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quarta-feira, 11 de março de 2020

A escola pública e o proselitismo 'oculto'

NÃO versa este artigo sobre as aulas de religião na Escola pública, as quais me oponho decididamente, seja qual for sua forma. E caso me fossem atribuídas tais aulas delas declinaria... Aqui dou razões aos anarquistas e comunistas (O que aliás raramente faço!) - Neste caso por que não aulas de economia ou de política? POR QUE priorizar a religião ou a fé se temos imenso déficit de conhecimento político básico, em termos de formas e estrutura, como sistemas, regimes, Constituição, etc???

Aulas de teoria Política e de Psicologia seriam bem mais úteis aos adolescentes, aos pequeninos elementos se Sociologia e Filosofia seriam infinitamente mais proveitosos. Com Fustel de Coulanges compreendo o poder e a força social das Religiões, mas como economia e política factual é coisa que já se aprende nas aulas de HISTÓRIA ou GEOGRAFIA HUMANA.

Não examinei teor da decisão do STF (Não repeito DOGMAS 'seculares' pois dogmas só  vão bem com a religiosidade ou a fé!) a qual como disse oponho-me com base nas alegações acima. Creio todavia que não deve autorizar ensino confessional nas escolas públicas, assim o proselitismo. Penso que a educação pública ainda não tenha sido assaltada pelos pastores protestantes...  Ao menos com o apoio do poder público ou do STF. Em que pese os esforços malignos deste governo norte americanizantes e vendido aos charlatães bíblicos.

O proselitismo oculto a que me refiro, enquanto elemento sutil porém perigoso, outra coisa é.

Por isto narrarei genericamente um fato do qual tomei parte, já há algum tempo, na Escola estadual Paulista de que faço parte, como professor concursado ou efetivo já há quase quinze anos.

A narração será genérica já por respeito as atuais diretora e coordenadora, as quais em parte deram-me razão e compreenderam meu ponto de vista, além de terem feito um legítimo contraponto e me convidado, elas mesmas, para que eu examinasse o dito projeto sendo posto em prática.

Por isso não posso denunciar qualquer coisa ou trazer tais fatos a público, o que de outro modo já teria feito. Porém, por questão de justiça, tenho de examinar os fatos mais de perto e assim as alegações da outra parte.

Servirá no entanto, quanto aos traços gerais, para suscitar uma reflexão e orientar todos os professores numa grave questão de cidadania, da qual depende a sobrevivência ou não da própria democracia.

Há tempos algumas alunas 'Caxias' - Cujas identidades preservarei até o fim e jamais divulgarei - vieram até mim e disseram estar incomodadas porque sendo de cultos africanos tinham, ao fim de certo projeto, ouvir umas preces em nome de Jesus (Devo dizer que sou Cristão e adoro Jesus.) e parece alguns versos bíblicos. Estavam elas, como é natural constrangidas e isto me alarmou.

Imaginei se eu ou filho meu lá estivessemos, numa classe pública lotada e alguém lá fosse falar sobre Maomé e depois convidar-nos a recitar a fatiha...

Passou algum tempo. Eis senão quando vou entrar em minha aula é imediatamente antes de mim entra este grupo de projeto que fora acusado... Pelo sim pelo não, tendo em vista certos precedentes relacionados com outra equipe gestora, solicitei a inspetora que os fizesse sair para que pudesse entrar e ministrar minha aula - Direito meu. Adicionando que em caso de necessidade faria um BO.

Até aqui tudo bem. Sucede que perto da inspetora se achava um aluno do tipo 'crente fanático' o qual dirigiu-me a palavra apenas pata declarar que os religiosos tinham pleno direito de orar e pregar nas escolas públicas caso os alunos quizessem. QUAIS ALUNOS? TODOS??? Mencionei as leis, a CONSTITUIÇÃO, etc com o objetivo de esclarecer o dito jovem sobre a coisa pública, o laicismo, etc Ele no entanto mostrou-se irredutível e inclusive ergueu a voz, como típico é dos sectários... Respondendo eu no mesmo tom. ATÉ QUE os voluntários religiosos deixaram minha sala e lá pude entrar..


E nem havia iniciado minha aula quando me vem a Sra coordenadora querendo falar comigo. De fato pouco receptivo fui e até aspero tendo em vista o histórico da Unidade e os fatos imediatamente ocorridos, alias supondo que ela, a coordenadora, tentaria enfiar o tal grupo em minha sala. Iniciou-se uma discussão que lá foi parar na sala da Direção.

A diretora, aliás educada e paciente, tentou entender e esclarecer a situação. Relatei a denúncia feita pelas alunas sobre orações confessionais, aliás protestantes e possível citações de sei lá que versos bíblicos e declarei irredutível que tal era violação de consciência e crime contra nossa lei maior, a Constituição.

A coordenadora, aliás espírita, disse que a dinâmica em si nada tinha de religiosa ou credal mas que no entanto após o término havia uma espécie não de 'oração', com esse nome, mas uma reflexão em que cada aluno se dirigiria ao Sagrado nos termos da sua própria religiosidade... A qual insistia ela tinha outro nome...

Repliquei declarando que o nome era indiferente se a prática era a mesma e havia uma oração confessional, mencionando bíblia, Jesus e com mínimo conteúdo protestante ou exemplo de formas tipicamente protestantes fornecido pelos organizadores.

Como de praxe declararam que na sala ninguém era obrigado a aderir a reflexão e que sendo ela livre não violava a consciência de quem quer que fosse.

Respondi que está atitude era discriminatória e que certamente constrangida os possíveis irreligiosos, ateus, etc Politeísta - pois certamente ali não se falava em deuses... muçulmanos, etc mesmo aqueles que se sentem incomodados pelos gritos e berros dos pentecostais...

Claro que chegando aqui - FUI irredutível por questão de justiça - foi me assegurada a liberdade de cátedra dada por lei e nem me preocupo com Conselho, Equipe gestora, etc caso destoem da Lei maior da Constituição, garantia da liberdade de Consciência e da igualdade entre todos os cidadãos.

Por fim indagaram a respeito de meu manifesto nervosismo. Foi quando me referi ao jovem fanático, a respeito do qual elas certamente já sabiam porque - Pasmem! - ele, muito provavelmente, já se antecipara a mim, indo a diretoria denunciar-me por defender o laicismo e a Constituição e os direitos da Consciência livre. AGORA PAREM E ANALISEM ESTA POSSIBILIDADE MONSTRUOSA... Aquele jovem certamente cria que aquele espaço público, mantido com nossos impostos, fosse propriedade, líquida e certa, da seita ou grupo a que pertence!!! ONDE CHEGAMOS...

Terminei minha entrevista com a equipe gestora declarando em alto e bom som que quando ingressei naquela unidade há doze anos, pouco mais pouco menos, a equipe gestora (DIRETOR E VICE) não apenas cediam o espaço escolar para diversas organizações religiosas protestantes - A ponto de converte-se numa seita de células aos sábados e Domingos - como promoviam shows gospeis, palestras confessionais e mesmo cultos em pleno periodo letivo e com ampla atividade proselitista, com grave dano a CONSTITUIÇÃO, digo a lei. ISTO ocorreu numa Escola pública do Estado de São Paulo a partir de 2007 e há sobejos testemunhos ja de alunos que se sentiram incomodados, ja de professores que la trabalharam, nessa Escola dirigida por um fanático truculento...

Ora, alguns colegas até gostavam de ceder suas aulas a esses doutrinadores religiosos. Nem todos e menos ainda eu. Porém por fragilidade, estando no probatório e temendo retaliações, não pude denunciar - Ademais temia pelos demais, fossem alunos ou funcionários e havia ali um espirito SECTÁRIO e inquisitorial, bastante conhecido por mim...

Dai minha prevenção contra este novo projeto, do qual se haviam queixado duas meninas.

Até aqui os fatos. SEGUEM AS REFLEXÕES -

Sendo a prece ato pessoal dos que creem não há como os indiferentes ou incrédulos não se sentirem constrangidos. Assim como cristão devo fazer justiça aos ateus e incrédulos e reconhecer-lhes o direito de não querer participar de preces ou sequer presencia-las em espaço público. Posto que tal viola o santuário divino da Consciência.

Um ateu ou incrédulo tem pleno direito de sentir-se incomodado por uma prática cujo sentido desconhece ou ignora.

Mas há ainda os religiosos que não desejam fazer preces inter confessionais - Testemunhas de Jeová, 'Católicos' tradicionais, Adventistas, Mórmons, muçulmanos, hindus, etc decididamente tais grupos não desejam rezar na companhia de pentecostais fanáticos ou a moda deles porquanto as concepções de prece são diferentes.

Consideremos ainda que em tais classes ou salas os pentecostais costumam a sentir-se mais a vontade para rezar em público, como se estivessem em suas seitas e podem se por a berrar e gritar em alta voz como já presenciei. Para outros a prece é mais sóbria, interior, recatada... E as vozes e pensamentos deles ficam abafados pela gritaria pentecostal... QUE FAZEM DAS PRECES UM MEIO DE PROSELITISMO, por berra-las.

Ademais eles bem podem ser instrumentalizados pelos pastores neste sentido (Ex protestante fui criado nesse meio inescrupuloso.), a ponto de nessas preces ingênuas ou comuns produzirem um clone tipicamente pentecostal ou sectário.
Manipulam assim uma 'reflexão' a princípio voltada apenas para o Sagrado e inter confessional. Colocam isso no papel mas na prática podem distorcer, e exercer um proselitismo oculto ou sutil.

Daí surge fatalmente a revolta, por parte dos não crentes, conflitos, problemas, discriminações e preconceitos como já testemunhei. O que é deseducativo e choca-se com a harmonia que deve reinar no ambiente escolar. Para além disto disseminam ideias anti científicas e anti filosóficas como criacionismo, terraplanismo, etc Além de conteúdos moralistas e puritanos ou mesmo teocráticos e anti democráticos; o que dificulta imenso o trabalho escolar.

Por isso sou decididamente contra as preces em ambiente escolar, mormente quando promovidas por algum grupo religiosos, e, particularmente contra preces feitas e classe ou salas de aula.

Seria menos agressivo ou invasivo caso algum membro da equipe gestora apenas convidasse, a hora da entrada, quem quisesse - Sem convocação ou fila - para parar e recitar o Pai Nosso ou fazer uma prece silenciosa no pátio, enquanto os demais iam diretamente para suas salas... Aqui se poderia apelar a cultura ou ao costume e não haveria constrangimento. Mas poderia abrir precedente para justificar outras coisas, como a oração em sala...

Nós no entanto preferimos que a letra da Constituição ou da Lei seja observada, e que evento religioso ou prece alguma seja realizada em espaços institucionais, especialmente quando existem elementos proselitistas. Assim dentro da convivência vai bem o respeito.

Concluo dizendo que vivemos um momento arriscado ou delicado em que os pastores e suas ovelhas apoiaram este governo com o objetivo de obter vantagens e benefícios, como poder político ou a possibilidade de invadir e tomar nossas escolas públicas, consolidado seu poderio. Eles parecem querer usar a educação pública com o objetivo de converter nossos jovens e crianças e estabelecer uma teocracia moralista.

Há cento e trinta anos tiramos a educação das garras da Igreja Romana para torná-la laica e democrática ou para coloca-la nas unhas desses pastores enviados pelos EUA??? Caso nossos ancestrais tenham lutado para que a educação fosse, ao fim do processo, entregue a uma agremiação ainda mais insidiosa e mesquinha do que a Igreja Romana foram perfeitos idiotas, pois ao menos a Igreja Romana, com seus Pai Nossos e Ave Marias, fazia parte de nossa cultura... Que se deixasse tudo como estava. O que nossos ancestrais conquistaram em 1891 - A Escola laica, fundamento do Estado democrática - religosamente mantenhamos.




terça-feira, 18 de setembro de 2018

Curso de Política I - Voto: Entre a abstenção e o pensamento mágico.

Nada mais icônico do que a propaganda dos T. E.s sobre a importância do voto no rádio e na TV. Tem certo ar de misticismo ou melhor de fetichismo que chega a repugnância. É sem dúvida algo que baralha a realidade e mistifica.

Querem passar a impressão, leviana; de que ser cidadão resume-se em votar i é em ir, obrigatoriamente, de quatro em quatro anos participar do ritual de transferência de poder que sanciona o 'status quo'. Querem passar a impressão de que votar tudo é e tudo resolve e esta impressão é perigosíssima.

Não nos enganemos, votar é um detalhe, quiçá ínfimo. É algo que faz parte da política ou melhor da cidadania, mas que não pode esgota-la.

Votar nem nos converterá em cidadãos nem solucionará todos os nossos problemas. Faz parte, não é tudo.

Alias devemos aproveitar a oportunidade para salientar a monstruosidade do voto obrigatório num contesto democrático.

O que por sinal corresponde a uma intencionalidade, e a uma intencionalidade política - Impedir ou travar a consolidação de uma política consciente e cidadã.

Afinal aquele que vota por força da lei, obrigado, revoltado...Votará de qualquer jeito ou em qualquer um, quando não venderá seu voto aquele que pague mais. Consolidado nosso coronelismo enrustido e alimentando ainda mais a venalidade e a corrupção.

Da obrigatoriedade do voto é que resulta este mercado ou melhor a oferta de eleitores que se vendem e podem ser facilmente comprados. A massa se vende porque não vê motivo algum para votar... porque não vê sentido nesta ação... E não vendo sentido esculacha, votando no tiririca ou mesmo num bode.

No outro extremo temos os abstenceístas, muitos dos quais anarquistas.

Nós, eles e os autoritários conscientes ou fascistas temos algo em comum: Reconhecemos as deficiências, mazelas, vícios e defeitos do sistema representativo elaborado por John Locke no século XVII. Democrata que não reconheça a fragilidade intrínseca da democracia representativa ou burguesa fantasia e não pode ser bom democrata. Nós, com os contrários, reconhecemos o problema.

Os anarquistas no caso acreditam que o sistema entrará em colapso por meio do abstenceísmo i é do voto nulo ou da não participação nas eleições. No entanto, o que vemos e percebemos é que, apesar das abstenções o sistema continua firme e forte, sem dar sinais de que esteja demasiadamente abalado ou prestes a cair. Os nulos hoje ainda não passam de 20%. Será que um dia chegarão a 80%??? Tenho motivos para duvidar...

No caso deles a abstenção ou seu sucesso levaria ao colapso do que chamamos macro estado. Mas quando Brasil ou Argentina dissolverem-se política e administrativamente que haverá de substitui-las? Pequenas agremiações regionais ou mesmo municipais a semelhança das antigas cidade estados gregas? O que inclusive facilitaria, sem dúvida, o exercício da policracia ou da democracia direta. É um ideal nobre - o da policracia - e do qual partilhamos, sem no entanto nos deixar enganar pela solução das cidades estado.

As cidades estado gregas, num determinado momento assumiram, em sua maior parte, a forma democrática. Foi algo belo e esplendoroso, mas nem tudo foram rosas. Pois havia, lá fora, um colossal Império persa a espreita. O trágico aqui foi que as cidades gregas não se conseguiram entender e formar uma Unidade contra o inimigo comum, o que gerou um impasse. Durante mais de século viveu a Grécia sob pressão daquele inimigo externo unificado. Até que Alexandre conquistou-o. Não sem antes unificar a força as cidades estado e, consequentemente erradicar a democracia, exterminando-as em seu próprio berço. Não poucos teóricos alegam que teve de imolar a democracia as necessidades da cultura. Pois fragilizada pela divisão e conquistada pelos persas a Grécia viria a compor o Império e a perder dua identidade cultural.

Foi uma opção dramática, e que até hoje não podemos avaliar serenamente.

Não se diga porém que inexiste um Império semelhante ao persa disposto a ocupar qualquer nicho ou espaço criado no planeta. Seria pura ingenuidade acreditar que as cidades estado do 'aquífero' não seriam assediadas por um inimigo externo poderoso e muito bem organizado nos tempos em que a água vai adquirindo tanto valor. Seria igualmente ingênuo asseverar que nossas cidades estado brasileiras ou bolivianas manteriam a concórdia ou conservariam algum tipo de unidade militar. Francamente falando, olhando para o Norte deste continente, não creio que a adoção do modelo grego convenha a América latina. Aqui temos de ser realista.

Por isso sou favorável, quiçá seguindo o exemplo de Bolivar e de José Bonifácio, a construção de uma democracia cada vez mais direta no contexto do macro estado. Quiçá através dos meios de comunicação digitais e a exemplo do Demoex da Suécia.

Abrir mão do macro estado no atual contexto bem poderia beneficiar a construção de um imperialismo colossal.

Outros tantos anarquistas, cientes de todos estes problemas, tornam a Bakhunin com seu evasivo - Não sabemos nem queremos saber que venha ser o futuro mas apenas destruir... No entanto é próprio do homem pensar o futuro ou melhor planeja-lo. Seja como for esta evasiva me parece fútil. Pois quem sabe se destruindo o que existe sem pensar o futuro não estamos preparando um futuro pior???Refletir e buscar soluções sóbrias sempre foi o caminho mais seguro para chegar ao melhor e o ser humano merece esta seguridade. Temos assim de oferecer algo ou alguma perspectiva com relação ao futuro e não me parece que o anarquismo esteja sendo bem sucedido neste sentido.

Já dissemos quando oferece alguma resposta sobre o futuro na melhor das hipóteses recorre a experiência grega em torno das cidades estado. Experiência que como vimos não deixou de ser problemática, como não deixa de se-lo no tempo presente. Dizemos melhor das hipóteses ou mais realista pelo simples fato de que parte dos anarquistas jamais furtou-se a quimera Stirneriana em torno de uma Não sociedade ou de agremiações de indivíduos, chegando aos confins do ANCAP...  Claro que isto não corresponde aos ideais de um Kropotkin ou mesmo de um Bakhunin, e no entanto ao menos parte deles tem cogitado na eliminação do que concebemos por Sociedade. Como se vê, a confusão entre as noções de Estado e Sociedade torna o problema ainda mais sério e abre as portas para o espectro do individualismo...

Já os autoritários, militaristas, absolutistas, fascistas, etc são pela eliminação da democracia e pela adoção de uma ordem hierárquica, autoritária e despótica. A solução não podia ser pior... embora seus teóricos conheçam, talvez até melhor que os anarquistas, os vícios e defeitos da democracia burguesa.

Não poucos dentre eles - digo parte dos fascistas -  tem exposto de deplorado a existência do que chamam plutocracia ou seja, de uma regime político ou de uma democracia a serviço de interesses puramente econômicos, do mercado ou do capital. A crítica não parte apenas dos Comunistas, mas de alguns fascistas, alias classificados como socialistas. Seja como forma eles acreditam que uma autoridade 'neutra' seja capaz de julgar a questão, de fazer justiça aos injustiçados, de conter as aspirações do Mercado e de cimentar a conciliação entre as partes instaurando uma 'paz perpétua'.

O problema aqui não diz respeito a suposta neutralidade classista ou econômica da autoridade em questão. Nem poderíamos negar a priori a existência de uma autoridade ética e voltada para o bem comum. O problema aqui é de ordem histórica, matemática e psicológica. Será prudente apostar que o titular de tão grande autoridade não se deixará corromper pelo exercício da mesma? Parece-me que para cada monarca virtuoso a História nos oferece o exemplo de mil psicopatas e degenerados como Heliogabalo, Tamerlão, Hitler, Stalin ou Bush. Não eu não acho prudente apostar no poder e na autoridade de um só e julgo que o poder absoluto corrompe absolutamente produzindo apenas monstros. Aqui os nobres e virtuosos correspondem a ínfima exceção, sendo coisa rara.

Para mim a solução pelo autoritarismo seria emenda pior que o soneto. E vemos já quem em nome da autoridade, da lei e da ordem queira sancionar a praga da tortura, que é um crime contra a humanidade.

Melhor que os homens partilhem a administração das coisa pública e se contenham uns aos outros.

Tornamos assim a solução democrática, em torno da participação, do gerenciamento comum do poder e da cidadania. Sem deixar de reconhecer que nossa forma ou estrutura é viciada e que deva ser alterada de modo a tornar-se mais eficiente e assim mais democrática.

Não é nem pelo individualismo e pela destruição, necessária, do macro estado e menos ainda pelo retorno ao despotismo que devemos sair da democracia burguesa, formal, parlamentar ou representativa mas por meio da democracia direta ou da policracia.

Nosso objetivo deve ser construir, na dimensão do macro estado, novos mecanismos capazes de ampliar a participação popular ou a cidadania, além é claro de empregar os mecanismos consagrados do plebiscito e do referendo com uma assiduidade cada vez maior. Devemos além disto priorizar a política de base resgatando o velho ideal do municipalismo, pois é na esfera do município que se torna possível um nível maior e mais profundo de participação.

Dentro desta perspectiva é claro que o voto acabará perdendo seu brilho artificial. Terá cada vez mais um peso relativo.

De certo modo o próprio abstenceísmo não deixa de presumir demasiadamente do voto e de emprestar-lhe muito importância. Pois aposta que o aumento dos votos nulos levará o sistema ao colapso.

O quanto podemos dizer sobre a realidade do tempo presente chega a ser simples - A propaganda posta em circulação nos meios de comunicação e que identifica a cidadania ou a política com o ato de votar é tendenciosa. Votar não solucionará todos os nossos problemas e isto pelo simples fato de que outros também votam, de que ignorantes e canalhas votam, de que as massas sem consciência votam... Assim, a cidadania pressupõem certo 'proselitismo' ou cerra dose de conscientização. Temos de discutir, de dialogar, de debater sobre política, temos de argumentar e de ganhar o outro, temos de persuadir o outro sobre a importância do voto cidadão, temos de nos engajar na política antes de dizer que a política não presta.

Platão já dizia que não se fará uma boa política sem a participação dos bons cidadãos. E é aqui que a abstenção, fuga ou omissão dos virtuosos enojados dará espaço e poder aos maus... Caso nos retiremos o preço a ser pago será sermos dominados pelos maus ou pelos inferiores, pelos ignorantes, pelas massas...

O Brasil é exemplo vivo disto.

Bolsonaro e seus apoiantes, assim como a sinistra bancada 'evanjéguica' correspondem a minorias ou a elementos minoritários muito bem articulados que auferem imenso benefício da abstenção por parte dos que não concordam com seus respectivos ideários. Pois bem, estas pessoas virtuosas e conscientes poderiam ajudar-nos a conter estas duas ameaças, mas preferem lavar as mãos como Pilatos e não participar, não interferir.

Digo mais. Com o apoio de tanta gente boa mas desiludida seria muito mais fácil transferir o poder para pessoas que não fossem apenas honestas mas que fossem aptas, digo bem informadas, inteligentes, capacitadas, hábeis, engajadas, etc Querendo ou não as nossas vidas são reguladas e atingidas penas decisões tomadas pelo poder político; e abstenção alguma muda isto. Querendo ou não as pessoas humildes, os trabalhadores, os assalariados, os jovens, as crianças, as mulheres e até os animais e o meio ambiente tem suas existências alteradas ou influenciadas, para melhor ou para pior, pela esfera da política institucional. Querendo ou não o que eles, os políticos profissionais, fazem repercute em nossas vidas sob a forma de qualidade ou de indignidade.

Diante desta realidade inegável fico perguntando-me se não seria melhor partir de princípios e valores saudáveis para escolher representantes leais, dedicados a justiça social, a promoção humana e ao bem comum??? Talvez eleger alguém com tais características seja fazer o mínimo ou alguma coisa. Digo eleger alguém que além de honesto, probo e impoluto seja também conhecedor da realidade social e aspire transforma-la, a partir de uma demanda ética. Agora na falta de semelhante pessoa porque ao invés de criticar e maldizer também não entramos nós na arena da política levando esta ética, estes princípios, estes valores???

Votar com consciência pode ser parte mínima e cada vez mais mínima, no entanto, mesmo assim, faz parte. Não alterará radicalmente as coisas, mas talvez ajude a impedir que elas piorem radical e aceleradamente. Talvez não possamos fazer todo bem que desejamos, mas sempre será possível conter algum mal.

Assim entre a abstenção e o idealismo romântico tomemos por critério um sóbrio realismo. Quem sabe fazendo pouco ou o mínimo seja melhor do que nada fazer ou que sonhar com futuros incertos e imaginários. Talvez abandonar esta forma precária e fragilizada de democracia e permitir que se degenere ao máximo venha a ser o caminho da mais abjeta servidão. Talvez sirva não a propósitos libertários mas a propósitos ainda mais totalitários, opressores, despóticos e tirânicos dos quantos se achem em operação no tempo presente. Afinal, ao fim da linha, que poderá saber quem ou o que substituíra o sistema que temos??? Quem poderá garantir-nos de que não sobrevirá algo ainda pior, mais sórdido e mais destrutivo???


terça-feira, 3 de outubro de 2017

A moda do politicamente incorreto


Resultado de imagem para origem da expressão politicamente correto
OLHEM A FONTE DE INSPIRAÇÃO DE TODA ESSA PORCARIA!


Uma vez que a moda do 'politicamente incorreto' chegou ao próprio STF, e isto a ponto de achincalhar o fundamento pétreo de qualquer sociedade democrática que é a laicidade, faz-se mister deslindar o mais profundo significado da mais recente frase de efeito ou shahada dos imbecis...

Desta vez não vou ocupar o precioso tempo do amigo leitor com minhas arqueologias ideológicas, mesmo porque a moda do politicamente incorreto, é de origem bastante recente e só podia mesmo ter sido cunhada neste imenso hospício a céu aberto que é a 'terra brasilis'. Evidentemente que ele surgem em oposição a clássica expressão do 'politicamente correto'.

A expressão 'politicamente correta' pode ser compreendida como esforço do poder político para assumir determinados princípios e valores em termos de ética da pessoa humana. Compreendido que o sentido do politicamente correto gira de em torno dos direitos e garantias essenciais da pessoa humana, opondo-se a tentativa de racionalizar e argumentar em torno do anti ético ou do desumano, não faz sentido algum em opo-lo a liberdade de expressão ou de discussão.

O argumento reverte contra os conservadores pelo simples fato de viverem gritando que tudo tem medidas. Certamente o discurso deve ter medida. Tal o escopo a ética.

Por trás da ideia de que os limites impostos pelo 'politicamente correto' são danosos a liberdade de expressão subjaz sempre qualquer teoria subjetivista/relativista em termos de ética ou de pessoa, e um maior ou menos grau de desprezo pela ética essencialista da pessoa, cujos fundamentos remontam a Sócrates e não são estranhos ao Evangelho de Cristo.

Tempos de incoerência. Jamais falou-se tanto em ética e jamais a essencialidade da Ética foi atacada com tanta ferocidade como nestes nossos dias.

Querem discutir o valor da pessoa humana, querem discutir os direitos e prerrogativas do homem, querem discutir os fundamentos da Ética justamente porque para eles nada existe de concreto em termos de Ética - Trata-se duma construção cultural e nada mais...

Para eles a essencialidade não faz qualquer sentido e a lei natural não passa duma quimera urdida pelos escolásticos.

Assistimos a retomada dos velhos e repisados erros do positivismo.

A liberdade que revindicam é liberdade para trazer a público os já conhecidos temas da superioridade/inferioridade racial, da submissão feminina, da dominação ou tirania religiosa, da discriminação sexual, etc Já do lado da 'esquerda' temos a não menos imbecil mística do aborto (não me refiro a possibilidade do aborto em certas situações mas apenas ao 'libera geral')...

A ideia é argumentar racionalmente em torno de tais temas alimentando o racismo, o machismo, o adultismo, a homofobia, o odinismo, o abortismo, etc, etc, etc Uma coisa é discutir tais temas em sala de aula ou na escola sob a direção de um bom professor e outra totalmente distinta é permitir que políticos sem consciência transplantem esta pauta monstruosa para o Parlamento com o objetivo de legaliza-la.

Escolas, veículos da Imprensa, etc estão ai enquanto cenário de diálogo aberto.

Coisa bem distinta é levar tais temas aos Parlamentos com o objetivo de produzir leis de exceção que deem respaldo a tais preconceitos.

É justamente o que pretendem os adeptos do 'politicamente incorreto', para os quais qualquer aberração poderia e deveria ser discutida e votada em nossos Parlamentos.

Neste terreno não há que se ter quaisquer limites, declara toda essa gente irresponsável.

Convém perguntar a respeito de onde pararemos com essa febre de discussões - Ou teremos de discutir seriamente a exposição de crianças, o cárcere privado, a agressão a mulher por parte do marido, o estupro, a tortura, a escravidão, a eliminação de deficientes físicos, a inquisição, a castração de homossexuais, o apedrejamento de adúlteros, etc Será esta bela pauta assumida sinceramente pelos partidários do 'politicamente incorreto'???

Temo que sim.

Então o que temos aqui é uma negação radical face a Ética da pessoa humana e seus postulados essenciais. Um projeto de demolição do homem posto em prática diversas vezes por teocráticos, nazistas, fascistas, comunistas, etc com o velado apoio dos traidores liberais. De fato a suprema miséria do liberalismo econômico é fazer causa comum com quaisquer desses grupos (exceto com o último - o Comunista) sempre que pressionado pelos socialistas ou sociais anarquistas.

Todos os totalitários conhecem muito bem a suprema fraqueza do liberalismo e sabem quão fácil é 'convencer' os oportunistas liberais a restringir as liberdades dos cidadãos ou mesmo a retirar-lhes os direitos produzindo de antemão um clima favorável a afirmação do totalitarismo. É o liberal acuado que costuma a lançar os fundamentos não só do totalitarismo laico, mas até mesmo da odiosa teocracia na medida em que se vai lançando nos braços dos fanáticos religiosos, tal e qual estamos vendo no Brasil de hoje.

Começa portanto a democracia a desmanchar-se num contexto formalmente democrático do 'politicamente incorreto' e na mesma medida em que sanciona certos discursos inaceitáveis como o racismo, o machismo, o adultismo, a homofobia... Digam o que disserem mas o legítimo o espírito democrático é incompatível com qualquer tipo de discurso que negue as minorias étnicas, religiosas e sexuais o direito de ser e existir. Não é democrático caso não seja absolutamente igualitário. É a democracia regime em que todos tem ou deveriam ter voz. Supõem a democracia que todos os cidadãos livre e pacíficos tenham o direito de viver a seu modo sem serem molestados pelos demais. Democracia sem tolerância religiosa, cultural, cívil e pessoal não existe, é democracia espúria, de fachada.

E no entanto a deterioração do espírito democrático que é a afirmação metafísica da igualdade absoluta entre todos os cidadãos sem consideração alguma de gênero, opção sexual, raça, classe ou religião, tem sua fonte naquele formalismo tosco e anti ético segundo o qual todo discurso é bem vindo... Esta errado porque a democracia não é apenas uma forma ou estrutura vazia mas ou ideologia que supõem fundamentos metafísicos sem os quais não pode subsistir. E este fundamento metafísico é a absoluta igualdade entre todos os seres humanos e por ext entre os cidadãos da república, igualdade essencial fundamentada no uso da razão e na capacidade do livre arbítrio, e em nada, nada mais.

Portanto aqueles todos que aspiram criar leis de exceção cujo fim seja excluir tal e tal categoria de cidadãos do exercício da cidadania ou o que é pior autorizar situações ou contextos sociais de opressão, são sórdidos traidores do liberalismo político. Discriminação racial, cárcere privado, agressão física, infanticídio, abandono de idoso, tortura, escravidão, etc são crimes e portanto situações que a lei sequer tem o direito de autorizar. A lei positiva não tem como quer a escola de Kelsen o direito de contrariar a lei natural. Apanágio é da justiça premiar a virtude e castigar o crime e esta ordem é fixa e inalterável. Não tem o homem sob quaisquer pretextos o direito de praticar crimes seja em público ou as ocultas devendo sempre ser denunciado e punido, jamais estimulado. O crime não existe para ser legalizado mas para ser execrado e proibido pois implica a sobreposição indevida de uma liberdade a outra. Nossa liberdade termina quando começa a alheia. Neste sentido toda sobreposição é essencialmente danosa ou prejudicial e aquele que produz o dano, criminoso.

Não existe e sequer poderia cogitar-se em existir liberdade para o crime. Quem pratica qualquer crime pratica-o contra a liberdade ou a integridade de algum cidadão, e na liberdade ou integridade deste cidadão atinge e profana a dignidade de todos os elementos do corpo social ou de todos os seres humanos. A solidariedade humana exige sua punição, desde que seja crime verdadeiro, enquanto produção de dano a alguém que nada tenha feito ou de reação desproporcional face ao dano produzido.

Absurdo clamoroso permitir que situações de criminalidade sejam discutidas livremente no Parlamento, entre homens que se supunha serem estudados e civilizados, e o que é pior ainda, com o objetivo de converte-las em leis, leis destinadas a acobertar crimes ou a reconhecer situações de opressão!!! Tal a pauta do discurso 'politicamente incorreto', introduzida - pasmem - no STF (Rui Barbosa a estas horas deve estar a rolar em sua fria tumba!) e da qual decorreu - pasmem novamente - decisão favorável ao exercício do PROSELITISMO RELIGIOSO OU CONFESSIONAL EM ESCOLAS PÚBLICAS PAGAS COM O DINHEIRO DE TODOS OS CIDADÃOS, o que como se aduz é manifesta injustiça.

Diante de tão monstruosa aberração, os cidadãos devem perguntar-se a respeito de quando o 'venerável' parlamento virá a discutir a punição dos dissidentes religiosos ou dos incrédulos, o estabelecimento de uma Inquisição bíblica, etc??? Outra questão não menos interessante é como o nosso STF apreciaria o fenômeno tão politicamente incorreto de uma 'ditadura' com repressão, tortura, assassinato e tudo mais; afinam que pode ser mais politicamente incorreto??? E a corrupção do golpista Temer por que não a absolvem mais uma vez pelo simples fato de que condena-la seria adotar a norma, repugnante, do politicamente correto???

Será que os togados do Supremo não percebem que adotar a solução do politicamente incorreto implica subverter por completo nossa jurisprudência, nossas instituições e nossa legalidade, sempre guiada pelo princípio salutar da reverência pelo que é correto ou bem fundamentado??? E que ignorar este princípio implica abrir o bueiro da História para dele extrair tudo quanto existe de mais abjeto???

Jamais me surpreendi ao dar com tão miserável chavão na boca de um patife como o Malafaia ou nas linguas malevolentes desses fedelhos filiados ao MBL... Afinal correspondem a negação dos princípios democráticos que, assumindo nossa tradição ancestral, defendemos, mantendo-nos rigorosamente fiéis a doutrina clássica do liberalismo político. Perplexidade e pavor me causa o ver o mesmo chavão na boca daqueles aos quais caberia justamente velar pelos fundamentos mais remotos de nossas instituições democráticas. É como se o câncer tivesse passado do ânus ao cérebro e produzido metástase... Muito havendo para recear, no sentido de que o enfermo (O Brasil, ou nossa democracia) baixe a cova.

Nós no entanto nos negamos a reconhecer esta decisão pavorosa do STF. A qual conspurca vergonhosamente o caráter laico do Estado Brasileiro, e evidencia, mais uma vez, estarmos vivendo um estado de exceção produzido por um golpe de estado e quem sabe o prólogo de mais uma ditadura. Não reconhecemos o primado da injustiça, não reconhecemos a doutrina do 'politicamente incorreto', não reconhecemos a validade de qualquer lei ou instituição oposta a dignidade da pessoa humana e concitamos todos os cidadãos nobres, justos e virtuosos a que se oponham a semelhante estado de coisas exercendo a desobediência civil, aderindo a quaisquer mobilizações de caráter geral ou mesmo tomando armas nas mãos e combatendo, direito por sinal reconhecido pela própria Constituição dos EUA. A violação da ordem democrática justifica plenamente o levante por parte dos cidadãos.


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

O S T F e a questão do Ensino religioso nas escolas públicas.

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Manifesto é que não cabe a um Estado Laico, ministrar aulas de religião em suas instituições públicas de Ensino e nossos ancestrais estavam perfeitamente cônscios disto. O estado democrático é laico ou neutro por definição face tanto ao problema metafísico quanto ao problema religioso.

Quanto ao problema metafísico, como Aristotélico/Socrático tenho sérias dúvidas e isto pelo simples fato de aceitar com absoluta naturalidade a capacidade do aparato racional.

Sei perfeitamente que esta aceitação acarretaria objeções quanto a isenção do Estado democrático em matéria de crenças religiosas.

O fato é que nestes tempos o padrão da racionalidade já não é admitido pela totalidade dos cidadãos e já não se faz presente em todas as esferas do poder político ou da administração pública. Há cidadãos relativistas, subjetivistas, positivistas, cientificistas, etc

E nem podemos criar um Congresso filosófico ou concílio ecumênico com o objetivo de resolver a situação. A menos que se chegue a uma acordo por via da persuasão, prevalecerá a divisão. O Estado político no entanto não pode esperar por este hipotético acordo em matéria de conhecimento ou de epistemologia, logo, tem de considerar a divisão como fato consumando e na prática estabelecer uma governação que agrade a todos. Ora o único meio de agradar a todos, face a uma situação de dissidência insolúvel é a adoção do princípio da neutralidade.

Adota-se portanto, segundo a fórmula de Locke, uma solução de neutralidade ou isenção tanto no plano da metafísica quanto no plano da fé religiosa. No sentido de custo benefício, como veremos é a solução, de longe, mais vantajosa para todos.

Quanto a metafísica é este Estado agnóstico, e portanto, de modo algum ateu, como costumam alegar os religiosos desonestos e ressentidos.

Agnóstico porque reconhece a si mesmo como incapaz de julgar a questão da existência ou não de Deus. Recusando-se tanto a afirma-la - na perspectiva do teísmo - quanto a nega-la.

Tal Estado não resolve a questão pela negativa. Abdica no sentido de resolve-la, alegando que não faz parte de sua esfera, a esfera das coisas comuns.

Tampouco temos aqui um estado anti religioso no sentido em que negue a existência do fenômeno religioso o lhe dê combate.

É irreligioso no sentido de que não se julga apto para interferir a favor de determinada religião - e em detrimento de todas as outras - ou para julgar a questão religiosa, atribuindo-a ao juízo privado de cada cidadão.

Sendo assim não é religioso nem anti religioso, mas neutro ou isento.

Já o Estado confessional é aquele que revindica para si o direito de julgar a controvérsia religiosa, posicionando-se unilateralmente em favor de determinada fé, e não poucas vezes proscrevendo ou proibindo o exercício das demais.

A questão aqui, em termos práticos é decidir a respeito de qual deles será mais estável na mesma medida em que resguarda os direitos essenciais da pessoa humana.

Aparentemente o estado confessional uniforme apresenta uma maior estabilidade em todos os sentidos. Pois na medida em que se elimina a crítica religiosa, tende-se a eliminar toda crítica e a dominar o indivíduo por completo. Onde prolifera a fé religiosa, controla-la ainda é a melhor maneira de controlar o próprio homem.

Mesmo porque poucos sentimentos são tão arraigados no homem quanto o sentimento religioso.

De modo que este controle, da fé religiosa, só se pode dar e efetivar de maneira dramática i é sob a forma do terror. Aqui a inquisição, ali a Murtad ou a Djzia.

Um Estado ou uma Sociedade hábil no sentido de estabelecer a unidade religiosa será certamente uma sociedade repressora, desumana e sangrenta.

Aqui o preço a ser pago pela estabilidade social é demasiado caro.

O sistema laicista nem sempre funciona perfeitamente pelo simples fato de em determinadas situações, certas religiões de caráter teocrático, fundamentalista ou fanático, aspirarem pelo controle do Estado ou chegar as vias de fato com elementos de outras fés.

Aqui o risco do conflito e da violência é sempre real, pois a convivência pacífica entre pessoas que pensam ou creem diferentemente ainda não é sinceramente aceita por todos.

Cabe a este tipo de estado gerenciar tais conflitos por meio da lei ou reprimi-los da maneira mais dura. Criando um espírito ou produzindo - aos poucos - uma cultura de liberdade e respeito mútuo.

Já foi dito e com razão que a lei é incapaz de alterar drasticamente esta ou aquela dinâmica social ou de opor-se a cultura tradicional e arraigada.

Sem sombra de dúvida o Estado laico ou a lei, não produz de imediato uma sociedade laicista ou uma cultura em torno do laicismo consciente.

É todo um aparato legal que se sobrepõem a uma cultura muitas vezes infensa.

O que se espera é que o ato de acionar-se repetidamente a lei e sua aplicação rigorosa acabe por reprimir a cultura confessional ou sectária e a produzir, a longo prazo, uma padrão diferente de cultura.

A própria tendência a longo prazo é esta, chegando as próprias instituições religiosa predominantes a conformar-se com a lei e em seguida a abraçar o novo padrão de cultura.

Estabilizando-se a situação e sucedendo-se a paz. A menos que outra ideologia sectarista se apresente e aspire pela dominação.

As vezes a afirmação da cultura laicista supõem um trabalho de esclarecimento e uma luta intelectual de longo prazo ou uma guerra continua.

Pelo que se vê não temos um sistema perfeito, assim como algo dado, pronto e acabado.

Por outro lado, no contexto de um Estado fraco, a promoção de uma determinada fé em detrimento das demais, tende a ser até mais danoso do que sua promoção por um estado forte a autoritário. Na medida em que as principais religiões podem assumir o controle e a situação desandar numa guerra religiosa. Desde muito tempo as guerras religiosas tem sido incomuns no contexto Ocidental. A última no entanto, a Guerra dos Trinta anos, é considerada por alguns como equivalendo a primeira grande guerra mundial e tudo quando podemos dizer é que foi verdadeiramente pavorosa.

Novas guerras religiosas, no estilo da guerra dos trinta anos, poderiam superar em carnificina, qualquer tipo de repressão institucionalizada num determinado Estado confessional.

Por isso a principal obrigação de uma democracia laica ou laicista é jamais interferir diretamente na dinâmica religiosa, jamais arbitrar, jamais julgar, jamais favorecer a qualquer um dos credos ou religiões existentes e não apenas manter mas promover por todos os meios possíveis uma situação institucional de absoluta igualdade. É dever do Estado laico abster-se no sentido de envolver-se em qualquer controvérsia religiosa e de manter sua estrutura impermeável a qualquer tipo de controle credal. Uma vez que assumiu uma orientação laicista e promoveu relativa igualdade entre os partidos religiosos deverá permanecer neutro ou isento, custe o que custar.

O que não se pode é brincar com o laicismo ou como se diz afetar laicismo. É como brincar com fogo. Elaborar um discurso em torno da laicidade para em seguida favorecer determinada fé, pode ser o caminho para sérios distúrbios sociais, mesmo entre um povo pacífico e pacato.

Eis porque temos de questionar, e muito seriamente, a viabilidade de que o Ensino religioso venha a ser ministrado pelos estabelecimentos públicos de ensino, especialmente numa perspectiva credal ou dirigida.

Concedamos que a simples ideia de que o Estado laico autorize a inserção de um conteúdo religioso genérico no currículo já é, em si mesma, problemática.

Que dizer então - Como tem sido dito no próprio STF!!! - a respeito de um Ensino religioso dirigido ou credal? Em que pesem todos os sofismas editados a guiza de democracia, cultura, etc

Antes de tudo devemos considerar que a arbitragem em termos de matéria religiosa não cabe nem ao estado, nem ao fórum, nem a escola, ou a qualquer setor público, político ou administrativo mas a consciência de cada individuo. É assunto que pertence a esfera privada da existência.

E não lhe cabe julga-lo ou arbitra-lo nem mesmo numa perspectiva democrática.

Não é questão de democracia mas de princípios, de valores e de educação, e como tal adstrito apenas ao tribunal da consciência. Transferi-lo a esfera pública das coisas comuns é profanar a consciência e cimentar a opressão.

Autorizar o monopólio de uma determinada fé ou religiosidade num contesto igualitário é sabotar esta igualdade e portanto outorgar a uma instância pública qualquer, seja ela o bairro, a escola, a 'província', a nação, o direito de julgar uma questão que como vimos pertence exclusivamente ao cidadão e isto equivale a uma usurpação, na medida em que todos os cidadãos são contribuintes e pagam impostos, merecendo a proteção do Estado ma mesma medida.

Religião alguma pode ser beneficia pelo Estado em detrimento das demais sem que lhe seja conferido um status, inadmissível de superioridade, incompatível com o caráter neutro ou isento do estado laico.

Dar as outras religiões por inferiores e alija-las quando ao uso deste espaço que é público implica ultrajar seus profitentes para os quais são tão sagradas como qualquer outra. Isto fere os princípios sagrados da justiça.

Permitir que uma religião determinada tome posse do espaço que é público com o sentido de 'canonizar' o seu discurso, implica autoriza-la a fazer proselitismo tirando vantagem da coisa pública, a qual é mantida com os recursos tomados a cidadãos pertencentes as mais diversas confissões religiosas os quais certamente se sentirão menosprezados e ultrajados. É estabelecer regime de exceção ou privilégio incompatível com o caráter isonômico das instituições democráticas.

Não é de modo algum promover a igualdade ou a tolerância como supõem algum invertendo a lógica das coisas até o ridículo mas sancionar a desigualdade e alimentar a intolerância, vício cujos perniciosos efeitos detectamos já em nosso redor, corroendo as bases do estado democrático de direito e da civilização. Não se estimula a compreensão mútua, o respeito e o mútuo entendimento concedendo privilégios imorais, mas promovendo a igualdade.

A tolerância é valorizada ou estimulada quando os valores que pertencem a esfera privada da consciência lhe são atribuídos e quanto o Estado ou o grupo social abstém-se de intrometer-se neles, introduzindo 'favores' que acarretam a desigualdade. Qualquer tratamento desigual deste favor coloca em perigo o equilíbrio social tendendo a ser tão perigoso quanto a uma bomba.

A simples ideia de que todas as ideias devam ser examinadas e discutidas na Escola sob a égide das instituições democráticas implica uma abordagem ampla, profunda, genérica e igual e não uma abordagem fechada, dirigida, credal ou confessional. O ideal seria o aluno poder comparar suas crenças com as demais de modo a tomar consciência da diversidade religiosa e assumir uma perspectiva de tolerância civil no plano da convivência. Nem se trata aqui de imaginar que todas as doutrinas religiosas ou fés sejam boas na mesma medida, como pretendem os relativistas, mas apenas e tão somente de conviver em paz a harmônia com os profitentes das mais diversas fés, partindo do suposto que sejam livres e que lhes assista o direito de optar neste sentido.

Por outro lado a apresentação unilateral de uma única fé na escola pública bem poderia suscitar no aluno a ideia de que sua fé é superior, no plano civil inclusive... com todas as funestas consequências embutidas neste padrão de pensamento.

Conceder o privilégio ou monopólio espiritual a esta ou aquela doutrina nas escolas públicas não tendem a converte-las como deveria ser feito, numa instituição harmoniosa e pacífica, regida pelo princípio do respeito mútuo, mas num campo de guerra inundado pelo rancor. Em pouco tempo os próprios alunos, a exemplo do 'doutrinador' - e isto já está acontecendo em algumas escolas públicas neste momento!!! - vão assumir eles mesmos (mormente durante os intervalos) o encargo proselitista, distribuindo livros, revistas e panfletos de teor religioso, pregando em alta voz, cantando ou mesmo exorcizando e hostilizando os dissidentes e opositores. Que os alunos afetem a profetas, pastores ou doutrinadores no cenário de uma escola pública é absolutamente monstruoso. Que convertam o recreio ou o intervalo em palco de batalhas religiosas que degeneram em agressões e violência é o cúmulo da aberração. E no entanto tal já pode ser constatado em nossas escolas públicas 'de visu' e é epifenômeno ou consequência dessas aulas religiosas confessionalistas ou melhor proselitistas autorizadas pela lei.

Que um professor público penetre o recinto da escola portando uma Bíblia, um Corão ou uma Tripitaca, etc e visando impor seus pontos de vista a qualquer minoria que deles não comungue ou mesmo a qualquer cidadão livre, é da-lo por inferior no plano civil, injustiça-lo e oprimi-lo. Pois ele tem o direito de não querer ouvir semelhante discurso doutrinador, sem que deva ser obrigado a abandonar a sala de aula ou dela sair. Afinal o espaço escolar é tão seu quanto de todos os demais.

Totalmente outra seria a situação, caso girasse em torno de princípios de natureza científica, cuja constatação parte da percepção ou da experiência, que são elementos comuns a todos os homens. A fé no entanto por não ser imediatamente perceptível como os fatos de natureza científica e suscitar controvérsias pertence a outra categoria de elementos, os quais pertencem como já dissemos a esfera privada da consciência. Quem age independentemente quando a fé, julga-se livre. Já aquele que pretenda questionar seriamente a fidelidade dos próprios sentidos ou da razão bem faria em procurar um analista.

Nem poderia a laicidade, como querem alguns epistemólogos, deixar de ser laicista; como não pode o socialismo deixar de ser socialista, o positivismo deixar de ser positivista, o federalismo deixar de ser federalista, etc

Laicidade supõem laicismo, que é a separação entre a esfera público/policita e a esfera privada da crença religiosa, passando todas as crenças a serem encaradas como iguais e assim tratadas em vista do direito, de modo a garantir a plena satisfação de todos os profitentes religiosos enquanto cidadãos e membros da república, evitando situações de rivalidade, abuso e conflito. Como já fizemos observar implica esta posição por parte do Estado em negar-se a penetrar o cipoal da esfera religiosa disposto a julgar o conteúdo dos livros ou a oficializar alguma interpretação (e são milhões). Quem não percebe que esta posição é de longe a mais prudente quando há sérios mecanismos de controle destinados a punir os fanáticos e sectários mais exaltados caso pretendam 'assaltar' o estado e estabelecer uma ordem teocrática?

Claro que este tipo de estado deve levar bastante a sério seu próprio caráter estando sempre pronto para refrear todos os abusos e punir com máximo rigor quaisquer crimes que envolvam a prática da religião ou que sejam por ela inspirados. Brincar de laicismo ou fazer jogo duplo seria a pior das opções e por isso precisamos sim assumir radicalmente nossa laicidade na perspectiva de um laicismo consciente e pugnar por uma igualdade absoluta das diversas fés face a estrutura política seja militar, educativa, hospitalar, etc

Não é possível que em pleno ano de 2017, i é quase cento e trinta anos após a proclamação da república e a desvinculação do estado quanto a igreja antiga - a qual por sinal decorreu em termos pacíficos - seja ele cooptado por formas religiosas ainda mais controladoras e virulentas em nome de interesses econômicos. Não é possível que toda uma sociedade venha a assistir pacificamente o desmantelamento de um Estado laico, o que implica a negação da dignidade da maior parte dos cidadãos, que são dissidentes religiosos face a certas minorias ambiciosas. Como aceitar ser cidadão de segunda classe em termos de fé e crença, no setor da consciência, quando já se o é no setor da da economia por obra da miséria???

Permitir que as escolas se convertam em sucursais de seitas religiosas e as salas de aula em púlpitos só virá a aumentar ainda mais o estado de confusão em que se encontra nossa sociedade potenciando outros tantos conflitos que deveríamos apaziguar e conduzindo este pais a anomia, ao caos, a dissolução. A escola, enquanto instituição educativa e formativa, deve ser mantida a qualquer preço, incontaminada face as pretensões do sectarismo religioso ou as injunções do fanatismo sob pena de sabotarmos ainda mais o fundamento pétreo da democracia que é a laicidade. A consciência formada a aqui deverá ser o quanto possível aberta, crítica, reflexiva e tolerante; jamais fechada numa mórbida complacência de si mesma, arrogante e agressiva. Só podemos estimular a boa convivência e o respeito fomentando a igualdade e fomentar a igualdade a partir de uma abordagem igualitária. Sancionar uma abordagem discriminatória e preconceituosa na escola pública, uma alimente a ideia de superioridade religiosa é e será sempre uma atitude leviada e irresponsável por parte do poder público além de ser essencialmente iníqua e sempre questionável é claro.

Dirigimos todas estas reflexões ao STF Brasileiro, fundamentados em nossa experiência professoral como educador público e como pesquisador social. Solicitando que os ilmos srs ministros pesem todas as evidências e abracem a solução mais prudente e ponderada face a tão grave problema, pelo simples fato de tocar a própria liberdade religiosa.



DIA 20 DE SETEMBRO, daqui a uma semana, o STF - FINALMENTE - julgará a questão sobre o ensino confessional de determinada religião na Escola Pública. Cumpre a todo cidadão acompanhar, pressionar e ficar atento pois trata-se de uma questão essencial no plano da cidadania e da cultura.

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