Terminamos o artigo precedente considerando a ambiguidade (As vezes oportunista) do termo conservador. Termo tão vago e impreciso quanto esquerdista, socialista ou mesmo anarquista. O qual por isso mesmo suscita diversas abordagens e imprecisão.
Conservar o que do que... Quais nossos parâmetros de tempo ou espaço para manter... Qual o modelo sócio\cultural a ser escolhido...
Continuo insistindo que os termos progressista e reacionário são mais felizes e melhor cunhados.
Alias sou reacionário em certos nichos como a política (Pois sou favorável a democracia direta ou a policracia dos antigos gregos, face ao arranjo anglo saxão - Parlamentar ou representativo - feito para agradar os patrões ou pioneiros do capitalismo, em detrimento da qualidade política.) a Epistemologia, a Ética ou a Estética (Aqui caminho com os antigos gregos ou melhor com Sócrates e Aristóteles) e decididamente progressista no campo da moralidade ou do comportamento humano e consequentemente do direito, e conservador quanto a cultura pré capitalista constituída em torno da micro sociedade, alias com conotações primitivistas, etc
Afinal se alguns conservadores, pequena parte infelizmente, são na verdade reacionários voltados para as instituições pré reforma ou ante capitalistas da Idade Média ou de uma Idade Média um tanto idealizada\romantizada, a maior parte parece querer conservar outra coisa, assim o que temos, e portanto a sociedade capitalista ou mesmo americanista, sicut modelo 'Americann way of life' - E aqui não temos mínimo acordo uma vez que considero este modelo de sociedade\cultura, produzido pelos pais peregrinos, com base no individualismo e no antigo testamento, como um dos mais venenosos já produzidos, juntamente com os modelos islâmico e sionista, devido a seu conteúdo anti humanista, em oposição aos direitos essenciais, inerentes a pessoa humana, posto que sou, decididamente (Contra Kelsen e turma) jusnaturalista.
Tudo isto é já problema quando aparece diante de nós o brasileiro deslocado ou brazundunga, assumindo justamente um modelo norte americano de sociedade e cultura que não é seu.
Devemos cogitar em conservar o que é nosso por herança ou o que nos foi transmitido por nossos nobres e excelentes ancestrais sejam eles lusitanos, espanhóis, italianos ou mesmo franceses. Falo portanto em termos de latinidade. Embora nossos ancestrais indígenas, num segundo momento, algo nos possam ensinar, em termos de uma economia natural, voltada mais para o ser do que para o ter. Penso alias que o discurso do cacique norte americano Seattle seja tão rica em sabedoria quanto a declaração de independência dos EUA. Que muito nos tenha a ensinar. E que seja vergonhoso a um cristão leal (Refiro-me em especial aos Cristãos apostólicos - Ortodoxos ou romanos) ignora-lo.
Seja como for, quanto a nós brasileiros, é apropriado dizer que não temos quaisquer relação com esses calvinistas chamados país peregrinos. Os quais abandonaram a Inglaterra apenas porque não sabiam, queriam ou podiam conviver com os símbolos alheios> Assim com os sinos, cruzes e torres dos Bispos anglicanos, diante dos quais seus ancestrais se haviam curvado por dezenas de séculos, mas que eles, no entanto, aspiravam destruir...
Nossa cultura, ao menos em parte, está relacionada com Cabral, Manoel; o Venturoso, Nóbrega, Anchieta, Camões, Bernardes, Vieira, Mathias Aires, José Bonifácio, Teixeira de Freitas, Góis de Vasconcellos, Cansanção Sinimbu, S Vicente, Inhomirim, Pedro II, Luiz Gama, José do Patrocínio, Rio Branco, Nabuco de Araújo, Machado de Assis, José de Alencar, Lima Barreto, Aluísio Azevedo, Eduardo Prado, Quintino Bocaiuva, Evaristo de Morais, Clovis Bevillacqua, Pontes de Miranda, Sobral Pinto, Victor Mirelles, Casimiro, Castro Alves, Pedro Américo, Vicente de Carvalho, Martins Penna, Maricá, Tobias Barreto, Farias Brito, Arthur Ramos, Teodoro Sampaio, Câmara Cascudo, Darcy Ribeiro, Fernando de Azevedo, Gilberto Freire, etc Tais as nossas referências e os homens base da nossa cultura, da nossa consciência ou do nosso espírito.
E caso desejássemos referências mais remotas teríamos - Pe Juan de Mariana, Cervantes, Dante, Tasso, La Fontaine, Racine, P Corneille, La Rouchefoucauld, La Bruyére, Hugo, Daudet, Mauriac, Bernanos, Cesbron e mesmo um Dostoievsky ou um Tolstoi estão muito mais próximos de nós e de nossa cultura do que qualquer ideólogo iankee alinhado.
Isto é nosso, nossa herança comum, nossa cultura, nosso espírito, legado pelo Cristianismo antigo ou Catolicismo, pela Filosofia clássica (Socrática ou aristotélica) e enfim pelo direito romano, fontes supinamente ignoradas ou depreciadas pela república protestante do Norte.
Por via do Cristianismo apostólico ou histórico, do aristotelismo e da estrutura política do império romano herdamos as instituições preciosas da paróquia e do município e com o municipalismo e o conselho, uma democracia de base ou uma base democrática. Como explicou Moulin havia democracia nas estruturas de nossas ordens religiosas ou conventos. Assim em nossas cortes que limitavam o régio poder. E tínhamos Ordenações (Afonsinas, Manuelinas e Filipinas) impregnadas de espírito comunal ou coletivo. E os rocios e terras públicas do município. Enfim toda uma riqueza de instituições sociais, infensas ao individualismo nórdico e norteadas por um espírito gregário que tendia ao equilíbrio social.
Aqui, a chaga, ao menos no Nordeste, segundo se diz, imposta pelo meio, mas tragicamente imposta e injustificável, foi a escravidão. A qual, ao contrário dos EUA, sem efusão de sangue ou guerra fratricida, abolimos vinte anos depois deles. Pagamos, por essa instituição criminosa um preço social bastante caro até os dias de hoje e trazemos suas marcas no espírito da cultura, quiçá as cotas nos ajudem a obter alguma redenção. Quanto aos povos originários ao menos tivemos aqui conosco os padres jesuítas, graças aos quais houve certo grau ou nível de mistura, ao invés de extinção total - Executada no Oeste dos EUA em pleno século XIX, após a afirmação dos direitos essenciais da pessoa humana!
Em que pesem seus vícios e defeitos eu me orgulho de ter herdado esta cultura: Latina, ibérica, lusitana, brasileira e em parte indígena. Face a cultura de morte vigente nos EUA, cultura engendrada pelo anti humanismo protestante ou melhor calvinista, fonte também do 'Destino manifesto', da 'Identidade cristã' e do Apartheid (Este na África do sul). Assumo portanto uma cultura que desde sempre valorizou os laços sociais, o espírito comunal, a fraternidade, a solidariedade, a cooperação, o mutualismo; não o individualismo, o egoísmo ou a concorrência.
Foi esta cultura que cunhou as expressões 'Metron ariston' e 'Aurea mediocritas' ainda antes da manifestação do Evangelho de Cristo. Isto em oposição ao acúmulo irrestrito de bens, o qual nada tem de racional mas de passional - Segundo concluíram os dois maiores escritores ingleses: Swift e Defoe, cujas obras acidamente críticas a respeito da civilização econômica então emergente, podemos com proveito ler.
Nós brasileiros herdamos tudo isto e tal herança, lealmente assumida (Em particular pelos que se dizem conservadores ou patriotas) nos deveria conduzir a uma prática social ou a um tipo modelar de convívio totalmente distinto daquilo que nos é dado pela Republica anglo saxã do Norte.
Naturalmente que não ignoramos a principal causa de toda esta confusão dos infernos.
Deve-se ela, permita-me dizer sem peias ou rodeios é a introdução intencional e calamitosa da fé protestante entre nós (O que corresponde a um projeto político internacional que satisfaz a diversas demandas: A do sionismo, a da maçonaria, a do imperialismo iankee é claro...). Fé por meio da qual pretendem os pastores destruir nossa cultura ancestral e substitui-la pela cultura iankee. Fé por meio da qual esperam introduzir em nosso meio toda constelação cultural daquela sociedade: Individualismo, capitalismo, minimalismo, democracia formal, Estado policial, odinismo, etc E o que temos aqui é uma invasão ou guerra cultural - Tal e qual sucede na Europa atual face ao islã.
E a audácia dos pastores e ideólogos protestantes é tão descarada que ao tomar a expressão Cristianismo querem dar a entender que foi nossa cultura produzida pelo protestantismo ou por algo similar a ele. O que é absolutamente falso e tendencioso. A visão ou cosmovisão e projeto social das igrejas apostólicas, do Catolicismo Ortodoxo (Vide a Rússia atual que novamente se volta para os padrões de Dostoivesky, despertando o ódio do iankee.) ou do papismo é totalmente distinta da visão ou do projeto protestante calcado no antigo testamento ou no israelitismo antigo (Do que é expressão o 'Reconstrucionismo' vigente no 'Bible belt', entre as seitas fundamentalistas e na 'Identidade cristã'). São projetos opostos e inconciliáveis ainda que o projeto papista, por via do Ecumenismo moderno, tenha cada vez mais perdido sua identidade própria e até se perdido. O modelo autenticamente Cristão é o da afirmação da fraternidade e da consolidação da solidariedade tendo por referencial a Encarnação de Deus no mundo.
Perceba-se que as exóticas exigências do Mercado - Surgidas na Inglaterra do século XVIII, em torno de um status diferenciado ou superior, se estão de pleno acordo com aquele éthos individualista presente já no protestantismo, com sua insistência de uma redenção individual ou separada da comunidade dos fiéis, estão em franca contradição com a concepção cristã em torno de uma redenção social ou coletiva, relacionada com uma sociedade orgânica chamada Igreja, com a comunhão dos Santos ou ainda com o padrão social vigente em todas as culturas antigas, especialmente com o ideal grego romano da Polis.
Ociosa a ideia de buscar pela existência de um Mercado a parte da sociedade, da política ou da lei em qualquer sociedade antiga, pelo que somos autorizados a declarar que antes do século XIX jamais existiu qualquer coisa semelhante a capitalismo. Equivocado afirmar o mesmo sobre a estrutura democrática, a qual remonta, no mínimo a Clístenes (509 a C), senão, como quer Aristóteles, na Constituição, ao próprio Sólon. Pelo menos, em certo sentido (Puramente econômico) o tal comunismo de fato existiu nas culturas primitivas, por meio da posse comum da terra e dos meios de produção, de que temos exemplo, inclusive, no Genos grego. Neste sentido pode-se dizer que é o liberalismo econômico uma súbita novidade portadora de um ideal utópico.
Repito, um mercado relativamente livre e mais ou menos limitado, existe desde os tempos mais remotos ou desde os primórdios da civilização. De modo algum o conceito ou a proposta de um Mercado situado acima das instituições sociais, o que, como percebeu Pilanyi, lhe conferiria um status privilegiado ou de dominação e conferiria a sociedade um caráter economicista. Insistir sobre tal status ou superioridade implica dar início formal a construção de uma infra estrutura puramente material ou econômica nos termos postos por Marx. Com todas as implicações culturais embutidas na criação de um novo modelo totalmente distinto do modelo religioso ou do modelo metafísico. E como o ser humano possui certa tendência a arroubos místicos, o liberalismo econômico ou capitalismo presta-se a também ele a portar uma tal mística, em torno do acúmulo ou da riqueza, destinada a eletrizar almas vazias e rasteiras. E aqui fraterniza-se com os nacionalismos exaltados e sobretudo com o comunismo, com o anarquismo, com o fascismo, o nazismo, etc
Na medida em que todas as atividades da vida humana passam a ser avaliadas em termos de (Confúcio diria 'Comprar e vender') de preço ou lucro, vai esse éthos (Materialista) penetrando e transtornando todos os setores da sociedade, estabelecendo umas relações orgânicas e afirmando-se como centro totalizante. Quero dizer que todas as atividades da vida humana, antes centralizadas em torno de outros padrões, geralmente imateriais, abstratos ou metafísicos, passam a ser centralizadas em torno da produção e distribuição de bens, assumindo as características peculiares a esse padrão. A constelação cultural não gira mais em torno de deuses, do além túmulo, da estética, do conhecimento ou na lealdade, porém em torno do lucro ou do acúmulo de coisas materiais num plano, como o nosso, que é circular e portanto estável, limitado e finito.
Ainda não abordei a questão lançada por Arendt sobre a redução do espaço político ou do exercício da cidadania - Sobretudo por meio da solução representativa ou parlamentar. - e sua decorrente perda de qualidade. Mas é um dos múltiplos aspectos do economicismo. Reconhecemos o valor ou a validade das instituições democráticas, porém não damos a mínima quanto a formação do ser humano democrata, em posse de uma consciência democrática, conduzido por princípios e valores democráticos, destinado a sacrificar-se pela ordem democrática. Desdenhamos quanto a formação deste cidadão na medida em que permitimos > Em nome de interesses econômicos privados, o aumento da desigualdade social, a proliferação da miséria e, consequentemente a condensação da ignorância, enfim a criação de seres humanos mutilados, despersonalizados, desumanizados, alienados, etc com direito ao voto ou a cidadania. Por onde jamais chegamos a Democracia e sim a Oclocracia ou a uma profunda desilusão face a política. A quem este ceticismo, essa frustração, esse desleixe ou este abandono interessam...
Após tanta enrolação, passemos agora a Scruton.
Começa a pag 8 enaltecendo a 'Democracia parlamentar' e 'caridade privada'.
Bom advertir que não é esta a Democracia grega ou mesmo o landsgemeinde suíço, modelos bem mais funcionais. Via de regra (Vide Sartori) os teóricos alegam que a existência do macro estado impede a adoção do modelo direto ou da policracia (Uma vez que Atenas não passavam de uma Polis ou cidade). Penso que seja apenas uma meia verdade. Afinal existem países ou condados, aos quais cabe decidir alguma coisa... Logo, mesmo na esfera do macro estado, as demandas cantonais ou municipais sempre poderiam ser discutidas e aprovadas pela comunidade. Por outro lado o surgimento do mundo digital, da internet, da virtualidade, etc abrem novas possibilidades no que diz respeito a comunicação, e, consequentemente a vida democrática. Exemplo disto é a Democracia estendida ou Demoex criado em 2002 na Suécia.
O problema aqui, desde o surgimento do representativismo parlamentar, foi a questão do trabalho ou da economia, noutras palavras, a participação dos produtores, trabalhadores ou operários nas discussões e deliberações da vida política implicaria em algum tipo de ajuste quanto a jornada de trabalho, em termos de ausência ou rotatividade, o que implicaria por sua vez na redução do progresso, leia-se da produção e dos lucros. O que é inaceitável ainda hoje, no século XXI, imagine só no século XVII... Se em 2025 ainda há quem queira aumentar a jornada de trabalho e diminuir o tempo disponível ou ocioso dos cidadãos, imagine então os tempos pretéritos...
A acomodação, como sempre, feita foi para satisfazer os interesses dos patrões ou empreendedores, com perda da funcionalidade e o que é pior, a possibilidade de um controle maior ou digamos de sabotagem por parte dos mesmos patrões, os quais sempre poderia, de alguma maneira, influenciar a escolha dos tais representantes. Tal e qual o pastor banqueiro Vorcaro financiou a eleição de Bolsonaro ou sua propaganda com o objetivo de influenciar a vida política nacional e obter vantagens. É assim que a perniciosa indústria de armas ou bélica, por meio de gorjetas e propaganda, influencia a política norte americana, expondo os cidadãos inocentes (Que deveriam ser sempre protegidos) a constantes massacres por parte de psicopatas ou delinquentes.
Além disso, possuí o representativismo um vínculo estrutural, posto que uma transferência definitiva de poder possibilita a simples traição sob pretexto de mudança. Nada mais comum do que um candidato tal apresentar-se ao povo como seu protetor ou como defensor de seus direitos, seja a liberdade dos cidadãos ou as leis de proteção ao trabalho, até que vendo-se eleito e recebendo estipêndios criminosos muda quase que de imediato os seus princípios e valores, passando a defender o minimalismo ou a privataria. E fica tudo por isso mesmo - Posto que ninguém jamais se pergunta sobre o porquê de tão súbita mudança, investiga sua agenda ou sonda sua o saldo de sua conta bancária.
Naturalmente que um homem prudente como Locke estipulou que em tal caso, em que o interesse do eleitorado seja ameaçado e o povo sordidamente traído, deveria ser aquele parlamento dissolvido pela autoridade competente, realizando-se novas eleições. No entanto esse dispositivo importante contido nas obras do citado autor, por questão de mera conveniência, jamais foi suficientemente lavado a sério, sofrendo outra acomodação ou arranjo. De modo que após a 'transferência do poder' o povo cessa de meter o bedelho na tomada das decisões, ficando os tais senadores ou deputados firmados no cargo por três, quatro ou cinco anos i é até o fim do prazo legal determinado, façam eles o que bem quiserem, o que sucedeu entre nós nos anos noventa, durante o espetáculo das reformas e privatizações, em que o governo comprava os votos dos tais representantes a olho nu.
Quanto a caridade privada temos aqui outro erro funesto, caso a anteponhamos ao Bem comum enunciado por Aristóteles, identificado com a paz ou a concórdia, fruto enfim de uma relativa igualdade ou da justiça social. A caridade decerto, entra pelo domínio da Ética, correspondendo, até certo ponto, a uma deliberação livre. Outro o caso da justiça, cuja satisfação, pertencente a esfera das coisas impositivas, precede a caridade privada, sendo digna do cuidado e da ação política.
Scruton não fala aqui sobre o Bem comum ou a justiça social, porque talvez seja assunto alheio a sua tradição. Quanto a nós, já dissemos que a noção de Bem comum não somente remonta a Aristóteles como praticamente esgota a finalidade da ação política. A existência do Estado só se justifica enquanto meio mais eficaz para a consecução do Bem comum e da harmonia ou unidade social. Reduzido a mera estrutura policial destinada a perpetuar o status de entidades particulares, torna-se anti ético, alheio ao bem comum e não apenas inútil porém pernicioso. Assim o estado minimalista ou neo liberal, a serviço de interesses privados que perpetuam ou acentuam desigualdades.
Alias, nem se pode separar a noção de um Estado policial que se limita a conter as possíveis tentativas de subversão por parte dos escravizados, pauperizados, miseráveis, explorados, oprimidos, etc da proposta de Kelsen em torno de um direito sem ideais abstratos ou metafísicos de comportamento i é sem aquela Ética representada pelo Direito natural. Ao qual devem se ajustar, por força da Lei, todas as instituições humanas. Pois a negação do jusnaturalismo, também ela, implica aceitar passivamente e acriticamente os decretos ou ações políticas ditadas por um determinado Estado, ou como dizem, a realidade dada, seja ela qual for. Tudo isso implica não apenas conformar-se com as situações de injustiças, como se fossem desejáveis, como consolida-las e amplia-las.
Como diz Aquino a caridade privada só pode cumprir com sua finalidade adicional ou completiva após a afirmação radical da justiça, a qual por ela não pode ser substituída sem alterar negativamente a ordem natural das coisas.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
O convidado que chegou atrasado ou dialogando com Roger Scruton (Como ser um conservador) II
segunda-feira, 23 de junho de 2025
Sionismo, americanismo\capitalismo, protestantismo, maçonaria, ecumenismo, ONU, etc Análise cultural ou culturalista sobre a conjuntura atual ou sobre a possibilidade de uma terceira guerra mundial.
Quero antes de tudo fazer algumas breves observações: Não tenho mínima intenção de estabelecer a veracidade da fé Católica\Ortodoxa, das igrejas apostólicas, da igreja romana ou do Cristianismo histórico\tradicional (E oposição ao agregado de seitas protestantes 'made in EUA'.). Embora para alguns possa parece-lo, de fato não é escopo deste artigo entrar em minudências religiosas. O quanto queremos salientar aqui é a relevância cultural dessas crenças ou ou da cultura específica produzida por elas em oposição a outros modelos de cultural como a sionista, a protestante ou americanista, a islâmica, etc
A consciência em torno de um Deus Encarnado produz um tipo de consciência e de relações entre os seres humanos totalmente distintos da fé em torno de um Absoluto Transcendente apartado do mundo. A crença em que foi Deus supliciado e morto na carne estabelece outros tipos de reflexões em torno da vida, da morte, da agressão, da tortura, do assassinato, etc A crença ética na necessidade de obras (Ainda como frutos da graça.) ou da ação no plano da fé introduz outro tipo de enfoque. A ideia de uma redenção solidária da espécie estabelece outra direção, etc, etc, etc
Isto são dados e Max Weber começou a levantar a pontinha desse véu...
Portanto, uma coisa é negar o conteúdo da fé ou descrer e outra, totalmente distinta é questionar a relação entre os modelos de crença e determinados modelos de cultura e ignorar as 'Afinidades eletivas'. Fosse eu Deísta ou teísta naturalista, irreligioso, etc não mudaria em nada o conteúdo deste artigo. Parto da premissa segundo a qual as fés produzem culturas e que fés diferenciadas ou opostas produzirão modelos diferentes de cultura ou de convívio humano. Daí a importância de se estudar com máxima atenção e de se conhecer muito bem as crenças religiosos uma vez que plasmam tanto nossa vida mental (Ou as personalidades) quanto nossa vida social.
Quero devassa-las muito bem ou até quando possível.
Já colocaram a religião, a economia ou a política na base de todos os fenômenos socias. Marx - Herdeiro do empirismo ou do positivismo. - como todos estão cansados de saber, optou pela economia (E não se equivocou por completo, se é que equivocou-se quanto a sociedade ocidental contemporânea.), Coulanges (Na 'Cidade antiga') optou pela religião e os positivistas mais avançados pela política ou pela 'ciência'.
Apenas os irmãos Weber, num primeiro momento, deram com essa outra coisa chamada cultural, que é um complexo de relações que envolve todos os fatores acima a elencados. Podemos no entanto dizer, me recordo de Toynbee, Parsons, Sorokin, Timacheff, etc admitir padrões de cultural básicos: Ideativo ou espiritual - Derivado das crenças religiosas e materialista, derivado da economia, e é claro que há o padrão realista, que busca equilibrar os dois primeiros ou realizar uma síntese harmoniosa.
Precisamos dessas ferramentas para entender o ponto de partida da crise atual.
Porém, antes de entrarmos no assunto propriamente dito, precisamos tornar a História para entender com suficiência o que se passa na Palestina ou em Israel - Porque tal é o ponto de partida da crise ou o olho do furação.
Não tardaram a crer que esse javé os ajudava e portanto, para recompensa-lo, passaram a 'alimenta-lo'' com sacrifícios de sangue.
Como equivale-se, toda aquela região, a um Estado tampão, ficava, sua política, sendo bastante instável. De modo que esse povo, a princípio israelita e depois judeu, conheceu períodos de autonomia e de sujeição a potências estrangeiras. E como fossem henoteístas ou monoteistas, e os povos vizinhos politeistas, fizeram uma leitura mística ou mágico fetichista dos eventos políticos relacionando-a com a fidelidade ou a infidelidade deles mesmos. Quando eram leais ao javé ele os exaltava politicamente...
Por fim, sob a construção do Império romano (Na verdade um pouco antes.) foram esses judeus incorporados como súditos do Império romano.
Importante salientar que durante aquele período, enquanto tinham intacto seu templo com sacrifícios, os judeus achavam humilhante ser dominados por povos de religião politeísta, pois aduziam que se o javé não lhes concedia o poder político é porque eles, judeus, não estavam fazendo as coisas direito. Portanto a sujeição reforçava um suposta culpabilidade e suscitava problemas de consciência.
Por outro lado, desde o tempo em que haviam sido dominados por Assírios, Babilônicos e Persas, haviam esses crédulos hebreus, elabog+-gyyyyyrando um tipo peculiar de cosmovisão ou melhor aprofundando esse tipo de cosmovisão, a qual só se completou ou chegou a maturidade durante as fases helenística e romana. Ora, nós conhecemos perfeitamente esse tipo de cosmovisão doentia e racista por meio da literatura apocalíptica. A peça mais remota foi o pseudo epígrafe de Daniel (Esse mesmo que consta no AT) e a mais completa o assim chamado Livro de Enoc... Em seguida apareceram dentre outros o de Baruc e Ezra.
A tese é prenhe de significados até nossos dias, pois em traços gerais assim se concebe: Quando o povo judeu emendar-se de seus erros e tornar a ser leal a javé este os restabelecerá na Palestina ou lhes concederá a autonomia política, de modo que os pagãos serão expulsos do solo sagrado, uma vez que representam uma mancha ou impureza que não se pode admitir. Mais - Como a Torá determina que os pagãos sejam exterminados, no grande dia, o próprio javé ou o povo por ele empoderado, obterá vitória sobre Edon, Gog, Magogue, etc e dominará a totalidade do mundo, exterminando ou escravizando os pagãos, os quais são descritos como lodo, lama, escarro, etc
Examine o leitor atento essa literatura e tire por si só as conclusões a respeito de seu conteúdo doentio marcadamente racista - Nem poderia ser diferente esse conteúdo por partir de uma etnia ou povo que alega ter sido eleita pelo Deus do universo, em detrimento de todos os outros povos ou da humanidade como um tudo, encarada necessariamente como algo de natureza inferior ou desditosa. Por isso afirmamos que Jesus, com seu conceito universalista, católico ou anti etnico, não pode ser javé ou que javé não é a Mente suprema que concebeu este universo, mas o nume étnico dos hebreus e nada mais. enfim, que toda essa cosmovisão excludente e sectária deriva do que chamam de eleição, a qual deve ser entendida como um privilégio e como uma afirmação sutil de superioridade.
Movido por essa cosmovisão aberrante, os hebreus do século I desta Era, representaram, naquela conjuntura, o mesmo que os radicais islâmicos de hoje, já por exercerem um proselitismo intenso - Com conotações culturais anti romano. - já por proclamarem a rebelião violenta contra o Império romano. Importante salientar que esse ideal de rebelião não era meramente político, como o dos celtas por exemplo, mas marcadamente cultural, religioso e étnico, pois o pagão não era encarado como opressor apenas por dominar politicamente mas sobretudo, por não ser judeu e por não crer como eles.
Seja como for, após as revoltas dos anos 70 e 134 javé não apenas permaneceu inerte, permitindo que seus prediletos fossem esmagados pelos pagãos e convertidos em escravos dos politeístas, como foi despojado de seu majestoso templo e privado de seus deliciosos sacrifícios de sangue. Naquele instante perderam os judeus, por completo, não apenas sua independência política como sua capital religiosa.
Diante disso foram os pagãos, sob a forma tradicional do Colonato, introduzidos na Judeia, pelo Império romano. E quando o Império passou do paganismo para o Cristianismo Ortodoxo, passou a Judeia cristianizada a ser comandada pelo Império Bizantino ou Romano do Oriente.
Permaneceram as coisas nesse pé até o século VII d C quando foi esse espaço conquistado pelos árabe, comandados pelos maometanos, durante a sua primeira jihad ou expansão. Mais uma vez, com o passar do tempo, foi-se alterando o quadro religioso com o declínio da população Cristã e o aumento da população islâmica. Importa saber que ambas as populações: Cristã e Islâmica já se achavam instaladas na tal 'terra prometida' há mil e trezentos ou a dois mil anos quando os ingleses e yankees, por meio da ONU decidiram inserir novamente os judeus onde eles exigiam, o que ocorreu após a segunda grande guerra.
Quanto aos judeus étnicos, migraram para diversas partes do mundo, quais sejam Europa ocidental, Rússia, Norte da África, Oriente, e - Após sua descoberta - América.
Necessário dizer que em algumas parte promoveram revoltas e sedições políticas, como no Yêmen. O que de modo algum justifica - E queremos pontuar bem isto. - a forma grosseira com que foram tratados pelos Cristãos apostólicos (A partir de Justiniano) seja no Império Bizantino (Como cidadãos de segunda categoria.), na Europa ou na Rússia, onde sofreram pogrons ou linchamentos (Inclusive durante as Cruzadas). Queremos reiterar que não podem os Cristãos proceder odiosamente ou a maneira dos próprios judeus e muçulmanos e que a assimilação do comportamento deles é de todo injustificável uma vez que o fundador do Cristianismo determinou, na sua lei, que devem ser os inimigos amados, tratados com benevolência e respeitados.
Portanto, o luteranismo, cujo fundador chegou a ser encarado como profeta! - recebeu toda um tradição ferozmente anti judaíca, a qual, como declarou Julius Streicher, (Dentre outros) no Tribunal de Nuremberg, ao secularizar-se, a partir do século XIX, converteu-se em Nazismo. Importante salientar o papel de Lutero e do luteranismo nesse processo, com o intuito de apontar os extremos a que chegou o protestantismo conduzido pelo método do livre exame.
Quanto a secularização do anti judaísmo na Alemanha, significou um passagem do imaginário Cristão > No sentido de que a totalidade do 'sangue' judeu era responsável por um ato de deicídio ou pelo assassinato de Jesus Cristo, para a compreensão materialista de que eram os judeus detentores da riqueza ou do poder econômico e portanto responsável pela miséria dos Cristãos - Explicação que os líderes políticos e particularmente os patrões ou empresários adoravam. De fato tempo houve em que os judeus também foram usados e manipulados pelos piedosos burgueses 'cristãos'...
Chegamos assim a segunda grande guerra, cujas atrocidades todos conhecemos muito bem.
Importante esclarecer que não apenas judeus foram exterminados na Alemanha de Hitler, mas comunistas, gays, opositores de consciência, etc Os judeus no entanto foram perseguidos e executados em maior número.
Importante marcar que, sob pretexto algum, podemos negar a realidade dos fatos históricos - E portanto negar ou suavizar os hediondos crimes cometidos pelo regime nazista.
Assim o uso ou melhor o abuso feito deles, isto é, dos fatos, pelos sionistas por exemplo.
Dito isto, quero continuar sendo muito enfático, bastante enfático.
Por discordar de Balfour, dos ingleses, dos yankees e da ONU quanto a terem colocado, desastrosamente, os judeus, onde exigiam ser colocados - Isto é, na Palestina, ao lado de muçulmanos fanáticos, não negamos que uma porção de terra devesse ser dada ao povo judeu.
Não questionamos que os judeus merecessem um espaço, lar ou território.
O que questionamos pontuadamente é que tivessem ou tenham o direito de exigir a posse do espaço - Já tradicional e bastante ocupado. - sancionado por sua mitologia.
Pois o significado dessa posse é fecundo... E desastroso.
De fato a poderosa Inglaterra, dona do império ''brutânico" bem poderia ter atribuído aos judeus qualquer parte remota e pouco povoada de seu império, e alias bem distante dos muçulmanos...
Melhor poderia ter feito e muito melhor, os EUA - Que tanta terra surrupiou aos naturais do Oeste e do México. - atribuindo aos queridos hebreus, uma pequena parcela de seu imenso território.
Fácil é atribuir aos outros o que não nos pertence, porém de modo algum lícito.
Nem se alegue ou diga que tudo isso foi feito com sansão da ONU.
Que os romanos considerem, a luz da fé, o Vaticano infalível lá vai... Agora que a humanidade encare o tribunal da ONU da mesma forma i é como inquestionável ou infalível é perfeita miséria ou autêntico idiotismo.
Sabido é que Tribunal humano algum possa ser infalível. O que vale tanto para nossas comarcas quanto para o governo de qualquer país e para a própria ONU.
Mormente quanto a sede da ONU, não é, como por ser democrática ou isonômica, itinerante, mas fixada em um espaço gentilmente cedido pelos EUA.
Questionemos: Se não foram os EUA gentis para com o querido Israel, por que o foi para com a ONU senão para poder influencia-la senão comanda-la, politicamente, como um braço seu...
O que é amplamente demonstrado pelo uso que aquela república do Norte sempre fez, desse organismo 'internacional' contra a URSS e seu bloco, contra Cuba e ora contra a China e a Rússia e isto sem mínimo pudor...
Nada mais discutível que as decisões da ONU, discutidas antes e acima de tudo por Israel, a qual certamente as encara criticamente ou como muito falíveis - Mesmo quando aparentemente justas!
Portanto aqui não vem ao caso qualquer sansão da ONU, a guisa de poeira nos olhos...
A luz da consciência ou da lei natural, um decreto positivo qualquer (Emanado da autoridade.) só é válido quando justo e o oposto disso (Creonte) é tomar por padrão o poder. O que não cessamos de fazer por sermos dirigidos por líderes irracionalistas e, anti éticos.
Socratismo ainda assusta e sempre assustará esse tipo de gente.
Então devemos questionar por que deve a humanidade inteira ou todas as culturas pagar - No sentido de correrem o risco de serem riscadas da existência! - por uma exigência dos judeus ou melhor por uma canalhice seja de Balfour, da Inglaterra, dos EUA ou da ONU...
Pois tal nossa condição atual: Gregos, latinos, europeus, indianos, chineses, russos, etc todos corremos iminente e risco real de sermos varridos da face da terra porque os judeus foram colocados no lugar errado - Quando haviam tantos lugares disponíveis!!!
Repito: Problema não é Estado de Israel (Uma construção política necessária.) porém sua localização na Palestina, dádivas de seus protetores ou servidores "brutânicos''.
Penso e julgo ser absolutamente desnecessário descrever em pormenores a limpeza étnica executada pelos grupos terroristas judeus: Irgun, Stern, Haganah, etc - Cuja sanha feroz lançou-se não apenas contra muçulmanos fanáticos, mas inclusive, contra populações Cristãs nativas e pacíficas já molestadas, pelos radicais islâmicos... O que se sucede neste exato momento em Gasa!
A que se seguiram inúmeros conflitos, com o dos seis dias, o de Yon Kipur, etc, etc, etc
Naturalmente que, a partir daí houveram excessos de ambos os lados - Já porque ambas as fé estimulam a agressão e santificam a violência. - com civis judeus estourados com bombas ou metralhados pelos palestinos ou com populações palestinas inteiras sendo exterminadas pelos hebreus, o que corresponde ao que chamamos de limpeza étnica, algo peculiarmente hitlerista.
Quero todavia salientar uma coisa: Que não se trata da mesma coisa - Em certo sentido o judeu é um invasor. Pois lá já estavam os Palestinos, há séculos, com suas casas, propriedades, territórios, organizações, etc e tal não pode ser desconsiderados. Estranho que os defensores fanáticos da propriedade ignorem algo tão claro e simples: Os palestinos, sejam romanos, árabes ou o que se queira, lá já estavam, na posse da terra e do local - Passando desde então a ser desalojados a força, como se fossem eles os invasores, o que constitui uma aberração.
E pouco se dá que sejam eles muçulmanos ou fanáticos. Como pouco se daria caso fossem indianos, ganenses, japoneses ou argentinos, uma vez que não cessam de ser humanos e objeto de uma lei natural e de direitos naturais indeléveis por assim dizer.
Portanto, apesar da ONU, dos discursos mitológicos e de todo poder político, tudo quanto Israel vem realizando nas últimas décadas se choca frontalmente com o rochedo divino da lei natural ou com o jusnaturalismo aduzido pela Razão.
Até aqui a exposição meramente histórica -
Ainda hoje ou amanhã analisaremos o caráter atual do conflito e aprofundaremos mais e mais a questão da cultura e as conexões globais.
Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte':
- Capitalismo
- Positivismo
- Anarquismo
- Comunismo
- Fascismo
- Conaservadorismo
- Pós Modernismo
- Sionismo
- etc
domingo, 26 de novembro de 2023
Algumas reflexões sobre o Estado e a Economia: Por um Estado real e não fictício ou aparente.
Curiosa a oposição extremista entre marxistas ou comunistas e anarquistas.
Pois para os primeiros o Estado, que nada é quando controlado pelos capitalistas, passa a tudo ser após a afirmação da ditadura do proletariado. E todavia jamais deixa de ser uma casca ou película controlada por forças econômicas. Pois esse Estado se torna tudo sempre por mediação do econômico, ao qual serve como meio ou instrumento. Inexiste qualquer possibilidade de autonomia para o poder político e o contrário disto seria idealismo ingênuo.
Outro o caso dos anarquistas, que jamais levam o Mercado ou os poderes econômicos a sério, tributando toda carga de opressão na conta do poder político ou do Estado.
Destarte buscam os primeiros, como já foi dito, servir-se do Estado com objetivos econômicos diversos... Sem perceber que se utilizam do poder político para controlar e submeter os poderes econômicos ou as forças de produção... Atribuída essa finalidade 'socialista' ou Comunista ao Estado, adquire ele um desígnio que o torna importante.
E desta visão procede uma rigorosa ou radical estatolatria, e totalitarismo, e ditadura, e tirania, e opressão... Tudo coberto com o pomposo termo de 'Ditadura do proletariado' a qual, para os pupilos de Marx e ovelhinhas de Lênin corresponde a um Dogma tão sacratíssimo como a Igreja para os Cristãos Católicos.
Nem posso deixar de assinalar que alguns críticos atilados já assinalaram inclusive as semelhanças entre os órgãos de controle do PC na velha URSS e os órgãos de controle do Vaticano. Creio que foi o Dr Fulop Miler.
Outro o caso dos anarquistas, cujas propostas sociais jamais se concretizaram.
De minha parte creio que sairia pior, e bem pior, do que o 'paraíso' comunista essa ideia ultra ingênua de eliminar a organização política ou diminui-la até os limites de um micro Estado e deixar intacta a estrutura econômica ou manter o Mercado... Julgo que disto resultaria ditadura mil vezes pior do que as ditaduras comunistas, nazistas e fascistas, inda que hipocritamente dissimulada.
Nem é por mero acaso que os ultra capitalistas tenham assumido essa pauta sob a legenda ANCAP, prova de que ninguém deseja mais a total demolição do poder político ou do Estado - Que muitas vezes o serviu tão bem, MAS NEM SEMPRE... - do que os detentores do poder econômico e apóstolos do liberalismo economicista em máximo grau.
Convém alias, expor aos comunistas, que os mesmos senhores do capital, receiam não pouco da Religião, ou melhor, do Cristianismo histórico ou antigo, do contrário seus ancestrais não teriam o teriam sabotado, por meio da reforma protestante, com o objetivo de instaurar essa nova ordem economicista. Foi necessário satanizar o Cristianismo antigo, apostólico ou autêntico, semear boa dose de ceticismo, fragilizar a igreja velha, etc com o objetivo de engendrar a incredulidade e a partir dela esse novo mundo materialista. Foi por meio do protestantismo que o Cristianismo tornou-se completamente dócil e servil face aos poderes econômicos ou ao mercado em formação.
Desde então o Capitalismo ou liberalismo econômico tem buscado por todos os meios favorecer ou facilitar o protestantismo e atacar com não menos sanha as igrejas anglicana, romana e Ortodoxa, devido ao sentido espiritual de insubmissão ou de rebelião que anima algumas de suas parcelas e súditos. O protestantismo, quase como um todo, colabora ou coopera, os 'catolicismos' jamais inspiraram confiança ao Mercado. Portanto a ideia de combater a religião ou certas formas religiosas não é prioridade do comunismo ou invenção sua. Apenas o liberalismo econômico sabia o que devia ser atacado ou o que temer.
E aos anarquistas convém expor que nem sempre o Estado foi dominado pelo capital ou por poderes econômicos, e que em algumas circunstâncias se lhe opôs, apenas para ser esmagado ou triturado, mas se lhe opôs - Com Laud, com Robespierre, com Vargas, com Peron, sob a ideologia de Keynes ou do bem estar social em alguns países do Norte da Europa, na Inglaterra fabianista que por um tempo enjaulou a besta, etc De modo que tampouco o Estado foi sempre dócil ou servil face a tal ordem como supõem o mito anarquista.
Outro o caso do tempo presente, após o consenso do Washington e a cruzada neo liberal, no qual o poder econômico parece disposto a recobrar um controle total sob a fórmula de um Estado mínimo, policial ou de enfeite. Porém o que foi desalojado no passado poderá ser desaloja-lo em qualquer tempo futuro. Desde que se ressuscitem e alimentem umas velhas ideologias (Antes de tudo a do Direito natural ou jusnaturalismo.)... O que foi feito antes sempre poderá ser feito novamente depois - Desesconomizar o Estado ou opo-lo a nova religião do Mercado, É PERFEITAMENTE EXEQUÍVEL.
O PAPEL DO JUSNATURALISMO E DO TEÍSMO NATURALISTA.
quinta-feira, 1 de novembro de 2018
Conhecendo o outro lado de Juan Valera - O Pe Francisco Vitória OP
Há muito que se falar sobre a Espanha e sua literatura ou da Espanha enquanto produtora de conhecimento.
Lamentavelmente a reputação da Espanha tem sido amplamente obscurecida em função da Leyenda negra.
Nada mais falacioso do que a produção historiográfica protestante, fonte de inúmeros mal entendidos ou mesmo de inverdades. Mesmo quando assumida por positivistas apressados não se torna ela neutra. Continua sendo anti romana ou Católica, anti medieval, anti latina, anti hispânica... e por ai vai.
Construíram os ingleses e seus sucessores N americanos suas historiografias em ambientes ideológicos bem definidos em termos de centralização de poder, afirmação do capitalismo, construção do nacionalismo e para eles tudo quanto cheira a descentralização do poder, comunitarismo/solidarismo/socialismo, cosmopolitanismo ou sentido católico lhes é pura e simplesmente incompreensível senão diabólico.
Estão encarcerados na prisão da cultura embora apreciem julgar com tanta afoiteza a Antiguidade, a I Média, o romanismo, o Catolicismo, o latinismo, a hispanidad, etc
Isto é até certo ponto natural.
Exótico é que os latinos, os hispânicos, os Católicos, os humanistas, etc assumam tais vícios, fazendo 'mea culpa'... Estranho é que nós incorporemos tais críticas infundadas, preconceitos, tabus, etc após te-los recoberto com uma camada de verniz positivista - Isto para sermos ainda mais ridículos.
Negamos que o homem seja imparcial em seus juízos de valor. E aplaudimos os juízos de valores protestantes como imparciais...
Os protestantes, para bem ou para mal, construíram outra Sociedade ou Cultura, que é pós medieval. Não podem portanto apreciar a I Média com a dita isenção de juízo acalentada por Ranke... Porque o padrão a que recorrem são seus próprios princípios e valores. O homem antigo ou medieval tinha outros. Julgamos estes homens por seus próprios princípios e valores ou abste-mo-nos de julga-los - fazendo mera crônica... Nem mais nem menos.
No entanto já o véu vem sendo despedaçado - muitas vezes pelos protestantes mais honestos e esclarecidos outras por autores insuspeitos ou descomprometidos com o papismo ou com o Catolicismo a exatos dois séculos ou duzentos anos, desde que Henry Hallan, publicou seu monumental "The view of the state of Europe during the midle ages", obra que ainda hoje merece ser lida com atenção. Após ele tivemos Schrenurer, Denifle, Newman, Ganchoff, Bloch, Duby, Romilly, Le Goff, etc Paulatinamente a querida imagem maniqueísta construída em torno de uma 'Idade de trevas' produzida (quiçá intencionalmente rsrsrsrs) pelo papado (Tese de Maytland por exemplo) se vai mostrando cada vez mais forçada, inconsistente, ideológica ou mesmo panfletária...
O que se é para deplorar é a lentidão com que tais luzes atingem, mesmo o público seleto da Hispanidad e da Lusitanidade; particularmente na América latina e especialmente no Brasil, onde a tradição das trevas medievais e rigorosamente mantida não apenas pelos protestantes que a inventaram mas por Comunistas, Anarquistas e Liberais 'emancipados' ou seja por grupos teoricamente descomprometido. É fato sabido no entanto, que ao menos até o Vaticano II, tais grupos temiam muito mais a Unidade da Igreja Romana, do que a multiplicidade das seitas protestantes... De algum modo eles optaram por atacar a igreja papa - e os Catolicismos de modo gral - com as armas embotadas produzidas pela reforma na medida em que a substituição da antiga pela nova fé tornava o Cristianismo tanto mais vulnerável. O Pastor com sua Bíblia ou melhor com sua Torá ou antigo testamento jamais foi temido seriamente pelos intelectuais naturalistas... Outro é o caso dos sacerdotes ou mesmo leigos esclarecidos, representantes da alta teologia Católica moderadamente liberal. Mesmo Dawkins é perfeitamente a cônscio quanto o problema, na medida em que classifica os representantes desta alta teologia como incoerentes e em que se recusa a debater publicamente com eles, voltando seus elogios - em torno da coerência - aos fundamentalistas, os quais costuma ridicularizar e esmagar sem misericórdia...
Compreenda-se que a crítica ideológica protestante produtora de historiografia tem sido assumida por diversos grupos 'interessados'.
Julgo no entanto que tais grupos deveriam pautar-se pela honestidade ou pela Ética. Ao invés de repetirem boatos e calúnias contra a igreja papa ou contra os Catolicismos de modo geral. Não é por ser Católico Ortodoxo que vou inventar mentiras e caluniar o papado. Tenho-o, evidentemente, em contra de construção humana ou natural e religiosamente como algo desprovido de significado ou como uma corrupção. No entanto como já dizia o Pe Vieira 'Justiça seja feita até ao Demônio'... Devo julgar o papado e todo fenômeno Histórico, assim a reforma protestante - de modo justo e equânime. Talvez seja impossível ser imparcial em termos de juízos valorativos ou mesmo quanto a escolha do material histórico a ser registrado. Sei apenas que ser ou tentar ser honesto é absolutamente necessário. Digo, não caluniar, não inventar e não repetir boatos acriticamente...
Já vimos que a historiografia medieval tem passado por uma necessária avaliação. Posto que até mesmo seu prosaico nome construído por Keller ou Cellarius - enquanto simples barreira ou espaço vazio entre a brilhante Antiguidade clássica e a formidável Renascença já indicava uma avaliação negativa, quiçá injusta. Não estou querendo negar com isto a patente superioridade da Atenas do século V a C, de Clístenes a Péricles, mesmo da Roma augusteana ou a ainda da Bizâncio do século IV, face a tudo quanto possamos sonhar em termos de I Média Ocidental.
Parte da I Média foi de fato um momento de 'franca' crise. De uma crise sócio, político e econômica que após o fim do Império romano chegou a ser cultural. Devido a inserção do elemento germânico. De fato não podemos exigir um continuidade cultural por parte da Europa Latina a partir do momento em que ocorrem as grandes migrações germânicas. As coisas não podem nem poderiam ficar como eram antes... Nem podemos julgar com equidade a Sociedade do século XIII sem apreciar que eram estes povos germânicos recém chegados ao Império no dealbar do século V. A comparação é absolutamente necessária pois somente a partir dela podemos aquilatar a obra formativa e educativa, da Igreja Católica - pelo menos até o século XI ou XII - e enfim da Igreja romana...
Sem a inserção desse sangue ou dessa força germânica não teríamos resistido a jihad islâmica do século VIII, e Carlos Martel é prova viva do quanto falo. Tampouco sem a incorporação destas culturas, desta força ou deste sangue pela Igreja Católica teria esta operação de resistência a um tempo e salvadora a outra, chamada Cruzadas, existido. E os minaretes se estenderiam de Palos a Berlim ou mesmo Oslo... Podemos devemos criticar os abusos e crueldades que envolvem as Cruzadas, sabendo que somos todos filhos seus e que foram absolutamente necessárias a seu tempo. A antiga Cristandade greco romana teria escrúpulos... Os recém chegados germânicos estavam melhor dispostos e sabiam que a Sociedade enquanto tal precisava defender-se e ser defendida.
Tenho de falar sobre Valera e a Espanha, mas veja por onde vamos em rodeios... Por isso minha falecida Mestra Izamar Alcover Loureiro do Amaral costumava a tratar-me por Domingos, o prolixo e também a profa Eliana...
Quero dizer que nós latinos, ibéricos, hispânicos, lusitanos... Introjetamos a quimera da lenda negra e construímos falsos complexos de culpa e inferioridade face a nossa cultura, que é, e digo-o conscientemente - Soberba. Já o veremos...
Após criticar os mitos e tabus forjados pela crítica protestante e partidarista, levo ao tribunal os místicos da Igreja romana... Sim, a Espanha, produziu e alimentou este tipo de espiritualidade que não hesito classificar como patológica. A ponto dos pobres Cristãos espanhóis se ufanarem duma riqueza aparente, assim de Tereza de Ávila (ademais uma mulher bastante sensata, mas não um gênio), esta nulidade chamada Juan de La cruz, e, a cambada esses Padres - Murillo, Salvany, Fuente de La Peña, Boneta, Sor Patrocínio, Donoso Cortês, etc bando de aleijões teológicos e de anões espirituais que tem deliciado as boas almas dos espanhóis... No entanto, dia após dia, o mal alimento regurgita e sai... E vai o Cristianismo, o romanismo ou mesmo o Catolicismo, sendo vomitado ou expelido por este bom povo... Com grave dano de sua cultura, construída sobre este fundamento Cristão Católico.
A situação se torna dramática pois ou tais pessoas se contentam com o que há de pior no romanismo ou no Catolicismo, assumindo essa mística deplorável ou desamparam sua própria cultura ao lançar fora a fé religiosa. Que na Espanha, já o veremos, produziu gênios de imenso calado...
É uma cruz. Pois mesmo quando os espanhóis - e agora reproduzo juízo de D Menéndez Pidal (cf El Pe Las Casas y Vitória, con otros temas... Austral, Madrid 1958 p 09 sgs) - reconhecem seus gênios nem por isso vão a fundo... Equivoco-me. Pidal é espanhol e tem discernimento. Espero que seus conterrâneos e todo Cristão, e todo Humanista, e todo homem interessado pela cultura, leia o volume de ensaios acima citado.
Longe de mim negar a grandeza do defensor dos Índios americanos, B de Las Casas. Foi homem necessário a seu tempo. E creio eu fiel e honesto, numa época em que não haviam estatísticas... Com razão, no posto em que se achava, tinha de fazer grande bulha ou berreiro. Pois almas vivas estavam sendo destruídas pela febre do ouro ou mesmo pelo fanatismo. E havia quem tomasse os pobres índios por Mouros ou maometanos bravos... B de Las Casas precisa gritar, berrar, apelar a figuras de linguagem poderosas, etc Foi ele como uma tempestade e cumpriu seu propósito.
No entanto aquele mesmo tempo, do outro lado do Oceano, retirado a soledade de seu mosteiro ou convento estava o cérebro ou a mente trabalhando. Seu nome Francisco de Vitória, nome que merece ser colocado ao lado dos grandes nomes que imprimiram certo curso a cultura na medida em que buscaram responder aos problemas de seu tempo.
E com absoluta e plena razão Ballesteros - Gaibrois define o descobrimento da América por Colombo como fenômeno singularíssimo ou melhor único (cf Séjourné; América pré-colombiana - Meridiano ante pag de rosto). Desde de que os gregos, com olhar diverso dos fenícios, exploraram o entorno do Mediterrâneo e mais além, jamais havia se dado tal encontro ou choque de culturas. Las Casas assumiu a defesa da parte fraca ou conquistada... Vitória foi o que primeiramente pensou naquele conflito, construindo uma análise que partia de Aquino, logo de Aristóteles e, consequentemente do conceito de Natureza. No entanto Vitória - como Aquino - tem plena consciência ou sentido de não ser um grego ou um romano mas de ser um Cristão, o que comporta outra escala de valores...
Este sentido ético Cristão corresponde a fé. Vitória aspira encontra-lo quiçá na natureza e, para tanto, por meio do próprio Digesto ou das Institutas, dá com as formulações postas pelos antigos estoicos. Os quais tinha estudado a variedade das culturas após as conquistas empreendidas por Alexandre na Ásia. Os estoicos mesmo sendo gregos, admiraram-se amplamente face a variedade das culturas. Mas, como herdeiros de Aristóteles e mais remotamente de Sócrates, encararam o desafio de encontrar algo de essencial ou comum e é exatamente aqui, que antes de ser descoberto o homem ou o liberalismo político/social é descoberta a HUMANIDADE...
E esta descoberta se vai afirmando no transcorrer do processo Histórico, agora sob o comando dos romanos e seu império. Pois os principais jurista do tempo, como Gaio, eram bastante afinados com o estoicismo. Sendo assim, a par do jus civile ou jus romano (post Caracala) - que era o direito da cidade, atribuído apenas ao cidadão romano - surge, a partir do citado Gaio o 'jux gentium', algo tão importante quando a roda, o arado, a moeda, o automóvel, o avião ou o computador... O jux gentium é encarado como natural e portanto como comum a todos os homens e racional ou dedutível a partir do elemento comum da razão. Pelo que chegamos ao direito natural ou a noção de Lei natural...
Foi deste manancial que Vitória abasteceu-se com o objetivo de refutar aqueles que assumindo um aristotelismo puro ou ortodoxo - como Ginés de Sepulveda, Juan Quevedo, Bernardo Mesa e Palacios Rubios, dentre outros - defendiam a inferioridade natural dos indígenas americanos ou mesmo sua irracionalidade, daí deduzindo a necessidade de escraviza-los e de fazer guerras 'justas' aos que buscassem defender-se... Salta a vista como esta doutrina vinha ao encontro de ambições econômicas, que os marxistas costumam apresentar como infalíveis... E no entanto não foi ela que prevaleceu no seio da Igreja romana ou mesmo entre os intelectuais cristãos espanhóis após o colóquio de Valladolid (1550).
Foi aqui que pela primeira vez se estabeleceu de modo inequívoco os direitos essenciais de toda pessoa humana. Ali que se forjou a alma do liberalismo político pessoal... Não em 1776 na Constituição N Americana... Não em 1789 na Declaração universal de direitos... Nem mesmo pela pena do grande Hugo Grotius simples repetidor dos jus naturalistas hispânicos. Toda esta tradição foi firmada na Espanha - na Espanha da Inquisição, é paradoxal - a partir do Dominicano Francisco de Vitória. É o Renascimento do Humanismo natural timidamente esboçado pelos antigos estoicos, agora levado as últimas consequências, escolasticamente, pois Vitória é um escolástico, e pai, e patrono dos direitos humanos. Mas ele não é e jamais será festejado - como Darwin, Freud, Weber ou mesmo K Marx - pelos cientificistas ou positivistas, pelo simples fato de ser um mestre de Ética, laborando em torno daquilo que eles, classificam irredutivelmente como subjetivismo. Para eles o gênio é Kelsen, teórico do direito puro... Daqueles que como Alf Ross principiam dizendo solenemente que Antígona não diz coisa com coisa, e que Creonte, legítima fonte do poder, esta com a razão... Razão que só pode ser absoluta por ser suprema. E a democracia formal não pode remediar as coisas enquanto mera estrutura a serviço de uma 'vontade geral' (aqui Rousseau) que pode ser tão totalitária e despótica quanto o Leviatã. De fato todos - Maquiavel, Hobbes, Rousseau, Kelsen, Ross e todos os teóricos do direito positivo ou puro encontram-se na negação de uma Lei natural no acesso da consciência pessoal, enfim na negação de uma justiça que não seja política ou estatal... E sabemos onde esta negação da justiça e da consciência chegará...
Por isso Vitória OP não será universalmente homenageado, embora sua doutrina - em que pesem possíveis abusos ou inversões - seja revolucionária (no quadro social em que veio a luz) e mais ainda profundamente humana e ética. Por incrível que possa parecer Vitória conheceu ou raro privilégio de ter tido colaboradores e continuadores tão dignos e competentes. Citarei alguns: Domingo Bañez, Domingo Soto, Gregório Lopez, Melchior Cano, Las Casas, José de Acosta, Juan de Mariana, Roberto Bellarmino e sobretudo Francisco Suarez ao qual Grotius copia sistematicamente. Verdade seja dito - foi Hugo Grotius (homem virtuoso e bom) um erudito vulgarizador, não um gênio criador, e nada disse que os espanhóis não tenham dito antes, desde Vitória.
Suarez, autor do De legibus foi quem coroou os esforços do grupo, e enquanto Le Bret, Silhon e tristemente J B Bossuet reproduzem as frioleiras de Maquiavel, Lutero, Erastus, Tiago I - ainda mais amplamente divulgadas por Hobbes e Filmer - deduzia, a lei natural, o direito divino dos povos ou do povo. Havendo alias certa aproximação das formas democráticas inclusive... sem é claro os descalabros totalitários de Rousseau. Houve ensaios, discretos mas fecundos, de naturalismo político - sempre associado a uma inspiração ética Católica... Chegando Suarez a separar muito bem a política da fé e mesmo da moral pessoal, identificando-a com a administração do poder ou com o governo da sociedade tendo em vista o 'Bem comum'. Embora as esferas ainda estivessem ligadas ou articuladas havia um sincero esforço para dar ao político um conteúdo próprio ou seu, e assim uma Ética própria em termos de felicidade geral dos súditos. Maquiavel pode ter querido repudiar a certo moralismo tosco, e com razão... Fato é que ele, destruindo o falso moralismo, nada constrói em termos de ética, permitindo que um poder absoluto ou ilimitado concentre-se nas mãos do governante. Suarez busca por uma ética específica ligada a um conteúdo específico... é um construtor genial.
Lamentavelmente nossos latinos, ibéricos, espanhóis, etc não tiram proveito de nada disto... Ignoram supinamente o contributo de seus ancestrais a uma ordem social, política e ética que pode ser afirmada como universalmente relevante, na mesma perspectiva que a socrática e ainda mais vigorosa que o aristotelismo ortodoxo. Os espanhóis não apenas deram origem a uma Renascença humanista como partindo do jusnaturalismo lançaram os fundamentos do liberalismo político/pessoal e da teoria do poder popular, mais tarde assumida por Rousseau e obscurecida por seu totalitarismo e despotismo jacobinistas.
Que tudo isto tem a ver com Juan Valera?
Na segunda parte deste artigo veremos que ele é o outro homem ou espanhol genial, como - para muitos paradoxalmente - paladino de um Catolicismo tão belo, digno e esclarecido quanto o de seus predecessores Vitória e Suarez. Assim se você - apesar de Lutero, Zwinglio e Calvino terem sido bons assassinos - enche sua boa para dizer Torquemada... encheremos as nossas para dizer Las Casa, Vitória, Suarez... E se disser que a igreja papa produziu apelas entidades desequilibradas como Salvany e Murillo direi que também produziu um Juan Valera...

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018
Breve ensaio sobre os escombros...
Jamais me esqueci de uma ilustração vista numa Enciclopédia ainda quando garoto - A qual mostrava Goethe com o olhar perdido diante das ruínas do fórum romano.
E no entanto Goethe contemplando o passado longevo e glorioso dos Césares e memorando os feitos de Scevolla, Furius, Cincinato, Cléia, Cornélia, etc sabe a um Homero, pois tem grandiosidade Épica.
Tal nossa civilização - Campo em ruínas ou cemitério de ideologias putrefatas?
Desde que o Catolicismo, a ortodoxia ou a fé apostólica foi imobilizada e lançada por terra após ter imperado soberana por milênio e meio é possível parafrasear os Atos dos apóstolos e dizer a respeito de cada um dos sistemas que o sucederam: "Onde a pouco caiu teu esposo hás de cair tu também, e eis que os coveiros já se acham as portas."
Efêmero foi o triunfo do protestantismo, com seu furor bíblico e altas pretensões - Pois pelos idos de 1700 era já a intelectualidade inglesa descrita como incrédula pelos habitantes do outro lado da mancha. Que dizer então do outro lado do Reno, onde um Reymarus declarava que apodreceu o corpo de Jesus em alguma cova ignorada após ter sido roubado pelos apóstolos com o objetivo de simular sua ressurreição. Sem mencionarmos o imenso enxame de seitas descrito por Voltaire nas "Cartas da Inglaterra" e a sucessiva falencia do projeto totalitário calvinista...
Substituiu-o efetivamente a ordem materialista do liberalismo econômico ou do capitalismo, a qual, desde então, tem o protestantismo servido como um lacaio.
Entrementes veio o convívio democrático a triunfar num cenário, ainda maior: A França. Assim, em menos de século e meio as ruínas do protestantismo foram adicionadas as ruínas do antigo regime.
Assim, cerca de 1917 as ruínas do protestantismo, do antigo regine e do capitalismo atulhavam o horizonte da civilização e prenunciavam seu ocaso.
E no entanto, abalo após abalo, todas estas construções portentosas estremeceram e vieram abaixo com grande estrondo... Até que não sobrou pedra sobre pedra.
E no entanto, o desabamento mais fragoso no entanto deu-se em 1962 - a partir do Vaticano II - com a queda da igreja romana, assediada pela maçonaria, comprada pelo americanismo, flagelada pelo ecumenismo, contaminada pelo protestantismo (Protestantizada) apartada de suas tradições e privada de sua identidade... e reduzida a quase nada > Em comparação com o que fora cinco séculos antes.
Pois o palpite capitalista, segundo a qual, nossa democracia sem consciencia, se sustentará tal e qual é, ou seja, com suas limitações, vícios e defeitos, demanda uma profissão de fé bastante ousada. A qual não me disponho a fazer.
O irracionalismo reinante todavia, serve-lhe de couraça impenetrável.
Caso o edifício da democracia formal, entre em colapso e venha abaixo, antes de converter-se numa democracia popular, real ou direta as perspectivas me parecem bastante sombrias. Na medida em que virá ela a ser substituída por novos totalitarismos - quiçá religiosos (Teocracia) - ou pelo anarco individualismo, compreendido como dissolução do que chamamos convívio social (O sonho de Max Stirner e Ayn Rand) e aqui temos algo que sequer podemos conceber, uma vez que não podemos imaginar o que jamais existiu.
Mesmo esta democracia precária, e que precisa ser ultrapassada, nos tem de fato beneficiado pelo simples fato de preservar--nos desses dois extremos perigosos representados pela tirania, o despotismo ou a ditadura de um lado e a anomia do outro.
Necessário entender que a democracia, para adquirir vitalidade, deve deixar de ser simples forma ou casca para atuar como espírito ou mentalidade na dimensão da cultura. Deve a liberdade, ao invés de ser negada pelos neuro cientistas levianos e irresponsáveis, converter-se em um valor significativo, em nome do qual as pessoas aceitem viver ou desejem morrer caso preciso for. Caso ela não produza conquistas significativas, caso não desperte amor, lealdade e coragem, caso não melhore as vidas das pessoas, correrá o risco de tornar-se indesejável e inútil.
Já as relações humanas, dentre elas a produção de bens ou seja o setor da economia, devem ajustar-se, acima de tudo as exigências da justiça. Não é o Mercado, porém a necessidade humana que deve determinar o salário, impedido assim a afirmação da miséria e evitando que a divisão social aumente até o conflito entre as classes. Tudo isto implica que a economia reconheça o primado da Ética. Me parece que não há melhor caminho que a liberdade no plano da política e restrição ou contenção Ética no plano da economia.
Resta-nos então alguma esperança?
Sim, certamente há alguma esperança, como também parece haver um poderoso obstáculo
Pois se o positivismo desabou como sistema fechado há no mínimo oitenta anos, permanece ainda vivo e pujante no plano da cultura, a partir de seus elementos dispersos ou dos escombros reaproveitáveis.
Mas qual será o problema do positivismo? Perguntará o católico ou o ortodoxo estúpido que só tem olhos para o comunismo, para o anarquismo e quem sabe para o capitalismo...
Cumpre dizer em primeiro lugar, que este modelo, pautado nas ciências exatas e biológicas, tudo envenenou e desvirtuou ao inserir-se nos domínios das ciências humanas, questão examinada com propriedade de Dilthey a Poincaré (Convencionalista) ao cabo de décadas. Mas quem hoje lê Dilthey ou presta atenção a Poincaré ou a seu cunhado Boutrou...
Alegadamente é o positivismo (Mesmo o francês, herdeiro do iluminismo e portanto destemperado desde o berço!) enquanto filho do criticismo kantiano e do ceticismo Humeano, uma forma de agnosticismo.
Diante disto, ao cabo de todo século XX o positivismo, sob a forma acintosa do cientificismo, tornou-se porta voz do materialismo.
No plano da cultura o quanto foi dito a respeito do ceticismo por Victor Brochard, em sua extensa monografia sobre os céticos gregos foi reproduzido em gênero, número e grau pelo insuspeito G Sorel.
Embora alguns digam que este homem antigo fartou-se da razão, parece que foram mais propriamente as condições sociais adversas que fizeram este homem dela desconfiar até a negação ou ainda que a dúvida insuperável e pessimista foi potencializada pela situação externa do mundo, (Assim por calamidades naturais, conflitos bélicos, epidemias, miséria, etc) a qual parece ter repercutido negativamente nos domínios do intelecto, fazendo com que muitos passassem a desconfiar até mesmo de si próprios.
Mesmo antes de ter tirado sua máscara e assumido aquele viés materialista que haveria de caracteriza-lo posteriormente, o positivismo, desde os tempos de Litreé, tendo declarado guerra a metafísica ousou repudiar a viabilidade da Ética enquanto valor universal e unificador.
O que nos faz julgar e punir, com absoluta propriedade, tanto um Hitler quanto um Goebels ou um Himler é uma lei natural, essencial e comum que transcende a cada individuo e é fonte de direitos inerentes para todos os seres humanos. É sobre este conceito ou noção que se assentam os fundamentos mais remotos de nossos aparelhos judiciários.
O positivismo, todavia - E por questão de crenças ou de metafísica. - não o pode admitir...
Afinal Justiça e Liberdade são conceitos puros, que não podem ser experimentados, vistos, pesados, medidos, contados, etc E, sendo assim não existem apenas nos diferentes indivíduos, porém de diferentes formas. E o que é liberdade para um já não o é para outro... Nada de objetivo e externo aqui.
Lamento te-lo de repetir pela milésima vez neste tempo em que se fala, tanto e tão levianamente, sobre ética.
Remova a ética no entanto e que nos restará: O racismo, o escravismo, a tortura, o machismo, a pedofilia, a guerra, a matança de animais, etc
O que sempre nos levará ao conceito de Lei natural, digo de que a Etica corresponde a uma Lei natural tão impositiva quanto a Lei física ou a Lei biológica.
Considere o leitor o caso de tais indivíduos terem que matar, roubar, mentir, trair, etc para obterem os resultados a que aspiram, se realizarem e assim conquistar a felicidade?
Fará voce um belo sermão dizendo que cada um deles deve abrir mão da própria felicidade ou imolar-se... Com base em que experiencia ou constatação empírica... Só se for com base nos romances da Bárbara Cartland...
Aqui, o quanto nosso defensor da 'Teoria pura' esta fazendo é, na prática, estimular o crime perfeito, por parte dos que se acham habilitados. Provavelmente voce responderá dizendo que não existe o crime perfeito - Ao que posso objetar: Alguns crimes são de fato tão perfeitos a ponto de voce, ignorando-os poder negar confortavelmente sua existencia. Direi no entanto que antes do DNA inumeros crimes foram 'relativamente' perfeitos e que outros só foram descobertos décadas após as mortes de seus autores, os quais de fato jamais responderam por eles ou receberam punições conseguindo burlar a justiça humana.
Naturalmente que se alguns conseguiram, alguns outros que tem perfeito conhecimento dos fatos e que se julgam competentes - Já dizia Cecília Meirelles Nada mais comum do que alguém atribuir a si mesmo excessivo valor...
Hume merece certamente ser aplaudido por sua honestidade e franqueza, quando partindo de seu ceticismo inveterado, teve de concluir que o assassinato não constitui um mal em si mesmo e que a única coisa que o transforma em crime é a lei baixada pela sociedade.
Reflita!
Agora veja um clamoroso exemplo ou reflexão que tomo Peter Singer - Por que raios continuamos a torturar e matar animais inteligentes, como cobaias, ratos, macacos, cavalos, cães, gatos, etc com as bençãos dos cientistas positivistas e dos patrões ou empresários apenas para emprega-los em 'experiencias' (Torturas escabrosas, repito) e ter uns sabonetes, perfumes, xampus e desodorantes, e medicamentos, melhores ou ainda para adquirir uns certos conhecimentos... Por que continuamos a fazer isso após sabermos que tais seres não apenas são sensíveis, como auto conscientes, resistentes a morte e sobretudo inteligentes...
Trasímaco responde: Fazemos isso primeiramente porque podemos ou temos força, armas, etc e em segundo lugar porque obtemos vantagens ou benefícios> Eis ai o belo utilitarismo produzindo seus frutos podres i é uma autentica hecatombe! E os cientistas acríticos e negadores da Etica e de lei natural, executam, aplaudem e defendem tudo isso, para depois criticarem os religiosos ignorantes e iletrados que sacrificam animais a seus deuses... Eis a estirpe dos evoluídos positivistas...
Observem mais uma vez este trágico quadro - Utilitarismo, Individualismo e Darwinismo social...
O positivismo, o cientificismo, o ceticismo, o materialismo e sobretudo o ateísmo jamais poderão servir de fundamento a qualquer sistema de Etica nimiamente humanista i é capaz de proteger, valorizar e promover o ser humano face aos clamores das culturas de morte acima citadas! Que dizer então sobre uma Etica supra especista capaz de vindicar os direitos dos animais acima citados!
Seremos capazes de reconstruir alguma coisa??? Não sei, não sei, não sei; mas certamente devemos tentar...
Poderemos aproveitar algum material?
Mármores e pórfiros sempre podem ser reaproveitados com sucesso...
Reciclagem é sinal de inteligência...
Algo há que possa ser recuperado?
Veremos, veremos...
Precisamos porém de um elemento coordenador...

