Habitualmente ouvimos ser o marxismo ou sua epistemologia, serem apresentados como relativistas e, os marxistas rebaterem, dizendo que não é bem assim. Daí a necessidade de pontuarmos o assunto e verificar que é o marxismo face a verdade ou qual seja sua perspectiva epistemológica.
Grosso modo podemos dizer que é o marxismo um relativismo, porém de modo algum um relativismo crasso ou individualista, análogo ao relativismo pós moderno, que é dentre todos o mais virulento.
No relativismo individualista nada há que transcenda as unidades individuais e isoladas, pelo que a fragmentação é total ou absoluta. Aqui a única referência que temos é o indivíduo separado de todos os outros - Tal é o critério de todas as coisas!
"O homem é a medida de todas as coisas." Que homem? A espécie enquanto receptáculo de uma capacidade racional ou o indivíduo pautado em sua vontade??? O relativismo pós moderno responde dizendo que cada homem constrói sua verdade, válida apenas para si e que não existe qualquer verdade comum, transcendente ou absoluta. O marxismo não chega a tais confins... quero dizer ao 'vir a ser'... a instabilidade plena... a fragmentação total... ao Caos, conservando alguma unidade, ainda que não seja transcendente.
Privado de fundamentos metafísicos, abstratos, espirituais; assim essenciais e perpétuos, a exemplo da 'Filosofia perene' ou das teorias das formas elaboradas por Platão ou Aristóteles, nem por isto o marxismo dissolve-se por completo num relativismo individualista, atomizando-se.
Assumindo-se como uma espécie de meio termo entre o 'vir a ser' e a 'essência' apresentando-se como um relativismo, mas, como relativismo social, fruto de uma conjuntura histórica muito mais estável do que as impressões individuais. O marxismo admite impressões estáveis e comuns, inda que mutáveis a longo prazo.
De fato julgam os marxistas - A partir de seu materialismo dialético - que a realidade cultural e assim a própria compreensão humana do que seja verdadeiro ou real (superestrutura) esteja assentada sobre uma infra estrutura definida em termos de relações econômicas de produção. Tais relações possuem formas estáveis e comuns em determinadas fases da História humana, as quais perduram por considerável espaço de tempo (Muito mais amplo do que o tempo fruído por algumas gerações humanas.) i é até que as relações de produção sofram alguma alteração significativa.
Delas resulta uma compreensão perdurável em termos de mundo a qual, mesmo sem tornar-se metafísica ou perene nem por isso chega a diluir-se por completo num aos de impressões, emoções, gostos ou opiniões. Destarte a noção de verdade proposta pelos marxistas, sem tornar-se imutável e perpétua como a Socrática, a Aristotélica ou a Católica, nem por isso deixa de possuir certa consistência e durabilidade. Estamos portanto diante duma perspectiva totalmente diversa e não do mesmo e exato relativismo.
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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
A democracia, as revoluções e a cultura - uma breve resposta
Em seu texto A democracia, as revoluções e a cultura o sr. Domingos como bom marxista que é faz uma mistura entre determinismo e o ato de combater a intolerância religiosa como mostrarei a seguir.
Escreve o sr. Domingos: Quero dizer com isto que as intifadas liberais promovidas pelos EUA ou a ONU noutras unidades culturais são tão contraproducentes quanto o restauracionismo acenado pelos nobres franceses ou russos; emigrados após as revoluções francesa e russa de 89 e 17 ou quanto os golpes implementados pelos comunistas e anarquistas em diversos países. Uma vez que as formas políticas não passam de manifestações da dinâmica sócio cultural somos levados a concluir que sua evolução ou passagem embora possa ser atrasada - como reconheceram Polanyi e Hobsbawm - não pode ser adiantada ou antecipada (com sucesso). Nem pode ser o passado reproduzido ou restaurado nos mínimos detalhes como supõem os reacionários de todos os tempos.
Com seu vício hegeliano-marxista acredita ele que a história se move sozinha, que ela oferecerá sozinha e magicamente a solução para a sociedade num verdadeiro fatalismo que faria qualquer mulçumano invejá-lo: Maktub! Estava escrito!
Ele continua:
Revolucionários e reacionários encontram-se igualmente equivocados. Os primeiros porque pretendem adiantar a História recorrendo a elementos de natureza externa ou material, quais sejam armas e munições. Os segundos porque acreditam poder faze-la recuar empregando os mesmos recursos. Cuidam uns e outros que a polícia, o exército, as hostes ou hordas serão capazes de alterar o ritmo da História e que seus decretos prevalecerão face a dinâmica social e por isso nada edificam de duradouro. E seus golpes, lutas, guerras, combates, revoluções, etc revertem infalivelmente ao cabo de umas poucas gerações.
Reverteram as revoluções Francesa, Russa, Mexicana, Chinesa... como fracassaram todos os restauracionismos monárquicos.
Essa tese é a tese de Marx que acredita que a revolução aconteceria nos países industrializados pela pauperização de quase todo o povo, acreditava que o capitalismo se destruiria por si mesmo graças as condições históricas mas se assim era por que Marx escrevia, por que participou da AIT? Por que seus discípulos formam partidos? Por que querem implantar a revolução à força? Se a história é a protagonista da própria história, onde fica a liberdade dos indivíduos? Somos então joguetes desse ser deificado pelos historicistas? Se o sr. Domingos acredita mesmo nos processos históricos por que ataca com tanto afinco o islamismo e o neo-pentecostalismo? Ele não entende que são as condições históricas que vão destruir o fanatismo religioso? Que ele nada pode com seus discursos e escritos? Não compreende que não pode avançar na história? Pois é, ao criticar o fanatismo religioso do islã e neo-pentecostal ele cai em contradição é o caso aqui em que o Domingos hegeliano-marxista refuta o Domingos polemista sem que eu precise refutá-lo.
Escreve o sr. Domingos: Quero dizer com isto que as intifadas liberais promovidas pelos EUA ou a ONU noutras unidades culturais são tão contraproducentes quanto o restauracionismo acenado pelos nobres franceses ou russos; emigrados após as revoluções francesa e russa de 89 e 17 ou quanto os golpes implementados pelos comunistas e anarquistas em diversos países. Uma vez que as formas políticas não passam de manifestações da dinâmica sócio cultural somos levados a concluir que sua evolução ou passagem embora possa ser atrasada - como reconheceram Polanyi e Hobsbawm - não pode ser adiantada ou antecipada (com sucesso). Nem pode ser o passado reproduzido ou restaurado nos mínimos detalhes como supõem os reacionários de todos os tempos.
Com seu vício hegeliano-marxista acredita ele que a história se move sozinha, que ela oferecerá sozinha e magicamente a solução para a sociedade num verdadeiro fatalismo que faria qualquer mulçumano invejá-lo: Maktub! Estava escrito!
Ele continua:
Revolucionários e reacionários encontram-se igualmente equivocados. Os primeiros porque pretendem adiantar a História recorrendo a elementos de natureza externa ou material, quais sejam armas e munições. Os segundos porque acreditam poder faze-la recuar empregando os mesmos recursos. Cuidam uns e outros que a polícia, o exército, as hostes ou hordas serão capazes de alterar o ritmo da História e que seus decretos prevalecerão face a dinâmica social e por isso nada edificam de duradouro. E seus golpes, lutas, guerras, combates, revoluções, etc revertem infalivelmente ao cabo de umas poucas gerações.
Reverteram as revoluções Francesa, Russa, Mexicana, Chinesa... como fracassaram todos os restauracionismos monárquicos.
Essa tese é a tese de Marx que acredita que a revolução aconteceria nos países industrializados pela pauperização de quase todo o povo, acreditava que o capitalismo se destruiria por si mesmo graças as condições históricas mas se assim era por que Marx escrevia, por que participou da AIT? Por que seus discípulos formam partidos? Por que querem implantar a revolução à força? Se a história é a protagonista da própria história, onde fica a liberdade dos indivíduos? Somos então joguetes desse ser deificado pelos historicistas? Se o sr. Domingos acredita mesmo nos processos históricos por que ataca com tanto afinco o islamismo e o neo-pentecostalismo? Ele não entende que são as condições históricas que vão destruir o fanatismo religioso? Que ele nada pode com seus discursos e escritos? Não compreende que não pode avançar na história? Pois é, ao criticar o fanatismo religioso do islã e neo-pentecostal ele cai em contradição é o caso aqui em que o Domingos hegeliano-marxista refuta o Domingos polemista sem que eu precise refutá-lo.
sábado, 3 de outubro de 2015
Considerações em torno do historicismo
Já há algum tempo planejava escrever algo sobre o Historicismo.
Buscando lançar alguma luz sobre o tema. Tendo em vista o estado de confusão reinante.
Para tanto devemos antes de tudo buscar uma definição satisfatória para o termo.
Aqui, optamos pela de E Troeltsch:
"Historicização fundamental de todo conhecimento acerca dos seres humanos, sua cultura e valores."
Ou seja a percepção de que cada área do saber, estando inserida numa dimensão temporal, possuí uma História e que estas Histórias tem relevância.
Podemos assim falar em História da economia, História da psicologia, História da sociologia, História da pedagogia, História da literatura, História da matemática, História da arte, etc
Podemos pensar na História da História inclusive.
Todo conhecimento construído pelo homem tem sua História que é o caminho por ele percorrido ou seu processo de desenvolvimento.
Neste sentido sou Historicista convicto.
Tanto melhor compreenderemos qualquer ramo do saber caso conheçamos sua 'História'.
Independente da área que estivermos estudando o conhecimento Histórico sempre acrescentará alguma coisa.
Para além desta definição não hesito em corroborar a tese segundo a qual, juntamente com a Sociologia e a Psicologia a História constituí um ramo capital em termos de conhecimento humano.
Não posso dizer qual destas três áreas seja superior as outras. Julgo todavia que as três ocupem o topo da pirâmide no contexto das 'humanidades'.
Caso desejemos compreender o que seja de fato o fenômeno humano não nos podemos furtar a exaustivas investigações no domínio da História.
A qual por isso mesmo foi apontada por M T Cícero como sendo a 'Mestra da vida.'
Mestra porque conserva os traços do caminho porque a vida passou.
Nem poderíamos compreender bem o momento presente sem perscrutar o passado em busca de causas particulares e imediatas. E a companhar as raízes das causas até a maior profundidade possível...
Em certa medida como diz Marc Bloch, foi o Cristianismo - com sua doutrina da encarnação de Deus na História - que endossou este sentido e aproximou o homem dos estudos Históricos. Desde que Deus se insere no tempo e no espaço, a História e a Geográfica constituídas em torno deste evento adquirem uma conotação de sacralidade.
Talvez por isto o Catolicismo genericamente concebido, seja uma religião de Historiadores.
Pois trata-se duma fé, mais do que qualquer outra, fixada em torno de um evento passado.
Até aqui somos historicistas assumidos.
Temos agora uma terceira definição, um tanto distinta, fornecida pelo sr K Popper, conhecido epistemólogo:
"Abordagem das ciências sociais, que pressupõem a previsão histórica como seu objetivo primário, supondo que lhe caiba a tarefa de deslindar o ritmo, o padrão ou as 'leis' ou as 'tendências' que presidem a evolução ou o curso da História."
Aqui o objetivo da definição e da crítica, alias amarga, de Popper é Hegel, teórico de que Marx, o grande desafeto de Popper é tributário. Assim Popper vai a Hegel com o intuito de remover mais um fundamento de Marx e infirmar seu sistema.
Neste sentido a própria definição de Popper deve ser apreciada as luzes do historicismo ou se querem da arqueologia das ideais. Sua própria estrutura remete-nos aos últimos anos de Hegel - + 1831 - bem como a apreciação de Comte e aos titânicos embates travados entre os positivistas e não positivistas ao cabo de longos 50 anos i é até meados de 1880/90.
Tais embates foram na verdade travados não só em torno da cientificidade dos estudos Históricos mas da própria definição de ciência, cuja construção remete-nos as primeiras décadas daquele século.
Mesmo nas décadas imediatamente anteriores a codificação do positivismo, havia já um ideário positivista em circulação. Segundo este ideário a natureza era presidida por leis inflexíveis de causa e efeito, disto decorre que sua apreensão em termos de ciência possibilitaria a previsão de eventos futuros... da compreensão do ciclo dágua resultaria a possibilidade prever com absoluta exatidão a chuva e estio... da compreensão das placas tectônicas decorreria a possibilidade de prevermos com absoluta exatidão um terremoto...
No entanto ainda estamos longe de prever tais fenômenos com absoluta exatidão ou mesmo de preve-los!
Seja como for o positivismo apresentou o padrão de previsibilidade como sendo uma das marcas da ciência.
Quanto aos que discordavam da definição ficou sendo ela ineficaz.
Já quanto aos que eram influenciados em maior ou menor medida pelo positivismo decorreram duas posturas radicalmente diferentes:
Uns reconheceram que a História nem era capaz de apreender leis gerais e menos ainda de prever qualquer evento futuro, ficando por isso mesmo excluída do 'quadro' das ciências.
Outros acreditaram poder descobrir as tais leis e atribuir-lhes previsões, tendo em vista a intenção de vindicar sua cientificidade.
Hegel e Marx limitaram-se a seguir este curso geral traçado não por eles mas por alguns teóricos positivistas.
Posteriormente a maior parte dos positivistas desistiu de procurar pelas tais causas abrangentes ou de conjecturar em torno da previsibilidade. Recusando-se a conceder a História qualquer status de caráter científico. Para tais teóricas era a Histórica uma técnica ou uma arte mas não uma ciência.
O próprio Popper parece ter endossado tais concepções.
Já os não positivistas aderiram a teoria da compreensibilidade de Dilthey.
Segundo este teórico a História não é explicável em termos de leis gerais de causa e efeito; mas compreendida em termos de relações entre elementos estruturais.
Posteriormente chegou-se a conclusão de que a busca de leis gerais ou causas mais abrangentes não pertencem ao domínio da História mas da Sociologia. A Sociologia é que cabe determinar se há um ritmo ou fluxo constante em termos de processo histórico, aquilatar as leis que presidem este fluxo e prever o que quer que seja. A História limita-se a encadear os fatos apontando as causas imediatas e particulares.
Agora se a Sociologia deve servir-se dos conteúdos da História para elaborar a si mesma, como poderia revindicar status científico para si sem concede-lo a História?
Como poderia ser o edifício científico caso uma das bases ou fundamentos não o seja?
De fato a História não pode prever.
Podem no entanto seus teóricos estabelecer conjecturas.
Imaginemos que qualquer líder europeu do futuro venha, numa situação de conflito ocorrida em dado momento futuro, a invadir a Rússia como Napoleão ou Hitler. Neste caso, uma vez que as condições sociais e materiais da Rússia sejam similares, as de 18... ou de 1942 ( i é que não tenham mudado drasticamente) podemos conjecturar que os resultados serão os mesmo e que ele venha a ser derrotado. Caso as circunstâncias sejam parecidas, as chances de que as consequências sejam as mesmas são consideráveis.
No entanto um tal fato ou evento nada tem a ver com a dedução de leis gerais, cujo objeto fica sempre pertencendo a sociologia.
Resta-nos declarar por fim que não é dado a História fazer um conjunto de previsões 'infalíveis' para o futuro.
Se Marx pretendeu faze-las fundamentado em seus conhecimentos históricos foi mais como sociólogo que buscava por causas abrangentes e leis gerais. Neste caso não temos nada a ver com isto. O que não cabe a História fazer talvez caiba a sociologia.
Limito-me aqui a abordar a questão do ponto de vista da História. No mérito da sociologia não pretendo entrar. Se a História pode ou não de fornecer ao SOCIÓLOGO um material capaz de - após ser analisado - propiciar a formulação de causas abrangentes e leis gerais que possibilitem prever os eventos futuros é questão que diz respeito mais a sociologia.
Alias até poderíamos discordar da interpretação de Marx com relação a História ou de suas previsões sem negar a possibilidade de que outro sociólogo, talvez melhor informado, pudesse obter resultados concretos neste sentido.
Outra questão - levantada por Weber e exaustivamente discutida pelos positivistas - diz respeito até que ponto Marx confunde ou mistura o será com o DEVE SER. Afinal de contas sabemos que ao invés de conformar-se com o determinar em termos de dinâmica material as ulteriores caminhos do capitalismo, Marx ousou sugerir o que deveria ser feito e conjecturar a respeito do que ocorreria depois i é após o colapso do capitalismo e a criação da sociedade por ele mesmo idealizada... Fica evidente que saiu dos trilhos e num determinado momento passou a profetizar...
Que cada qual decida até que ponto deve acompanha-lo.
Buscando lançar alguma luz sobre o tema. Tendo em vista o estado de confusão reinante.
Para tanto devemos antes de tudo buscar uma definição satisfatória para o termo.
Aqui, optamos pela de E Troeltsch:
"Historicização fundamental de todo conhecimento acerca dos seres humanos, sua cultura e valores."
Ou seja a percepção de que cada área do saber, estando inserida numa dimensão temporal, possuí uma História e que estas Histórias tem relevância.
Podemos assim falar em História da economia, História da psicologia, História da sociologia, História da pedagogia, História da literatura, História da matemática, História da arte, etc
Podemos pensar na História da História inclusive.
Todo conhecimento construído pelo homem tem sua História que é o caminho por ele percorrido ou seu processo de desenvolvimento.
Neste sentido sou Historicista convicto.
Tanto melhor compreenderemos qualquer ramo do saber caso conheçamos sua 'História'.
Independente da área que estivermos estudando o conhecimento Histórico sempre acrescentará alguma coisa.
Para além desta definição não hesito em corroborar a tese segundo a qual, juntamente com a Sociologia e a Psicologia a História constituí um ramo capital em termos de conhecimento humano.
Não posso dizer qual destas três áreas seja superior as outras. Julgo todavia que as três ocupem o topo da pirâmide no contexto das 'humanidades'.
Caso desejemos compreender o que seja de fato o fenômeno humano não nos podemos furtar a exaustivas investigações no domínio da História.
A qual por isso mesmo foi apontada por M T Cícero como sendo a 'Mestra da vida.'
Mestra porque conserva os traços do caminho porque a vida passou.
Nem poderíamos compreender bem o momento presente sem perscrutar o passado em busca de causas particulares e imediatas. E a companhar as raízes das causas até a maior profundidade possível...
Em certa medida como diz Marc Bloch, foi o Cristianismo - com sua doutrina da encarnação de Deus na História - que endossou este sentido e aproximou o homem dos estudos Históricos. Desde que Deus se insere no tempo e no espaço, a História e a Geográfica constituídas em torno deste evento adquirem uma conotação de sacralidade.
Talvez por isto o Catolicismo genericamente concebido, seja uma religião de Historiadores.
Pois trata-se duma fé, mais do que qualquer outra, fixada em torno de um evento passado.
Até aqui somos historicistas assumidos.
Temos agora uma terceira definição, um tanto distinta, fornecida pelo sr K Popper, conhecido epistemólogo:
"Abordagem das ciências sociais, que pressupõem a previsão histórica como seu objetivo primário, supondo que lhe caiba a tarefa de deslindar o ritmo, o padrão ou as 'leis' ou as 'tendências' que presidem a evolução ou o curso da História."
Aqui o objetivo da definição e da crítica, alias amarga, de Popper é Hegel, teórico de que Marx, o grande desafeto de Popper é tributário. Assim Popper vai a Hegel com o intuito de remover mais um fundamento de Marx e infirmar seu sistema.
Neste sentido a própria definição de Popper deve ser apreciada as luzes do historicismo ou se querem da arqueologia das ideais. Sua própria estrutura remete-nos aos últimos anos de Hegel - + 1831 - bem como a apreciação de Comte e aos titânicos embates travados entre os positivistas e não positivistas ao cabo de longos 50 anos i é até meados de 1880/90.
Tais embates foram na verdade travados não só em torno da cientificidade dos estudos Históricos mas da própria definição de ciência, cuja construção remete-nos as primeiras décadas daquele século.
Mesmo nas décadas imediatamente anteriores a codificação do positivismo, havia já um ideário positivista em circulação. Segundo este ideário a natureza era presidida por leis inflexíveis de causa e efeito, disto decorre que sua apreensão em termos de ciência possibilitaria a previsão de eventos futuros... da compreensão do ciclo dágua resultaria a possibilidade prever com absoluta exatidão a chuva e estio... da compreensão das placas tectônicas decorreria a possibilidade de prevermos com absoluta exatidão um terremoto...
No entanto ainda estamos longe de prever tais fenômenos com absoluta exatidão ou mesmo de preve-los!
Seja como for o positivismo apresentou o padrão de previsibilidade como sendo uma das marcas da ciência.
Quanto aos que discordavam da definição ficou sendo ela ineficaz.
Já quanto aos que eram influenciados em maior ou menor medida pelo positivismo decorreram duas posturas radicalmente diferentes:
Uns reconheceram que a História nem era capaz de apreender leis gerais e menos ainda de prever qualquer evento futuro, ficando por isso mesmo excluída do 'quadro' das ciências.
Outros acreditaram poder descobrir as tais leis e atribuir-lhes previsões, tendo em vista a intenção de vindicar sua cientificidade.
Hegel e Marx limitaram-se a seguir este curso geral traçado não por eles mas por alguns teóricos positivistas.
Posteriormente a maior parte dos positivistas desistiu de procurar pelas tais causas abrangentes ou de conjecturar em torno da previsibilidade. Recusando-se a conceder a História qualquer status de caráter científico. Para tais teóricas era a Histórica uma técnica ou uma arte mas não uma ciência.
O próprio Popper parece ter endossado tais concepções.
Já os não positivistas aderiram a teoria da compreensibilidade de Dilthey.
Segundo este teórico a História não é explicável em termos de leis gerais de causa e efeito; mas compreendida em termos de relações entre elementos estruturais.
Posteriormente chegou-se a conclusão de que a busca de leis gerais ou causas mais abrangentes não pertencem ao domínio da História mas da Sociologia. A Sociologia é que cabe determinar se há um ritmo ou fluxo constante em termos de processo histórico, aquilatar as leis que presidem este fluxo e prever o que quer que seja. A História limita-se a encadear os fatos apontando as causas imediatas e particulares.
Agora se a Sociologia deve servir-se dos conteúdos da História para elaborar a si mesma, como poderia revindicar status científico para si sem concede-lo a História?
Como poderia ser o edifício científico caso uma das bases ou fundamentos não o seja?
De fato a História não pode prever.
Podem no entanto seus teóricos estabelecer conjecturas.
Imaginemos que qualquer líder europeu do futuro venha, numa situação de conflito ocorrida em dado momento futuro, a invadir a Rússia como Napoleão ou Hitler. Neste caso, uma vez que as condições sociais e materiais da Rússia sejam similares, as de 18... ou de 1942 ( i é que não tenham mudado drasticamente) podemos conjecturar que os resultados serão os mesmo e que ele venha a ser derrotado. Caso as circunstâncias sejam parecidas, as chances de que as consequências sejam as mesmas são consideráveis.
No entanto um tal fato ou evento nada tem a ver com a dedução de leis gerais, cujo objeto fica sempre pertencendo a sociologia.
Resta-nos declarar por fim que não é dado a História fazer um conjunto de previsões 'infalíveis' para o futuro.
Se Marx pretendeu faze-las fundamentado em seus conhecimentos históricos foi mais como sociólogo que buscava por causas abrangentes e leis gerais. Neste caso não temos nada a ver com isto. O que não cabe a História fazer talvez caiba a sociologia.
Limito-me aqui a abordar a questão do ponto de vista da História. No mérito da sociologia não pretendo entrar. Se a História pode ou não de fornecer ao SOCIÓLOGO um material capaz de - após ser analisado - propiciar a formulação de causas abrangentes e leis gerais que possibilitem prever os eventos futuros é questão que diz respeito mais a sociologia.
Alias até poderíamos discordar da interpretação de Marx com relação a História ou de suas previsões sem negar a possibilidade de que outro sociólogo, talvez melhor informado, pudesse obter resultados concretos neste sentido.
Outra questão - levantada por Weber e exaustivamente discutida pelos positivistas - diz respeito até que ponto Marx confunde ou mistura o será com o DEVE SER. Afinal de contas sabemos que ao invés de conformar-se com o determinar em termos de dinâmica material as ulteriores caminhos do capitalismo, Marx ousou sugerir o que deveria ser feito e conjecturar a respeito do que ocorreria depois i é após o colapso do capitalismo e a criação da sociedade por ele mesmo idealizada... Fica evidente que saiu dos trilhos e num determinado momento passou a profetizar...
Que cada qual decida até que ponto deve acompanha-lo.
sexta-feira, 14 de junho de 2013
Bolsa família - uma perspectiva histórica
Para que possamos compreender a mentalidade e os objetivos daqueles que desejam a suspensão da 'Bolsa família' convém analisar o discurso que durante as primeiras décadas do décimo nono século pleiteou a supressão do Sistema Speenhamland.
Iniciativa adotada pelos magistrados de Speenhamland, Berkshire; em 06 de maio de 1795 o 'Sistema Speenhamland' consistia em conceder aos agricultores mais pobres um abono ou auxílio em dinheiro, suficiente para que pudesse adquirir pão e consequentemente alimentar-se. O auxílio em questão correspondia ao número de filhos tendo em vista que criança alguma passasse fome. Sempre que o preço do trigo subia, o valor do benefício cobria os custos e garantia sua aquisição.
A primeira das advertências a serem feitas a propósito do sistema de 'Speenhamland' é que desde o princípio contaram com a oposição e crítica cerrada dos liberais.
O primeiro golpe desferido em 1797 partiu do liberal Frederick Éden...
Na 'Situação dos pobres de Inglaterra' ele atacou o sistema de Speenhamland como sendo um 'Impedimento ao progresso agrícola nos campos'... Desejava ele que o jornaleiro completasse as dezesseis ou dezoito horas de trabalhado necessárias para 'adquirir o pão com o suor de seu rosto' e deplorava que após oito ou dez horas de trabalho abandonassem o eito e tornassem a casa, sabendo que o quanto faltasse seria completado pelo benefício...
E o último de Harriet Martineau, a qual assim se expressou:
"Estes homens favorecidos pelo abono, eram um obstáculo a contratação de homens mais dedicados, dispostos a trabalhar duramente por sua sobrevivência; de modo que todos acabavam por acomodar-se..."
Como sempre a um lado enfileiraram-se os poetas, filantropos, humanistas, etc como Carlyle, Kingsley, Blake, etc e do outro os liberais...
Estes sempre repetindo a mesma senha: o abono fazia com que os pobre trabalhassem menos ou se acomodassem, comprometendo o saldo da produção...
E aqueles advertindo que o regime de trabalho era excessivamente cruel e que os pobre tinha ao menos o direito de viver.
No entanto o que estava por trás de toda esta luta titânica travada em torno das leis de assistência poucos podiam adivinhar ou supor.
Coincidentemente fora em 1795 que os anseios de Smith, finalmente haviam sido correspondidos... referi-mo-nos a lei de 1662 que determinava a 'servidão paroquial' e consequentemente prendia os 'vagabundos' as paróquias impedindo-os de circularem livremente pelo reino e de satisfazerem a oferta de emprego oferecido pela indústria apenas emergente noutras regiões.
Noutras palavras a afirmação da nova ordem social dependia da livre circulação da mão-de-obra.
Speenhamland no entanto, na medida em que assumiu a proteção do trabalhador agrícola e animou-o a permanecer no campo, preso a terra; frustrou mais uma vez os planos dos grandes investidores e teóricos no que concerne a formação de um proletariado 'independente' (a expressão é de Harriet Martineau) ou melhor dizendo de um exército de reserva determinado a trabalhar em troca de qualquer coisa ou de migalhas para não vir a morrer de fome...
Segundo Karl Polanyi Speenhamland representou o último grande esforço do corpo social e o derradeira muralha posta pela cultura tradicional face as exigências do mercado auto regulável.
Na verdade os críticos do 'programa' em questão estavam muito pouco preocupados com os fazendeiros, o aproveitamento racional da terra, o ritmo da produção, o preço dos alimentos, etc Tudo isto não passavam de desculpas ou de pretextos pois o único resultado esperado era a oferta abundante de mão-de-obra oferecida por um custo reduzido...
Pois na medida em que as crises agrícolas expusessem os rendeiros e suas famílias a fome; não lhes restaria outra alternativa senão passar a cidade e trabalhar para obter o mínimo necessário tendo em vista a conservação da vida. Contavam pois os empresários citadinos com o espectro da fome para convencer os camponeses a abandonar suas terras e aceitar o trabalho 'livre e digno' que lhes era oferecido...
Speenhamland no entanto esconjurava justamente o espectro da fome, permitindo que o camponês sobrevivesse em seu próprio ambiente... ao invés de tornar-se refém ou prisioneiro das grandes cidades.
Diante disto a crítica liberal pôs-se logo a declamar contra os perniciosos efeitos do abono; cunhando por sinal o termo 'paternalismo'... como cunhou mais tarde os termos assistencialismo, populismo, etc Tudo no entanto por simples cálculo ou oportunismo... uma vez que tais programas de redistribuição de renda impede que os patrões possam explorar com máximo proveito as massas desassistidas e desamparadas.
Tendo o que comer e vestir as massas já não se deixam explorar e já não aceitam trabalhar por mísero naco de pão. E a vadiagem até se lhes apresenta como mais digna e honesta face ao que encaram como vil escravidão... levando-os a 'negociar' com o 'senhor' e a exigir dele um salário melhor.
Evidentemente que todas estas decorrências frustram o meta liberal da maximização dos lucros...
Em tais conjunturas o patrão, o operário, o industrial... julgasse vítima por parte do Estado e passa a encara-lo como seu supremo inimigo e fonte de todos os males.
Por que impede que sua liberdade ou melhor que seu poder econômico suprima a liberdade do 'elemento servil' e abata sua dignidade.
Lamentavelmente Speenhamland foi revogado em 1834 correspondendo aos anelos do liberalismo.
Consequentemente em poucos anos a população agrária vendo-se em vias de morrer de fome abandonou os campos para concentrar-se no entorno dos grandes centros industriais como Manchester e Liverpool. Abrigando-se em miseráveis casebres de madeira e papelão e dando origem as primeiras 'favelas' modernas...
E sabemos que tipo de vida ficou reservada a este povo (de 1835 a 1890 - i é 55 anos!) que sequer possuía um palmo de terra para cultivar uma folhinha de alface... Podeis ler a tenebrosa crônica deste período áureo do liberalismo nas consagradas obras de Charles Dickens...
Por ora não removeremos todo este lixo fétido e pestilencioso produzido pela nova ordem...
Outro não é o significado do programa bolsa família no tempo presente!
Evidentemente que nos grandes centros urbanos como Rio e São Paulo - nos quais o custo de vida é consideravelmente alto tendo em vista o consumo desenfreado - o significado deste abono de 100,00 é praticamente nulo. Pois em S Paulo o valor de uma cesta básica chega a 345,00 reais...
No Nordeste, Norte e Centro Oeste no entanto, especialmente no campo; onde o custo de vida é bem menor e o custo com a alimentação de uma família pode chegar a 200, 150 ou mesmo 100 reais, A SITUAÇÃO JÁ É BEM OUTRA PORQUE ESTE PROGRAMA É CAPAZ DE ASSEGURAR A SUBSISTÊNCIA!!! Evitando situações de fome...
Duzentos anos depois esta evidenciado que o abono de Speenhamland proporcionou benefícios bastante concretos aos pobres de Inglaterra, evitando situações de morte, de fome e de extrema miséria e afastando daquele reino uma conflagração nos moldes da Revolução Francesa...
O mesmo podemos dizer a respeito do Bolsa família.
Afinal como sabido é de todos há sucessivas décadas as populações agrícolas deste país tem abandonado os campos em demanda das grandes cidades - fenômeno do êxodo rural - para converter-se em mão de obra assalariada e engrossar cada vez mais nossas periferias e favelas... E não podemos perceber como falta de tantos braços no campo pode ter beneficiado a produção agrícola e reduzido o custo dos gêneros...
A situação se nos apresenta ainda mais grave quando voltamos nossos olhos ao Nordeste assolado pela seca...
O qual durante gerações permaneceu abandonado pelo governo central...
E cujos habitantes foram em grande parte constrangidos a migrar para as grandes cidades do sudeste como Rio e S Paulo, potencializando a economia destes centros, gerando recursos, produzindo riquezas e obtendo em troca apenas e tão somente a miséria neste últimos e tristes tempos coroada pelo preconceito e a discriminação.
Evidentemente que tais contingentes não passaram as cidades e grandes centros econômicos com o intuito de passear ou de fazer turismo... não abandonaram o domínio ancestral por livre iniciativa... não deixaram seus lugares livremente mas quase sempre constrangidos pela ameaça da fome!!! Foi a fome que empurrou as massas sofridas do campo e do nordeste para o habitat urbano; no qual lhes foi reservada a pior parte...
Nem precisamos ser gênios para concluir que a situação acima descrita correspondia perfeitamente aos interesses dos investidores e patrões na medida em que propiciava larga oferta de mão-de-obra a preços bastante convidativos... permitindo inclusive a formação de um vasto exército de reserva e possibilitando, na prática, drástica redução dos proventos auferidos ao trabalhador e consequentemente a tão desejada maximização dos lucros...
O papel exercido pela miséria e pela fome nos campos vinha a calhar... era mister abandonar o campo a suas próprias forças para que sucumbisse miseravelmente e fornecesse mão-de-obra abundante as cidades; pois até bem pouco tempo acreditava-se piamente que o futuro estava nas cidades e no industrialismo e que nada devíamos esperar dos campos...
E nem podemos estranhar que o preço dos gêneros jamais tenha parado de subir na medida em que terras e mais terras foram deixando de ser cultivadas e tornando-se por assim dizer 'devolutas' quando não foram convertidas em pastagens... O empresário no então pode pagar o quanto quiser por sua lagosta ou alcachofra; enquanto ao operário sempre bastara um pedaço de pão, um ovo e algumas batatas... aqui quem se ferra sempre é o operário... pois o salário jamais lhe permitirá saborear alcachofra, lagosta...
Eis porque os meios de comunicação assoalhados pelo capital gritam todos os dias a plenos pulmões contra o bolsa família, esperando por sinal lançar o Sul e o Sudeste contra o resto do país. Porque os empresários ou sentem ou temem sentir a curto e médio prazo os efeitos do programa...
Pois na medida em que a fome não mais empurrar os campesinos e nordestinos para os grandes centros urbanos é certo que a mão-de-obra não deixará de sofrer certo impacto... o teóricos liberais são capazes de compreender exatamente o que estou falando e as massas sofridas do Sul e Sudeste também: sem a concorrência dos migrantes desesperados por uma vaguinha a procura por empregos diminuirá e acarretará por parte do patronato a necessidade de acenar com propostas tanto mais sedutoras em termos de salário...
Tolice seria crer que a lei da oferta e da procura no que diz respeito a ocupações e salários, permanecerá inalterada mesmo que o ritmo das migrações e deslocamentos: campo > cidade; diminua sensivelmente... Pois o exército de reserva diminuirá... e os salários terão de subir. Eis um autêntico suplício para tantos quantos buscam a tão alardeada maximização dos lucros...
Sem o fantasma da fome um número cada vez maior de pessoas lograra manter-se no seu lugar, no seu habitat, no seu canto, aquecendo a economia local; ao invés de vir morrer a minguá nos grandes centros urbanos.
Então percebam só o impacto que programas como o bolsa família produzirão ao largo de várias décadas... trata-se na verdade duma dívida que os estados do Sul e Sudeste - cujos empresários tanto lucraram por obra e graça da seca e das migrações - tem para com os estados do Norte e Nordeste ou que as grandes cidades tem para com o campo... campo sempre menosprezado e desprezado.
Enquanto para os parasitas que controlam o poder econômico significam gastos até certo ponto irrelevantes - caso tenhamos diante dos olhos o lucro exorbitante que sempre obtiveram - para o humilde caboclo refugiado em sua casinha de sapé significa mesa forrada, roupa asseada e saúde cuidada; efeitos que ao invés de minimizarmos como canalhas, deveríamos enaltecer como Cristãos e acima de tudo como membros da grande família humana.
Eis porque não posso nem quero ser massa de manobra destes empresários sem consciência ou dos meios de comunicação por eles financiados. Destarte o que classificam como paternalismo, populismo, assistencialismo, etc classifico como humanismo e encaro como cumprimento da justiça sob seu aspecto social.
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