta sucessão rítmica e hierárquica de impérios, como um enriquecimento ou construção da própria consciência divina. Por fim, após ele, Nietzsche pode reeditar a teoria do 'eterno retorno'...

A Alemanha do século XIX a cidade do homem é que adquire conotação de uma cidade divina.

E como isto esta longe do conceito de 'cidade de Deus' formulado por Agostinho, aqui ao menos, quanto a este ponto, fiel a tradição Católica.

Assim para Agostinho o princípio que regula a cidade de Deus não procede deste mundo.

Não é que ele negue ou repudie a presença de Deus no mundo ou melhor do mundo em Deus.

Não é o caso, pois como Cristão ele bem podia ler no primeiro quarto Evangelho: ESTAVA JÁ NO MUNDO QUE FOI FEITO POR ELE...

Nem poderia a divindade onipresente deixar de estar neste mundo ou este mundo físico de estar nela.

Havia porém aqui, neste mundo, um elemento volitivo e livre que livremente afastara-se Deus de si mesmo. Não estando mais a divindade presente no coração do homem.

Daí a necessidade da presença divina fazer-se ainda mais saliente ou perceptível neste mundo por meio da Encarnação. Mistério por meio do qual a divindade reaproxima-se do homem com o objetivo de recupera-lo ou de reconquista-lo. Manifestando-lhe todo seu amor por meio da presença solidária.

Temos aqui no mistério da Encarnação um novo elemento, um novo princípio, uma nova relação face aos seres humanos, de que resulta a implantação de uma 'Cidade divina' neste mundo.

Claro que é novo e inusitado apenas para nós seres humanos, do ponto de vista da consciência divina estamos diante de um plano anterior a organização deste universo e por assim dizer eterno. Não de um improviso.

Neste sentido a ideia de uma cidade divina implantada neste mundo adquire uma conotação atemporal, que deixa raízes na eternidade.

Já presente nas mais antigas culturas enquanto esperança, promessa e anúncio profético esta cidade tem seus fundamentos concretos lançados lá no monte calvário, quando o Espírito Eterno, em seu corpo de carne, foi suspenso na cruz.

Pois bem essa cruz é semente, como sementes são as palavras daquele que nela foi suspenso e semente é a pregação da Igreja por ele fundada.

No entanto, quando semeada era a Igreja apenas uma cidade ideal e futura, não plenamente encarnada mas vislumbrada apenas pela fé.

Principia como cidade de fé e não enquanto cidade visível.

No entanto consideremos que a igreja deve fazer o mesmo caminho que seu fundador.

O qual sendo imaterial e invisível tornou-se material e visível ao fazer-se homem.

Assim a igreja, enquanto cidade de Deus, deve seguir o mesmo trajeto e encarnar-se no mundo material e visível reformulando-o por completo a luz de Cristo, da Cruz e do Evangelho. Implica destruir as estruturas maléficas e substitui-las pela ética Cristã que é a mesma lei eterna reguladora do universo. Implica estabelecer novos padrões de convivência. Implica dar início a uma nova ordem e por isso a Igreja principia sua trajetória conflitando com o Império romano, cuja 'desordem organizada' ou a falsa ordem, pautada da escravidão e na guerra, deve aniquilar, e com ela o próprio império, o qual não pode subsistir sem suas bases e tampouco, naquele momento da História encontrar outra qualquer.

Fundamentado sobre a injustiça e tendo por base a opressão, deve o Império dos césares desabar fragosamente. Embora não deva ser destruído por completo.

Assim tudo quanto havia nele de útil, bom, nobre, excelente e proveitoso deve ser mantido pela Igreja e incorporado ao novo império em construção que é a cidade de Deus. Entidade através da qual o Cristo vai se encarnando mais e mais neste mundo e transformando-o a sua imagem e semelhança, enfim gestando uma sociedade Cristã, inspirada e guiada por princípios Éticos tomados ao Evangelho. Tal o ideal grandioso e perene do Catolicismo: Ampliar a Encarnação de Cristo, até que toda sociedade humana seja assumida por ele em sua mais absoluta plenitude.

Não imaginemos porém que tal operação será executada a maneira judaica, por meio de uma teocracia nacional ou universal, através da qual a própria Igreja ou seus clérigos, Bispos e Patriarcas passem a controlar diretamente o poder político. Nada mais absurdamente oposto ao pensamento Cristão, segundo o qual a função da Igreja - Enquanto fonte de ensinamentos Éticos destinados a normatizar a convivência humana - restringe-se a inspirar a conduta do fiel Cristão, homem Cristão, do cidadão Cristão...

Não cabe a Igreja, em hipótese alguma, assumir a tutela do governo secular ou dele tomar posse, mas orientar a conduta dos Cristãos e dos cidadãos numa perspectiva democrática, de modo que procedam sempre conforme a Ética tomada aos Evangelhos, tendo o Verbo encarnado por referencial supremo em todas as coisas.

Atingirá a Igreja tão alto escopo?

Se empregamos o tempo futuro é porque, lamentavelmente, tal escopo ainda não foi atingido.

Devido a seríssimos acidentes ocorridos no percurso da História...

Retomará ela tal programa, fugindo ao comodismo idealista/fetichista ou ao veneno solifideista???

Pela fé, somos constrangidos a confessar que sim.

Neste caso o domínio da Igreja prolongar-se-a indefinidamente neste mundo pela eternidade?

Sim e não...

Mas como sim e não.

Não por que haverá um evento cósmico e certa ruptura ou alteração brusca correspondendo ao retorno de Cristo e a ressurreição dos mortos. Cessando a economia temporal marcada pela liberdade e pela mutabilidade.

Sim porque Cristo instalar-se-a visivelmente, em seu corpo glorificado de carne, nesta terra renovada com os santos ressuscitados eternizando a cidade que com ele construímos.

De modo geral podemos dizer que a segunda vinda de Cristo não tem por escopo a destruição de sua cidade, mas apenas uma mudança de estádio. A cidade plantada aos pés do calvário, o ofício da Igreja, o prolongamento de Encarnação de Cristo tendo chegado a sua plenitude é introduzido numa nova realidade, a realidade das coisas eternas, tornando-se estável, fixa e imutável pelos séculos dos séculos.

Não é ciclo que se repete e perdura eternamente enquanto movimento que encontra seu fim em si mesmo, mas ascensão que atinge seu apogeu e atingindo-o entra em repouso, conservando-se assim para todo sempre.

Tal a cidade de Deus delineada pelo Bispo de Hipona, face a sucessão efêmera dos Impérios humanos, os quais nascem, crescem e morrem como os homens que os criaram, apenas para se convertem em pó... Assim todos os Impérios, reinos e civilizações que não forem atingidos, tocados e transmudados pelo Cristo, por seu Evangelho, por sua ética; passarão como estes céus e esta terra, enquanto que as palavras e ensinamentos dele jamais passarão, enquanto a Lei do amor jamais passará!

Ora o amor é o fundamento desta cidade e suas colunas o bem, a verdade e a beleza.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

A morte da razão no islamismo - Crítica ao livro de Robert Reilly 'O fechamento da mente muçulmana'

Mutazilites




“Se a ignorância é realmente uma bênção ninguém deveria ler 'O Fechamento da Mente Muçulmana.'"

A frase acima sobre o benefício da ignorância foi proferida pelo personagem Cypher no emblemático filme Matrix. E parece que foi feita sob medida para aqueles que se recusam a ler um Boswell, um Kaldellis, um Harari... E a tantos outros pesquisadores aos quais acrescentamos Reilly. 

Eis ai algo que precisa ser lido ou que deve ser lido por tantos quantos não se satisfazem com a ignorância dos chavões, das repetições, dos modismos e dos lugares comuns.

De qualquer modo ou forma, se você prefere não ler Reilly ao menos não reclame quando seus filhos foram enforcados e suas filhas castradas!

Eu te avisei!


"Como prefiro conhecer a verdade, mesmo quando não seja agradável, achei o estudo de Robert Reilly sobre o pensamento sunita o livro mais esclarecedor de 2010."

O assunto esta em voga porque quatrocentos e cinquenta anos após a vitória de Lepanto, mais uma vez ainda, o islã esta as portas da Europa, do velho mundo e portanto do Ocidente ou do que ainda resta da Civilização (A qual esta premida entre EUA e Islã e sendo triturada).

Lamentavelmente não apenas das massas sempre incultas e alienadas, mas mesmo o leitor mediano ignora que seja o islã, cuidado que seja tudo uma coisa só.

Não sabe o que é carijismo, xiismo, sunismo e menos ainda que tenha sido mutazilismo, acharismo, qadarismo, etc

Resultando disto tremenda confusão.

Na medida em que as pessoas são levadas a imaginar ou a cogitar que o islã de hoje é o mesmo islã que até o século XI contribuiu a sua maneira para a recuperação do patrimônio cultural, filosófico e científico, destruído em parte pelas hordas dos primeiros muçulmanos que queimaram a grande Biblioteca de Alexandria.

Ledo engano e falso enleio.

Por isso temos de ler Reilly e prestar muita atenção no que ele nos conta:


"E Reilly conta a triste história de como uma grande batalha filosófica no seio do Islã, entre mutazilitas e os acharitas, moldou a história da fé e levou inevitavelmente à crise atual do Islã. Essa batalha intelectual – resolvida na metade do século IX – não foi uma discussão acadêmica e civilizada em torno de princípios meramente abstratos; foi uma disputa de suma importância, com implicações que se tornariam óbvias para os cristãos atentos do começo do século XXI."

Nem se tornaram óbvias para os Cristãos, os quais percorrem o mesmo caminho que os acharitas aberto a mais de milenio e meio por Agostinho de Hipona e alargado posteriormente por Ockham, Lutero, Pharran, etc

Sempre bom lembrar que não vivemos mais em tempos áureos de escolástica medieval.

E que o mesmo espírito irracionalista injetado no organismo cristão pelo ex maniqueu Agostinho de Hipona no século V e alimentado por Ockham foi canonizado por Lutero em pleno século XVI e - pasmem - transplantado para o plano da Filosofia pelo Luterano I Kant. No Ocidente Cristão ninguém mais odiou o Lógico e Mestre de todos os que sabem (Aristóteles) do que o Pai do protestantismo para quem o Perípato não passava de um pagão ultra endemoninhado.

Foi o auto proclamado reformador do cristianismo que comandou a primeira cruzada contra o Estagirita, o humanismo, a razão e a lógica; afirmando em termos tão incisivos quanto Achari e Al Gazali a miséria da razão humana e santificando o irracionalismo.

Portanto antes de lançar pedras contra o Islã temos de olhar para o próprio umbigo e fazer auto crítica - Temos muito que falar sobre Agostinho, Ockham, Lutero, Kant, Pharran... Afinal não há dia em que os pentecostais e calvinistas fazendo pouco caso da razão e apropriando-se indevidamente de certas passagens atribuídas ao apóstolo Paulo, fazem gala de que a Loucura de deus é muito superior a sabedoria dos homens... Com a qual identificam a razão, a lógica, etc como se estas não procedessem de Deus, e não devessemos dar a quem solicitar "As razões de nossa esperança."

O mais grave e lastimável é que esse espírito irracionalista e fanático, que encara com suspeita, tudo quanto seja humano, penetrou já a própria igreja romana por meio da RCC... Instilando seu veneno irracionalista pelo corpo dessa antiga comunhão... A ponto de terem trocado a reflexão teológica: sábia, ponderada e racional pelos delírios emocionalistas e tremeliques de Pharram e cia

Portanto, ao menos aqui no Brasil do século XXI (2017), ao contrário de Lawler não vejo esses Cristãos atentos a problemática da razão e preocupados.

Quantos dentre os fervorosos carismáticos leram e estudaram a Encíclica Fides et Ratio do defunto J P II?

Quantos dentre eles tem dedicado algum tempo a estudar alguma obra de escolástica?

Quantos ao menos tem estudado patrística ou doutrina social da igreja???

Então eu não percebo a existência de Cristãos preocupados não necessariamente com o problema do acharismo no islã, que é convergente, mas com o problema, colossal, do pentecostalismo e da RCC, cujos membros endossam o mesmo tipo de pregação irracionalista. Evidentemente que isto é assombroso em se tratando dos romanistas, suja comunhão possui um patrimônio escolástico de primeira grandeza. Mas eu não o percebo devidamente valorizado. 




"As principais disputas filosóficas geralmente sobrevivem por séculos. Os platônicos e os aristotélicos ainda hoje estão discutindo. Ecos dos debates no Concílio de Niceia ainda podem ser ouvidos nos departamentos de teologia das universidades católicas."




Nicéia é questionado e só pode ser questionado por quem tenha perdido por completo o sentido Católico e enveredado justamente pelas tortuosas veredas do biblismo protestante, da judaização, do irracionalismo, etc Mas passo a largo disto...

Nicéia não é algo que se discuta. Exceto pelos unitários...

O padrão atanasiano é fundamento pétreo da Ortodoxia Cristã.

Bem o valor da razão na perspectiva Cristão também é algo que jamais deveria ser discutido por um Católico.

No entanto Agostinho e sobretudo e acima de tudo Kant, o 'Filósofo de Lutero'...

E por ai afora seguem as incoerências, os paralogismos e as sórdidas traições.


Diante de tais aberrações nem preciso dar a público os motivos que me levaram a abraçar o Catolicismo Ortodoxo após ter sido 'resgatado' da superstição protestante pela igreja romana...




"Mas os mutazilitas não estão mais discutindo com os acharitas."

Não existem mais mutazilitas no islã desde o século XII - Marque bem isto querido leitor, antes de classificar seus oponentes como islamofobicos e repetir semelhantes desrazoados! - pelo simples fato de terem sido denunciados por heresia, sacrilégio, blasfêmia e exterminados.



"No Islã o debate acabou – não porque um argumento provou ser mais persuasivo que o outro, mas porque uma escola invocou sua autoridade para silenciar a crítica."

Leia-se os acharitas apelaram a espada do Califa, e com base na instituição do Murtad, criaram uma inquisição, dando cabo de seus inimigos.

Mas o Cristianismo também teve suas inquisições, dirá o leitor exercendo sua criticidade.

Lamentavelmente a igreja romana, desde o século XIII, contou com uma Inquisição e o protestantismo desde que surgiu, no século XVI, com uma Inquisição rival ainda mais violenta (A respeito da qual os meios de comunicação costumam silenciar por questão de conveniência.).

O que nos leva a constatar que não houve Inquisição durante todo primeiro milênio do Cristianismo e tampouco na parte Oriental da Igreja i é nos domínios da Igreja Católica Ortodoxa. Houve portanto um setor ao menos do Cristianismo sem Inquisição. Seja justo e considere isto!

Agora por que não houve Inquisição nem durante o primeiro milênio desta Era, nem na parte Oriental da Igreja?

Simples, por que não ha qualquer mandamento inquisitorial nos Santos Evangelhos ou mesmo em todo corpo do Novo Testamento e tampouco na tradição da Igreja i é nos ensinos dos Santos Padres. Não se alastrou por todo mundo Cristão e nem mesmo se firmou definitivamente nas Cristandades ocidentais porque não partiu da essência mesma ou do espírito do Cristianismo. Do contrário a igreja grega teria tido sua inquisição e as inquisições romana e protestante chegado até nossos dias!

Importa saber que a Inquisição, seja romana ou protestante, foi suprimida há coisa de dois séculos e que não percebemos qualquer clamor generalizado no sentido de restabelece-la, salvo talvez em pequenos grupos de sectários radicais - Sempre protestantes é claro - que aspiram restabelecer a lei de Moisés. Referi-mo-nos aos judaizantes e reconhecemos que são um problema sério decorrente do calvinismo e do pentecostalismo.

Todavia mesmo a maior parte deles é incapaz de cultivar tais pensamento sem alguma medida de vergonha ou pudor, pelo simples fato de, de vez em quando, darem com as fuças nas palavras de Jesus ou nos Evangelhos, no Sermão do Monte, nas Bem aventuranças...

Outra é a realidade do islã e totalmente distinta.

Uma vez que a mesma instituição que deu cabo dos mutazilitas, a murtad, continua viva e operando entre eles. Pelo simples fato de constar no Corão e na Sunah, sendo encarada como divina! Tal a djzia, tal a jihad... Tal o imposto do infiel e a guerra santa contra os que não aderem a sunah! É dogma de fé indiscutível aos olhos do bom muçulmano. Nós temos uma Trindade que não afeta a vida de ninguém... Eles não tem Trindade alguma ou Deus encarnado, mas tem Murtad, Djzia, Jihad, em pelo século XXI, e se vangloriam disto!!!

A violência, a agressão, a intolerância, etc são princípios constituitivos do islã ou dogmas de fé, assentes no Corão, na sunah, nos hadiths. Não é algo a respeito do qual se discute civilizada e ponderadamente, mas algo que pôs a perder os instruídos mutazilitas!

No islã não há Duns Scott, Aquino, Pedro Auriol, Tarantaise, etc Porque seriam condenados comop heréticos.

A igreja romana, tão levianamente acusada por seus críticos, permitiu o desenvolvimento de uma teologia escolástica em suas fileiras, e de cujo exercício resultou a emancipação e autonomia do pensamento filosófico e crítico no Ocidente. Caso ela tivesse procedido como o islã e mandado Tomás as gemônias jamais teríamos chegado até aqui...

Então não me venham dizer que religião é tudo igual ou tudo a mesma coisa porque isso é conversa fiada de quem jamais examinou a fundo a questão.

Aqui o posicionamento do Catolicismo antigo - Face a razão e a Filosofia - foi um enquanto que o do islã (E posteriormente o do protestantismo como hoje o do pentecostalismo e da RCC) foi outro. Sendo totalmente distintos os caminhos percorridos por ambas as comunhões religiosas.



"Os mutazilitas tentaram a mesma síntese entre fé e razão que os filósofos medievais realizaram no Cristianismo. Embora aceitassem inteiramente a autoridade do Corão, os mutazilitas acreditavam que a fé islâmica poderia sujeitar-se à análise lógica, e as palavras de Alá conformar-se-iam às exigências da razão humana."
Eles estavam corretos porque se Deus é a fonte do princípio racional, este princípio externo deve ter sua fonte interna na própria vida de Deus, o qual por sinal é imutável.

Devendo a Revelação divina por necessidade, estar de acordo com o princípio racional.


"Mas os acharitas tinham outra idéia."

Esta ideia é expressa por Gazali na Destruição da Filosofia. 

Gazali a semelhança de Hume e Kant recorre as exposições de Sexto Empíreo, Aenesidemus, e outros céticos com o objetivo de abater a razão e glorificar a fé cega e irracional.

Perceba-se portanto como a crítica do ceticismo não é de todo incompatível com certa modalidade de fé. Dentre nós o exemplo mais vivo neste sentido é Montaigne o qual declara insistentemente buscas asilo na fé. Segundo alguns autores o próprio Kant teria dito que o fim último de sua crítica a capacidade racional era a exaltação da fé, da fé cega e luterana é claro.

Evidentemente que tudo isto fica bem quando associado a uma teoria metafísica que lhe sirva de substrato, como a tal doutrina da depravação total tomada a Agostinho. Como os antigos gregos ignoravam supinamente tais dogmas sinistros em torno da corrupção total do homem, o ceticismo jamais pode firmar-se adequadamente entre eles e sua epistemologia, a exemplo de sua antropologia, sempre foi otimista.

Tal o caso de Kant o qual tampouco pode introjetar ou implantar sua crença agostiniana/luterana no corpo da Filosofia, ficando seu meio ceticismo desprovido de quaisquer bases ou fundamentos mais sérios e suspenso no ar. Supondo sempre no entanto, que há algo de 'errado' com o homem ou que este é um tipo de ser defeituoso...




"Essa escola de pensamento defende que o Islã exige submissão absoluta à vontade de Deus. Pensar que Alá esteja sujeito à razão é indecente, até blasfemo, na visão dos acharitas. Os acharitas não aceitam sequer a mais fundamental análise lógica do Corão; eles exigem obediência incondicional à palavra de Alá."


Eles apresentam um deus incoerente, logo um deus que não pode existir.



"Quando algumas passagens do Corão entram em contradição com outras, os mutazilitas dizem que a razão guiará os fiéis até a verdade. Os acharitas não fazem uma tal concessão à razão humana. Se Alá deseja ser contraditório, eles dizem, quem somos nós, simples mortais, para questionarmos o todo-poderoso? Assim, o princípio da não-contradição, o princípio mais fundamental do pensamento racional, é posto de lado, e o Islã entra nos domínios da desrazão."


Eles atribuem a Deus a vontade de ser imperfeito! Enquanto negamos que Deus seja livre, pelo simples fato de ser necessariamente perfeito e sempre atuar com absoluta perfeição.

"O triunfo dos acharitas, diz Reilly a seus leitores, representa o fechamento final da mente islâmica."


Portanto se acha que o islã de hoje é o mesmo islã meio progressista dos mutazilitas do século XI, esta redondamente enganado e precisa rever seus pontos de vista.

Se espera algo de bom do islã sem a mutazila...

Por outro lado de espera a ressurreição da mutazila após ter entrado em óbito há quase mil anos...

Resta ao islamófilo sincero o dever de primeiramente abraçar o islã é claro, e depois de tentar restabelecer ou restaurar a mutazila, compondo a fé muçulmana com as exigência da racionalidade e da ciência.

É a via mais excelente para quem acredita na possibilidade do islã reconciliar-se com as fontes de nossa civilização greco romana.

Que nossos críticos demonstrem que estamos errados reformando o islã, ou... morrendo tentando e sendo enforcados nas praças de Meca, Riad, Damasco, Cairo...



"Com os mutazilitas, algum diálogo inter-religioso teria sido possível."



Sim porquanto fundamentado nos elementos comuns da percepção e da razão.


"Mas com os acharitas, não há base para uma discussão razoável porque a própria razão é tida em desprezo."Mortas a percepção - A qual nos conduz a uma experiencialidade comum em torno do mundo externo ou da realidade - e a razão - A qual nos conduz a uma reflexão comum - fica impossibilitada qualquer possibilidade de diálogo, por falta de um elemento comum a partir dos quais os homens se possam entender e chegar a algum acordo.

A mesma crítica, evidentemente, cabe aos céticos. Evidentemente que me refiro aos céticos metafísico, não aos cartesianos, cuja dúvida é metodológica e provisória. 

É exatamente aqui que os fideistas e os negadores do conhecimento se encontram.



"Desta forma o pensamento islâmico desde o século IX ficou marcado com o desinteresse pela consistência, pela análise, pela exploração científica. Não é coincidência, Reilly observa, que as grandes descobertas do mundo árabe ocorreram antes do despertar do poder islâmico. Nem é surpreendente que o desenvolvimento das nações islâmicas esteja bastante atrás das ocidentais."
Das premissas a conclusão.

Preciso dizer porque o islã é criacionista?

Mais ainda - preciso dizer porque a crença na inspiração Linear e Plenária da 'Bíblia' ou o Biblismo é igualmente criacionista e fetichista?

Preciso explicar que entre o pensamento e praxis científicas e o padrão de pensamento fetichista representado pelo criacionismo há um abismo intransponível?

Da mesma maneira como o pensamento magico fetichista típico do islã aniquilou por completo um padrão de pensamento científico ou racional e todos as sociedades muçulmanas levando-as a mais completa paralisia e atraso, o criacionismo arvorado em dogma pelas seitas protestantes representa a maior ameça já enfrentada pelo pensamento científico desde seus primórdios.

Não há sobre a face da terra um único cientista de renome, consagrado e reverenciado por suas contribuições e descobertas que acredite das monstruosidades registradas no antigo testamento a respeito da terra, dos céus, dos mares, dos animais, dos seres humanos... ou nas quejandas assentes no Corão. A crer em tais mitos, fábulas, contos, etc estará morto para o pensamento crítico... E não fará ciência, como não a fazem pentecostais e sunitas ortodoxos...

Ah mas no passado Faraday... 

Acontece que Faraday e outros pioneiros viveram há mais de duzentos anos. Praticamente antes de Hutton, Lyell, Lamarck, Darwin, Mendel, etc Queremos dizer antes que fossem feitas as descobertas que tanto revolucionariam a geologia, a biologia, etc Com as quais como cientistas não poderiam deixar de concordar. Eles pertenceram a uma outra era (Pré científica)... Hoje nossa compreensão científica de mundo e natureza são totalmente diversas.

Eles ainda podiam ser honestos creno em alguns mitos e fábulas por força da cultura.

Nós que vivemos muito depois de Buffon, Hutton, Lyell, Perthes, Lamarck, Darwin, Mendel, Mayr, etc não. Não temos justificativa para negar o obvio, aceitando uma coisa e negando outra, e selecionando segundo nos convém.




"Infelizmente, a vitória acharita foi, ao que tudo indica, definitiva, porque uma vez afastada a razão, não há mais maneira de resolver disputas além da imposição da força."

Desde então, mais do que nunca - Pois o princípio da força já lá estava assente! - os homens tiveram de ser convertidos a ponta da espada ou exterminado. Prevalecendo a lógica do 'Converte ou morre'.


"O Islã tornou-se uma fé inteiramente definida pela prática da vontade: a vontade de Alá. Se um mutazilita ousasse sugerir que o Corão deveria ser examinado pelo prisma da razão, os acharitas o acusariam de haver blasfemado contra a fé, e sua vida estaria em perigo."

É um sistema no interior do qual não se pode raciocinar a respeito de um livro inteirinho...

O que torna as pretensões do Catolicismo, com seus quarenta dogmas alusivos ao mundo imaterial ou invisível bastante sumárias... (Face ao protestantismo com sua fé na Bíblia inteira ainda mais rsrsrsrs)




par Lawler, 
Philip - 'The Most Eye-Opening Book of 2010' - ENTRE ASPAS