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domingo, 26 de novembro de 2023

Algumas reflexões sobre o Estado e a Economia: Por um Estado real e não fictício ou aparente.

Curiosa a oposição extremista entre marxistas ou comunistas e anarquistas. 

Pois para os primeiros o Estado, que nada é quando controlado pelos capitalistas, passa a tudo ser após a afirmação da ditadura do proletariado. E todavia jamais deixa de ser uma casca ou película controlada por forças econômicas. Pois esse Estado se torna tudo sempre por mediação do econômico, ao qual serve como meio ou instrumento. Inexiste qualquer possibilidade de autonomia para o poder político e o contrário disto seria idealismo ingênuo.

Outro o caso dos anarquistas, que jamais levam o Mercado ou os poderes econômicos a sério, tributando toda carga de opressão na conta do poder político ou do Estado.

Destarte buscam os primeiros, como já foi dito, servir-se do Estado com objetivos econômicos diversos... Sem perceber que se utilizam do poder político para controlar e submeter os poderes econômicos ou as forças de produção... Atribuída essa finalidade 'socialista' ou Comunista ao Estado, adquire ele um desígnio que o torna importante.

E desta visão procede uma rigorosa ou radical estatolatria, e totalitarismo, e ditadura, e tirania, e opressão... Tudo coberto com o pomposo termo de 'Ditadura do proletariado' a qual, para os pupilos de Marx e ovelhinhas de Lênin corresponde a um Dogma tão sacratíssimo como a Igreja para os Cristãos Católicos. 

Nem posso deixar de assinalar que alguns críticos atilados já assinalaram inclusive as semelhanças entre os órgãos de controle do PC na velha URSS e os órgãos de controle do Vaticano. Creio que foi o Dr Fulop Miler.

Outro o caso dos anarquistas, cujas propostas sociais jamais se concretizaram.

De minha parte creio que sairia pior, e bem pior, do que o 'paraíso' comunista essa ideia ultra ingênua de eliminar a organização política ou diminui-la até os limites de um micro Estado e deixar intacta a estrutura econômica ou manter o Mercado... Julgo que disto resultaria ditadura mil vezes pior do que as ditaduras comunistas, nazistas e fascistas, inda que hipocritamente dissimulada.

Nem é por mero acaso que os ultra capitalistas tenham assumido essa pauta sob a legenda ANCAP, prova de que ninguém deseja mais a total demolição do poder político ou do Estado - Que muitas vezes o serviu tão bem, MAS NEM SEMPRE... - do que os detentores do poder econômico e apóstolos do liberalismo economicista em máximo grau.

Convém alias, expor aos comunistas, que os mesmos senhores do capital, receiam não pouco da Religião, ou melhor, do Cristianismo histórico ou antigo, do contrário seus ancestrais não teriam o teriam sabotado, por meio da reforma protestante, com o objetivo de instaurar essa nova ordem economicista. Foi necessário satanizar o Cristianismo antigo, apostólico ou autêntico, semear boa dose de ceticismo, fragilizar a igreja velha, etc com o objetivo de engendrar a incredulidade e a partir dela esse novo mundo materialista. Foi por meio do protestantismo que o Cristianismo tornou-se completamente dócil e servil face aos poderes econômicos ou ao mercado em formação.

Desde então o Capitalismo ou liberalismo econômico tem buscado por todos os meios favorecer ou facilitar o protestantismo e atacar com não menos sanha as igrejas anglicana, romana e Ortodoxa, devido ao sentido espiritual de insubmissão ou de rebelião que anima algumas de suas parcelas e súditos. O protestantismo, quase como um todo, colabora ou coopera, os 'catolicismos' jamais inspiraram confiança ao Mercado. Portanto a ideia de combater a religião ou certas formas religiosas não é prioridade do comunismo ou invenção sua. Apenas o liberalismo econômico sabia o que devia ser atacado ou o que temer.

E aos anarquistas convém expor que nem sempre o Estado foi dominado pelo capital ou por poderes econômicos, e que em algumas circunstâncias se lhe opôs, apenas para ser esmagado ou triturado, mas se lhe opôs - Com Laud, com Robespierre, com Vargas, com Peron, sob a ideologia de Keynes ou do bem estar social em alguns países do Norte da Europa, na Inglaterra fabianista que por um tempo enjaulou a besta, etc De modo que tampouco o Estado foi sempre dócil ou servil face a tal ordem como supõem o mito anarquista. 

Outro o caso do tempo presente, após o consenso do Washington e a cruzada neo liberal, no qual o poder econômico parece disposto a recobrar um controle total sob a fórmula de um Estado mínimo, policial ou de enfeite. Porém o que foi desalojado no passado poderá ser desaloja-lo em qualquer tempo futuro. Desde que se ressuscitem e alimentem umas velhas ideologias (Antes de tudo a do Direito natural ou jusnaturalismo.)... O que foi feito antes sempre poderá ser feito novamente depois - Desesconomizar o Estado ou opo-lo a nova religião do Mercado, É PERFEITAMENTE EXEQUÍVEL.


O PAPEL DO JUSNATURALISMO E DO TEÍSMO NATURALISTA.


Não basta termos um Estado politicamente liberal ou formalmente democrático.

Precisamos ter um Estado Ético, voltado para os direitos fundamentais da pessoa humana.

Por isso é que se faz premente afirmar tais direitos como naturais e inalienáveis e não como conjecturais ou relativos a qualquer pacto social de natureza positiva. Os direitos humanos devem transcender a qualquer pacto ou decreto de natureza política para que adquiram essencialidade e perenidade.

Pois tudo quanto, sob o termo de convenção, possa ser atribuído a lei positiva ou ao poder político por ele pode ser revogado. Apenas a lei natural pode servir como fundamento inamovível a nossos direitos e garantias.
Por isso o mesmo poder que estimula o fundamentalismo religioso e sectário - Devido a seu sinistro discurso (Sobrenatural!) em torno da submissão acrítica e passiva. - não se sente molestado de forma alguma pelos discurso ateísta (Exceto pelo comunista, o qual vai muito além do puro e simples ateísmo, a que alias é irredutível.). Dado que a partindo do ateísmo é impossível fundamentar uma lei ou uma ordem natural e imutável expressa por direitos humanos inalienáveis. De fato a ausência de um Legislador supremo desampara qualquer humanismo, por tudo relativizar e atribuir a lei positiva ou a pactos sociais.
Alguns nichos religiosos não fundamentalistas existentes nas igrejas anglicana, romana e Ortodoxa, no espiritismo e em algumas outras expressões religiosas (Radicalmente comprometidas com os direitos humanos e com a justiça social.) incomodam muito mais os poderes econômicos e políticos do que esse ateísmo por vezes neutro ou esquivo as causas sociais.

Isto porque aquelas expressões religiosas possuem doutrinas sociais, atribuídas aos céus e infensas a manobra capitalista, coisa que a maior parte da corrente ateísta, a exceção do complexo e desacreditado Comunismo, jamais nos ofereceu. Por isso encaro esse ateísmo metafisicamente virulento e socialmente vazio como absolutamente irrelevante e prefiro um papista que reza o terço ou um espírita embiocado que se identificam com o trabalhador ou com um cidadão oprimido, a um desses chateus... Parte dos quais (Refiro-me aos chateus.) inclusive mantém a mentalidade - Favorável ao mercado e ao americanismo. - incutida pelas 'emprejas' protestantes. Pois uma coisa é assumir uma senha qualquer e outra totalmente diversa questionar uma cultura ou romper com ela > E eu, como ex protestante, não precisei negar levianamente a existência de um Ser Supremo ou me tornar ateu, para abandonar aquelas visões de morte e tornar-me humanista e trabalhista.
Parece-me que o capitalismo teme e receia muito mais dessas velhas ideias e tradições humanistas Socráticas ou Cristãs do que desses ateísmos todos, a exceção do comunismo. Daí a necessidade de controlar a impressa e as escolas com o objetivo de satanizar o Cristianismo antigo ou de elevar seus erros e crimes a uma dimensão colossal. Pois é esse Cristianismo antigo, mesmo quando desfigurado (Pelas igrejas romana e anglicana por exemplo.), veículo de ideias e propostas assentes pela Filosofia clássica com todo seu aparato crítico.

Aliás o ateísmo comunista me parece mais digno - E é o mais odiado, mas não por mim, que nada tenho de comunista! - que seus rivais justamente por se ter mostrado sensível face as gritantes injustiças cometidas pelo capitalismo e por se ter aliado ao operariado.
Os demais ateísmos me parecem tão alienados e cômodos quanto o protestantismo - O grande promotor e aliado do capitalismo... - que produziu-os.
Não acredito que por si mesmo o ateísmo signifique, pois acredito mais em ações que em doutrinas e se adiro a Sócrates e a Jesus Cristo é porque antes um aceitou beber cicuta enquanto outro aceitou ser pregado na cruz. Acredito no testemunho dos que se deixam matar (Não dos que matam!) ou dos mártires que podendo resistir, recusam-se a faze-lo por algum motivo sério. Jamais vi mártires que tenham dado seus vidas pelo não ser ou pelo ateísmo...


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Marx, Darwin e Freud, três intelectuais face ao Sagrado.


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Caso houvesse concurso de mentiras ou lorotas não sei quem ganharia. Se os neo ateus cientificistas ou seus desafetos fundamentalistas. Basta dizer que uns e outros amam classificar o grande Ch Darwin como ateu em suas publicações ineptas... E por ai vai - Os sectários fanáticos classificam como ateus e materialistas, irreligiosos, etc a tantos quantos repudiam seu deus retangular, a bíblia e os neo ateus, aplaudem e declaram: É exatamente assim, encampando um bom número de irreligiosos e agnósticos que jamais negaram a existência de um Supremo Ser ou de uma Consciência universal...

Fenômeno curioso este de dois grupos extremistas e fanáticos explorando os mesmos boatos, fábulas e mentiras. Sem pingo de dor na consciência... Uns quiçá por crerem que o rubro sangue do Nazareno tudo lave, e outros por repudiarem um padrão universal de bem ou virtude.

Por isso resolvi escrever algumas linhas sobre os grande ateus ou sobre os grandes ateus inventados. E começarei por Karl Marx. O qual era ateu de fato, mas de modo algum fanático como seus pretendidos seguidores ou sucessores, que parecem ter chegado a fobia...

Materialista convicto não podia Marx admitir a existência de um princípio espiritual ou imaterial paralelo, por inferência era ateu num sentido muito próximo do de Sartre: A existência dum tal Ser não lhe interessava, além de é claro parecer-lhe sem sentido. Alias, como um materialista poderia encontrar sentido numa entidade Imaterial e Invisível. No entanto Marx não perdia seu tempo precioso buscando convencer os religiosos e teístas ou visando converte-los ou salva-los. De fato ele não entrava em discussões metafísicas como o teófobo Seb. Faure... Não se empenhava em demonstrar ou provar, através de argumentos, a inexistência de Deus.

Mais ainda. O odiado Marx parece até ter tido respeito e sabido lidar muito bem com os sentimentos religiosos alheios, não lhe faltando até certa delicadeza. Ocorre-me ter lido, quando moço, trechos da correspondência que trocará com uma garota ou menina, na qual a mesma aludia ao costume de ir a Missa com a família todos os Domingos. Em certo momento Marx assim se expressa: 'Como de costume sei que iras a Missa...' e 'Porém depois que chegares da Missa...' sem revelar a jovem qualquer sentimento amargo ou negativo. Enquanto qualquer pentecostal fanático diria a queima roupa: A Missa é uma cerimônia demoníaca... em nome de seu belo deus e de seu teísmo azedo e supersticioso. O ateu e 'diabólico' Marx no entanto não procede assim. Parece até saber compreender, tolerar e colocar-se no lugar do outro... Parece que aprendeu muitas coisas boas com o capeta ou com o não deus...

Freud é outro departamento. Ao contrário de Marx e Sartre era ateu forte... tendo o costume de destilar seu ateísmo a todo instante. E juntamente com ele, por admirável força de coerência, toda sua falta de esperança. Um ateu não deveria abrigar o veneno metafísico da esperança em seu coração dizia ele. Evolucionismo, progressivismo e outros vestígios de misticismo Cristãos haviam sido lançados ao limbo por ele bem antes da crítica ácida de Grayling e outros. Para este grande representante do ateísmo, mais do que para o fanático Agostinho de Hipona, os bebês nada mais eram que malvados polimorfos e o homem algo semelhante a um verme ou parasita.

Apesar disto Freud, como todos os neo ateus sentia imenso mal estar em dialogar ou discutir sobre a teísmo natural dos antigos gregos. Em "O futuro de uma ilusão" não hesita sair pela tangente e declarar que esse Deus, o da metafisica racional, de Platão, de Aristóteles ou dos Filósofos, não o interessava. O deus que interessava a Freud, como a Dawkins e a tantos outros, era apenas o espantalho fetichista dos fanáticos religiosos e fundamentalistas i é à la Genesis... Assim, lançando-se contra esse espantalho, fica mesmo fácil...

Agora onde procurar as fontes do ateísmo freudiano? Há uns poucos anos lí uma análise psicanalítica segundo a qual Freud transplantou o ódio que sentia pelo pai e rival para Deus... Achei delicioso, no entanto minha opinião é bem outra. Quiçá a dor e a indignidade física tenham consolidado o grande psicólogo em sua posição. Afinal desde 1920 até a ocasião de sua morte passou ele por cerca de vinte intervenções cirúrgicas, devido a um câncer bucal extremamente invasivo. A cabo do processo esta terrível enfermidade lhe havia destruído a mandíbula e arrancado a lingua. As dores eram lancinantes e a morfina já não conseguia alivia-las... Por fim houve uma rejeição da prótese e necrose, o cheiro tornou-se tão repugnante que afugentou-lhe os queridos cães. Diante disto ele suplicou por uma dose maior de anestésicos e... Pense então numa pessoa que padece de dores atrozes e que por fim se vê apodrecer viva. Coloquem-se no lugar dela. Tentem identificar-se... Difícil estar no lugar de Freud sem pensar como ele ou até revoltar-se. Fácil falar sentado sobre as poltronas do sofá... Julgo melhor tentar compreender mais e julgar menos. Quero dizer apenas que Freud, a partir de sua experiência diária ou de sua vivência, não tinha lá motivos muito fortes para mudar de posição face ao problema de Deus.

Tanto pior se me disser que o deus 'sábio' serviu-se da moléstia que o consumia para castiga-lo. Ora todo castigo vindo de um Ser Bom, Generoso e Filantropo só pode ser a recuperação do homem e não para sua exasperação. No entanto supostas punições, dolorosas e desumanas como estas, só serviram mesmo para exasperar e produzir revolta nos corações dos mortais. Concluo que o deus dos fanáticos nada sabe sobre atrair e reconciliar os seres que criou. Sua pedagogia é um completo fracasso ou um reforço do ateísmo. Já a simples hipótese de estar ele exercendo vingança não passa de sadismo, i é o reforço do sacrilégio e da blasfêmia. Melhor aceitar o fato de que semelhantes desgraças são meros acidentes com que nos brinda a natureza ou a sorte, sem que a excelsa divindade tenha qualquer coisa a ver com elas...

Chegamos assim a Darwin. O qual jamais professou qualquer forma de ateísmo. Haja visto sua reflexão a respeito da sabedoria divina e do processo evolutivo em termos naturais contida na própria Origem das espécies. Religioso durante a primeira quadra da vida e destinado ao ministério eclesiástico confrontou-se aquela mente, antes de tudo, com a grosseria do Gênesis e da mitologia hebraica, porque se batem até hoje os fanáticos bíblicos, não com Deus.

Os advogados da mitologia no entanto, como Sedwigck, não pouparam esforços para fazerem-no avançar em sua posição. O que tal e qual no caso Freud foi reforçado pela própria vivência ou pela experiência pessoal. Pois Darwin teve de assistir a morte de dois de seus rebentos amados, o pequeno Charles, levado pela escarlatina e sua filha predileta e companheira Anne, após lenta agonia, aos dez anos de idade. Desde então parece ter perdido a fé e se tornado deísta. A partir daí podemos observar sucessivas crises existenciais oriundas duma existência tocada pelo sentido trágico da vida, por delicadeza, lirismo e recaídas religiosas... Foram sucessivas crises, idas e voltas, revisões, jamais privadas de uma grave consciência espiritual.

Sua trajetória no entanto, sequer parou por aqui, pois Darwin apenas encontrou escolhos metafísicos jamais vislumbrados antes e assim dignos de nota. Com efeito em suas ulteriores pesquisas pode observar o que compreendeu como um certo índice de malignidade presente na própria natureza ou no mundo natural. Observou o excesso de vida e a carência de alimentos, assim a fome. Observou em certos animais costumes bastante bizarros, que chegam a crueldade. Observou que ao menos em parte o processo evolutivo é estimulado pelo incomodo ou pela dor, enfim por situações de sofrimento, catástrofes, etc Passou então a ter dificuldades para relacionar tais fatos como conceito de um Deus bom e misericordioso... Tanto mais pesquisava e mais parecia divisar uma face maléfica na natureza, representada alias por sua seleção natural. Diante disto, nos últimos anos de vida, parece ter passado do deísmo ao agnosticismo e chegado a duvidar da existência de Deus, sem no entanto jamais obter qualquer certeza a respeito.

Em seus últimos dias Ch. Darwin a todos recebia em seu convívio fossem clérigos, religiosos ou teóricos ateístas... Com uns rezava, em companhia de Emma, com outros ouvia, não poucas vezes ferozes preleções contra a fé religiosa ou mesmo favoráveis ao ateísmo, sem todavia jamais endossa-las formalmente e até exigir certo decoro ou respeito. A atitude muito parecia-se com a de um agnóstico, ao qual fugiam todas as certezas e ambas as metafísicas: A teísta e a ateística... Darwin jamais declarou estar convencido sobre a inexistência de Deus ou tentou demonstra-lo. Tampouco desejava polemizar fosse com os ateus ou com os religiosos... Sua atitude sabe a neutralidade ou isenção, bem a gosto da divisa: Ignorabimus et ignorabimus. Tal parece ter sido seu ponto de vista definitivo, no momento em que abandonou esta existência, portanto apresenta-lo como ateu ou ateu forte sabe a mentira grossa e cabeluda.

Religiosos e ateus sejam antes de tudo honestos, evitando atribuir suas opiniões aos outros ou o que é ainda pior atribuir-lhes uma concepção que julgam ser indigna, porque em ambos os casos vocês, falseando a realidade histórica - Em nome de seus queridos sistemas! -  é que se tornam indignos.


segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Porque sou metafísico...


Embora não tenha nada contra os ateus, especialmente aqueles que são oriundos de outro universo cultural ou conversos ao ateísmo, não partilho deste ponto de vista e já digo porque.

Impossível dissociar os diversos aspectos da realidade, que é orgânica ou integrada. Não podemos simplesmente declarar-nos ateus ou materialistas em metafísica ou teodiceia sem partir de pressupostos epistemológicos e tirar consequências no campo da Ética. Ora eu julgo tanto os tais pressupostos epistemológicos quanto as ilações Éticas como sumamente discutíveis senão problemáticas.

Como educador eu me preocupo antes de tudo com o problema do conhecimento humano i é com epistemologia e gnoseologia, em segundo lugar com o comportamento humano ou com a Ética. Certamente o tema de Deus vem em terceiro lugar, mas não o vejo desvinculado das questões principais e quanto penso em Filosofia penso num sistema orgânico, 'sistemático' rsrsrsrs, coerente e que tenha sentido. Minha perspectiva ou ponto de vista nada tem de pós moderno.

Fosse cético - Episteme - como Pirro, Timon ou Enesidemo e Hume enfim; ficaria em absoluto silêncio nada declinando sobre tais assuntos (cf Victor Brochard 'Céticos gregos'). Não poderia duvidar dos primeiros princípios e tecer juízos no campo da Filosofia.

Fosse empirista crasso ou meio cético como Kant ou Comte adotaria a solução de Huxley que é o agnosticismo, o qual afirma-se como inepto para decidir-se a respeito do tema da existência ou da inexistência de Deus a partir da experiencialidade pura e simples. A honestidade e coerência nesta postura. Suspensão de juízo quanto a tudo quanto possa estar além da pura e simples empiria. Nem negação, nem afirmação. Tal a postura de J S Mill e de H Spencer, dentre tantos.

Mas eu, seguindo a tradição humanista e otimista dos antigos gregos - temo que haja algo semelhante a pecado original ou agostinianismo em toda e qualquer epistemologia pessimista ou negativa, que nos remeta a uma antropologia negativa - sou pela validade da razão, da reflexão ou do raciocínio que esteja em íntima conexão com a empiria i é com a experiencialidade e que dela parta. Sou portanto, em matéria de conhecimento, 'dualista' cartesiano ou conceitualista, postulando ser ele um processo que envolve, num primeiro momento, os sentidos, a percepção ou a experiencialidade - e penso nossos sentidos como algo que informa e não como algo que engana ou distorce - e num segundo momento um processo reflexivo comum a todos os homens que produz conceitos; esta operação perceptiva racional capta e descreve objetivamente parte da realidade que nos envolve. Não a cria, descreve (realismo epistemológico).

Evidente que esta concepção tributária de Parmênides, Anaxágoras, Platão e Aristóteles, dentre outros, nos conduz a validade da metafísica, em que pese a metafísica racionalista anti racionalista (sic) do alemão Kant, o qual negou a capacidade natural da razão humana com o objetivo de exaltar a fé cega (fideismo) influenciado como era pela religião Luterana e pela epistemologia negativa e irracionalista luterânica, a qual reporta a Agostinho de Hipona. Kant foi o Filosofia portátil de Lutero e transplantou para o terreno da Filosofia um aspecto pessimista ou negativo de procedência religiosa, seja Luterana ou agostiniana como queiram. Os gregos naturalistas não conhecem qualquer limitação antropológica em termos de aquisição do conhecimento, o próprio Pirro, tomou sua tese ao budismo na ìndia enquanto acompanhava Alexandre. É paradoxal que a epistemologia empregada pelos ateus com o objetivo de remover o tema de Deus da Filosofia para a fé, seja de origem religiosa, o que em termos filosóficos implica contaminação, uma vez que a Filosofia é inteiramente distinta da religião, tomando por veículo a razão. A epistemologia fiel ao naturalismo, clássica não foge ao tema Deus i é a metafísica.

É verdade que Kant também tentou a um tempo corrigir Hume - salvando assim o conhecimento científico atinente aos fenômenos - e a um tempo dialogar com ele. Foi muito mal sucedidos em todos os sentidos e por isso após os delírios positivistas os pós modernos tornaram a Hume, chegando K Popper a reintroduzir sua perspectiva na Filosofia da ciência, resultando disto o triunfo do relativismo, do subjetivismo...

Seja como for, por mera conveniência, parte dos pensadores, apegaram-se a Kant como um Papa e a seus preconceitos anti metafísicos como a um dogma, o que até certo ponto corresponde a lei do menor esforço. Exige a metafísica segura, domínio de inumeros conceitos da mais alta complexidade: Axioma, princípio de identidade, princípio de causalidade, princípio de contradição, categorias, ato, potência, matéria, forma, etc o que exclui da reflexão os menos aptos ou esforçados i é os imbecis. Hoje todos podem discutir e opinar sobre qualquer coisa sem conhecimento de causa, e isto é fruto do irracionalismo reinante. É como a arte moderna, psicologia e sem regras, e sem normas e isenta de racionalidade - daí poesia sem rima e métrica, melodia sem composição e harmônia, pintura sem perspectiva, etc Tudo isto está inter relacionado e ligado ao irracionalismo. Que é a negação da objetividade das formas.

Ora eu me oponho a tudo isto e assumo-me metafísico, aderindo a metafísica teísta, em oposição a ateísta, por parecer-me mais consistente, coerente e conforme os princípios da racionais a que aludi. Cagando e andando para Kant, devo lembrar que seu pupilo Schopenhauer - o qual detestava o grande Hegel - definiu o homem como um ser metafísico que faz metafísica naturalmente, mesmo quando negam-na, como no caso dos ateus que ultrapassam os limites da demarcação empírica, julgando poder saber com certeza, o que segundo Kant, Comte e Huxley, esta para além do acesso dos sentidos e do conhecimento seguro. Mesmo após Schopenhauer diversos pensadores - como Lotze, Hartmann, Brentano, Scheller, etc continuaram a elaborar sistemas metafísicos nada desinteressantes. Foram continuados neste século por - James Jeans, Eddington, Samuel Alexander, Overstreet, Anscombe e sobretudo pelo brilhante A N Whitehead, filio-me a esta corrente cognominada panenteísta. Sou portanto panenteísta.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Seleções de artigos: Repto ao ateísmo > Em busca de um HUMANISMO ateu no plano da Ética

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E DARWIN NÃO ERA ATEU RSRSRSRSRSRSRS 


Manifesto é o defeito comum aos mortais e que consiste em amar os extremos e oscilar entre eles.

Assim enquanto alguns multiplicam deuses ao infinito outros negam que haja qualquer Deus.

Tais os politeístas, tais os ateus.

A principal diferença aqui é que os politeístas são mais discretos e comedidos enquanto que os ateus fazem grande bulha ou gala em torno de seu ponto de vista, encarando-o inclusive como sinônimo de magnitude intelectual.

Qual o filósofo que não seja ateu? Perguntam eles.

Ora bolas: Swiburn e dentre os falecidos Antony Flew, Thibon, Ricoeur, Ellul, Jaspers, Maritain, Marcel...

Mas qual o cientista que não seja ateu? Indagam.

Neil de Grace Tyson, Collins, e dentre os já falecidos Gould, Fermi, Lemaitrê, Einstein, Planck...

Mas Diderot, Voltaire, Rousseau, Galileu, etc não eram todos ateus???

De modo algum - Diderot, Voltaire, Rousseau era todos deístas. Spinosa panteísta. Galileu positivamente Católico.

Stalin este sim, era ateu ou melhor ateísta. Paul Pot também o era. E é claro o Marquês de Sade... Além de um grande número de nazistas alemães. E no entanto os ateus não fazem, a mínima questão de anuncia-lo para que todos saibam!

Mas será que os ateus não podem ter uma ética elevada?

Penso que isto seja coisa que não se discute.

Claro que pessoas ateias podem viver uma vida Ética, mormente quando foram criadas num ambiente religioso, teísta, deísta, etc Afinal á Ética é produto da cultura...

Raramente alguém desconstrói por completo sua Ética apenas por ter abraçado o ateísmo.

No fim das contas as pessoas que se converteram ao ateísmo continuam vivendo como sempre viveram, como espíritas, Católicas, Budistas, etc

Assim o que temos de investigar não é se existem bons ateus ou ateus 'éticos' mas se o ateísmo é capaz de produzir uma Ética sua que corresponda a nossas aspirações mais nobre e elevadas ou se o ateísmo pode dar suporte ao humanismo.

Caso em que temos de considerar as opiniões dos 'idiotas' do Dostoevsky, do Scheller, do Kant, do Locke, do Descartes, do Bacon e por ai afora...

Não pretendo ao menos num primeiro momento, entrar no mérito das tais provas clássicas a respeito da existência de Deus.

Mas questionar os ideólogos ateístas e perguntar-lhes sobre o que nos podem oferecer de concreto em termos de Ética, de comportamento, de ação, de princípios e valores, de bem e mal enfim.

É uma demanda muito importante e penso que deva ser satisfeita.

Caso neste domínio Deus seja necessário, então certamente precisará existir e então certamente existirá. Afinal o problema de nossa espécie e civilização é antes de tudo ético, não técnico. Técnica temos...

De fato vangloria-se o ateísmo, acompanhado pelo materialismo, de ter dado colossal impulso a ciência ou a técnica. Em que pese o fato de Darwin Newton não terem sido ateus e tampouco Kepler Da Vinci. Não perderei tempo malhando em ferro frio. Quem quiser constatar quão poucos ateus fizeram ciência remeto as obras de Poggendorf, ide a elas!

Quanto a ciência ou a técnica no entanto ousarei tecer uma observação ou melhor reproduzir uma - Discutível é o valor de uma ciência sem consciência. 
O espírito da frade acima - O qual faz positivista bater com a cabeça na parede - remonta ao grande Sócrates.

Ouso perguntar destarte: Que fez o ateísmo pela consciência do homem, com o intuito de eleva-la?

Eliminemos Deus do plano da Ética.

Podemos conceber qualquer tipo de lei universal e externa ao homem em seus domínios?

Existirá algum imperativo categórico que transcenda aos indivíduos?

Haverá algum critério objetivo em termos de bem e mal, vício ou virtude, crime ou santidade?

Temo que aqui a resposta possa ser apenas uma: Não.

Afinal como poderá haver lei se não há legislador algum?

E como poderá existir algo de externamente universal exceto em termos de materialidade?

Como poderá ser universal se é individual?

E como haveria de ser objetivo se restam apenas mentalidades separadas cada qual com sua subjetividade fabricando princípios e valores não só distintos uns dos outros mas até mesmo opostos???

Afinal sem Deus que elemento unificador resta em termos de Ética?

Sem Deus há nações, religiões, clubes, agremiações, indivíduos... cada qual com suas leis e lei alguma comum.

Excluída a existência do numinoso temos um multidão de seres, de pessoas, de indivíduos alienados uns dos outros.

Cada individuo é lei para si mesmo e nada para os demais.

Humanidade para além dos domínios da Biologia é coisa que não existe. Quebrou-se o espelho em milhões de fragmentos minúsculos. Em termos de idealidade estamos completamente isolados uns dos outros. Até podemos formar grupos porém jamais um grupo que englobe todos os seres humanos.

Em termos de Ética jamais haverá acordo, mas conflito aberto.

Por via alguma poderá fugir, o ateísmo, a uma solução individualista e relativista em termos de ética.

Tanto a noção de bem quanto a noção de mal é relativa ao individuo, tendo cada qual o direito líquido e certo de produzir a sua ética ou a sua moralidade em oposição a ética do rabanho...

Quando chegamos exatamente aqui, precisamente neste ponto o ateísta encara-me curiosamente e pergunta: Sim, mas qual é o problema? Perceba que o ateísmo é libertador!

Libertador???

Pois sim...

Perceba com Sartre como somos ilimitadamente livres para fazermos o que bem quisermos ou o que bem entendermos???

Qualquer coisa?

Digo, aquilo que você considerar bom.

Cada qual pode fazer aquilo que considera bom?

Exatamente.

Mas e se estiver equivocado?

Como poderá equivocar-se se é padrão de autoridade para si mesmo?

Neste caso sempre estará certo?

Ao mesmo para si.

Ótimo, e se por acaso considerar que o estupro seja bom, poderá neste caso estuprar? E se considerar que a tortura seja boa, poderá torturar? E se considerar o assassinato, o rouco, o engano... como coisas boas?

Julgo que não devamos fazer causar dano ou prejudicar outras pessoas.

Mas e se o julgar de modo diferente?

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Acaso sua opinião não é válida apenas para si mesmo?

Certamente...

Neste caso a opinião do assassino, do estuprador, do ladrão... também será válida para cada um deles e isto pelo simples fato de cada qual minimizar seus próprios crimes ou defeitos.

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Agora considere quais seriam os resultados caso semelhante teoria, sobre o direito de assassinar, torturar, estuprar, roubar, trair, etc fosse levada a sério pelos elementos de uma determinada Sociedade?

Imagine só com quanta alegria e contentamento seria a boa nova de Sartre recebida por todos os psicopatas e celerados que povoam o submundo da criminalidade???

De fato o ateísmo parece libertar algo que existe nos homens, mas não o homem mesmo.

Que o homem tenha direito de conquistar seu espaço, de realizar-se, de afirmar-se enquanto pessoa; longe de mim negar. Que seja livre e que tenha direitos essenciais e objetivamente fixados, e inalienáveis, digo a mesma coisa...

E no entanto se este homem compreender que sua liberdade implica - para ser plena ou absoluta -suprimir as liberdades alheias ou rivais?

E se este homem acreditar que tem o direito de abater os demais seres humanos, de domina-los, de subjuga-los, de oprimi-los, de escraviza-los em benefício próprio?

E caso este homem esteja persuadido de que os demais sendo-lhe inferiores não possuem direito algum?

E se este homem pensar que pode matar, torturar, estuprar, roubar e enganar impunemente compreendendo que tais ações criminosas para ele constituem um direito???

Você continuara dizendo que a falta de um Deus, o árbitro supremo pertence a ele, enquanto indivíduo???

Bela doutrina esta do individualismo especialmente quando posta no acesso de tarados, psicopatas ou de pessoas com instintos perversos; as quais bem poderiam vir a perpetrar tais ações conscientemente e a justifica-las metafisicamente em nossos tribunais apelando a 'benção' da liberdade, da liberdade ilimitada e absoluta é claro.

Claro que diante disto você ateu procurará, e não duvido apenas sorrio, reformular, reformar, reeditar ou colorir a sua doutrina ética, polindo-lhe as arestas (Mas a que custo).

Não é coisa nova.

Também J S Mill homem genial e de convicções agnósticas (Sequer era ateu!) consagrou seu engenho ao polimento da doutrina pragmática (formulada pelo deísta Benthan) buscando torna-la mais humana e aceitável. Afinal era necessário estabelecer que satisfação, prazer ou felicidade deveria prevalecer... E lá vai nosso positivista genial, tomar empréstimos logo a quem? Aos odiados essencialistas Sócrates, Platão, Aristóteles, Jesus, etc os quais eram igualmente deístas ou religiosos declarados.

Que resulta disto, que sai da forja de Mill?

Segundo o pensador inglês o que deveria prevalecer - Veja bem! - era o máximo grau de felicidade estendido ao máximo número possível de pessoas possível, seja a nação ou a humanidade. Quem não percebe aqui que nosso homem avança já pelo terreno do personalismo ou mesmo do socialismo? Formulando que a felicidade geral da nação deve prevalecer face ao ideal de felicidade traçada por um indivíduo? Sacrifica nosso autor o idolatrado individualismo ao pragmatismo imprimindo-lhe uma conotação social...

Mas isto não será excelente?

E no entanto tem pés de barro...

E por que?

Porque quando Sócrates, Platão, Aristóteles, Sófocles, Jesus e outros mestres dos tempos passados afirmavam o primado já da pessoa, já da Sociedade, cada qual em seu espaço; afirmavam-no em nome de um Legislador supremo, e portanto enquanto algo essencial, universal, objetivo e imutável; de modo algum como algo relativo e questionável. Era algo que até podiam ser discutido sobriamente como pessoas de boa fé, mas que no fim das contas deveria ser aceito sob pena de determinados prejuízos espirituais...

Queremos dizer que a Ética essencialista podia ser afirmada e imposta face a todos os homens e culturas em nome de um poder Supremo, e isto a ponto de exigir submissão e ser capaz de controlar os caracteres mais difíceis, obstinados e problemáticos, com raras exceções. Tratava-se aqui de um princípio interno, que se introjetado com sucesso exigia fidelidade e auto controle, o que vai muito além da ação militar ou policial i é duma coerção externa.

As pessoas não deixavam de matar por temerem a prisão, mas por temerem sansões e punições espirituais ou por temerem poluir a si mesmas e grande coisa é temer violar uma lei divina e contaminar a consciência. Se o homem estiver persuadido de que as coisas funcionam assim certamente buscara controlar a si mesmo.

Naturalmente que há o outro lado da moeda... E que como tudo quanto é humano, esta ética possa sofrer abuso e grave abuso, degenerando numa moral judaizante, equivocada, maniqueista, puritana, repressora.. Com as imagens danosas e prejudiciais do inferno, dos castigos eternos, do fogo, etc e a decorrente elaboração de complexos, traumas, bloqueios, etc E é claro que temos de reformula-la numa perspectiva verdadeiramente ética e humanista (que é a do Evangelho) considerando Freud e seus colaboradores...

O abuso no entanto nem tolhe o uso nem torna a coisa abusada desprezível em si mesma.

Consideremos então se é possível recuperar o essencialismo ético, recolocando-o nos trilhos indicados por Jesus ou pelos antigos mestres gregos, como Aristóteles.

Mesmo porque, sempre que Mill afirmar sua teoria Ética em seu próprio nome, como J S Mill qualquer individuo sempre poderá discordar dele não? Acaso discordar não é direito líquido e certo do homem face aos juízos, opiniões ou teorias formuladas por outro homem?

Neste caso qualquer degenerado, tarado, psicopata poderia encarar o pensador inglês e argumentar: Compreendo perfeitamente mas julgo ou continuo julgando que as aspirações do indivíduo são tudo e que devam prevalecer sempre face a ideia de 'bem estar geral' ou social formulado por você?

Mas quem é que haverá de discordar de J S Mill, quem discordará??? Antes dele Max Stirner e após ele Ayn Rand como imensa horda de seguidores, todos individualistas. E ciosos quanto a suas dignidades individuais.

Tal seu caso. Você até poderá declarar pomposamente - E nem sei com base em que... - que o 'Direito de um termina onde começa o direito de outro'. Trata-se certamente de uma frase bastante bela e diria essencialmente verdadeira. No entanto como passará aos olhos do outro como formulação puramente humana ou opinião individual, ele sempre poderá dar com os ombros (A pretexto de qualquer coisa) e declarar: Compreendo, mas discordo e opino que...

Você poderá teimar obstinadamente e declarar em seu próprio nome que nós seres humanos devemos nos identificar uns com os outros tendo em vista a similaridade de condição. Assim se o outro ao ser ferido sofre e não gostaríamos de ser feridos, devemos nos abster de ferir! Mais se ao ser enganado o outro sofre devemos revelar-lhe a verdade! Não, não devemos fazer ao outro o que não queremos que façam a nós; melhor ainda - Façamos ao outro tudo quanto aspiramos que nos faça! Absolutamente nobre, mas... Mesmo assim... Assistiria a qualquer individuo o direito líquido e certo de dizer que não esta de acordo, que não concorda, que não aceita e que tudo isto não passa de besteira...

E que outro indivíduo estaria acima dele? Que autoridade superior seria capaz de convence-lo? Mas... Entre homens livres não há autoridade superior no plano da imanência, e tampouco Deus. Logo, a qualquer um é defeso manter sua opinião!

Até posso ver e antever a ideia que lhe passa pela cabeça:

Como dez cabeças pensam mais do que uma, deve o individuo submeter - Ao menos quanto as coisas comuns - suas decisões a sansão da sociedade em que vive (Seja cidade, província, nação ou país), especialmente numa perspectiva democrática e conformar-se com o veredito comum, o veredito da lei.

Eis o que dizem e declaram os juristas ateus, materialistas e positivistas - Kelsen, Alf Ross, etc - alegando que as leis formuladas pelo Estado devam ser sempre acatadas não em nome de uma Lei natural, a qual não existe (Não pode existir Lei natural sem que haja um Deus legislador!), mas enquanto ato positivo realizado pelo corpo social, ou seja, enquanto algo formalmente autoritativo.

Aqui passamos de um extremo ao outro.

Pois face a bela solução do direito puro ou positivo, alias encarado como algo supra social ou neutro (!!!) somem-se tanto o individuo com suas pretensões toscas quanto a pessoa com seus direitos inalienáveis engolidos pelo estado. Pelo que chegamos a mais vil estatolatria, encarando o estado ou o parlamento como um organismo divino que jamais é capaz de errar!

E no entanto este mesmo estado - e numa perspectiva democrática, não totalitária - decreta que um Sócrates beba cicuta e que um Jesus seja crucificado. Aplaudamos!!!

Que dizer então sobre os estados totalitários governados por um Hitler, por um Stalin ou por um Bush??? Obedecer sem questionar a instância legislativa superior, eis a norma, regra e lei. Desobediência civil ou resistência nem pensar, afinal quem é ou o que é a pessoa humana face ao novo legislador supremo dos 'outros' neo ateus, o Estado???

Negada uma onipotência transcendente temos duas opções apenas: Indivíduos pretensiosamente onipotentes como Ed Geyn ou um estado onipotente nos termos da Alemanha Nazista ou da Inglaterra absolutista dos Tudors... Tais as opções éticas dadas aos ateus ou fornecidas pelo ateísmo seguido numa linha escolástica de coerência.

Afinal no fim das contas o significado não é dado pelo que você formula - E você até pode formular conceitos bastante nobres e elevados, por que não? - e sim por quem ou em nome de quem a tese é formulada. Pois caso tenha sido formulada por você individuo, sempre poderá ser negada! Outro porém será sentido do discurso caso apresentado em nome de um princípio supremo como a consciência Universal ou a alma do mundo!

Percebem como Hamurabi, Manu, Tages, Licurgo, Labarna, Numa, o suposto Moisés e até Maomé quando impuseram seus códigos legais em nome de seus deuses???

Quem é o homem ou o indivíduo para que legisle face aos demais exceto se tem força para coagir e dominar?

Qual o estado ou grupo social que tomando uma decisão qualquer sejam impermeável ao erro?

Assim sua solução extremista e radical, de apelar ao estado, sequer abalará os paladinos do individualismo, os quais com boas razões apresentarão os pecados cometidos pelo Estado: Os campos de concentração, os expurgos, os holomodores, os campos de cultivo, as invasões e guerras imperialistas, os julgamentos corrompidos (Como o de Sacco Vanzetti) etc. Lançarão os crimes deste Leviatã em face de seus servos, para em seguida darem com os ombros e declarar: Até compreendo seu ponto de vista, mas... Como individuo livre que sou, discordo e sustento a tese oposta: A liberdade do individuo é ilimitada, absoluta, total; podendo ele fazer tudo quanto desejar ou o que bem quiser!

Agora aprecie a derradeira pedra adicionada a construção pelo francês Ch Foulcault: Com que direito internamos nossos psicopatas e histéricos em clínicas e hospitais, afinal de contas, quem sabe se no fundo, no fundo tudo isto não passa de um controle político tendo em vista a erradicação dos elementos questionadores e inconformados da Sociedade??? Enfim os verdadeiros gênios acham-se em nossos presídios psiquiátricos após terem queimado, esquartejado, torturado, estuprado, etc no exercício de suas liberdades. Tudo isto não nos faz lembrar as teorias de Raskolnicoff sobre o direito do homem superior fazer tudo quanto quer, inclusive assassinar? Obviamente que o critério de genialidade - Esta é do policial Porfírio - é individual, logo...

Observe o leitor amigo a que extremos de moralidade chegaram os ateus! Uns sustentando a onipotência da Sociedade ou a estatolatria, e consequentemente eliminando a razão, a livre vontade, a consciência e a pessoa! E outros, situados no extremo oposto, forjando opiniões a respeito da liberdade dos alienados e declarando que não temos o menor direito de prende-los! Resta-nos esclarecer se podemos prender os verdadeiros criminosos, i é, os assassinos, os torturadores, os estupradores, os fraudulentos, etc???

Admitidos os pressupostos da ética ateia, segundo o qual o individuo é lei suprema para si mesmo, não; exceto se os convencermos de que cometeram crimes e de que devam arrepender-se. Do contrário se afirmam obstinadamente que cometeram ações lícitas, discutir o que, se o homem é a lei suprema de si mesmo e as leis sempre podem estar equivocadas não passando de preconceitos impostos pelo poder??? Claro que dispondo do poder sempre poderemos prender e punir tais sujeitos! Mas e convence-los de que cometeram um crime ou uma monstruosidade, conseguiremos convence-los partindo do individualismo??? Temo que não... O sujeito continuará sentindo-se lesado em seus direitos e oprimido??? E é torturador, estuprador, assassino, ladrão... Feito vítima por obra e graça da doutrina individualista...

Afinal, do ponto de vista do individualismo a única diferença considerável se dá no sentido de quem possui a força ou tem as armas. Assim os criminosos são apenas arbitrariamente declarados criminosos, quanto na verdade limitaram-se a agir livremente ou no exercício da tão afamada liberdade! Afinal, se Deus inexiste a liberdade é tudo... Se Deus não existe absolutamente tudo me é permitido - E assim o é! Explica-me como você, homem igual a mim, pode decidir em meu lugar e regular minha vida? Você é lei apenas para si e não para mim... Eis os tarados e criminosos convertidos em mártires face a um poder ilegítimo e arbitrário!

Se de fato há uma ética, é como já se disse sem sansão. Coisa de contrato social que possa ser revisto. Adere quem quer... E quem não quer aderir mas continuar prevaricando e acometendo os semelhantes?

Ah Madame Holland foste sábia quando exclamaste: Liberdade, liberdade; quantos crimes se cometem em teu nome!

E no entanto os neo ateus - dominados pelos elementos da cultura - ao menos e suma maior parte, não fazem escolástica a partir de seus princípios como a liberdade individual ilimitada. Apenas Sartre, Camus, e alguns outros fizeram alguns ensaios difíceis de serem lidos, como aquele da peça em que o filho degola serenamente a própria mãe e depois, já não me recordo bem, senta-se na poltrona da sala para fumar ou beber, alguma coisa assim.

Todavia no exato momento em que romperem com a herança negativa do positivismo (em torno da ética) e aceitarem o desafio de elaborar uma Ética propriamente sua, veremos o que resultará disto! E como saíra essa nova ética sem Deus!

Pois no momento exato em que reconhecermos ao individuo o direito de causar dano ao semelhante ou de cometer verdadeiros crimes em nome da liberdade, a sociedade estará por um fio e a civilização definitivamente condenada. Cindida a humanidade em dois campos, teremos a um lado o pesadelo de Hobbes i é a luta do homem (convertido em lobo) contra o homem nos termos de uma guerra total; e a outro o sonho de Hobbes i é o domínio absoluto do Leviatã.

Digo por fim, a guiza de conclusão, que semelhante dilema - terrível - só será capaz de ser superado a partir do velho conceito de Lei natural, essencial, universal, superior ao homem e imutável; além de racional. Recuperamos nosso elemento unificador perdido e iniciamos um diálogo prenhe de possibilidades ou caminhamos para o caos! Estabeleceremos novamente o necessário equilíbrio entre as prerrogativas e exigências da pessoa e as exigências da Sociedade ou sucumbiremos enquanto projeto de civilização, o que será imensamente trágico.

Temos de retornar imediatamente aos antigos gregos, aos socráticos, a Aristóteles, Jesus, aos salmanticenses - Vitória, Bañez, Cano, Soto, Suarez... - antes que seja tarde demais.

No entanto caso não exista um Deus...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Intelectualidade e ateísmo, uma resposta definitiva






Certos professores há que em seus cursos asseveram ensinam a repetem, entusiasticamente, que a maior parte da intelectualidade - em termos de cientistas e filósofos - teria professado o ateísmo ou sido ateia. É coisa que se ouve sair dos lábios de qualquer sectário ateísta... E que as custas de ser repetida pelos prosélitos - mal informados ou intencionados - acabo se convertendo numa das tão decantadas 'verdades do tempo'. Particularmente os pensadores mais eminentes e brilhantes teriam sido ateus em sua quase que totalidade.

É o que se ouve, o que se repete, o que se crê...

Tal a fé.

Como já tivemos ocasião de abordar o tema em nosso pequeno cenáculo, aqui em casa, limitar-nos-emos a publicar o que já foi exaustivamente estudado e discutido por nós e pelos comensais.

E para tanto principiamos pela Bibliografia: Manual biográfico literários sobre as ciências exatas e naturais. Johann Christian Poggendorff 1863

A respeito desta obra faz-se mister declarar que constitui uma verdadeira Enciclopédia destinada imortalizar tantos quantos dedicaram-se a pesquisa científica (com exclusão das ciências humanas) até meados de 1860, transcrevendo suas biografias e abordando diversos aspectos de sua vidas, inclusive os pensamentos religiosos. Daí sua relevância neste campo. E já adianto que seu trabalho foi continuado - por outros uma vez que J C P faleceu em 1877 - até cerca de 1900 (volume quarto). Enfim não há como abordar científica e honestamente o tema da religiosidade ou do suposto ateísmo dos cientistas sem se recorrer a esta fonte que é sob diversos aspectos primária e essencial.

Quanto aos filósofos e suas crenças há o livrinho de Huberto Rohden 'Tu és o Cristo filho do Deus vivo" Vozes 1918

Dito isto passemos ao 'problema'


Buscando uma definição para ateísmo


Cujo primeiro aspecto é a irredutibilidade em termos de definição.

Sócrates dissera certa vez: Se aspiras dialogar comigo define os teus conceitos.

Assim se vamos debater em torno do ateísmo a primeira exigência a ser feita é que haja acordo a respeito do que seja ateísmo. Do contrário estaremos a dialogar inutilmente a respeito de 'fenômenos' diferentes...

E no entanto quanto a este aspecto ateísmo e judaísmo caminham de mãos dadas uma vez quer também o judaísmo recusa-se a um definição clara e objetiva.

Perguntas a um judeu? Que é judaísmo? E ele te responde: Crença, fé, religião; excluindo os ateus, incrédulos, budistas, etc

Perguntas a outro judeu: Que é judaísmo? E ele te responde: Judaísmo é povo, é a nação composta pelos descendentes do patriarca Abraão, e arrola em seu número: Ateus, materialistas, irreligiosos, budistas, etc

Segundo a primeira definição Nordau, Marx, Einstein, Asimov, Sagan, etc não são judeus. Já segundo a outra definição continuam sendo contados como judeus. De modo que no fim das contas serão milhões de judeus a menos ou a mais...

E qualquer trânsfuga religioso, relativista e mal intencionado sempre poderá alegar que a religião ou a fé judaica produziu uma 'elite' de intelectuais!

Outra não é a postura - sinuosa - do protestantismo. Quando o protestantismo recebe críticas por parte da Ortodoxia, do papismo, do espiritismo e de quaisquer outras religiões no sentido de ter promovido a incredulidade na Europa contemporânea, seus defensores negam veementemente que os protestantes 'liberais' - inda que pastores como Collani - sejam protestantes. Como negam veementemente que os unitários ou arianos (Testemunhas de Jeová) sejam protestantes... No entanto quando os mesmos críticos ou os incrédulos alegam que o protestantismo (claro que estamos nos referindo ao protestantismo 'ortodoxo' seja batista ou calvinista, e essencialmente 'biblicista') foi bastante pobre em termos de ciência, os apologistas protestantes não exitam arrolar Sir Isaac Newton, - que era unitário ou ariano - ou Sabatier que era liberal, isto quando não têm o desplante de arrolar os Bispos (sic) da Igreja Episcopal.

Na ora de defender a fé os paladinos da reforma lançam tudo que é liberal ou incrédulo (ao menos com relação a totalidade da Bíblia) ou episcopal para fora da arca, o que por sinal é razoável. No entanto quanto se trata de compor 'Apologias' em defesa do protestantismo são quase sempre incluídos. É quando Hanack vira 'cristão piedoso'...

Tal o judaísmo, tal o protestantismo com suas divagações em torno de definição.

Tal o ateísmo.

Pois de modo geral na ora de cooptar prosélitos ou de fazer propaganda os ateus fogem a definição formal e objetiva de ateísmo enquanto 'Convicção a respeito da inexistência de Deus' ou ainda capacidade de demonstrar que Deus não existe, ou ainda como pura e simples negação de Deus, e põem-se a enfiar na 'igrejola' aqueles que apenas duvidam (tanto do ateísmo quanto do teísmo) ou consideram a questão inacessível ao conhecimento humano, assim os céticos, abstencionistas ou agnósticos de Comte. E como não param por ai, incluem ainda os agnósticos ingleses de Huxley os quais sequer - como Spencer e Stuart Mill cujas obras contém diversas alusões a um ser 'INCOGNOSCÍVEL' - ousam por em dúvida a existência de um Supremo Ser mas apenas sua definição ou cognoscibilidade a exemplo dos antigos gregos, e seguindo por este caminho 'largo e fácil' tantos quantos nas Sociedades mais avançadas do Planeta, como a Escandinávia, a Holanda, a Bélgica, a Suíça, os antigos países comunistas, etc simplesmente não têm qualquer vínculo religioso ou fé. Ficando os incrédulos ou indiferentes e matéria de religião alistados como 'ateus' mesmo quando as mesmas pesquisas explicitam, logo na linha abaixo, que essas pessoas admitem a existência de uma energia ou forma de consciência supranatural ou mesmo a existência de um Deus (!!!)

Diante desta manobra ou melhor farra, assiste-nos o pleno direito de perguntar onde é que está a honestidade ou melhor ainda, onde esta a maravilhosa Ética ateística que os leva inclusive a denunciar tudo quando seja religioso como desonesto ou falsificador???

Cade a seriedade, o espírito científico, a probidade, a moral, a Ética dos nossos apóstolos ateísticos???

Sim porque nesta mistura heteróclita e esdrúxula de conceitos que se opõem e excluem mutuamente como:
  • Deísmo
  • Agnosticismo
  • Indiferentismo religioso
  • Espiritualidade não institucional

Tudo quanto posso ver é safadeza mesmo.

No entanto como alguns ateus são mesmo tão fanáticos e obstinados quanto seus desafetos religiosos vou soletrar:

Os agnósticos ingleses - ou ao menos parte deles - que admitem a existência do Incognoscível, bem como aquelas populações das 'repúblicas' ateísticas que admitem a existência de um Deus não revelado ou de uma energia ou ainda de algo sagrado, merecem, ser classificados como deístas.

Como os deístas afirmam a existência de algo que transcende a vida e a matéria, é evidente que estão em oposição aos ateus que negam terminantemente a existência de qualquer coisa nesse sentido. Aqui a exclusão é manifesta uma vez que a afirmação e a negação incidem sobre o mesmo objeto - qualquer tipo de concepção que remeta a Deus.

Os agnósticos franceses ou positivistas da Escola de Comte e Litreé repetiram a exaustão que não eram ateus pelo simples fato de que o ateu - como o teísta - cuida saber a respeito de algo que ele agnóstico afirma nada saber. O agnóstico ao contrário do ateu e do teísta não assume posição a respeito do assunto, não afirma nem nega, abstém-se de formular qualquer juízo metafísico pois como I kant e D Hume não admite a validade desde tipo de conhecimento. Tanto que os agnósticos (aquele que não conhece) partindo de seu ceticismo inveterado classifica o ateísta como metafísico.

Filosoficamente, do ponto de vista da episteme, são posicionamentos inconciliáveis ou paradoxais e podemos asseverar que quando um Filósofo ou pensador define-se como agnóstico, esta querendo dizer em alto e bom som que não esta convencido a respeito da validade do ateísmo e que dele dúvida tanto quanto dúvida do teísmo.

Aos ateus, ainda aqui acompanhando as diatribes dos pastores - quando tentam explicar porque o pagador de dízimos não obteve o milagres alegando que não tinha fé, que é um pecador, etc - resta o péssimo recurso de apresentar os agnósticos como 'ateus fracos', 'ateus medrosos', 'ateus tímidos', 'ateus enrustidos', pois ignorando, como toscos que são, o problema das origens do conhecimento, da gnoseologia, da episteme, da metafisica, etc não podem mesmo admitir que hajam agnósticos sinceros. Daí embrenharem-se pela via do subjetivismo crasso elaborando juízos de valor tão miseráveis em torno da intencionalidade e da sinceridade alheia. Porque recusam-se a assinar a fórmula de fé ateística todo agnóstico fica sendo fracote, tímido, covarde, medroso, etc

Alias nestes tristes tempos em que ateísmo virou moda entre as cabecinhas sem conteúdo que sem contentam em repetir as abobrinhas cozidas ou fritadas pelo Bernacchi e temperadas pelo Oiced Mocam, o fato de boa parte dos intelectuais recusarem-se a referendar o novo credo parece-nos sintomático. Afinal vivemos em tempos de liberdade não é mesmo??? E não há duzentos anos, sob o jugo infame das Inquisições... Ou sob o controle dos déspotas e tiranos.

Medo do que? Receio do que? Que tipo de temor respirariam os intelectuais agnósticos ou 'ateus enrustidos' numa sociedade democrática ou liberal?

Acaso os comunistas não alardeavam seu ateísmo e seu materialismo há cem ou cinquenta anos passados sem que qualquer um deles fosse acusado de 'ateísmo', mas de sedição, pelo simples fato de aspirarem alterar a ordem política e econômica vigente???

Quantos processos ou autor de fé anti ateístas foram realizados no Ocidente ao cabo do século XX???

Pelo modo com que os ateus expressam-se diríamos estar em Meca, Medina, Riad, ou em qualquer uma dessas maravilhosas sociedades muçulmanas em que os ateus são pura e simplesmente executados ou decapitados em obediências as leis do Corão ou melhor aos ditames da Sharia. E eu nem observo qualquer esforço por parte do apostolado ateístico de enviar missionários aos países muçulmanos com o objetivo de conquista-los a esta fé machista, adultista, homofóbica, escravista, etc que tantos males tem causado a pobre humanidade!

Por que raios precisam os ateus esconder-se ou ocultarem-se - com a máscara do agnosticismo - numa Sociedade livre? Será que lhes falta coragem (a essa imensa multidão que os ateus classificam como medrosa ou fingida) para afrontar uma simples crítica ou cara feia??? Admitindo que todos os agnósticos seja mesmo ateus ocultos ou disfarçados seríamos obrigados a concluir pela incapacidade crônica do ateísmo em comunicar coragem ou em despertar compromisso entre seus profitentes... Imagina então se como os antigos Cristãos ou as minorias Cristãs nas sociedades islâmicas essa manada de ateus fracos corre-se perigo de vida??? Haveriam de enfrentar a morte e de morrer por sua fé uma vez que não são capazes de enfrentar as críticas de uma Sociedade liberal?

Ao que parece não é o ateísmo apto para despertar aquela mesma firmeza com que os mártires cristãos souberam enfrentar o jugo do império romano.

Portanto como esperam pode enfrentar e resistir heroicamente a jihad islâmica que já se alevanta nos confins da Europa e ameaça submergir e destruir o berço de nossa civilização (Grécia e Roma, não Inglaterra!)?

Diante da facilidade e rapidez com que os ateus mais atilados classificam seus 'irmãos' e correligionários como 'medrosos' em tempos de democracia só nos resta concluir com o Papa ateísta Richard Dawkins que apenas o Cristianismo ou um retorno decidido a fé ancestral poderá fazer frente a ameaça do islã e salvar a Europa. Não fui em quem o disse querido leitor mas o autor de "Deus, um delírio', os créditos são dele, e a reflexão fica por sua conta...

Continua 

domingo, 15 de janeiro de 2017

Problemas de ateísmo e Ética

Não é propósito deste Blog atacar quaisquer pessoas ou mesmo ideologias e crenças. Pois embora Sam Harris tenha apresentado o ateísmo como fato consumado, ainda concebemos fatos como eventos ou fenômenos acessíveis aos sentidos ou imediatamente perceptíveis.

Tal o caso da última chuva, vi-mo-la, ouvi-mo-la e toca-mo-la inclusive. No entanto jamais vimos, ouvimos ou tocamos ou ateísmo.

Salvo engano nosso não é fenômeno físico, material e perceptível como supõem o sr Harris mas fenômeno interno, imaterial, psicológico ou mental, forjado ou concebido pela mente humana como qualquer crença ou ideologia. Em termos de essência entre ateísmo ou teísmo não há qualquer diferença... É tudo construção teórica ou visão de mundo com maior ou menor fundamento.

Caso nossos amigos ateus venham a discordar de nosso 'juízo valorativo' adiantem-se e apresentem-nos o peso, medida, densidade, extensão, etc do 'fato' ateu ou da 'coisa' ateia.

Feita esta ressalva - Pois ateus há que se julgam tão 'perseguidos' quanto nossos neuróticos pentecostais...  - necessária principio declarando que o único propósito deste artigo é questionar. Os ateus ou melhor os ateístas não apreciam questionar todas as religiões ou mesmo o simples deísmo? Bebam pois a mesma poção que não lhes fará mal algum! Ademais todo e qualquer sistema depura-se e torna-se mais consistente na medida em que fica exposto as críticas de seus contrários, os quais no fim das contas prestam-lhe bons serviços.

De modo que se os apóstolos do ateísmo congregados numa nova Agora, perguntassem que pena mereço eu por questiona-los, não hesitaria reproduzir as palavras do divino Sócrates: Ser alimentado graciosamente no pritaneu! Calma, bem sei que não existe mais pritaneu, mas bem que os ateístas poderiam fornecer-me cestas básicas gratuitamente por no mínimo um ano.

Alias o questionamento me interessa pelo simples fato de ser mestre ou professor de Ética e interessar-me sobre o tema ou assunto da vida Ética. Tema por sinal exaustivamente abordado e explorado por filósofos religiosos, deístas, agnósticos, materialistas e ateus desde o décimo nono século.

De minha parte, tal e qual I Kant, na "Razão prática" considero absolutamente normal que qualquer sistema metafísico (ateísmo e teísmo/deísmo) ou não (agnosticismo e materialismo) seja 'posto na parede' e irremissivelmente julgado e sentenciado tendo em vista os princípios e valores que inspira.

Claro que estou cônscio e até farto de ouvir a resposta fornecida pelo senso comum ateístico, segundo a qual há ateus bons como há religiosos, inclusive Cristãos malvados.

E é assim, com o afirmar que há ateus bons e religiosos maus que muitos dão a questão por encerrada.

Quanto a nós que diremos?

Negaremos a assertativa acima e diremos que todos os ateus - sem exceção - são maus e todos os religiosos bons?

Nada mais tolo e pífio do que negar a realidade.

Eu poderia negar, gritar, bater os pezinhos, etc

E vós brindar-me com exemplo semelhante ao de Unamuno, em seu São Manuel Bueno mártir.
Ou o que é ainda pior lançar-me em face os nomes horrendos de um Torquemada, de um Calvino, de um Malacraia, de um Felicianus, de um Cunha, de um Edir Macedo, de um RR Soares, de um Valdomiro, de um G W Bush, etc

E eu teria de calar-me envergonhado.

Péssimo Cristão é coisa que não falta ou até sobeja.

E certamente há ateu que seja bom no mundo felizmente.

Logo...

Logo o que?

Logo a conversa esta encerrada. Pois a ideia de um Deus nada tem a ver com o bem e o mal, o vício e a virtude, o certo e o errado, com a Ética enfim!

Errado, tem muito a ver ou melhor tem tudo a ver.

Mas não acabas de dizer que há ateus bons e religiosos canalhas?

Exatamente.

Então que raios deus ou cristo tem a ver com a 'moralidade'?

Tudo quando eu digo é que devemos problematizar a situação, questionar e investigar mais a fundo e quando digo isto, como culturalista que sou, penso que devamos examinar antes de tudo a questão da cultura.

E já adianto-me e digo que tal e qual os marxistas e anarquistas, os ateus relacionados com os mais variados modelos sociais e políticos, inclusive os liberais (que se julgam completamente distintos), sofrem do mesmo 'mal' ignorando por assim dizer o tema da dinâmica da cultura, em termos de produção, afirmação, declínio, assimilação, etc

É vezo comum a nosso tempo e aos religiosos fanáticos por sinal, os quais votam ódio imenso ao tema da cultura. Isto porque é da cultura, considerada em sua dinâmica, demolir todos os ídolos, sejam os 'cristãos', sectários, marxistas, anarquistas, liberais ou ateísticos... E vão parar todos na mesma cloaca dos 'mitos'.

Assim o primeiro fator que devemos considerar é que via de regra, as pessoas são incoerentes, especialmente as menos instruídas.

De fato é a incoerência problema universal e bastante sério.

Assim os 'católicos' afrontados em comício fascista por Unamuno (1936) o qual mesmo sendo incrédulo, soube opor a seus instintos vis e homicidas as mesmas palavras do Evangelho lidas em cada missa, ao invés de terem chorado e se lançado ao solo pedindo penitência, apontaram suas pistolas contra aquele que havia se limitado a repetir as palavras de Jesus Cristo...

Assim os anarquistas que em nome da liberdade destruíram os símbolos religiosos contra a vontade da população rural, alegando que eram 'símbolos de opressão'... E com maior opressão eliminavam os tais símbolos de opressão atraindo contra si mesmos o ódio das massas.

Assim os comunistas russos, russificando o marxismo e contento a tal 'Revolução' em que pese as advertências de Trotsky

Assim a população budista do Japão endossando a febre do consumo e a cultura produzida por ela...

Assim os 'liberais' abatendo e traindo o liberalismo político ou a democracia em nome dos interesses do mercado ou do liberalismo econômico.

As incoerências multiplicam-se por este mundo afora.

Cristãos há que estão plenamente cônscios a respeito da Ética do Evangelho, mas recusam-se a vive-la...  Claro que eles deveriam ser advertidos e submetidos a regra da penitência, há quem lute por isso. Também o Cristianismo precisa passar por uma purificação ética e livrar-se de tantos quantos encaram a religião como simples questão de fé.

Este enfraquecimento da consciência Cristã remonta ao alemão Martinho Lutero patriarca do solifideismo. Felizmente não somos luteranos ou protestantes.

Outro grande fator que devemos considerar é a ignorância e a falta de instrução.

Assim como há ateu sem embasamento teórico algum por jamais terem lido o Faure, o Stirner, o Feuerbach, o Duhring, o Freud, o Hitchens, o Dennet, o Sam Harris ou o Dawkins; há muito Cristão nominal que jamais leu o Evangelho de Cristo ou o livrinho de catecismo.

E como a comunidade Cristã é muito maios (100 vezes mais) do que a comunidade ateística, há de se convir que o número de iletrados e analfabetos seja muito maior. O que nos leva a um problema educativo, a Igreja tem tido dificuldade para educar toda essa gente, pois trata-se de um esforço colossal. Então temos de considerar que parte dos Cristãos forma como que uma massa inconsciente em termos de doutrina.

Há enfim aqueles que são além de letrados e instruídos, resistentes! Há ainda quem professe o Cristianismo externamente apenas e que o pratique mecanicamente i é indo as missas, rezando, etc Mas por mera questão de 'aparência' ou oportunismos, agradar a sociedade, garantir o emprego, manter a paz familiar, conservar os amigos, etc Essas pessoas sabem ler, sabem o que deveriam fazer... Mas não creem.

Mais um problema a ser corrigido pela penitência eclesiástica. Lamentavelmente a igreja, infectada pelos ensinamentos de Lutero e da pseudo reforma insiste mais a respeito da fé e faz vistas grossas a prática das virtudes Cristãs. A virtude para aquele que aderiu a fé Cristã já não é questão de liberdade mas de estrito dever. Aquele que recusa-se a cumprir concretamente com seu dever deveria ser excomungado.

Temos enfim todo um problema de educação e de disciplina.

No entanto quando tais problemas são vencidos, o Evangelho é lido, conhecido e meditado; a tradição estudada, a lição do catecismo assimilada, etc Temos o católico consciente e coerente e o resultado disto foi o aflorar da espiritualidade franciscana no século XIII e do Catolicismo social no século XIX, e da 'Teologia da libertação' no século XX.

E desta consciência evangélica surge um São João de Deus, um São Camilo de Lelis, um São José Cotolengo, um São João Bap de la Salle, um São João Bosco, um F Ozanam, um Pe Bento, um Pe Ibiapina, uma Irmã Dulce, uma Madre Tereza, um Abbe Epeé, um Pe Gapon, um Pe Lebret, um Abbe Pierre, um Pe Julio Lancelotti, um Alexandre Schmorel, uma madre Maria Skobtzoff, um Pe Maximiniano Kolbe, uma Anália Franco, um Von Keteller, um Lammenais, um De Mun, um Meignan, um La Tuor du Pin, um Wietling, uma Simone Weil, uma Mother Jones, uma Dorothy Day e tantos e tantos homens e mulheres comprometidos com a promoção integral do ser humano. Estes entretiveram um relação orgânica com o Evangelho, buscaram imitar e honorificar Jesus Cristo, foram coerentes.

Cristianismo conhecido, refletido, esclarecido, vivido e coerente reverte sempre em benefício da pessoa humana, desde os tempos de Basílio, o Grande, Fabiola, Ambrósio, Patrício, Crisóstomo... 

Tanto mais conhecido, refletido e vivido o Evangelho numa perspectiva tradicional ou Católica, isenta de contaminação platonizante, e tanto mais é beneficiada a Sociedade com escolas, hospitais, orfanatos, asilos, dispensários...

Não, a alegada 'malignidade' de certos cristãos (Católicos é claro) não parte de sua intimidade ou proximidade com o Evangelho mas da distância e alienação face a seus imperativos divinos de amor e justiça. A quase totalidade dos maus cristãos é iletrada, estúpida, incoerente e acomodada. Ignoram assim qual seja a essência de sua religião e por isso negam com as obras o que com a boa afirmam crer.

Não se trata duma situação de obediência ou cumprimento. Não odeiam, matam, roubam, mentem e cometem injustiças porque Jesus Cristo o tenha determinado, mas justamente porque ignoram o que o fundador de sua religião determinou... Jesus jamais ordenou a seus seguidores que odiassem, praticassem o mal ou exercessem a vingança, mas que amassem, se abstivessem de julgar, desistissem de condenar, etc Se parte dos cristãos desobedecem-no livremente a culpa certamente não é sua, embora a igreja mereça ser questionada neste sentido, e parte de seus filhos questionam-na.

Sei que tampouco os principais teóricos do ateísmo - digo sua grande maioria - aconselharam seus seguidores neste sentido, de praticar maldades e cometer crimes, e que alguns até tentaram honestamente produzir uma Ética ateística. No entanto devemos confessar que tais esforços falharam miseravelmente, e é o que veremos mais adiante.

Digo sua grande maioria porque minoria houve que optou por trilhar outros caminhos e produzir, e justificar uma Ética, oposta a pessoa humana e sua dignidade.

O problema havia sido lançado e era relevante desde os tempos de D Holbach (século XVIII) em seus sistema da natureza, obra em que pretendeu substituir o sistema de ética afirmado pela Igreja por um novo sistema de Ética fundamentado no ateísmo e no materialismo.

É verdade que a Cristandade - Influenciada pelo judaismo, pelo maniqueismo, pelo platonismo e pelo neo platonismo - havia cometido gravíssimos erros neste campo pelo simples fato de condenar os prazeres naturais que encontram-se no acesso do corpo. Sem embargo disto, ela continha e trazia em si mesma um sentido 'vital' em termos de Ética, o sentido da empatia ou da alteridade. Princípio que o materialismo por assim dizer desamparou completamente.

Por isso que em termos de moralidade o Barão D Holbach refere-se a busca pela realização pessoal e pela felicidade em termos de 'Poder, riqueza e prazer'. Tal a orientação que ele imprimiu a Ética e embora pretendesse criar uma moralidade tanto mais social, teve de contentar-se - como Adam Smith inclusive - em tecer algumas conjecturas em torno de uma amabilidade o simpatia natural. Ele tinha fé na bondade natural do homem e acreditava que tudo daria certo. Pois não havia conhecido aquele novo mundo produzido pelo 'deus' Mercado em meados do século XIX e tampouco as duas grandes guerras mundiais, o holomodor, etc

Impossível é para o homem do século XXI ter fé na bondade natural de seus semelhantes...

Daí a necessidade de falarmos numa Educação Ética ou conscientização em torno de princípios e valores humanistas. E de construirmos um sistema de Ética significativo.

Já o abade N S Bergier havia notado o vício original desta 'ética' materialista e ateística e salientado que ela perdera de vista o outro, a existência do outro e as dores do mundo - tema tão caro a Schopenhauer e a Freud. No entanto grande parte da existência humana consiste mesmo na experiencialidade da dor... Face a qual o Cristianismo, a guiza de solução ou suavização, ofereceu-nos uma Ética fundamentada na solidariedade. Segundo esta 'Filosofia' bárbara também achamos realização, conforto e felicidade ao amenizar o sofrimento alheio. Agora esta concepção tirava sua razão de ser dum evento histórico revestido de significado religioso, a saber da crucificação, dos sofrimentos e da morte experimentados por Deus...

O materialismo no entanto não tem Deus e muito menos cruz.

Daí sua tarefa, colossal, ingente e utópica que elaborar uma Ética voltada não para a identificação da felicidade com a fruição dos prazeres sensíveis (alias lícitos e necessários quanto a normalidade da vida) e sim como algo mais extenso e amplo, que incorpora-se os prazeres do coração ou da alma como o exercício da solidariedade. O que nos leva ao ideal de fraternidade humana!

Agora vejamos se o ateísmo estava a altura de semelhante desafio.

Enquanto Feuerbach quebrava sua cabeça e gastava incontáveis resmas de papel com o objetivo de forjar essa nova Ética a um tempo ateística e a outro ateísta, mais ousado, apareceu em cena um certo Kaspar Schmidt (Mais conhecido como Max Stirner) e num livro intitulado 'O uno e sua propriedade' iniciou a demolição da Ética humanista numa perspectiva escolástica. O homem foi terminante: partindo outros princípios não se chegará jamais aos mesmos objetivos, o Cristianismo enunciava a igualdade e fraternidade universal porque partida não apenas da existência de Deus mas da suposição absurda que ele se havia manifestado ou revelado. Como nosso ponto de partida eram outros, a saber materialismo e ateísmo, o objetivo atingido seria bem outro pelo que era necessário reconhecer que os homens não eram iguais sob quaisquer aspectos, que uns eram superiores e outros inferiores cabendo aqueles dominar ou até mesmo exterminar a estes... Claro que tinha de sobrar até mesmo para o deísmo voltairiano com seu Deus legislador e para a lei natural ou o jusnaturalismo salmanticense... Sem Legislador divino nada de lei ou direito natural.

Neste ponto a Ética ou 'moral' como era chamada ao tempo ( e ainda confundia-se com os costumes) perdeu sua essencialidade objetiva - proposta primeiramente por Sócrates e endossada por Platão e Aristóteles - para tornar-se subjetiva, e não científica e converter-se por fim em opinião individual ou mero preconceito. Do que resultou esta crise contemporânea que abalou a civilização européia até os fundamentos. Graças a mística positivista engendrada pelo materialismo foi a Ética depreciada ou abandonada por cerca de setenta anos, em que pese o clamor dos Católicos, dos deístas, dos humanistas, dos socráticos, dos aristotélicos, dos espíritas, etc e duas grande guerras mundiais com o saldo de milhões e milhões de mortos.

Claro que esta Ética ou moral frágil até mesmo no sentido de evitar-se o mal não podia encaminhar os homens a prática do bem em proporções heroicas, pelo que minguando o heroísmo e a abnegação humanas, inseriu-se o capital naquele nicho, e alimentamos ainda mais e mais o monstro que nos estava a devorar...

Retornando ao Stirner é bom saber que ele negou qualquer tipo de direito ou justiça natural, chegando a declarar que em estado de natureza o homem sequer tem direito aquilo que produz ou ao fruto de seu trabalho, e que pode ser alijado de tal fruto sem que possamos considerar tal ação como má ao menos do ponto de vista da natureza. Por onde chegamos a primazia do egoísta em posse da força. Para que relativa paz seja mantida a aristocracia do egoísmo estabelece um convenant e dita regras não apenas para si mas para todo resto da sociedade ou para os dominados, os quais recebem uma lei dada ou imposta pelos donos do poder. E fica a nova Sociedade cindida entre dominantes e dominados ou entre fortes e fracos segundo o novo paradigma ateu e materialista, A OPRESSÃO.

Em termos de moral ou ética foi isto que o ateísmo refletido ou digerido ofereceu-nos em termos de ética!

Até onde sei Nietzsche não apenas leu a obra de Stirner como referiu-se explicitamente a ele como o único pensador ou filósofo alemão. E não preciso dizer porque, e temos diante de nós o berço do 'super homem'. Eis seus cueiros... Nietzsche em certo sentido limitou-se a desenvolver os princípios enunciados por Stirner e seu padrão é a força, a insensibilidade, a indiferença, o egoísmo, a apoteose do individualismo enfim, porque o ateísmo não nos permite transcender o individuo.

Com J M Guyau que durante a juventude flertara com o estoicismo, tornamos mais uma vez a solidariedade, cujo imperativo ele reconhece ao menos abstratamente. Pois tolhido pelos preconceitos positivistas é levado a declarar que não podemos - como fez o Cristianismo - estabelecer normas ou regras concretas em termos de solidariedade. Daí também ele lançar-se para o futuro e postular que a solidariedade alimentará a estética, que esta propiciará um conhecimento mais seguro em termos de transcendência e os homens virão a amar-se mutuamente sem religião... Isto num futuro pálido e distante. Por hora reinassem as contradições sociais criadas pelo capitalismo... Ao cabo de trinta anos após a publicação deste manual de idealismo ingênuo estourou a primeira grande guerra.

Chegamos enfim a Spencer e ao darwinismo social, o qual posteriormente passou a ser compreendido como um suporte biológico - e portanto científico - fornecido aos devaneios de StirnerNietzsche. Ao que parece Darwin jamais teria esposado semelhante teoria, tal o veredito de Kropotkin. Embora outros teóricos aleguem que no final da vida tenha aderido as conjeturas de Spencer o qual partiu não de Darwin mas do velho Lamarck e de Malthus, compondo-se mais tarde com a 'Origem das espécies'. Spencer estabelece analogia entre os organismos vivos e os homens ou classes sociais e argumenta que da mesma forma como os organismos vivos aperfeiçoam-se por meio da 'seleção natural' os indivíduos e classes aperfeiçoam-se e a Sociedade evolui através de processos análogos. (cf O organismo social - 1860)
Assim ele cunha o termo 'sobrevivência dos mais fortes' falseando inconscientemente o enunciado darwiniano sobre a sobrevivência dos mais aptos e introduz esse conceito biológico na sociedade humana. Desde então não só as teorias pré fascistas e pré nazistas de Stirner e Nietzsche adquirem uma conotação científica aos olhos do positivismo sem ética, mas a própria dinâmica capitalista da livre concorrência e do livre mercado passam a ser justificadas a luz da 'seleção natural'. Passando o burguês bem sucedido ou o rico a ser identificado como um vencedor na luta pela vida e portanto como um herói e não como o 'vilão sem consciência' do socialismo legatário da 'embolorada' moral Cristã. Esta ponto foi feita pelo yankee William Graham Sumner em sua obra "O que as classes sociais deve umas as outras?" Ele responderá: Nada... pois a luz da ciência biológica o capitalismo acha-se finalmente vindicado.

Além disto Sumner como Malthus já havia feito criticou amargamente a assistência social com que os Cristãos buscam minorar os sofrimentos dos vencidos da vida... Ele declarou ainda que o posicionamento do clero anglicano em favor dos pobres e contra os ricos não passava de preconceito idiota.

Naturalmente que a ideia é importada e introduzida na Alemanha por outro apóstolo do ateísmo e do materialismo Ernest Haeckel.

Até que chegamos a Ayn Rand com seu egoísmo racional (!!!), seu repúdio formal ao altruísmo e seu apoio decidido ao sistema capitalista. Preciso dizer que também esta musa era atéia?

Toda esta 'abominação' anti humanista como se vê foi assumida ao mesmo tempo pelo formalismo político nazista e pelo formalismo economicista capitalista enquanto sistemas opostos a Ética da essência.

Grosso modo podemos dizer que o ateísmo refletido jamais saí do individualismo egoísta ou supera-o no plano da ética. Não ele não pode oferecer-nos qualquer outra coisa.

De fato os ateus bonzinhos são em sua maior parte pessoas que aderiram ao ateísmo a posteriori e que ainda não refletiram escolasticamente sobre ele. Ex deístas, ex espíritas, ex papistas, ex judeus, etc que por hábito continuam vivendo como sempre viveram e segundo foram educados. Culturalmente falando jamais questionaram os princípios e valores que haviam recebido. O ateísmo é recebido quase sempre como teoria, que pouco ou nenhum impacto produz sobre o comportamento das pessoas, em oposição a conversão religiosa. O ateísmo não possui organização, liderança ou mesmo doutrina oficial a ser assimilada pelos neo ateus... Uma revisão drástica da vida não se impõem. Deixam de frequentar suas igrejas ou clubes, mas quase nunca abandonam os 'preconceitos arraigados'. De modo que se já são bons continuam a ser.

De modo geral é assim porque o homem comum - e portanto boa parte dos ateus - não costuma a questionar e a refletir profundamente sore seus princípios e valores, as fontes da vida Ética.

Agora quando se trata de ateísmo de família ou herdado e transmitido de geração em geração a possibilidade de que haja reflexão e abandono dos princípios e valores tradicionalmente arraigados é bem maior. Na verdade tais princípios sequer são questionados, eles apenas deixam de ser repassados ou transmitidos de geração em geração devido a ausência de 'afinidades eletivas' entre eles e o ateísmo, de modo que apenas a cabo de um processo que abarca gerações, aflora uma Ética naturalmente ateísta e intuitivamente elaborada. No entanto o resultado desta construção improvisada e da solução refletida acaba sendo sempre o mesmo: A morte do homem, a negação do outro, a desaparição do semelhante e a perda quase que total da empatia, da alteridade, do altruísmo. Noutras palavras a afirmação de um egoísmo virulento e feroz.

Ao contrário do que previam D Holbach e Guyau a simpatia não foi afirmada e potencializada mas eliminada pelo ateísmo e pelo materialismo com sua ética individualista até o egoísmo.

Para finalizarmos este artigo ja demasiado longo resta descrever como e porque isto aconteceu e demonstrar que não podia acontecer de modo diverso.

O único elemento universal de convergência ou vínculo em termos de homem e virtude é Deus ou o Supremo Legislador, em cuja vontade eterna todos os princípios e valores éticos encontram-se objetivamente legitimados.

Eliminado o Legislador externo fica eliminada toda e qualquer possibilidade de lei natural, essencial e objetiva. O Bem e o mal perdem seu padrão ou critério de universalidade e objetividade.

A consequência desta perda implica admitir, e não há outro recurso possível, que o indivíduo isolado (ou como querem outros a Sociedade ou o Estado e já discutimos exaustivamente a respeito) converte-se em lei externa e absoluta para si mesmo em termos de ética e em fonte subjetiva de princípios e valores válidos unicamente para si mesmos. O indivíduo escolhe seus princípios e valores, os quais perdendo a universalidade e a objetividade convertem-se em pura e simples opinião. E a ética passa a ser identificada como opinião individual, punto e basta. Se não há Legislador externo e universal temos de reconhecer o indivíduo como árbitro supremo em termos de ética e conceder que possa julgar legitimamente em causa própria.

E não pode o outro ser seu juiz porque haverá de julga-lo segundo outros princípios e valores distintos.

Assim se alguém considerar correto matar, roubar, mentir, trair, torturar, etc quem será capaz de censura-lo???

Afinal não é ele que escolhe seus princípios e valores segundo seu ideal de felicidade?

Portanto e se esta felicidade consiste em torturar, estuprar, enganar, assaltar e tirar a vida alheia???

Mas ele não pode querer para si o que não quer para os outros???

E por que não pode? Quem é que converte o enunciado acima em lei universal se não há Legislador?

Se não há lei natural e universal tudo pode ser contestado.

No entanto, pergunta este outro ateu ingênuo, quem haverá de contestar ao menos a conveniência de identificar-se com o outro?

Ora, ora meu amigo, os pensadores e filósofos ateus Stirner, Duhring, Nietzsche, Guyau, Rand... o agnóstico Spencer... os capitalistas selvagens, fascistas, comunistas e nazistas todos.

Enquanto isto Católicos ( Ortodoxos, anglicano e papistas), espíritas, judeus, etc continuarão edificando Hospitais, Leprosários, Asilos, Escolas, Orfanatos, Dispensários, etc por toda face da terra. Lutando pela promoção humana e pela justiça social e até mesmo, quando necessário imolando-se até a morte pelo semelhante.

Agora a fundação de quantos Hospitais, Leprosários, Asilos, Escolas, Orfanatos, Dispensários, etc t foi inspirada pelos princípios do materialismo e o ateísmo? Quantos Hospitais ateus ou orfanatos materialistas existem sobre a face a terra? Quantos ateus virtuosos tem oferecido a vida pelo outro a exemplo do Cristão Oscar Schindler? Enfim quantos ateus deram suas vidas e morreram confessando ao ateísmo e declarando estar certos de que não existe um Supremo Ser?

Não sendo o ateísmo capaz de promover uma ação social em tão intensa quanto os religiosos e não sendo apto para infundir virtude tão heroica que arroste o perigo da morte pela simples afirmação da verdade como haveríamos de crer que servirá de barreira face ao capitalismo, ao nazismo, ao fascismo, ao comunismo e a outras tantas culturas de morte ao invés de alimenta-las?

Poderá o ateísmo servir-nos de barreira face as culturas de morte e salvar o ser humano de ser esmagado pelo rolo compressor da estatolatria? Vindicará ele o humanismo no mais alto grau? Fornecer-nos há os elementos necessários para a construção de uma ética essencial da pessoa? Logrará preservar-nos do flagelo do islã?

De minha parte penso e julgo que não...

Aos demais penso apenas que reflitam.










sexta-feira, 23 de março de 2012

Carta a Sam Harris






Caro Sam Harris acabei de ler o seu livro Carta a uma nação cristã e realmente você argumenta muito melhor que o seu colega de profissão Richard Dawkins, autor de Deus um delírio. Richard Dawkins disse no prefácio do seu livro que você nunca erra o alvo, e li o livro com a curiosidade de saber se isso é verdade ou se isso era apenas mais um dogma do sr. Dawkins. Não vou me deter naquilo que concordo pois isso seria mera repetição e reprodução de ideias pura e simples.

Sam não sei se foi por ignorância ou por malícia mas você disse que Jesus era a favor da escravidão e você cita Paulo para confirmar isso e afirmou que Jesus nunca se pronunciou contra a escravidão. Qualquer pessoa que leia os Evangelhos independente de crer ou descrer sabe que Jesus nunca apoiou a escravidão, pois o mesmo disse: "Fazei aos homens o que desejais que eles vos façam", "Eu não vim para ser servido mas para servir", "Quando orardes dizei Pai-nosso" e se isso não basta atente para Nietzsche, o filósofo afirmou que a revolta dos escravos, começada por Jesus, conquistara então a vitória. Afirmar que Jesus era a favor da escravidão ou é cegueira ou maldade, prefiro crer que seja cegueira, pois como disse Paulo apóstolo: (I Cor 13) "A caridade tudo crê".


Você disse de forma obscura preferir os crentes que levam tudo ao pé da letra do que os cristãos liberais, inclusive insinuou nas entrelinhas que os cristãos moderados e liberais não são sinceros por não crerem na Bíblia ipsis litteris. Claro, eu entendo seu pensamento, afinal você sabe que os cristãos liberais não são inimigos da ciência e isso lhe irrita, porque você quer divorciar a religião da ciência da mesma maneira que o Dawkins. Ora, é mais fácil debater com fanáticos, porque estes negam a ciência e não sabem argumentar, e, aqueles crentes sinceros que você refuta podem engrossar a fila do exército ateístico. 


Você que é cientificista é o pior dos metafísicos quando diz que o ateísmo não é uma filosofia nem um modo de ser e que esse termo não deveria existir da mesma forma que não existe o termo não-astrólogo, que o ateísmo é o óbvio. Sam, se o ateísmo é tão óbvio como você afirma, explique-me o fato de serem agnósticos Darwin, Thomas Huxley, Stuart Mill, Stephen Jay Gould entre outros? 


Você diz que os cientistas são humildes ao aceitar que não podem conhecer tudo, o que não vale para você, pois nega a existência de deus, e quem nega, não tem dúvidas, está convencido de uma verdade: "deus não existe", tão dogmático contra os teístas que você tanto gosta de atacar. E mesmo porque Sam Harris o objeto da ciência não é o imaterial, mas o material. E, se fôssemos falar de coisas que não existem no mundo real eu pediria para você provar a existência da lógica e matemática que são disciplinas totalmente metafísicas e abstratas e por serem assim elas não existem?


Quando você tenta rebater os argumentos de que Stálin, Mao, Pol Pot e Kim Jon Il não eram ateus, disse que o ditador da Coréia queria sempre suas camas a 500 metros acima do nível do mar, portanto não podia ser ateu. Hã? Como é que é? Também disse que gente como Stálin e outros do mesmo jaez não poderiam ser ateus porque tinham uma ideologia e essa ideologia funcionava como religião. Ou isso é um ato falho seu, afirmando ser o ateísmo uma religião ou você mente quando diz que ateus são melhores do que cristãos, todavia sua argumentação é falha. 


Por fim, você errou o alvo e sua retórica não passa de metafísica barata, ciência não é ateísmo nem ateísmo é ciência mas são cosmovisões, ao querer tornar a ciência como fruto do ateísmo você deixa o campo do empirismo e cai no idealismo, pois você não tem como provar que o ateísmo é uma ciência ou que a ciência não pode caminhar com o sentimento religioso.