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terça-feira, 13 de novembro de 2018

Estabilidade civilizacional, tendências predominantes, ritmo histórico e conflito

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Não conhece nem busca a História leis gerais, pois sua tarefa consiste em identificar as causas imediatas de cada fenômeno ou evento particular. O sentido, a direção, o ritmo, as tendências, as 'leis', o processo Histórico enfim é perseguido pela Sociologia. O que os antigos chamavam providência podemos chamar de leis sócio/históricas ou melhor dizendo de tendências predominantes. Afinal tais leis não atuam de maneira estritamente mecânica ou absoluta como as leis físicas ou naturais, são flexíveis até certo ponto, conhecendo certo grau de indeterminação tendo em vista a ação livre do elemento humano ou melhor as modalidades de ação e interação que são 'infinitas'. A História ou melhor a sociedade humana, a cultura... possuem certamente um ritmo, uma dinâmica, uma frequência; mas não exata ou inelutável. Tinha plena razão W Dilthey ao substituir o paradigma da previsibilidade pelo paradigma da compreensão.

Justificar pertence a ideologia ou a moralidade. Prever a física ou a química. A História buscamos descrever e compreender. E através dela compreender o caminho percorrido pelas diversas Sociedades e pela cultura, em busca de alguns elementos comuns. Não se faz Sociologia geral sem História embora a Sociologia busque certo nexo genérico entre fenômenos que estão dispersos. Abstrai assim do tempo e do espaço, mas, para tanto, deve utilizar-se da História e da Geografia e alimentar-se delas.

Possui a dinâmica Social certas leis gerais desde que compreendamos o termo Lei de maneira 'lata'. Por isso recomendo o emprego do termo tendências predominantes. Claro que a natureza da cultura tem direções bem definidas, as quais podemos, com o devido cuidado esboçar.

Antes de tudo quero abordar o tema da Estabilidade civilizacional e das Crises, o qual faz-se tão premente em nossos dias. Para tanto vou socorrer-me de um Filósofo da História e de um Sociólogo aos quais atribuo o mérito de terem desvendado o segredo da Esfinge; assim Toynbee e P Sorokin, os quais juntamente com F de Coulanges, M Weber e R Nisbet, tenho em conta de geniais.

Constatou Sorokin a generalidade do conflito - quem disse que o conflito não existe ou que nada move? - envolve quase sempre culturas cujos valores antitéticos podem ser definidos como Materialista ou Idealista. Uma cultura em crise é basicamente uma cultura cindida entre valores materiais e ideais ou indefinida; bem como uma cultura fechada, seja materialista ou idealista. A Estabilidade civilizacional ou o 'brilho' corresponderia a uma síntese entre os dois 'sentidos' ou a uma equilibração. Em torno do que poderíamos chamar Realismo. O Realismo tenderia a conciliar a razão e a experiência, o psíquico e o biológico, o mental e o corporal ou físico, a religiosidade ou a fé na vida futura e a ação na vida presente, a Transcendência e a Imanência... Assim a prática da ginástica e dos esportes com o ideal da Kalokagathia, a Ciência e a Filosofia, a técnica e a ética, formando um todo harmonioso, e bem se vê o quanto este ponto de equilíbrio deva ser difícil de ser obtido. Via de regra move-se a Sociedade de um extremo a outro, tal o 'sentido' das crises.

E se o conflito de valores existe dentro da maior parte das Sociedades mais desenvolvidas, devemos considerar um outro tipo de conflito, existente entre diversos padrões de civilizações estáveis e mais ou menos estáveis ou mesmo não estáveis. Segundo Spengler o atual conflito entre o Islã e o Ocidente, remontaria a situações de conflito de conflito anteriores travadas entre a cultura persa e a cultura greco/helenística, a cultura romana e a cultura judaica, a civilização Cristã bizantina e o islã, a civilização Cristã Ocidental e o islã, enfim a civilização Ocidental contemporânea e o islã... Teríamos aqui o prolongamento de um choque milenar de culturas. Noutras palavras seria o islã herdeiro ou legatário do judaísmo antigo ou mesmo do zoroastrismo (o que é discutível - esta última assertativa) enquanto que os Catolicismos - devido ao conceito de Encarnação - seriam em parte legatários do paganismo antigo. Daí o conflito entre as duas tradições: Da transcendência pura e da Transcendência/Imanência.

Sucede no entanto que nossas construções sociais, raramente atingiram o necessário equilíbrio. A exceção do século IV, do século IX, do século XIII e do século XVII, em que conheceram-se aproximações, o ideal de civilização Católica jamais concretizou-se, frustrando-o - A queda do Império romano no século V, o advento do Islã no século VII, o advento do neo paganismo no século XIV, o advento da pseudo reforma, do capitalismo e das culturas de morte a partir do século XVI. Tais eventos tornaram o ideal de civilização Transcendente/imanente inexequível. Para além disto o próprio Catolicismo - seja Ortodoxo ou latino - deixou-se contaminar, poluir e obscurecer sucessivas vezes pelo neo platonismo sob as mais diversas formas, assim do agostinianismo, do palamismo, do zwinglianismo, etc E afastando-se do Eixo da Encarnação, perdeu sua consciência, tornando-se descarnado e confluindo para o judaísmo e o islamismo, facilitando inclusive a dispersão ou a conversão...

Hoje acima de tudo acha-se o padrão de civilização Ocidental cindido entre opostos, em luta e portanto em crise. O que se sucede desde que o protestantismo e seu 'filho' adotivo, o capitalismo, assumiram a direção de nossas sociedades. No protestantismo ortodoxo ou luterano temos uma fé ou religiosidade desvinculada do mundo material e totalmente idealista. No Capitalismo uma praxis naturalista, materialista, anti ética e anti Católica. No americanismo uma síntese monstruosa entre a religiosidade descarnada ou maniqueísta e a praxis capitalista, em oposição a valores humanistas e autenticamente Cristãos ainda presentes nas antigas sociedades europeias, assim como o sentido comunitário, o ideal de bem comum e uma doutrina social normativa.

Entre os vestígios da civilização Católica ainda presentes numa Europa colapsada e os ideais da pseudo civilização Norte americana ou americanista de origem protestante ou calvinista pautada no que chamam 'bíblia' ou antigo testamento, com sua moralidade individualista, grosseira e vulgar, vai um abismo imenso. E este conflito se torna ainda mais agudo nas sociedades latino americanas, onde entram ainda outros conteúdos culturais,  que o americanismo não pode aceitar ou compreender. Pois devemos ter em conta que para os puritanos recém chegados da Inglaterra, faziam os naturais deste continente as vezes de perversos cananeus votados ao extermínio.

Se os portugueses e sobretudo os espanhóis trazem a este continente recém descoberto um ideal de Cruzadas ocidentais, desconstruído pelo clero em Valadollid 1551, os puritanos do Mayflower, em 1648, trazem para este continente um ideal sectarista construído face as permanências do Catolicismo europeu, num clima de fanatismo e ódio contra Bispos, cruzes, torres e sinos... Tal e qual os Padres do século quarto tomaram por meta ou modelo social o Evangelho ou a lei de Jesus Cristo e os teólogos medievais do Ocidente a 'Cidade de Deus' de Agostinho - e já se percebe a queda do ideal... os calvinistas tomaram a peito criar uma Sociedade bíblica nos moldes da torá ou do antigo Israel... Daí a necessidade imperativa de satanizar e de aniquilar a cultural anterior ou nativa, segundo os ensaios que já haviam feito nos cantões Católicos da Europa...

Privada de conteúdo Cristão tradicional ou Católico ou de conteúdo nativo, implementaram os puritanos no Norte um ideal de Civilização protestantes que buscam, desde então vender ao mundo como legitimamente Cristão e impor as demais partes da América, conforme a doutrina do destino manifesto. Não apenas a América latina mas agora ao mundo como um todo como forma de legitimar o sistema Capitalista do qual tornou-se colaborador ativo ou servidor, pelo simples fato de que o protestantismo ortodoxo faz muito pouco caso das obras ou da ortopraxia. Mesmo os Catolicismos, posteriormente instalados neste 'solo virgem', tem se deteriorado muito facilmente e perdido sua consciência nesta atmosfera culturalmente tóxica, e tendem inclusive a exportar este Catolicismo negociável, flexível, morno, acomodado... face as necessidades do Mercado ao mundo inteiro, como se fosse produzido por encomenda.

Por isso não temos mais uma civilização Ocidental, unida e coesa, como no século XIII, mas uma sociedade cindida em torno de valores extremistas, como um espiritualismo descarnado e um materialismo insensível e cruel, os quais não se excluem, necessariamente. Em torno de permanências representadas por valores autenticamente Católicos, mesmo quando secularizados, como o socialismo, o ecologismo, etc E em torno de rupturas dramáticas como como a centralização política, os nacionalismos, o odinismo, o capitalismo, etc Vivemos um tempo de desencontro e contradição. A "Era da incoerência."

O que nos torna vulneráveis face a um islã relativamente coeso em torno do velho espírito fetichista e do padrão idealista ou descarnado de pensamento. O islã pode não ter atingido a equilibração civilizacional em termos de cultura, pelo simples fato de afirmar um deus absolutamente transcendente e apartado do universo material, mas fornece a seus adeptos, em termos de cultural, um padrão coeso ou não fragmentado. O ocidente deixou passar diversas oportunidades de equilibração e estabilidade social, até, por meio do protestantismo, do capitalismo e sucessivas culturas de morte, chegar a beira do abismo. Parte de nós zomba da fé ou da divina Revelação e da vida Ética que dela decorrer, embora nossas instituições todas e nossa cultura tenham sido postas sobre tais fundamentos desde tempos imemoriais e ante cristãos, uma vez que os Catolicismos dão continuidade a tudo quanto havia de nobre e excelente no paganismo antigo, fazendo com que remontemos a Platão, Sócrates e Aristóteles.

Ao repudiar preconcebidamente o Catolicismo estamos repudiando os fundamentos mais remotos da nossa identidade e para compreender o que estamos a fazer caberia ler - Coulanges, Dawson e Butterfield... Sociedade alguma subsiste fundamentada no ar, no vácuo ou no espaço. Uma sociedade completamente desarraigada de sua cultura ancestral não se mantém e por isto dizemos que os Catolicismos muito preservaram da cultura pagã ancestral quando o mundo antigo, por vício estrutural, ruiu fragosamente e veio abaixo. Foi um naufrágio e não fosse a presença do Cristianismo Católico experimentaríamos uma regressão tal como jamais fora vista em toda História, podendo quiçá, impugnar as constatações de V G Childe.

Quero dizer ainda que o neo paganismo, o materialismo, o ateísmo e mesmo o ceticismo ou a incredulidade, tal e qual nos tempos antigos nada produziram de relevante em termos de cultura refinada e já se disse que tais ideologias tem se mostrado estéreis nos domínios da Estética, o qual costumam depreciar. E quando se sabe o que esta tal arte moderna, psicologista... temos mais uma esfinge decifrada. Já quanto a ética bem poderíamos dizer que as mesmas causas produzem os mesmos efeitos, não por coincidência. O ateísmo e o materialismo refletidos jamais fogem ao utilitarismo, ao relativismo e ao subjetivismo... e são co relações epistemológicas necessárias. Por esta via jamais se chega a uma noção de Lei natural e assim ao essencialismo Ético em torno a alguns valores universalmente estáveis como o Bem, a Verdade e a Beleza - Digo algo a respeito deles... Para o cientificista ou positivista de nossos tempos Estética e Ética são palavras desprovidas de significados ou vazias, 'flatu vocis' enfim... Isto quando a própria razão e mesmo a própria experiencialidade não nos desamparam e encaminha ao nihilismo.

Nem fé, nem razão e nem mesmo a experiência.Nada fica restando de estável... Como construir ou manter uma civilização neste terreno? Tudo isto é resultado da dissolução, não algo positivo ou construtivo. Civilizações se constroem com afirmações fortes e ousadas em termos de princípios e valores. O protestantismo e suas sucessivas e múltiplas 'evoluções' privou-nos de tudo isto. Tornando-se o indivíduo centro da fé, e em seguida da razão e da experiencialidade, até que vieram a todas a morrer, pelas mãos do individualismo, imoladas!!!

Até aqui o conflito... Vivemos uma época de intenso conflito!

Devo dizer por fim, com Toynbee que a identificação de uma dada Sociedade com essa síntese harmoniosa e rara chamada realismo, não ocorre de qualquer maneira mais através da mimesis. Pois se faz necessário que após ter sido elaborada por uma elite intelectual, pensante ou dirigente, a solução de equilíbrio seja assumida por cada um de seus setores, inclusive pelos mais baixos ou pelas massas correspondendo a um eixo coordenador, capaz de integral todos os cidadãos, qual fossem um só corpo animado por uma só alma. Claro que essa assimilação de valores ou de cultura pressupõem antes de tudo uma organização educacional eficiente. A assimilação da cultura depende sempre da transmissão... Assim sendo uma Sociedade que aspire estabilizar-se deverá disseminar ou fixar determinados princípios e valores comuns por meio da educação, atingido verticalmente cada um de seus estamentos ou mesmo de seus membros.

Caso tais valores empolguem e inspirem os membros mais ativos e  produtivos de cada esfera, este vínculo produzirá a estabilidade e promoverá a civilização, desde que tais valores, como já dissemos, representem um são realismo em torno de necessidades espirituais e materiais ou de demandas psíquicas e biológicas de modo a contemplar o homem por inteiro. Caro que esses momentos de mimesis em torno de uma construção teóricas equilibrada ou realista serão raros e breves na História da pobre humanidade e não uma constante, pelo que conheceremos certamente mais e maiores períodos de crise. Ora também o ser humano em fase de crescimento ou o adolescente conhece períodos de crise e ambivalência... Por isso não nos devemos amedrontar, caso isto aconteça também com as diversas culturas ou com a humanidade de modo geral, apenas, como disse Guicciardini, deplorar o fato de vivermos nós em tais épocas - Como durante a eclosão da reforma protestante, a queda de Constantinopla, a expansão do islã, a queda do Império romano, os cem anos posteriores a morte de Alexandre, a Atenas conquistada pelos espartanos...

Talvez, como Platão, vossa genialidade seja estimulada pelas condições adversas... Assim enquanto prevalece a crise, procedais como os entomólogos buscando compreender e identificar cada faceta do processo histórico ou do ritmo conhecido pelas sociedades. A cada um dos que tiveram a paciência necessária para ler este artigo faço votos de boa sorte! Que possais, vós e vossos filhos, ver dias melhores!



quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Do ritmo das Sociedades no curso da História ou do apogeu 'intelectual' de uma Civilização corresponder a seu declínio




Não me lembro mais onde li a respeito da tese segundo a qual o apogeu intelectual de uma civilização corresponde quase sempre a seu declínio social e político. Noutras palavras, o apogeu intelectual de uma dada sociedade sucede invariavelmente a seu apogeu sócio político. Era demasiado jovem, mas creio ter lido semelhante constatação em Orvácio de S Maria ou em Antonio Piccarollo num dos dois certamente.

De pronto quis compreender o significado da afirmação. E para tanto precisei ler Ibn Khaldun, Maquiavel, Nisbet e outros clássicos... E posso declarar que a tendência predominante é mesmo esta. Que o apogeu intelectual ou mesmo artístico de um povo corresponda a seu declínio, o que envolve um 'atraso' que precisamos deslindar ou compreender.

Observe o amigo leitor que aos grandes faraós guerreiros: Tutmósis III e Amenófis III sucede aquele espírito criador chamado Akhenaton, já no século XIV a C. Akhenaton é um fracasso político. Mas que avanço em termos de arte, com a quebra do convencionalismo tradicional e adoção daquele realismo responsável pela criação do busto de Nefertiti. E que avanço nos termos da religião, a ponto de segundo Freud, estribado e Breasted, ter influenciado a formação do israelitismo/judaísmo ou a mentalidade do misterioso Moisés. Pois os hebreus saem deste meio. Estiveram ali, no Egito faraônico, ao tempo dos Heka Shasut, e dali, certamente, levaram seu henoteísmo ou monoteísmo insipiente.

A respeito dos Babilônicos podemos dizer que Nabonido, outro pensador religioso interessantíssimo, representa a decadência.

Sobre os persas pouco podemos dizer uma vez que seus arquivos foram queimados pelo Macedônio e sua história não é conhecida em seus mínimos detalhes.

Quanto aos gregos no entanto a mesma constatação: O século da 'República' e da 'Política' correspondem ao ocaso, não ao zênite de Atenas, o qual corresponde a 'Era de Péricles' i é a 440 a C, iniciando-se com Clistenes setenta anos antes. A Idade de ouro de Atenas é o século V. Platão e Aristóteles florescem no século IV.

Passando aos romanos, constatamos que Cícero, Salústio,Juvenal, e outros viveram o declínio ou a degeneração da República. Já Virgílio e Tito Lívio viveram viveram sob Augusto, numa fase de estabilidade. Não no apogeu da romanidade. Já Maquiavel identificava o apogeu de Roma com o período anterior a destruição de Cartago e a conquista de Corinto. Assim a maior parte dos analistas, que identificam a aniquilação da metrópole rival como um ponto nevrálgico. Ainda segundo tais autores forneceu Catão, o antigo, péssimo conselho a República, ao aconselhar a destruição de um concorrente que a bem da verdade estimulava as virtudes romanas. Logo, este Catão, que tanto receava da Filosofia grega... Quando na verdade devia recear mais daquele luxo condenado por Sócrates. Deixemos porém os romanos...

E embora Justiniano se tenha celebrizado por determinar a compilação a que chamamos Institutas, a criação da Magnaura e a composição do Mirabiblion por S Fócio correspondem a uma fase de inegável obscurecimento político.

O apogeu do Regnum italicum corresponde ao século XIII. Dante e Petrarca ao século seguinte ou a decadência... Ficcino e outros ao século XV. O apogeu do Império Luso chega a seu termo com a morte de D João III. O apogeu das letras parte mais ou menos desta data e entra pelo século XVII com Amador de Arrais, Heitor Pinto e sobretudo com Antonio Vieira e Bernardes. O próprio Camões editou os Lusíadas em 1572... Isto é bem afastado de Vasco da Gama ou de Pedro Alvares Cabral, assim de D Manoel, dito venturoso. Apenas Gil Vicente, como clássico, foge a esta regra.

A Espanha conheceu seu Zênite de 1492 a 1598 - Cervantes publicou o Quixote em 1605, sendo sucedido. Calderon nasce em 1600. No entanto, para sermos justos, a Espanha conheceu certo brilho intelectual - Vitória, Las Casas, Soto, Banez, Cano, Mariana, Suarez, etc - durante seu apogeu e já adiantamos que isto se deu graças a descoberta do Novo mundo e a problemática por ela criada.

Se bem que Shakespeare tenha iniciado sua atividade literária nos últimos anos de Isabel, escreveu a maior parte delas as vésperas da grande Revolução. Durante cujo transcorrer e até 1600 foi produzido o grosso da literatura clássica inglesa.

Apenas no caso da França e da Inglaterra vitoriana fica problemático estabelecer semelhante distinção já porque na França a produção literária e artística segue ininterruptamente dos 'quinhentos' até as vésperas da Revolução e para além dela. E a França constitui, é claro, uma realidade social a parte neste sentido. Diga-se o mesmo sobre a Inglaterra vitoriana durante o décimo nono século. A imprensa e os meios de transporte e comunicação, vão, paulatinamente alterando este quadro geral ou a dinâmica cultural destas sociedades ocidentais modernas.

Resta-nos pensar uma competente resposta para o fenômeno social em questão.

A qual não foge ao sentido da própria evolução dos seres vivos, assim do homem.

Pois sabemos que os seres vivos todos buscam adaptar-se as mudanças sucedidas no meio ou superar algum incomodo. E superado o incomodo, estabilizam-se.

Temos assim que o incomodativo ou o desagradável estimula a busca dos seres vivos por soluções. E que o progresso biológico, social e cultural parte de situações problema.

Fica portanto bastante fácil compreender porque os momentos de mais favoráveis a felicidade política e a paz social, paradoxalmente, não produzem o máximo em termos de cultura reflexiva. Pois há uma tendência a acomodação...

Já as situações de 'crise' ou decadência social e política suscitam diversos problemas e estimulam o exercício da reflexão. Por isso os momentos em que as civilizações declinam são intelectualmente tão produtivo. Pois os homens buscam por respostas, tentam decifrar e compreender a Sociedade e o 'pôrque' de sua desagregação.

Temos assim que a República de Platão é construída face a degradação das instituições democráticas. Que as Geórgicas de Virgílio - por trás da qual subjaz a glorificação do cesarismo augusteano - correspondem a uma reação face o obscurecimento das virtudes republicanas em Roma. Que a 'Civita Dei' e M Mercator dependem do clamor ou do impacto suscitado pela queda de Roma. Que de Salutati a Maquiavel descortina-se o ocaso das Repúblicas italianas do século XIII. Que Hobbes só podia ter escrito o Leviatã após o advento da reforma protestante e os desastres causados pelo livre exame e pelo fanatismo sectário já na Europa, já na sua Inglaterra, sob a Revolução Puritana. Que Rousseau reage bem mal face aos derradeiros vestígios sociais, desfigurados, do medievalidade, concebendo aquele radical reajuste em torno da 'Vontade geral', Que Marx tinha de escrever o quanto escreveu enquanto com Dickens assistia as peripécias do Capitalismo, promissor ao menos até as primeiras décadas do século XIX... Todas estas críticas são produtos do declínio e da degradação de certos ideais.

Temos aqui uma democracia em colapso, uma república corrompida, uma cidade decadente, outras tantas democracias em colapso, o triunfo do sectarismo religioso, a decomposição da instituições medievais, a frustração das promessas acenadas pelo capital... Projetos sociais degradados ou frustrados desde o princípio. Face aos quais, os observadores, construíram anti projetos. Afinal um ideal de Comunidade qualquer só pode ser concebido partindo de uma realidade indesejável, antípoda seu. Nisbet Toda utopia é uma reação, como a de Morus foi reação a construção do totalitarismo henriquino ou da centralização do poder. Todo e qualquer projeto social é ao mesmo tempo um anti projeto enquanto rejeição ou repúdio a alguma coisa. Nisbet
Exatamente por isto temos de situar tais autores em seu quadro, de crise ou declínio, para julga-los com justeza e não apressadamente. Pois eles não vivenciaram os tempos áureos, de apogeu ou zênite. Não é a boa democracia que Platão crítica, mas a democracia degenerada ou oclocracia de seu tempo, com o espírito de facção, os conflitos, a instabilidade, etc

Já quanto a produção literária ou artística propriamente ditas fica fácil compreender que os elementos mais sensíveis da Sociedade abandonem o cenário político social e retirem-se para o ateliê, buscando refúgio nas habilidades da arte, da poesia, da religião, enfim da abstração ou da fantasia. E isto corresponde muitas vezes a uma fuga. Nem o sábio aceita o mundo 'feio' e degradante em que foi 'lançado' nem percebe qualquer possibilidade de mudança ou de transformação, e assim aliena-se, no bom sentido, recorrendo a produção artística... De modo que mesmo sem o amparo do Estado político ela continua a florescer e a brilhar, como se nada tivesse acontecido. E não poucas vezes observamos o brilho artístico ou exterior de uma dada sociedade e identifica-mo-lo com seu zênite, quando na verdade não se trata de um critério seguro.

CQD