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sábado, 4 de fevereiro de 2023

Considerações em torno do que seja Sociedade.




Vez por outra, de quando em quando, costumo ler algum 'manuel', digo, Manual de Sociologia - Também leio os de Filosofia, de Psicologia ou de Pedagogia > E há alguns muito bons (Guido de Rugiero, Jaspers, Thonard... Th Ribot, Wundt... Herbart, Comenius, Backheuser, etc). 

Por hora estou lendo "El hombre y la gente" de Ortega Y Gasset - Revista de Ocidente, Madrid, 1958, juntamente com a edição das Epístolas de Caio Cecílio Segundo, o 'Plínio' Jovem ou Jovem Plínio - Estranha mistura ao que parece... Se bem que não da para confundir o escritor latino com o humanista espanhol. 

Todos sabem que considero Gasset um dos nomes mais representativos em termos de genialidade, juntamente com Freud, Adler, Darwin, Weber, Malthus, Sorel, Decrolly, Hitchcock, Valéry, Horney e Goodall. 

Quem quiser adicione o nome de Marx. Sua crítica foi positiva mas, penso eu, sua construção positiva ou 'solução' de muito pouco valor, e o comunismo se nos parece tão desastrado quanto o capitalismo.

Outros desejarão adicionar um Einstein ou um Fermi, aos quais de fato não faltou genialidade.

No entanto, confessadamente socrático, penso ser patético ou até calamitoso, o caniço pensante explorar o universo - Das partículas elementares as grandes estrelas, passando pelo fundo dos oceanos. - sem conhecer suficientemente a si próprio ou explorar a mente que dita nosso comportamento e tudo comanda.

Sim, em tempos de Ética, de crise e de suicídio comum (Em termos de espécie.) temos que questionar absolutamente tudo, inclusive a prioridade em termos de conhecimento.

Pois controlar a força contida nas partículas sem comandar a si mesmo pode ser algo bastante perigoso.

Tal reflexão foi que me fez por optar pelas Humanidades e não pelas ciências exatas ou pela técnica, tão queridas a ideologia positivistas e tão lucrativas. 

Necessário registra-lo. 

Pois em nossa cultura degenerada quem opta por ganhar menos traduzindo clássicos como as Antiguidades romanas de Dionísio de Halicarnasso ou a História geral de Diodoro Sículo, ao invés de tornar-se físico ou químico, i é partidor de moléculas ou analista de substâncias é tido em conta de inepto, incapaz ou imbecil.

Chega de divagação e prolixidade, como dizia minha saudosa mestra Isamar Alcover do Amaral Loureiro> Sr Domingos, o sr é prolixo e tão prolixo como Rui - Quem me derá ser a metade ou um quarto de um Rui... Mas tornemos a Gasset, nosso Ortega.

Antes porém devo dizer que já havia lido, e há um bom tempo, A unidade social, de P A Silvestre, São Paulo, 1956, obra atualmente bastante rara sobre a percepção social em Tomás de Aquino e, por ext. nos escolásticos e contratualistas.

Curiosamente Gasset define o associacionismo com precisão: "... Que assim fosse mera combinação ou resultado de outras realidades, como os corpos são 'na realidade' mais do que combinações de moléculas e estas de átomos." p 22 a qual, substituindo-se moléculas e átomos por tecidos e células, teria sido absoluta.

Importa saber que o ilustre pensador espanhol após definir avalia: "Se como sempre se tem crido... é a Sociedade uma criação dos individuos... que se congregam e portanto se não é ela mais que uma associação, a Sociedade não tem própria e autêntica realidade e não precisamos de uma Sociologia." p 22

E foi um pensador genial, um Ortega Y Gasset, quem o disse, como que copiando trivialidade repetida nos manuéis ou manuais de Sociologia. 

Achei digno de nota ou reflexão a assertiva do Ortega.

Afinal nossos corpos são agregados de células e tecidos. O que não os priva de existência real.

Curioso isso - Que aquela treva chamada positivismo tenha produzido há um tempo introduzido materialismo mecanicista no campo da Psicologia e Metafísica muito mal feita no campo da Sociologia. 

Mais - Agregado sim, agregado e agregação. Nem por isso uma célula sozinha se converte em tecido ou corpo, menos ainda o corpo ou o tecido numa única célula. Pois de modo algum a existência do agregado basta para confundir o agregado com o todo e vice versa... A simples existência particular da célula no conjunto do tecido não a transforma a célula particular em tecido e vice versa.

Sucede porém que a simples união da célula em tecido, órgão ou corpo confere a cada um desses agregados novas propriedades, as quais não se encontram presentes em cada célula separada mas comente nos agregados: Tecido, órgão e corpo. E conforme o tipo ou forma de união assume diferentes formas é natural que cada forma possua propriedades diversas - Assim que o corpo possua propriedades que não se acham presentes no órgão ou no tecido. 

Naturalmente que há algumas propriedades comuns a todo fenômeno vivo. Como certamente há propriedades diversas na célula, no tecido, no órgão e no corpo - Pois unidade não significa identidade. Por isso dizemos que o agregado tecido difere da unidade particular célula na medida em que apresenta atributos ou propriedades diversas. Pois só pode apresentar propriedades novas e diversas na medida em que sua estrutura difere da unidade particular.

Observe que toda essa comparação estabelecida pelos positivistas em torno de fenômenos biológicos está totalmente equivocada.

Pois o considerar o corpo humano em sua totalidade como agregado de agregados - Cujo elemento mínimo seria a célula! - não reverte a Biologia, a medicina ou a realidade em citologia. Um corpo mais desenvolvido olha, ouve e fala. O corpo ouve, fala, olha, pensa, etc por meio dos tecidos e células. Há tecido apto para ativar a audição. Posso dizer no entanto que esse tecido ouve ou que células olhem ou falem - Mesmo quando pertencentes a tecidos relacionados com a visão ou a fala posso eu dizer que tais células enxergam ou falam...  O caso é que as células não possuem sistema nervoso central... E nossos corpos o possuem... E pensam...

Percebe como sendo formado por células ou sendo um agregado de tecidos o corpo não é irredutível a células ou tecido, por possuir outras propriedades e corresponder a uma estrutura diversa. Como a medicina - a Mesma medicina que reconhece ser um corpo um agregado de células é irredutível a mera citologia...

Diante disto, o quanto podemos afirmar é que a Sociedade, a modo do corpo físico, não é uma fusão de células ou pessoas, e portanto algo essencialmente diverso dos agentes que a compõem. 

Agora se não estamos diante de um novo ente ou fenômeno, produzido por fusão, só nos resta concluir que ligação entre as pessoas, a modo da ligação entre as células, se dá por conexão ou contato. 

Essa percepção é importante porque nos impede de imaginar a Sociedade como algo a parte dos agentes que a compõem ou como um organismo essencialmente distinto deles. 

E no entanto ela, a Sociedade ou melhor as diversas Sociedades, da mais elementar a mais difusa, apresentam propriedades que não se encontram nos agentes.

Impõem-se aqui outra pergunta ou questionamento, muito comum nos compêndios de Sociologia.

A qual é posta nos seguintes termos.

Se a Sociedade ou as Sociedades apresentam propriedades com que não nos deparamos nos agentes que a compõem é justamente porque a natureza do agente e da Sociedade são distintas. 

Claro que há alguma diferença entre os agentes e a Sociedade.

Será no entanto uma diferença essencial ou ontológica, no sentido de que a Sociedade seja algo totalmente diversa dos agentes ou alguma outra coisa ou apenas um estado diverso apresentado pelos agentes.

Teríamos assim o indivíduo hipoteticamente isolado do corpo social ou num Estado pré social (Quiçá ante histórico ou primitivo!) - Veremos que o homem não social, em qualquer momento histórico, é uma ilusão - e o humano em Estado social tal como o conhecemos. 

Ocioso dizer que o 'social' precede a própria existência do fenômeno humano. Porquanto nossa espécie aparece já num contexto social ou num contexto social pré humano legado por outras espécies de primatas. 

Jamais houve Homo ou Homo Sapiens a parte de uma organização social, exceto se confundamos, maliciosamente, a Sociedade com o Estado.

O homem de Rousseau, bem se vê, é um ser imaginário, se, como se pensa ou crê, postulou a existência de indivíduos isolados ou separados uns dos outros antes de um contrato que tenha dado origem ao grupo social mais primário. Rousseau só cessa de ser perfeito idiota caso consideremos que seu contrato da origem ao Estado ou a Sociedade política...

Podemos portanto supor ou presumir que a questão sequer toque a forma ou a estrutura do conjunto ou grupo social mas apenas AO MODO E EXTENSÃO DO CONVÍVIO: As Sociedades apresentam propriedades diversas entre si e ausentes no 'indivíduo' conforme o contato seja mais íntimo ou mais extenso. 

Então não temos porque imaginar uma transformação essencial.

Nem por isso fica a Sociedade sendo irrelevante e menos ainda a Sociologia, pelo simples fato de que apresenta propriedades com as quais não nos deparamos nos humanos que tentam, em certa medida, viver a parte delas. 

A conclusão aqui já foi antecipada pelos sociologistas de Comte e também de Durkheim, este por sinal um homem de grande mérito. Tinham esses autores - Sobretudo o segundo em sua acirrada polêmica travada com Gabriel Tarde.- receio de que caso a Sociedade não formasse um ser essencialmente diverso dos seres que a compõem, reverteria a algum tipo de Psicologia, marcadamente em Psicologia social. E esse temor, mais ou menos fundamentado no século XIX, refletiu em toda essa construção, no sentido de afirmar-se que a Sociedade constituía um organismo totalmente a parte de seus agentes pessoais. 

Bom bater nessa tecla, sobre os estragos feitos pela Ideologia positivista no campo dos conhecimentos humanos ou das humanidades - Cujo valor científico e objetivo contínua sendo negado por seus janízaros até nossos dias > Mais de século após a morte de Wilhelm Dilthey (Esse gigante do Espírito!!!). O epílogo dessa invasão da psicologia pela Ideologia materialista (Sob o termo de positivismo ou ciência.) foi essa pasmaceira chamada Behaviorismo > De Watson e Skinner até G Roth  e o queridinho dos ateístas (Dalkins, Denett, etc) S Pinker. 

Certo é que a destruição ou negação da mente equivale a destruição ou suicídio da Psicologia, pela simples negação de seu objeto de estudos, que é a mente (cf Fechner, Wundt, etc). Caindo a psicologia nos domínios da Biologia e revertendo a Psiquiatria. Pois tudo no Behaviorismo conduz a Psiquiatrismo...

Outro o caso dos sociologistas, os quais sempre temeram que admitido qualquer nível de influência da pessoa não diretamente associada na 'engrenagem' social ou como se queira, nos fatos ou fenômenos sociais, ficava comprometida a própria Sociologia. 

E no entanto essa mesma pessoa capaz de interagir com o construto social e de altera-lo é ela mesma, grande parte, resultado de interações sociais e um ente social e não um indivíduo isolado, porquanto a existência de um indivíduo isolado, que nada deva ao grupo social, é um ente abstrato e ilusório. 

Perceba-se o óbvio - A Sociedade ou o grupo social plasma a condição de todos os seres humanos e todo ser humano é em parte resultado de interações sociais diretas e indiretas. Por outro lado algumas pessoas, satisfazendo certas condições sociais dadas e externas a sim, são capazes de alterar essas condições ou de interferir na dinâmica social. E é justamente essa intervenção ativa de alguns humanos que altera as estruturas sociais, as quais doutra forma sendo externas, formais e mecânicas seriam fixas, constantes e irreformáveis - A exemplo das reações físicas e químicas. A Sociedade se transforma justamente porque não é engrenagem fechada e impermeável a ação humana.

Por mais que atribuamos esta ou aquela propriedade específica aos diversos grupos sociais seria absurdo admitir que os grupos sociais possam alterar a própria dinâmica ou transformar a si mesmos, impondo novos sentidos, a parte dos agentes que lhes conferem existência. 

A Psicologia social caberá investigar o quanto o fenômeno humano recebe do corpo social. A Sociologia Pessoal como e em que condições um agente humano qualquer é capaz de alterar a dinâmica social e a Sociologia examinar as propriedades dos grupos ou fatos sociais em si mesmos bem como a estrutura dos grupos citados.

Tais as reflexões que me foram suscitadas pela leitura de Ortega Y Gasset.





quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Os Sociólogos esquecidos I - Gabriel Tarde (Refletindo sobre a intencionalidade humana no contesto social)

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Gabriel Tarde, francês de nascimento e homem da lei tornou-se pivô de uma das maiores polêmicas já travadas no campo da Sociologia, a qual estendeu-se por quase duas décadas.

Afinal seu contraditor outro não era senão o famoso Emile Dhurkheim 'herdeiro' de Comte e criador da corrente sociológica positivista.

Dhurkheim como é, em geral, sabido de todos, buscou identificar uma categoria de fenômenos 'sui generis' a que deu o nome de 'fatos sociais', tal, segundo cria, o objeto da Sociologia. O fato social é algo por assim dizer coercítivel, externo ao indivíduo, genérico além de objetificável ou coisificável.

Destarte o fato social nos termos de Dhurkheim parece equivaler as estruturas apontadas por Marx e Weber bem como as instituições investigadas por Le Play, tudo isto em termos de macro sociologia ou de elações existentes entre as diversas estruturas e instituições sociais.

Tarde parece ter feito o caminho oposto e buscado compreender a trama de relações existentes no interior das instituições, situações, condições e conjunturas sociais. Destacando-se como pioneiro no campo da micro sociologia.

De suas investigações resultou um livro, sob diversos aspectos interessante e intitulado 'As leis da imitação.'. O próprio título nos dá a entender que parte considerável da Sociedade ao invés de proceder criticamente, procede por via de imitação, assimilando não apenas o comportamento mas inclusive as opiniões alheias e isto quase que mecanicamente.

Que o fenômeno da imitação esteja relacionado com certos hábitos pessoais, especialmente no que diz respeito as massas ou multidões cheira inclusive a obviedade.

O cerne da controvérsia aqui não era a imitação em si mesma.

A qual, com relação ao desenvolvimento e educação da criança seria exaustivamente investigada por Wallon, Piaget e Inhelder dentre outros. De fato a imitação parece corresponder a um mecanismo originalmente psicológico. Presente inclusive nos animais superiores ou grandes mamíferos, os quais não aprendem doutro modo.

Ora, se havia algo que Durkheim e os positivistas não podiam admitir em hipótese alguma era a simples possibilidade de um mecanismo de natureza Psicológicas pudesse ser sociologicamente relevante. Os positivistas grosso modo, tomaram o mesmo caminho devassado pelos cientistas políticos e economistas clássicos, os quais negavam pertinazmente a influência da economia na política e a influência da política na economia, apresentando ambos os campos como estanques, isolados e impermeáveis e logo, falseando a realidade vivida.

A Sociologia nasceu com este vezo anti Psicológico enquanto a Psicologia teve de ser mais realista e compreensiva - ao menos até o surgimento do credo behaviorista - do que resultou o surgimento da Psicologia social.

Enquanto a Sociologia busca compreender o funcionamento dos diversos contextos sociais, a Psicologia Social interessa-se apenas pelo indivíduo ou melhor pelas reações experimentadas pelos indivíduos num determinado contexto social. Naturalmente que as relações por serem individuais não excluem certo nível de uniformidade, desde que este nível de uniformidade não corresponda a qualquer vínculo social entre os indivíduos que experimentam reações similares, o que nos remeteria necessariamente a Sociologia. Portanto a gênese causativa das reações ou manifestações, inda que análogas, teria sua raiz na mente do indivíduo e não em um elemento social qualquer.

Tornando agora aos positivistas e sua ideia de sistema fechado ou isolado - e, no caso da Sociologia, em oposição, por assim dizer, a Psicologia ou ao fator humano propriamente dito - devemos compreender que impossibilitou a criação de algo correspondente a Psicologia social no âmbito da Sociologia, digo de uma Sociologia pessoal ou individual, cujo escopo seria compreender até que ponto e de que forma a pessoa humana interage com as instituições sociais, fugindo ao clássico determinismo e possibilitando a transformação.

Enquanto fenômeno produzido por seres humanos é evidente que o contato social ou a própria tecitura social não pode nem deve ser compreendida como algo totalmente separado do humano, mas certamente como algo permeável a ação humana, ao menos em certo grau e sempre na perspectiva da interação. Sociedade como algo a parte do homem ou como mecanismo que funciona por si mesmo equivale a pura abstração metafísica. Foi o que Tarde respondeu a Durkheim após ser classificado por aquele como Psicólogo social e não como sociólogo, pelo simples fato de ter questionado o sistema autônomo e determinista elaborado pelos positivistas.

Por trás de toda esta polêmica estão em jogo as relações entre a Psicologia e a Sociologia bem como suas fronteiras. Que há de social no humano e que há de humano no social? A primeira pergunta ainda exaspera alguns psicólogos da cepa freudiana, apenar das contribuições de Horney. A segunda exaspera todo sociologista matriculado na escola de Durkheim para quem cada contexto social, senão a sociedade propriamente dita funcionava como um relógio.

Claro que as massas humanas, como os povos primitivos, a semelhança das crianças fazem largo uso da imitação, a qual como já dissemos corresponde a um mecanismo psicológico. Mesmo entre as pessoas educadas a imitação ser faz presente em determinado grau, e a moda é prova irretorquível. E no entanto as massas e multidões entram no mecanismo das Revoluções, o qual é precipuamente social, enquanto a moda além de ser economicamente fecunda, possui certa relevância social. Assim a atuação das massas e multidões, que são agregados humanos, no contexto social e político equivale a fenômeno puramente psicológico ou a um tempo psicológico e a outro social? Assim o papel da moda na Sociedade, por via da imitação, não deveria ser compreendido como um fenômeno Psicológico ativo na esfera das instituições ou mesmo das estruturas sociais? Em que medida uma uniformidade psicológica poderia assumir ao mesmo tempo uma função social? Em que medida a ação humana ou pessoal poderia ser igualmente social?

Tais as questões suscitadas pelas teses de Tarde em torno da relevância social das leis da Imitação e quiçá a razão porque sua obra permaneceu esquecida durante mais de meio século devido a resistência dos positivistas no sentido de considerar qualquer injunção humana na máquina ou no reloginho social idealizado por eles. Resta-nos dizer que admitida a tese de Durkheim - e por ext a de Marx - segundo a qual é o homem determinado pela sociedade ou pela cultura - cuja coerção é invencível - não vemos porque modo possa a própria sociedade ou a própria cultura transforma-se a menos que atribuamos a esta sociedade um aparato racional e livre responsável pela criação. O que nos levaria a dizer que a sociedade move-se por si mesma, que possui intencionalidade, que se cria, recria, etc Em sua que é uma espécie de organismo vivo e humano. Quando sendo puramente material e mecânica deveria ser estática. E no entanto 'si muove'... Por si mesma???

O único modo porque podemos fugir a aberração de conceber a Sociedade como um organismo autônomo, admitir que se transforma e compreender porque modo se transforma é admitir que em certas circunstâncias alguns homens por assim dizer 'geniais' - sempre em sintonia com o processo histórico e dentro de certas medidas - conseguem sobrepor-se a força coercitiva do hábito ou da cultura e transformar a própria cultura e algum aspecto da Sociedade. Claro que as ideias ou propostas desses homens devem ser assumidas por uma aristocracia ou por um povo. Cumulativamente essas pequenas transforações vão alterando os diversos contextos sociais, e conferindo a Sociedade um aspecto mais ou menos dinâmico e não fixo.

Resta declarar que todo movimento produzido por impulso interno remete-nos a vida. Move-se a sociedade porque viva, porque humana, porque permeável a ação consciente do homem e não por si mesma como algo a parte da intencionalidade humana, ou seja, magicamente. De fato os seres vivos movem-se e evoluem porque vivos. Assim a Sociedade evolui enquanto sociedade dos homens e não enquanto ente abstrato a parte do homem.





segunda-feira, 15 de maio de 2017

Buscando superar o psicologismo freudiano e o sociologismo marxista; uma leitura marxista de Freud ou freudiana de Marx II





E Freud?


Bom assinalar que S Freud não era Sociólogo e nem mesmo tinha a pretensão de se-lo. Era médico por formação e psiquiatra ou psicólogo por opção. Sendo assim jamais negou a existência de um organismo social com a constituição que lhe é próprio ou tentou explica-la a partir de suas descobertas a respeito da mente e da personalidade humanas. 

Em suma Freud repudiou a existência de uma estrutura social para além das personalidades, apenas concentrou seus esforços investigativos no campo da formação da personalidade. Nem tinha como ser psicólogo e sociólogo ao mesmo tempo ou analisar simultaneamente a formação da psiqué humana e a estrutura dos diversos grupos sociais, tarefa ainda hoje especiosa.

Teve de especializar-se e de escolher um campo.

E o campo escolhido foi a Psicologia não a Sociologia.

Naturalmente que, caso consideremos o homem enquanto parte da sociedade, suas descobertas tem ou terão certas consonâncias no âmbito da Sociologia, desde que não seja, obviamente, uma sociologia sociologista, mas uma Sociologia aberta. O próprio Engels sempre recordado e citado, admitiu que em determinadas situações a super estrutura, digamos aqui a superestrutura mental, acaba interagindo com a infraestrutura de caráter material ou social, como queiram.

E de fato não precisamos ser psicologistas para admitir - Com Weber por exemplo - que o fator humano, pessoal, psicológico, motivacional... Pode também ele adquirir certa relevância em termos sociais, convertendo-se também ele num fator causal ou genésico ao lado doutros fatores propriamente sociais ou materiais. O que por sinal só vem a tornar a investigação sociológica ainda mais complexa.

A questão primordial aqui não é saber se as forças ou entidades psicológicas possuem qualquer potencial sociológico, interagindo com as demais forças sociais ou até servindo-lhes de contra peso, denotando como já dissemos maior complexidade.

A questão principal aqui toca, em parte ao menos, a limitação imposta a Freud pela realidade externa a si, no sentido de que - Sem jamais ter negado a sociologia - formulou suas hipóteses ignorando ou desconsiderando a contribuição da sociologia.

Queremos dizer com isto que, em termos de causalidade, parece não ter buscado vincular as situações, eventos e fenômenos psicológicos analisados por si, a determinadas organizações sociais.

Exemplifiquemos.

Freud - E isto vale certamente para Karl Marx, apontando as limitações de ambos - como todos nós foi também prisioneiro da cultura, da História, do momento; enfim do tempo e do espaço em que viveu e trabalhou. Tanto ele quanto seu 'parente' (sic) judeu, tiveram de trabalhar com uma realidade especifica (E portanto limitada) fazendo o que chamamos de recorte. 

O recorte em si é bom na medida em que nos permite penetrar e analisar determinada unidade histórico social, torna-se no entanto funesto na medida em que o autor põem-se a abstrair em demasia, convertendo suas descobertas numa metafísica universalizante em termos absolutos. Para compreendermos a 'Sociedade' abstrata considerada como um todo, teríamos de estudar todas as organizações sociais do planeta... O que Marx certamente não fez.

Assim Freud de modo geral analisou as relações sociais presentes em sociedades ocidentais contemporâneas ou em setores ocidentalizados de outras sociedades. Trabalhou com um modelo único de organizações sociais ou com um modelo unitário de relações familiares em que se dão os fenômenos por ele elencados e estudados.

Em suma o nicho escolhido pelo grande psiquiatra austríaco dizia respeito a Europa dos séculos XIX e XX com a estrutura familiar típica: Heterossexual, Patriarcal, Monogâmica, estável (ou indissolúvel), e sobretudo marcada por uma ideologia maniqueísta ou puritana caracterizada pela negação do corpo e da sexualidade.

Tal a limitação de seu trabalho. Porque não cogitou em possíveis variações sociais no tempo e no espaço.

Podia e pode S Freud falar com absoluta propriedade a respeito da realidade específica que estudou, i é das sociedades 'civilizadas' dos séculos XIX e XX, estabelecendo a partir de suas estruturas as decorrentes relações pessoais, até chegar a seus complexos: Assim o complexo edipiano, assim o complexo de Electra (sicut K G Jung - Para S Freud complexo edipiano feminino), assim o éthos narcisista, e sucessivamente.

Fácil é ao leitor inteligente, calcular que chegamos a 'raiz' ou fonte do problema. Freud numa perspectiva idealista ou demasiado abstrata, parece não ter vinculado as relações pessoais por ele analisadas com a estrutura social e sua variabilidade, talvez com o receio de que sua abordagem adquirisse um aspecto demasiado particular, e, segundo algumas 'escolas' não científico. Daí ter resvalado na tentação do universalismo, a que sua abordagem restrita não fazia jus.

O resultado final disto foi a afirmação, categórica alias, de que os complexos de Édipo e Electra (para nos atermos a espinha dorsal de sua teoria psicanalítica) equivaliam a entidades universais, presentes em todas as sociedades, para além das limitações espaciais e temporais, pelo que chegamos a um essencialismo psicanalítico.

Evidentemente que tais afirmações eram precipitadas, mas ele era Freud... Compreende-se portanto que tais alegações gratuitas - Por não terem partido de investigações concretas - foram engolidas por muitos. Convertendo-se numa espécie de metafísica, vinculando-se a uma espécie de natureza humana dada e atingindo o 'status' de 'pecado original'.

Perdurou o equívoco até que Bronislaw Malinowski e Margareth Mead - ambos antropólogos - foram a campo investigar outras formas de organização social. No primeiro caso os naturais das Ilhas Tobriand e no segundo os naturais de Papua Nova Guiné. A partir de tais pesquisas ficou evidenciado que os tais complexos clássicos do freudismo inexistiam em tais culturas, pelo simples fato de que a organização familiar e as relações homem - mulher eram outras, enfim totalmente diversas das que prevaleciam na Europa dos séculos XIX/XX.

Desde então ficou cientificamente demonstrado o caráter relativo dos fenômenos analisados por Freud enquanto produtos de uma conjuntura familiar particular ou epifenômenos da cultura. Da cultura européia do século XIX, maniqueísta, puritana e judaico Cristã (Ou melhor mais judaizante  - compreenda-se judaizante no sentido histórico de farisaísmo - que propriamente Cristã).

Tal a realidade mais remota que Freud não viu ou não quis ver e que diz respeito a conexão da pessoa ou da família no quadro mais amplo e variável da cultura ou da sociedade. Imerso em determinada Sociedade - Ocidental do século XIX com a característica rigidez moral - desenvolvera o homem tais e tais complexos, imerso noutro tipo de Sociedade... Portanto, o que Freud descobriu - E este sentido não torna sua descoberta menos importante - foram os resultados psíquicos de determinada estrutura social. E não elementos essenciais ou metafísicos onipresentes na condição humana...

Seu equívoco foi deixar de vincular a realidade deslindada por si, a organização social analisada.

Agora o que nos parece evidente é que sempre que determinada sociedade assumir tais valores: Normatividade sexual, patriarcalismo, monogamismo rígido, indissolubilismo e sobretudo o maniqueismo, assistiremos a construção e afloramento dos citados complexos.

Devemos reconhecer mais uma vez, que produzidos tais complexos, não deixam de interagir no plano da cultura, convertendo-se eles mesmos em forças sociais, certamente, dentro dum plano bem mais amplo.

Continua -

Próximo tópico: As realidades existenciais e psicológicas que Marx ignorou ou as fontes internas do capitalismo.

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