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sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Breve ensaio sobre os escombros> Positivismo, Ceticismo, Etica e Utilitarismo...

 Certa vez ousou Nietzsche declarar que a cultura de seu tempo assemelhava-se a um grande campo juncado por ruínas... E já aludi a esta visão a um tempo feérica e a outro melancólica ou mesmo patética diversas vezes.

Jamais me esqueci de uma ilustração vista numa Enciclopédia ainda quando garoto - A qual mostrava Goethe com o olhar perdido diante das ruínas do fórum romano.

E no entanto Goethe contemplando o passado longevo e glorioso dos Césares e memorando os feitos de Scevolla, Furius, Cincinato, Cléia, Cornélia, etc sabe a um Homero, pois tem grandiosidade Épica.

Outro o caso de Nietzsche, o qual possuído pelo espírito dionisíaco assemelhava-se mais aquele profeta judeu que aspirava tudo arrancar pelas raízes para depois replantar; tudo abater para em seguida reconstruir, começando pelos fundamentos. São homens que empunham o camartelo e estilhaçam o belo mármore sem derramar uma lágrima sequer... Tais os iconoclastas. Os iconoclastas - Recicladores de ideais.

Tal nossa civilização - Campo em ruínas ou cemitério de ideologias putrefatas?

Desde que o Catolicismo, a ortodoxia ou a fé apostólica foi imobilizada e lançada por terra após ter imperado soberana por milênio e meio é possível parafrasear os Atos dos apóstolos e dizer a respeito de cada um dos sistemas que o sucederam: "Onde a pouco caiu teu esposo hás de cair tu também, e eis que os coveiros já se acham as portas."

Efêmero foi o triunfo do protestantismo, com seu furor bíblico e altas pretensões - Pois pelos idos de 1700 era já a intelectualidade inglesa descrita como incrédula pelos habitantes do outro lado da mancha. Que dizer então do outro lado do Reno, onde um Reymarus declarava que apodreceu o corpo de Jesus em alguma cova ignorada após ter sido roubado pelos apóstolos com o objetivo de simular sua ressurreição. Sem mencionarmos o imenso enxame de seitas descrito por Voltaire nas "Cartas da Inglaterra" e a sucessiva falencia do projeto totalitário calvinista...

Substituiu-o efetivamente a ordem materialista do liberalismo econômico ou do capitalismo, a qual, desde então, tem o protestantismo servido como um lacaio.

Entrementes veio o convívio democrático a triunfar num cenário, ainda maior: A França. Assim, em menos de século e meio as ruínas do protestantismo foram adicionadas as ruínas do antigo regime.

Resta-nos mencionar as contradições internas do capitalismo. As quais, como registrou Marx,  não tardaram a produzir miséria ou pauperização e, por consequencia a suscitar uma oposição socialista e por fim o advento do comunismo. E se o liberalismo econômico triunfara na Inglaterra de 1643, com a revolução Inglesa; seu antípoda viria a triunfar na Rússia de 1917 com a Revolução russa

Assim, cerca de 1917 as ruínas do protestantismo, do antigo regine e do capitalismo atulhavam o horizonte da civilização e prenunciavam seu ocaso. 

Em que pese outros colossos terem sido erguidos sobre elas - Ao lado do edifício um tanto combalido, mas ainda sólido, da igreja antiga. Assim o Comunismo, a democracia formal e o Positivismo (Sucessor da fé e da Filosofia) enquanto outros como o Fascismo e o Nazismo estavam a ser edificados, sendo aparentemente promissora a arquitetura do século XX...

E no entanto, abalo após abalo, todas estas construções portentosas estremeceram e vieram abaixo com grande estrondo... Até que não sobrou pedra sobre pedra.

O positivismo, que como sereia augurava as novas gerações um paraíso sobre a terra, começo a ruir pelos idos de 1918, até perder quase que todo seu encanto após a segunda grande guerra. A abominação nazista veio abaixo em 1945 juntamente com o Fascismo. Já o todo poderoso Comunismo resistiu por cerca de setenta anos, esboroando-se em 1990.

E no entanto, o desabamento mais fragoso no entanto deu-se em 1962 - a partir do Vaticano II - com a queda da igreja romana, assediada pela maçonaria, comprada pelo americanismo, flagelada pelo ecumenismo, contaminada pelo protestantismo (Protestantizada) apartada de suas tradições e privada de sua identidade... e reduzida a quase nada > Em comparação com o que fora cinco séculos antes.

E tudo quanto restou de grandioso (Junto com o livre arbítrio - Posto na mira dos ateístas e materialistas) foi a crença infantil e leviana nessa democracia meramente formal ou sem espírito, a qual é mais cria do positivismo do que herança legada pelos antigos gregos. Embora haja quem ouse apresenta-la como algo pronto, acabo e incapaz de ser aperfeiçoado, isto é, como o 'fim da História' ou o Capitalismo de Fukuyama - Pasme o leitor inteligente...

Ora, uma coisa é admitir que corresponda ela, hoje, ao melhor do quanto nos tenha restado (Refiro-me apenas a democracia ou ao liberalismo político, de modo algum ao capitalismo) e outra que não possa ou deva ser aprimorada i é ampliada, aprofundada, etc tornando-se mais funcional, eficaz, direta e popular.

Pois o palpite capitalista, segundo a qual, nossa democracia sem consciencia, se sustentará tal e qual é, ou seja, com suas limitações, vícios e defeitos, demanda uma profissão de fé bastante ousada. A qual não me disponho a fazer.

Alias - Quantos e quantos já não escreveram sobre os seríssimos problemas que envolvem nossa democracia mecanica e sem vida? Revel, Sartori, Bobbio, Ameal, Maurras, Huntington, Lucáks, Poulantzas, Gramsci, Cahn, Lindsay, Moss, Tocqueville, etc 

Há portanto chances bastante concretas de que mais e mais ruínas acumulem-se sobre a seara do velho mundo ao cabo deste século... 

Do capitalismo, que parece recuperar-se, nada devemos esperar, exceto que esgote todos os recursos naturais disponíveis, fabrique mais massas desmioladas paras serem manipuladas, incentive o crescimento irresponsável da população e conduza a humanidade a destruição, caso não entre em colapso.

O irracionalismo reinante todavia, serve-lhe de couraça impenetrável. 

Mesmo considerando que as fontes do Capitalismo ou sua causa eficiente, encontram-se dentro do próprio ser humano ou na esfera da vontade, ainda que a razão estivesse em seu zenite teria de despender considerável esforço para 'conte-lo'. Que dizer então sobre o nosso tempo ou a era do pós modernismo...

Suas contradições internas, ou fazem-no entrar em colapso ou levam nossa espécie a extinção, para a sorte das espécies que não chegamos a extinguir e que talvez sejam contempladas com uma nova chance. Salvo se a disputa pelos tais mercados conduzirem-nos a uma terceira grande guerra nuclear...

Caso o edifício da democracia formal, entre em colapso e venha abaixo, antes de converter-se numa democracia popular, real ou direta as perspectivas me parecem bastante sombrias. Na medida em que virá ela a ser substituída por novos totalitarismos - quiçá religiosos (Teocracia) - ou pelo anarco individualismo, compreendido como dissolução do que chamamos convívio social (O sonho de Max Stirner e Ayn Rand) e aqui temos algo que sequer podemos conceber, uma vez que não podemos imaginar o que jamais existiu.

Mesmo esta democracia precária, e que precisa ser ultrapassada, nos tem de fato beneficiado pelo simples fato de preservar--nos desses dois extremos perigosos representados pela tirania, o despotismo ou a ditadura de um lado e a anomia do outro.

Necessário entender que a democracia, para adquirir vitalidade, deve deixar de ser simples forma ou casca para atuar como espírito ou mentalidade na dimensão da cultura. Deve a liberdade, ao invés de ser negada pelos neuro cientistas levianos e irresponsáveis, converter-se em um valor significativo, em nome do qual as pessoas aceitem viver ou desejem morrer caso preciso for. Caso ela não produza conquistas significativas, caso não desperte amor, lealdade e coragem, caso não melhore as vidas das pessoas, correrá o risco de tornar-se indesejável e inútil.

Já as relações humanas, dentre elas a produção de bens ou seja o setor da economia, devem ajustar-se, acima de tudo as exigências da justiça. Não é o Mercado, porém a necessidade humana que deve determinar o salário, impedido assim a afirmação da miséria e evitando que a divisão social aumente até o conflito entre as classes. Tudo isto implica que a economia reconheça o primado da Ética. Me parece que não há melhor caminho que a liberdade no plano da política e restrição ou contenção Ética no plano da economia.

Resta-nos então alguma esperança?

Sim, certamente há alguma esperança, como também parece haver um poderoso obstáculo

Pois se o positivismo desabou como sistema fechado há no mínimo oitenta anos, permanece ainda vivo e pujante no plano da cultura, a partir de seus elementos dispersos ou dos escombros reaproveitáveis.

Mas qual será o problema do positivismo? Perguntará o católico ou o ortodoxo estúpido que só tem olhos para o comunismo, para o anarquismo e quem sabe para o capitalismo...

Cumpre dizer em primeiro lugar, que este modelo, pautado nas ciências exatas e biológicas, tudo envenenou e desvirtuou ao inserir-se nos domínios das ciências humanas, questão examinada com propriedade de Dilthey a Poincaré (Convencionalista) ao cabo de décadas. Mas quem hoje lê Dilthey ou presta atenção a Poincaré ou a seu cunhado Boutrou...

Observemos de passagem os estragos que causou apenas nos campos da Psicologia e da Sociologia. Quanto ao primeiro deu ele origem a toda uma corrente espúria chamada Behaviorismo - Uma análise superficial do Behaviorismo encontra-se no livro de Marilynne Robinson 'Além da razão' ed Nova Fronteira 2011 capítulo I pg 17. Já no campo da Sociologia a diversos sistemas, todos materialistas e mecanicistas, como os de Marx e de W Pareto.

Alegadamente é o positivismo (Mesmo o francês, herdeiro do iluminismo e portanto destemperado desde o berço!) enquanto filho do criticismo kantiano e do ceticismo Humeano, uma forma de agnosticismo. 

O que deveria força-lo - A respeito de tudo quanto ultrapasse da demarcação imediata dos sentidos (A empiria) - a restrição e ao silêncio, como enfatizaram os ingleses Huxley, Mill Spencer.

Apesar disto, foi o positivismo de Litreé (Alegadamente anti metafísico) sob a forma cientificista, endossando cada vez mais abertamente o materialismo, até vende-lo como científico, enquanto que a ciência, sendo estritamente empírica, é por assim dizer agnóstica face a tudo quanto ultrapasse a simples materialidade. 

Dado por inverificável o quanto esteja para além dos sentidos, fica inviabilizado ou impugnado o discurso materialista. Uma coisa é declarar que o campo da investigação científica restringe-se ao campo da materialidade ou que a ciência seja material e outra, totalmente distinta, é assegurar que não exista qualquer coisa para além da matéria - O que justamente não se pode investigar por meio dos sentidos ou da percepção. Pois dado que existisse algo para além da matéria jamais poderia ser percebido.

É coisa de simples entendimento - Sucede todavia que nem todos os cientistas são versados em Gnoseologia ou Epistemologia...

Diante disto, ao cabo de todo século XX o positivismo, sob a forma acintosa do cientificismo, tornou-se porta voz do materialismo. 

Nada contra os materialistas que tem a lealdade de fugir ao positivismo ou ao kantismo e de apresentarem-se como metafísicos.

Obviamente que tal não é o caso dos positivistas - Os quais aspiram promover a ideologia ou a elaboração mental\conceitual do materialismo como 'ciência' ou dado empiricamente constatado... Aqui há quem pretenda inclusive ser cético (rsrsrs) e ateu, cético e materialista, cético e positivista... 

No plano da cultura o quanto foi dito a respeito do ceticismo por Victor Brochard, em sua extensa monografia sobre os céticos gregos foi reproduzido em gênero, número e grau pelo insuspeito G Sorel.

O qual também pode verificar que é o materialismo - E ainda mais o ceticismo - uma ideologia 'de crise', a qual ele vinculou ao fim do mundo antigo... Antes do mundo antigo ter se lançado aos braços do mitracismo, do gnosticismo e do Cristianismo havia se lançado nos braços do ceticismo e do materialismo. 

Não passou em sua totalidade da razão a fé ou ao fanatismo, mas, a partir da segunda metade do século III d C do irracionalismo ao misticismo (No qual o próprio neo platonismo se havia transformado) e enfim as crenças; sendo recuperado para a razão ou a teologia, por um Cristianismo (A Ortodoxia oriental a partir do século VI d C) que havia incorporado Aristóteles e que viria dar origem as diversas escolásticas. 

Embora alguns digam que este homem antigo fartou-se da razão, parece que foram mais propriamente as condições sociais adversas que fizeram este homem dela desconfiar até a negação ou ainda que a dúvida insuperável e pessimista foi potencializada pela situação externa do mundo, (Assim por calamidades naturais, conflitos bélicos, epidemias, miséria, etc) a qual parece ter repercutido negativamente nos domínios do intelecto, fazendo com que muitos passassem a desconfiar até mesmo de si próprios.

Assim o homem de hoje é precipitado pela crise do tempo presente nos braços das ideologias negativas que reforçam essa mesma crise. 

O homem angustiado ou neurótico da Sociedade do capital - Que trocou a família pelo culto ao trabalho e a viu sucumbir. - chegou a duvidar seriamente de sua capacidade e a sentir-se de todo incapaz ou inábil. 

Isso a um tal ponto que bastou a falsa religião apresenta-lo como culpado, impuro, corrupto e isento de qualquer qualidade para ele acreditar e encarar a si mesmo dessa forma.

Desde então a própria sociedade, enquanto convívio dos homens, não encontra regeneração... Uma vez que a partir do nada ou do vazio não se constrói coisa alguma. Uma vez que o nada o torna ainda mais frustrado. Uma vez que a impotência produz apenas decepção. 

Mesmo antes de ter tirado sua máscara e assumido aquele viés materialista que haveria de caracteriza-lo posteriormente, o positivismo, desde os tempos de Litreé, tendo declarado guerra a metafísica ousou repudiar a viabilidade da Ética enquanto valor universal e unificador. 

Já Brochard, em sua já citada obra, havia registrado que os antigos céticos costumavam ficar exasperados quando seus contraditores embrenhavam-se pelo caminho da ética, uma vez que nada tinham a oferecer e eram levados a admitir que absolutamente tudo era permitido... 

O que evidentemente assombrava seus contraditores, embora de modo algum assombre o homem leviano do século XXI. 

Mason acaba de morrer e esse Mason que acaba de morrer, foi quem urdiu o assassinato de Sharon Tate, seu filhinho e seus hóspedes, alegando que 'Tudo era permitido' uma vez que ele e seus seguidores não admitiam que assassinar, roubar, etc era errado... E como nada de externo ou de objetivo ao individuo além da sociedade falível... Como não há uma Ética transcendente, universal e unificadora... Com que direito podemos nós, a partir de nossos princípios e valores individuais, subjetivos e relativos julgar um Mason, um Streicher ou um Maníaco do parque e com que direito os podemos julgar e punir...

O que nos faz julgar e punir, com absoluta propriedade, tanto um Hitler quanto um Goebels ou um Himler é uma lei natural, essencial e comum que transcende a cada individuo e é fonte de direitos inerentes para todos os seres humanos. É sobre este conceito ou noção que se assentam os fundamentos mais remotos de nossos aparelhos judiciários.

Eliminado esta lei natural e estes direitos inerentes, como querem Kelsen Ross, apenas a instância social ou o poder político sobrepõe-se a pessoa.

Aparentemente semelhante doutrina não parece apenas inofensiva mas até sensata... 

E no entanto quantos não foram os crimes cometidos pelas sociedades, estados e organizações políticas ao cabo da história... A escravidão negra nos EUA, o Apartheid na África do Sul, os Campos de concentração nazistas na Alemanha, etc 

Daí Thoureau ter elaborado a doutrina da desobediência civil, embasada na consciência pessoal, a qual é tão digna e nobre quanto o poder político o é. 

Assim se Ross Kelsen personificam CreonteAntígona é feita valer pelo autor de Walden. Importa que hajam valores objetivos, comuns e essenciais acima de Antígona, Creonte, Ross, Kelsen, Hitler ou Mason... Aos quais se possam reportar todas as pessoas e sociedades.

O positivismo, todavia - E por questão de crenças ou de metafísica. - não o pode admitir...

Afinal Justiça e Liberdade são conceitos puros, que não podem ser experimentados, vistos, pesados, medidos, contados, etc E, sendo assim não existem apenas nos diferentes indivíduos, porém de diferentes formas. E o que é liberdade para um já não o é para outro... Nada de objetivo e externo aqui. 

Caso a justiça exista externamente e tenha uma forma comum, terá de existir e de subsistir imaterialmente... 

O que o positivismo não pode admitir. 

Sendo assim todo essencialismo ético, todo universo socrático/platônico é fundamentalmente abalado pelo positivismo. Pois é metafisico duma metafisica imaterialista ou espiritualista sem a qual a solução ética formulada pelo filho de Fenarete vem abaixo e desabada fragosamente. Enquanto ali, ao lado, diante dele, está Trasímaco, partidário de Creonte ou da força, do poder arbitrário.

Lamento te-lo de repetir pela milésima vez neste tempo em que se fala, tanto e tão levianamente, sobre ética. 

Afinal o grande mérito do pós modernismo anti positivista foi dar razão aos Católicos e reabilitar o tema da ética. Sem no entanto saber ou poder soluciona-lo, pela via do irracionalismo. Posto que por via do irracionalismo nada se soluciona ou conclui. 

Seja como for do positivismo jamais partiu qualquer sistema de ética, e ele jamais ocupou-se da ética mesmo quanto não chegou a nega-la honestamente com Litreé... O máximo a que seus profitentes chegaram foi a identificar a ética ou os valores com uma dada cultura humana, o que nos leva, não apenas ao relativismo, mas, como já foi dito, a instância da sociedade, como sendo o padrão com que nos deveríamos conformar. 

Ao postular o relativismo Etico ou cultural Durkheim, Levy Bruhl e os seus, ao menos remotamente, forneceram um suporte perfeito para Kelsen e este um suporte perfeito para a estatolatria e conformismo típicos do ceticismo enquanto negação de um modelo ideal. 

Foi assim com Pirro na antiga Grécia, e, ninguém mais conformista e conservador do que ele, dirá o citado Brochard... e não poderia ter sido diferente, pois como assevera Recaséns Sichens, não há crítica ou resistência, ou oposição possível a um dado concreto sem que haja uma instancia ideal. 

Negando doentiamente essa instância ideal e portanto, na mesma medida, a correção ou mudança, ceticismo e positivismo (Um Ceticismo ametafísico ético e estético.) tendem a ser conformar com o que é e a fazer com que nos submetamos docilmente a um veredito social que nem sempre é certo.

Remova a ética no entanto e que nos restará: O racismo, o escravismo, a tortura, o machismo, a pedofilia, a guerra, a matança de animais, etc

Irrelevante ou mesmo ocioso condenar tais monstruosidades em nome do individuo, da autoridade ou do grupo social. Pois alguém mais atilado, como um Mason, percebendo o logro, sempre poderá classificar tal condenação como mera opinião e discordar. 

É necessário condenar o machismo, o racismo, o odinismo, o adultismo, o especismo, o escravismo, etc em nome de um princípio objetivo, comum e superior a todos. De modo que a condenação seja categórica e o castigo justo.

É necessário fulminar tais vícios com uma condenação absoluta e  irretorquível. 

A qual independa da anuência ou da vontade dos indivíduos. 

Em nome de uma lei a que eles não poderão furtar-se porquanto sob quaisquer alegações.

O que sempre nos levará ao conceito de Lei natural, digo de que a Etica corresponde a uma Lei natural tão impositiva quanto a Lei física ou a Lei biológica.

O materialismo jamais ultrapassara o utilitarismo crasso i é aquele de Benthan, o da pior espécie... Mesmo porque Benthan, por questão de princípios jamais poderia considerar algo de unificador num universo puramente material. O quanto podia ele ver eram apenas elementos dispersos: Arvores, animais, casas, grupos sociais, culturas, opiniões, pontos de vista, etc sem qualquer mínima conexão ontológica.

Todos estão fartos de saber que o utilitarismo original, concebido por Benthan a partir do ateísmo ou do materialismo foi um utilitarismo individualista capaz de justificar Mason, Hitler, Tamerlão, etc

O que forçou J S Mill inserir naquele sistema o elemento da alteridade ou da empatia, o qual ele disse ter tomado ao catecismo ou ao Evangelho. Que os ateus, materialistas e positivistas (Não me refiro a bíblia ou antigo testamento e nem mesmo as cartas dos apóstolos porém as lições de Jesus ou a suas palavras assentes nos quatro Evangelhos - Quero deixar isto bem claro.) encaram como uma produção grosseira.

Solidariedade ou empatia empiricamente falando nada é. 

Por via do materialismo somos seres separados uns dos outros e não podemos jamais fugir ao individualismo com todas as suas funestas decorrências. 

Mas temos os mesmos corpos! 

Não, não temos os mesmos corpos. O que temos são corpos semelhantes quanto a forma ou a constituição, mas diversos quanto a extensão e por isso a dor sentida por um não jamais se propaga ao corpo do outro... 

Mas eu talvez venha a passar pela mesma situação... Isto continua sendo sempre uma mera suposição, a qual, rigorosamente falando não nos obriga a coisa alguma. 

Todo e qualquer sistema de ética que parta do materialismo jamais conseguirá opor-se com sucesso ao individualismo. Serão individuos buscando suas vantagens, bem a gosto do darwinismo social, o primo cientificista do utilitarismo benthaniano por sinal.

Considere o leitor o caso de tais indivíduos terem que matar, roubar, mentir, trair, etc 
para obterem os resultados a que aspiram, se realizarem e assim conquistar a felicidade? 

Fará voce um belo sermão dizendo que cada um deles deve abrir mão da própria felicidade ou imolar-se... Com base em que experiencia ou constatação empírica... Só se for com base nos romances da Bárbara Cartland...

Dirás que o direito deles termina onde começa o do outro... Que devem se colocar no lugar do outro... Que é errado... Etc

Pois bem, onde e por que modo são tais afirmações comprovadas pela ciencia.

Pelo contrário> O que mais vemos nesse curioso mundo são cientistas de tendencia darwiniana (Pobre Darwin) ou darwinistas sociais, publicando livros nos quais declaram que a traição, a mentira, etc corresponderam a mecanismos ou a estratégias evolutivas...

Teme ao menos - O criminoso, dirá voce. - ser apanhado pela justiça, ser descoberto, ser preso, ser punido, etc

O conselho até seria bom caso não deixa-se implícito que um crime não descoberto ou punido nada significa. 

Aqui, o quanto nosso defensor da 'Teoria pura' esta fazendo é, na prática, estimular o crime perfeito, por parte dos que se acham habilitados. Provavelmente voce responderá dizendo que não existe o crime perfeito - Ao que posso objetar: Alguns crimes são de fato tão perfeitos a ponto de voce, ignorando-os poder negar confortavelmente sua existencia. Direi no entanto que antes do DNA inumeros crimes foram 'relativamente' perfeitos e que outros só foram descobertos décadas após as mortes de seus autores, os quais de fato jamais responderam por eles ou receberam punições conseguindo burlar a justiça humana.

Naturalmente que se alguns conseguiram, alguns outros que tem perfeito conhecimento dos fatos e que se julgam competentes - Já dizia Cecília Meirelles Nada mais comum do que alguém atribuir a si mesmo excessivo valor... 

Sendo assim, ao menos para algumas pessoas pretenciosas a  impunidade por si só, face as autoridades humanas, equivaleria sempre a um estímulo ou a uma permissão, para que cometessem crimes.

Senso assim a doutrina utilitarista individualista corresponde, sob todos os aspectos possíveis a um fiasco completo.

Hume merece certamente ser aplaudido por sua honestidade e franqueza, quando partindo de seu ceticismo inveterado, teve de concluir que o assassinato não constitui um mal em si mesmo e que a única coisa que o transforma em crime é a lei baixada pela sociedade. 

Portanto não havendo punição ou lei externa não haveria crime.

Tortura e estupro tampouco seriam males condenáveis em si mesmos, exceto se condenados pela sociedade. 

Agora imaginem uma Sociedade que aprovasse a tortura, como a Comunista, a Fascista, a Nazista - ou uma outra, como a islâmica, onde estupro de vulnerável ou de infiel fosse autorizado... 

Eis para onde nos levam Hume e o querido ceticismo...

Agora reflitamos sobre o que sucederia caso as pessoas, em especial as massas ouvissem-no e o levassem a sério.

Reflita! 

Imagine uma Sociedade em que o sistema de Mill fosse adotado sem os atavios tomados ao Cristianismo (Tornando a ser o de Benthan) com sua ética revelada... Sim, pois o outro nome do utilitarismo individualista é darwinismo social; amiguinho Benthan e amiguinho Spencer estão de mãos dadas... E nessa sociedade regida por princípios egoístas; compaixão, amor, justiça, etc não apenas carecem de todo sentido ou são meros nomes como representam desvantagens em conflito com as investigações científicas.

Agora veja um clamoroso exemplo ou reflexão que tomo Peter Singer - Por que raios continuamos a torturar e matar animais inteligentes, como cobaias, ratos, macacos, cavalos, cães, gatos, etc com as bençãos dos cientistas positivistas e dos patrões ou empresários apenas para emprega-los em 'experiencias' (Torturas escabrosas, repito) e ter uns sabonetes, perfumes, xampus e desodorantes, e medicamentos, melhores ou ainda para adquirir uns certos conhecimentos... Por que continuamos a fazer isso após sabermos que tais seres não apenas são sensíveis, como auto conscientes, resistentes a morte e sobretudo inteligentes...

Trasímaco responde: Fazemos isso primeiramente porque podemos ou temos força, armas, etc e em segundo lugar porque obtemos vantagens ou benefícios> Eis ai o belo utilitarismo produzindo seus frutos podres i é uma autentica hecatombe! E os cientistas acríticos e negadores da Etica e de lei natural, executam, aplaudem e defendem tudo isso, para depois criticarem os religiosos ignorantes e iletrados que sacrificam animais a seus deuses... Eis a estirpe dos evoluídos positivistas...

Observem mais uma vez este trágico quadro - Utilitarismo, Individualismo e Darwinismo social... 

E reflitam sobre de que maneira poderiam tais doutrinas servir de anteparo as culturas de morte do Anarco individualismo, do Fascismo, do Nazismo e do Comunismo... 

O positivismo, o cientificismo, o ceticismo, o materialismo e sobretudo o ateísmo jamais poderão servir de fundamento a qualquer sistema de Etica nimiamente humanista i é capaz de proteger, valorizar e promover o ser humano face aos clamores das culturas de morte acima citadas! Que dizer então sobre uma Etica supra especista capaz de vindicar os direitos dos animais acima citados!

Afinal sempre serão sistemas estruturais ou funcionalistas a que sempre se poderá escapar. 

Não cogitam em eles em liberdade ou justiça e por isso jamais serão capazes de inserir vida em nossa democracia semi morta ou de reformar as instituições econômicas produzindo uma sociedade mais solidária e fraterna. 

Não devemos esperar qualquer redenção do positivismo ou de seus tentáculos, tampouco do empirismo e do ceticismo e enfim do pós modernismo. Desse balaio não saí Etica alguma. 

Assim enquanto mais e mais escombros vão caindo sobre nossas cabeças (E diante do cenário feérico que é este imenso campo, coberto por ruínas monumentais.) só nos resta ir bater a outras portas...

Seremos capazes de reconstruir alguma coisa??? Não sei, não sei, não sei; mas certamente devemos tentar...

Poderemos aproveitar algum material?

Mármores e pórfiros sempre podem ser reaproveitados com sucesso...

Reciclagem é sinal de inteligência...

Algo há que possa ser recuperado?

Veremos, veremos...

Precisamos porém de um elemento coordenador...


Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte': 


  • Americanismo
  • Protestantismo
  • Capitalismo
  • Comunismo
  • Anarquismo
  • Conservadorismo
  • Pós Modernismo
  • Sionismo 
  • etc

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Positivismo e pós modernismo, uma conjuração contra o homem.

Aparentemente é o pós modernismo uma reação ou protesto face ao credo positivista. Uma erupção subjetivista ou psicologista face ao objetivismo chão arvorado pelo positivismo. A negação do sistema concebido por A Comte.

E no entanto há um traço comum entre eles: O repúdio a razão, a reflexão ou enfim ao que definem como racionalismo e comparam a religião, e a sua atividade metafísica. É o empirismo crasso anti metafísico. Assim o ceticismo, o relativismo e o subjetivismo crasso ou psicologismo.

O empirismo crasso por negar a idealidade.

O psicologismo contemporâneo por negar a objetividade seja da percepção ou do raciocínio.

O 'Loci commune' aqui é o repúdio a metafísica enquanto capacidade ou possibilidade.

Honesto, o cientificista ou empirista do século XIX, acompanhando Littré - Comte era demasiadamente influenciado pelo 'Catolicismo' - repudiou a Ética por confundi-la com a moralidade ou com a fé religiosa.

Desde então foi o homem convidado a contentar-se com o que é e a repudiar o que deve ser i é a idealidade, equiparada a imaginação ou a fantasia, e lançada a esfera das coisas individuais ou relativas.

Hoje no entanto adoramos falar em Ética, ainda que levianamente, devido ao preconceito anti metafísico canonizado por Kant e Litree. Mas é como discursar sobre uma casa sem paredes... A Ética além de ser ela mesma um esforço metafísico, carece em última análise de um reforço gnoseologico ou metafísico. Afinal de que serviria ao homem uma Ética que não fosse verdadeira ou que fosse relativa se estamos a falar na convivência?

Fique claro que por isso não produzimos ou temos uma Ética consistente, apenas um discurso vazio, logomaquia ou verborragia... A critica católica ou humanista já havia abalado o discurso anti Ético do positivismo no final do século passado. O delírio não durará mais do que vinte ou trinta anos. Mas foi o quanto bastou para que mil Trasímacos sem consciência pensassem conflitos mundiais. Os quais eclodiram vinte anos depois.

Por falta de espírito crítico, idealidade ou Ética o cientificismo positivista colaborou imensamente para que o novo espírito materialista, economicista ou capitalista invadisse e se assenhorasse das sociedades católicas. E seu conformismo ou solidariedade disfarçada foi ainda mais danoso do que a inação Cristã.

Após terem estourado duas grandes guerras, com o saldo de milhões e milhões de mortos, a solução positivista teve de ser revista. Afinal, caso a ciência produzisse Ética seus representantes não apelaram ao pragmatismo ou ao utilitarismo com o objetivo de advogar o uso de animais em experiências, o que nada significa além de colocar se acima do bem e do mal, e, com a mesma arrogância das seitas religiosas, o que vem a expor o caráter místico do cientificismo. Tal foi e é o caso das armas de destruição maciça ou da Bomba atômica...

Estreitamente empírica, por necessidade, a ciência não pode dar Ética que por definição critique a realidade dada e proponha um padrão ideal. Pelo critério do que é não se chega ao que deverá ser... Diante disto só restará ao cientificista ou positivista do pós guerra servir-se do pragmatismo ou do utilitarismo os dois únicos sistemas de Ética ensaiados pelo ateísmo e pelo materialismo.

O problema aqui é justamente que a partir do que é dado ou do que é não nos parece convincente ou terminante que este utilitarismo deva ser social, como queria J S Mill e não individualista. E empiricamente não percebo, nem creio ser demonstrável que Ayn Rand esteja equivocada... É até me parece que ela é seus pares tenham alguma razão quando alegam que Mill tomou remendos sociais ou gregários ao Cristianismo ou a cultura...

Os cientificistas e positivistas há tempos que prometem uma Ética própria e favorável ao homem, mas... Não tem podido cumprir a palavra. É por que? Simples, porque a Ética é um exercício essencialmente racional ou metafísico destinado a romper com a realidade dada, a nega-la, a ultrapassa-la, etc tendo em vista um padrão ideal. Além disto as pretensões da Ética são atemporais, universais e absolutas i é em torno de alguns princípios e valores comuns a todos os seres humanos ou unificadores. Não John Gray não está enganado ao por o pensamento seminal dos antigos gregos em tais termos. É nossa herança!

Não é menos verdade que foi já o positivismo demolido pelo pós modernismo e por ele substituído enquanto moda ou fetiche do momento. Sem que no entanto houvesse qualquer mudança significativa em termos de Ética. Já porque o pós modernismo costuma ser ainda mais feroz que seu predecessor em sua crítica à objetividade de qualquer valor ou princípio universal. O ideal aqui, quando existe, é sempre fragmentado ou individual e nada transcende a esfera do individual.

O primeiro retirou-nos a razão é o segundo a experiência ou percepção. Até que nada restasse ao homem ocidental em termos de 'comum' e ele se converte-se numa ilha ou universo incomunicável, onde a identidade e a comunhão tornaram-se impossíveis. Perdemos a verdade Ética e em seguida a Verdade ontológica. Que nós restou? NADA... apenas o vazio, sinônimo de miséria cultural e civilizacional. Andamos para trás e podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que o pós modernismo não corrigiu mas ampliou e aprofundou o erro essencial do positivismo. De um extremo a outro da gnoseologia contemporânea nada lucramos.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

A ideologia de Pedro Loujine e o 'Dar metade da capa a quem pedir'

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Não poucas vezes a alta literatura brinda-nos com a feliz oportunidade de refletir sobre diversos assuntos quais sejam religião, sociedade, economia, política, etc

Autores há cujas páginas oferecem-nos a possibilidade de abordar as mais variadas áreas do conhecimento humano. Tal a vastidão e profundeza de suas obras...

Felizmente escritores há, que a semelhança de Midas, tudo quanto tocam convertem em ouro fino e precioso.

Que dizer então se o próprio tema é de elevado quilate?

Assim Machado de Assis e Lima Barreto entre nós brasileiros. Eça entre os lusitanos. Flaubert, Balzac e Mauriac entre os franceses. Dickens, Swift e Defoe entre os ingleses. Os dois Sinclair (Upton Beal e Lewis) Melville e Jakc London nos EUA. Tolstoi e Dostoevsky entre os russo; mas, dentre todos os escritores este último. Entre os românticos: Swell, Bronte, Austen e Stowe. E entre os históricos Watari, Graves e Gore Vidal. Tais os clássicos, dentre os clássicos. Mas leiam Também Edgard Allan Poe. 

Era o predileto de Nietzsche e também de Freud com os quais aqui, estou de pleno acordo.

Preciso dizer que a acuidade psicológica do mestre russo é inexcedível?

Alias sendo 'Épico' por natureza e certamente tolstoiano, não posso deixar de curvar-me face ao moderno mestre universal da tragédia, e em cujas obras topamos com aquele sentido trágico tão peculiar a humana existência, tão patético e tão marcante.

A propósito de qual seja sua obra prima há variedade de opiniões. Assim uns são pelos irmãos Karamazov, uns pelas notas do subterrâneo, alguns por recordações da casa dos mortos, havendo ainda quem seja pelo grande inquisidor ou pelo idiota. A maioria dos críticos no entanto parecer ser por Crime e castigo, obra cujo lançamento acabou de completar século e meio no ano passado uma vez que foi publicada em 1866, no Diário russo, uma publicação mensal.

Uma coisa no entanto é certa - Ao ler qualquer escritor busque uma tradução que reporte ao original e não uma tradução de tradução.

Assim quanto a Crime e castigo não faça regateios e se possível for adquira a tradução feita por Pedro Petrovitch em 1930 e publicada pela Editora Americana. É integra, literal, absolutamente fiel, em que pesem ligeiros errinhos quanto ao vernáculo i é ao português, devido quiçá a edição. Há alguns dias lí um anúncio em que pediam trezentos reais por uma delas. Direi que se trata de um investimento...

Se puder ler antes ou se já leu "Recordações da casa dos mortos" ou "Memórias do sub solo" melhor. Delicie-se então.

Delicie-se porque aquilo é um desfolhar da alma humana, tocando a suas fibras mais íntimas.

Os períodos são imensos, gigantescos, colossais... Fazendo jus a complexidade do objeto.

É uma introspecção após a outra:

"Ignoro assim quais sejam as causas mais remotas a que aludi; porém o amigo deve conhece-las. É homem inteligente e sem dúvida deve já ter analisado a si mesmo."
Analise-se e se reconhecerá em algum de seus personagens seja Raskolnikoff, Razoumikhine, Nastasia...
Quando a mim, neste pequeno artigo, desejo focalizar o Pedro Petrovitch Loujine, noivo de Dounia, futuro genro de Dna Pulqueria e cunhado de Raskol...
Pretendo na verdade focalizar um dos 'discursos' de Pedro Loujine assente a pg 156 (e sg) da citada tradução.

A qual vale a pena reproduzir:

"Não, isto não é um lugar comum! Se me disserem: "Ama teu próximo." e eu queira realizar este conselho, que resultará daí? Respondeu Loujine. Rasgo minha capa e dou metade ao próximo e? Ficamos ambos si - nus... Assim a ciência, a seu lado, mandam-me atender somente a minha pessoa, já que tudo neste mundo baseia-se no interesse pessoal. Aquele que segue esta doutrina, cuida convenientemente de seus próprios interesses e fica com a capa inteira para si. Acrescenta a economia política que tanto mais sólida e feliz será uma sociedade qualquer, quanto maior for o número de fortunas particulares ou de capas inteiras dentro dela mesma. Logo trabalhando apenas para mim, trabalho, pela mesma razão, para todos os outros, do que resulta vir meu próximo a receber mais do que a metade de uma capa; e isto não a merce de liberalidades individuais; mas em consequência de um progresso geral. A ideia se me parece bastante simples; infelizmente levou muito tempo para propagar-se e suplantar a quimera e o devaneio; e no entanto não me parece que seja necessária uma inteligência acurada para compreende-la." 
Já a primeira vista percebemos que se trata de um parágrafo prenhe de considerações ou teorias religiosas, filosóficas, sociológicas...

Há coisa que se explorar ai.

Arqueologia para se fazer.

Ossos para desenterrar.

E hoje, a semelhança dos pós modernos - Pois não há quem erre sempre e apenas erre - vou iniciar minha análise de ponta cabeça ou começando pelo fim.

Quem não compreende o enunciado acima, no caso Jesus e os Cristãos (Especialmente os Católicos ou Ortodoxos) é perfeito idiota. Pois não é necessário ser um gênio ou ter um Q I elevado para atinar com sua 'excelência'. Merecendo o conceito de alteridade ou empatia ser lançado ao mundo das fábulas ou quimeras...

Noutras palavras: Amar o próximo, identificar-se com ele, denotar qualquer nível de sensibilidade, ser solidário, etc Não passa de tolice!

Por cerca de vinte séculos ou de dois mil anos tem este planeta, em sua maior parte, sido povoado por uma imensa cambada de estúpidos ludibriados por um galileu tosco de nome Jesus. O qual ao invés de ensinar-nos a ignorar o próximo, ensinou-nos a ama-lo. Mas que pateta esse galileu... Como demoraram tanto para crucificar um charlatão desses?

Todavia como não podia a verdadeira luz permanecer encoberta e posta debaixo da cama ou da mesa, em algum momento da História teve ela de brilhar.

Acontece que apesar da patética trivialidade enunciada pelo autor a luz só veio mesmo a brilhar com todo seu esplendor a partir do século XIX.

Mas onde?

Em que espaço privilegiado pairou tão fulgurante luz?

"Como nós russos nos deixamos fascinar por opiniões alheias."
Bem se vê por ai, que a luz não surgiu lá na pobre Rússia e nos confins da América Latina... Paragens habitadas exclusivamente por bestas... Não é assim?

Divino Dosto dai-nos tua luz?

"Sim. Por que razões haveria ele de emprestar se sabe que o senhor não o paga? Por compaixão? Mas Lébéziatnikoff, apóstolo das ideias novas, explicou-nos há dias que atualmente é a compaixão condenada pela ciência, e que é esta a doutrina corrente lá na Inglaterra, onde a economia política é o que o senhor bem sabe." p 17

Bingo! A luz resplandeceu em Albion, digo na Inglaterra ou Grã Bretanha e iluminou o mundo espancando as trevas do Evangelho e do amor... Coisa e gente parva e sem instrução.

O livro é de 1866. Passando-se a cena no mesmo no ou, quiçá, no ano anterior, 1865.

Vejamos então que se esta passando em 'Merry England' a esse tempo...

Temos a "Origem das espécies" publicada pelo grande Darwin em 58. Mas... Até ai tudo bem, Darwin, jamais e até o fim da vida, ousou aplicar a doutrina da seleção natural a organização das sociedades humanas. Não era Darwin darwinista social, pois o que ele pretendia explicar por meio da seleção natural era a evolução dos seres vivos em termos biológicos.

No entanto desde 1862 ou mesmo antes Herbert Spencer (Especialmente no "Sistema de Filosofia sintética") divulgava já suas teses sobre o Darwinismo social (A expressão propriamente dita viria a ser cunhada mais de meio século depois) distorcendo o pensamento do naturalista evolucionário. E cunhando termos inexatos como o 'triunfo do mais forte', enquanto para Darwin o mais apto não era necessariamente o mais forte, mas aquele que possuía um aparelho ou instrumental físico mais sofisticado.

Mesmo antes de Spencer alguns pensadores ingleses como Benthan haviam já esposado uma ética utilitarista. Ideia retomada e reformulada por Stuart Mill num sentido mais social.

Nietzsche viria a tonar-se porta voz de todas essas ideias vinte anos mais tarde. Delas resultando a doutrina do super homem, para o qual a ideia de compaixão para com os fracos, ineptos ou desajustados socialmente falando, é uma aberração.

Nem podemos nos compadecer daqueles que a dinâmica social marcou com o insucesso mas consentir que sejam aniquilados pela dor sem soltar um suspiro sequer!

Não se trata aqui de aniquilar ou de exterminar como queriam os nazistas (Os quais deram um passo mais a frente) mas apenas e tão somente de não se compadecer, de não interferir, de não tentar minorar ou suavizar a condição daqueles que foram vencidos pela existência.

Tal a doutrina formulada pelos ingleses em seus círculos sociais pelo idos de 1860, e a qual alude Pedro Loujine.
Continua -









terça-feira, 3 de novembro de 2015

Reflexões sobre os postulados éticos da antiguidade Clássica

Não foi apenas Deus que segundo declaram morreu...

Nem sei como existindo poderia ele ter morrido ou como poderia ter morrido inexistindo, no entanto...

Compreenda-se que 'morreu' metaforicamente a ideia de Deus, alias aquilatada como genial por Bertrand Russel, na medida em que uma parte dos homens tem aderido ao agnosticismo ou a indiferença face ao tema de sua existência ou inexistência e outra parcela, bem menor, ao ateísmo.

Negar que o agnosticismo avance não podemos.

Não se trata aqui de um negar dogmaticamente a existência do Sagrado; mas de pura e simplesmente considerar a questão insolúvel, irrelevante ou supérflua.

Agora esqueceram-se de declarar nossos cronistas que a Ética também parece ter morrido.

Dostoievsky foi quem de modo mais eloquente reeditou a relação - Deus Ética - em tempos mais próximos... sabemos no entanto que já havia sido explorada e esgotada por I Kant e antes dele por Voltaire, Russeau, Leibnitz, Descartes, Bacon, entre os modernos. Suas fontes mais remotas no entanto remontam a nossa herança greco romana, a Antistenes, Sócrates, Diógenes de Apolônia, etc

Embora os emancipados desta geração limitem-se a rir debochadamente diante de raciocínios que reputam tão rasos e miseráveis, eles fazem parte de um lugar comum assaz explorado por nossa tradição filosófica até Nietzsche, During, Marx, Dietzgen, Freud, Sartre, Camus... quando o tema de deus foi declarado inadequado ou proclamado tabu.

Desde então a Ética carunchou e apodreceu como sói as batatas...

Claro que o nome Ética continuou a ser empregado.

Afora os positivistas e cientificistas fanáticos poucos atreveram-se a questionar a existência da moral ou da ética.

Houveram mudanças radicais...

Assumindo a nova ética um caráter individualista, subjetivo e relativista muito semelhante aquele que lhe fora atribuído pelos sofistas.

Justamente com Cristo, a Virgem, os Santos e todas as 'fanfarronices' do Cristianismo, também Sócrates e Platão, se quem que gentios e adoradores dos deuses imortais, receberam um pé na bunda ou melhor nas bundas...

Disse Sócrates que no futuro a humanidade reconheceria não ter feito ele mal algum. Já Xenofonte e Platão cogitavam que num futuro não muito distante todos haveriam de convir que jamais havia vivido homem tão sábio e virtuoso quanto o filho de Sofronisco e Fenarete... dois mil e quatrocentos anos depois no entanto... a intelectualidade contemporânea parece ter dado ganho de causa aos sofistas!

Invertemos, subvertemos... importa ter mantido o nome Ética, afinal as mentiras convencionais devem ser mantidas religiosamente, como dizia Mestre Nordau.

Sem mentiras convencionais fica difícil viver assim como vivemos...

Assim discutimos sobre nossos interesses, defendemos o que nos agrada, sustentamos aquilo que desejamos ou queremos e a tais exercícios de vã retóricos atribuímos o nome de ética.

Afinal em que consiste a ética contemporânea, oferecida pelo materialismo, ateísmo e mesmo agnosticismo senão na defesa do 'utilitarismo individualista', nome pomposo com que crismamos nosso egoísmo?

Perguntem ao Stirner, ao Nietzsche, a Ayn Rand e virão a saber que é ética contemporânea, isenta de elementos deletérios ou Cristãos. Nem puderam Benthan e Mill postular um utilitarismo social ou gregário sem que fossem representados como 'beatos' e escarnecidos. De fato nada na ordem natural constrange-nos a sacrificar os interesses individuais pelo interesse social. Eventualmente tal se sucede, como testifica Kropotkin no 'Apoio mútuo', mas nem sempre... Ademais se tais ocorrências não constituem lei tampouco tem o poder ou a força de constranger a criatura racional e livre.

Estou de pleno acordo com o pensador russo no sentido de que não podemos mais permanecer atidos a uma Ética religiosa, particularista e sectária. Nem por isso, com Dostoievsky, satisfaço-me com esta nova ética agnóstica ou ateística. Torno assim mais uma vez ao ideal ético do iluminismo ou melhor dizendo da Grécia antiga, este por sinal construído não em torno duma entidade situada fora do mundo ou para além do mundo, mas em torno duma entidade presente no mundo e em comunhão com ele.

Grosso modo o que distingue a ética antiga da nova ou a ética dos antigos gregos desta ética contemporânea é o desinteresse e o interesse.

Quando os antigos gregos refletiam a respeito dos grandes temas ou problemas relacionados com a Ética e sustinham esta ou aquela teoria face a qual nós, modernos, acreditamos poder tirar máximo proveito, verificamos que ele, raramente auferiam proveito das teorias que sustentavam.

Trata-se de um aspecto deveras interessante que nos conduz diretamente ao tema do amor a verdade, da busca pelo conhecimento, da livre pesquisa, da investigação desinteressada... e reputo este aspecto como um dos mais interessantes em termos de filosofia clássica.

Concentre-mo-nos na figura de Aristipo de Cirene, um dos familiares de Sócrates e desafeto constante de Platão... como é sabido de todos, concebeu ele um sistema de ética em torno do prazer apetitivo ou físico em termos de comida, bebida, sexualidade, etc Diante disto só nos restaria imagina-lo como um comilão, beberrão e promiscuo sobremodo intemperante. No entanto as descrições que dele possuímos parecem desfazer este juízo apressado... ao que tudo indica tratava-se de um homem virtuoso ou mesmo sóbrio.

Então por que raios arquitetou uma doutrina destinada a justificar a fruição dos prazeres físicos ou corporais? Certamente porque estava persuadido de que sua doutrina correspondia a realidade ou que era verdadeira... Diante disto por que não tirou maior proveito dela vivendo como um porco de Circe? Por que não tinha interesse ou melhor porque os antigos pensadores gregos não tinham o vezo de defender seus próprios interesses ou o que mais os agradava.

Argumentar em torno dos próprios interesses parecia muito pouco filosófico para aqueles homens.

O exercício da Filosofia parece ter algo a ver com o desinteresse imediato...

Não era um ato de argumentar em torno de conveniências ou oportunidades.

É justamente este viez que faz a grandeza daquela Filosofia.

Homens sustentavam teorias, ideias e opiniões, que aparentemente, não lhes propiciavam qualquer benefício ou qualquer vantagem imediata.

Sustentavam este ou aquele sistema por estarem persuadidos de que era verídico.

O padrão ou critério daqueles homens não era o proveito imediato ou uma vantagem a se tirar, mas a verdade ou o conhecimento da realidade.

Disputavam, arengavam, debatiam, discutiam, dialogavam... tendo em vista esclarecer algum ponto obscuro. E não justificar seus gostos ou seus vícios.

Filosofia grega jamais foi sinônimo de justificar algo que se fazia ou pretendia fazer. Eles não partiam de seus desejos, gostos, aspirações... tentavam antes de tudo alcançar o ideal ou saber como deviam fazer.

Os post modernos é que converteram a ética num exercício destinado a argumentar em torno das próprias ambições, gostos, desejos, aspirações... e a justificar os próprios vícios e defeitos, em particular o egoísmo. Tudo quanto temos hoje são apologias do egoísmo, sob a alcunha de individualismo.

Primeiro o homem age e depois justifica sua maneira ou modo de agir. Desde quando isto é ética?

Nenhum questionamento, problema, esforço... apenas defesa do que já se fez e pretende continuar fazendo sem cogitar em qualquer possibilidade de mudança. Afinal o homem de hoje converteu-se mesmo em medida de todas as coisas e legislador supremo para si... Como, diante disto, poderia este homem auto suficiente procurar por uma regra externa e universal de vida a qual adaptar-se???

Se constitui norma e regra para si mesmo...

Agora que elemento comum podemos ter que transcenda a política ou a democracia formal?

Elemento algum.

Pois somos individualidades específicas ou ilhas humanas cada qual com seus princípios e valores.

Diante de semelhante revindicação ou tomamos o político ou o social como único tipo de convenção destinada a nivelar a multiplicidade dos seres livres e estabelecer os limites do privado e do comum; ou reconhecemos como realidade única e irredutível esta infinidade de átomos humanos sempre prestes a se chocarem uns contra os outros...

No primeiro caso temos um estado ou uma comunidade, ou ainda um grupo soberano e inquestionável na medida em que a lei natural é obscurecida, restando apenas a lei positiva. Aqui os direitos e garantias da pessoa humana ficam em certo sentido ameaçados...  agora como postular direitos essenciais e inquestionáveis, sem fazer postular uma lei natural? E como postular uma lei ou direito natural sem tocar o problema de um Legislador natural??? Agora se o estado ou o grupo social assume o lugar deste legislador supremo ou natural quão grande não será o seu poder!

No segundo caso, do relativismo crasso ou absoluto, nem poderíamos condenar positivamente o nazismo, o fascismo, o comunismo, o fundamentalismo religioso, etc Pois o que um de nós condenasse outro justificaria... os homens passariam da discussão as vias de fato, desta a guerra, e chegaríamos ao Caos nos termos do 'Leviatã' de Hobbes... A extinção de todo e qualquer vínculo social, última e derradeira fase do individualismo, resultaria justamente no domínio do fraco pelo forte i é na tirania; ou num conflito universal.

Face a este dilema a solução mais plausível consiste em reconhecer o benefício da unidade política (em termos de uma democracia o mais direta possível) ou da lei positiva; limitada no entanto pela lei natural enquanto fiadora dos direitos essenciais da pessoa humana. Isto no entanto implica a ideia de um Legislador natural... Sem a ideia de um legislador natural ou de uma alma do mundo não há como erigir uma ética objetiva em torno da essencialidade, a Ética de que precisamos no momento presente para dar suporte ao humanismo.

Não podemos sair desta xaropada individualista ou destas justificativas em torno do egoísmo se apelar a um elemento unificador. Agora caso apelemos ao estado ou ao grupo social correremos sempre o risco de diviniza-lo ou de atribuir-lhe competência total. Neste sentido julgo mais prudente apelarmos a uma consciência ou espírito universal mais ou menos difuso nas criaturas racionais e cuja forma é a própria racionalidade.

Para que não venhamos todos a perecer faz-se mister ressuscitar o sentido da ética, o sentido antigo, o sentido clássico, o sentido perene. Para tanto talvez tenhamos de resgatar a ideia de Deus ou ao menos discuti-la com a mente aberta e isenta de preconceitos.

No próximo artigo tornaremos a Filosofia grega com o intuito de repensar algumas doutrinas formuladas no campo da Ética.