Mostrando postagens com marcador Maniqueismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Maniqueismo. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Jung, Freud e freudismo.

Todo e qualquer leitor deste Blog ou de qualquer outro Blog de nossa propriedade, sabe muito bem o quanto admiramos e acatamos o vulto de Freud.

Juntamente com Atrino e Ellis foi ele um dos primeiros pesquisadores a estudar a sexualidade humana sem apriorismos ou preconceitos tolos tomados a moralidade judaica ou farisaica. O quanto basta para imortaliza-los.

Afinal era mister tratar naturalmente a dimensão sexual do ser humano, conferindo-lhe um status científico.

Ao cabo do décimo nono século não dava mais para marginalizar ou satanizar o corpo ou a sexualidade, conforme a tradição maniqueísta que nos fora legada pelos antigos semitas e, desastrosamente assumida pela 'igreja' Cristã.

Jesus jamais discursara sobre sexualidade ou fixara-se em tal tema. Não o abordou nem valorizou, ocioso que era a comunicação divina.

A Cristandade nominal todavia, tomando caminho distinto do traçado pelo mestre, fixou-se doentiamente no tema... canonizando toda uma série de tabus absurdos, e convertendo-se em fonte de neuroses sem fim...

Freud foi um dos heróis que, afrontando a opinião pública maniqueísta - consagrada pela Era Vitoriana! - forçou a ruptura das barreiras, rumo a uma sexualidade normal e encarada como parte efetiva da vida humana.

Foi o quanto bastou para alista-lo merecidamente com Darwin, Marx e Einstein.

Há no entanto quem, como Newton e, De Vries, Mayr, Kautsky, Herr, Jaurés, Blum, Bernstein, Keynes, etc tenham avançado ainda mais, por terem seus pés postos sobre os ombros dos gigantes...

Como Newton só pode avançar a partir de Copérnico, Galileu e Kepler, de Vries, Mayr e Dobzhansky avançaram a partir de Darwin; Kautsky, Bernstein, Herr e outros a partir de Marx... Einstein a partir de Maxwell, Morley, etc C G Jung, Horney, Blowlby, Winnicott, Frankl, a partir de Freud. 

Natural que o gigante tenha sido ultrapassado. Todos os demais gigantes o foram, ampliando e aprofundando cada nova descoberta ou teoria.

Mead e Malinowski demonstraram, abrindo o caminho para Horney, que as constatações assumidas pro Freud tinham um carácter cultural relativo ao tempo e ao espaço ou a sociedade europeia do tempo sua organização, princípios e valores. Não se tratava portanto de algo abstrato (com relação ao tempo e ao espaço), metafísico.. Mas de uma relação da psique humana a um determinado contesto sócio cultural... O complexo de Édipo era uma construção da sociedade monogâmica e patriarcal... Inexistente em culturas matriarcais ou poligâmicas, como as das Ilhas Tobriand ou de certas paragens da África... Assim as diversas neuroses analisadas pelo psicólogo austríaco só podiam ter sua gênese num tipo de sociedade maniqueísta e repressora, e não teriam qualquer razão de ser no antigo Egito, na Antiga Suméria ou na Antiga Grécia... Os problemas analisados e elencados por Freud eram circunstancias e não universais...

Outro o questão da líbido, definida por Freud como uma energia sexual, embora suscetível de transformação/sublimação. Trata-se aqui de uma força ou energia sexual, voltada para outros setores da vida...  A matriz de toda energia ou ação humanas era de origem sexual. Assim pensava Freud e isto de modo algum me choca.

Julgo todavia que a análise de C G Jung seja mais significativa ou consistente.

Jung foi caracterizado como um puritano ou moralista apenas por ter contestado a afirmação peremptória e dogmática de seu mestre, quando a natureza sexual da líbido. Formulou Jung uma outra hipótese, conceituando a líbido como uma energia neutra ou informe, a qual vai assumindo sucessivas formas determinadas pelo sujeito.

Claro que tais formas só poderiam ser dadas ou determinadas por uma vontade consciente ou pela intencionalidade.

Como os bebês ou recém nascidos não possuem racionalidade, inteligência ou vontade livre é perfeitamente compreensível que esta energia informe ou amorfa assuma uma forma sensorial prazerosa. Basta com o saber que o princípio da vida humana seja sensorial e não racional ou volitivo para compreender que a energia psíquica, em seus primórdios, identifique-se com o princípio do prazer. É questão de limites, impostos pela natureza ou pena condição...

Importa saber que esta energia é maleável ou sujeita, em determinado momento posterior, a ação consciente ou determinação do sujeito... E é esta maleabilidade que possibilita o movimento que Freud classifica como sublimação. Nem haveria sublimação ou mudança de sentido caso a libido fosse essencialmente sexual. Pois sendo essencialmente sexual como poderia receber outra forma. Se pode receber diversas e distintas formas é evidente que é amorfa ou informe por definição.

Eis porque damos razão a Jung.

Ademais freudismo é uma coisa e psicanalise outra. No freudismo há uma precipitação metafísica, alias mal elaborada, como acabamos de apontar. A psicanálise é um método a mais, que nos permite conhecer e analisar e mente humana. Podemos e devemos encarar o freudismo com cautela. Descartar a psicanalise é pura e simples burrice. 

terça-feira, 3 de outubro de 2017

No 'inferno' do 'Amar é'




Resultado de imagem para figurinhas amar é



Levante a mão quem ainda se lembra do álbum de figurinhas 'Amar é'.

Caso você seja dos anos setenta ou mesmo oitenta certamente ainda lembrará do simpático casalzinho castrado...

Época da Sarah Kay, da menina moranguinho, dos animais fofinhos, etc tudo muito bonitinho e encantador. E é claro que os namoradinhos do 'Amar é' não podiam fugir a regra...

Exatamente por isso eram desenhados muito moralmente ou seja sem os 'asquerosos' órgãos sexuais. Nem o menino tinha pênis nem a menina tinha vagina, eram ambos completamente lisos ou tapados, i é, sem buraco algum.

Orifício por onde fizessem o número um ou o número dois não havia e ficamos lá pensando se comiam ou bebiam qualquer coisa, e por onde saiam os refugos - Pela boca? Pelo nariz, ou pelas orelhas? A pergunta bem pode ter ocorrido a qualquer criança do nosso tempo (anos 80) e premiada lá com algumas palmadas por parte desses pais educadores que já não usavam a 'vara de marmelo'.

Eu como menino 'bíblico' ou crente só pude conhecer a 'Amar é' através de meus amiguinhos pagãos, que costumavam cola-las em seus cadernos e - pasmem, pasmem sim - havia sido orientado a não fixar os olhos em tais figurinhas, pelo simples fato de ostentarem corpos nus!

E como disse não havia ali sequer vestígios de órgãos sexuais ou qualquer coisa que insinuasse um pênis ou uma vagina! Era ambos castradíssimo e sem embargo disto, 'imorais'. Ao menos para parte da boa Sociedade.

Jamais pude esquecer o comentário feito por uma velha senhora diante de uma banca de jornais em cuja parte externa o proprietário havia colado um cartaz promocional das figurinhas:

-- Viu Minguinho (tal meu apelido de menino) a que ponto chegou esta sociedade (nem sabia o que era sociedade)? No meu tempo não se ostentavam corpos nus desse jeito, vou falar com o seo Morgado para não colar esse tipo de coisa na Banca.

Tá certo que a senhora em questão era de outro tempo... Tão certo quanto o menino e a menina serem lisos e castrados, e não haver qualquer sinal de, digamos, 'malícia' nas figurinhas. Exasperou no entanto muita gene mais nova e não estou convencido de que ainda hoje não exaspere algumas pessoas, especialmente os fanáticos religiosos... Sempre em guarda contra o corpo, a nudez e a sexualidade humanas.

Nem estou suficientemente convencido de que parte da Sociedade atual seja ainda mais fechada do que aquela dos anos 80...

Reeditado o álbum 'Amar é' em nossos dias, será que venderia mais??? Será que não fariam autos de fé pelas esquinas. Alegando que o casalzinho de castrados é decididamente imoral ou pecaminoso...

Uma coisa é certa meu senhor. Há quem se sinta incomodado com as simples linhas ou com o esboço pictórico de um corpo nu. No passado dizia-se nu artístico e não me parece que fizessem tanta bulha em torno dele quanto hoje...

Problema aqui é que não se tratam de casos isolados ou de pessoas psicologicamente desajustadas. Aparentemente essas pessoas melindradas são normais. O que temos aqui é a produção intencional de uma certa cultural maniqueísta ou puritana...

Dirá você que estou fazendo tempestade em copo dágua uma vez que a produção desse tipo de cultura anti corporal ou assexuada é produção que remonta há séculos.

Indubitavelmente meu querido, indubitavelmente. Consideremos no entanto que vivemos num mundo pós freudiano direcionado cada vez mais para a aceitação do corpo, do sexo e da nudez, não em termos de valores supremos (como querem muitos), mas certamente como algo natural.

Consideremos que o passado século, em que pesem exageros e abusos, foi um tempo de avanço. A tendência a que me referi acima era um agregado persistente, mas condenado, ao menos a longo prazo, a desaparição. As tendências mostravam isto...

Portanto o que me assusta ou incomoda é a retomada feroz desse tipo de discurso ou dessa produção cultural na mais larga escola. O que estamos assistindo, ao menos aparentemente, é a retomada de ideais e modelos maniqueus e puritanos que não só confinam com islã como preparam seu advento em nossas sociedades ocidentais. Há todo um discurso negativo ou pecaminoso em torno da nudez ou da sexualidade e cujo objetivo é produzir um generalizado sentimento de culpa entre as pessoas, especialmente entre as mulheres... o fim desse discurso é que após o corpo experimentar certa degradação ou a beleza declinar sucede o arrependimento, a conversão e por fim túnicas, icabs, burkas, shadores, etc como forma de penitência.

Que tais pessoas optem por ocultar seus corpos decrépitos deveria ser assunto de ordem privada. Lamentavelmente no entanto, assistimos a toda uma reação contrária ao direito dos demais membros da sociedade exporem seus corpos ao menos por parte de algumas dessas pessoas 'convertidas' a alguma religião qualquer... De fato elas não estão nem um pouco convencidas de que a tais pessoas assista o mesmo direito que assistiu a elas durante a juventude. Não é simples questão de arrependimento mas também de egoísmo inconsciente expresso pela forma clássica: Se não ouso mais mostrar meu corpo ninguém mais deveria poder faze-lo. Em tais situações as pessoas que ousam mostrar seus corpos passam a ser odiadas e quando não insultadas ou agredidas.

A parte da sociedade que se esconde o corpo e a sexualidade parece não se dar bem com a outra parte, seja a sexista ou a que busca viver com naturalidade, tornando-se ativamente hostil. Assim entre os que não vão a praia devido a questão da nudez costumam sentir-se molestados porque os demais vão e isto pelo simples fato de serem influenciáveis, covardes e não terem coragem para fazer o que querem. A pessoa que assume um princípio moral ou crença sinceramente e que busca vivencia-lo em máximo grau, via de regra não se preocupa com o comportamento alheio, apenas com o seu. A preocupação com o comportamento alheio em termos de Psicologia, denota sempre um insatisfação subjacente, desconformidade, insegurança e, é claro rancor. Rancor por achar-se obrigada a viver uma vida que não gostaria de viver.

Em termos de cultura no entanto o ponto de partida desta postura intolerante é a produção de um sentimento de culpa, relacionado com a retomada de um discurso maniqueísta ou puritano cujo objetivo é satanizar o corpo físico, a nudez e sobretudo a sexualidade humana. O que me suscita minha reflexões não é a sobrevivência circunstancial desde discurso enquanto mero agregado persistente mas sua decidida retomada em alguns contextos da sociedade brasileira, do que resultou toda esta polêmica assustadora em torno do homem nu lá no Masp.

Lamento por Fernando Sabino, autor impagável da Crônica 'O homem nu' já não estar mais entre os vivos para escrever um segundo conto ambientado lá no Masp...

Afinal, desta vez ao menos, é o mesmo povinho que leva os filhos no colo, durante os carnavais, para assistirem 'mulatas' (a expressão aqui é mesmo para despertar choque) semi nuas ou nuas em pelo, rebolando e se arreganhando na passarela... E quem se choca???

Tudo bem que pela primeira vez cobriram a globeleza com um vestido...

Homem branco rebolando nu em pelo foi o que a Globo jamais cogitou por.

A simples imagem da mulher negra nua, pobre, favelada, sem oportunidade na vida... estar ali se arreganhando diante de um montão de machos caucasianos com seus filhinhos impecáveis nos colos, é tão perversa que me faz lembrar as velhas vitrines de zoológico em que colocavam tipos humanos primitivos.

Se é mulher, negra ou morena, pobre, etc rebolando em cima de uma garrafa pode, é bonito... Agora basta expor a nudez de um homem branco, simplesmente sentado num lugar fechado para produzir exasperação... Meu Deus onde estamos???

Ah mais haviam crianças lá....

Ok, mas foi a exposição realizada para esse tipo de público?

Quem levou? Quem são os responsáveis? Que pretendiam eles? São seus filhos???

E se os pais quiseram levar as crianças ao evento para familiariza-las com a nudez, segundo a opinião deles, o que você tem a ver com isto??? São seus filhos??? Então você quer total liberdade para educar e criar seus filhos, surrando-os com a vara ou espancando-os por qualquer motivo e para os outros pais liberdade alguma???

Digo isso porque criança alguma foi posta ali pelo produtor do evento ou raptada!

Estavam ali porque foram conscientemente conduzidas até aquele lugar pelo poder paterno que vocês tanto endeusam em causa própria.

Alias quando o menino Bernardo foi assassinado pelos pais após ter procurado ajuda, qual a exasperação de vocês??? NENHUMA???

Vejam a disparidade!!!

Claro que a lei bem poderia, e é alvedrio seu, fixar uma idade mínima para a assistência do evento. Agora proibi-lo pelo simples fato de contar com a exposição de um Nu, de modo algum, de forma alguma. Não existe nada, absolutamente nada no nu que cause dano ao outro e se alguém adota o ponto de vista contrário não vá a exposição, não compre 'Amar é', não manuseie material pornográfico as ocultas, etc Uma vez que aqueles que encaram a nudez com naturalidade ou como parte da vida assiste o direito de contempla-la livremente.

Mas a contemplação da nudez é um pecado ou uma imoralidade.

OPINIÃO SUA.

Não minha, nem de outros tantos milhões de cidadãos honestos e trabalhadores que não teem problema algum de aceitação com relação a seus corpos.

Agora se pensa assim conduza-se de modo coerente, ao invés de pretender comandar os outros porque ainda há cidadãos livres nesta porra dispostos a não se deixar comandar por gente autoritária e controladora como você.

Se a questão é as crianças, que a justiça estabeleça um limite de idade quanto ao acesso a tais eventos. Claro que todos os cidadãos e todos os pais deverão obedece-los, como você deve obedecer a lei menino Bernardo e cessar de espancar seu filho ou apodrecer na cadeia. Se a questão é a lei, comece cessando de educar seu filho com a vara de marmelo ou de tortura-lo.

Agora quanto a exposição e acesso a nudez, cidadãos adultos e maduros não precisam ser tutelados por zelosos moralistas de fancaria. Vão viver seu azedume e sua amargura sem importunar os outros!

Não pensem que estou defendendo, como os esquerdopatas sem causa, a dimensão artística deste nu ou deste exposição de arte moderna, a qual deploro como psicologista, relativista, subjetivista, estúpida, etc Não sou nem pretendo ser partidário dessa arte degenerada a que chamam de moderna, sou pelo clássico, decididamente. E em questão de nu prefiro uma Vênus de Milos.

A questão a ser ponderada não é repito, a dimensão artística da produção, a qual bem pode ser negada ou questionada. Não sou dos que iriam a uns exposição de arte moderna, mesmo para ver o Gianecchini em pelo, palavra não iria. O foco da questão é a nudez e a aceitação do próprio corpo, pressuposto absolutamente necessário para a construção de um personalidade normal, sadia e equilibrada. A negação do corpo, da nudez e da sexualidade é o ponto de partida para o desenvolvimento de uma série de neuroses e distúrbios psicológicos, e francamente este mundo já esta cheio de anormais e de seres sem consciência explorando a anormalidade alheia com propósitos financeiros...

Comecei lembrando das coleção 'Amar é' com o simples traçado de corpos nus lisos e tapados. E termino formulando a seguinte pergunta: Será que no Brasil de 2030 alguém terá coragem de criar algo semelhante ou de reeditar o velho 'Amar é'??? Eis uma pergunta aparentemente tola que demanda nossa reflexão urgente! Que rumo estamos tomando e como será o Brasil do futuro?

sábado, 13 de maio de 2017

Por uma teologia da corporalidade


Resultado de imagem para dance matisse




Uma das poucas mudanças positivas (Dentre um aluvião de negativas) implementadas pelo 'concílio' (sic) do Vaticano II cumpre apontar a substituição da expressão 'Salvação da alma' - Lida e compreendida não poucas vezes como salvação apenas da alma ou incorpórea - por expressões tanto mais exatas como 'Salvação do homem' ou simplesmente da pessoa.

A mudança é pertinente e esta de acordo com a piedade legitimamente pautada no Evangelho e na mais pura tradição da Igreja.

Sempre bom lembrar, a luz da doutrina da Ressurreição da carne, que salvação sem redenção do corpo é sempre incompleta e imperfeita. Não sou eu quem o diz mas o escolástico, no tema - Razões porque devem os mortos ressuscitar, alias reproduzido em parte pelo Grande Catecismo Tridentino.

Antes de aduzir as razões porque devam os mortos ressuscitar na forma (Não no mesmo corpo mas na forma) do corpo, exporei as consequências contidas neste artigo de fé. Com efeito, se o homem deve ressuscitar mesmo após ter se 'salvado' em espírito é porque esta ordem de existência, de salvação incorpórea, é inferior a ordem posterior, fixada pela ressurreição dos corpos, esta apenas perfeita, aquela imperfeita.

Tendo vívido como uma Unidade corpórea e realizado suas ações virtuosas no corpo físico deve o homem ser recompensado também no complemento material deste corpo. É exigido pela justiça, determinado pela perfeição e fixado por Deus desde toda eternidade.

Assim salva-se o homem todo, e não apenas a alma ou o espírito imaterial. A salvação da alma ou imaterial não passa de estádio provisório e como tal não é perfeita. Todos os Católicos conscientes e instruídos deveriam estar perfeitamente cônscios a respeito disto.

Passo agora as razões aduzidas pelos escolásticos em favor da ressurreição dos corpos.

  • É o Deus Cristão, Deus encarnado e 'de bem' com os elementos materiais. Estando já 'presente no mundo' como declara o quarto evangelista ou melhor o mundo, que é finito, presente nele.
  • A condição humana foi ela mesma assumida por Deus no ato de sua encarnação e santificada pelo contato seu.
  • Os Homens, pelo batismo, são chamados a intimidade divina em seu máximo grau, tornando-se filhos adotivos de Deus.
  • Tornando-se filhos adotivos de Deus passam a ser receptáculos ou tabernáculos do Logos ou da consciência divina.
  • Imitando a Jesus Cristo pela obediência tornam-se participantes de sua ressurreição.

Assim é o corpo humano elevado a mesma dignidade que aquele que costumam atribuir a ela.

Então porque raio dizem alguns que a alma é superior ao corpo físico e em que sentido podemos dize-lo.

Observe que nem a matéria nem o corpo físico propriamente dito possuem consciência de si mesmos. Temos consciência de ser corpo por uma consciência que não é propriamente corpórea, que esta no corpo, que se manifesta por meio do corpo, mas que não é o corpo no sentido de que não se resume ao corpo. A consciência estando no corpo transcende ao corpo... O corpo esta nela e com ela, sendo percebido por ela e mesmo assim ela sabe que é algo a mais.

No homem apenas a consciência se desenvolve a ponto de tornar-se racional e livre. Racionalidade e liberdade são apanágios da consciência, não do corpo físico. Correspondendo a princípios operatórios destinados a comandar ou reger o corpo físico. Assim o corpo é relativamente inferior no sentido de que é dirigido ou comandado pela consciência, a qual é nosso princípio operatório.

É a consciência ou a mente que determina as ações executadas pelo corpo físico, o qual por assim dizer obedece o comando ou a determinação que parte dela.

Não somos consciências comandadas por corpos, mas corpos comandados por consciências.

Evidentemente que nossos corpos tem certas necessidades físicas que devem ser satisfeitas e as quais não podemos fugir. Com relação a tais necessidades não somos livres. No entanto mesmo quanto a satisfação de tais necessidades existem aspectos que não são necessários, exceto em determinadas circunstâncias. Assim se posso alimentar-me de batata, aipim ou abóbora posso já escolher de que alimentar-me, e se posso vestir linho, algodão ou canhamo, também posso escolher de que vestir-me... E vão surgindo os nichos de escolha e liberdade, que fogem a determinação.

Claro que podes optar por um determinado regime com base na determinação sensorial do sabor. Mas também podes optar por um alimento que sabes ser mais saudável ou mesmo por consumir determinado alimento para agradar a determinada pessoa, como podes recusar-te a faze-lo.

Assim dentro de determinados limites somos livres.

E nossas opções determinadas pelo princípio operatório da consciência.

Assim a tão decantada superioridade espiritual é puramente relacional e de forma alguma essencial.

Pois se o corpo físico é dirigido e comandado pela alma não é menos verdade que a mente dependa do corpo para manifestar-se neste mundo, para comunicar-se e para viver.

A existência terrestre só pode existir na dimensão do corpo e em comunhão com o corpo.

Portanto se esta dimensão da existência tem algum propósito ou valor da mesma forma o corpo físico, órgão do espírito e órgão absolutamente necessário a sua expressão.

Sem o complemento do corpo a mente inexiste para o mundo e o mundo para ela. 

Morto o homem perde totalmente seu vínculo com eles mundo, exceto em algumas situações especiais.

O corpo físico é órgão concedido a alma para atuar no mundo material, adquirir experiencialidade, conviver e aprender a partir dele.

Caso esta vida tenha significado ou tenha sido disposta conforme um sábio plano os corpos de que dispomos e sem os quais não nos é dado frui-la são de importância capital.

Isto porque quando a mente aparece neste mundo aparece apenas quanto a forma ou organização estrutural, não quanto a um conteúdo determinado qualquer. Quando se manifesta neste mundo é a mente uma tábua rasa quanto as informações ou conhecimentos propriamente ditos. Nascemos em estado de ignorância.

Por meio do corpo é que percebemos o mundo físico/natural que nos rodeia. Através dos sentidos é que percebemos a realidade. Através da dimensão corpórea é que entramos em contato com os outros, nos comunicações, nos informamos, interagimos e elaboramos nossa personalidade e construímos nossos conhecimentos. Pois a experiência do mundo externo e do outro nos é dada pelos sentidos presentes no corpo, sem os quais nada poderíamos perceber.

Se temos de viver neste mundo precisamos de um aparelho capaz de explora-lo e este aparelho é o corpo físico. Providos de um corpo físico podemos cumprir nossa trajetória. Desprovidos de corpo deixamos de existir para este mundo. Rompida a unidade existente entre corpo e mente por meio da morte, ao menos para este plano cessamos de existir e já não pertencemos a esta realidade.

Portanto caso esta condição ou forma de existência tenha sido ou seja querida por Deus, e se corresponde a uma via de acesso a perfeição, temos de admitir que a dimensão da corporalidade é um bem. Se o espírito para ser cultivado ou receber seu conteúdo carece de um corpo, não pode ser essencialmente superior a ele. Assim se a mente comanda o corpo também depende dele, e temos uma via de mão dupla. E já podemos concluir que o espírito foi planejado para o corpo e o corpo para o espírito, de maneira que atuem conjuntamente. Ficando estabelecida a igualdade essencial dos dois modos de ser.

Daí a necessidade de falarmos não numa redenção descarnada da 'alma' apenas, nas numa redenção total, completa e integral, salvação do homem e mais, salvação da sociedade, salvação do gênero humano, salvação do planeta, reconciliação completa, de todos os seres com o Espirito Supremo, Alma do mundo e princípio operatório do universo material; enfim com o 'Nous'.








quinta-feira, 4 de maio de 2017

O Svidrigailoff de crime e castigo


Resultado de imagem para svidrigáilov


Torquemada e João Calvino, ambos os dois, correspondem ao tipo ascético, que desconfia dos prazeres, alegrias e divertimentos comuns a esta nossa vida. Vida que para eles sabe a morte...

Da existência enxergam apenas a cruz. Sem perceber que uma boa dose de vinho com mirra é necessário para suporta-lhe o peso...

Coisa curiosa de ser ver. Como o asceta e capaz de tornar-se desumano e cruel, e consequentemente de cometer a maiores vilanias, como matar, torturar e oprimir em nome de Cristo, de Deus e da fé...

Na mesma medida em que torturam a si mesmo tornam-se insensíveis a sofrimento alheio e perfeitamente capazes de torturar os demais em nome de Jesus ou da religião...

Talvez por puro e simples amargor seja levado a assassinar e fazer sofrer.

Talvez porque a alegria experimentada pelo outro incomode-o ainda mais do que a auto privação. Quem sabe?

Só sei que o mesmo homem que prostrado ao chão vive mais de jejum do que de qualquer outra coisa, é bem capaz de esfolar o adversário até a morte ou de abrir-lhe o ventre e queimar-lhe as tripas sem soltar um suspiro ou derramar uma única lágrima.

O asceta é capaz de matar e de torturar em nome de Deus acreditando exercer uma ação sagrada. Acredita ser uma espécie de soldado ou miliciano a divindade. Talvez acredite, em sua ingenuidade, ser capaz de defender aquele que adora...

Tendo eliminado seus sentimentos e substituído o coração por um pedaço de pedra será um psicopata?

Quem saberá ou poderá dize-lo?

Intolerante consigo mesmo segundo as exigências da virtude, torna-se muito facilmente intolerante face aos outros desvirtuando a fé que o anima.

O mesmo mistério que o faz verter as mais sinceras e doridas lágrimas aos pés do divino crucificado, impede-o de chorar por uma criança acusada de 'blasfemar' contra seus pais, ou contra um idoso suspeito de heresia...

As feridas e chagas de um pecador ou herético conduzem-no ao paroxismo do ódio.

Que é a fome, a nudez, a miséria ou a enfermidade para ele em comparação com o pecado ou a heresia?

O que voluntariamente assume até o heroísmo não pode atinar que imposto pela natureza constitua peso para os demais...

E seu sadismo chega a ponto de não compreender que o sofrimento cause sofrimento aos outros, ao invés de delicia-los.

O asceta não pode encarar todos os demais homens ou todos os cristãos senão como ascetas e amantes do sofrimento. Não pode compreender como alguém possa fugir a determinadas situações de sofrimentos, mesmo quando lhe é dado ler no livro santo: Assim fugi de cidade em cidade...

Para ele furtar-se ao sofrimento já é, em si mesmo, um gravíssimo pecado.

O sofrimento deve ser amado e buscado com sofreguidão...

E este homem jamais busca ou buscará remover os sofrimentos do mundo ou transformar este mundo num lugar melhor.

A simples ideia ou pensamento de que o ato gerativo comporte certa medida de deleite ou prazer a que chamamos orgasmo transtorna a mente deste homem devoto.

E ele não pode encarar a sexualidade humana como algo natural ou decente.

Tanto os sentidos quanto o corpo físico se lhe apresentam como obstáculos reais a salvação. Sendo mais aconselhável e seguro nega-los. Pelo que chegamos ao maniqueismo ou ao puritanismo... Ideologias segundo as quais a dimensão sexual do ser humano é sempre suspeita ou menosprezada.

O asceta rebela-se contra tudo quanto seja humano e vital; assim contra a alimentação, a comida, a bebida; mas sobretudo quanto o orgasmo. Aquelas devem ser limitadas ao mínimo possível e este negado... O que só é exequível caso o corpo seja torturado ou sofra.

É necessário torturar o próprio corpo por meio de exercícios ascéticos tendo em vista mante-lo submisso e até onde é possível alheio as necessidades mais básicas, como comida, bebida e orgasmo.

Evidentemente que todo este esforço colossal fazem deste homem um neurótico e infeliz. Triunfa de suas necessidades básicas mas a que preço? A que custo? Ficando sua mente destroçada e sua personalidade destruída.

Eis porque a simples visão da felicidade alheia basta para exaspera-lo.

Este homem morigerado cuja carne de aço e o coração de pedra sente-se vivamente incomodado pela contemplação daqueles que vivem segundo a natureza, demandando alegria e contentamento.

Este homem heroico e atilado não pode suportar a simples ideia de que hajam pessoas de bem com esta vida...

Quer que todos sofram, voluntariamente, ou...

E tem disposição, céus eternos, não a torna-las felizes, mas a faze-las sofrer como ele mesmo sofre. Sem compreender - Ele jamais compreenderá isto - que o sofrimento só possuí algum valor quando livremente assumido, jamais quando imposto pela natureza ou por qualquer outra situação.

Coisa monstruosa e tremenda; o asceta fazendo a volta do parafuso, chega a acalentar um sentido ou sentimento visceralmente anti cristão e anti humano.

O ascetismo desvinculado do amor não poucas vezes assume caráter de puro sadismo. Perde o foco e degenera...

Daí os Torquemadas e Calvinos sempre dispostos a queimar pessoas (!!!) tendo em vista seus pecadilhos sexuais.

Perceba o leitor que eles acreditam ser lícito torturar e cometer assassinato com o objetivo de penalizar os pecados da carne...

E no entanto, a própria lei divina, classifica o assassinato como constituindo o pecado mais grave. Então como é possível punir um pecado mais leve por meio de um pecado mais grave???

Apelando a devassidão alheia eles justificam o supremo pecado, do morticínio. E violam sem maiores cerimônias a lei que julgam honrar...

Evidentemente que eles consideram os pecados sexuais mais graves do que o pecado contra a vida ou o assassinato...

E no entanto, quanta miséria, até mesmo a lei carnal dos antigos judeus condena em primeiro lugar o assassinato.

Curiosa a mentalidade da profanação. Homem algum jamais pretendeu honrar a Deus por meio de seus 'pecadilhos' sexuais, os ascetas e juízes no entanto, acreditam ser possível honrar aquele que decretou: 'Não mataras' matando em seu nome...

É a propósito de tudo isto que vem Svidrigailoff. 
Raskolnikoff e Dounia dedicam-lhe o mais vivo horror pelo simples fato de ser femeeiro ou promíscuo; buscando enredar as mocinhas indefesas em seu laço e desgraça-las.

Acusaram-no de ter assassinado Marfa Petrovna. Sem que no entanto haja qualquer prova neste sentido.

Alias tendo-se endividado e ameaçado pelo credor, foi, por assim dizer 'comprado' por Marfa Petrovna. A qual certamente jamais viera a amar.

Alias a própria Marfa sabendo-se mais velha e conhecendo os ardores do moço, autorizara-o a andar com as camponesas. As quais certamente não podia encarar como ameaçadoras... e a cuja honra ligava muito pouca dignidade.

O homem é isto, devasso, luxurioso, promiscuo, mas... de modo algum hipócrita. Alias é o primeiro a denunciar-se. Não tem a si mesmo em conta demasiado elevada. Sabe que leva vida escandalosa e assume esta vida ao invés de oculta-la, Viciado e vicioso o homem não tenta justificar-se.

Por fim este homem vem a travar conhecimento com a 'virtude', representada por Dounia. A qual além de chama-lo a correção mostra-se intransigente face a suas insinuações e propostas.

Tal a virtude é bela e sedutora. Vindo este homem devasso e promíscuo a amar a irmã de Raskolnikoff. Dirá o leitor que é amor de interesse ou paixão, fogo de palha ou qualquer coisa parecida. Já o veremos...

O fato é que a professorinha provinciana não sai de sua cabeça.

E viúvo parte em seu encalço com destino a S Petersburgo.

Agora que pretende este homem devasso?

Uma aventura, uma noite de amor, um caso, mais um orgasmo ou qualquer outra coisa?

Haverá um sentido de vida nisto aqui? Sim, pois este homem encarado com horror por Dounia e Raskolnikoff é devasso declarado.

Pode portanto haver ou surgir algo de bom em seu coração?

A pergunta é pertinente porque segundo o tribunal dos maniqueus e puritanos este homem é réu do pecado mais abominável e sujo que se pode conceber, a ponto de nada existir de bom ou digno nele.

Veja o caso já citado de Sonia. Basta que tenha vendido seu corpo ou se prostituído para ficar sendo uma perdida, imunda, suja e indigna... A ponto de pessoa alguma, além do 'afetado' Raskolnikoff enxergar algo de bom nela.

Os demais oprimem seus empregados, praticam agiotagem, mentem, convivem lado a lado com a mais extrema miséria, seviciam animais... Sem que apesar disto inspirem repugnância aos bons Cristãos... Como inda hoje a miséria, a fome, a guerra, a injustiça e outros pecados são encarados com suma complacência ou seja como coisa trivial ou comum.

Apenas os 'pecados' sexuais despertam indignação nas pessoas...

É todo um sentido maniqueista ou puritano socialmente compartilhado.

Tudo é permitido exceto os pecados do sexo.

Pelo que Svidrigaliloff fica sendo um pária ou um verme isento de qualquer qualidade ou virtude. Aos olhos do tempo converte-se em alguém essencialmente mau...

E no entanto podendo ter estuprado Dunia este execrável homem permite que a moça se vá embora e escape a suas mãos.

É, como dizem, um devasso, homem desprezível, vil, torpe e hediondo. E no entanto, ao tornar-se consciente de que não era correspondido por aquela que viera a amar e não ousando viola-la, ao invés de ir buscar consolo noutros braços ou num copo de vodka, este homem, esmagado pela desilusão amorosa, põem fim a vida estourando os miolos!

Eis o drama! Este homem, considerado torpe e pervertido, após abster-se de estuprar e bem podendo afogar as magoas num copo de vinho ou nos braços de uma prostituta opta por sair da vida pela porta dos fundos.

É o quanto nos basta para divisar algo de bom nas entranhas de sua alma.

Afinal quantos homens honestos, virtuosos, controlados, morigerados, etc não teriam violado a pobre moça ou qualquer outra por simples crueldade ou vaidade após um saque feito a cidade após uma guerra? Acaso todo os estupradores que se aproveitaram dos saques e guerras no passado eram promíscuos ou devassos??? Temo que não... Há muita maldade oculta por trás da boa aparência, como também há bondade oculta por trás da maldade atribuída pelas homens!

Direi mais e irei ainda mais além.

Quantos homens virtuosos, morigerados e ascéticos tem se mostrado insensíveis face aos clamores dos órfãos, do estrangeiro e da viúva? Mostrando-se incapazes para exercer mínimo ato de caridade, como oferecer um copo d água ou uma códea de pão a quem tenha sede ou fome???

Quantos desses 'santos' segundo as aparências ou desses heróis aplaudidos pelo mundo tem se mostrado insensíveis face aos apelos do Mestre: Tive fome e me destes de comer, tive sede...????

Quantos destes respeitáveis varões não tem sabido ou tem se recusado a servir e amar?

O odiado Svidrigailoff no entanto - Homem corrupto, asqueroso, devasso e pervertido devido a sua incontinência sexual - lega milhares de rublos a três miseráveis órfãos (Os quais do contrário estariam condenados a vegetar pelas ruas da grande cidade), a sua irmã e tutora - Prostituta - e mesmo a seu desafeto Raskolnikoff. Até a um quase inimigo ou inimigo, soube este homem, dissoluto fazer bem.

Dirá o leitor benevolente que não foi por amor as crianças que o homem realizou a citada dotação, e que esperava obter alguma vantagem ou benefício em troca. Mas que vantagem ou benefício poderia obter 'a posteriori' se tinha em mira por fim a própria vida??? Direis que Svidrigailoff teve em mira obter uma boa reputação para sua memória! E no entanto não me parece que tenha feito alarde em torno da dotação concedida...

Muito há que se pensar sobre a referida personagem.

A primeira imagem que me vem a cabeça é a desses beberrões, comilões e devassos sempre disponíveis a identificar-se com o outro e a favorece-lo. A do 'pecador', como dizem, sensível... Em oposição ao 'santo' ou virtuoso insensível, indisponível e que não aprendeu a amar e servir; quando não chega mesmo a ser desumano e cruel, odiando e cometendo crimes em nome de Cristo.

Pensei naqueles que afetam ortodoxia e ascetismo ou heroísmo; sem no entanto chegar a imitação de Cristo... e convivendo, muito folgadamente com a fome, a sede, a nudez, a miséria, a ignorância, a injustiça, etc E naqueles que mostrando certa fraqueza pessoal, assimilaram, a luz do Evangelho a sensibilidade do espírito de Cristo, sabendo-se obrigados a socorrer os desamparados pela sorte e a mitigar seus sofrimentos.

Assim o doutor da lei e levita que passam a largo do homem ferido a beira do caminho e o samaritano - Odiado, proscrito, vicioso... - bondoso, que soube identificar-se com o outro...

Buscando dito ou citação com que arrematar esta reflexão, topei com este:

"Porque a caridade apaga a multidão dos pecados."







terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A alienação carnavalesca

Carnaval 2017




Se carnaval trouxesse algum benefício a sociedade brasileiro, a Globo certamente não apoiava. Pois a Globo só se preocupa com o que dá dinheiro ou trás lucro.

É comemoração mais descaracterizada do que o Natal.

Tendo perdido por completo suas raízes.

Nada mais patético do que relacionar carnaval com africanidade.

Com se lá na África a africanidade consistisse em negras nuas esfregarem-se publicamente com seus parceiros. Ademais onde se dança nu, a nudez encarada com naturalidade faz parte da cultura e a maior parte das danças são sagradas.

Tampouco era assim no Brasil Império, quando lundus e maxixes era dançados em torno das fogueiras junto as senzalas... sem atrizes anencéfalas como 'madrinhas de bateria', consumo de cerveja Z..., 'mulatas' sargentelianas rebolando seminuas, letras homenageando empresas, políticos ou times de futebol, velhos decrépitos babando diante das menininhas da favela, e todo este cenário de ridículo e horror conjugados transmitidos pela globela corporation...

A festa das tais escolas de sambas nas suas passarelas e sambódromos, para o maior gaudio de uma burguesia branca é pura falta de consciência negra e sinônimo de consciência alienada e cooptada que sente-me feliz por durante alguns dias poder desfilar para os brancos. Afinal a maior parte dos brancos da elite jamais consentiriam que suas filhas ou netas expusessem seus dotes publicamente na tal passarela. Que as negras ou 'mulatas' exponham-se para nós...

Jamais a mulher negar foi tão aviltada como no carnaval contemporâneo das tais escolas de samba. Afinal não se trata de expor a nudez com naturalidade no quotidiano, a exemplo das culturas africanas ou de nossos índios, mas de denudar-se durante alguns dias com o objetivo de deslumbrar uma clientela branca. A qual, encerrados os tais festejos carnavalescos, classificara as tais passistas como pervertidas e imorais.

Inclusive num sentido mais lato é o carnaval apoteose da hipocrisia. Onde a mesma sociedade que canoniza uma estrutura familiar abstrata, nega seu próprio corpo e muitas vezes sua sexualidade, durante alguns poucos dias põem em prática tudo quanto considera imoral. E isto sem dúvida é um problema. Porque se temos de aceitar o corpo e a sexualidade é durante os trezentos e sessenta e cinco dias do ano que temos de aceita-los. Agora se temos o corpo por mal e a sexualidade como algo condenável, o carnaval representa uma traição ao ideal.

Emancipar o homem por alguns poucos dias a cada ano para nada presta.

O homem deve viver sua sexualidade, livre, desimpedida e descomplexada; embora num contesto de vida mais amplo e mais rico, ao cabo do ano inteiro.

Exatamente por isso é o carnaval contraproducente.

E moralmente danoso na medida em que aparentemente torna lícito o que é ordinariamente condenável, instilando relativismo moral e hipocrisia na vida social.

No fim das contas tudo isso acaba é fortalecendo a repressão. Pois encerrados os dias da folia todos devem conformar-se com as vidas medíocres que detestam...

No entanto quem fica com a pior parte são sempre os negros ou a mulher negra, que hoje desfila nua e amanhã é classificada como vadia pela mesma sociedade hipócrita e doentia que acabou de aplaudi-la.

Alguns chegam a dizer que a grande oportunidade da negra 'bonita' é ser passista de escola de samba. Como a oportunidade dos meninos e jovens negros mais atilados seria o futebol, i é a ilusão de ser jogador. Lamento por essas meninas e meninos inteligentes e capazes que acabam sendo iludidos e desviados da verdadeira oportunidade que se lhes apresenta, a escola ou o estudo.

Mais do que qualquer outra parcela da população brasileiros os negros é que deveriam valorizar o estudo e pleitear uma vaga na universidade pública. Por cuja manutenção também pagam através dos impostos. Isto sim é índice de consciência e emancipação e não fazer o joguinho da elite branca desfilando para ela no sambódromo...

Distrair ou divertir a elite branca e carrear dinheiro para os empresários milionários jamais será índice de consciência negra. Colaborar servilmente com sistema capitalista de produção jamais será índice de consciência negra.

Imaginem a fortuna que essas escolas de samba não recebem por fora apenas para homenagear esses grã finos engomadinhos, sejam políticos, empresários, artistas ou jogadores... Ou vão me dizer que é pura e simples benemerência??? Tudo isso é feito em troca de um bom patrocínio e eu não acredito que sequer 1 porcento desse valor chegue as mãos das comunidades negras carentes! Fica tudo com meia dúzia de dirigentes... Para os quais evidentemente 'O carnaval é nossa vida, é nossa luz...' posto que vivem dele...

Mas não os músicos e passistas iludidos por tão baixo 'ideal'... Pois acabado o 'fascínio' a vida retoma a triste realidade de quem não tem emprego, estudo, ou chance alguma além de trabalhar carregando caixotes na feira ou como diarista lavando banheiro de branco endinheirado.

Pessoas, essas músicas não são as músicas cantadas pela resistência negra há século e meio... essas danças não são as danças executadas por eles... esse instrumentos não são os empregados por eles... esses trajes ou adereços nada tem a ver com os que eram utilizados por eles... Esse carnaval carioca de passarela vendido pela Globo nada tem a ver com a consciência ou com a resistência negra. É festa de opressores brancos para opressores brancos e festa da opressão, em que os negros são usados pura e simplesmente.

É algo que envolve apenas dinheiro e muito dinheiro. De que as comunidades negras dos morros do Rio não tiram proveito algum. Benefício social algum. Tudo quanto essas Escolas fazem tem por objetivo perpetuar essa cultura ou tradição servil, cujo objetivo é dançar para os brancos, em especial pelos estrangeiros.

Veja, os negros podem sambar nus, são livre e respeitados!

Só que não...

É apenas fantasia para inglês ver.

O carnaval ancestral, de raiz e relacionado com a resistência africana esta morto e bem morto há décadas... E por questão de coerência era bom ressuscita-lo.

Que dizer agora do carnaval de tradição européia com seus blocos e marchinhas?

De modo geral também perdeu muito de sua originalidade ancestral.

E até os pierrots e colombinas foram substituídos por super heróis importados dos estados unidos... a cuja perniciosa influência nada escapa neste país.

Por outro lado converteu-se também ele, especialmente nos clubes, numa festa sexual em que tudo é permitido. Como já dissemos é o tributo que se paga a hipocrisia maniqueista/puritana.

Carnaval tornou-se ainda sinônimo de embriagues... E as cervejarias agradecem.

Deveríamos beber sem afetação, com naturalidade e equilíbrio.

Mas carnaval é época de destempero.

Há ainda o problema da violência e das brigas, pois as pessoas estão cada vez mais agressivas, e mais agressivas ficam ainda quando bebem ou quando estão no cio...

Tornando-se o Carnaval de hoje, talvez mais do que nunca, copiosa fonte de agressões, conflitos, mal entendidos, e consequentemente de mortes inclusive.

O próprio barulho excessivo, insuperável no tempo das caixas de som, colabora para criar uma atmosfera totalmente irracional, frenética e emocionalista em que os piores instintos, como o de agressão, acabam aflorando. O barulho torna as pessoas ainda mais nervosas interagindo com o alcool e potencializando atritos.

A crítica aqui vale para todos os tipos de música e para todos os ritmos, inclusive para a música pseudo religiosa que já aderiu as caixas de som e baterias, ou seja, a cultura do barulho.

O carnaval é o máximo exponencial (Mas não o único) dessa cultura neurótica.

Efetivamente o barulho é uma das melhores formas de deseducar e barbarizar uma alma qualquer. Nem barulho faz bem, nem o bem faz barulho pois o barulho é fuga do mundo e de si mesmo.

Por todos estes motivos todos também a folia 'lusitana' perdeu por completo sua razão de ser.

O Carnaval correspondia a uma função social quando os reis, senhores, déspotas, tiranos, ditadores, juízes e carrascos controlavam a sociedade com mão de ferro imponto o maniqueísmo como lei e oprimindo as consciências. Numa sociedade autoritária e inimiga dos prazeres havia de ter uma válvula de escape e esta eram os tais festejos carnavalescos, ocasião em que a moralidade vigente tornava-se mais lassa. Para os oprimidos do passado, para os servos, escravos e explorados carnaval era momento de descontração. Após o que, tornavam a conformar-se com o estado de vida que lhes era dado ou imposto pela Sociedade igualzinho os negros das escolas de samba.

Tratava-se portanto de uma estratégia destinada a perpetuar a dominação e o controle nos termos dos senhores.

Eram dias de tolerância em meio a uma sociedade totalitária ou autocrática e portanto correspondiam a uma função.

Nós no entanto que vivemos numa sociedade ao menos formalmente democrática em que podemos definir nossos gostos, que temos acesso a certas formas de distração, que fazemos jus a certos dias de repouso, que não temos mais nossas vidas completamente decididas e controladas por outros, precisamos de carnaval?

Claro que precisamos do descanso propiciado pelo feriado. Sem dúvida.

Mas será que precisamos de desfiles desses desfiles de escolas de samba com todo seu servilismo e hipocrisia ou mesmo de pular e saltar num salão?

Acho que o carnaval podia ser bem melhor aproveitado no cinema, no teatro, num museu, numa exposição... ou mesmo em casa ouvido boa música, lendo um bom livro, estudando, curtindo a família, cozinhando, visitando alguém, etc Há tantas maneiras de aproveitar-se um feriado com inteligência.

Então para que dispersar a si mesmo com risco da própria integridade física?

Compreendo que os pequenos tenham certo fascínio pelo carnaval, é perfeitamente compreensível e faz parte da idade.

Compreende-se que as crianças pulem ou brinquem o carnaval. O qual sempre pode ser organizado em casa com fantasias tradicionais (pierrot, colombina, bruxa, vampiro, pirata, etc) e marchinhas tradicionais, entrando comes e bebes inclusive, doces, refrescos etc Um carnaval saudável também pode ser organizado no condomínio, no prédio ou mesmo entre um grupo de famílias amigas. Importa fugir a ambos os extremos: prestigiar o carnaval imposto pela Globo, festa duma elite branca degenerada e de negros sem consciência e proibir as criança de brinca-lo ou o que é pior e mais danoso, envia-las aos execráveis retiros religiosos com sua cultura sagrada do barulho...

No caso dos pequenos é sempre melhor, sendo possível, criar uma atmosfera honesta, acolhedora e familiar em que possam brincar o carnaval com os amiguinhos.

E os adultos podem também brincar esse tipo de carnaval?

Penso que cada pessoa deva responder por si mesma segundo suas necessidades lúdicas ou afetivas. Pessoas há que não tiveram infância ou cujos pais, fanáticos religiosos, proibiam-nas de brincar e de pular carnaval. Neste caso é perfeitamente compreensível que desejem brincar com os filhos e netos, ou mesmo participar da folia em pleno sentido da palavra. Tais as péssimas consequências produzidas por uma educação ditada pelo fanatismo religioso. Outros talvez tenham mesmo um caráter mais extrovertido e por isso sejam atraídos por tais folguedos... Todas as coisas são boas desde que usadas com moderação.

Acho supimpa ouvir marchinhas antigas e das umas cabrioladas pela casa, mas não é coisa que absorva-me a vida ou que constitua a razão do viver... O problema como já disse consiste justamente nessa ilusão de viver para o carnaval ou para a passarela, ignorando que o Carnaval seja provisório ou episódico e que a vida seja bem mais complexa.

Há coisas mais importantes e elevadas da que devotar a vida.

O que quero dizer é que a vida não é sambodromo ou passarela dada graciosamente por brancos, mas na maioria dos casos um calvário. Calvário da falta de leitos nos hospitais, calvário da falta de vagas nas escolas, calvário da falta de meios de transporte, calvário da violência, calvário da droga...

E aqui a mística do samba pode ser tão danosa quanto a mística das seitas religiosas, perpetuando cada um destes calvários contra os quais as consciências todas deveriam lutar.

O mundo vendido pela rede Globo é tão real quanto suas novelas de época ou ficção. É um carnaval perpétuo, mas isto não existe.

O carnaval só se torna perpétuo para os dirigentes espertos das grandes escolas que recebem subsídios da globo, do governo, das empresas e dos particulares que desejam ser reverenciados. Mas você negro pobre e negra pobre jamais verão esse dinheiro.

Então comecem a tomar consciência, a estudar e a prepararem-se para a Universidade, conselho de educador branco!

O recado tá dado e repito o que foi dito, no ano de 2017 não acho que qualquer tipo de carnaval seja necessário.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Religiões: Sintomas de vida e morte... A agonia do Cristianismo e o fim da civilização humanista - Conclusão

Há mais de século tem o liberalismo moral Católico pugnado heroicamente contra o moralismo puritano assumido pela igreja. Juntamente com o liberalismo moral protestante tem suportado o repuxo das seitas bíblico puritanas. Tem assistido inclusive a formação de um moralismo difuso de origem naturalista ou secular. Em termos de convergência o liberalismo moral Cristã tem enfrentando uma reação sem precedentes.

É todo um esforço consciente ou inconsciente no sentido de identificar o Cristianismo com o moralismo e apresenta-lo como um sistema repressor destinado a policiar a sociedade e manter a 'ordem' estabelecida em termos de costumes.

A todo instante o moralismo lança seus ataques contra aqueles que tiveram a audácia ou a coragem de rebelar-se buscando desacredita-los e apresenta-los como não cristãos. Neste sentido contam igualmente com a solidariedade dos neo ateus, materialistas e incrédulos, os quais não esforçam-se menos para apresentar os cristãos anti maniqueus ou anti puritanos como ingênuos e incoerentes.

O resultado desta campanha é um esvaziamento progressivo em termos de número por parte do liberalismo moral.

Especialmente em seus principais centros que são a Europa e o Norte dos Estados Unidos. Isto porque o liberalismo moral encontra-se na dependência de uma cultura teológica elevada e esta na dependência do grau de instrução vigente numa determinada sociedade, noutras palavras do refinamento cultural.

Em certo sentido o liberalismo moral tem sido reforçado por uma posse tradicional da cultura cristã e por uma reflexão levada a cabo por sucessivas gerações. Tira suas forças dum processo histórico e experiencial que demanda tempo. Não é algo que surge do nada ou de improviso.

Dai sua ocorrência e predominância em centros tradicionalmente nimbados pela cultura Cristã há séculos ou milênios.

No entanto como após o abandono das formas litúrgicas e a deterioração da teologia a passagem dessas populações - pressionadas pelo moralismo 'Cristão' - para a incredulidade e para o materialismo tem sido cada vez mair rápida podemos observar uma defasagem cada vez maior do liberalismo Católico face as aspirações puritanas.

O que estamos assistindo no dealbar do século XXI é justamente a afirmação de um 'romanismo' ou papismo cada vez mais conservador, maniqueísta, moralista, puritano e intragável; ao menos para as populações esclarecidas do Norte.

De minha parte não desespero quanto a reconquista das populações do hemisfério Norte pela cultura Católica, desde que sejam satisfeitos os seguintes requisitos:

  • A restauração das antigas formas de culto (como expressão de contra cultura anti americanista) pré tridentinas, tridentinas, etc 
  • A adoção de uma teologia objetiva, sóbria, refinada, etc sob o influxo direto dos padres da igreja, especialmente dos padres gregos, e a consequente revisão de certos pontos quais sejam:
  1. O infernismo ou a doutrina das penas eternas
  2. O agostinianismo ou doutrina do pecado original e depravação total com todas as suas decorrências
  3. A monarquia papal ou infalibilismo
  • A superação do padrão maniqueista/puritano

Este último item é de importância capital tendo em vista suas ilações práticas.

Os ocidentais mais instruídos sempre serão capazes de assumir a ética do Evangelho e sua moral sumária em torno do Decálogo ou do Sermão do Monte.

No entanto jamais virão a abraçar, ao menos enquanto Sociedade, os modos de vida de um Moisés ou de um Calvino mesmo quando apresentados e impostos em nome do Cristo. O Cristo será sucessivamente repudiado e combatido porquanto estes fardos esmagadores não pertencem a ele.

Foi a imposição deste padrão estreito e irracional que tornou o nome de Cristo odiado por parte da população Ocidental determinando o esvaziamento paulatino da religião Cristã.

Assim o ponto de partida para a recristianização da Europa contemporânea deverá ser a revisão daquilo que chamamos moral Cristã.

Diria que é chegada a hora. Pois enquanto há vida (espiritual inclusive) há esperança, de abandonarmos os fundamentos primitivos e ultrapassados da moral judaica - enquanto puro e simples resíduo cultural - e elaborar uma moral 100% Cristã fundamentada no Evangelho ou seja nas palavras e ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. É o único caminho viável para a Cristandade futura mas implicará romper com o padrão maniqueísta ou puritano pelo simples fato de não esta fundamentado no Evangelho.

Quanto mais os líderes Cristãos insistirem em afirmar e impor os elementos da cultura proto israelítica e das tradições rabínicas ao povo de Jesus Cristo mais fortalecida saíra a incredulidade na medida em que a instrução avançar.

No entanto o cenário que estende-se diante dos papistas não é nada bom.

Uma vez que suas hostes avançam cada vez mais na África e na Ásia, além de conservarem-se ainda na América. Culturalmente falando a África é um celeiro de conservadorismo moral pelo simples fato de que a maior parte de suas sociedades, em maior ou menor grau, sofreu certa influência por parte do islã. Os africanos que aderem já crescidos ou adultos a fé Católica trazem para dentro da igreja sua moralidade e esta moralidade é quase sempre uma moralidade maniqueísta e puritana que ao menos em parte toca ao islã. Quando o Cristianismo atinge as tribos mais afastadas a moralidade livre e natural dos ancestrais extinguiu-se já devido a pressão social externamente exercida pelos povos arabizados.

A vida do islã e seus ideais de estrita moralidade alastram-se com mais rapidez do que a fé muçulmana e ao cabo deste roteiro vem desaguar na Igreja romana, islamizando-a a partir das igrejas locais existentes na África. Disto resulta a posição ultra conservadora assumida pelos cleros africanos (alto e baixo) em torno dos temas familiares e sexuais. Em tais tradições particulares de origem recente machismo, adultismo e homofobia são como que palavras de ordem.

Esta visão é completada entre eles pela teologia calvinista do Corão Cristão. Para as Cristandades do terceiro mundo a abordagem da cultura parece não fazer qualquer sentido... E seus Bispos e Padres continuam citando Paulo ou o que é pior a Torá como se fossem palavras de Jesus. Para eles a moralidade protestante ou muçulmana equivale a palavra de Deus! Não, eles não estão a altura do centralismo evangélico ou da soberania Evangélica, por simples questão de educação. A cultura em que estão inseridos não lhes permite compreender a realidade cultural da 'Escritura' em termos de variedade e complexidade. Ali tudo se resolve em termos de inspiração plenária ou linear e duma moralidade puritana, de que os africanos fazem-se campeões.

Outra não é a realidade de certas Sociedades asiáticas tradicionais como a chinesa e a nipônica com suas tradições igualmente patriarcais, machistas, adultistas, etc Que eles folgam ver reproduzidas na Tanak dos judeus e buscam reforçar quando aderem aos padrões católicos reforçando a reação moralista. Tal a perspectiva dos Cristãos indianos, que por rancor ou ódio, criaram uma moral de oposição marcada ao hinduísmo e portanto fortemente maniqueista, puritana e repressora.

Tal a situação alarmante em que se acham as freguesias 'Católicas' orientais, que a partir de tais posicionamentos, não podem deixar de encarar os diversos graus de liberalismo moral presentes nos Catolicismos ocidentais como uma 'heresia' formulada por homens brancos contaminados ao menos em parte pelo materialismo e o ateísmo. Entre as Cristandades niponizadas e islamizadas o liberalismo moral parece ser sempre índice de incredulidade.

Na medida em que o romanismo cresce em tais regiões sou levado a temer que se torne mais e mais conservador em termos de moral, interrompendo sua evolução e vindo a somar forças com o fundamentalismo protestante e o islamismo tendo em vista a afirmação de uma moral maniqueísta e autoritária. Ele tem diante dos olhos o luminoso exemplo do anglicanismo, do espiritismo, do budismo, etc No sentido de reconciliar-se com o corpo, a sexualidade, a vida, a ciência, etc E o triste exemplo das massas cooptadas e escravizadas pelo pentecostalismo e o islamismo...

Qual direção haverá de tomar???

Fica difícil calcular...

No entanto seja qual for ela não poderá deixar de influir poderosamente sobre diversas Sociedades.

Por isso esperamos que a igreja romana afaste-se cada vez mais do moralismo e do puritanismo, assumindo posicionamentos cada vez mais humanos, ditados pelo Evangelho de Cristo e pela rica experiencialidade presente em sua consciência histórica.

Expulsar o moralismo farisaico do corpo físico e visível da igreja histórica, tal o exorcismo que precisamos!

Que vá de retro o espírito essencialmente maligno do maniqueismo, pelo simples fato de apresentar como mau aquilo que esta em Deus porque Deus quis chamar a existência. 

sábado, 31 de dezembro de 2016

Religiões: Sintomas de vida e morte... A agonia do Cristianismo e o fim da civilização humanista II







No entanto como disséramos, nem sempre fora assim.

A respeito da moralidade conjugal por exemplo, indicamos a título de leitura as obras de Charboneau (Pe) e do consagrado literato Morris West.

Apenas para resumir direi que a igreja antiga tolerou o concubinato, concedeu carta de divórcio sem maiores dificuldades, considerou o abandono no lar como equivalente a dissolução do vínculo... Já o ocidente medieval foi conivente com a masturbação (Pedro Damião foi o primeiro a condena-la no século XI), tolerou quando não incentivou - em algumas sociedades - o sexo antes do casamento, admitiu que o sexo oral enquanto preparativo para o coito não era pecaminoso, etc cf John Boswell "Cristianismo, tolerância social e homossexualidade" 1980)

Tovadia na medida em que um número cada vez maior de homens era forçado a abraçar o monacato contra a própria vontade, multiplicavam-se tanto os atos de masturbação, quanto os de homossexualismo e pederastia, o que naquele contexto implicava pecado de infidelidade. Na medida em que o Império romano esboroava-se e que bárbaros teutônicos e jihadistas muçulmanos massacravam os soldados e destruiam as cidades, certo número de homens espertos era levado a buscar paz e segurança nas comunidades monásticas. Nas quais havia relativa imunidade, comida, sossego... mas não mulheres. O que levava os não vocacionados e oportunistas a 'pecar' contra a castidade. Não porque a sexualidade fosse encarada como má, mas porque tais pessoas havia feito voto a Deus.

Tendo em vista o saneamento de tais males a igreja optou por recrudescer sua posição levando tais condenações, sobre matéria sexual, até os leigos. Pois se conseguisse disciplinar os leigos e afasta-los de certas práticas sexuais até então autorizadas ficaria mais fácil obter candidatos sóbrios e disciplinados para o monacato. Esta decisão implicava, ao menos até certo ponto, em 'monacalizar' a sociedade profana. Inaugurando um novo ethos sexual, um ethos repressor.

Portanto a adoção de normas sexuais mais rígidas por parte da Igreja decorreu não de ilações teológicas mas duma realidade social externa a si. Da dissolução das estruturas sociais, inclusive da própria família e duma situação de agitação e angústia que estavam empurrando as massas sem perspectiva para as organizações monacais, do que resultará o declínio do ideal e sucessivas crises de identidade. Pois parte daqueles homens e mulheres estava adotando um tipo de vida para o qual não tinham a mínima aptidão, um tipo de vida superficial e aparente, enfim um tipo de vida assumido não por amor mas por cálculo.

Em seus estertores finais parte da Sociedade antiga internou-se nos mosteiros pondo em perigo a velha e consagrada disciplina. Diante disto a igreja optou pelo contra ataque e de fato revidou tornando bem mais rígido o código sexual vigente e assumindo uma perspectiva cada vez mais puritana.

Parte dos leigos no entanto, jamais se deixou colonizar e resistiu ao cabo dos séculos.

Tal o caso do Ocidente ou da igreja latina.

Parte daquela sociedade, herdeira da cultura greco romana, mostrou-se infensa e irredutível face as condenações da igreja.

E por conta das profissões religiosas meramente formais ou forçadas a 'imoralidade' por assim dizer, apossou-se cada vez mais das 'casas de Deus'. Em que pesem as ameaças e maldições do alto clero parte da sociedade medieval continuou a encarar a sexualidade sob uma perspectiva puramente natural e a transar tal e qual seus ancestrais.

Pelo século XV desta Era não era apenas a maior parte da sociedade ocidental, mas parte considerável do clero ocidental que se entregava sem maiores escrúpulos as delícias da carne e dir-se-ia que a igreja romana fora cooptada e vencida pelo orgasmo. No entanto aquela mesma sociedade achava-se fragmentada e havia - enquistado nela - um setor poderosamente influenciado pelo judaísmo antigo e pelo maniqueísmo representados pelo Bispo Agostinho. Este setor encarava a outra parte da sociedade como pervertida e a igreja como corrupta, mas estava determinado a redimi-las, restaurando (???) a boa e velha disciplina e retomando o ideal de monacalizar a sociedade.

Foi este setor que alimentou e apoiou a revolução protestante e como já dissemos, esta tendência corporificou-se na pessoa do teólogo francês João Calvino.

Ocioso seria discorrer aqui sobre a disciplina imposta por Calvino aos infelizes genebrinos. Ali tudo era definido em termos de sobriedade: música, dança, comida, bebida, traje, vocabulário, sexualidade, etc Ao invés do Catolicismo ter se encarnado neste mundo pela implantação do amor, da bondade, da justiça, da solidariedade, a tolerância, da paz, etc o que se encarnou em nome do Cristo, na Genebra do século XVI, foi o espírito do farisaismo nos mesmos termos em que a sharia dos muçulmanos. Cf Zweig 'Uma consciência contra a violência' e Pierre van Paasen 'Nestes tristes dias' 

Nem precisamos dizer que a igreja romana, muito mal avisada, foi no reboque.

Afinal Calvino não cessava por um instante seque - exatamente como nossos sectários - de apelas aos escritos dos antigos judeus ou ao que chamava de 'Bíblia'. O que conferia certo prestígio a sua cruzada moralista, mesmo entre os Católicos...

Ao fim deste tenebroso caminho a igreja romana apresentou mais uma vez ainda o maniqueismo e o puritanismo em termos metafísicos e essencialistas e revestiu-os com um aparato dogmático que chegou a causar inveja nos setores mais obscuros do protestantismo, uma vez que este sistema, marcado pelo livre exame, não se revelava suficientemente impermeável e eficaz entre os europeus. Possibilitando sempre uma outra interpretação tanto mais suave ou mesmo liberal. A igreja romana por instinto refugiou-se mais e mais na cova do moralismo a ponto de apresentar-se como sua campeã e redentora da sociedade européia, sem imaginar que estava a tragar veneno e a suicidar-se espiritualmente.

A igreja romana assumiu uma causa que não era sua e tornou-se odiada, enquanto parte do protestantismo conseguiu manter seus 'créditos'.

No entanto desde as primeiras décadas do século passado assomaram lá na Europa católica certas vozes discordantes, as quais jamais puderam ser caladas e tornaram-se cada vez mais fortes, até formarem, mais uma vez, um setor, o setor do liberalismo moral. Em maior ou menor medida parte dos católicos mais esclarecidos acabaram assimilando as opiniões de S Freud e numa perspectiva teológica semi liberal e ao mesmo tempo sociológica puseram-se a denunciar a judaização da fé e o agostinianismo como equívocos.

Tanto na Europa quanto nos EUA este setor tornou-se emblemático justamente por trazer em seu bojo o pressuposto a ideia de que a cultura judaica - ao menos em seu todo - não é sagrada e por colocar em cheque a querida teoria da inspiração plenária ou linear com sua imagem artificial de um 'Corão Cristão'. Em certo sentido os Críticos da moralismo tendem a questionar mais e mais os posicionamentos dos profetas, de Paulo, de Agostinho, etc e a fixar seu ideal de moralidade no Evangelho ou seja nas palavras de Jesus Cristo autor da fé e fundador da Igreja. Implica isto uma compreensão correta ou exata de cultura...

No entanto semelhante tipo de compreensão não é nem poderia ser comum a toda Igreja e a uma igreja gigantesca somo a igreja romana (podemos dizer o mesmo das igrejas Ortodoxa e anglicana). Pois esta sempre na dependência da instrução e do esclarecimento.

Eis porque a afirmação dos romanismos (e mesmo dos Catolicismos!) latino americano, africano e asiático e o declínio dos romanismos europeu e norte americano colocam em situação de risco o setor do liberalismo moral e a própria tradição legítima da igreja, ora ignorada por seus próprios filhos e substituída por um ethos de origem protestante ou calvinista.

Agora para compreender-mos o que tem acontecido e poderá acontecer com a igreja romana de amanhã, devemos considerar historicamente a Igreja Católica Ortodoxa e sua relação com o mundo islâmico. Em termos de dinamismo cultural essa análise é não apenas esclarecedora mas fundamental.

Antes de abordar esta passagem cultural feita pela Ortodoxia gostaria de enfatizar, ainda mais uma vez, o caráter liberal da modalidade cristã bizantina e não encontro exemplo mais do que a Instituição da Adelphopoeisis (apud Boswell "Casamentos de semelhança ou uniões entre pessoas do mesmo sexo na Europa pré moderna" 1994 ingl). Boswell era filólogo e poliglota conhecedor de dezessete linguas e Católico praticamente de missa diária. Ademais seus argumentos a respeito da relação amorosa existente entre os soldados e mártires S Sarkis e S Bacus é perfeitamente aceitável se considerarmos que os antigos hagiógrafos descrevem-nos como Erastai o que nos remete em termos clássicos a efebia.

Da mesma maneira a instituição tradicional dos validos eunucos foi tolerada durante todos século IV e por quase cem anos após o édito de Milão. Havendo quem diga que sua condenação e a primeira condenação oficial da homossexualidade pela igreja - datada de 390 - deve-se antes de tudo ao apoio dado pelos eunucos a causa ariana. O que nada teria a ver com a malignidade essencial do homo erotismo. De fato um dos principais esteios do arianismo foi Eusébio, eunuco de Constantino e mordomo da porta do palácio imperial. cf S Atanasio, Escritos

Sem embargo disto a Adelphopoeisis chegou sem maiores problemas ao século XIX. Quiçá 'purificada' de seu aspecto sexual.

Enquanto a moralidade Ortodoxa passava por sucessivas e drásticas transformações, ficando por assim dizer 'islamizada'.

Importante compreender que religião alguma é impermeável a influência das demais. Assim como o Romanismo hodierno protestantizou-se, houve situações em que islamizou-se tal como o Catolicismo Ortodoxo. O que poderá repetir-se!

Não foi sem maiores razões que o fenômeno da Inquisição espanhola, foi atribuída tanto a judaização ou ao influxo do antigo testamento no contesto Cristão, quanto a influência do islã com sua murtad e sua jihad. Instituições assimiladas e canonizadas pelo romanismo espanhol.

O próprio espírito das Cruzadas fugindo ao aspecto defensivo - numa perspectiva social e política - que o gestará e por assim fizer degenerando também deve ter contribuído a sua parte. No entanto todas essas relações culturais em torno da violência e a agressão remetem necessariamente ao islã. Embora tenham sido alimentadas ou endossadas pela leitura dos escritos judaico 'cristãos'.

No entanto esclareçamos previamente que seja islamizar.

Islamizar é o mesmo que judaizar, i é, manter a fé cristã ou mesmo Católica e assumir costumes ou modos de vida judaicos ou muçulmanos.

O que até certo ponto é perfeitamente possível ou lícito. Exceto quanto a alguns aspectos da Ética a fé Católica não proíbe ou sequer condena a adoção da cultura judaica ou da cultura árabe muçulmana bem como de qualquer outra cultura no plano da natureza. Herética seria a afirmação de que tal gênero de vida seja superior aos modos de vida dos demais fiéis. Não havendo tal pressuposição sempre seria lícito ao Católico adaptar-se socialmente, especialmente quando pressionado.

Tal o caminho trilhado primeiramente pela Ortodoxia.

Por isso que diversas de nossas igrejas ortodoxas> Siríaca, Assíria, Copta ou mesmo Bizantinas islamizaram-se ou arabizaram-se em maior ou menor grau. Tais Cristandades mantiveram a fé imaculada e o rigor teológico, assumiram no entanto uma moralidade muçulmana e consequentemente maniqueísta, puritana, machista e homofóbica...

No entanto tais valores não são legitimamente Cristãos ou autênticos.

É a vida vivida por esses grupos Cristãos muçulmana, e a custa de adaptarem-se vivem já sob uma meia sharia, que é uma introdução a sharia.

Mantiveram a fé apenas mas não o sentido completo ou espírito da vida Cristã e incorporaram diversos preconceitos pertencentes aos padrões semitas de cultura.

Assim como já vivem parte do islã, fica fácil para eles trocar uma teoria por outra e assumir 'in totum' a crença maometana

Passam aqueles Cristãos em maior ou menor número ao islã e apostatam justamente porque suas vidas são já em parte reguladas por aquela crença e envenenadas pelo espírito da transcendência absoluta e do moralismo.

E não há como negar que sejam meio muçulmanos, apesar da fé.

Como há no Ocidente os sectários judaizantes por causa da Bíblia.

Grosso modo podemos dizer que quando a fé não da sentido da vida e não é vivida morre.

Morre entre os papistas protestantizados e entre os Ortodoxos islamizados!

Até extinguir-se por completo.

Por outro lado a vivência do Cristianismo integral, com sua Ética revolucionária, seria utopia e absolutamente impossível numa Sociedade islâmica.

Na medida em que suscitaria o ódio dos muçulmanos e determinaria sua aniquilação.

Alias norma e regra é não chocar os agarenos, e portanto...

A assimilação torna-se absolutamente necessária.

E de tal modo se concretiza que a existência de minorias cristãs nos países muçulmanos passa desapercebida aos olhos dos próprios cristãos que porventura la estejam.

A sombra do islã converteu-se a fé Ortodoxa noutro sistema de moral estreita, arbitrária, conservadora ou moralista, e até hoje tem sérios problemas para lidar com isto e não consegue superar este modelo acanhado e mesquinho mesmo quando inserida em alguma sociedade Ocidental. Dir-se-ia que o ethos islâmico criou raízes na Ortodoxia e que isto e simplesmente monstruoso.

Tal o dilema> O romanismo no Ocidente protestantiza (e consequentemente judaíza) enquanto no Oriente a fé Ortodoxa islamiza... predispondo-se a morte.


Continua

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Religiões: Sintomas de vida e morte... A agonia do Cristianismo e o fim da civilização humanista I

Definições necessárias:

  1. Maniqueísmo: Ideologia que encara negativamente a matéria, o corpo, a nudez e a sexualidade.
  2. Moralismo: Ideologia que coloca a moral, ou os costumes individuais, acima de tudo.
  3. Puritanismo: Moralismo exacerbado.

Moralmente falando o Catolicismo jamais foi uniforme. Destarte podemos dizer que ao menos em parte não era um sistema moralista ou de moralidade estreita. Embora nele houvessem moralistas e um setor moralista. No entanto até e dealbar da Reforma protestante este setor moralista enquistado no Catolicismo não foi hegemônico.

A crítica posta pela reforma protestante no entanto foi em grande parte moralista e moralizadora.

Paradoxalmente nem Lutero nem Zwinglio eram moralistas. Lutero por sinal como 'solifideista' era anti nomiasta e contrário a própria lei moral, bem como a vida ética. Ao menos não salientava a existência de quaisquer vínculos essenciais entre religião e virtude e afirmava um salvação no pecado, jamais do pecado.

A maior parte da reforma no entanto segui a opinião, tanto mais saudável, de João Calvino o qual não só era moralista ou melhor puritano, como buscava a fontes de sua moralidade na cultura judaica ou seja na Tanak ou na Torá, do que resultou uma moralidade sectária e judaizante até o legalismo. E todo conteúdo dessa reformação lança raízes no terreno do maniqueísmo.

Nesta perspectiva eram os Católicos de modo geral, e em especial aqueles cujos costumes eram ainda medievais, encarados como mundanos e permissivistas pelo simples fato de beberem sobriamente, de ouvir música, de dançar, de praticar algum esporte, de vestir roupas consideradas demasiado 'curtas' ou coloridas, etc

E ai no calvinismo damos com as fontes do farisaísmo pentecostal e desta religiosidade externa cujo foco é a comida, a bebida, a sexualidade, o traje, etc

Agora se contemplamos atentamente a situação da igreja romana percebemos que desde os séculos XVIII e XIX, e mais ainda hoje, a balança vem pendendo para o lado do moralismo.

Pelo que temos de nos perguntar: Será isto bom???

Em termos de História e Sociologia a resposta já esta formulada: O florescimento ou assunção de uma religião qualquer da-se em termos teológicos ou especulativos e seu declínio e morte em termos de moralismo.

A igreja romana foi teológica no primeiro milênio desta era enquanto parcela do Catolicismo Ortodoxo e ainda após o cisma, durante quase toda Idade Média e mesmo alguns séculos após o advento da reforma justamente devido a polêmica travada com os protestantes. No entanto após o Concílio do Vaticano II optou por mergulhar ainda mais no pântano do moralismo... Desde então sua teologia entrou em crise ou eclipse e o moralismo assomou em todos os setores em que pese a resistência e a atuação de um setor marcadamente liberal.

E com que guarra os Católicos afetando lemingues cerram as fileiras do moralismo insípido de par com os ministros protestantes!

De fato eles não são capazes de perceber que esse reducionismo moralista implica o empobrecimento da religiosidade e sua destruição. E concentrando-se apenas na vontade, bem ao sabor do agostinianismo, vemos que o papismo abandonou por completo os setores do intelecto e da estética... bem como o da ética ou da doutrina social. Deixou de ser espírito e vida para converter-se em receita de bolo comportamental...

Falaciosa é a interpretação tradicional que apresenta a 'contra reforma' como um movimento de oposição ao espírito protestante, quando foi no mínimo um movimento de conciliação. A maior parte dos Católicos confrontados com a metralhadora bíblica do protestantismo (mosaica e paulinista) não tardaram por entrar em crise e fazer um dramático 'mea culpa'. Sob um dilúvio de citações imbecis tomadas a Torá chegaram a ponto de reconhecer que seus ancestrais não passavam de uns vis depravados.

E assumiram uma 'reformação moral' na perspectiva dos maniqueus e puritanos. Tal a perspectiva de Trento, da qual o papismo jamais viria a afastar-se nos quatro séculos subsequentes. Foi um acolhimento receptivo da crítica protestante e uma incorporação atenuada de princípios protestantes. Tal o motor da moralização que se seguiu. E a orientação foi o abandono das alegrias mais inocentes relacionadas com os sentidos, a ocultação do corpo e a adoção de um código sexual cada vez mais exato e estreito.

Desde então o papismo passou a insistir obstinada e desastrosamente em temos como: a perenidade do matrimônio, o patriarcado masculino, a monogamia, a heteronormatividade, a vinculação prazer sexual - procriação, a separação dos sexos na sociedade, a adoção de figurinos ou trajes 'sóbrios', a condenação sistemática da gula e da embriagues, a 'satanização' da música profana bem como das danças... O que de algum modo remete-nos a 'santa Genebra' do assassino e ditador Calvino com as centenas de leis, normas, regras e dispositivos de controle postos para a uniformização do comportamento externo, e consequentemente para a criação ou reprodução de cópias humanas.

Surpreende-nos que o papismo tenha engolido esta isca feita com confeitos tomados ao judaismo antigo e lançada pelo reformador francês. A bem da verdade os católicos não apenas engoliram como degustaram o confeito calvinista até o deleite...

Por volta do século XIX a igreja romana era uma instituição marcadamente puritana e os liberais em matéria de moralidade um seleto grupo de rebelados mantidos sob vigilância. No entanto ainda havia alguma vida teológica. Porque ao menos no setor doutrinal e ritual havia oposição face ao protestantismo. O puritanismo no entanto é sempre conciliador, de modo que sem perceber a igreja romana foi engolindo mais e mais linha até aproximar-se mais e mais do protestantismo e assimilar outros tantos princípios e valores seus. E aqui esta a fonte do relativismo ecumênico, da RCC e de todas as sucessivas desgraças que abateram a infeliz igreja romana.

A porta de entrada de todas as bruxas foi a absorção do moralismo puritano. Não foi em vão que a igreja romana converteu-se em baluarte da causa no século XIX e numa Colônia do protestantismo cem anos depois (1960). A maior parte dos Católicos assumiu um sentimento de culpa que não era seu e desde então, ao menos inconscientemente, passou a admitir que de certo modo ou de certa forma - por ter provocado a contra reforma e a reformação moral - que a Reforma protestante havia salvo a Igreja romana (!!!). Surpreendente conclusão!

Agora se é mesmo assim por que vossos papas não canonizaram os reformadores ou melhor os salvadores da Igreja ao invés de terem-nos excomungado e anatematizado???

Aqui os Papa infalíveis não tiveram gota ou pingo de bom senso ao excomungar homens providenciais, digo os heroicos reformadores...

Então eles vieram prestar bons serviços a igreja demolindo toda sua vida sacramental e o culto mariano???

Mas quem é que ensinou os neo Católicos que uma mesma fonte pode deitar água doce e salobra ou que uma mesma árvore pode dar figos e espinhos???

Perceba-se a que situação vexatória o moralismo conduziu a antiga igreja romana???

E ela não pode sair deste abismo hiante porque mesmo os decantados tradicionalistas assumiram no mais alto grau este ideário protestante, post reformado, moralista e puritano...

E como a igreja assume padrão de autoridade, veio o moralismo a tornar-se legal ou a institucionalizar-se. Desde então a resistência liberal adquiriu 'status' de marginalidade.

Curiosamente tal não se deu no seio da corrente rival, o protestantismo. Ja por ser um sistema subjetivista e individualista. O que possibilitou a sobrevivência da tradição luterana ou antinomiasta em alguns setores e diversas tentativas de conciliação entre a fé e a moralidade natural contemporânea, ao menos na Europa e EUA. No protestantismo, devido ao livre examinismo, tais setores não ficaram marginalizados.

Na igreja romana, desastrosamente, a emenda saiu pior do que o soneto pelo simples fato de não oferecer outras opções de 'moralidade' como o protestantismo. Desde o século XIX, logo ela que possuia um lastro de moralidade liberal ou como dizem hoje de 'imoralidade' e contra cultura fundamentado nas idades Média e Antiga, passou a ser identificada como o que havia de mais reacionário e atrasado na Sociedade européia.

Continua