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quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A criação da Sociologia


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M Frédéric Guillaume Le Play


Um dos temas mais polêmicos e interessantes das ciências sociais, diz justamente respeito a sua criação.

Quem teria criado a Sociologia?

Quanto a terminologia Socio + logia, sabemos ter sido criada não por August Comte, pai do positivismo, mas pelo abade Sieyés, ensaísta ligado ao iluminismo, pelos idos de 1780. Comte limitou-se a alterar-lhe o significado, se é que não foi precedido por C H de Rouvroy o Conde de St Simon cujas doutrinas reeditou ou depurou.

Nós no entanto nos interessamos mais pela 'praxis' do que pela criação de uma determinada palavra.

De modo que a pergunta aqui diz respeito a quem teria iniciado as pesquisas no campo da Sociologia.

Inútil recorrer a manuais e compêndios, os quais, segundo o pais em que foram editados apontam este ou aquele conterrâneo, assim os franceses são por Comte, os alemães por Lorenz Von Stein, Marx ou mesmo Max Weber, os ingleses por Mill ou Spencer... Como bem ser vê cada qual buscando puxar a sardinha para seu lado.

Seja como for os principais candidatos são:

  • Karl Marx
  • Lorenz Von Stein
  • Auguste Comte &
  • Herbert Spencer

Repasse-mo-los pois -

Quanto a K Marx devemos observar não ser Sociólogo mas antes de tudo Filosofo ou Filosofo social e sobretudo economista, embora tenha excursionado pelo Direito e realizado algumas investigações sociais.

Vejamos no quadro de suas obras quando iniciou suas pesquisas sociais.

  1. A 'Contribuição para a crítica da Filosofia do Direito em Hegel - Introdução' (1844) diz respeito, como o próprio nome índica a F do Direito
  2.  A 'Miséria da Filosofia' (1847) como o próprio 'Das Kapital' é uma análise de pressupostos econômicos formulados por P J Proudhon
  3.  A 'Sagrada família' e a 'Ideologia alemã' (1845/46) são obras de caráter propriamente filosófico. 
  4. O 'Manifesto comunista' (1848) é obra puramente Ideológica a qual bem poderíamos classificar como Ética.
  5. 'Trabalho assalariado e Capital' (1849) não foge a dinâmica econômica, que alias constitui o forte do pensador judeu alemão
  6. 'O 18 Brumário...' (1852) é uma análise política de viés econômico.
  7. O artigo sobre a punição capital (1853) não foge ao tema do direito, ainda que busque relaciona-lo com pressupostos econômicos.
  8. 'População crime e pauperismo' (1859) parece ser a primeira obra - em que pese ser um pequeno artigo de jornal - de investigação social elaborada por Marx com base em estatísticas. A outra grande obra de investigação social intentada por Marx foi a 'Origem da família, da propriedade privada e do Estado', editada por Engels em 1884. Trata-se de uma obra inacabada ou melhor de uma série de notas elaboradas por Karl sobre a 'Ancient Society' de Lewis Morgan editada em 1877.

Fixamos portanto, para Marx, a data chave de 1859, para assinalar sua primeira elaboração no campo da Sociologia, salientando porém que as estatísticas ou investigações não foram realizadas por ele.

Quanto a Lorenz Von Stein é velha a polêmica, no sentido de ter ele influenciado a Marx ou sido influenciado por ele, uma vez que escreve algumas de suas principais obra pelos idos de 1840 - Foldes, 1914, Marx é que teria tomado posse de parte do aparelho conceitual de Stein -  adotando por sinal os termos 'proletariado' e 'conflito de classes', embora não fosse partidário de soluções revolucionárias como Lênin - o porta voz de Marx para os comunistas 'ortodoxos' - mas de algo muito próximo do estado de Bem estar social proposto por Keynes e da 'social democracia'.

Embora Stein, em 1842 tenha elaborado uma obra sobre o Comunismo e o Socialismo na Revolução Francesa - a qual teria influenciado K Marx - por sinal ampliada e reeditada em 1850, é esta obra de caráter acentuadamente histórico. A primeira obra em que o alemão principia a deslindar a trama das relações sociais presente nas instituições - Gessellschaftlehre... - remonta a 1856. Seja como for vale a pena reproduzir algumas linhas do prefácio: "Nuestra actualidad a comenzado a observar una nueva serie de fenómenos que anteriormente no tenían lugar ni en la vida ordinaria NI EN LA CIENCIA."
Temos portanto para L Von Stein o ano de 1856.

Passemos agora a Comte, o qual veio a falecer justamente na década em que Marx, Stein e outros iniciaram suas investigações, e cujas obras remontam aos idos de 1820 e 30, logo há vinte anos antes. Aparentemente Comte teria sido o criador a Ciência Social ou da Sociologia e não poucos tem esboçado essa opinião pelo simples fato de ignorarem o teor de suas obras.

No entanto toda sua busca por leis gerais e universais em torno do processo histórico sabem mais a Filosofia da História do que Sociologia. Por mais que pregasse contra a abstração e a metafísica toda sua obra prima pela quase absoluta falta de concretude ou de contato com a realidade social imediata (Daí te-los intitulado com justeza 'Opúsculos de Filosofia Social'. A darmos Comte por fundador da Sociologia teríamos a obrigação de remontar sua fundação ao Conde St Simon, a Condorcet, a Vico com seu 'corsi i ricorsi' ou mesmo a Turgot. 

Há certamente em Comte um anelo pela investigação social, mas não a investigação propriamente dita, em termos de positivismo iniciada por E Durkheim. Comte ao contrário de Weber e do mesmo modo que Marx ainda é absolutamente normativo, estabelecendo metas em torno da idealidade.

Tentou deslocar o foco da reflexão Filosófica para a concretude, para a História, para a organização social, mas, em termos de metodologia, pouco ou nada fez.

Resta-nos analisar agora as credenciais do derradeiro candidato proposto pelos manuais de Sociologia a título de fundador. Aqui o inglês Herbert Spencer.
Que temos a dizer a respeito dele?

Ao menos quando a 'Estática populacional' e senão quanto aos 'Princípios de Biologia' (1864) o mesmo que foi dito com relação a seu mestre Comte. Alias a primeira obra até pode ser classificada como uma espécie de panfleto libertário ou crítica ao que chamamos de Estado com conotações políticas, econômicas e jurídicas mas nada de propriamente concreto em termos de relações sociais ou instituições. Apenas em 1864 formula o darwinismo social, o qual como se sabe é bem mais escolástico, metafísico, abstrato ou escolástico do que outra coisa.

Conclusão - Quanto aos quatro personagens apontados como fundadores da Sociologia, aquele cuja obra - em termos de investigação social - parece ser mais antiga é sem sombra de dúvida o alemão Lorenz Von Stein. O qual, com relação aos outros três candidatos e dentro deste acanhado limite leva a palma.

Seria o caso de proclamarmos Lorenz Von Stein como o 'pai da Sociologia'.

Nem tanto ao ar nem tanto ao mar.

Sem querer negar os méritos do alemão, parece que foi precedido por um francês, membro do seleto grupo dos 'Sociólogos esquecidos', em que pese sua primazia temporal com relação a todos os demais...

Referi-mo-nos a Frederic Le Play o qual em 1855 publicou sua obra máxima 'Les ouvriers europeens' em seis alentados volumes, expondo as condições de trabalho, a organização familiar, as atividades econômicas, o ambiente moral, etc dos trabalhadores de toda Europa. O mais interessante aqui é que Le Play foi o primeiro 'pensador' a ir a campo ou a investigar 'in situ' desde 1848 e a elaborar tabelas e quadros de estatística, vinculando pela primeira vez a pesquisa sociológica e este modelo científico. Deve-se igualmente a ele a fundação da primeira sociedade dedicada a pesquisa social, a 'Société internationale des études pratiques d'economie social' ainda em 1856.

Frederic Le Play nasceu em 1806 e faleceu em 1882 três anos após sua conversão ao 'Catolicismo'.

Obras -

"Os operários europeus." 1856
"A reforma social." 1864
"A organização familiar." 1871
"A Constituição inglesa." 1874



segunda-feira, 15 de maio de 2017

Buscando superar o psicologismo freudiano e o sociologismo marxista; uma leitura marxista de Freud ou freudiana de Marx II





E Freud?


Bom assinalar que S Freud não era Sociólogo e nem mesmo tinha a pretensão de se-lo. Era médico por formação e psiquiatra ou psicólogo por opção. Sendo assim jamais negou a existência de um organismo social com a constituição que lhe é próprio ou tentou explica-la a partir de suas descobertas a respeito da mente e da personalidade humanas. 

Em suma Freud repudiou a existência de uma estrutura social para além das personalidades, apenas concentrou seus esforços investigativos no campo da formação da personalidade. Nem tinha como ser psicólogo e sociólogo ao mesmo tempo ou analisar simultaneamente a formação da psiqué humana e a estrutura dos diversos grupos sociais, tarefa ainda hoje especiosa.

Teve de especializar-se e de escolher um campo.

E o campo escolhido foi a Psicologia não a Sociologia.

Naturalmente que, caso consideremos o homem enquanto parte da sociedade, suas descobertas tem ou terão certas consonâncias no âmbito da Sociologia, desde que não seja, obviamente, uma sociologia sociologista, mas uma Sociologia aberta. O próprio Engels sempre recordado e citado, admitiu que em determinadas situações a super estrutura, digamos aqui a superestrutura mental, acaba interagindo com a infraestrutura de caráter material ou social, como queiram.

E de fato não precisamos ser psicologistas para admitir - Com Weber por exemplo - que o fator humano, pessoal, psicológico, motivacional... Pode também ele adquirir certa relevância em termos sociais, convertendo-se também ele num fator causal ou genésico ao lado doutros fatores propriamente sociais ou materiais. O que por sinal só vem a tornar a investigação sociológica ainda mais complexa.

A questão primordial aqui não é saber se as forças ou entidades psicológicas possuem qualquer potencial sociológico, interagindo com as demais forças sociais ou até servindo-lhes de contra peso, denotando como já dissemos maior complexidade.

A questão principal aqui toca, em parte ao menos, a limitação imposta a Freud pela realidade externa a si, no sentido de que - Sem jamais ter negado a sociologia - formulou suas hipóteses ignorando ou desconsiderando a contribuição da sociologia.

Queremos dizer com isto que, em termos de causalidade, parece não ter buscado vincular as situações, eventos e fenômenos psicológicos analisados por si, a determinadas organizações sociais.

Exemplifiquemos.

Freud - E isto vale certamente para Karl Marx, apontando as limitações de ambos - como todos nós foi também prisioneiro da cultura, da História, do momento; enfim do tempo e do espaço em que viveu e trabalhou. Tanto ele quanto seu 'parente' (sic) judeu, tiveram de trabalhar com uma realidade especifica (E portanto limitada) fazendo o que chamamos de recorte. 

O recorte em si é bom na medida em que nos permite penetrar e analisar determinada unidade histórico social, torna-se no entanto funesto na medida em que o autor põem-se a abstrair em demasia, convertendo suas descobertas numa metafísica universalizante em termos absolutos. Para compreendermos a 'Sociedade' abstrata considerada como um todo, teríamos de estudar todas as organizações sociais do planeta... O que Marx certamente não fez.

Assim Freud de modo geral analisou as relações sociais presentes em sociedades ocidentais contemporâneas ou em setores ocidentalizados de outras sociedades. Trabalhou com um modelo único de organizações sociais ou com um modelo unitário de relações familiares em que se dão os fenômenos por ele elencados e estudados.

Em suma o nicho escolhido pelo grande psiquiatra austríaco dizia respeito a Europa dos séculos XIX e XX com a estrutura familiar típica: Heterossexual, Patriarcal, Monogâmica, estável (ou indissolúvel), e sobretudo marcada por uma ideologia maniqueísta ou puritana caracterizada pela negação do corpo e da sexualidade.

Tal a limitação de seu trabalho. Porque não cogitou em possíveis variações sociais no tempo e no espaço.

Podia e pode S Freud falar com absoluta propriedade a respeito da realidade específica que estudou, i é das sociedades 'civilizadas' dos séculos XIX e XX, estabelecendo a partir de suas estruturas as decorrentes relações pessoais, até chegar a seus complexos: Assim o complexo edipiano, assim o complexo de Electra (sicut K G Jung - Para S Freud complexo edipiano feminino), assim o éthos narcisista, e sucessivamente.

Fácil é ao leitor inteligente, calcular que chegamos a 'raiz' ou fonte do problema. Freud numa perspectiva idealista ou demasiado abstrata, parece não ter vinculado as relações pessoais por ele analisadas com a estrutura social e sua variabilidade, talvez com o receio de que sua abordagem adquirisse um aspecto demasiado particular, e, segundo algumas 'escolas' não científico. Daí ter resvalado na tentação do universalismo, a que sua abordagem restrita não fazia jus.

O resultado final disto foi a afirmação, categórica alias, de que os complexos de Édipo e Electra (para nos atermos a espinha dorsal de sua teoria psicanalítica) equivaliam a entidades universais, presentes em todas as sociedades, para além das limitações espaciais e temporais, pelo que chegamos a um essencialismo psicanalítico.

Evidentemente que tais afirmações eram precipitadas, mas ele era Freud... Compreende-se portanto que tais alegações gratuitas - Por não terem partido de investigações concretas - foram engolidas por muitos. Convertendo-se numa espécie de metafísica, vinculando-se a uma espécie de natureza humana dada e atingindo o 'status' de 'pecado original'.

Perdurou o equívoco até que Bronislaw Malinowski e Margareth Mead - ambos antropólogos - foram a campo investigar outras formas de organização social. No primeiro caso os naturais das Ilhas Tobriand e no segundo os naturais de Papua Nova Guiné. A partir de tais pesquisas ficou evidenciado que os tais complexos clássicos do freudismo inexistiam em tais culturas, pelo simples fato de que a organização familiar e as relações homem - mulher eram outras, enfim totalmente diversas das que prevaleciam na Europa dos séculos XIX/XX.

Desde então ficou cientificamente demonstrado o caráter relativo dos fenômenos analisados por Freud enquanto produtos de uma conjuntura familiar particular ou epifenômenos da cultura. Da cultura européia do século XIX, maniqueísta, puritana e judaico Cristã (Ou melhor mais judaizante  - compreenda-se judaizante no sentido histórico de farisaísmo - que propriamente Cristã).

Tal a realidade mais remota que Freud não viu ou não quis ver e que diz respeito a conexão da pessoa ou da família no quadro mais amplo e variável da cultura ou da sociedade. Imerso em determinada Sociedade - Ocidental do século XIX com a característica rigidez moral - desenvolvera o homem tais e tais complexos, imerso noutro tipo de Sociedade... Portanto, o que Freud descobriu - E este sentido não torna sua descoberta menos importante - foram os resultados psíquicos de determinada estrutura social. E não elementos essenciais ou metafísicos onipresentes na condição humana...

Seu equívoco foi deixar de vincular a realidade deslindada por si, a organização social analisada.

Agora o que nos parece evidente é que sempre que determinada sociedade assumir tais valores: Normatividade sexual, patriarcalismo, monogamismo rígido, indissolubilismo e sobretudo o maniqueismo, assistiremos a construção e afloramento dos citados complexos.

Devemos reconhecer mais uma vez, que produzidos tais complexos, não deixam de interagir no plano da cultura, convertendo-se eles mesmos em forças sociais, certamente, dentro dum plano bem mais amplo.

Continua -

Próximo tópico: As realidades existenciais e psicológicas que Marx ignorou ou as fontes internas do capitalismo.

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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O acúmulo de bens materiais a luz da Filosofia antiga

Cuidam os liberais estúpidos que a primeira objeção contra o acumulo de bens materiais tenha partido dos Comunistas ou de seu patriarca Karl Marx.

Nem pode a mediocridade ou melhor nulidade liberal fugir ao vezo de tudo atribuir aos tais comunistas, Marx, Engels, Lênin, etc

De minha parte ja era socialista convicto, bem antes de ter ouvido falar pela primeira vez em tais nomes pelo simples fato de ter encontrado nas páginas do Evangelho os seguintes mandamentos:

  • NÃO JUNTEIS tesouros neste mundo onde a traça e a ferrugem devoram os elementos, mais forcejai por juntar um tesouro incorruptível no mundo celestial.
  • NÃO PODEIS ADORAR A DEUS E AO DINHEIRO.
  • É MAIS FACIL UMA CORDA PASSAR PELO FUNDO DE UMA AGULHA DO QUE UM RICO ENTRAR NO REINO DOS CÉUS.

E como ex protestante eu já estava imunizado contra o vício do livre examinismo que consiste em atribuir as palavras de Cristo, sentido diverso ou mesmo oposto, ao que lhe é próprio e de distorcer sua mensagem.

Diante disto também não me deixei enganar facilmente pelo livre exame exercido pelo clero papista, apenas mais sutil, por estribar-se em 'tradições' eclesiásticas forjadas durante a Idade Média por clérigos de idoneidade suspeita.

No entanto a igrejas romana prestou-me imenso serviço por ter colocado em minhas mãos as tradições genuínas dos padres antigos, cujas raízes tocam a mais remota antiguidade. Refiro-me a publicação da ed Paulinas  'Por que a igreja crítica os ricos', que consiste numa coletânea de passagens tomadas as obras dos antigos elderes da igreja, sobre a riqueza, a pobreza, a justiça, etc

Este contato com a genuína tradição e alma do Catolicismo foi que consolidou para sempre minha orientação social em torno dos ideais justicionistas.

Foi da tradição da Igreja Católica, de deus evangelhos, de seus Bispos e de seus escolásticos que recebi o espírito anti economicista ou anti liberal a que tenho permanecido fiel até o tempo presente. Moço novo eu nada sabia sobre Marx, Engels, Kautsky, Plekanov, Lênin, etc Alemães e russos eram até então um mistério para mim e minha mente encontrava-se firme presa a Jerusalém, Damasco, Antioquia e Alexandria. Eram Newman, Montabembert, Pressensé, que eu lia...

No entanto como o Cristianismo, no dizer que Orígenes e outros,  fora direcionado as massas grosseiras e incultas, julguei ser necessário completar, alargar, aprofundar minha formação.

A quem me dirigi?

Aos comunistas??? A Nietzsche, Stirner, Rand, Heidegger, Delleuze, Derrida, Foucault, Sartre e demais profetas da modernidade?

Sou eternamente grato a igreja romana e ao padrão Católico por ter-me guiado a Atenas e me matriculado na Escola de Sócrates.

Jesus conduziu-me a Sócrates. (consequentemente a Platão e a Aristóteles) Assim pude aprofundar minha formação Ética, contemplando minha condição de ser racional.

E lá também topei com a mesma condenação ao acúmulo desmedido de coisas materiais.

Adquiridos em prejuízo da educação filosófica.

Desde então pude observar que o frade mendicante da Idade Média, fustigado sem misericórdia pela látego da Burguesia ascendente e pela nova religião protestante, limitava-se a reproduzir as denuncias levantadas pelos ANTIGOS CÍNICOS face a uma sociedade cada vez mais seduzida pelo brilho das falsas riquezas. Todas as críticas e escárnios empregados pelos 'neo' humanistas e protestantes contra os frades não passavam de reedição das velhas críticas que os hedonistas e materialistas da antiguidade haviam lançado contra Diógenes, Crates e toda escola.

Então, ainda mais uma vez, somos levados a enfiar o dedo dentro da ferida...

Não se importando com o sangue e o pus...

E como extremo sempre produz extremo... nada mais natural que o mundo do luxo e do supérfluo produzir um mundo paralelo de miséria. O qual tornando milhões de homens e mulheres prisioneiros de suas necessidades básicas impede-os por assim dizer que cultivar o estudo da Filosofia ou de buscar a verdadeira religião... oprimidos e esmagados pelas exigências da materialidade e da vitalidade nem se pode negar quão pouca seja a liberdade de tais criaturas. E quão longe achem-se do bem, da verdade e da beleza...

Nem podemos nós buscar qualquer valor ou benefício numa miséria que lhes é dada ou melhor imposta pelo sistema e a qual não podem fugir facilmente. Antes devemos encarar este tipo de miséria dada ou imposta como verdadeiro crime.

Todavia há também neste cenário um tipo de miséria CRÍTICA ou virtuosa livremente adotada por pessoas sensíveis e solidárias: assim o cínico dos tempos antigos, assim os monges do Catolicismo... os quais até mesmo da vida sóbria e moderada abrem mão com o objetivo de cultivar apenas e tão somente a sabedoria, apontando a uma sociedade enferma quais sejam os verdadeiros objetivos da existência humana. Consideram-se o cínico e o monge verdadeiramente livres e desimpedidos na mesma medida em que não se deixam afetar pela aspereza, o frio, o calor, a fome, a sede, os apetites, os desejos e a vontade e sempre podem tomar as atitudes que melhor convém no momento.

Por estarem tais pessoas afeitas de certo modo a dor, ao incomodo e a morte e consequentemente privadas do temor da morte, podem sustentar sem maiores receios a nobre e excelente causa da justiça ou porém-se a serviço do bem e da verdade sem temer as represálias com que os tiranos costumam punir aqueles que ousam resistir-lhes, a saber a privação, a tortura e a morte... Eis porque os déspotas e senhores sempre temeram acima de tudo ao Filósofo e ao Monge; as únicas categorias de pessoas capazes de resistir-lhes por terem superado o temor do sofrimento e o medo da morte.

Nem se pode negar que tal gênero de pessoas: que nada receiem da dor e da morte sejam capazes de falar livremente, declarando face aos poderes deste mundo quais sejam seus pensamentos e de se opor a qualquer ordem ou mandamento que não seja justo!

Antes de tudo é escravo o proletário ou trabalhador porque tendo constituído família - as vezes por imposição da própria sociedade - deve suprir as necessidades básicas da esposa e dos filhos e nem pode pensar em deixar de faze-lo, seja quais forem as condições. Assim a esposa e os filhos são como elos de uma cadeia que tornam-no dependente do sistema, e do sistema que o oprime não pode desligar-se por causa deles! Agora outra é a situação daquele que tendo triunfado dos apetites sexuais e subjugado-os ao talante da vontade, a ninguém quis ligar-se e a ninguém gerou. Agora por estar só é livre para fazer aquilo que julga ser necessário...

Imensamente mais grave e triste é a situação daquele cuja família assumiu uma mentalidade burguesa em torno das necessidades artificiais impostas pelo consumismo.

Este cobiça um carro novo por ano, sua esposa por uma nova cozinha por ano, o filho por um computador novo por ano e a filha por um celular de ultima geração... ali até o cachorro e o gato são servidores do deus Mercado. Agora como um homem destes ou uma mulher destas haverão de ser dependentes de um determinado salário ou escravos do trabalho???

Creem ser livres e felizes mas perdem o contato um com o outro e com os próprios filhos. Infeliz desta família contemporânea que só se encontra pela noite para dormir pesadamente ou nos fins de semana e feriados! Nem vejo que vantagem há em ter família apenas para os fins de semanas ou feriados!!! O trabalho aqui fica com a maior parte do tempo, em razão das despesas ou dos gastos, com o supérfluo e artificial e não com o necessário ou fundamental... Quantas pessoas endividadas e escravizadas passam a maior parte do tempo distante de seus filhos!!!???!!!

Que liberdade é esta?

Permitam-me questionar este tipo de felicidade esquisita,  na esteira alias dos antigos cínicos.

Parte de vocês vivem falando a respeito da família e exaltando-a até os céus, para... sacrifica-la as exigências do trabalho, do econômico, do mercado!

Sim, em nome de gastos inúteis, em nome do supérfluo e do luxuoso, alienam suas liberdades e exilam seus pobres filhos em creches, escolas ou sei lá mais o que, acreditando ou fingido crer que tal gênero de vida lhes faça bem. Mas não faz, pois o que os filhos desejam antes de tudo é a presença ou a companhia de seus pais!

Filhos não querem babás, professores, tranqueiras, etc precisam acima de tudo dos pais!

Mas os pais nunca estão, pois sempre estão trabalhando para pagar dívidas ou honrar despesas.

Neste caso trabalham para que? Para o bem estar de seus filhos??? Não, mas para o bem estar das empresas, do mercado, da economia... Pois esta mania de adquirir o que não é necessário beneficia apenas o econômico... Ficando a família, o cônjuge e os filhos a ver navios...

E não havendo contanto, morre o afeto e desfazem-se as famílias...

Tudo graças a que?

As exigências do trabalho, a jornada de trabalho, as imposições do mercado, aos gastos, as despesas; enfim a este consumismo acrítico que leva famílias inteiras a adquirir um montão de coisas de que não precisam.

Agora levassem nossas famílias um regime de vida mais sóbrio, crítico, equilibrado e são; quais seriam os efeitos concretos deste regime de vida?

Menos gastos, menos dívidas, menos dependência, menos escravidão e consequentemente mais liberdade, mais autonomia, mais tempo para passar com o cônjuge e os filhos alimentando os laços do afeto e cultivando a verdadeira intimidade.

Não se trata aqui do pai ou mesmo da mãe não trabalharem.

Trabalhar é necessário.

Trata-se apenas de não ser mais um prisioneiro ou refém do trabalho.

Em tempos de Dilma posso até aconselhar as famílias a gastar menos para fazer uma reserva ou poupança tendo em vista o futuro. Para que não se tornem reféns, escravos, bonecos nas mãos de seus patrões; ousando falar com eles livremente e e revindicar seus direitos: suas férias, a recusa de fazer hora extra, o descanso dominical; enfim tudo quanto possa redundar num contato maior com a família.

É necessário colocar as necessidades da família acima das necessidades do trabalho. Para tanto porém faz-se mister romper com o padrão do consumismo acritico, com o fetiche TER, com a mania de comprar coisas mais caras ou desnecessárias. Claro que jamais se poderá fruir do mesmo nível de liberdade que um cinico ou um monge; mas sempre será possível ampliar a esfera da própria liberdade. destruindo os laços artificiais de dependência.

Se o filósofo e o monge são capazes de viver em estado de necessidade ou carência voluntária não seremos nós capazes de contar nosso consumo passando a viver sobriamente?

Especialmente se sabemos que este novo regime de vida nos faria mais livres.

Menos dependentes do salário, do emprego e do mercado; aos quais oferecemos a maior parte de nosso tempo e boa parte de nossas vidas.

Possibilitando uma redistribuição do tempo e um contato mais próximo com a família, instituição que tanto encarecemos com palavras mas que não valorizamos verdadeiramente, subordinando a outro tipo de relação.

Então eu acredito que devemos por diante de nossas vistas o exemplo daqueles homens e mulheres que esforçaram-se por quebrar todos os laços artificiais e impostos para viver uma vida mais natural e livre. 

Não nos enganemos... não é possível servir bem ao dinheiro e a família, um aqui ficará mal servido.

Nossas famílias estão muito mal servidas justamente porque são servidoras do dinheiro.

Não é o dinheiro que tem servido as famílias.

Famílias é que tem sido alienadas pelo poder do dinheiro, por falsas necessidades econômicas, por exigências inumanas de um mercado... famílias é que tem sido desestruturadas e destruídas pela mística do consumismo, pelo endividamento, pelos gastos e pela nova escravidão!

Como Marx disse e com razão absoluta disse: Os comunistas não precisaram bradar contra a família tradicional, encontraram esta instituição completamente arruinada pelo liberalismo econômico e suas exigências.

Muito antes que o sociólogo barbudinho tivesse registrado as palavras acima a gente do campo e os padres romanos ja haviam publicado este diagnóstico e proclamado a incompatibilidade entre a organização tradicional da família e a ordem urbana ditada pelo capitalismo!!!

Não foi o comunismo que atrelou nossas famílias ao carro triunfal do deus mercado, foi o capitalismo. Este sistema é que separou Pai, Mãe e Filhos enfiando cada qual numa fábrica ou setor diferente da mesma fábrica! Foi o capitalismo que drenou-lhes as forças, comprometeu-lhes a saúde,  que barbarizou-lhes o caráter, obscureceu-lhes a razão... este sistema é que retirou-os do lar, alienou-os a natureza, contaminou-lhes o ambiente e exilou-os num mundo artificial de feiura controlado pelos ponteiros de um relógio.

Separou a família do ambiente, separou os trabalhadores da corporação, os familiares do lar, etc tudo fragmentou, isolou e dividiu para poder com mais facilidade dominar.

Não sou e jamais serei contra o trabalho da mulher.

No entanto se em tempos passados um só é que trabalhava para sustentar a todos, porque raios hoje, os dois não podem trabalhar menos e permanecer cada um certo tempo em casa junto dos filhos?

domingo, 25 de outubro de 2015

Apologia do georgismo





Pessoas apreciam encarar moinhos de vento como gigantes porque é mais fácil dar combate a moinhos do que a gigantes.

Por isso que Rafael Garofalo na 'Superstição socialista' (1895) apresenta Marx como sendo o gigante a ser combatido. E menospreza a doutrina de Henry George, com a qual recusa a bater-se por julga-la 'ingênua' ou tosca...

Nada mais conveniente a direita liberal lançar-se contra Marx - após te-lo ela mesma elevado-o aos céus - 'esmaga-lo' sem piedade e pavonear-se de ter demolido o socialismo!

Como se socialismo equivale-se a marxismo ortodoxo ou se resumi-se ao comunismo.

Tal fanfarronice pode ser descrita nos seguintes termos: Chaumette invade, depreda e faz demolir qualquer uma das mil e oitenta catedrais existentes na antiga França e situada em qualquer vila humilde e obscura; para em seguida proclamar ter demolido a mais bela das catedrais daquele pais ou o que é pior TODAS AS CATEDRAIS DA FRANÇA!!! E não tocou Amiens, Chartres ou Reims!

Assim os campeões do liberalismo com seus centos de panfletos destinados a solapar o comunismo e a dar a questão do socialismo por encerrada.

E no entanto dúzias de 'catedrais' permanecem não só de pé mas imunes a qualquer depredação... são outros tantos santuários em que o liberalismo não folga penetrar ou examinar a sério, detida e largamente. Assim o georgismo! Assim o personalismo! Assim o Keynesianismo! Assim o solidarismo! Assim o Catolicismo social... por eles passam os liberais oportunistas como se não existissem, limitando a tecer umas críticas demasiado genéricas...

E ficam acreditados por sua clientela estúpida.

Importa atacar Marx e triunfar dele!

Marx no entanto, em que pese seus méritos e seu valor, não esgota por si só as fontes e caminhos dos socialismo; cujas raízes chegam a Sócrates (este por sinal citado por Scott Nearing como uma de suas referências ideológicas juntamente com Jesus Cristo, Confúcio e Buda) a Platão, a Aristóteles... aos escolásticos medievais e enfim os pensadores do Catolicismo social a principiar por Morus, Campanella, Mably e Morelly.

Ademais a maior parte dos atacantes ao invés de concentrar forças em sua obra científica 'O Capital' onde busca demonstrar os defeitos internos do modo de produção Capitalista; opta por concentrar suas baterias nas obras não científicas de Marx a respeito da Sociedade comunista do futuro. Atacam o Marx profeta ou charlatão com seu programa de ação para lá de polêmico... jamais o Marx de o Capital ou seja aquele que pulverizou de fato o sistema Capitalista.

De nossa parte não nos importa se o Marx comunista, idealista, futurista ou profético falhou; importa-nos o Marx anti capitalista, demolidor, desconstrutor e de fato científico, este, de modo geral, ignorado por aqueles que se propõem a refuta-lo...

É uma tal sucessão de ataques ao Marx ateu, materialista, dialético, determinista, jornalista, esposo, pai, profeta, político, etc todos mais ou menos merecidos e até consistentes, que ficamos por aguardar a agressão ao Marx economista do Capital, e ficamos mesmo por aguardar porque ela nunca vem...

Quanto aos outros tantos teóricos do socialismo então...

Ela nunca vem...

Lá estão George, George Jr, Tolstoi, Fermi, Bakhunin, Kropotkin e outros tantos homens ilustrados esperando pela refutação... e ela não vem!

Ela nunca vem...

Eis porque nos propusemos a publicar uma pequena apologia do georgismo, não 'escrita' por nós mesmos, mas sob a forma de coletânea.

Tendo em vista divulgar o que os intelectuais mais expressivos do passado registraram a respeito de Henry George e suas ideais. E desmontar o juízo apressado do sr R Garofalo...

PARA NOSSOS AMIGOS CATÓLICOS SOCIAIS e para os neo católicos confusos:

O Bispo Nulty de Meath

Em 1881, dois anos apenas após a publicação de 'Progresso e pobreza' o veneravel Th Nulty, Bispo romanista de Meath, na Irldanda, publicará para uso do clero e dos fiéis, um ensaio a respeito da terra e da propriedade intitulado "Questões sobre a terra" porém mais conhecido por "Tornamos a terra" no qual exprimia pontos de vista idênticos aos de Henry George, advogando não só a absorção da renda territorial como receita pública; mas sustentando a necessidade de uma reforma agrária! Posteriormente tornou-se H George amigo do Bispo Nulty, publicando inclusive uma edição Norte americana do 'Tornamos a terra' e apensando nota em que dizia ter o líder religioso escrito tal ensaio antes de Progresso e pobreza lhe ter chegado as mãos.

O caso McGlynn

Um dos principais aderentes de Henry George e da teoria da propriedade pessoal, foi o sacerdote romanista McGlynn.

No entanto como parte dos Católicos estivesse já contaminada pela cultura protestante e fosse já adepta da teoria formal de propriedade sustentada pelos liberais, o arcebispo Corrigan, jungido pelos liberais excomungou e suspendeu este nobre sacerdote.

Posteriormente soube-se que o grande Cardeal Gibbons comungava das ideias de McGliffyn e consequentemente de H George. Cartas foram publicadas e tudo veio a luz sob a forma de um escândalo. Gibbons no entanto optou por silenciar...

Posteriormente o Vaticano enviou o núncio Satolli para examinar detidamente a questão, Satolli por sua vez solicitou uma memória ao jurista eclesiástio Burstell, a qual foi apresentada ao dito Monsenhor. Este por sua vez tomou a memória composta pelo Dr Burstell e remeteu-a a quatro eruditos jesuítas da Universidade Católica de Washington os Drs Bouquillon, O Gorman, Shahan e Grannan; a dita comissão de peritos examinou o processo e declarou por meio de um laudo "NÃO CONTEREM SUAS IDEIAS NADA QUE CONTRARIE A DOUTRINA DA IGREJA."

 Diante disto McGlynn foi reconciliado por ordem expressa de Satolli segundo as instruções de Leão XIII. Em Janeiro de 1893 o próprio Satolli publicou uma memória sobre o caso McGlynn em que declarava ter recebido daquele sacerdote uma breve exposição de suas opiniões em matéria de economia e moral, e que elas "NÃO SE OPUNHAM DE MODO ALGUM A DOUTRINA CONSTANTEMENTE PREGADA PELA IGREJA E RECENTEMENTE CONFIRMADA NA RERUM NOVARUM."

Ao fim daquele mesmo ano era este nobre sacerdote recebido em audiência pelo próprio Leão XIII, octogenário mas pleno de lucidez.

Em certo momento o Papa Pecci perguntou-lhe: Reconheces certamente o direito de propriedade.

Ao que o digno sacerdote respondeu: Perfeitamente COMO PRODUTO DA ATIVIDADE (trabalho) PESSOAL.

Como o papa não replicou nem condenou o que fora dito segue-se muito naturalmente que aceitou-o.

Ficando manifesto que a DOUTRINA LIBERAL SOBRE O DIREITO MERAMENTE FORMAL A PROPRIEDADE não faz parte da doutrina da Igreja Romana.

Do contrário Leão XIII estaria obrigado a condenar McGliffyn em nome da ortodoxia!

Calou no entanto o velho Papa e por calar consentiu.

Pelo que os neo catolicos devem precaver-se de aspirar meter pela guela adentro dos Cristãos a doutrina formalista do direito a propriedade.

E nem podia o Catolicismo servir de valhacouto a vagabundos, parasitas e ladrões, uma vez que a terra só se torna propriedade legítima e irremovível quando fecundada pelo trabalho da pessoa humana. Eis o que conhecemos por doutrina essencialista da propriedade pessoal.

Assim quando Leão XIII declara - na Rerum Novarum - que:

"O direito da propriedade particular deriva da natureza e não do homem."

Não justifica de modo algum a interpretação formalista dos liberais.

Pois com dizer que o direito a posse deriva da natureza, tocando a essência, não específica o papa porque modo ou forma este direito dimana da natureza.

Assim se os liberais contentam-se com a ocupação por marcos divisórios e registro em cartório de terras incultas, contestamos afirmando que o justo título de posse dimana do trabalho humano que fecunda a terra!

E portando que toda e qualquer propriedade não usada ou adquirida por emolumento que não derive do trabalho humano é devoluta e que a posse é ilegítima.

Agora quando a posse decorre de uma relação humana construída em torno da transformação do espaço pelo trabalho, então compreendemos esta posse não só como legítima mas como natural, pessoal e intocável; em oposição a doutrina comunista, que em geral confundem a pequena propriedade pessoal com meios de produção ou latifúndios cuja origem é quase sempre duvidosa.

Neste sentido Leão XIII parece concordar com Russeau no sentido de que o caráter da posse conferido pelo trabalho pessoal não pode ser relativizado ou anulado, mesmo pelo grupo social ou pelo poder político seja ele liberal ou comunista.

Acho oportuno acrescentar que a única razão porque o legítimo proprietário de uma propriedade pessoal poderia ser desapossado dela, seria por motivo de utilidade pública (bem comum) de relativa necessidade ou gravidade, exigindo sempre justa compensação ou indenização. Do contrário teríamos sempre um roubo ou crime, em que pese qualquer possível sanção social ou política.

Neste sentido podemos declarar a propriedade pessoal do trabalhador como sagrada e, sendo este sentido ( e não o liberal ou meramente formal!) aplaudir de pé a igreja romana como benfeitora da humanidade.

Passemos agora, sem mais delongas, aos testemunhos relativos ao georgismo e seu idealizador:

  • "Progresso e pobreza foi com certeza o livro mais importante escrito neste século." Alfred Russel Wallace
  • "Só Darwin nas ciências sociais fez o que Henry George fez no campo das ciências sociais." Jose Martí
  • "Homens como Henry George são raros, infelizmente. Não se pode imaginar mais bela combinação de acuidade intelectual, forma artística e fiel amor a justiça. Cada linha de suas obras parece escrita para esta nossa geração." Albert Einstein
  • "O povo não combate as doutrinas de Henry George SIMPLESMENTE NÃO AS CONHECE. Conhece-las é adota-las." Leon Tolstoi
  • "Não precisamos de todos os dedos das mãos para enumerar os homens que, desde Platão até nossos dias, igualam-se a Henry George, entre os grandes mestres da humanidade." John Dewey
  • "Minha ambição é saldar a dívida que com Henry George contraí: quisera ir um dia a América e tentar fazer por aquela mocidade, o que este grande homem, há quase um quarto de século fez por mim." Bernard Shaw
  • "Henry George foi a mais radical e poderosa influência exercida sobre o povo inglês durante os últimos quinze anos." John A Hobson
  • "Há no pensamento de Henry George rara beleza, uma maravilhosa fé na nobreza da pessoa humana e elevada inspiração." Helen Keller




"Para as reformas sociais, estardalhaço ou alvoroço algum, nem murmúrios, queixas ou denúncias; mas,  O DESPERTAR DO PENSAMENTO E O PROGRESSO DAS IDEIAS.!!!" Henry George


AS OBRAS DE HENRY GEORGE

  1. Progresso e pobreza
  2. Problemas sociais
  3. Proteção ou livre câmbio
  4. Condição do Trabalho
  5. O filósofo Perplexo
  6. Economia Politica
  7. A doutrina social da Igreja
DE HENRY GEORGE JR

  1. A ameaça do privilégio

BIBLIOGRAFIA

  1. Octaviano Alves de Lima 'Revolução econômico social' ed Brasiliense, São Paulo, 1947


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Era Karl Marx um hipócrita?



Não preciso ser comunista para defender a idoneidade do Sr Karl Marx.

Como o jurista Sobral Pinto não precisou ser ou fazer-se comunista para assumir a defesa de Carlos Prestes.

Outros mais fariseus ou escribas do que Católicos certamente não o fariam por questões de ordem ideológica.

No entanto a justiça ou a ética não conhece ideologia.

Assim o nobre advogado deve ter se lembrado da memorável frase de Vieira:

"Justiça seja feita até ao Diabo!"

As quais ficariam muito bem nas bocas de um Sócrates, de um Platão ou de um Jesus Cristo meus senhores e mestres aos quais folgo imitar.

Ao invés dos neo católicos que preferem imitar ao fideísta Martinho Lutero ou ao fariseu João Calvino...

Eu no entanto fico bem com o Sobral, o Platão...

Antes de tudo acho curioso o fato de que geralmente parte das pessoas que reproduzem tais clichês não passam de Cristãos que recusam-se a viver o Evangelho de Cristo.

Esses coitados pensam que achincalhando a memória do socialista ateu ficam autorizados a acumular toda sorte de bens neste mundo e a viver suntuosamente.

Basta-me abrir o Evangelho e tomar as palavras daquele que dizem ser o deus deles para frustrar-lhes o pérfido intento:

"Não acumuleis tesouros neste mundo... ACUMULAI TESOUROS NO CÉU!"

"Não podei servir a dois senhores, não podeis cultuar a Deus e as riquezas."

"É mais fácil uma corda passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus."

Agora pergunto a querida platéia, quem é que proferiu condenação tão rigorosa, Marx?

Não. Jesus de Nazaré, o qual a cristandade nominal declara ser deus, mas não leva a sério nem obedece!

Quem anatematizou a doutrina do lucro máximo? Engels????

Não, o humilde carpinteiro de Nazaré...

Quem decretou castigos espirituais e punições divinas contra os endinheirados, Kautsky?

Não, o pobre filho de Maria, a Virgem...

Apesar disto como vivem os Cristãos que censuram o sr Karl Marx???

Como surdos e infiéis, juntando bens neste mundo a não poder mais e sustentando teoricamente a doutrina do acumulo ilimitado nos mesmos termos que os ATEUS Friedman e Haiek.

Que dizer então aos cristãos hipócritas e petulantes que pretendem corrigir Marx mas que recusam-se a viver o Evangelho?

Quem estão a soprar cisco em olho alheio enquanto tem uma trave ou melhor um poste fincado em seus olhos...

Marx não vivia o que ensinava...

Tampouco os neo cristãos vivem em conformidade com a doutrina de Cristo ou seja, cultivando uma vida sóbria segundo os preceitos da temperança aos quais até mesmo os antigos pagãos pertencentes ao círculo de Sócrates estavam habituados.

Os neo Cristãos no entanto aspiram viver como sofistas, a moda de Antifonte de Ramnunte, de Shilock, do Harpagão... enquanto tecem refinadas críticas ao sr Karl Marx.

Neste caso meu primeiro recado vai para esses cristãos hipócritas, pastores embusteiros, traficantes de indulgências, charlatães, ilusionistas, enganadores, empresários da fé, SIMONÍACOS, etc: daremos ouvidos as críticas feitas por vocês quando forem honestos e passarem a viver como Jesus Cristo preceituou...

Em segundo lugar declararei que se Marx era vagabundo por jamais ter exercido trabalho braçal ou manual também Platão, Aristóteles, Teofrasto, Cícero, Sêneca... ENFIM A QUASE QUE TOTALIDADE DOS FILÓSOFOS GREGOS NÃO SÓ ERAM VAGABUNDOS mas canalhas, uma vez que alguns deles, inclusive, tiravam rendas do trabalho escravo!!!

E no entanto os mesmos senhores que criticam Marx, leem as obras de Sêneca, Ovídio, Virgílio, etc sem se incomodarem ou atira-las ao fogo...

Nem ouço-os mimoseando Demócrito, Parmênides ou Apolônio com os epítetos de: vagabundo, poltrão, hipócrita, safado...

E no entanto uns e outros não só dedicavam-se a trabalhos de natureza intelectual ou material - o único trabalho digno do homem livre inserido na cultura greco romana - como encaravam o trabalho material ou braças como degradante, enfim como coisa de escravo...

Acontece que Karl Marx trabalhou sim como pesquisador, escritor, pensador, jornalista, articulista, etc Chegando a ler todos as obras da Biblioteca central de Londres consagradas a economia. Tarefa nada desprezível... e a escrever vultoso número de obras, algumas inclusive de caráter científico como o odiado 'Capital', além dos aludidos ensaios e artigos.

Agora se ser jornalista ou escritor é ser vagabundo que eram Stuart Mill e Herbet Spencer??? Pedreiros ou marceneiros??? Não que eu saiba...

E esses articulistas e jornalistas de péssimo gosto a exemplo do sr Reinaldo Azevedo, do sr Constantino, do sr Gentili; que nada de útil ou produtivo fazem além de respirar, comer, beber e excretar, como mereceriam ser qualificados???

Se por vagabundo compreende-se quem não é operário ou trabalhador braçal Marx terá de dividir seu título com uma multidão de charlatães, que sequer leram 1% da Biblioteca de Londres...

Quanto aos mais...

Que Marx jamais tenha pisado numa fábrica é crítica mais do que pueril e desonesta pois até onde sabemos participou de diversas mobilizações sindicalistas no termo final de sua existência.

Que tenha vivido as largas e outra mentira da qual os religiosos e toda gente honesta deveria abster-se. Uma vez que após o fechamento da Gazeta renana passou a enfrentar sérias dificuldades financeiras, a ponto de ter de ser socorrido pela bolsa do fiel F Engels...

Agora não me venham dizer que vivia as custas de Engels uma vez que o querido Herbert Spencer, sendo de origem humilde, teve de ser - em diversas ocasiões - socorrido pela bolsa de Stuart Mill que era de origem abastada e amigo seu.

A diferença aqui é que Spencer por ser liberal pode encontrar e exercer ocupação enquanto que Marx por ter ousado defender ao sua maneira e moda, os direitos de quem não tinha direito algum, passou a ser sistematicamente boicotado e, consequentemente impedido de encontrar ocupação (trabalho). Donde lhe veio em auxiliou o amigo Engels por admirar-lhe a tempera.

Ademais, contamos com o testemunho insuspeito de Savage Landor, o qual na afamada entrevista descreve a residência de Karl Marx como simples e suas maneiras como dignas e sóbrias. Parece que entre o lar de Marx e o do filho de Sofronisco não havia lá muita diferença...

Verdade seja dita: o pai do comunismo jamais habitou num palácio, num castelo ou numa vivenda glamorosa.

É verdade que casou-se com uma nobre falida; Jenny, cuja família melindrou justamente devido a suas atividades sociais. Foi um dos poucos casamentos do tempo feitos por amor - tanto que faleceu pouco tempo depois da morte da esposa, segundo dizem 'deprimido'  -  e do qual não lhe adveio qualquer vantagem pecuniária.

Muito mais abastado do que Marx era certamente Von Mises, o qual por sinal alinhou-se ideologicamente com os abastados... Não Marx.

Resta-me advertir ainda que se as calúnias e invenções reproduzidas no panfleto acima fossem consistentes o hipócrita seria Marx, a pessoa de Marx e não o comunismo, que não é uma pessoa mas uma ideologia.

A confusão feita aqui entre a pessoa e a teoria beira ao ridículo.

Partindo deste argumento miserável poderíamos seria fácil lançar ao fogo todas as obras de Martim Heiddeger, o filósofo portátil de Hitler e nem mesmo papai Mises por ter integrado o governo fascista de Dollfuss... além de ter apoiado o regime de Mussolini (Raico 1996 'Mises sobre o fascismo..,'). E sempre poderíamos acusar o islam e o protestantismo de assassinos pelo simples fato de Maomé e Lutero terem cometido assassinatos...

No entanto entrar diretamente por este caminho, confundido pessoas com ideais, seria desonesto e apelativo.

Coisa de quem não tem argumentos com que combater o Comunismo.

Então apelam a jargões imbecis... típicos da sifilização yankee.

Resta-me dizer que se Marx jamais foi proletário e lhe faltava experiencialidade neste sentido, sobejava a mesma experiencialidade a Católica Simone Weil, a qual com não menos veemência denunciou em nome do Sagrado as atrocidades perpetradas pelo materialismo economicista. Isto após ter abandonado sua vida burguesa e folgada para trabalhar durante mais de um ano numa fábrica, ficando com a saúde comprometida para o resto de seus dias.

Então se não nos demove o testemunho do ateu Marx arrasta-nos o testemunho da devota Simone Weil.


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Comunismo, uma defesa


Gosto quando Marx fala, na "Introdução à Crítica do Direito de Hegel", que a teorias se convertem numa força material quando se apoderam das massas. Também Trotsky diz que não podemos ignorar o poder das ideias, mesmo que não possuam um “aparato” por trás (o que verificou na prática, haja vista a disseminação das posições da Oposição de Esquerda apesar da perseguição da colossal máquina de calúnia e extermínio da burocracia stalinista). Seja como for, para sair do mundo dos devaneios e adentrar a vida concreta, as ideias são operadas por indivíduos, em dada época histórica e sob dadas circunstâncias materiais.

Assim, é idealismo, hegelianamente falando, imaginar que a ideia se concretizará perfeitamente no mundo dos homens, isto é, que não haverá mediações entre o projetado e o aplicado. Isso não é dizer que as ideias (quaisquer que sejam) são utópicas, delirantes, e que na realidade nada sai como planejado; e sim entender que a ideia se concretiza num amplo processo dialético, portanto contraditório e, podemos mesmo dizer, sequer se concretiza, e sim está-se-concretizando. A vida, que é o campo de aplicação das ideias, é um eterno devir.

É muito belo dizer, por exemplo, que ao ser agredidos devemos oferecer a outra face e que devemos nos amar uns aos outros, dado que somos provenientes do mesmo Pai Eterno; mas disso vieram os massacres dos cruzados, a Inquisição e o fundamentalismo cristão. É belo dizer, como fez Adam Smith, que a busca individual por lucro leva ao bem-estar coletivo; mas disso vieram a exploração capitalista, a acumulação e a opressão. É belo bradar por “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, mas não se pode esquecer que isso descambou na guilhotina e, posteriormente, na ditadura de Napoleão.

O inferno está cheio de boas intenções, como diz o ditado.

Desde que o socialismo, enquanto instrumento organizado e científico da luta de classes, começou a ganhar corpo, enfrentou forte resistência dos grupos dominantes. Falamos "luta de classes", afinal, não por mero simbolismo. Essa luta tem vários instrumentos: da aniquilação física à calúnia, passando pela censura e todas as demais ferramentas postas à disposição da classe de exploradores. Nada obstante, isso não impediu o formidável ascenso da classe trabalhadora que, após a Comuna de Paris, "tomou o céu de assalto" na Rússia.

A Rússia, todavia, era um país semifeudal recém-saído do czarismo. A tomada de poder era a parte fácil; a tarefa que se desenhava no horizonte era o desenvolvimento material do país, o que seria impossível sem o socorro do proletariado dos países desenvolvidos. A revolução russa, pois, era, como a consideravam os bolcheviques, o estopim da revolução mundial, não um fim em si.

Mas tal ajuda não veio. E mais de uma dezena de nações capitalistas invadiu o País dos Sovietes para fazer soçobrar a revolução, reforçando a contrarrevolução interna. Não conseguiram, mas se pode imaginar a devastação física, humana, econômica e moral do país.

Mesmo devastada e isolada, a Rússia precisava tentar se erguer. Mas qual seria a consequência desse atraso para o socialismo nascente?

Quem responde é Leon Trotsky:

"É possível que, em virtude de um determinado alinhamento de forças nacionais e internacionais, o proletariado conquiste o poder em um país atrasado como a Rússia. Porém, o mesmo alinhamento de forças demonstra de antemão que, sem uma vitória mais ou menos rápida do proletariado nos países adiantados, o governo russo não sobreviverá. O regime soviético abandonado a sua própria sorte degenerará ou cairá. Mais precisamente, degenerará e depois cairá".

O país isolado, atrasado, fechado em si mesmo, optando teratologicamente pelo "socialismo em um só país" (sic) inevitavelmente falharia na missão de construir o socialismo. Permitiu o nascimento de uma casta burocrática que usurpou o poder dos sovietes. E transformou a ditadura do proletariado na ditadura do partido e, em verdade, na ditadura do secretário-geral.

Em tal cenário, Trotsky nos dá duas variantes hipotéticas: ou a classe trabalhadora faz novo levante para derrubar a burocracia e salvar o socialismo, ou a burocracia, ela própria, restaurará o capitalismo. Afinal, não se contentará, cedo ou tarde, em ser a mera detentora dos meios de produção; vai querer ser proprietária. Infelizmente, foi essa última opção a vitoriosa e pode-se verificar o acerto do prognóstico facilmente: os "novos-ricos" russos de hoje são todos oriundos da "nomenklatura"...

Feita essa breve digressão histórica, há que se perguntar se a causa da falência da URSS, se os crimes do stalinismo, se a degeneração do partido bolchevique, podem ser atribuídos a um defeito intrínseco ao marxismo ou ao leninismo.

Uma das maiores defesas jamais feitas ao marxismo e ao leninismo está no opúsculo de Trotsky, "Stalinismo e bolchevismo". Primeiro, vem uma verdadeira profissão de fé:

"O marxismo encontrou sua expressão histórica mais elevada no bolchevismo. Sob a bandeira bolchevique se realizou a primeira vitória do proletariado e se instaurou o primeiro estado operário".

Como negar o acerto dessas palavras? É possível que venha a surgir um método melhor. Seria antidialético pensar o leninismo (ou bolchevismo) como uma forma "perfeita", "acabada". Também o leninismo deve ser superado. Mas não há ainda, penso eu, ferramenta melhor de práxis revolucionária.

Teria a URSS degenerado por causa do leninismo? Trotsky prossegue:

"Apresentar o processo de degeneração do estado soviético como a evolução do bolchevismo puro é ignorar a realidade social (...)"

Há que se considerar, na degeneração do Partido e do Estado (que inclusive em dado momento passaram a se confundir) todas as variáveis levantadas na digressão histórica acima. A melhor ferramenta pode, em dadas condições, se estragar, e isso não é decorrência da ferramenta senão das condições. Ainda Trotsky:

"O partido que se apodera do estado pode, por certo, exercer sua influência sobre o desenvolvimento da sociedade com um poder que antes lhe era inacessível, porém, em troca, se decuplica a influência que os demais elementos da sociedade exercem sobre ele. "

O partido não está acima nem além da sociedade na qual se insere. As ideias, eu disse acima, precisam de meios materiais, inseridos em um contexto histórico. O atraso, a guerra, a fome: é evidente que o Partido não ficaria imune a isso. A existência determina a consciência, nos ensinou Marx.

Deduzir o stalinismo do bolchevismo é o mesmo que deduzir a contrarrevolução da revolução. O stalinismo é, conclui Trotsky, a "negação termidoriana" do bolchevismo. Não são iguais.

Vejo os companheiros Domingos e Fernando, de forma legítima, eis que sincera, expondo as críticas que lhes fizeram abandonar os quadros do Partido Comunista Brasileiro. Não posso palpitar, por se tratar de opiniões pessoais, nem posso, em respeito ao leninismo (já que sou membro do Partido), dizer aqui se concordo ou não com o teor dessas críticas. Mas penso -e já não me refiro ao PCB em especial, e sim a qualquer agrupamento humano que tenha por escopo a transformação revolucionária da sociedade- que não há partido, coletivo ou organização "prontos" ou "acabados", como o próprio leninismo, conforme falei acima, não é "pronto" ou "acabado". Antes é uma construção diária, dialética, coletiva. Árdua, sem dúvida. Enfrentar tais contradições é o preço que se paga por se engajar, efetivamente, na luta revolucionária.

Naturalmente, há outras formas de militância. Mas penso -como Trotsky- não serem superiores ao leninismo e, em todo caso, nenhuma outra forma de atuação está isenta de obstáculos. Idiossincrasias de toda sorte pululam ao nosso redor e temos, como bons psicológos, que lidar com esses egos.

Pode-se acrescentar ferramentas ao leninismo, naturalmente. Por exemplo, vejo como importante considerarmos o aspecto moral; não a moral burguesa, conservadora e calcada em séculos de obscurantismo religioso, mas a moral humana, a postura ética que os homens devemos ter uns com os outros. É nesse sentido que considero o comunismo também uma filosofia de vida: é preciso que nos despojemos de toda a "carga" acumulada, do egoísmo, do individualismo, do pessismismo, da angústia. O comunista é vibrante e apaixonado pela vida e, mesmo que pareça ridículo, é guiado por sentimentos de amor (como disse Che Guevara, essa outra figura complexa).

Devemos fomentar ao máximo, também, o espírito crítico que é próprio do marxismo. Joguemos fora os manuais; à lata de lixo da História para com os "guias geniais" e "grandes timoneiros" do stalinismo. O comunista, além de ético e vibrante pela vida, é desafiador, inquieto, ousado, rebelde, lírico. Caso contrário, não se é revolucionário, e de comunista só terá o nome.

(E deter meramente um "nome" não é grande coisa; o PCdoB não é de hoje é um partido institucional burguês; o PCCh explora a classe trabalhadora chinesa; o PT, então, de "dos trabalhadores" não tem nada).

Não é o rótulo que importa, e sim a ação. "Imagem não é nada", não diz o comercial de refrigerantes?

Seria uma grande honra militar no mesmo Partido com os companheiros Domingos e Fernando. Mas respeito sua decisão, assim como eles, sabendo que pertenço a esse mesmo Partido do qual saíram, me respeitam convidando-me para integrar a equipe do blog.

Não precisamos, contudo, estar na mesma organização para que militemos juntos. Quem quer que lute contra a opressão, a exploração, o obscurantismo, o pensamento binário, quem quer, enfim, que lute pela emancipação do homem- é meu companheiro de barricadas, esteja onde estiver.

Com saudações comunistas do,

Joycemar Tejo

domingo, 19 de dezembro de 2010

Um catecismo divertido parte II

Ontem eu postei a primeira parte do texto: Um catecismo divertido do politiqueiro bispo Dom Geraldo Doença Proença Sigaud. Sem mais delongas e na agradável companhia do leitor pensante, passo a comentar as pérolas do santito.

7 Que pensa a seita comunista a respeito da natureza humana?



Para a seita comunista o homem é um simples animal; embora mais evoluído do que o boi e o macaco, não passa de animal.

Mas segundo a biologia o homem é um simples animal e dentro da linha da evolução não existe nem mais nem menos evoluído. Acho que o bispo nunca folheou um livro didático de biologia. Como teólogo foi um ótimo bispinho de capela.

8 Qual e a primeira conseqüência prática desta doutrina?



A primeira conseqüência prática deste materialismo é que o homem deve procurar sua felicidade somente nesta terra, e no gozo dos prazeres que a vida terrena oferece.


São dois extremos o materialismo vulgar e o idealismo platônico. É evidente que os adeptos do primeiro caso nada mais são do que a reação contra o idealismo platônico presente dentro desse falso cristianismo. Pois quem é que não sabe que o cristianismo a partir do 5º século tornou-se maniqueísta, graças à influência de Santo Agostinho que bebeu em fontes neoplatônicas. Ora, para esse cristianismo a carne é corrupta, os instintos sexuais são maus, devemos odiar os prazeres, porque este mundo é um desterro, um vale de lágrimas, pois se não fizermos isso - dizem os padres - não entraremos na beatitude. Por causa dessa doutrina os padres deixaram de lutar por um mundo menos injusto, e essa ideologia serviu aos senhores feudais, depois aos reis absolutistas e agora tem servido à burguesia. Como não podia deixar de ser o materialismo vulgar foi para o extremo contrário.

10 A seita comunista dá importância à Religião?



Embora negue a existência de Deus, e afirme que a Religião é coisa quimérica, o comu­nismo dá grande importância ao fato de que existe Religião no mundo, porque vê nela o seu maior inimigo. Lenine a chama de “ópio do povo”.


Uai, não foi Marx quem disse que a religião é o ópio do povo?


11 Por que a Religião é inimiga do comunismo?



A verdadeira Religião, que é a Religião Católica, é inimiga mortal do comunismo, porque ensina exatamente o contrario do que ele ensina, e inspira os fieis a preferirem a morte às doutrinas e ao regime comunista.

Ou seja ensina que o trabalhador deve ser explorado pelo capitalista, e que este deve se conformar com isso porque são desígnios divinos. E que a morte é melhor do que sujeitar-se ao socialismo/comunismo. Já o capitalismo não é inimigo da Igreja Romana, mas inimigo do Cristo que condenou os ricos diversas vezes nos Evangelhos.

13 Para conquistar o poder, que faz a seita comunista com referência à Igreja Católica?



Para conquistar o poder, a seita comu­nista procede da seguinte maneira com relação à Igreja Católica:


a) Procura persuadir os católicos de que não há oposição entre os objetivos da seita e a doutrina da Igreja. Procura até apresentar as idéias comunistas como a realização da doutrina do Evangelho.


b) Procura criar urna corrente intitulada de “católicos progressistas”, “católicos socialistas” ou “católicos comunistas”, para desorientar e desunir os católicos.


c) Procura atirar as organizações católicas contra os outros adversários naturais do comunismo, como os proprietários, os militares, as autoridades constituídas, para dividir e destruir os que se opõem a conquista do poder pelo Partido Comunista.


d) Favorece as modas e costumes imorais para minar a família e portanto a civilização cristã da qual a família é viga mestra.


e) Mantém nas nações cristãs a sociedade em constante agitação, fomentando antagonismo entre as classes, as regiões do mesmo pais, etc.

O comunismo só tem mostrado as incoerências desse falso cristianismo que não é e nunca foi o cristianismo de Jesus. Sempre digo que o comunismo revolucionário e ateu surgiu graças a esse cristianismo degenerado, se o cristianismo tivesse continuado na linha dos Padres da Igreja, é certo que existiria um Marx e um Lênin, mas jamais um marxismo-leninista. Enquanto houver essa desigualdade gritante o mundo ainda ouvirá falar do nome "temível" de Karl Marx.
No tocante a imoralidade que o prelado fala, a imoralidade é apenas uma palavra pomposa para defender costumes que não são nem eternos nem universais.

14 Depois de conquistado o poder, que faz a seita • comunista com a Igreja Católica?



Sua tática com a Igreja Católica, depois de conquistado o poder, varia de acordo com as circunstâncias. Mas os passos da luta em geral são os seguintes:


a) envolver os católicos nos movimentos promovidos pelo Partido Comunista;


b) afastar os Bispos, Sacerdotes e Religiosos que resistem; se preciso, matá-los;


c) liquidar os líderes católicos;

d) separar a Igreja do país, da obediência ao Santo Padre.

Todas ou quase todas essas táticas também foram usadas pelos prelados da Igreja Romana muito antes dos comunistas existirem.

A Igreja Romana depôs reis, desuniu povos, converteu povos à força, matou os que resistiram, etc... É o roto que fala do esfarrapado.

16 Se o comunismo ensinasse que Deus existe, e tolerasse a Religião, os católicos poderiam ser comunistas?



No dia em que o comunismo admitisse que Deus existe, e que ele é Senhor nosso, já não seria propriamente comunismo.


Como assim? Não existe um socialismo/comunismo cristão? Será que o bispinho nunca ouviu falar na República guarani, que era comunista e cristã? Não, decerto não.

18 Em que outros pontos fundamentais existe esta divergência radical?



Esta divergência existe em todos os pon­tos. Mas ela é mais fundamental em relação à verdade e a moral, a família, a propriedade e a desigualdade social.

Em relação à verdade, claro, o papa e seus sequazes se acham donos da verdade. A divergência em relação à moral, à família, a propriedade e a desigualdade social é fato. A palavra moral vem do latim mores e significa costumes, ou seja, foi criado e imposto aos habitantes de um determinado lugar. Isso quer dizer que a moral nem é eterna nem universal. No tocante a família burguesa esta tem se mostrado uma verdadeira farsa ao longo da história,é uma família que já não tem razão de ser em nossa época.
Quando o prelado fala da proprioedade e da desigualdade social nem parece um bispo romanista, mas um pastor protestante calvinista. Creio que faltou ao bispo o estudo de Tomás de Aquino que não era socialista, mas defendeu pontos interessantes no que diz respeito à propriedade.

19 Que ensina o comunismo a respeito da verdade?



Ensina a Igreja que Deus criou o mundo e criou a alma humana, que é inteligente. A alma conhece a verdade das coisas. Ela afirma que urna coisa é idêntica a si mesma, dizendo o que é, é; o que não é, não é.


O comunismo ensina que não há verdade. Uma coisa pode ser e não ser, ao mesmo tempo. Uma coisa é ela e o contrário dela.

O bispo que se diz seguidor daquele que disse: "Eu sou a verdade" (Jo 14,6), mente descaradamente quando afirma que o comunismo ensina que não há verdade, que uma coisa pode ser e não ser ao mesmo tempo. Mas que esperar de uma obra panfletária sem quaisquer embasamentos científicos? Se tivesse lido as obras marxistas não teria dito asneiras como essa.


















sábado, 13 de novembro de 2010

Ditadura do proletariado, o que é isso?


É muito provável que você já tenha ouvido falar ou lido sobre a ditadura do proletariado. A ditadura do proletariado é no entanto uma ilustre desconhecida. Comunistas de partidos ou sem partidos falam da ditadura do proletariado sem no entanto definirem o que ela seja. Estalinistas por exemplo, crêem que a ditadura do proletariado é a ditadura de uma pessoa ou de um grupelho de "iluminados". Crêem que a ditadura do proletariado se dá por meio do autoritarismo.

Para saber o que é esse termo e porque foi usado por Marx faz-se mister saber como Marx concebia o termo.

Para Marx o Estado burguês é uma ditadura, porque é dividido praticamente em duas classes: a dos explorados e a dos exploradores. O Estado para Marx é uma ditadura independente do governo que adote: monárquico absolutista, monárquico constitucional, parlamentarista, etc...

A ditadura da burguesia tem duas características: a política que é a dominação de uma classe por outra e a jurídica que elabora as leis a favor da burguesia contra os trabalhadores.

Agora que o leitor e eu sabemos o que é a ditadura da burguesia, podemos avançar para o verdadeiro significado da ditadura do proletariado.

A ditadura do proletariado nada mais é que o Estado assumido pelos proletariados, isto é, operários e camponeses. Eles administram o Estado, mas isso não quer dizer que isso seja uma ditadura no sentido em que entendemos o termo ditadura, pois para Marx qualquer forma de Estado é uma ditadura, pois o Estado cria as divisões de classes. A ditadura do proletariado é o Estado socialista que na visão de Marx é apenas uma rápida transição para o comunismo que é a extinção do Estado porque já não existem mais classes.

A ditadura do proletariado não significa a tomada do poder pelas armas, pelas forças, pela violência, ela pode dar-se de maneira pacífica, pois Marx acreditava que a revolução se daria pacificamente na Inglaterra, porque tinha todas as condições para a revolução.

A revolução na Rússia não foi uma revolução dentro dos moldes marxistas, queimaram etapas necessárias à revolução e aquilo que começa errado não pode vir a dar certo no fim, é como uma equação matemática se você erra no começo não espere que o resultado dê certo no fim. No entanto, reconheço que muitos benefícios foram dados ao povo soviético, mas algo que começa errado...

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Marx não morreu!

Navegando pela internet e pesquisando ora sobre o grandioso Marx ora sobre o capitalismo encontrei alguns vídeos maravilhosos, sobre Marx e o marxismo.

O ator Fenton Wilkinson interpreta Karl Marx da obra do historiador Howard Zinn.

Vídeos para todos os que desejam entender a Marx e sua obra, para os que acham que entendem de marxismo e também para os fanáticos que acham que Marx é um profeta e sua obra uma espécie de revelação.





quinta-feira, 29 de julho de 2010

Marx, marxistas, marxólogos, e marxachistas

Karl Marx foi um grande filósofo e cientista político, isso ninguém pode negar, mesmo que seja contrário as suas ideias. Marx desvendou os segredos da exploração do homem pelo homem, tornou acessível ao trabalhador a filosofia, a economia, etc...

Marx foi tão grande e genial que deixou uma escola (linha de pensamento), mas não só isso, Marx foi titânico pois faz com que até seus inimigos leiam suas obras. Mas é uma pena que tantos seus discípulos como seus adversários deturpem seus conceitos, há também discípulos fiéis e adversários que respeitam sua pessoa. É o que veremos a seguir.

Há três tipos de pessoas que se relacionam com Marx:

1º) Marxistas - Os marxistas subdividem-se em dois grupos:
a) Ortodoxos ou marxólatras: São os marxistas sunitas do talebã, que encaram Marx como uma espécie de papa que goza da infalibilidade em todas as coisas, para não dizer pior, encaram Marx como um deus e sua obra como a Bíblia ou o Corão. Os marxistas ortodoxos são fanáticos e acham que a revolução deve ser armada e nos moldes do que Marx e Lênin falaram. Eles situam Marx além do tempo e do espaço como se sua obra fosse universalmente necessária, verdadeira e irreformável em si mesma.
Fui a um curso de formação marxista organizada por um movimento de esquerda e pensei que iria aprender coisas interessantes, mas em lá chegando deparei-me com a milícia talebã marxista. Um dos conferencistas a quem tive o desprazer de ouvir atacou Paulo Freire ininterruptamente por mais de meia hora. Eu ouvi toda aquela "logorréia" de forma estóica, pois não quis polemizar com o fanático. Mas o cidadão afirmou que Paulo Freire não era marxista, que não era revolucionário, mas reacionário. Que mudou o significado do vocabulário marxista que são proletário e burguesia por oprimidos e opressores (como se realmente fizesse diferença) e outras coisas do gênero. E em seu ódio contra tudo o que não é marxolatria, disse que o método Paulo Freire é uma babaquice e que não funciona, mas não apresentou nenhum dado oficial, nem mesmo extra-oficial. Logo vi que não entende nem de Paulo Freire nem de Marx;

b) Marxistas heterodoxos ou revisionistas: São aqueles que acreditam que o marxismo é um instrumento de luta e não uma Bíblia ou um Corão, não encaram Marx como um Messias ou profeta, mas como homem genial que foi com seus erros e limitações, mesmo porque Marx era um homem de seu tempo e por isso não podia transcendê-lo. Dessa corrente podemos citar os seguintes nomes: Karl Kautsky, Rosa Luxemburgo, Plekhânov, Antônio Labriola, Carlo Rosselli, Antônio Gramsci, Paulo Freire entre outros.

2º) Marxólogos: São aqueles que estudam a obra de Marx e podem ser marxistas ou não. Uma boa definição de marxólogo pode ser vista no blog reacionário Depósito do Maia.

3º) Marxachistas são aqueles que encontramos em botecos e nas redes sociais como o Orkut, Facebook e outras redes. Nunca leram Marx, mas odeiam Marx por diversos motivos ou porque são capitalistas ou porque são beatinhos de capela que acreditam em tudo o que dizem os padres. São aqueles que ouviram falar de Marx e põem-se a fazer falsas citações de Marx e procuram mostrar-se ilustrados, mas a profundidade de seus estudos é o mesmo que o de um pires.

Para concluir, eu sou marxista heterodoxo, porque acredito na síntese, porque acredito que a virtude está no meio e que os extremos se tocam, é isso.

sábado, 27 de março de 2010

A visão da educação influenciada por Parmênides




Publiquei na postagem anterior a minha redação que é a visão de um educador influenciado por Heráclito. Agora, publico a redação do professor Domingos, que é a visão de um educador influenciado por Parmênides de Eléia. Segue a redação em itálico.

O paradoxo da educação

Grosso modo podemos afirmar que as necessidades básicas do adolescente de hoje são as mesmas do que aquelas que nortearam as vidas de seus pais e avós: a busca pela aceitação dentro do grupo a que pertencem, pela autoestima, pelo equilíbrio emocional e certamente pela realização profissional enquanto colocação no mercado de trabalho.

E apesar disso o ritmo das transformações sociais ditado pelo processo capitalista da produção, alterou por completo a dinâmica em que tais necessidades são supridas.

Os meios de transportes e de comunicação aceleraram de tal modo as relações sociais que a psicologia sequer teve tempo de analisar o impacto de tais mudanças e alterações na mente das nossas crianças e adolescentes.

As crianças e adolescentes entram muito cedo na vida adulta de modo que as necessidades de sempre exigem uma satisfação um tanto mais precoce até que se atropelam e amontoam, gerando assim instabilidade emocional e conflitos sob a forma de rebeldia entro dos lares e da sala de aula.

Julgamos portanto que o ritmo a que os adolescentes tem buscado satisfazer suas necessidades devem ser mudadas e que deixem de ser imediatistas e que as relações não sejam mais ditadas pelo capital.