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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Entre a realidade e a imaginação ou como fugir do mundo sem desprender-se dele...

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Enquanto o idealista crasso, o romântico e o avoado fogem do mundo a lua sem maiores problemas, ao menos mais próximos não poucas vezes o idealista crítico, que busca transformar as estruturas de um mundo que acredita serem injustas e anti éticas, entra em crise, e perde-se. E quando digo perde-se quero dizer que ocasionalmente este homem ético e de boa vontade perde a sanidade ou até mesmo a vida, o que é imensamente trágico ou patético.

Temos aqui a morte da mais um combatente, que inspirado em Sócrates, em Cristo ou mais frequentemente neste ou naquele reformador social, o\usa afrontar o sistema ou aquilo que é dado, tendo em vista o que 'Deve ser'. E Ética sempre é isto, UMA METAFÍSICA, a respeito do que deve ser... Quem se contenta com a realidade dada ou com o que é numa Sociedade como a nossa, se são, merece o título de canalha, se Cristão de fariseu hipócrita. Não há atenuante para quem declara assumir posição neutra face a injustiça apenas porque a solução não é imediatamente apreendida por seus sentidos, mas, construída pelo intelecto consciente. Por isso o Positivismo é ainda mais abjeto do que o utilitarismo remendado com retalhos do Evangelho ou do socratismo...

Quanto aos episcopais/Católicos, espíritas e deístas estão imunizados, até certa medida, pela crença sólida na sobrevivência da alma. Frustrados aqui, sabem que estão destinados a contemplar a vitória do bem e o triunfo do amor noutra existência. Não verão aqui, mas verão o que se sucederá aqui... De algum modo contemplarão o futuro deste mundo, o que equivale a colher os frutos.

Já os que duvidam ou negam são combatentes tanto mais vulneráveis. Pois caso sua esperança não se realize antes de sua pressuposta dissolução ou antes da morte física, sabem que não contemplarão o desabrochar das sementes que lançaram ou o triunfo do bem e da justiça. Disto pode decorrer, não raramente, a angústia, produzida pelas continuas resistências - Por parte do sistema que é poderoso - e frustrações.

É destas situações limite, das sucessivas derrotas, da energia dispendida nos embates, das incompreensões e frustrações que resulta a necessidade da fuga. Foge-se ou perde-se a sanidade ou mesmo a vida. Problema não é fugir, mas desprender-se... Por vezes pequenas fugas são necessárias ou terapeuticas. Problema é abandonar a causa ou desertar, desencantar-se. Fugir algumas vezes, episodicamente, faz parte da estratégia, é sabedoria e solução.

Temos assim de alternar a luta com o mundo ou nossa atividade social e mesmo nossas atividades educacionais com algumas fugas.

Sabendo que temos de fugir saberemos para onde fugir com segurança, e não nos destruiremos. Alias mesmo os que dispõem do recurso da fé devem reforça-lo fugindo.

Por fuga equivocada e destrutiva entendemos a sexualidade exacerbada, a embriagues e sobretudo o consumo de entorpecentes i é as drogas. Tudo isto é busca pelo princípio do prazer num mundo doloroso e ingrato. Quando moderada é busca honesta e necessária. A sexualidade, encarada com naturalidade, faz parte integrante da vida e é fonte de prazer revigorante. Assim a bebida espirituosa consumida dentro de certos limites. E ainda se pode fumar Narguile SEM TABACO... Juntamente com o licorzinho, o chocolate (Alfarroba é mais sadia e tão saborosa quanto!), a macarronada de Domingo e o Temaki, poderia mencionar a boa música (Não estou a falar de funk, pagode ou gospel - Experimente Ray Coniff ou o Abba), o Teatro, o Cinema, exposições, etc Claro que tudo isto tem certo custo... Mas sempre podemos passear e assim contemplar o Patrimônio Histórico ou uma paisagem vegetal, assim a flora e a fauna. Há o cultivo de algum hoby como o colecionismo ou a prática de uma atividade como o artesanato. Tanto, tanto tipo de terapia... Assim nosso Pet, seja cão ou gato, com as bençãos de Nize da Silveira...

Todo ativista social ou militante ético político deveria dar espaço a tudo isto em sua vida, ao invés de concentrar-se casmurro e assim gastar-se, endoidecendo precocemente.

Quanto aos que após o sexo buscarem o alcool e após este o consumo de entorpecentes, tendem a avançar em medida. O fim do trajeto poderá ser o craque, uma ida sem volta. Tal o princípio do prazer imoderado ou da busca por sensações cada vez mais fortes e intensas. Passa-se facilmente de um a outro e chegasse ao mais intenso que é a química. Todavia o organismo humano sabe ser mais esperto e acomodar-se, atenuando, em certo prazo, as sensações e fazendo o viciado buscar sensações mais fortes. Caso tais sensações não sejam obtidas o resultado é o vazio, o tédio, a crise ou a angústia intolerável. O derradeiro estádio desta via é empregar doses cada vez maiores das drogas mais fortes ou combina-las ou ainda associa-las ao alcool e ao fumo, do que resultam as conhecidas overdoses e mortes de astros e estrelas, os quais usufruiam de milhões e 'Tudo tinham para ser felizes'. O artista sedento pela beleza a que serve ou representa, não poucas vezes toma este caminho. O cientista, o estadista e o reformador social não menos. Querem apressar a contemplação do ideal, e caem neste erro funesto.

A maior parte busca no princípio imoderado do prazer o remédio para a frustração. Outros, ainda mais valentões, ousados, irredutíveis... chegam, ao cabo de tantos golpes, a demência, a morte ou ao suicídio.

Por isso digo - Mister se faz fugir sem desprender-se por completo ou para sempre da realidade. Abastecer-se para retornar. Viver uma vida normal, comum ou média é muitas vezes mais indicado que o ascetismo, o qual só seria mais producente em situações de conflito aberto ou armado. No mais recomendamos a via do prazer racional ou limitado, inda que em gotas homeopáticas. É necessário contemplar o que há de belo no mundo e fruir dos bens relativos com seriedade. Sim intelectual, cientista, ativista, político/ético, artista... você precisa viver sua vida e precisa também distrair-se.

Então por que raios os artistas, cientistas, revolucionários, reformadores do que é reformável (Então não estou falando dos tais reformadores protestantes!), etc tomam aquela outra via, da morte e da destruição?

Devo dizer que em certos meios, mormente materialistas e autoritários (Que tanto exigem de seus quadros!), há um forte preconceito quanto a essas fugas episódicas ou fantasias da imaginação, que seus ideólogos costumam apresentar como formas de alienação. E assumem esta posição fanática e extremista face a via mais fecunda em termos de sanidade metal e prevenção de neuroses, o recurso aos contos, mitos, fábulas, lendas, parlendas e romances sejam orais ou escritos, assim a contação ou a leitura de estórias...

Claro que esta atividade também tem servido de prisão - E assim sendo fonte de alienação - para aqueles que nela se fixam perdendo de vista o paradigma da transitoriedade. Aquele que se deixa dominar pelo romantismo, substituindo a realidade concreta do mundo a ser transformado pela fantasia das narrativas orais ou escritas perde-se... Como perde-se o extremista que abstem-se totalmente delas, inclusive como lazer, distração, fuga episódica ou terapia. A questão é a mesma quanto o saber ou a ciência, o uso. Temos de saber quando abrir e fechar as janelas, e assim transitar da realidade a fantasia e V V.

Demos palma, sem rancor, aos Psicólogos, que estudaram a personalidade e a mente humanas. Ao menos inconscientemente assumimos o papel de felizes protagonistas daquilo que ouvimos ou contamos e de algum modo nos realizamos. Ao chegar a um final feliz, mesmo que na imaginação apenas, encontramos uma válvula de escape para as frustrações colhidas da arena da vida vivida. Na medida em que temos acesso a identificação e a transferência nos curamos de fato.

Contar ou ler é sempre representar e representar a nível de inconsciência é de algum modo realizar.

Então assuma a fantasia, engane o consciente, interaja com o inconsciente e seja feliz ao menos algumas vezes, obtendo alguns momentos ou fases mais descontraídos. Ao menos subjetivamente, porque você também possui uma dimensão subjetiva, mental ou emocional, seja vitorioso ou triunfante - Um rei, um príncipe, uma princesa ou dama... Alguém que conquista algo de relevante, um herói, cavaleiro cruzado, mosqueteiro...

E se tem o privilégio de possuir uma Biblioteca reserve uma Estante ou prateleira a distração, aos gibis, revistas, anedotários e livros de paisagens, caricaturas, contos, mitos, fábulas, lendas e narrativas... Dedique um espaço a Turma da Mônica, ao Tin Tin, ao Zagor, ao Fantasma, ao Conan, a Walt Disney, a Mafalda, a Super Mãe, etc Consagre outro tanto a Esopo, Fedro, La Fontaine, Perrault, Grimm, Andersen... As mitologias indiana, grega, nórdica, asteca, peruana... A Shakespeare, Molière, Tasso, Camões, Dante, Gil Vicente, etc Se aprecia, como eu, o terror, acolha: Lovecraft, Sheridan Le Fanu, Derleth, P. Merimeé, A C Doyle, R L Stevenson, Wilde, Bram Stoker, Kipling, Henry James, E A Poe, Stephen King, A Tolstoi, etc E ajunte também - Wells, Salgari, Maine Reid, Hall Caine, C S Forester, Haggard, Verne, etc Esta sessão em sua Biblioteca não será menos necessária em sua casa do que a caixa de primeiros socorros da dispensa! Será remédio para a mente, terapia gratuita, higiene mental e relativa garantia de sanidade mental. Vá a ela quando necessitar - fadiga mental - e use sem prender-se, intercale os trabalhos e atividades rotineiras e extenuantes com a distração. Assim será um reformador social ou militante mais produtivo e seguro.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Repressão sexual, civilização, barbárie e sexualidade - Ensaios sobre Freud




Uma das abordagens mais interessantes de Freud diz respeito certamente a relação existente entre repressão ou limitação do prazer e Civilização ou cultura.

Conforme teoriza ele a criação da Sociedade Civilizada só foi possível a partir da limitação do prazer. Inclusive do prazer sexual, dentre outros. Não nos esqueçamos de que o próprio ócio é um prazer.

No entanto este mesmo homem também se via ameaçado pela decadência de seu próprio corpo que é a velhice, pela enfermidade, pela dor, pelos movimentos arbitrários da natureza e, o que é pior, pelo convívio com seus próprios semelhantes. De modo que as ocasiões de sofrimento não eram poucas.

Diante disto concebeu e implementou o ambicioso plano de alterar, até onde fosse possível, as forças da natureza, tendo em vista reduzir ao máximo as ocasiões acima elencadas. A partir daí foi que surgiu a técnica e posteriormente a ciência, as quais ao menos por um tempo tornaram sua vida mais amena.

O espaço em que a técnica surgiu e em que a vida tornou-se mais amena foi o espaço urbano das primeiras cidades. Com a expansão da vida urbana é assumido um ideal de civilização ou de desenvolvimento.

Tudo isto já o sabemos...

Há no entanto muita coisa de interessante nas entrelinhas a par de algumas possíveis deduções apressadas que poderiam ser feitas. É este aspecto embutido na teoria freudiana de Sociedade que queremos abordar.

A dar a limitação do prazer e a restrição da sexualidade por impulso em termos de civilização e as civilizações por mais ou menos desenvolvidas a primeira conclusão a ser sacada é que quanto mais notável é uma civilização tanto mais repressora é. A dar tal inferência por exata seriamos forçados a concluir que as civilizações egípcia e sumeriana, grega e romana, chinesa e indiana foram acentuadamente maniqueístas, puritanas e repressoras.

Ao que parece a hipótese do Dr Freud, em termos de uma repressão meramente funcional i é relacionada com a disciplina do trabalho. As civilizações ou melhor o esforço dispendido tendo em vista a elaboração delas, teve por consequência uma redução, relacionada ao menos com o montante de tempo gasto com a obtenção de certos prazeres sensíveis, dentre os quais o sexo. Caso aqueles homens primitivos tivessem optado por estar dormindo ou fazendo sexo durante a maior parte do tempo disponível por um lado o trabalho coletivo seria impossível de ser realizado e por outro chegariam ao esgotamento. O tempo teve de ser ordenado e a fruição do prazer, do lazer ou do ócio relegada a um determinado período. Além disto, na mesma medida em que o esforço fosse tanto mais intenso e o gasto de energia maior, a própria fruição do prazer devia ser restringida.

Houve uma restrição em termos de prazer, não todavia em termos absolutos, senão em termos relativos e funcionais. Nos períodos em que não estavam trabalhando e nas horas do dia em que não estavam trabalhando aqueles homens deviam ter livre acesso ao prazer. Outro aspecto tanto mais importante e digno de ser considerado é que a restrição dos prazeres em tais sociedades, as mais avançadas, deu-se prioritariamente em termos de quantidade, jamais ou quase nunca de qualidade ou forma. Necessário ressaltar este aspecto. Quero dizer que em nenhuma das civilizações acima apontadas topamos por exemplo com a condenação de alguma forma de fruição sexual em si mesma. Assim a prostituição, assim a masturbação, assim a homoafetividade... jamais chegaram a ser questionadas em si mesmas. Restrita quanto ao acesso em termos de tempo, a sexualidade chinesa, indiana, egípcia, sumeriana ou greco romana permanece aberta, indeterminada e rica quanto as formas.

Como não pretendo escrever uma História do sexo na antiguidade ou nas antigas civilizações, digo das mais desenvolvidas e, graças as escavações em Pompéia estamos bastante bem informados sobre a presença do sexo na vida dos antigos romanos, limitar-me-ei em abordar, de passagem apenas, a sexualidade no antigo Egito. Nada ali era tabu uma vez que Ramsés, o grande Faraó, contraiu matrimônio com sua própria filha Meritamon. De fato o sexo estava difuso em toda civilização Egípcia, a começar pelo universo religioso. Aton, o deus primordial, masturba-se com o objetivo de produzir os primeiros seres divinos. Chu e Tefnut transam produzindo Geb e Nut, os quais dão origem aos primeiros reis divinos. Crianças assistiam a realização do ato sexual feito por seus pais. Noutras circunstâncias Geb pratica a auto felação. Amiúde os deuses são representados com o falo ereto, ejaculando. O próprio Faraó masturbava-se publicamente no Nilo, uma vez por ano, com o objetivo de fecundar a colheita. Segundo um mito já clássico Isis após recompor o corpo do falecido Osiris recria seu falo por meio da magia. Cenas de caça são pintadas nos túmulos significando veladamente a sexualidade. Havia um deus da líbido, da dança, da embriagues, do sexo; o qual era Bes. O papiro erótico de Turim, representando a vida quotidiana num bordel de Tebas, expõem aos leitores cenas explicitas de masturbação feminina, etc Preciso mencionar a saga do padeiro Panet? E mencionar que sequer foi castigado ou punido pela lei? Nem preciso dizer que os antigos egípcios não tinham maiores problemas com seus corpos ou com a nudez; que meninos e escravos andavam praticamente nus enquanto que as mulheres da elite limitavam-se a cobri-se sumariamente com um pano de linho fino. Nada mais comum em Deir el Medinat do que desenhos de natureza sensual ou erótica. O matrimônio era flexível, o divórcio comum, a poligamia e a semi poligamia amplamente disseminadas e a mística da virgindade ignorada. Mesmo a homo afetividade era originalmente tolerada desde que não houvesse subjugação forçada. Além disto os egípcios drogavam-se usando flores de lótus, embriagavam-se com cerveja, etc, etc, etc Prazer ali não parece ter sido tabu.

Trabalhavam, e refiro-me aos trabalhadores livres, no entanto esses egípcios dez dias durante a semana. Sendo assim como encontravam energias ou forças para praticar sexo? Acaso não estaria o sexo apenas na imaginação ou na fantasia de tais pessoas??? Algumas pinturas e representações parecem indicar-nos que a vetusta civilização do Nilo conhecia já o que chamamos de excitantes ou melhor dizendo substâncias afrodisíacas. Certamente não faziam sexo a todo tempo mas quando o faziam faziam intensamente. E no entanto apesar da fruição do prazer, seja por meio do sexo, da cerveja, dos narcóticos ou da dança, a civilização Egípcia foi o que foi. Não sobrecarregou ao extremo seu povo com tabus sexuais, os quais sequer existiam.

Quanto aos antigos indianos limitar-me-ei a mencionar que são os autores do Kama Sutra...  Diga-se o mesmo do Tantra.

Outro é o caso da sexualidade na Mesopotâmia, pelo simples fato de que achasse esta região de par com as 'terras santas' do islã e do judaísmo, e devido a presença da cultura semita. Claro que tomamos por base aqui a cultura original sumeriana ou de matriz sumeriano/asiânica, atendo-nos especialmente ao Sul desta região, ocupado posteriormente pela cultura babilônica, em oposição ao Norte assírio muito mais bem mais semitizado. Tenha-se em mente que os acádios são um povo sêmita.

Compreende-se portanto porque o tema foi relegado ao silêncio e porque a sexualidade dos mesopotâmicos foi ocultada ou mesmo negada desde os bons tempos da 'santa' rainha Vitória... Apesar disto salta a vista de todo e qualquer sumerólogo o aspecto positivo com que os antigos babilônicos não apenas encaravam mas representavam, comumente, o sexo. Basta dizer que a Epopéia de Gilgamesh refere-se ao sexo como um dos principais prazeres de que os mortais devem desfrutar enquanto passam pela vida. O texto de Shumma âlu CIV, 1,14 refere-se explicitamente ao sexo anal sem adicionar qualquer juízo depreciativo. O mesmo texto acima citado refere-se positivamente a prática homossexual desde que levada a cabo com um 'assinnu' ou prostituto profissional, excluindo a coação (outra era a postura dos assírios). Já foi sugerido alias que havia certo conteúdo homo afetivo entre Gilgamesh e Enkidu. A prostituição por fim era tida em conta de sagrada e em algumas regiões deviam as moças prostituir-se em honra a deusa do amor Astarte. O incesto no entanto é tido em conta de Tabu e a mulher goza de muito menos liberdade do que no Egito. Não se pode no entanto sustentar que a primitiva Sociedade mesopotâmico/sumeriana fosse demasiado repressora ou mesmo repressora em termos de sexualidade ou de prazer. Tornou-se no entanto cada vez mais limitada e policiadora na medida em que o elemento sêmita se foi tornando preponderante, especialmente ao Norte, entre os assírios.

Após termos passado em revista a sexualidade em tais civilizações, a saber as mais desenvolvidas e ricas da antiguidade, podemos estabelecer que mesmo admitindo-se como certa aquela redução quantitativa em termos de prazer necessária a produção da cultura, a forma por assim dizer do contato sexual jamais tornou-se objeto de tabu ou policiamento, e que inexiste por assim dizer uma relação proporcional entre restrição ao prazer ou melhor dizendo entre preconceitos de natureza sexual e grau de desenvolvimento cultural. O desenvolvimento da cultura ou o florescimento da civilização antiga não parece estar na dependência do que podemos classificar como comportamento moralista, maniqueísta ou puritano em termos de negação consciente do corpo ou do orgasmo. Tal tipo de relação é o que não se constata. Eis a primeira relação a que chegamos.

O que nos leva a um problema ou a uma pergunta.

E a existência das culturas maniqueístas implica algum tipo de relação em termos de sentido ou organização social.

Quanto a esta pergunta talvez nos seja possível sugerir um caminho novo ou diferente.

Não precisarei ser erudito ou onerar o leitor com outra aula de História com o objetivo de sugerir uma certa relação existente entre a repressão sexual, os tabus, a negação do corpo ou o maniqueísmo e o espírito agressivo ou a belicosidade de algumas culturas.

Chegado a este ponto devemos esperar pelos protestos de alguns. Os quais dirão que todos os povos e culturas da antiguidade eram agressivos e belicosos na mesma proporção. Este tipo de afirmação se me parece arbitrário e artificial, gratuito enfim. Típico daquela gente simplória que diz para si mesma: Como todas as culturas são iguais todas devem estar em posse das mesmas qualidades e dos mesmos defeitos. Aqui tudo muito apriorístico.

No entanto ousarei perguntar a toda essa boa gente relativista por que não damos com as mesmas cenas de empalamento, esfolamento, tortura, etc representadas nos painéis dos palácios assírios no contesto da antiga China? Por que no Egito temos um Akhenaton abolindo os sacrifícios sangrentos e cogitando sobre a igualdade existente entre todos os homens enquanto o rei da Assíria declara estimar tanto a boa leitura quanto o hábito de cortar as orelhas e narizes de seus prisioneiros de guerra? Por que os Egípcios após terem tomado uma cidade limitavam-se a matar ou escravizar os combatentes enquanto que o 'povo eleito de jao' i é os antigos israelitas massacravam sem piedade até mesmo as crianças, os idosos e os animais que habitavam as vilas tomadas por eles? Por que os indianos ou mesmo os egípcios não saíram pelo mundo afora gritando 'Converte ou morre'? Então pelo amor de Zeus não venham dizer-me que a violência estava presente com a mesma intensidade na antiga China e na Assíria. Na antiga Índia e no antigo Israel. Na cultura islâmica e no antigo Egito.

Indianos, Egípcios e Chineses mal saíram de seus domínios com o intuito de conquistar outros povos ou de submeter outras culturas e mesmo quando foram levados a faze-lo (no caso do Egito após as invasões dos Amu) fizeram-no muito a contragosto e obedecendo determinados padrões de humanidade. Sumerianos e mesmo os Babilônicos, durante certo tempo, tampouco fugiram a estes padrões. Outro é o caso dos Assírios, dos antigos hebreus e dos árabes cujas façanhas todos nós conhecemos muito bem. Assírios pilhavam e aterrorizavam outros povos. Os hebreus promoveram ao que parece o primeiro genocídio de que temos notícia na História e os muçulmanos, a princípio árabes em sua totalidade, buscaram levar sua jihad aos confins da terra. Do que resultou uma quantidade de agressões, mortes, derramamentos de sangue e destruição apenas comparáveis as futuras guerras dos cem anos, dos trinta anos e mundiais...

Certamente que algum estudioso tanto mais realista fará questão de apontar-me os determinantes geográficos ou climáticos, o que vem sendo apontado desde os tempos de Ibn Khaldun e foi assumido entre os nossos, pela primeira vez, por Montesquieu. Os povos do deserto - e estamos diante de três culturas sêmitas - tendem a ser mais rudimentares, agressivos e belicosos do que os povos agrícolas das planícies ou cidades, em função de suas vicissitudes como o nomadismo ou a falta de recursos. Longe de mim questionar que tais fatores possam também eles cooperar quanto a gênese deste espírito belicoso. Suspeito no entanto que neste terreno qualquer enfoque monocausal seja improcedente, e que devamos tal caráter a uma convergência de fatores, assim em parte ao clima ou ao solo, mas não somente a ele.

Há aqui algum ou alguns fatores a mais e nós acreditamos poder identificar um deles com a negação do corpo e a restrição da sexualidade intencionalmente decretadas pelo legislador com o objetivo de potencializar ou de aumentar ao máximo esta alegada agressividade já favorecida pelo meio. Que a cultura semita se tenha esforçado - muito provavelmente mais do que quaisquer outras culturas - no sentido de ocultar o corpo humano e em nega-lo se me parece indubitável. Que tenha adotado igualmente uma série de tabus com relação a fruição do prazer sexual não me parece menos evidente. Tal o escopo - a princípio - do machismo e da homofobia, e posteriormente - já no contesto judaico 'cristão' da modernidade - da monogamia, da indissolubilidade matrimonial, etc Até a formação de um super ego estritamente moralista, em conexão com uma cultura moralista, a qual impôs o recalque dos desejos como sinônimo da virtude ou ideal a ser alcançado por todo homem piedoso.

Certamente resultaria de tais medidas uma epidemia de neuroses a ponto destas assumirem um caráter coletivo, isto caso as religiões de Assur, Javé e Ala, não canalizassem toda a agressividade latente produzida pelo recalque sexual para os domínios da guerra religiosa, tornando tais povos mais agressivos do que já eram ou belicosos no mais alto grau. Pelo que vinculamos essa produção intencional de agressividade e violência a afirmação desse padrão cultural maniqueísta ou puritano e a revolta instintiva latente nesta multidão de recalcados. Em certo sentido a negação da sexualidade chegou a produzir um sentido de Tanatos, um certo desprezo pela vida e uma certa tendência para morte decorrente da infelicidade e da frustração. Não é sem menos razão que podemos relacionar a mística revolucionária assumida por certas pessoas com problemas, desajustes ou disfunções de caráter sexual a apresentar ao menos alguns revolucionários fanáticos como não realizados sexualmente e portanto como seres amargurados. A frigidez, a impotência e a impossibilidade do orgasmo tirou de tais pessoas a vontade de viver a ponto de converte-las em suicidas inconscientes. Guerras, sedições, conflitos, etc dependem de eunucos ou de meios eunucos, enfim de gente que não goza... Assim é que se formam os exércitos e multidões de incendiários revoltosos, os quais ligam muito pouco valor a suas próprias vidas.

A Idade média tinha de ser combativa. Grécia e Roma tiveram de ser combativas; pois havia toda um conjuntura externa que favorecia a combatividade. As idades moderna e contemporânea não conheceram semelhante conjuntura, e no entanto foram ainda mais belicosas. Desde o século XVI ao XIX o número de guerras e conflitos recrudesceu, declinando apenas a partir de meados do século XIX. Durante todo este tempo que vai da reforma ao período vitoriano os ideais maniqueístas e puritanos embutidos na sociedade Cristã pela cultura judaica não cessaram de consolidar-se. O que não pode ter deixado de aumentar ainda mais a pressão do recalque e portanto a produção da agressividade e o desejo inconsciente pela destruição. Desejo que originalmente inexiste, sendo produzido, bom dize-lo, pela cultura da repressão. Seja como for, durante quase trezentos anos este desejo alimentou um sem número de guerras e conflitos estimulados e sancionados pelo fanatismo religioso. Esta relação - Repressão, agressividade, conflito e Religião, marcou toda uma Era, até os idos de 1830 ou 48. Desde então assistimos, sem que o puritanismo saísse de cena (afinal estamos em sua Idade dourada que o período vitoriano), uma redução do número das guerras e dos conflitos ( a qual se prolonga até o surgimento da primeira grande guerra mundial). Neste caso que foi feito de toda esta agressividade?

Desde 1830, com a consolidação do modelo de produção liberal ou capitalista nos moldes clássicos, foi a agressividade canalizada para outros fins, assim para o mundo do trabalho, tornando sua relação com a própria sexualidade ambivalente. Até que Freud apareceu em cena, e após ele os contraceptivos e as Revoluções sexual e feminina, dispondo todas estas relações doutro modo.



quinta-feira, 4 de maio de 2017

As opiniões do sr Lebeziatnikoff

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As opiniões do sr Lebeziatnikoff de 'Crime e castigo' (Dostoevsky) fizeram-me recordar S Freud.

Mestre, não se incomoda de que os nazistas estejam a queimar seus livros?

Freud - De modo algum. Certamente progredimos muito pois a cem anos teriam queimado a mim.

E no entanto que palavras ousadas são postas por Dostoevsky na boca de um homem de 1860! (O livro foi editado em 1866).

Tão ousadas que século e meio depois continuam a escandalizar os leitores de 2017!!!

Para quem não sabe Lebeziatnikoff é revolucionário e amigo das ideias novas. Aspira reconstruir a Sociedade noutros termos, em marcada oposição aos valores tradicionais.

Um dos aspectos mais interessantes de seu discurso é o amor livre definido como especie de relacionamento ou casamento aberto em que tanto o homem quanto a mulher mantém (ou melhor adquirem) a liberdade sexual.

Nosso homem lá nos confins da Rússia imagina que tudo isto seja extremamente anti Cristão. Sem saber que do outro lado do Oceano (nos EUA) a tese era defendida justamente nos círculos Cristão liderados por Noyes e Lazarus.
Passemos sem delongas as palavras do jovem revolucionário russo:

"Nós procuramos a liberdade da mulher e o sr cogita apenas em... Pondo de lado a doutrina da castidade e do pudor femininos, como inúteis e absurdas, admito perfeitamente as reservas dela diante de mim, visto que assim usa de sua liberdade e exerce seus direitos. Mas caso me dissesse: Quero que sejas meu. Sentir-me-ia feliz, porque essa moça agrada-me muito... Jamais fizeram justiça as qualidades dela. (Refere-se a prostituta Sonia)" p 372
"O senhor ri porque não tem a força necessária para romper com os preconceitos. Compreendo que no contesto da união monogâmica e legítima constitua afronta ser enganado, é resultado da própria situação que degrada da mesma forma os dois conjuges. No entanto quando a ideia de posse for removida e estabelecido o relacionamento livre o adultério é que deixará de ter significado. Só assim a mulher demonstrará que ama o parceiro no momento mesmo em que ele deixar de por obstáculos da felicidade dela e até poderá prender-se livremente a ele. Julgo as vezes que se casado fosse - Livre ou legitimamente não o importa - e se minha mulher não tomasse amante, eu cogitando em sua maior felicidade, é que haveria de procura-lo, e dizer-lhe: Minha querida, eu te amo e por isso quero que o saibas - Eis o que te ofereço livremente..." p 379


Veja bem o que você acabou de ler, leitor do século XXI, numa obra escrita em 1866...

Se não compreendeu o aspecto revolucionário destas palavras que atravessam os séculos leia mais uma vez ainda.

Porque ainda hoje são afrontosas, escandalosas, revolucionárias, imorais, etc século e meio depois. Ao menos para a imoralidade convencional.

Refiro-me as relações de posse ou monopólio que não sejam - e quão poucas são - produto do amor e da decisão livre. Pois a maioria delas é produto do egoísmo e da fraqueza, alimentados pelos preconceitos. As pessoas se conformam - aparentemente - com a monogamia e com a indissolubilidade tendo em vista a opinião alheia ou a crença da maioria. E adotam, por falta de coragem e dignidade, um modelo de família, que lá no fundo, bem no fundo, aborrecem.

E pela repetição e pelo costume até acabam achando bonita toda essa falta de dignidade.

Claro que não me refiro aqui aos que adotaram esse modelo livremente tendo em vista suas necessidades psicológicas. Mas apenas aos que limitaram-se a aceita-lo externamente, por mera pressão social... Enfim aqueles que sentem ter abdicado de suas liberdades face a imposição alheia e arbitrária. Aqueles que sacrificaram a consciência...

Quantos e quantos ainda hoje não aderem a casamentos ou uniões aparentes apenas para satisfazer a opinião pública ou ludibria-la. Que pode haver de mais abjeto?

Que pode haver de mais indigno e asqueroso do que essa febre de traições e adultérios que prolifera por trás da quase totalidade de casamentos monogâmicos e indissolúveis, nos quais homem e mulher cogitam antes e acima de tudo sobre a melhor maneira de enganar o outro!

Eis o reinado abjeto, asqueroso e imundo da hipocrisia.

Não estou aqui a decantar contra a existência de uniões estáveis desde que verdadeiramente livres. Não, de forma alguma. Até concedo que sejam viáveis senão essenciais a certas estruturas psicológicas.

A questão aqui não é a companhia ou o amor. Mas o próprio sentido do amor com relação ao sexo.

Afinal traição só faz sentido se há posse ou monopólio.

Atraiçoo a alguém caso pertença a alguém.

Agora se pertenço a alguém certamente sou propriedade de alguém e alguém proprietário (a) meu...

Ah mas um pertence ao outro... A relação de posse e propriedade é recíproca.

Mas desde quando uma situação deixa de ser abjeta pelo simples fato de ser compartilhada?

Desde quanto escravidão, assassinato, roubo, etc convertem-se em ações virtuosas desde que compartilhadas?

Desculpem-me os leitores mais susceptíveis mas tenho de dizer: Caso o ser humano possa ser mesmo propriedade de outro ainda estamos lá no tempo do - Não cobiçaras a tenda do teu próximo, o boi do teu próximo, a ovelha do teu próximo, a MULHER do teu próximo... Porque ainda aqui, homem ou mulher já não se distinguem em nada de quaisquer outros objetos de posse, assim da mesa, da cadeira, do sofá, da televisão, do cavalo, do camelo...

Posso compreender que o homem entre na legítima posse pessoal da terra por ele trabalhada e dos objetos que adquiriu a partir do produto de seu trabalho. Pois trata-se daqui de elementos desprovidos de racionalidade e de vontade própria. Uma cadeira não tem consciência de si mesma, uma mesa não pode dispor de si mesma...

Agora como podemos entrar na posse de um ser racional e livre, exceto ele conceda em tal relação sem ser pressionado por qualquer fator de origem externa a si. Ora até hoje os homens e mulheres tem consentido em ser monopólio de outros apenas por força de uma lei externa ou de preconceitos sociais.

Dai a necessidade de desregular o matrimônio e torna-lo absolutamente livre para torna-lo verdadeiro e saber em que medida as pessoas aceitarão livremente ser monopólio de outras. Uma coisa porém é absolutamente certa: Pessoa alguma deveria ser obrigada, por lei alguma, a tornar-se objeto de posse de outra pessoa.

Não somos contra a posse ou o monopólio, desde livre e sem qualquer interferência social ou estatal. Para que o matrimônio monogâmico ou indissolúvel adquira a respeitabilidade revindicada por seus defensores, deverá ser livre. Imposto mostra-se falacioso. Os homens burlam as leis, enganam-se uns aos outros, criam um reinado de hipocrisia, envenenam as fontes da ética e tudo termina em chalaça.

Pessoas há que mesmo aspirando por companhia e amando a pessoa com que vivem não aspiram por essa posse, controle ou monopólio sexual, encarando tal posse como absurdamente ridícula. Tais pessoas não confundem o sexo ou o prazer sexual com o sentimento ou o amor e não misturam uma coisa com a outra. Por isso não se sentem desonradas quando o marido ou a mulher notifica que deseja sair com fulano ou beltrano. Muito pelo contrário mostram-se felizes pelo simples fato da pessoa a que amam ter acesso ao prazer e ser feliz, e chegam ao ponto de se sentirem gratas aquele ou aquele que proporciona prazer ao objeto de seu amor. Pelo simples fato de amarem... Porque amo verdadeiro não conhece limite.

Amar já foi dito não consiste em buscar a própria felicidade mas em buscar a felicidade do outro ou por a própria felicidade na felicidade alheia, como que empenhando-a. O que certamente excluí a posse, o controle, o ciúme, etc Pois tudo isto é opressão e nada disto é amor.

Direi mais: Uma hora a busca pelo prazer sexual chegará ao fim. A multiplicidade de vivências ou experiências sexais trará certamente a saciedade. O amor, a estima, o companheirismo, o vínculo criado, apenas isto permanece para sempre. Nada mais delicioso do que uma pessoa sendo livre oferecer-se exclusivamente a outra... Isto sim é que se chama conquista. O resto não passa de prisão.

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Tais os sentimentos e opiniões de Andrei Semyonovitch Lebeziatnikoff... enunciados em 1866!




sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Objetividade ética - Critério humanista

Para mim humanismo não é mera questão de opinião ou ponto de vista, mas de objetividade essencial.

Justamente por não 'admitirmos' a objetividade essencial das coisas somos absolutamente levianos, acomodados, descompromissados, insensíveis.

Graças a essa brincadeira de muito mau gosto alimentada pelo ethos burguês chegamos a duvidar da existência do ser e consequentemente da existência da pobreza, da injustiça, da miséria, da opressão, da dor e do sofrimento alheio, como o qual nos acostumamos a conviver folgadamente. Não nos empenhamos efetivamente na construção de um mundo melhor, mais justo, humano e fraterno pelo simples fato de crer que tudo não passa de aparência ou ilusão.

Para quem vive bem é fácil crer que a experiencialidade da vida alheia, da vida real e vivida, seja ilusória ou aparente.

Quem sofre sofre e por isso não esta interessado no númeno ou na coisa em si imaginada pelos filósofos de gabinete, geralmente bem vestidos e alimentados.

Ser cético face a dor alheia não é ser pensador ou filósofo. Me perdoem é ser cruel, canalha ou psicopata.

O grito de angústia do outro me faz perceber seu sentimento como real.

Chagas purulentas, farrapos, comida podre, palafitas, pontes de madeira, lama podre... é inferno real sobre a terra e sou chamado a posicionar-me face a ele ao invés de ficar diletando...

Para mim a negação do mundo implicará sempre na aceitação do mundo tal qual é e portanto em colaboração e servilismo. Aceito a realidade do mundo para empenhar-me em transforma-la.

Foi da imoderação dos céticos que partiu a negação da Ética e da negação da Ética ou do cientificismo comteano todas as culturas de morte que assombram o Ocidente. E o ceticismo com seu utilitarismo, com seu pragmatismo, com seu emotivismo e sobretudo com o relativismo crasso não lhes opôs resistência alguma. Deixou-nos indefesos face ao liberalismo crasso, o fascismo, os militarismos, o nazismo, o comunismo, etc Batemos de porta e porta pedindo ajuda a essas ideologias necrosadas e não achamos resposta alguma, apenas opressão e sórdida opressão e esmagamento do homem!

O ceticismo metafisico lanço-nos neste báratro de estruturas econômicas ou sociais e nos perdemos por completo e chegamos a negação do outro. Negamos o outro pelo dinheiro, pela raça, pela pátria, pelo partido, pela categoria, pelo gênero... Rotulamos, etiquetamos, desumanizamos...

Tudo porque lá atrás, lá no passado, algum gênio do mal ou ídolo podre declarou que nossa ética sendo meramente subjetiva, relativa e irracional não possuía qualquer padrão ou critério satisfatório.

Objetiva era apenas e tão somente a ciência material e empírica, filha das provetas e tubos dos laboratórios.

Como a Ética não fraciona, não conta, não mede, não pesa, não prevê... passou a ser identificada com os costumes ou preconceitos legados pelo passado remoto ou como resíduo transmitido a estes tempos áureos de par com as superstições mais degradantes...

No entanto era necessário substituir a Ética por alguma coisa. A princípio escolheram a 'deusa' razão. Mas o racionalismo de Voltaire, Rousseau, Diderot, Maine du Biran, Jouffroy, Damiron, Cousin, Renan, etc continuava remetendo os homens a um Ser Supremo e Legislador Eterno. Derribaram-na e entronizaram em seu lugar a ciência, e em seguida o capital, a pátria, a raça, o partido, etc E um deus foi derrubando e devorando seu predecessor... Alguns deuses apenas definharam, outros ressuscitaram quase que miraculosamente; e chegamos a esta luta inglória entre 'pés de barro' que consome as energias do mundo ocidental enquanto o abutre do islã permanece a espreita. A espreita duma civilização, que a semelhança do antigo Império romano, fragiliza-se dia após dia...

Quando encaro a infeliz Europa infeccionada pelos germes cadavéricos do ceticismo, do relativismo, do subjetivismo e das culturas de morte, ocorre-me a imagem horrenda do menino etíope, esquelético, observado pelo abutre faminto.

E ai esta o abutre... Lá em Paris o islamismo, aqui o pentecostalismo, nos EUA o Belt Bible...

Talvez a única liberdade que tenhamos seja a de escolher o monstro porque seremos devorados.

No entanto como ainda não morremos, não demos o último suspiro, não soltamos a respiração, não fomos devorados, temos ainda esperança.

No vestíbulo ainda do inferno de Dante resta-nos ainda um pingo de esperança.

E acreditamos que o cidadão ocidental, superando os preconceitos americanistas e pós modernos (que são o câncer desta civilização moribunda), será cada vez mais de contemplar seu passado, seja ele medieval ou clássico, e reencontrar-se nele ao descobrir as fontes e o sentido de sua cultura original.

Nestes tempos há quem aposte em Marx, em Mises, em Rootbarth, em Stirner, em Lutero, em Calvino, em Nietzsche, em Durkeim, em Dawkins, em Trump... Nós esperamos decididamente em dois derrotados: Num envenenado e num fugitivo ou seja em Sócrates e em Aristóteles, aos quais bem poderíamos adicionar um revolucionário e contestador supliciado nos confins da Judeia. São nossas fontes de inspiração juntamente com o já citado Marx, Weber, Darwin e especialmente Mestre Freud.
A eles: Sócrates e Jesus é que tomamos nosso critério ou padrão de Ética: O homem, sua vida, sua dignidade e sua liberdade.

Pois quando discursamos sobre este homem discursamos sobre nós mesmos lançados que fomos na mesma condição.

Todos conhecemos de perto a dor e a aborrecemos. Todos conhecemos por experiência o prazer e o desejamos, embora não sob a mesma forma!

O problema aqui não é a busca pelo prazer ou a fuga face a dor.

O problema é o outro.

O outro e nossa busca pelo prazer. O outro e nossa fuga face ao sofrimento.

Podemos sacrificar o outro, que é semelhante a nós, tendo em vista a aquisição do prazer ou a eliminação da dor?

Podemos usar o outro para adquirir o prazer ou suavizar a dor?

Podemos por de lado o elemento humano e cogitar apenas na dor e no prazer como fenômenos abstratos?

Qual deveria ser nossa intenção, a intenção reta, a intenção pura?

Como identificar-se é reconhecer a semelhança e admitir que também o outro foge a dor e busca o prazer, a reflexão é pertinente.

Na vida vivida em que fomos lançados isoladamente conseguimos muito pouco e sempre temos laços de dependência mútua.

Assim se hoje os outros dependem de nós, amanhã bem poderemos depender deles.

E quase sempre esperamos algo dos outros.

E até calculamos o que devemos fazer para agradar os outros e ser favoravelmente satisfeitos.

Tendemos a confiar na reciprocidade.

É uma tendência natural esperar o melhor do outro, especialmente quando nos adiantamos e beneficia-mo-lo.

Quantas vezes não recebemos nada do que desejamos justamente porque nada demos e fizemos por merecer?

Neste sentido adiantar-se e beneficiar o outro - ao menos desde que não haja dano ou prejuízo para nós - parece ser a atitude ou critério mais sábio.

Pois se tratarmos os outros como desejamos ser por eles tratados e portanto sempre que possível for amável e benignamente, honramos a natureza comum.

Ademais na medida em que nossas atitudes forem sendo imitadas pelos demais e a corrente do bem tornando-se mais densa as chances de sermos nós mesmos beneficiados irão se tornando bem maiores. Trata-se portanto dum princípio que se levado a sério melhorará a vida de todos.

Da mesma forma, se esperamos que não nos façam quaisquer males comecemos abstendo-nos de fazer mal aos outros. De modo que nosso exemplo venha a ser imitado e o mal entre em declínio.

Evidentemente que este padrão de comportamento nos remete a espécie ou gênero humano em termos de solidariedade.

Ao fazer mal a mesma qualidade que esta no outro faço mal a mim. Pois pela razão, a liberdade, a vontade, a percepção, etc estou no outro e sou um com ele. E ao beneficia-lo beneficio a mim mesmo.

Assim nosso padrão ou critério será o homem ou melhor ainda a humanidade, a espécie humana; e tudo quando a favorece.

Agora quais os bens mais caros e preciosos ao homem?

Antes e tudo a vida! Condição primária para que tenhamos acesso a todos os outros bens oferecidos pelo universo. Não há como ter acesso ao prazer sem estar vivo.

Assim a Ética da pessoa valorizará antes de tudo a vida, e se oporá decididamente a morte, assim ao assassinato e assim a pena capital (embora aqui possam ser feitas algumas exceções).

No entanto esta vida deve valer a pena. Devendo ser digna para ser prazerosa.

E por dignidade devemos considerar antes de tudo a ausência de dor.

Sob pretexto algum seria lícito fazer o outro sofrer, assim profanar-lhe o corpo, mutilar seus membros e tortura-lo. É crime dos mais perversos e abomináveis digno apenas de psicopatas e povos bárbaros.

A integridade do corpo, seguem-se em matéria de dignidade humana a saúde, a alimentação, a vestimenta, a habitação e o lazer.

Abster-se-a o homem virtuoso de comprometer direta ou indiretamente a saúde, a alimentação, a habitação e o ócio alheios. Jamais poderá subtrair remédios, comida, bebida, roupa, brinquedos, etc aqueles que os tenham adquirido honestamente e deles façam uso.

Agora como tais bens costumam ser adquiridos pelo próprio sujeito as custas do valor auferido pelo trabalho que exerce, chegamos a questão da propriedade pessoal. A qual jamais deverá ser confundida com a posse dos meios de produção, esta sempre poderá ser questionada e ter sua legitimidade negada; aquela jamais. A propriedade pessoal é sagrada e inalienável e sua apropriação por particulares ou pelo Estado um crime abominável.

Por propriedade pessoal definimos os proventos obtidos por meio do trabalho. Assim o salário ou estipêndio, bem como todos os objetos ou coisas adquiridos a partir dele. Portanto se um imóvel foi comprado por um trabalhador com as economias advindas de seu trabalho temos propriedade pessoal e portanto intocável. O homem virtuoso jamais ousará apropriar-se de qualquer objeto adquirido as custas do suor alheio, assim não furtará.

Obviamente que isto não toca a questão da herança, do excesso, do acúmulo, etc mas apenas das propriedades e bens adquiridos com o suor do trabalho e USADOS pela família.

Claro que tudo isto nos leva a questão da justiça pessoa e social.

Em termos clássicos definimos a justiça como dar a cada qual aquilo que lhe pertence. Isto apenas é certo, correto e direito.

Aquele que trabalhou e produziu pertence ao menos parte da produção em termos de valor. Como aquele que plantou uma árvore e dela cuidou merece colher os frutos e degusta-los. E aquele que semeou o trigo e por ele velou pertence o direito de ceifa-lo e converte-lo em pão. E aquele que adquiriu a uva e transformou-a em vinho em seu lagar, a felicidade de bebe-lo.

O compromisso do homem com a justiça implica questionar sempre se as pessoas estão tendo acesso aos bens que ajudaram a produzir, e a analisar e a questionar a repartição dos bens.

Há por fim aquela Ética atinente a liberdade humana ou a auto determinação da pessoa e que diz respeito a suas escolhas. Implica admitir que as pessoas possam exercer o ofício que bem quiserem, acreditar no que quiserem (ou não), expressar-se como desejarem e determinar o que haverão de comer, beber, trajar, ouvir e com quem haverão ou se haverão de casar ou com quem haverão de transar... etc, etc, etc.

Como todos desejamos ser livre e determinar nossas vidas é perfeitamente compreensível do ponto de vista racional, que reconheçamos a liberdade alheia. Afinal na mesma medida em que aspirarmos dominar os outros, outros aspirarão dominar-nos. Então o menor é que respeitemos as liberdades uns dos outros numa perspectiva comum. Claro que a dimensão da liberdade tem um limite bastante preciso: A vida, a dignidade alheia e os imperativos da justiça. Grosso modo podemos dizer que a pessoa tudo pode exceto causar dano ou prejuízo ao outro.

Chegamos assim ao supremo critério de ética.

Se o padrão é o outro e aquilo que o outro teme é a dor ou o sofrimento, segue-se que posso fazer absolutamente tudo quanto me der na telha, desde que não atinja ou acometa o outro.

Por este critério temos o fim da moralidade enquanto costume arbitrário e a consagração de uma ética essencialista, humanista e racional.

E temos como saber perfeitamente que a norma: "Não vestireis ao mesmo tempo roupas de lã e linho." em termos de Ética não faz sentido algum pelo simples fato de que a associação dos dois tecidos não prejudica a quem quer que seja.

Dá mesma forma o preceito: "Proibido comer coscorões." torna-se igualmente irrelevante pelo simples fato de não tocar ou atingir a pessoa humana.

Já a recomendação para amar, beneficiar, respeitar e tornar felizes o maior número de seres humanos converte-se em imperativo categórico, num mandamento ou numa necessidade.

Promover o outro em todos os sentidos e sob pretexto algum incomoda-lo. Aqui temos uma regra de ouro.





quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Tópicos de Filosofia grega - Ética: a virtude e o prazer; em busca da síntese.

Exposição



Segundo Aristóteles o homem existe para a felicidade: "A felicidade é o bem para que tendem todos os outros atos e o impulso intencional de nossas motivações." .Esta doutrina recebeu o nome de Eudemonismo, pois toma a felicidade por fim.



Ora esta definição comum em nada nos satisfaz uma vez que os próprios hedonistas admitiam ser a Felicidade o bem maior ou a destinação final dos atos humanos. Importa saber o meio porque tal fim era atingido ou aquilo que tornava o homem verdadeiramente feliz.



Aristóteles, aqui seguindo a Platão e a Sócrates, classifica os atos aptos para produzirem a felicidade como VIRTUOSOS. Para Sócrates, Platão, Xenócrates, Aristóteles, etc a felicidade esta diretamente relacionada com a ARETÉ ou virtude.
Consideravam ainda que existiam diversos tipos de virtudes e procuravam organiza-las hierarquicamente. Sócrates e Platão ao que parece colocam a Justiça em primeiro lugar. Já Aristóteles colocava em primeiro lugar a contemplação da verdade pelo intelecto ou a posse do conhecimento. 

Crisipo, Seneca e Epicteto, estoicos, indicaram igualmente que o fim último da criatura racional fosse a posse da felicidade. A qual segundo o fundador da Escola era atingida pela prática da virtude ("O verdadeiro Bem pode consistir apenas na posse da virtude!"), compreendida por eles como qualquer ação empreendida em coerência com a natureza (Cleanto de Assos). Agir naturalmente ou segundo a natureza era para eles, agir virtuosamente. Enfatizavam no entanto a posse da serenidade ou impassibilidade, mesmo diante de situações dolorosas ou trágicas.

Os estoicos não podiam encarar a dor física como mal supremo ou mesmo como mal, mas como adiaphora ou coisa neutra. A respeito da saúde, da beleza, da glória, da riqueza, da doença, da fealdade, da obscuridade e da miséria i é dos bens/males naturais ou transmitidos, costumavam declarar a mesma coisa. Esta proposição foi ao que parece tomada a Platão Espeusipo. Xenócrates parece ter sido o primeiro a classifica-las como bens inferiores ou de segunda classe, isto na medida em que eram virtuosamente administradas em comunicação com os bens superiores.

Crisipo opinava que as pessoas vulgares e hostis a Filosofia tomavam tais dadivas naturais por bens preciosos, acrescentando que o sábio apenas deles se servia com moderação, subordinando-os a uma direção virtuosa ou que não se deixava afetar por eles. 

Os cínicos mantiveram a opinião de Platão ou Sócrates. 

Já os hedonistas sustinham que a felicidade tinha sua causa na fruição do prazer.



Mas não estavam de pleno acordo a respeito de qual gênero ou categoria de prazeres estava posto para a aquisição da felicidade.

Assim Arístipo de Cirene, pupilo de Sócrates, afirmou que a fruição dos apetites carnais ou sensitivos como comida, bebida e atividade sexual constituíam o sentido da vida humana e que a dor, incluindo a dor física, correspondia ao mal supremo. Teodoro de Cirene e Exegias também assumiram este ponto de vista.

Escolasticamente cumpria verificar quais fossem os prazeres mais intensos e duradouros.

Epicuro também afirmou o prazer como sumo bem a ser desejado pelos mortais. No entanto sua ideia de prazer parecer ser bastante afim da ideia aristotélica de Felicidade, de modo geral ele associa este prazer espiritual ou felicidade não apenas com a ausência da aponia ou dor física mas sobretudo com a ataraxia, definida como imperturbabilidade da alma adquirida por meio do auto controle. O sábio estabelecia uma espécie de hierarquia de prazeres, fruindo cada qual deles com certa moderação até que já não podia ser atingido pelas circunstâncias exteriores a si.

A princípio Epicuro parece ter dado bastante valor a saúde corporal, posteriormente no entanto parece ter colocado a amizade acima dela, o que ainda aqui reporta a Sócrates.

Já o estóico Cleanto de Assos parece ter chegado as vias do maniqueísmo, classificando a fruição do prazer como "Oposta a natureza" e "Nociva" 



Desenvolvimento

O primeiro aspecto que nos chama a atenção aqui é a convergência de sentido entre Felicidade e Prazer.

Nem podemos deixar de encarar a Felicidade como algo agradável ou prazeroso.

Tudo quanto podemos dizer é que a Felicidade corresponde a um tipo de prazer tanto mais complexo e refinado. Um tipo de aestesis ou sensação difusa na pessoa como um todo e presente tanto no intelecto quanto no corpo físico. Uma espécie de prazer considerado pelo intelecto e consequentemente ampliado e aprofundado, chegando a constituir um 'estado de espírito' ou modo de ser.

Podemos defini-la ainda como um bem estar ou consciência de bem estar.

Seja como for nenhuma destas definições afasta-se demasiadamente da noção de prazer ou deleite.

A felicidade é sempre algo deleitoso, agradável ou prazeroso e nem podemos pensar doutro modo ou maneira.

Assim se compreendemos felicidade como prazer, a tão decantada oposição entre eudemonismo e hedonismo perde toda sua força.

Examinemos agora a questão dos prazeres.

Para que não tomemos a felicidade pelo que não é.

Antes porém convém analisar a questão da conformidade das ações com a natureza.

Isto porque da satisfação de algum instintos parece quase sempre resultar uma sensação prazerosa.

De fato os instintos parecem estar voltados para determinados fins, grosso modo para a contemplação de certas necessidades imperiosas ditadas pela natureza, a qual para estimular esta contemplação, decretou que a satisfação de tais necessidades correspondesse sempre a uma sensação prazerosa.

Assim após a satisfação de cada apetite resulta uma sensação deleitosa ou certo bem estar.

Do ponto de vista da natureza é o prazer grande benefício. Pois sem este tipo de sensação os organismos em sua fase mais primitiva e inconsciente, quiçá não se sentissem impulsionados a satisfazer suas necessidades essenciais, de que resultariam graves consequências. Nem podemos deixar que reconhecer que a satisfação dos apetites é benéfica tendo em vista a manutenção da vida corporal ou física, e que esta é condição 'sine qua nom' para o exercício da virtude.

De tais relações resulta que ao menos remotamente o prazer apetitivo, sensório ou corporal é um bem enquanto ponto de partida necessário para a posse de outros bens. É bem relativo, secundário e remoto mas mesmo assim um bem como anteviu Xenócrates. Nem se pode, dentro do quadro geral da vida, classifica-lo como Cleanto, ou seja, como um tipo de mal.
No entanto quanto a criatura adulta, desenvolvida, racional e livre também não podemos encarar a fruição dos prazeres apetitivos como o bem supremo ou a chave da felicidade. Cumpre advertir no entanto que de certo modo a felicidade esta relacionada com os ideais acalentados pela pessoa ou com a mente.

Assim para a mente carnal, limitada, vulgar, grosseira, primitiva, etc o ideal de felicidade poderá consistir na fruição dos prazeres apetitivos ou sensoriais e resumir-se em comer, beber e procriar; isto pelo simples fato de ignorar outras possibilidades ou tipos de prazer, quais sejam os de categoria intelectual ou ética. Nem todas as pessoas, por uma questão de formação, são capazes de deleitar-se ao contemplar uma quadro ou escutar uma sinfonia. São incapazes de frui-lo ou de percebe-lo porque não foram educadas para isto... e isto não faz sentido para elas. Concentraram suas energias nos apetites e assim só são capazes de captar os prazeres produzidos pela satisfação dos mesmos.

Quero dizer com isto que alguns tipos de pessoas podem ser sentir felizes ou auferir uma sensação de bem estar apenas com o beber, o comer e o transar; e nem podemos declarar que a felicidade delas seja menor ou inferior a que é sentida por nós ao contemplar um edifício de linhas harmoniosas ou a assistir um espetáculo teatral. Não há um aparelho com que se possa mensurar a felicidade. O máximo que podemos dizer é que somos capazes que fruir uma gama maior de prazeres, parte dos quais ignorados por elas.

E como a felicidade fruída por elas não contempla todos os aspectos do ser ou da personalidade - ignorando o racional e o ético - podemos cogitar que a nossa seja mais vasta e constante. Quanto a dor já atinamos ser boa em algumas circunstâncias. No entanto é certo que dela fugimos e mais ainda da enfermidade, a qual sendo crônica ou incurável não pode ser classificada como algo bom. Tampouco podemos concebe-la como um mal absoluto, mas apenas como um mal relativo caso não nos leve a praticar voluntariamente uma ação prejudicial ou danosa.

Uma coisa parece certa: aquele que aprende a fruir outras formas mais refinadas de prazer como a contemplação do belo (música, teatro, poesia, etc) ou a amizade parece ter encontrado meios com que aliviar os tais males relativos procedentes do corpo físico. E quando o corpo físico declinar terá feito boa provisão... queremos dizer com isto que bem poderá consolar-se da insensibilidade do paladar, da frigidez ou da impotência sexual ouvindo belas canções, compondo poesias, pintando, desenhando, esculpindo, exercendo voluntariado, etc Assim não ficará exasperado, como aqueles que perdendo tais sensações ficaram privados de todo e qualquer tipo de sensações prazerosas.

Eis porque é proveitoso ampliar desde cedo o sentido do prazer.

Por outro lado não podemos deixar de reconhecer que mesmo a fruição dos prazeres apetitivos numa perspectiva natural comporta certos riscos ou perigos que devem ser considerados por ocasionalmente exigirem de nós a abstenção, a contenção e consequentemente o treino ou adestramento, caso desejamos evitar o mal maior da dor, o desastre ou a ruína. Nem sempre a criatura racional poderá satisfazer os apetites alheio a quaisquer circunstâncias de carater externo, o que nos encaminha mais uma vez a questão da hierarquia dos prazeres e da temperança ou sobriedade.

Caso nos tornemos escravos dos apetites por força do prazer e do bem estar podemos sempre estar entrando por um caminho áspero. Daí a necessidade de certo auto controle, resistência ou autonomia; enfim certa dose de liberdade. Na qual pode estar nossa redenção ou melhor preservação.

Todos precisamos de água para beber e devemos bebe-la de tempo em tempo sob pena de perecer. No entanto caso tenhamos acesso a algum tipo de água contaminada faz-se mister evita-la e buscar por qualquer outra reserva ainda que sejamos prezas da sede. Em tais conjunturas os que por hábito resistirem e forem capazes de esperar por outra provisão, no caso saudável; terão escapado a morte ou a algum tipo de enfermidade dolorosa... é sempre mais vantajoso esperar um pouco mais e ingerir água pura do que água suja, mas isto dependerá sempre do hábito.

O mesmo se dá com o alimento.

Aqueles que passarem por situações de fome ou privação por um tempo determinado após o qual haverão de receber alimentos bons, muito lucrarão de durante o tempo da privação abstiverem-se de alimentos venenosos, deteriorados ou contaminados pelas mesmas razões acima expostas.

Por fim quem de nós haverá de negar que é melhor abster-se de transar do que transar com pessoas enfermas sem preservativo??? Expondo-se a contrair AIDS ou Hepatite...

Mesmo em caso de dúvida seria melhor abster-se.

Tendo em vista futuras situações de dor e morte.

Concluímos certificando que nem sempre a fruição do prazer e a decorrente sensação de felicidade ou bem estar corresponderá a um verdadeiro bem, uma vez que deste bem decorrerão males muito maiores! No caso apenas a abstenção ou a privação equivaleria a um verdadeiro bem.

Epicuro foi quem intuiu tais coisas ao declarar que era melhor fugir a excessos ou exageros quanto a satisfação dos apetites e a decorrente fruição do prazer durante a juventude, tendo em vista a conservação da saúde por mais tempo, especialmente durante a velhice.

Este pensador parece ter percebido que a concentração na fruição do prazer pelo prazer, desvinculada dos fins naturais a que tendem e a satisfação da necessidade, parece parece estar relacionada com a deterioração precoce do corpo físico ou com a perda da saúde e a consequente manifestação da enfermidade e da dor. Inferindo que a fruição dos prazeres apetitivos devia ser exercida moderadamente ou em conexão com seus fins. Assim dizia Sócrates o que come deve ter em vista não apenas o sabor mas antes de tudo a satisfação da fome e o que bebe ter em vista não o gosto mas a extinção da sede. Classificava os que bebiam sem ter sede e os que comiam ser ter fome, jungidos pelo gosto ou pelo paladar como escravos dos sentidos.

Não se trata aqui de negar o prazer na perspectiva de Cleantes e dos maniqueus, mas apenas e tão somente de situa-los no contesto mais amplo da existência e do fenômeno humano. O que se contesta aqui é do comer, beber ou transar encarados como sentido da vida. Assim a gula, a embriaguez ou a lubricidade e não a alimentação ou a sexualidade.

Em tais casos é necessário manter uma visão sóbria e equilibrada. E contemplar o homem como um todo!

Importa saber que não podemos confundir - como Aristipo, Teodoro, Exegias e os modernos - a posse da felicidade em sua acepção mais ampla e profunda com a fruição descontrolada dos apetites ou o prazer sensorial.

Podemos admitir que no contesto de uma vida virtuosa, ela corresponda a um bem de condição inferior, mas não ao bem superior ou a virtude, uma vez que esta só existe no plano da liberdade ou da escolha. Aqui apenas o celibato tocaria a virtude, caso fosse posto a serviço das virtudes superiores como a causa da justiça por exemplo. Mesmo enquanto opção livre esta 'virtude' jamais deixaria de ser um meio para tornar-se virtude em si mesma.

E sempre alguém poderia cultivar a vida celibatária tendo em vista consagrar-se a atividades viciosas. Como aquele que se torna-se celibatário tendo em vista amealhar mais dinheiro e juntar fortuna superior a dos demais.

É o que temos por hora a declarar sobre o prazer, o bem, a virtude e a felicidade.

Resta-nos agora examinar a questão da utilidade.