Mostrando postagens com marcador Contracultural. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contracultural. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 1 de julho de 2010

HORÓSCOPO E UTILITARISMO PRÁTICO



Folheie o jornal atento as matérias de maior força nas páginas, afeito a arte que também pratico, detive-me mais demoradamente na charge e nas tiras do dia, por fim detive-me para ler atentamente o meu horóscopo. Horóscopo??? Alguns devem ter ser perguntado, ou ainda, outros antes mesmo de terminar a leitura já julgaram e sentenciaram: besteira isso de previsão!
Antes de prosseguir me desvio um pouco do curso normal ao texto e passo a um caso contado por Nietzsche em seu livro “Crepúsculo dos Ídolos, ou a filosofia a golpes de martelo”.
“De passagem por Atenas, um estrangeiro fisionomista disse frontalmente a Sócrates que ele era um monstro que ocultava todos os vícios e maus desejos (e que na cultura grega eram representados por entidades bem definidas). Sócrates respondeu simplesmente: "Conheces-me, meu senhor".” 
E segundo alguns teria completado: Mas dominei todos! Interessante, mas e o horóscopo? Prossigo: Quantos de nós pode “atirar a primeira pedra”, quantos podem dizer não carregar dentro de si um “anjo e um demônio”, “vícios e virtudes”? Somos todos o monstro.
O horóscopo, — e não entendam aqui que esteja eu discutindo sua validade, sua verdade ou não — trás de um modo geral um conselho para o dia, uma ação que deva evitar ou realizá-la para ter um dia melhor, ou mesmo uma semana, até mês.
Onde o horóscopo fundamenta seus conselhos? Quais os valores por trás da orientação? A filosofia por trás do horóscopo diz que temos bons e más tendências e que nossa evolução ou equilibrio depende de combater as más e usar as boas, em resumo.
Logo meu caro leitor, posso não acreditar na previsão do futuro apregoada pela astrologia, mas leio o conselho, e naquele dia ele me fala sobre um dos vícios ou virtude,  uso o exercício para prestar a atenção em um dos demônios ou dar vazão ao anjo do dia, enquanto não consigo com um heroismo socrático dominá-los todos. É como aqueles livrinhos de conselho que comumente se abre numa página ao acaso e buscasse um conselho por dia.
Resignifico o que leio e mesmo quando o que me é apresentando não me apetece simplesmente olho-o por meu prisma e reinvento para meu benefício. Já pensou quantas vezes uma situação, ou um texto, um livro, foi condenado por você. Quantas vezes você criticou algo e na realidade estava em você a incapacidade de usar a seu favor? Pense nisso, pode fazer toda diferença.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

HOMENAGEM AO MESTRE

 

Somente agora consegui assimilar sua perda. Você é daqueles, prova viva que é possível ser inteligente mesmo em tempos de escassez de vida intelectual.

Gosto de vê-lo assim, intrépido, arrogante, crítico, assim então o retratei...

Grande falta, e a mediocridade avança, você se vai, Paulo Coelho fica e Geisi (grafado errado propositalmente) Rio-Arruda, uma universitária analfabeta funcional terá biografia lançada...
Não entendeu?? Leia aqui...

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

LAVE A BOCA PARA FALAR DE NIETZSCHE

 
Atenção: Se o seu conhecimento de Nietzsche se resume a resenhas de revistas, a livreto de chororo do filósofo não vou linkar aquela bosta de livro, jornais ou as impressões causadas pela mídia para fazer deste filósofo algo POP e “interessantérrimo” (entenda esta última palavra com acentuada afetação homossexual) , este artigo é para você. Se além-homem (você deve conhecer como super-homem, é mais fashion), eterno retorno, vontade de potência, niilismo lhe causam fissura e só fazem lhe chamar mais a atenção para o filósofo que você acreditada de “orelhada” que foi o precursor do nazismo você é estúpido e medíocre este artigo é essencial para sua parvorice.

Moro em minha própria casa.
Nada imitei de ninguém.
E ainda ri de todo mestre,
Quem não riu de si também.
Friedrich Nietzsche

Este artigo para desgosto daqueles que citam Nietzsche para parecer inteligentes e exótico na mesa do bar, abordará brevemente o legado de seus escritos para a epistemologia, tema que não serve de cantada para nenhum tipo de mulher. O que já é para os leitores parvos e pops minha primeira contribuição com seu intendimento curto ou distorcido:

Dentre as contribuições de Nietzsche para a filosofia uma das mais importante foi para a teoria do conhecimento.

Falando brevemente de teoria do conhecimento, passamos novamente a um breve resumo: A teoria do conhecimento, se interessa pela investigação da natureza, fontes e validade do conhecimento. Entre as questões principais que ela tenta responder estão as seguintes. O que é o conhecimento? Como nós o alcançamos?


Apesar de todo avanço no campo da epistemologia e seu esgotamento em Kant, muito pouco foi feito além de categorizar as correntes sobre como o conhecimento é possível (dogmatismo, ceticismo, empirismos, racionalismo, realismo, idealismo...) e fundamentalmente todas as questões traziam como essencial o mesmo ponto de partida: o ser, o ente e a verdade. Entendendo aqui não somente suas definições, mas que existe “a verdade” e o ser por um meio definido poderia atingi-la.

Nietzsche atento ao fato de que a verdade sempre foi parte de um domínio inscreve o conhecimento numa perspectiva fisiológica e genealógica. Desafia o costume e subverte o sentido do ato de conhecer para não mais simplesmente conhecer, mas para dominar.

Neste sentido seu pensamento se aproxima e expande para além do conceito de Marx para Ideologia. A verdade é apenas uma simplificação da complexidade da vida em nome de uma necessidade prática ou de um grupo dominante. A reconciliação de Marxs e Nietzsche acontece em Ideologia Alemã e Genealogia da Moral.

Os conceitos de ser, ente, verdade, alma, são duramente atacados e esvaziados. Para este conceito instaura o devir, os centros de força, vontade de potência, alma como interiorização dos instintos. Para o finalismo opõem o eterno retorno. Não são temas para apenas um artigo.

O legado “daquele que filosofava a golpes de martelo” para a epistemologia foi o Perspectivismo. Nietszche abre a filosofia para um novo cenário, onde florescerá o existencialismo, a fenomenologia. A problematização da filosofia é tirada do colo de Deus e da Razão e colocada diante do Homem.

Além do bem e do mal, além da verdade e da mentira, além de si mesmo, basta querer...

Este artigo foi escrito em um acesso de fúria que me acomete frequentemente ao encontrar aqueles que só dizem parvolice a respeito deste que é um dos mais importantes nomes da filosofia.

_________________________________________________________

Brevíssima resenha sobre Nietzsche (fragmentado do verbete na Wikipédia em língua portuguesa)

Friedrich Wilhelm Nietzsche foi um influente filósofo alemão do século XIX.

Nascimento: 15 de Outubro de 1844 - Röcken, Alemanha
Morte: 25 de Agosto de 1900 (55 anos) - Weimar, Alemanha
Nacionalidade: Alemã
Ocupação: Filósofo e filólogo
Obra máxima: Assim falou Zaratustra
Escola/tradição: Filosofia Contemporânea, Filosofia continental, Romantismo
Principais interesses: Epistemologia, Ética, Ontologia, Filosofia da história, Psicologia
Idéias notáveis: Morte de Deus, Vontade de Poder, Eterno retorno, Super-Homem, Perspectivismo, Apolíneo e Dionisíaco
Influências: Heráclito, Platão, Montaigne, Spinoza, Kant, Goethe, Schiller, Schopenhauer, Heine, Emerson, Poe, Wagner, Dostoiévski
Influenciados: Rilke, Jung, Iqbal, Jaspers, Heidegger, Bataille, Rand, Sartre, Camus, Deleuze, Foucault, Derrida, Sigmund Freud
Veja mais aqui.

Para uma breve introdução a problemática da epistemologia recomendo o artigo na wikipedia.
Para introdução a alguns dos conceitos chaves veja o tópico no orkut  que inicie e que será constantemente atualizado.
O artigo inconcluso, falta adaptar as folhas de estilo, sobre vontade de potência na wikipédia também é de minha autoria.

Leia também: A morte de Deus!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Dinheiro não se come imbecil...

 

           1º ponto
          As Revoluções Burguesas mais importantes são a Revolução Gloriosa (na Inglaterra) em 1688, a Revolução Americana (EUA) em 1776 e a Revolução Francesa (1789). A Revolução Industrial, ainda que incluída no contexto das Revoluções Burguesas não se equipara às primeiras por faltar-lhe o componente de transformação político-institucional. Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
           Muitas revoluções foram financiadas e incentivadas pela burguesia. Somente quando o estado ameaça sua proteção e lhe causa dano esta classe se mexe, provocando até hoje mudanças radicais nos planos econômico, político e sociais do mundo todo.
            2º ponto
            Hoje e ontem vimos a notícia que segue resumidamente.
            O número de mortos pelas tempestades de inverno por toda a Europa subiu hoje para pelo menos 80 pessoas. O fenômeno também levava caos ao sistema de transportes, deixando dezenas de milhares de pessoas descontentes pela paralisação nos trens de alta velocidade entre a Grã-Bretanha e o continente, sistema operado pela companhia Eurostar. Muitos foram afetados pelos cancelamentos das viagens entre Londres e Paris. Centenas de voos por todo o continente não decolaram, e houve ainda acidentes e grandes cortes no fornecimento de energia. Origem: Correio do Povo.
            
            Concluíndo: 
            Eu sei que muitos vão julgar sadismo, mas eu posso ousar dizê-lo, afinal eu sou contracultural, e minha posição de marginal me exime de ser censurado de forma demais severa pelo que digo; é como o bônus de não censura que se dá ao louco que anda nú pela rua e apenas se diz: ah, é apenas um louco! E o que eu tenho a dizer é: 

Me deu grande prazer de ver esta notícia.

            Somente com o apoio da classe média, e sua mobilização as classes menos abastadas poderão mudar o quadro das discussões climáticas. Somente tirando o conforto e lhes ferindo na carne, atrasando seus voos de lazer, a classe média entrará na briga contra os ensandecidos super-ricos e assim poderemos discutir seriamente as questões emergências de nossa civilização.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Batata-quente - 1ª Campanha do Sindicato


Vou pagar o honroso convite de meu amigo Fernando (Felix) para este blog passando a batata-quente do sindicato. E como este é mais um blog escrito que qualquer outra coisa, irei fazer um breve texto, ou se preferirem o neologismo ruim e cacofônico, um textículo.


A batata


A batata tem história, como tubérculo é originária dos Andes peruanos e bolivianos. 


Como agente da história humana foi reserva dos Irlandeses contra o massacre inglês. Enquanto as tropas inglesas incendiavam trigais e matavam porcos, a  batata resistia abaixo do solo alimentando os revolucionários. 


Os nutricionistas dizem que em um caso de urgência qualquer a batata e um pouco de leite poderia suprir todas as necessidades de nosso organismo. 


Na arte, dizem que Van Gogh cortou a orelha por causa de uma batata mal feita por sua cozinheira.... Ok, não vou exagerar! Na verdade, ele retratou o cultivo da batata numa de suas obras mais famosas, na qual dois camponeses colhem a batata na plantação.


Na língua portuguesa, a batata tem como seu profeta e messias Nelson Rodrigues que imortalizou a expressão. Para este dizer "é batata" pode significar que algo é lógico, sem dúvida alguma, certo de acontecer, então dava fumos a batata de que uma traição de longa data era certa, que um palpite no jogo de bicho é acertado, ou mesmo a parte de arremate dramático de um aforismo dito em um botequim dos mais ralé.


"A batata está assando" significa jura de que o mal será feito, que as coisas não terminaram bem, é só questão de tempo.


"Vai plantar batata" é uma interjeição para que o outro abandone o que faz e se afaste se não quiser ver sua batata assar.


"Passar a batata-quente" é livrar-se um problema, de uma dificuldade, ou situação embaraçosa, um desafio.


Como podemos ver é ilustre a figura que está passando entre os associados...
Assim termino minhas linhas. 
Espero que a contento.



terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Criador e Criatura - Um Princípio


É necessária uma explicação para o texto que se segue, ou parecerá ao leitor desavisado sem sentido ou contexto. O texto abaixo é trecho do Livro Alfa - Um Princípio (título provisório) escrito no ano de 1998 por este amador que lhes escreve. O livro não foi publicado, mas se um dia concluir uma revisão adequada talvez possa lhe dar vida ao publicá-lo. A sinopse do livro, sendo excessivamente sucinto, trata da história de um príncipe de um povo lendário, Chamado Alfa, e que se vê  arrancadado de seu lar por um povo hostil. O que se segue é a batalha deste por toda a Grécia para reaver seu trono. A história se complica quando este descobre que os acontecimentos em seu reino estão relacionados com uma guerra nos céus que alterou a ordem do mundo. E o que era uma batalha comum por vingança se torna uma busca heróica pela ordem do mundo.


Resolvi publicar aqui este trecho por seu teor filosófico. Nesta parte o príncipe Alfa esta peregrinando em busca de respostas e encontra vários gurus exilados do mundo, cada qual com sua verdade de hermitão. Abaixo segue o diálogo do príncipe com um e tirano que perdeu a fé na civilização.



Peregrinou durante todo um dia em completa solidão, até encontrar no caminho um velho senhor que o carisma já o convidara a sentar e partilhar a presença antes mesmo de expressa-lo.  Alfa encontrando neste homem conhecimento incomum, quis ouvi-lo e sentiu-se sorteado por tantos homens diferentes em pequena viagem.  O velho falou-lhe nestes modos:
—Detenha-se por hora, recoste-se em pedra ou arbusto e ouve a minha história que poderá servir-te quando de sua velhice ao menos, assim como serviria a todos os homens sábios. Vê toda esta terra por onde se estende hoje a polis e seus arredores até onde podemos enxergar? 
—É uma região maravilhosa, de relevo privilegiado e fértil. Respondeu Alfa.
—Estas terras e muitas outras – continuou o ancião com ar solene – pertencem aos meus antepassados, que aqui chegaram trazendo civilização quando os homens promoviam guerras de sangue por motivos quaisquer e suas moradas estendiam-se dispersas por estas planícies sem sentimento de Estado, sem motivo para que crescesse entre eles a diretriz de uma civilização. Meus antepassados cederam terras a estes homens em nome da civilização, da hospitalidade. Da polis atual quase dois terços eu herdei e não houve luxo que não tenha eu desfrutado. 
—As nossas vidas assemelham-se neste ponto. Fecundidade e escassez.
—Os homens que chegavam nestas terras fixavam-se onde considerassem melhor para viver. As ásperas montanhas de pedras calcárias ocupando quase todo o território, restringiram  naturalmente a ocupação dos territórios, aproximando os homens. Os genos eram minúsculas comunidades naturais, onde se reuniam um número pequeno de famílias. Com o tempo, as famílias obrigatoriamente foram criando laços, resultando em antepassados comuns para prestarem culto a um só sangue. Logo os genos tornavam-se comunidades de sangue comum. As pequenas aldeias cresceram e conquistaram inimigos para os quais tiveram necessidade de criar um sistema de defesa.

—São as Acrópoles.
—Justamente. Nos locais mais elevados construíam a Acrópole e ao redor muralhas para dificultar as investidas inimigas. As atividades agrícolas foram substituídas por outras atividades econômicas, que atraíram elementos estrangeiros, unindo os homens ainda mais. As várias atividades propiciaram o surgimento de classes distintas. As lutas políticas sucediam-se. A solução foi criar leis para regulamentar as atividades sociais e econômicas. Os meus antepassados formaram a aristocracia regente; na crise desta, surgiu a tirania. O tirano, senhores das cidades, protetores da justiça e religião, arrastou consigo as artes diversas para uma explosão intelectual. O sangue dos meus antepassados tem raiz desde o princípio desta civilização. 
—Mas por que vieste para a montanha —coloca em questão Alfa —afim de isolar-se, se o destino reservou-te vida afável e segura? 
—Eu lhe asseguro estrangeiro a existência escura de um pacto. Há um pacto obscuro entre a alma e a sociedade. “Quanta dor há em você! Quanto sofrimento corrompe a sua alma! O seu corpo poderá suportar este vazio que há dentro de você ou não faltará muito para que desabe como um saco de carne, repleto de tripas, sem a sustentação dos ossos?” Disse-me a angústia...
—Continue, começo a entender! 
 —A angústia conduziu-me ao encontro do ser.  Dissolvido no cotidiano, de repente, senti-me estranho a minha condição. Eu não tinha vivido, mas existido até aquele momento. Eu percebi que o homem pode transcender, atribuindo um sentido ao ser, vestindo-lhe de bem e mal. “O seu corpo não consegue sacudir os alicerces? Quanta dor, quanto sofrimento!” O cotidiano, aliena o homem de sua inclinação original: a ontologia. As preocupações cotidianas, o sacrifício pelo opressivo “eles” desviaram-me de minha própria vida. Os homens vivem na sociedade atual sugando uns aos outros prostituindo a si mesmo. Acordei e percebi que os objetos que possuía afastavam-me cada vês mais de mim. Os objetos que eu adquiria me possuíam. “Eu sou capaz de aliviar sua dor. Eliminar o seu sofrimento. Eu ofereço um pacto. No início haverá um desconforto, muito do que você é hoje, deixará de existir. Haverá um momento que a sensação de liberdade dará lugar a uma sensação de mecanicidade.  Em pouco tempo a segurança nascerá. Este é o meu preço, posso aliviar a sua dor em troca de sua liberdade ou viva livre com sua angústia. Vague livre por todas as partes ou aceite minha oferta na comunidade, diz a sociedade”. Os homens ofertam a sua liberdade, em troca de segurança contra o meio, mas em especial de si, de sua fúria de movimento.  A existencialidade expressa nos atos de apropriação das coisas do mundo, o prazer de possuir.  Só a angústia desperta o ser humano e percebe que existe na frente de si mesmo, que se constrói no ato. A sua existência precede a essência.  O ser humano é único capaz de agarrar sua vida  e tornar-se o que desejar. O pacto do qual a minha alma foi adágio não o selei, mas os meus pais o fizeram. Não assinei de próprio punho este contrato, por isso, sem remorso liberto-me. A igualdade, o pecado e a vida no além segundo a dieta de conduta reta, tudo isto vi externo ao homem. O verdadeiro projeto do homem é de se construir. O homem é uma obra de arte.
—O que quer dizer com o homem é obra de arte, mais claramente.
—Pensemos na arte. Na criação artística, quando de sua realização existem dois momentos distintos, também possíveis de chama-los fases: a criação e a obra. A primeira quando de sua composição caracteriza-se por uma íntima ligação com o criador que se expressa através desta mesma, carregando-a de signos e experiências íntimas. Nesta fase podemos observar a necessidade do criador realizada somente ali quando do ato da composição. Terminada a obra de arte desvincula-se da paridade criador-criatura assumindo corpo próprio. 
—A criatura terá sempre as marcas de seu criador.
—Não. O criador permanece apenas como um nome. Inserida no tempo histórico a obra passa a desdobrar-se assumindo valores, sendo interpretada de forma às vezes até adversas da intencionalidade criadora. A meu ver o artista é o homem, que tem seu projeto na criação, expressa sem a obrigação e o laço de absolutizar sua obra. E a obra de arte é o produto deste homem liberto, a sua vida.  O projeto do homem é criar além do bem e do mal, e só os homens fortes criam com pleno prazer. 
—Sinto uma certa dificuldade no que tange a obra de arte e a criação.
—Um exemplo. Tomemos este desenho — traceja com o indicador um círculo no chão e marca-lhe o centro, o melhor que pode. — Interprete a representação.
—Bem, o ponto como interpreto, representa o homem e o círculo, o mundo que o cerca. O conjunto seria portanto, o homem fechado em si, só, como indivíduo, mas passível de compreender o universo que o cerca por si.
—Eu pensei simplesmente em uma roda de carroça. Escute atentamente. O momento que realizava o tracejado no chão, evidentemente propus-me a representar algo, este é o momento que chamei de criação. Construção e introdução de signos. Ao terminar o desenho, entendendo que o comparo aqui ao produto final de toda criação, este passa a ser interpretado de forma diversa, conforme o tempo e o entendimento, bem como experiência do observador. O homem está em relação dual com o papel de artista e interprete. Interprete, perante um mundo no qual existe aquém de sua vontade, e na qual fora inserido tendo como forma única de existir somente pela constante escolha...

—E se eu não escolher?
—...que não se furta mesmo na omissão, visto que escolhe não escolher. O ponto de construção é sua livre escolha, não há sinais no céu ou no manto dos deuses. É criador na medida que a sua atividade material e mesmo intelectual, sempre que revelada ao outro, será fruto de interpretação, muitas vezes contrária a sua intenção primeira.


Fim do trecho


Espero que os leitores não tenham ficado com a cara do coringa... 


Acrópole - De acron = cimo, e polis = cidade. As aldeias gregas, por volta de 800 a.c. cresciam, conquistando inimigos. No local mais elevado, os homens criaram seu sistema de defesa, estas eram as acrópoles. 


Polis - Assim eram chamadas as cidades-estados gregas. 


Genos - Comunidades naturais, de proporções minúsculas,anterior a polis propriamente dita. A sua população era constituída de todos aqueles pertencentes a um mesmo sangue ou as vezes raça, etnia. O tempo, faria a comunidade crescer e reunir-se cada vez com mais intensidade nestes núcleos comunitários, em busca de proteção. No início, o ponto mais alto era fortificado para que em caso de guerras, os cidadãos pudessem buscar ali proteção. Esta é a origem da Acrópole, cidade alta. Na medida que a população crescia os muros tomavam maior extensão de terra e leis tiveram que ser elaboradas para regular as relações das classes emergentes. 

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O mito da Criatividade - 70 anos de Batman


Tag Comemorativa

Neste ano Batman faz 70 anos, ou melhor, há este tempo o personagem foi criado por Bob Kane. Quero aqui render-lhe um pequeno tributo, a meu modo. Caramba! O que este cara está pensando? Falar de Batman no intelectualíssimo Bobo da Corte? Sim, eu responderia sim aos puristas e ao fim do artigo espero ter convencido de que valeu a "lauda digital" desperdiçada. Espero que Felix não deseje me matar por escrever aqui sobre isso...


Batman é um herói que marca uma mudança conceitual do tipo herói na DC Comics, uma mudança conceitual também para a cultura ocidental. É perfeitamente o oposto de Superman.


Superman tem seus poderes dada a condição especial sobre que nasceu, assim como outros heróis a um acidente especial que mudou suas vidas, a experiência científica a que foi submetido. Se pensarmos sobre uma análise das idéias que estão envolvidas na composição destes personagens veremos que eles nos falam de nossas próprias noções do herói, do homem de talento, do gênio.


Encurtando, para voltarmos ao Batman, o Superman e heróis com poderes especiais representam a nossa crença antiga em filhos dos deuses como Hércules, a pessoas previlegiadas por inspirações únicas, ao nosso mito cultural sobre a inspiração e a condição de sucesso como uma eleição dirigida por algo superior. Estes heróis são tipos alienantes uma vez que sua mensagem última é que "nós normais devemos deixar de buscar demais sonhos grandiosos, devemos deixar isso para os gênios da ciência, ao Superman, ao Bill Gates, pois isso de herói é para predestinados, para pessoas especiais."


Batman por outro lado, é humano, e aos oitos anos de idade, após uma sessão do filme do Zorro viu seus pais serem brutalmente assassinados. Mas ainda sim, Bruce Wayne é super rico, herdou um império de seu pai. Nada lhe custava abandonar tudo e viver uma boa vida de burguês. 


Wayne, no entanto, criou seu próprio caminho, não quis se calar diante de seu passado, ou contornar a violência sofrida por seus pais. Treinou dias e noites em sua mansão, recluso, foi para as ruas e começou a se preparar. Aprendeu sobre investigação e em alguns anos se tornou o combatente do crime. 


Batman representa a verdade sobre o sucesso, sobre a inspiração, de que Einstein e Darwin não foram previlegiados, (para citar alguns exemplos) mas apaixonados e obstinados por seus ideais. Darwin  colecionou besouros a infância toda, viajou durante cinco anos em pesquisa, publicou mais de uma centena de artigos menores ao retornar a seu país de origem para ganhar espaço e então depois de uma vida de dedicação escreveu "A Origem das espécie".


Batman ensina que basta acordar de seu real estado, sonhar com seu projeto de vida, investir em seu objetivo como seu principal projeto, ser obstinado e resistente as falhas e podemos ser herois.


Bruce Wayne abre o mundo do herói a todos. Celebremos os 70 anos deste grande herói!


Obs: O Mito da Criatividade é o nome do livro de Fábio Zugman, eu recomendo. Este post foi elaborado a partir da leitura do livro.

domingo, 22 de novembro de 2009

MAIS UMA GOTA NO OCEANO...


Boa Noite ao Leitores do Diário de um Bobo da Corte! Estou de volta! espero que não tenha pensado: Nossa, já??
Segue um texto escrito em 2004. Seu tema: Uma análise de Tempos Modernos, do audacioso Chaplin. Caso tenha pensado: Ixi, mais uma interpretação deste filme! Saiba que sim, pois se boas mensagens fosse fáceis de se disseminar, as pessoas saberiam mais frases célebres do que trechos de funk. Por isso sigo martelando...
TEMPOS MODERNOS


O filme Tempos Modernos de Chaplin, possue força sobrecomum no gênero. A possibilidade de significados para os signos utilizados para retratar a crise de 1936 , período entre guerras, se prolonga quase a exaustão; e é com esta força criativa e expressiva que o mesmo atravessa o "salão da casa do tempo", sem se deter, para fixar-se na constelação dos Clássicos.


Clássico é considerado todo produto da atividade artística que por si só estabelece-se como paradigma de seu tempo e para além deste plano se mostra atemporal, sempre atual e necessário. A grandiosidade começa desde a produção do filme, que trás como diretor e no papel de protagonista o insuperável Chaplin, que não satisfeito compunha as músicas de seus Filmes, como Smile (1) (2), que comprovam também a aptidão do mesmo para esta arte.


Obrigado a inserir sons no Filme, Chaplin que considerava o som no cinema como a massificação do mesmo, acaba distorcendo todos os sons existentes, excetuando sua primeira fala no cinema. A distorção além de protesto, contribui de forma notável para contextualizar sua obra, os sons de compreensão confusa são também uma forma perfeita e inovadora de afirmar que a comunicação e por conseqüência a própria razão naquele momento eram na verdade incompreensíveis, ou seja irracionais e não comunicativa, a coroação da razão instrumental.


Nos primeiros instantes surge a cena de um bando de animais, que é sobreposta pela dos operários saindo da fábrica. Esta montagem se mostra rica quando pensamos não somente no imediato, ou seja, que ali se vê a comparação do proletariado, do povo a condição de animais em bando, mas se lembramos que a primeira cena exibida no cinema foi também a da multidão , podemos pensar numa crítica mais ácida, que não se mostra impossível para o brilhantismo de Chaplin.


Ao sobrepor a manada com a cena da multidão é resgatado e criticado o próprio intuito com o qual o cinema principiou. Chaplin estaria a dizer de forma intertextual ao cinema , "olhe o cinema prometeu ser um espelho de seus anseios, mas o que a "indústria cultural, a indústria de massa" vêm desde então fazendo através dele com você é massifica-lo, torna-lo  uma regra, um animal, desrespeitando sua dimensão humano, a favor de uma situação "maquinal".
Outro aspecto interessante refere-se aos três ambientes onde a história se desenrola: A rua, lugar de manifestação, a cadeia, para onde o Estado mandava todo que representasse abertamente perigo a forma imposta e por último A fábrica, espaço de alienação e exploração, esgotam por completo a crítica a sociedade e os problemas da época. Chaplin assim enreda todas as possibilidades possível e relevantes, conseguindo tratar das três classes da época, e seu comportamento: à saber, o Estado e os poderosos, os militares e o proletário.


Momentos antológicos também não faltam. O protagonista na linha de produção apertando parafusos, não consegue nem mesmo no descanso, ou como será  mostrado mais a frente, nem mesmo fora da fábrica, abandonar os movimentos repetitivos, que demostram-se não só um desrespeito a criatividade humana, mas também algo que é capaz de arruiná-la. O homem nesta condição perde sua própria dimensão humana, sua liberdade, e sua forma de lidar com o mundo, com sua vida em sociedade, suas escolhas passam a ser determinadas pela sua forma de produzir, em uníssono com a noção marxista do processo de trabalho (1) (2).


A imagem do homem destruído pelo Sistema chega ao absurdo quando aparece a máquina de automatização de alimentação. Neste ponto a alimentação que é não só uma atividade fisiológica, mas de sociabilidade, entendendo-se aqui almoçar com os amigos e família,  deve ser automatizada para fins de produtividade. Não basta mais o homem chegar a empresa e trabalhar maquinalmente, para o sucesso da máquina, o ser deve se tornar máquina, e a máquina deve se tornar sua forma de pensar, de agir, de se alimentar.


Ocorrido mais alguns eventos novamente a imagem construída por Chaplin, se enche de significado. O protagonista que é engolido pela máquina da linha de produção, é também representado no Judas, o obscuro, de Thomas Hard,  o homem diante do nietzschiano  dragão de milhares de escamas, onde se vê escrito "tú deves", contextualizado para a época como máquina, mas universalmente inserido na problemática humana. Uma alusão ao processo de reificação do homem, a redução do ser diante da linha de produção a condição de coisa, também de engrenagem para os fins do processo.


Se não fosse a sutileza de Chaplin, a incapacidade do protagonista em lhe dar com as personagens femininas, fariam saltar lágrimas aos olhos. A mulher, representando a dimensão social, a afetividade, o mundo dos sentimentos reforçam a incapacidade do homem-máquina da época em lhe dar com sua própria natureza. A anulação de si mesmo que o processo causou, esta mesma anulação que torna tal sistema sustentável apesar de seu absurdo.


Por fim preso ao ser confundido como líder de uma manifestação, o protagonista se vê desrespeitado e tratado como nada ao ser regurgitado pela máquina. Mais a frente, o contra-senso, a mais triste realidade. Tratado como máquina, sugado pela fábrica e enfim descartado, o ser não encontra perspectiva possível, senão voltar ao seu lugar na linha de produção, ou em qualquer outro canto do mesmo Sistema que o descartou e tornou doente. A sua lógica é a da fábrica e do trabalho e para eles voltará, não é uma vida agradável em absoluto, mas já não pode enxergar para além do que viveu. O Sistema quer a miséria do maior número de indivíduos possíveis, pois a miséria é quem gera a ignorância e oprime. A ignorância é quem cega e a opressão, quem cala.


Seriam ainda inúmeras as imagens e as abordagens possíveis, tantas que perdem o propósito para um texto breve. Em fim Chaplin deixa-nos contudo uma visão de esperança. A cena final, onde o protagonista caminha de mãos dadas com a orfã, deixa em nossas mentes a possibilidade, a impressão de que em algum ponto do caminho, que percorrem em direção ao sol, serão felizes. Uma mensagem de esperança para seu tempo e o nosso.


Escrito originalmente em:12/05/2004. O texto não foi devidamente revisado.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Apresentação


Boa Noite ao Leitores do Diário de um Bobo da Corte!


Meu nome é Chris Robers e fui convidado para escrever no presente blog por meu amigo Fernando Rodrigues, ou Felix. Este é meu primeiro post grande novidade no blog!! e irei me limitar a falar um pouco de mim e qual minhas expectativas para os textos no blog.


Primeiro: Eu não sou comunista, socialista... nem sou anti...
Sou autor e proprietário dos blogs:
Olha o merchandising!!

A minha abordagem nos escritos para o blog serão, como indica a tag no topo do artigo, contracultural. Ah, fiz a tag para que facilite a identificação dos meus artigos assim fica mais fácil pularem o artigo tão logo vejam a figura.


Não gosto de senso comum e menos ainda de common sense. Assim como não gosto de verdade, por isso o que pretendo em meus escritos é apenas recolocar interrogações onde os demais já enxergam um dos sensos.


Pretendo postar uma vez por semana ao menos. Para meus posts irei usar sempre a tag contracultural.


Sou viciado em leitura e mulher, estudo livremente filosofia desde muito novo, me identifico com as idéias (ou boa parte delas) de Nietzsche, Sartre, Adorno, Horkheimer, entre outros. Mas também especialmente influenciado por minha formação Cristã, sem que isso me faça um religioso, mas sim um espiritualista. Religião é uma instituição, espiritualidade (definição grosso modo em psicologia) é o sentimento de que somos parte de um todo.


Um souvenir, já que falamos de religião e espiritualidade:
Costumo dizer que: religião é como culinária. Enquanto ser vivente temos uma necessidade essencial que é a fome - precisamos de nos alimentar-, mas o que defini se iremos devorar ovas, carne, frutas apenas, e se prepararemos o alimento cozido, frito, á moda indiana, ou se simplesmente iremos degustar crua, é a culinária. A forma de preparo do alimento é um fenômeno cultural, que não necessariamente tem por objetivo a necessidade essencial.
O mesmo se passa com a religião, esta é apenas uma manifestação cultural (que responde a outros anseios que não o natural) assim como a culinária. A necessidade essencial é a de integração, de encontrar-se no mundo, isto é espiritualidade.
Quem chegou até esta linha, muito obrigado pela paciência e até a próxima postagem!