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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O convidado que chegou atrasado ou dialogando com Roger Scruton (Como ser um conservador) I - Como me defino eu> Um sócio conservador kkkk







Após ter lido Russel Kirk e a "Anatomia" de John Gray eis que estou a ler o recentemente falecido Roger Scruton (Como ser um conservador, 12 Ed, Record, 2020) e consequentemente a dialogar com ele, posto que toda leitura crítica é um diálogo e a única leitura reverente ou acrítica que faço é a do Evangelho (Não disse bíblia ou antigo testamento ou mesmo Novo Testamento, mas apenas e tão somente Evangelho i é as palavras de Jesus Cristo). 

No entanto antes de iniciar meu dialogo com o sr Scruton desejo fazer algumas observações bem humoradas sobre mim mesmo e sobre o conservadorismo, assim sobre o conservadorismo brasileiro.

Principio registrando que a sociedade brazundanga adora falsos dilemas, radicalidades inúteis, extremismos tolos, etc 

De modo que faz eco das inanidades 'made in EUA' (E de Scruton)> Quem não é capitalista é um comunista ou bolchevista e quem não é bolchevista deve ser, necessariamente um entusiasta do liberalismo econômico (Nome científico do Capitalismo - Afinal os cientistas não dizem 'Limão' porém 'Citrus limonum' e tampouco 'gato' mas 'Felix catus'). Para nossos 'civilizados' brazundungas, encantados pelos pastores yankees, não há socialismos, ou anarquismo ou mesmo algo próximo de uma doutrina social da igreja, porém apenas liberalismo econômico e comunismo diabólico e se você se recusa a admitir o batismo e canonização do lib. econ. naturalmente que está do lado do capeta...

Naturalmente que não me enquadro nesse esquema simplório e dualista, fruto de mentes rasas e infantis. 

Comunista não são por diversos motivos, especialmente devido a tal ditadura do proletariado. Quanto a isto tenho é - Ainda que leves e críticas. - tendências anarquistas (Lamentavelmente Scruton não preparou capítulo com o título: 'A verdade no anarquismo') e consequentemente repudio todo e qualquer tipo de ditadura, tirania, despotismo, etc  seja de direita, esquerda, centro, etc E concordo com Scruton e outros quanto a liberdade corresponder a um valor essencial e inegociável que nos foi legado pela civilização. E quando me refiro a liberdade no seu contexto político me refiro a democracia e ao liberalismo político, com as decorrentes limitações éticas impostas pelos direitos essenciais da pessoa humana.

Nem creio que possam, a justiça ou a liberdade, serem outorgadas, dadas ou concedidas por qualquer elite, grupos, quadros, etc 

E tampouco creio em qualquer tipo de Revolução iconoclástica capaz de alterar a dinâmica da cultura por meio da violência ou da força. Admito sim a aplicação controlada da violência, atrelada ao conceito de sedição, ou na eliminação de uma ordem insuportável e cruel. Não a mística de uma violência desbragada com poderes mágicos quanto as estruturas culturais estabelecidas, e quanto a isto sou um cético absoluto. As revoluções são todas falaciosas - Desde a revolução primordial, i é, o protestantismo, até as mais recentes, i é, o comunismo. - já devido ao montante humano sacrificado (Vejam só o Paul Pot citado por Scruton) já porque revertem. Portanto a questão do custo benefício é especiosa, mesmo quanto as mais bem sucedidas, como a francesa e a russa.

O que não quer dizer que não venham a acontecer. Sendo quase que inevitável sua afirmação. Não por culpa dos revolucionários malévolos, como talvez suponha o sr Scruton, e sim por culpa da ordem precedente e de seus vícios insuportáveis. De modo que se, como dizem foi a dita reforma protestante (Eu discordo) uma resposta a condição do papismo na Europa ocidental, com mais razão foi o comunismo uma amarga resposta a uma ordem ainda mais amarga i é a do liberalismo econômico em seu auge. (E aqui eu concordo).

Por não crer na Revolução não sou anti revolucionário no sentido de fazer oposição ou dar combate violento a qualquer revolução. Creio na profilaxia social, toda a revolução se evita com sábias e oportunas reformas - Já dizia o sábio chinês Confúcio... Outras até merecem adesão e apoio, não porque se creia em seus objetivos gerais, certamente utópicos, mas apenas por se oporem a uma ordem excessivamente injusta e cruel. Há quem aqui prefira a neutralidade, eu no entanto me recordo da lei grega de Sólon sobre os que não assumem facção ou tomam partido.

Seja como for não creio em Revoluções e as tenho por trágicas, assim a guerra de modo geral, embora não a possamos evitar tendo em vista as exigências da justiça.

Outro aspecto que me põem em acordo com Scruton é que essas místicas sociais ou ideologias, adotam um modelo social geométrico, com propósitos demasiado abstratos e uniformes além de planos que implicam uma hierarquização e centralização excessivas ainda quando pretendem das combate a alguma tirania e até mesmo conquistar certas liberdades. Tudo muito burocrático e metódico, a parte da estrutura ou da realidade social e na dependência de um futuro aparelho repressor.

É o quanto me basta para incompatibilizar com o comunismo, mesmo quando alguns de seus membros aspirem sinceramente pela redenção do homem, i é, pela erradicação da injustiça social, pela supressão da miséria, pelo fim da exploração assassina, contra a desumanização, a alienação, a massificação, etc Ainda que nosso objetivo fosse similar, como declara o profo Lizandro de la Torre, nossos métodos seriam sempre distintos, senão opostos. É o que diz Scruton sobre os esquerdistas companheiros de seu pai: "As queixas de meu pai eram reais e bem fundamentadas, mas as suas soluções eram fantasiosas." Op cit pag 13.

É exatamente isto que distingue e separa as inúmeras correntes socialistas (O termos remonta a Owen ou Leroux) - Entre as quais me situo no plano da economia ou da produção e distribuição de bens. - do comunismo, por mais que a opinião pública desleal e o próprio Scruton busquem oculta-lo ou mesmo nega-lo, tudo lançando debaixo da senha 'esquerdista'.

É por isso que gosto de Dietrich Von Hildebrand, o qual dissertou magnificamente sobre quão vaga é a senha direita e esquerda. Naturalmente que há quem se encaixe perfeitamente na caixinha, se adapte e fique contente. Todavia bem pode o homem superior ser de direita aqui e de esquerda acolá, e em diversos nichos variar de posição... Tal o meu caso. E já o veremos.

Analisemos brevemente a questão econômica que cinde a humanidade em dois campos> Liberalismo econômico ou capitalismo e Socialismos. 

Analisemos isto com a seriedade que bem merece.

E o façamos a partir dos pressupostos teóricos do liberalismo econômico, cujos fundamentos foram lançados - Ainda que doutro modo (Diz Scruton na abertura do capítulo II, intitulado 'Começando de casa' aludindo a obra mal querida de Smith "Teoria dos sentimentos morais")  - por Adam Smith e, posteriormente por Ricardo, Petty, Bastiat, Molinari, etc Qual a linha condutora, o primeiro princípio, a ideia geradora, etc nesses teóricos... A ideia da não intervenção social e\ou política nas operações econômicas, dando espaço ao que chamam de livre iniciativa.

Naturalmente que os primeiros teóricos, como Smith, tiveram em mira aquele amplo conjunto de regulamentos arbitrários e caprichosos legados já pela idade média ou pelas monarquistas absolutas, que de fato travavam uma saudável iniciativa social no plano da produção e distribuição de bens. No entanto desde logo surgiram reivindicações e propostas no sentido de que não houvesse limitação ou controle algum desse setor ou seja em torno de uma ilimitação ou de um descontrole absolutos, como seja a produção econômica constituísse um setor a parte da sociedade ou mesmo da humanidade.

Nem temo dizer que o ANCAP é decorrência ou desenvolvimento natural deste tipo de pensamento.

A ideia aqui, e o ideal de sociedade perseguido, era o de uma não interferência absoluta por parte da sociedade ou do poder político no setor da economia e de uma independência total. O que de pronto se situa nos termos de uma utopia, como o comunismo, o anarco individualismo. 

Podemos portanto, ao menos teoricamente, e com toda justiça, definir como Socialismo, qualquer ideologia ou proposta que exerça oposição ao ideal acima descrito, que admita qualquer nível ou grau de interferência externa no plano econômico e a simples existência de leis destinadas a regular o Mercado (Como por exemplo a Lei antitruste - No Brasil n 12.529 - 2011), o recolhimento de impostos ou as relações de trabalho, ainda que de número bastante reduzido. 

A própria existência de um ministério da economia ou de um Banco central, com decorrente emissão de moeda, choca-se com o ideal livre economicista em sua puridade.

Destarte a simples concepção de um liberalismo econômico ou de um capitalismo controlável externamente em qualquer medida é antitética ou contraditório. 

Propor um capitalismo externamente controlável pelo poder político ou pela sociedade, como capitalismo ou como terceira via é algo inteiramente desonesto. As expressões terceira via ou Estado de bem estar social, cunhadas para batizar as soluções derivadas do Keynesianismo são de fato falaciosas. O que temos na doutrina de J M Keynes é também socialismo, gostem ou não os defensores do salvador do 'capitalismo'. Keynes nada salvou na medida em que foi contratado pelo Estado mais próximo do modelo liberal economicista tendo em vista um plano de intervenção estatal e decorrente legislação, que salvasse o monstro agonizante> E o que Keynes fez, foi justamente criar regras tendo em vista uma ação externa manobrada pelo Estado.

Conclusão: Tudo quanto foge a utopia liberal economicista da ilimitação absoluta não pode ser visto como capitalismo ou liberalismo econômico, mas como um tipo de socialismo, variando apenas o nível, o grau ou a forma de intervenção. 

É o que se sucede desde os tempos das reformas sociais implementadas desde Urukagina de Lagash, há quase quarenta e cinco séculos, passando por Faléas da Calcedônia (Citado por Aristóteles na Política), até chegarmos aos padres romanos Mably e Morelly no século XVIII, sem falar em S Tomás Morus e no Padre Th Campanella. Tais os socialismos sagrados ou de matriz religiosa, totalmente alheios a cepa materialista criticada pelos papas romanos e outros líderes religiosos.

No entanto é tudo, repito e insisto, o mesmo socialismo: O modelo bizantino, o modelo ocidental controlado pela igreja romana (Que proibia por Lei a cobrança de juros), o modelo inca, o modelo dos padres franceses acima citados, os modelos que os comunistas ferretearam como 'utópicos' e os de 'água benta' iniciados por Von Ketheller de Magúncia e continuados por Darboy de Paris, Daens, E Mc Glynn, Ireland, Mercier de Malines, Mother Jones... até as doutrinas de fundo tomista, pautadas na noção aristotélica de Bem Comum, legadas pelos escolásticos da Idade Média, em particular por Aquino e que inspiraram a Rerum novarum de Leão XIII, a qual, por sua simples existência, implica em categórica negação das pretensões liberais economicistas. Aos quais se juntaram mais tarde a proposta de Maritain, a de Bastos de Ávila, com o solidarismo, o comunitarismo, o cooperativismo, o distributivismo de Belloc e Chesterton, o já citado georgismo de Henry George, o personalismo de Mounier, etc 

Quanto a outras propostas de vária inspiração temos as de Leroux, J Jaurés, L Herr, Nitti, L Blum, De Gaulle, Marcel Deat, etc, O fabianismo dos Webb, que contou com o apoio de Shaw, Wells, Lodge, Ellis, Russel, etc Todas são socialismos, a começar por Keynes ou passando por ele. Pois o que há de comum a todos esses pensadores é que há algo de profundamente errado com o conceito de ilimitação e sua prática - O que alias, o próprio Sidwyck observou e constatou.

Portanto lançar todas essas ideias riquíssimas, destinadas a combater uma efusão de injustiças e crueldades agravadas pelo novo modelo econômico a cabo de mais de século, na mesma sarjeta que o comunismo, com sua ditadura do proletariado e mística revolucionária, me parece o cúmulo da desonestidade intelectual, coisa digna apenas de pastores ignorantes ou fanáticos que buscam satanizar o outro. Declarar que é tudo o mesmo 'esquerdismo' de inspiração residual anarquista é algo que não se pode dar por sério ou aceitar.

Neste sentido - Face a repulsa pelo modelo capitalista ou pela ideologia do liberalismo econômico (Não de um mercado relativamente livre> Regulado porém livre.) posso declarar-me socialista, ou social democrata, ou socialista religioso, ou socialista humanista, ou, caso o termo aterrorize alguém, posso declarar-me fabianista, georgista, solidarista, comunitarista, distributivista, etc

Não porque defenda a extinção da propriedade privada pessoal (A qual considero de direito natural e portanto sagrada) e sim porque questione sua origem, uso, acumulo, limite... (Quanto a posse dos bens de produção, considero a questão neutra, assim quanto a questão do regime assalariado). De modo a que possa, esse modelo de propriedade (Pessoal) ser democraticamente ampliado e consolidado ou porque busque sua disseminação.

Mas sobretudo porque seja partidário decidido da regulação do trabalho por um Estado cada vez mais democrático. Isto por considerar indesejável o quanto sucedeu na Inglaterra na Idade de ouro do que chamamos liberalismo (O que sabemos ter sido o mais próximo possível do ideal da não interferência) e foi descrito pelo talentoso e honesto Ch Dickens, o qual, até onde sabemos, não tinha qualquer relação com o partido comunista ou com a revolução bolchevique. Basta dizer que alguns escritores avaliaram a situação dos trabalhadores de Manchester e dos principais núcleos industriais ingleses daquele período (1830 a 1880) como pior ou sensivelmente mais grave do que a dos escravizados africanos no Brasil. 

O que não logro entender é porque tantos conservadores tardam em perceber ou jamais percebem (Deveriam ter lido "A grande transformação" de Karl Polanyi) que tudo quanto dizem amar intensamente: A micro sociedade, a paróquia, a piedade religiosa, a arte, o artesanato, o patrimônio histórico, o folclore, a família e até mesmo a própria natureza, a puridade dos ares, águas, etc a vida dos animais e vegetais, foi destruído sem misericórdia ou melhor triturado por esse poder econômico que se queria colocar acima de todas as leis e que por isso mesmo transformou-se num outro padrão cultural, chamado economicismo, no qual, como diz Scruton, nada tem valor intrínseco porque tudo tem preço e etiqueta para se comprar ou vender. 

Grande a cegueira dos ditos conservadores em sua maior parte, quando a esse aspecto da ação de um mercado todo poderoso e descontrolado, até alterar o ritmo ou a dinâmica das relações sociais e destruir aquela cultura ancestral que todos amamos - Eu em primeiro lugar, aquela cultura dos quadros de Paul Nash que nos preservava do tédio, da angústia e da depressão.

Amigo Scruton, esteja onde estejas, devo dizer-te> Aquele mundo foi votado a morte antes de tudo pela reforma protestante, mas, sobretudo pelo modelo capitalista. 

Foi ele que removeu os camponeses de suas terras, onde bem ou mal viviam em certa proximidade com a natureza e junto aos túmulos e relíquias de seus ancestrais, mesmo quando faziam suas manufaturas ou bordavam seus panos. 

Antes de tudo, em todos os lugares a que chegou a ideologia de mercado, onde quer que existissem terras comunais, sejam egidos ou rocios, foram estas terras vistas como fontes de renda e sujeitas a especulação para que servissem como pastos ou granjas modelos em que animais fosse criados intensivamente para serem devorados pelas massas empobrecidas, aumentando ao máximo o lucro dos granjeiros - Isto a custa dos pobres que foram expulsos a força, da natureza que foi destruídas e dos animais torturados e mortos, sobrando a terra poluídas pelos resíduos, muitas vezes venenosos dessa produção que objetivava ter por ter...

Para o conforto dos empreendedores, os quais instalaram suas fábricas nas proximidades das minas, foram os operários i é os co produtores da riqueza, instalados em 'cidades' não planejadas a parte do mundo natural e desumanizados ou despersonalizados tanto pelo contato prolongado com as máquinas quanto pela separação forçada dos animais e vegetais que até então formavam seu entorno e tornava a rotina da vida menos penosa. Nem puderam mais pescar algum peixinho, a sombra de uma macieira, junto a ribeirões de água cristalinas, passando a viver cercado por fétidos canais cheios de esgoto.

Presos a máquina por um período de tempo não regulado e sujeitos ao controle mecânico do relógio, passaram essas multidões a ser de tal modo drenadas pela dura rotina de trabalho que só lhes sobravam mínimo tempo para dormir. Como poderiam dedicar-se ao artesanato, ao lazer ou mesmo as atividades da paróquia, acabaram-se portanto, para esse homem apanhado pelo mercado livre, os feriados, as diversões, as tradições e a vida religiosa ou paroquial. Foi o operário e ainda hoje o é - Apartado da vida paroquial: Das confrarias, das procissões, das rezas e ofícios, etc chegando a empobrecer e alterar tremendamente a vida espiritual da Igreja.

E nem mesmo a família, como constataram Le Play e seus sucessores, escapou inume a sanha das máquinas e de seus proprietários sedentos por mais e mais lucro. Pois sendo o chefe ou pai da família remunerado apenas para sobreviver e inexistindo o que ora chamamos 'salário família' (Uma conquista dos rebeldes socialista e não um presente dos simpáticos empreendedores.) tanto a esposa\mãe, quanto os avós e os filhos, todos enfim, deviam fazer turno da fábrica para complementar a renda doméstica. Ficando alienados uns dos outros durante a maior parte do tempo e só se encontrando no momento de dormir, quando estavam em frangalhos e tomados pelo sono. Então deveria ser excelente e estimulante convívio...

Agora imagine o sr Scruton, que com razão, repito com razão, ficou horrorizado com as condições de vida no Leste europeu, controlado pela URSS, por serem infensas a liberdade de pensamento e de expressão, a condição de seus conterrâneos ingleses de cem anos passados, os quais não tinham leis, logo não tinham justiça e por não terem justiça não tinham pão - Quero dizer, o mínimo para viverem com dignidade e pensarem nas maravilhosas liberdades inglesas. Pois ali, entre os operários ingleses que viviam sob a nova realidade ('promissora') da liberdade do mercado, o que faltava não era algo abstrato (Concedo, essencial, porém abstrato) como a liberdade (Pela qual certamente devemos lutar e morrer!) mas comida, roupa limpa, espaço, saúde, distração, normalidade mental... enfim absolutamente tudo. Sendo aquele mundo áureo do liberalismo econômico ou do capitalismo um mundo de miséria e crueldade como raramente foi visto na história humana (Digo, quanto a ação intencional dos seres humanos.).

Onde penetrou esse poder ou essa força de uma economia descontrolada ou soberana todo esse idílio do sr Scruton em torno das pequenas comunidades em comunhão com o meio e dotadas de vida espiritual acabou-se, dando lugar ao cenário de horror, descrito com precisão e vivacidade pelo renomado autor de "Um conto de Natal". Pois não pode a bela 'Lei comum' fazer frente aos Scrooges da vida, e não houve final feliz. E de fato não puderam as leis antigas e tradicionais fazer frente a esta catástrofe ou diluvio de calamidades pelo simples fato de não poderem oferecer qualquer resposta a um fenômeno social (O liberalismo econômico) que até então inexistia - Não preciso ler Cujas ou Savigny para saber que a Lei não pode solucionar um problema a seu tempo inexistente. E é exatamente por isso sr Scruton que precisamos de novas leis, para solucionar os problemas causados pelos novos fenômenos sociais que simplesmente surgem. 

As leis tradicionais podem nos fornecer pressupostos para as novas leis, porém se mostram inevitavelmente inoperantes face a qualquer novo modelo social que venha a surgir. Daí a necessidade de que aparecesse - Não os comunistas ou a tropa revolucionária de Marx e Engels ou melhor de Lênin. - desde Davi Ricardo (Possivelmente ele próprio) ou Leroux, essa turba multa de intelectuais de classe média, religiosos ou racionalistas, que movidos por algo a que ora chamamos empatia ou alteridade, se compadeceram do operariado e, assumindo o nome de socialistas, combateram politicamente nos parlamentos para que tal condição fosse radicalmente alterada, digo a condição do trabalho - Lançando ao vinagre as pretensões dos empreendedores e seus fâmulos (Os teóricos) em torno do dogma da não intervenção ou do caráter 'imexível' da produção e distribuição das riquezas.

Acontece, nobre escritor, que até hoje, os paladinos do livre mercado, ainda não se conformaram com a realidade da restrição externa (A Tatcher foi um perfeito exemplo disto) jamais cessando de tentar reverte-la, inclusive financiando a eleição de agentes políticos (Por meio do Lobby) ou comprando-os, enquanto simultaneamente continua a destruir nossos maiores tesouros: O patrimônio histórico (Por meio da especulação imobiliária > Veja o triste exemplo da Avenida Paulista na capital do Estado de S Paulo em que as mais belas construções do Brasil foram criminosamente demolidas apenas para serem substituídas por horrendas caixas de sapatos!), o patrimônio cultural (Rezas, procissões, confrarias, etc) e por fim o patrimônio ecológico ou natural (Escuso dar eu a lista de animais e vegetais extintos devido a explotação!)... 

Ao contrário da maior parte dos conservadores não posso encarar o liberalismo econômico ou o capitalismo como algo inocente ou como algo menos perturbador do que a objeção comunista. Do contrário o que teria de mim seja um tonel de Danaides...

Caso de fato queremos manter ou conservar o patrimônio estético, tradicional ou cultural e ecológico legado por nossos ancestrais tendo em vista fruição de nossos descendentes não há como deixar de analisar criticamente a ideologia economicista da ilimitação, jamais posta de lado pelos teóricos do sistema, alias açulados pela ideia nada racional ou melhor bastante passional de um progresso científico ou econômico ilimitado (Uma das místicas mais destrutivas já produzida por nós). Pois há espectros do positivismo ou do cientificismo cercando-nos, apesar de J S Mill e sua economia estacionária, único modelo realista e racional de que dispomos.

Por todas essas razões por mais que tenha os mesmos sentimentos de conservação que os conservadores quanto a todas essas coisas, não me encaro como um e não posso deixar de ser, antes e acima de tudo, um socialista de água benta ou 'pequeno burguês' saudosista, como dizem os sectários comunistas. E assim o é. De fato os radicais até me classificam como 'conservador', posto que estou com vocês conservadores quanto a questão da cultura e o repúdio ao relativismo cultural, criado ou concebido não pelos comunistas, mas por liberais ou semi anarquistas como Boas, Benedict e Herskovits. Como estou com vocês e até os ultrapasso quanto a questão da objetividade estética e a repulsa ao modernismo, o qual encaro (Não menos que os odiosos e odiados nazistas) como uma degeneração. E estou ainda com vocês contra o relativismo metafísico ou contra toda essa pseudo filosofia contemporânea de procedência Alemã, e assim ao primado do subjetivismo, do solipsismo ou do ceticismo, posto que partidário decidido da Filosofia clássica ou perene da escola de Sócrates e enfim da do estagirita. E naturalmente que estou com os mais ajuizados de vocês quanto a sociedade secular ou quanto a objeção a qualquer forma de teocracia (islâmica ou protestante\calvinista) como fundamento pétreo da civilização.

Temos muitas, muitas coisas em comum, em que pese minha adesão ao socialismo e repúdio decidido ao liberalismo econômico, por encara-lo com destruidor do quanto amamos e desejamos conservar tendo em vista o deleite das gerações futuras.

É como disse, junto com um mundo livre, aspiro também, como Sócrates na República e contra Trasímaco, por um mundo justo, e limpo, e belo, e digno... Liberalismo é importante, necessário, fundamental, porém insuficiente. 

Termino este artigo confessando que para mim Conservador é um termo ainda mais vago que socialista ou esquerdista.

Conservar o que de que época ou de que lugar...

Conservar tudo ou a sociedade paralisada, sabemos ser impossível.

Então que valerá a pela ser conservado e transmitido. Que selecionar para ser conservado.

Aqui nos separamos talvez.

Pois acho banal um brasileiro, lusitano ou latino querer adotar ou conservar qualquer coisa de inglês ou pior de Norte americano, dada a diversidade da cultura.

Sem constrangimento algum encaro alguns aspectos da cultura europeia como objetivamente superiores face a aspectos de qualquer outra cultura e assim a Filosofia clássica ou perene de um Aristóteles ou a Ética socrática ou ainda o ideal estético grego, assim o direito romano, assim o que chamamos de Cristianismo apostólico. 

Outro o caso da cultura Norte americana derivada da rebelião individualista protestante e do liberalismo econômico, que é sua extensão. E não vejo, por coerência, como um brasileiro se possa dizer conservador de um modelo cultural que não é seu e que não lhe pertence.

Não vejo pingo de coerência em ser um conservador brasileiro e adotar um repertório iankee ou mesmo inglês.

De fato capitalismo não faz parte de nossa cultura ou pensamento social e econômico, protestantismo ainda menos.

Teríamos aqui, por força da coerência tornar as fontes e valorizar o que é nosso. 

Naturalmente que nem tudo é possível ou mesmo desejável, como a atrocidade do escravismo ou as agressivas relações que estabelecemos com os povos originários. Naturalmente que tais equívocos devem estar fora da pauta e devemos tornar a noção essencialmente cristã e católica de um direito natural inerente a pessoa humana (Segundo a forma de Francisco de Vitória). Temos que direcionar nosso conservadorismo as fontes humanas e humanistas de nossa cultura, o que nos separará do iankee e de sua cultura.

Para mim esse conservadorismo de improviso focado na 'American way of life' que incluí o modelo yankee do século XX com o imaginário calvinista de uma guerra fria (Alias tendo a Rússia, não mais comunista, como vilã) e o universo capitalista não tem sentido algum no Brasil. Pois não faz parte de nossa experiencialidade histórica ou de nossa realidade. Outro tipo de conservadorismo pelo qual tenho vivo horror é o modelo moralista individualismo ou puritano, frequentemente associado ao fundamentalismo religioso, uma vez que aderindo a corrente de pensamento Cristão sistematizada, em certo sentido por Vitória e desenvolvida até os teóricos do iluminismo, adiro firmemente os direitos essenciais da pessoa humana em sua escala mais amplas. Por fim deploro igualmente qualquer padrão político ingênuo de conservadorismo como o daqueles monarquistas que julgam poder mudar radicalmente a sociedade ou faze-la retroagir por meio de uma solução monárquica. Hoje nada tenho a objetar quanto a uma monarquia constitucional desde que esclarecida e progressista, porém não acredito em qualquer possibilidade de alteração cultural significativa e encaro essa postura dos monarquistas como algo bastante próximo do misticismo revolucionário dos comunas e anarcos.

Como disse as vezes o termo conservador me parece vago e movediço, tipo qualquer um decide conservar o que deseja ou o que quer. Portanto um conservadorismo acrítico sempre poderia ser portador de valores exógenos a nossa cultura, como o modelo iankee e quanto ao que tem de pior: O Capitalismo, ou até mesmo o protestantismo. 

Talvez por isso, apesar de ser progressista no campo da moralidade e da ciência e conservador no campo da arte ou da estética e mesmo da epistemologia, quiçá no campo da política (Com a policracia ou democracia direta e do socialismo) prefira dizer que sou reacionário. Fujo a banalidade. Escapo a caixinha em que tantos estão fechados ou ao sectarismo. Assumo-me como eclético - Não como sincrético e quiçá seja não uma metamorfose ambulante porém certamente um mosaico ambulante no qual existe uma presença objetivista, realista e conservadora bastante forte, e eu me orgulho dela. Há em meu peito ou em minha alma um conteúdo conservador, mas não coaduna com o que percebo no conservador brasileiro médio, antes conflita com ele conflita.


sábado, 11 de outubro de 2025

A oportunização das capacidades

Um aspecto aparentemente irrelevante para a ampliação do conhecimento é a ampliação de direitos e oportunidades.

Como foi salientado por Poincaré, em seus estudos sobre Ética, é a ciência (E assim a Filosofia) uma construção cumulativa e coletiva, não um trabalho individual. Impossível tornar atrás com o objetivo de tudo comprovar novamente... 

Geralmente cada peça de um aparelho representa o trabalho de um cientista.

Por sinal, aqueles que desejam criar algo novo, começam quase sempre elencando o quanto já foi criado em sua área e buscando saber como tais criações foram produzidas. 

Conectar pessoas é como estabelecer sinapses entre neurônios e transformar a humanidade num cérebro.

Isto no entanto depende dos meios, dos meios de comunicação - Cujo papel é favorecer a troca de ideias, a associação e a síntese.

Todavia seria inútil por as pessoas em contato caso não fossemos capazes de garantir a liberdade e os direitos de cada uma.

Pois o exercício da liberdade e a fruição dos direitos é que conferem a cada um de nós as condições ideais para bem pensar. 
É demanda imposta pela gratidão aspirar engrandecer um sociedade ou grupo social que garante nossos direitos essenciais - Assim a Sociedade democrática.

Ao atribuir a todos, sem distinção, a fruição da liberdade e a todos encarar como objetos de determinados direitos a Sociedade democrática cria condições para que cada qual possa dar o máximo de si tanto na atividade da pesquisa, quanto na capacidade reflexiva ou na produção artística.

Cria ela enfim as condições necessárias para que todos se respeitem, convivam, entrem em contato, dialoguem, troquem ideias, pesquisem e reflitam juntos - Criando como que uma teia ou um tecido do saber.

Ao integrar a mulher, o homossexual, o deficiente, o idoso, o trabalhador humilde, a criança, etc a sociedade dos direitos possibilita que o conhecimento circule mais rapidamente. Criando pontes entre indivíduos 'diferentes' na igualdade da pessoa, a sociedade democrática estimula a associação entre as unidades do saber e a produção de novos implementos.

Quanto maior a integração em termos de unidades do saber tanto maior a chance de produzirmos coisas novas e de avançarmos no entendimento geral.

Outro o caso das sociedades elitistas fechadas, que separam e reprimem os indivíduos. Na medida em que discriminam e oprimem. Pois quebrar pontes é impedir a troca de ideias, obstruir o diálogo e dificultar a expansão do saber, fruto - Como já dissemos, de um trabalho comum ou colaborativo. 

Nem por isso me acuse, o leitor de boa vontade, de incoerência ou de pós modernismo. Não nego e jamais poderia negar a existência da Verdade e da Verdade ética objetiva - Súdito de Cristo, porém da mesma forma súdito de Sócrates. Afirmo a existência do bom, do belo e do verdadeiro. 

O quanto devo questionar é a posse de uma verdade imutável, por parte dos que se dizem cristãos, no campo da moralidade. 

Mormente quando por questão de cultura foi o Cristianismo colonizado pela moralidade ou por um moralismo judaico nada divino, nada revelado, nada sagrado e nada Cristão (Do qual não há mínimo vestígio no EVANGELHO) em termos de especismo, machismo, homofobia, escravismo, etc

Se contra os protestantes afirmo a infalibilidade, inerrância e incorruptibilidade da Igreja Ortodoxa, Apostólica e Católica quanto a metafísica, os mistérios de Cristo, os dogmas, os artigos de fé ou a manutenção da Revelação divina, recuso-me terminantemente a afirmar um infalibilidade mecânico\formal da igreja no plano das moralidades ou da Ética, embora reconheça uma ação genérica da providência em parte da igreja ou das consciências que dela fazem parte. 

E compreendo essa ação - No campo da Teologia para tanto mais depurar e esclarecer. - nos campos da moralidade e da Ética como uma distinção cada vez mais radical entre o conteúdo cultural ou natural das moralidades judaicas e o conteúdo sagrado, divino e transcendente do Evangelho ou das palavras e lições de Nosso Senhor Jesus Cristo. Do judaísmo detemos apenas o quanto nosso Instrutor divino apontou e avaliou como Sagrado: O Decálogo, e nada mais. E negamos a sacralidade ou a sobrenaturalidade da moral hebraica.

Portanto não acreditamos que esse conteúdo semita - Que cria uma ponte com o islamismo. - (Machismo, homofobia, escravismo, estatismo, etc) tão caro ao apóstolo Paulo (Fariseu, filho de fariseu e aluno de Gamaliel.) pertença de fato ao Cristianismo ou seja Cristão.

Para além disso encaramos como um marco, quanto a afirmação de direitos civis inerentes a pessoa humana, a atuação do religioso espanhol Francisco no correr do século XVI, enquanto decorrência dos grandes descobrimentos. 

E quero estender-me quanto a isso. 

Partindo do fato segundo o qual o que chamamos de velho mundo ou mundo bíblico constava apenas de algumas partes da Ásia, da África (Então chamada Líbia ou Mizrain) e Europa. Nós mesmos, noutro artigo, já estabelecemos que os antigos israelitas nada sabiam, em absoluto sobre os chineses e indianos, para não falarmos nos povos americanos. Por sinal politeístas e pagãos em sua quase totalidade. E mesmo assim em posse de uma diversidade religiosa bastante significativa.

Para não falarmos nos povos americanos...

Ora a relação entre os povos conhecidos já havia sido marcada - Não pelo Cristianismo, porém a partir da cultura judaica. Agostinho, a partir dela, afirmou que os africanos ou pretos seriam descendentes de Caim ou de Cã, etc portanto amaldiçoados e destinados a dominação ou ao escravismo. Argumento fartamente explorado pelos batistas norte americanos, defensores da escravidão africana, ao cabo do século XIX... Quanto aos pagãos da antiga Europa houve um maior tato, prudência e composição...

Por outro lado o islã estabeleceu a relação em termos bastante simples - Os quais fazem lembrar o padrão israelita com relação aos antigos cananeus (Reproduzido do mesmo modo pelos calvinistas ou 'novos israelitas' nos EUA) - aos povos do livro > Judeus e Cristãos, a Djzya; aos politeístas e pagãos a conversão ou o extermínio. 

A descoberta ou se quiserem integração cultural da América ao 'velho' mundo planteia tal situação para os Cristãos romanos do século XVI e é fecunda quanto a consolidação dos direitos que hora chamamos inerentes e universais (Os direitos essenciais a pessoa humana). É necessário traçar esse esboço histórico apenas para demonstrar que a atribuição de direitos universais e incondicionais não é, de modo algum, obra do pós modernismo, porém do Cristianismo apostólico, da tradição Cristã, da reflexão teológica, etc 

Pois é, como disse, fenômeno que remonta ao contato dos cristãos ocidentais europeus com os povos pagãos ou não Cristãos das diversas sociedades americanas. Mais - Tal reflexão não foi conduzida por incrédulos, materialistas ou ateus porém por clérigos ou religiosos, particularmente pelos Dominicanos, herdeiros do pensamento tomista e, tanto mais remotamente, de nossa herança grega, clássica ou aristotélica.

Problematizemos: Ao tempo em que a América fora descoberta ou integrada ao universo das relações globais, havia a Europa feito um percurso posterior a Aquino e a escolástica, chegando a Renascentismo, e portanto a uma valorização ainda maior da figura e das lições de Aristóteles por um determinados grupos intelectuais, particularmente paduanos e veronenses. Diante deste recrudescimento do aristotelismo podemos dizer que a postura de  Aquino foi tanto mais crítica e temperada pelo Evangelho - Quando havia atrito entre os ensinamentos Éticos de Jesus e os do Filósofo, Aquino optava sempre por seguir o Evangelho.

Diante disto, certo número de Cristãos espanhóis - Como Juan Ginés de Sepúlveda e Fernandez de Oviedo - firmados em Aristóteles e no antigo testamento, alegaram que os indígenas americanos deveriam ser tratados no máximo como os infiéis maometanos, que eram bárbaros, inferiores ou sub humanos, que não podiam ser objetos de direitos, etc Se lhes opôs a Escola de Salamanca sob o comando de Francisco de Vitória. Era representando ele, neste nosso Novo mundo, pelo profícuo e operoso Bartolomeu de Las Casas, pelo Bispo Vasco de Quiroga, etc Da colaboração destes e doutros grandes homens Cristãos: Soto, Bañes, Cano, etc aflorou o Colóquio de Valladolid (1551), ocasião em que, pela primeira vez na História humana foram considerados os direitos inerentes a pessoa humana, posteriormente estendidos a todos os seres humanos.

Aquele foi o ponto de partida. Pois a lógica é a mesma seja aplicada a mulheres, crianças, idosos, deficientes, gays, membros de outras etnias, etc Pois argumentava Las Casas que eram os indígenas livres na ordem da natureza i é independentemente de suas crenças, exceto quando estas produzissem agressões ou violência. E o que está por trás disto é a tradição autenticamente Cristã, apostólica, católica e ortodoxa segundo a qual a fruição dos direitos naturais por parte dos seres humanos independem de suas crenças religiosas ou de qualquer status espiritual.

É proposição tradicional (Implícita nos padres da Igreja e no Evangelho.) e ao mesmo tempo revolucionária - Pois se a fruição de direitos essenciais e naturais por parte dos humanos neste mundo independe da fé ou do estado da pessoa, independe da mesma maneira e com maior razão ainda de quaisquer outras condições externas, tais como: Origem, situação econômica, gênero, opção sexual, idade, saúde, etc Conclusão: A ação externa da pessoa ou sua avaliação moral não deve ser considerada quanto a atribuição de direitos e, alias, mesmo os criminosos não cessam de ser objetos de direitos essenciais, inda quando imobilizados e privados do direito de ir e vir. 

Independentemente de quaisquer atitudes, ser humano algum jamais cessa de ser objeto de direitos inerentes pelo simples fato de ser humano i é um ser racional e livre. 

Portanto mesmo que você, a luz de sua fé, encare os gays ou as feministas, os pagãos ou os dissidentes, os ateus ou blasfemos como condenados ao fogo eterno ou simplesmente como sujeitos a penalidades espirituais, eles continuam sendo sujeitos ou objetos de direitos essenciais - E portanto (Enquanto pessoas!)) credores de respeito e tolerância, em qualquer sociedade deste mundo.

Nem se pode questionar seriamente a distinção estabelecida do ponto de vista da fé ou da crença. Pois caso confundíssemos a esfera natural e imanente da política com o mundo sobrenatural e invisível seríamos levados a questionar o exercício do poder por parte de qualquer pecador. Nada mais pueril do que vincular a fruição do poder político ao estado de graça, uma vez que é, o estado de graça, conhecido apenas de Cristo, inacessível ao conhecimento humano, inverificável, etc Do que resultariam apenas especulações sacrílegas, discussões inúteis, tumultos e revoluções no campo da política. 


Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte': 


  • Americanismo
  • Positivismo
  • Anarquismo
  • Protestantismo
  • Conservadorismo
  • Capitalismo
  • Comunismo
  • Fascismo
  • Pós Modernismo
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segunda-feira, 23 de junho de 2025

Sionismo, americanismo\capitalismo, protestantismo, maçonaria, ecumenismo, ONU, etc Análise cultural ou culturalista sobre a conjuntura atual ou sobre a possibilidade de uma terceira guerra mundial.





Tentarei fazer algo que é bastante difícil para o homem comum, apresentar uma análise cultural ou culturalista de uma possível terceira guerra mundial e porque caminhos ou veredas chegamos a ela.

Quero antes de tudo fazer algumas breves observações: Não tenho mínima intenção de estabelecer a veracidade da fé Católica\Ortodoxa, das igrejas apostólicas, da igreja romana ou do Cristianismo histórico\tradicional (E oposição ao agregado de seitas protestantes 'made in EUA'.). Embora para alguns possa parece-lo, de fato não é escopo deste artigo entrar em minudências religiosas. O quanto queremos salientar aqui é a relevância cultural dessas crenças ou ou da cultura específica produzida por elas em oposição a outros modelos de cultural como a sionista, a protestante ou americanista, a islâmica, etc 

A consciência em torno de um Deus Encarnado produz um tipo de consciência e de relações entre os seres humanos totalmente distintos da fé em torno de um Absoluto Transcendente apartado do mundo. A crença em que foi Deus supliciado e morto na carne estabelece outros tipos de reflexões em torno da vida, da morte, da agressão, da tortura, do assassinato, etc A crença ética na necessidade de obras (Ainda como frutos da graça.) ou da ação no plano da fé introduz outro tipo de enfoque. A ideia de uma redenção solidária da espécie estabelece outra direção, etc, etc, etc

Dá mesma forma a adoção de mitos judaicos de talhe mágico fetichista, a insistência no expiacionismo e em penas eternas, a afirmação de um agostinianismo radical (Calvinismo) - Um torno de pecado original, corrupção total, predestinação particular, etc - a negação total e absoluta das obras, a ideia de uma salvação individual, etc produz um outro tipo de cultura. 

Isto são dados e Max Weber começou a levantar a pontinha desse véu...

Portanto, uma coisa é negar o conteúdo da fé ou descrer e outra, totalmente distinta é questionar a relação entre os modelos de crença e determinados modelos de cultura e ignorar as 'Afinidades eletivas'. Fosse eu Deísta ou teísta naturalista, irreligioso, etc não mudaria em nada o conteúdo deste artigo. Parto da premissa segundo a qual as fés produzem culturas e que fés diferenciadas ou opostas produzirão modelos diferentes de cultura ou de convívio humano. Daí a importância de se estudar com máxima atenção e de se conhecer muito bem as crenças religiosos uma vez que plasmam tanto nossa vida mental (Ou as personalidades) quanto nossa vida social. 

Decorre disto algumas relações extremamente complexas e inacessíveis ao homem comum.

Quero devassa-las muito bem ou até quando possível.

Já colocaram a religião, a economia ou a política na base de todos os fenômenos socias. Marx - Herdeiro do empirismo ou do positivismo. - como todos estão cansados de saber, optou pela economia (E não se equivocou por completo, se é que equivocou-se quanto a sociedade ocidental contemporânea.), Coulanges (Na 'Cidade antiga') optou pela religião e os positivistas mais avançados pela política ou pela 'ciência'. 

Apenas os irmãos Weber, num primeiro momento, deram com essa outra coisa chamada cultural, que é um complexo de relações que envolve todos os fatores acima a elencados. Podemos no entanto dizer, me recordo de Toynbee, Parsons, Sorokin, Timacheff, etc admitir padrões de cultural básicos: Ideativo ou espiritual - Derivado das crenças religiosas e materialista, derivado da economia, e é claro que há o padrão realista, que busca equilibrar os dois primeiros ou realizar uma síntese harmoniosa. 

Podemos, de modo geral, quanto ao ocidente - A partir da Era Cristã. - aduzir dois modelos: Uma mais ideativo ou religioso - Prevalecente quiçá até o século XVII ou ao menos até o século XVI. - e outro materialista\economicista, prevalecente desde os séculos XVIII e XIX, assim a partir do liberalismo econômico ou do capitalismo e não do comunismo, do anarquismo, do fascismo, etc Quando comunismo, anarquismo, fascismo, nazismo e outras ideologias contemporâneas fizeram sua primeira aparição o materialismo era já uma tradição legada pelo capitalismo e identificada, pelo positivismo (Em oposição a fé e a Filosofia), com a ciência.

Precisamos dessas ferramentas para entender o ponto de partida da crise atual.

Porém, antes de entrarmos no assunto propriamente dito, precisamos tornar a História para entender com suficiência o que se passa na Palestina ou em Israel - Porque tal é o ponto de partida da crise ou o olho do furação.

Tudo começou há alguns milhares de anos, quando alguns nômades de origem semita que vagavam pelos desertos, acreditaram receber comunicações de um certo javé, o qual tomaram por deus sem negar os demais. A partir daí chegaram a crer que essa entidade os escolherá e lhes reservará uma terra, na já povoada Canaã, na qual de fato lograram instalar-se durante o colapso da Era de Bronze. 

Não tardaram a crer que esse javé os ajudava e portanto, para recompensa-lo, passaram a 'alimenta-lo'' com sacrifícios de sangue.

Como equivale-se, toda aquela região, a um Estado tampão, ficava, sua política, sendo bastante instável. De modo que esse povo, a princípio israelita e depois judeu, conheceu períodos de autonomia e de sujeição a potências estrangeiras. E como fossem henoteístas ou monoteistas, e os povos vizinhos politeistas, fizeram uma leitura mística ou mágico fetichista dos eventos políticos relacionando-a com a fidelidade ou a infidelidade deles mesmos. Quando eram leais ao javé ele os exaltava politicamente...

Por fim, sob a construção do Império romano (Na verdade um pouco antes.) foram esses judeus incorporados como súditos do Império romano. 

Importante salientar que durante aquele período, enquanto tinham intacto seu templo com sacrifícios, os judeus achavam humilhante ser dominados por povos de religião politeísta, pois aduziam que se o javé não lhes concedia o poder político é porque eles, judeus, não estavam fazendo as coisas direito. Portanto a sujeição reforçava um suposta culpabilidade e suscitava problemas de consciência.

Por outro lado, desde o tempo em que haviam sido dominados por Assírios, Babilônicos e Persas, haviam esses crédulos hebreus, elabog+-gyyyyyrando um tipo peculiar de cosmovisão ou melhor aprofundando esse tipo de cosmovisão, a qual só se completou ou chegou a maturidade durante as fases helenística e romana. Ora, nós conhecemos perfeitamente esse tipo de cosmovisão doentia e racista por meio da literatura apocalíptica. A peça mais remota foi o pseudo epígrafe de Daniel (Esse mesmo que consta no AT) e a mais completa o assim chamado Livro de Enoc... Em seguida apareceram dentre outros o de Baruc e Ezra.

A tese é prenhe de significados até nossos dias, pois em traços gerais assim se concebe: Quando o povo judeu emendar-se de seus erros e tornar a ser leal a javé este os restabelecerá na Palestina ou lhes concederá a autonomia política, de modo que os pagãos serão expulsos do solo sagrado, uma vez que representam uma mancha ou impureza que não se pode admitir. Mais - Como a Torá determina que os pagãos sejam exterminados, no grande dia, o próprio javé ou o povo por ele empoderado, obterá vitória sobre Edon, Gog, Magogue, etc e dominará a totalidade do mundo, exterminando ou escravizando os pagãos, os quais são descritos como lodo, lama, escarro, etc 

Examine o leitor atento essa literatura e tire por si só as conclusões a respeito de seu conteúdo doentio marcadamente racista - Nem poderia ser diferente esse conteúdo por partir de uma etnia ou povo que alega ter sido eleita pelo Deus do universo, em detrimento de todos os outros povos ou da humanidade como um tudo, encarada necessariamente como algo de natureza inferior ou desditosa. Por isso afirmamos que Jesus, com seu conceito universalista, católico ou anti etnico, não pode ser javé ou que javé não é a Mente suprema que concebeu este universo, mas o nume étnico dos hebreus e nada mais. enfim, que toda essa cosmovisão excludente e sectária deriva do que chamam de eleição, a qual deve ser entendida como um privilégio e como uma afirmação sutil de superioridade.

Movido por essa cosmovisão aberrante, os hebreus do século I desta Era, representaram, naquela conjuntura, o mesmo que os radicais islâmicos de hoje, já por exercerem um proselitismo intenso - Com conotações culturais anti romano. - já por proclamarem a rebelião violenta contra o Império romano. Importante salientar que esse ideal de rebelião não era meramente político, como o dos celtas por exemplo, mas marcadamente cultural, religioso e étnico, pois o pagão não era encarado como opressor apenas por dominar politicamente mas sobretudo, por não ser judeu e por não crer como eles.

Seja como for, após as revoltas dos anos 70 e 134 javé não apenas permaneceu inerte, permitindo que seus prediletos fossem esmagados pelos pagãos e convertidos em escravos dos politeístas, como foi despojado de seu majestoso templo e privado de seus deliciosos sacrifícios de sangue. Naquele instante perderam os judeus, por completo, não apenas sua independência política como sua capital religiosa. 

Diante disso foram os pagãos, sob a forma tradicional do Colonato, introduzidos na Judeia, pelo Império romano. E quando o Império passou do paganismo para o Cristianismo Ortodoxo, passou a Judeia cristianizada a ser comandada pelo Império Bizantino ou Romano do Oriente. 

Permaneceram as coisas nesse pé até o século VII d C quando foi esse espaço conquistado pelos árabe, comandados pelos maometanos, durante a sua primeira jihad ou expansão. Mais uma vez, com o passar do tempo, foi-se alterando o quadro religioso com o declínio da população Cristã e o aumento da população islâmica. Importa saber que ambas as populações: Cristã e Islâmica já se achavam instaladas na tal 'terra prometida' há mil e trezentos ou a dois mil anos quando os ingleses e yankees, por meio da ONU decidiram inserir novamente os judeus onde eles exigiam, o que ocorreu após a segunda grande guerra.

Quanto aos judeus étnicos, migraram para diversas partes do mundo, quais sejam Europa ocidental, Rússia, Norte da África, Oriente, e - Após sua descoberta - América. 

Necessário dizer que em algumas parte promoveram revoltas e sedições políticas, como no Yêmen. O que de modo algum justifica - E queremos pontuar bem isto. - a forma grosseira com que foram tratados pelos Cristãos apostólicos (A partir de Justiniano) seja no Império Bizantino (Como cidadãos de segunda categoria.), na Europa ou na Rússia, onde sofreram pogrons ou linchamentos (Inclusive durante as Cruzadas). Queremos reiterar que não podem os Cristãos proceder odiosamente ou a maneira dos próprios judeus e muçulmanos e que a assimilação do comportamento deles é de todo injustificável uma vez que o fundador do Cristianismo determinou, na sua lei, que devem ser os inimigos amados, tratados com benevolência e respeitados. 

Agravou-se ainda mais essa situação, particularmente na Alemanha, após o surgimento do protestantismo ou da organização luterana. Fato foi, que a princípio, tanto Maomé na Arábia quanto Lutero na Alemanha, nutriam o sonho ou expectativa de converter os judeus, o que sem dúvida traria, a cada um deles, um prestígio colossal. E fato foi que falharam ambos miseravelmente, não sendo acolhidos pelos hebreus. A partir daí tanto Maomé quanto Lutero tomaram ódio a esse povo - Do que resultam as suratas de oposição no Corão e o panfleto contra os judeus de Lutero.

Portanto, o luteranismo, cujo fundador chegou a ser encarado como profeta! - recebeu toda um tradição ferozmente anti judaíca, a qual, como declarou Julius Streicher, (Dentre outros) no Tribunal de Nuremberg, ao secularizar-se, a partir do século XIX, converteu-se em Nazismo. Importante salientar o papel de Lutero e do luteranismo nesse processo, com o intuito de apontar os extremos a que chegou o protestantismo conduzido pelo método do livre exame.

Quanto a secularização do anti judaísmo na Alemanha, significou um passagem do imaginário Cristão > No sentido de que a totalidade do 'sangue' judeu era responsável por um ato de deicídio ou pelo assassinato de Jesus Cristo, para a compreensão materialista de que eram os judeus detentores da riqueza ou do poder econômico e portanto responsável pela miséria dos Cristãos - Explicação que os líderes políticos e particularmente os patrões ou empresários adoravam. De fato tempo houve em que os judeus também foram usados e manipulados pelos piedosos burgueses 'cristãos'...

Chegamos assim a segunda grande guerra, cujas atrocidades todos conhecemos muito bem.

Importante esclarecer que não apenas judeus foram exterminados na Alemanha de Hitler, mas comunistas, gays, opositores de consciência, etc Os judeus no entanto foram perseguidos e executados em maior número. 

Importante marcar que, sob pretexto algum, podemos negar a realidade dos fatos históricos - E portanto negar ou suavizar os hediondos crimes cometidos pelo regime nazista. 

Podemos no entanto, ou melhor devemos, questionar qualquer tentativa de monopolização dos fatos e sobretudo qualquer tentativa de manipulação feita 'a posteriori' com objetivos políticos.

Assim o uso ou melhor o abuso feito deles, isto é, dos fatos, pelos sionistas por exemplo.

Alias ser anti sionista ou anti americanista hoje equivale a ser, em certa medida anti nazista e é grave dever ser anti nazista e esconjurar o nazismo independentemente de quem sejam seus praticantes.

Dito isto, quero continuar sendo muito enfático, bastante enfático.

Por discordar de Balfour, dos ingleses, dos yankees e da ONU quanto a terem colocado, desastrosamente, os judeus, onde exigiam ser colocados - Isto é, na Palestina, ao lado de muçulmanos fanáticos, não negamos que uma porção de terra devesse ser dada ao povo judeu.

Não questionamos que os judeus merecessem um espaço, lar ou território. 

O que questionamos pontuadamente é que tivessem ou tenham o direito de exigir a posse do espaço - Já tradicional e bastante ocupado. - sancionado por sua mitologia. 

O que deploramos é que Israel tenha sido constituído numa terra a que, eles, os hebreus declaram lhes pertencer por direito divino ou sido dada pelo próprio deus.

Pois o significado dessa posse é fecundo... E desastroso.

De fato a poderosa Inglaterra, dona do império ''brutânico" bem poderia ter atribuído aos judeus qualquer parte remota e pouco povoada de seu império, e alias bem distante dos muçulmanos...

Melhor poderia ter feito e muito melhor, os EUA - Que tanta terra surrupiou aos naturais do Oeste e do México. - atribuindo aos queridos hebreus, uma pequena parcela de seu imenso território. 

Fácil é atribuir aos outros o que não nos pertence, porém de modo algum lícito.

Nem se alegue ou diga que tudo isso foi feito com sansão da ONU.

Que os romanos considerem, a luz da fé, o Vaticano infalível lá vai... Agora que a humanidade encare o tribunal da ONU da mesma forma i é como inquestionável ou infalível é perfeita miséria ou autêntico idiotismo.

Sabido é que Tribunal humano algum possa ser infalível. O que vale tanto para nossas comarcas quanto para o governo de qualquer país e para a própria ONU.

Mormente quanto a sede da ONU, não é, como por ser democrática ou isonômica, itinerante, mas fixada em um espaço gentilmente cedido pelos EUA.

Questionemos: Se não foram os EUA gentis para com o querido Israel, por que o foi para com a ONU senão para poder influencia-la senão comanda-la, politicamente, como um braço seu...

O que é amplamente demonstrado pelo uso que aquela república do Norte sempre fez, desse organismo 'internacional' contra a URSS e seu bloco, contra Cuba e ora contra a China e a Rússia e isto sem mínimo pudor...

Nada mais discutível que as decisões da ONU, discutidas antes e acima de tudo por Israel, a qual certamente as encara criticamente ou como muito falíveis - Mesmo quando aparentemente justas!

Portanto aqui não vem ao caso qualquer sansão da ONU, a guisa de poeira nos olhos...

A luz da consciência ou da lei natural, um decreto positivo qualquer (Emanado da autoridade.) só é válido quando justo e o oposto disso (Creonte) é tomar por padrão o poder. O que não cessamos de fazer por sermos dirigidos por líderes irracionalistas e, anti éticos.

Socratismo ainda assusta e sempre assustará esse tipo de gente.

Então devemos questionar por que deve a humanidade inteira ou todas as culturas pagar - No sentido de correrem o risco de serem riscadas da existência! - por uma exigência dos judeus ou melhor por uma canalhice seja de Balfour, da Inglaterra, dos EUA ou da ONU...

Pois tal nossa condição atual: Gregos, latinos, europeus, indianos, chineses, russos, etc todos corremos iminente e risco real de sermos varridos da face da terra porque os judeus foram colocados no lugar errado - Quando haviam tantos lugares disponíveis!!!

Repito: Problema não é Estado de Israel (Uma construção política necessária.) porém sua localização na Palestina, dádivas de seus protetores ou servidores "brutânicos''.

Penso e julgo ser absolutamente desnecessário descrever em pormenores a limpeza étnica executada pelos grupos terroristas judeus: Irgun, Stern, Haganah, etc - Cuja sanha feroz lançou-se não apenas contra muçulmanos fanáticos, mas inclusive, contra populações Cristãs nativas e pacíficas já molestadas, pelos radicais islâmicos... O que se sucede neste exato momento em Gasa!

A que se seguiram inúmeros conflitos, com o dos seis dias, o de Yon Kipur, etc, etc, etc

Naturalmente que, a partir daí houveram excessos de ambos os lados - Já porque ambas as fé estimulam a agressão e santificam a violência. - com civis judeus estourados com bombas ou metralhados pelos palestinos ou com populações palestinas inteiras sendo exterminadas pelos hebreus, o que corresponde ao que chamamos de limpeza étnica, algo peculiarmente hitlerista.

Quero todavia salientar uma coisa: Que não se trata da mesma coisa - Em certo sentido o judeu é um invasor. Pois lá já estavam os Palestinos, há séculos, com suas casas, propriedades, territórios, organizações, etc e tal não pode ser desconsiderados. Estranho que os defensores fanáticos da propriedade ignorem algo tão claro e simples: Os palestinos, sejam romanos, árabes ou o que se queira, lá já estavam, na posse da terra e do local - Passando desde então a ser desalojados a força, como se fossem eles os invasores, o que constitui uma aberração.

E pouco se dá que sejam eles muçulmanos ou fanáticos. Como pouco se daria caso fossem indianos, ganenses, japoneses ou argentinos, uma vez que não cessam de ser humanos e objeto de uma lei natural e de direitos naturais indeléveis por assim dizer. 

Portanto, apesar da ONU, dos discursos mitológicos e de todo poder político, tudo quanto Israel vem realizando nas últimas décadas se choca frontalmente com o rochedo divino da lei natural ou com o jusnaturalismo aduzido pela Razão.

Os palestinos, mesmo quando servindo-se de métodos condenáveis, estão lutando por um direito que é seu: Pela posse de sua propriedade, fruto do trabalho - Pela posse de seus bens, de seus lares, de sua dignidade e identidade. Portanto não é a mesma coisa: Aqui há defensores e agressores e tal dinâmica não pode ser ignorada.

Até aqui a exposição meramente histórica - 

Ainda hoje ou amanhã analisaremos o caráter atual do conflito e aprofundaremos mais e mais a questão da cultura e as conexões globais. 


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domingo, 3 de dezembro de 2023

Algumas farpas contra o moralismo insipido.

Penso que o aborto deva ser objeto de consulta popular, plebiscito ou referendo, como qualquer outro tema público.

Pois as decisões tomadas num grupo social devem ser tomadas pela maior parte dos cidadãos.

Quanto a mim já declarei em diversas ocasiões ser contra o uso do aborto como forma de controle de natalidade ou planejamento familiar e sobretudo contra o financiamento público, no casos de mulheres que tenham condição de por ele pagar - Exceto em caso de estupro, má formação ou risco para a saúde da mulher.

Se por um lado não sou a favor de um 'libera geral' por outro não acho justo que mulheres pobres e semi analfabetas sejam criminalizadas por recorrer ao expediente do aborto em situações de desespero. Agravante disso é o machistóide ou o homem de bem, recusar-se a usar preservativo ou abandonar o rebento que fez sem pagar pensão - Deixando a mulher desamparada e em situação de penúria... E Igreja hipócrita opondo-se a Educação sexual das meninas e meninos da Escola pública e o que é ainda mais aberrante, ao controle de natalidade. Enfim se o clero deseja criticar tais mulheres com propriedade e justeza por que não as ajuda a criar os filhos... No dia em que o clero pagar pensão a tais mães e ajuda-las a manter seus filhos, cessará de ser um clero fariseu.

Independentemente do que, pense ou julgue sobre as variantes ou variáveis da sexualidade humana, quero, pela milésima vez, deixar bem claro que - homossexuais, trans sexuais, assexuados, pan sexuais, etc são todos seres humanos, produtores, contribuintes, e sobretudo sujeitos de direitos essenciais e inalienáveis.

Devem portanto, sob todos os aspectos, ser encarados como absolutamente iguais aos heteros e bissexuais e postos sob a proteção das leis.

Uma vergonha que suas uniões ainda não tenham sido objeto de reconhecimento legal neste país de bananas, em que fanáticos religiosos do pior tipo, ainda julgam reter algum poder político.

Aos que são contra tais formas de sexualidade concedo-lhes a faculdade de crer e de ensinar que seu 'bom deus' punirá tais pessoas - Com fogo, enxofre, etc - no além túmulo e sobretudo o direito líquido e certo de não pratica-las. Pois a lei não pretende fazer com que os heterossexuais se unam a pessoas do mesmo sexo, pelo que não lhes diz respeito. De fato a mania de decidir pelo outro ou de comandar o outro deve cessar.

E desde que não haja prejuízo ou agressão, pessoa alguma tem o direito de se sentir agredida por outra... Do contrário se retire, como diz o ditado popular. Por fim se como vocês costumam dizer é o heterossexualismo natural, exemplo algum poderá ser capaz de sequer atenua-lo, pois o que procede da natureza não pode ser alterado facilmente. Ideologia de gênero não pode ser confundida com LIBERDADE SEXUAL ou usada para ataca-la. Quanto aos que são contra a liberdade sexual, sugiro que se encostem no muro das 'lamentações' ou se transfiram para Meca, Riad, etc A liberdade sexual é uma conquista da civilização e o posto disso chama-se barbarie.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Optando por um padrão de cultura

Em tempos de relativismo cultural falar em padrão de cultura, ao menos mais os mais ignorantes e toscos pode até parecer absurdo.

Demasiado conhecido por nós é o roteiro da superstição relativista - da Religião, a Filosofia e desta a Ética e a Cultura.

No âmbito da cultura o pregação relativista assevera que todas as culturas são iguais ou que possuem o mesmíssimo valor. Tanto a do aborígene australiano quando a Chinesa, tanto a dos halacalufes da terra do fogo quanto a russa, tanto a dos pigmeus africanos quanto a helênica, tanto as mais primitivas quanto a greco romana ou clássica.

Para os relativista trata-se de dogma sagrado e indiscutível e você não pode questionar, do contrário começam a berra: Nazista, nazista, nazista... Sem saber ou fingindo ignorar que os nazistas adotavam um critério étnico, afirmando antes de tudo e acima de tudo a suposta superioridade racial do povo germânico. Os nazistas são racistas, nós culturalistas. Pois a etnia é algo dado pela natureza e que não se pode mudar mas a cultura assimilável.

Assim para os nazistas a única solução viável é oprimir e exterminar as raças que consideram inferiores violando os direitos essenciais da pessoa humana.

Já para nós a solução é educativa e se dá na averiguação das fontes da cultura, na recuperação da parte mais nobre e elevada de nossa identidade, no resgate de um sentido, na reflexão e diálogo sobre os valores, etc

Não se trata de eliminar as culturas que se tem em conta de inferiores ou os aspectos primitivos e retrógrados de uma cultura e menos ainda de negar a quem quer que seja o direito de identificar-se com elas, mas apena e tão somente de demonstrar a desigualdade em termos de valores, de afirmar um ideal de cultura superior e de advertir a sociedade sobre a conveniência de adotar um padrão de cultura superior, voltado para a afirmação da Ética da pessoa.

Portanto já deixamos bem claro que a notação valorativa da cultura esta diretamente relacionada com a Ética ou os princípios e valores da idealidade. Assim teremos em conta de superior a matriz cultural que promova mais intensamente a pessoa humana e sua dignidade.

Não, nós não negamos o fundamento basilar da antropologia segundo o qual tudo quanto o homem produza seja cultura. O que nós questionamos é que toda a produção cultural humana, especialmente em termos de cultura imaterial, seja absolutamente igual.

Claro que esta temática nos leva de chofre ao complicadíssimo problema da cultura ocidental contemporânea e por consequência aos temas do Capitalismo e do Americanismo.

De fato a afirmação cada vez mais pronunciada do Capitalismo - e do processo de desumanização das sociedades ocidentais contemporâneas - e a expansão do americanismo com sua banalização de todos os aspectos da vida tem levado muitos críticos, até mesmo parte dos que pertencem a esquerda rosa ou moderada, a repudiar nossa civilização ou cultura como um todo i é em bloco, e consequentemente a afirmar a superioridade (de par com o relativismo rsrsrsrsrsrs) das culturas mais primitivas como a indígena, pelo simples fato de não serem tão desumanas, devastadoras e cruéis.

Até certa medida a crítica parece-nos justa e digna de ser aplaudida. Inegável que após a apostasia Ética do Ocidente - em termos de essencialidade e humanismo - adoção de um padrão materialista e economicista voltado para as necessidades artificiais e desumanas de um mercado, levaram parte da sociedade ocidental a portar-se pior do que os povos primitivos da Ásia, da África e da América. A negação e morte da Ética no Ocidente, alimentada pela ideologia positivista, acarretou um deficit tão grande neste setor da existência que nos tornamos tão grosseiros e brutais quanto nossos antepassados trogloditas. Assim os primitivos conservaram algum sentido rudimentar de ética enquanto o 'Homo economicus' perderam-na por completo e se tornaram de tal modo insensíveis que colocaram em risco sua própria existência bem como a de todo planeta.

Aplicada a civilização sobreposta que temos, a crítica é válida, bem como a veemência da revolta, pois basta dizer que as necessidades artificiais de consumo impostas pelo sistema estão a acabar com a fauna, a flora e com o próprio ambiente, ou seja, com o ar, a terra e as águas tornando tudo empesteado e insalubre. Se estamos já no antropoceno e a extinção de milhares de espécies de vegetais e animais bem como o envenenamento do ar, das águas e do solo é resultado da ação antrópica, somos os pivôs da catástrofe.

É um sistema suicida e o pior é que há pessoas decididas a mante-lo ou a oculta-lo tanto recorrendo a mentira como negando cinicamente os fatos.

Diante disto como condenar a reação extremista concentrada do outro lado ou do lado vermelho???

Agora o que direi a tantos quantos odeiam este sistema e detestam a esta cultura de morte é que não corresponde as autênticas fontes de nossa civilização.

Efetivamente nem o Capitalismo nem o Americanismo fazem parte efetiva de nossa cultura.

Então o que?

O que temos, ainda agora, é uma sobreposição anômala de culturas distintas e excludentes, assim os elementos - cada vez mais frágeis - de nossa autêntica cultura 'Ocidental', greco romana e Católica (não confundam o termo Católico com romano ou papista, e menos ainda e claro com protestante!), socrática, humanista, personalista, solidarista, justicionista, socialista, trabalhista, essencialista e sobretudo Ética e a estrutura da anti cultura protestante, individualista, capitalista e americanista elaborada a partir do século XVII. São elementos ou estruturas que jamais se fundem ou confundem levando ao conflito, a dissolução, a fragmentação, a perca das forças e a crise!

Evidentemente que nem todos estão plenamente conscientes deste conflito uma vez que não estudam o sentido ou espírito se suas próprias crenças (assim os Católicos alienados) e menos ainda as fontes mais remotas da cultura européia, em termos de princípios, de valores e enfim de Ética.

Não os fundamentos da nossa cultura não se encontram em N York, em Washington e nem mesmo em Londres, Genebra ou Wittemberg mas ao Sul, na Hélade de Sócrates, Platão e Aristóteles, na Jerusalém de Jesus, Tiago e João, na Roma de Paulo, Papiniano, Modestino e Ulpiano e por fim naquela brilhante síntese elaborada por Aquino e em seguida pelos já citados: Vitória, Soto, Bañez, Las Casas, Morus, Erasmo, Campanella, Suarez, Mariana, Bellarmino, Mably, Morelly, Lammenais... Tal o embrião do que deveria ser nossa cultura não fossem os contatos com o islã, a reforma protestante, o capitalismo, o comunismo, o anarco individualismo, o fascismo, o nazismo e todas essas aberrações monstruosas.

Mesmo porque um desvio puxa outro, o homem vai se afastando mais e mais de sua meta ideal e caindo de abismo em abismo.

É o que vem acontecendo conosco a cerca de 500 anos e eu que posso ser até reacionário (por buscar novos valores nas Idades Média e Antiga) mas que de modo algum sou conservador ou solidário para com esta nova estrutura desumana e anti humana enquistada na Civilização européia não perderei meu precioso tempo tentando justificar as cagadas do capitalismo e do americanismo, os quais tenho em conta de lixo ideológico enquanto negação sistemática de nossas raízes voltadas para o SER e não para o TER.

Tudo quando desejo explicitar que considero esta síntese cultural elaborada pelos fins da I Média ou pela nova escolástica espanhola a partir de elementos cristãos católicos, gregos e romanos como padrão de excelência justamente devido aos princípios e valores assumidos por ela.

Assim a política natural (vide artg precedente), a soberania popular, a perspectiva democrática, a afirmação do bem comum, a noção de justiça social, a relação trabalho/valor, o reconhecimento da liberdade pessoal (segundo Fustel de Coulanges ignorado pelos próprios gregos), sacralização da vida e sua dignidade, etc Lamento mas como historiador e educador não posso, sob pretexto de condenar ou combater o capitalismo, negar ou minimizar estes elementos tradicionalmente presentes na Cultura européia pelo simples fato de que o capitalismo consolidou-se repudiando-os!!!

Por isso considero vital o resgate de tais princípios e valores e um retorno crítico as fontes de nossa identidade e cultura, justamente com o objetivo de dar combate ao capitalismo. Claro que você sempre poderá partir de Marx, Lênin, Sorel ou Bakhunin numa perspectiva mais radical e iconoclástica. Mas também pode e eu posso - como Francisco Giner de Los Rios - partir de Sócrates, Platão, Aristóteles, Sêneca, Jesus, Basílio, Patrício, Aquino, Francisco de Assis, Vitória, Suarez, Mably, Lammenais, etc e elaborar um crítica não menos contundente. Agora eu tenho uma vantagem porque estou apelando - e buscando resgatar - as fontes tradicionais de nossa cultura, quiçá ainda presentes no imaginário coletivo dos povos...

E embora eu reconheça - especialmente face aos estragos feitos pelo capitalismo - que diversas culturas primitivas possuam elementos éticos dignos de aplauso e apreço, em nenhuma delas deparo com uma síntese tão bem feita como a que se me apresenta na Europa ante protestante e pré capitalista. Por isso que eu a assumo e identifico-me com ela embora não observe os críticos da anti civilização capitalista integrarem-se as sociedades ou culturas que tanto louvam e fazerem-se ianomamis ou jurunas, pigmeus, bosquimanos, halacalufes ou aborígenes como seria de se esperar por força de coerência. Criticam - e a crítica é até certo ponto válida e necessária - nosso modo de vida e valores 'in totum' mas quando ficam doentes não desprezam uma penicilina e quando viajam não recorrem a lombo de burro ou troncos de madeira...

Implica reconhecer que nosso modelo cultural ou civilizacional possui aspectos ou pontos positivos e negativos e que o ponto negativo mais saliente é a ideologia Capitalista. Agora não podemos confundir com o Capitalismo uma Sociedade que é milhares de anos anterior a ele e que por muito tempo subsistiu sem ele. É o quanto basta para demonstrar que o Capitalismo esta presente na Sociedade ou na cultura européia mas que não é a Sociedade e a cultura européia. Sim ele também produziu cultura, uma vez que esta ai há quase meio milênio. Mas não conseguiu eliminar toda cultura precedente, de que ainda há copiosos resíduos na civilização européia.

Sim, em termos de cultura sou eurocêntrico convicto e assumido, não desse eurocentrismo fajuto, fingido e hipócrita que assumiu os valores perversos do americanismo e conciliou-se com a ditadura do Capital. O americanismo corresponde a outros valores e sua matriz é a reforma protestante enquanto modelo radical de ruptura com o passado. O eurocentrismo humanista, fundamentado em nossa herança greco romana bem como no legado do Cristianismo primitivo é por natureza inconciliável com a visão americanista ou capitalista de mundo. Basta dizer que os ideais do mundo helênico giravam em torno do bem, do belo e da verdade enquanto que o ideal yankee jamais ultrapassa o vil metal ou o lucro.

A questão específica da Inglaterra será analisada no próximo artigo.


sábado, 7 de janeiro de 2017

A afirmação dos direitos humanos no Cristianismo primitivo






Wilson Reis

Ao discorrer sobre os direitos da pessoa humana a luz do Cristianismo bem poderia atalhar caminho e mencionar a célebre disputa sucedida entre Juan Ginez de Sepulveda, ferrenho defensor do aristotelismo puro - Associado ao maquiavelismo (!!!) e a doutrina estatolátrica da 'Razão de Estado' - e Bartolomeu de Las Casas OP defensor da Ética Cristã e da tradição Católica.

Refiro-me a polêmica dos 'naturais' ou dos 'justos títulos' a respeito da condição legal, jurídica e natural dos habitantes deste nosso Novo Mundo posto que não eram cristãos batizados ou filhos da igreja e portanto sujeitos a sua lei 'sagrada'. Então era preciso definir o estatuto deles.

Para tanto reuniram-se em Valladolid as principais mentalidades do Catolicismo, assim, alem dos dois contraditores, assim Soto, Cano, Bañez e Carranza. Os três primeiros haviam sido alunos do grande Vitória. Sepulveda apelando a ideias judaicas e agostinianas (como sempre) susteve que em virtude dos pecados e em especial da idolatria, nossos índios haviam se tornado sub humanos ou homens de categoria inferior, devendo ser tutelados pelos espanhóis. Por tutela compreendia as guerras de conquista, a imposição forçada da fé Cristã e em caso de revolta armada a escravidão.

Recuou no entanto - devido as críticas feitas por Melchior Cano - quanto ao segundo artigo (isso é importante) que era a imposição da fé, reconhecendo que "Aqui a violência seria inútil, pois homem algum, contra a própria vontade, deve ser obrigado a abraçar a fé. Aqui deve-se recorrer apenas ao ensino e a persuasão." 

Como era de se esperar o homem também apelou extensamente aos registros judaicos não Cristãos, apelando a temática (sempre renovada pelos protestantes) povo eleito X cananeus...

Francisco de Vitoria apelando a sentença do Aquino segundo a qual o exercício do poder esta fundamentado na ordem da natureza e não na ordem da graça (tenho para mim esta frase como amplamente fecunda ou revolucionária mesmo) havia lançado dúvidas, desde o princípio, sobre a conquista das Américas pelos espanhóis, classificando-a como invasão, trezentos e cinquenta anos antes dos comunistas e anarquistas! Além disto Vitória foi capaz de relacionar a doutrina segundo pagão algum poderia exercer legitimamente o poder político com os ensinamentos tomados por Wicliff a Bíblia ou ao antigo testamento, julgando tal doutrina abusiva, inaceitável e reconhecendo a legitimidade política dos soberanos nativos das tribos americanas.

Partindo dai Soto, Las Casas e posteriormente Suarez puderam estabelecer a igualdade genérica do ser humano para além de suas crenças religiosas ou formas políticas, extraindo dai a necessidade dos espanhóis absterem-se de fazer guerra as nações indígenas limitando-se a enviar missionários para doutrina-las religiosamente e sem qualquer apoio militar.

Por isso Las Casas é considerado como o profeta ou patriarca dos direitos inerentes a pessoa humana.

Agora darei volta ao parafuso e apresentarei algumas sentenças dos antigos a respeito da liberdade religiosa, negada pelos fanáticos:

  • "A religião vem pela persuasão e jamais pela força!" Tertuliano, Apologeticum
  • "Não os Cristãos não podem matar seus opositores e nem mesmo sentencia-los como Moisés ordenou aos adversários da sua lei, dizendo que fossem queimados e apedrejados." Origenes 'Ad Celsum' VII,26
  • "Não há qualquer justificação para violências e injúrias, pois a religião não pode ser imposta pela força." Lactantius Firmo 'Institutos' V,20
  • "Não temos a intenção de forçar qualquer homem a juntar-se a nossa comunhão contra sua vontade. Estou ansioso porque o estado cesse de perseguir-vos, mas vós, de vosso lado cessai de atacar-nos com vossos bandos de circumcelliones." Agostinho de Hipo 'O cisma dos donatistas' VII
  • "Usar da espada da autoridade civil contra os maniqueus é contra o espírito da Igreja e os ensinamentos de seu santo e divino fundador. SUAS VIDAS DEVEM SER POUPADAS E O ÚNICO CASTIGO QUE LHES PODEMOS IMPOR É A EXCOMUNHÃO." Waso de Liége 'Vita'
  • "Aplaudo o zelo do povo quanto a nossa Santa fé mas de modo algum seus atos de crueldade. A fé é resultado da persuasão e não da força." Bernardo de Clairvoux 'Sermo LXIV'


    Devo lembrar ainda que mesmo durante o período da contra reforma os Católicos mais instruídos e piedosos como Genebrardo de Aix, Nicholau de Lisieux, F Feuvardentius, Claudio de Espensè, Edelinus, Calidius, Du Pin Senior, Hardouin, F Veron, Huetius dentre muitos outros opuseram-se marcadamente a que os protestantes fossem convertidos a força ou supliciados em autos de fé.

    É o quanto basta para demonstrar que a fé Católica ou melhor sua ética, jamais apadrinhou essa instituição maléfica chamada Inquisição. 

Direitos humanos, uma perspectiva Cristã





A Wilson Reis 


Não compreendo que um Católico ou mesmo qualquer Cristão de boa vontade ouse questionar a validade dos direitos da pessoa humana.

Tal e qual a questão da negativa pelo socialismo, a questão dos direitos humanos deve ser analisada com bastante delicadeza. De modo que por estupidez ou burrice não venham os católicos mais uma vez a endossar as insanidades e obscenidades divulgadas pelos sectários protestantes.

Pois a perspectivada Igreja não é a deles e ainda que ela repudiasse a essência do socialismo ou dos direitos humanos sua perspectiva jamais seria a do capitalismo ou a do mosaísmo, mas outra coisa bastante diferente.

No entanto não é o caso.

Eis porque  Saulo de Tarso - em seu opusculo sobre o socialismo e a igreja - colocava a questão nos seguintes termos: Grosso modo podemos dizer que a disputa entre socialismo e catolicismo social não se dá em termos de prática, pois o objetivo a que se pretende chegar é bastante parecido, mas em termos de teoria. O Socialismo afirma o naturalismo crasso e em muitos casos a irreligiosidade e o ateísmo, enquanto o fundamento do Catolicismo social encontra-se em Deus enquanto Legislador Supremo e eterno. Donde a igreja não vê - e nem poderia ve-lo - como seria possível eliminar ou mesmo reduzir as injustiças sociais se Deus...

Aparentemente a crítica da igreja parece idiota. Mas não é, tocando aos fundamentos mesmos do direito natural e da Ética. O grande problema aqui é que quando a igreja escreve ateísmo devemos compreender não a negação do Deus dos filósofos ou do Deísmo e sim o repúdio a qualquer sistema de Ética que não esteja fundamentado numa ou melhor na religião revelada. Donde a Ética para a igreja será sempre uma Ética Cristã determinada por ela, jamais uma Ética naturalista arquitetada pela razão no plano metafísico.

O problema crucial aqui é que a Ética Cristã não é apta para inspirar uma Sociedade pluralista composta por membros de diversas comunhões religiosas e por um segmento de irreligiosos inclusive. A Ética Cristão só serviria para nortear uma sociedade 100% Cristã, a qual por assim dizer inexiste.

Aqui o grande erro da Igreja romana e de outras tantas fés, foi deixar de prestar apoio a Ética do deísmo ou do teísmo natural nos moldes dos antigos gregos. E condenar estupidamente todas as causas sociais e humanitárias que ousassem assumir um caráter naturalista, tendo em vista sua universalização.

Outra não é a questão dos direitos essenciais da pessoa humana.

Afinal pondo de lado algumas cogitações elaboradas pelos antigos estoicos alguns séculos antes de Cristo a ideia de uma lei ou direito natural teve por ponto de partida as investigações realizadas em Salamanca por Francisco de Vitoria que era um padre Dominicano. Naturalmente que suas reflexões estavam fundamentadas sobre três nichos ideológicos: A filosofia antiga ou pré Cristã, O Evangelho e a tradição patrística e o patrimônio escolástico.

Portanto sua reflexão foi quase que totalmente inspirada nas fontes áureas do Cristianismo.

Foi a partir daqui que os Dominicanos (Cano, Bañez, Soto, Campanella...) e os Jesuítas (Suarez - o 'Patriarca do jusnaturalismo' - Mariana, Bellarmino...) foram extraindo os elementos de uma política e de um direito naturalistas sem no entanto romper com a tradição da igreja pelo simples fato de que ao tempo as sociedades em que viviam era essencialmente Cristãs e não multifacetadas religiosamente falando.

Grosso modo podemos afirmar que os naturalistas ou irreligiosos, ou ainda iluministas fizeram muito, muito pouco no sentido de criar algo novo e que tomaram todo material político e jurídico aos sacerdotes e clérigos papistas, o que a primeira vista até parece assombroso. Basta recordar que a quase totalidade dos iluministas franceses (assim Voltaire, Col SJ  Louis le Grand; Diderot, Col SJ de Langres; D Alembert, Col SJ de Collège des Quatre nations, etc) haviam estudado em institutos religiosos ou mesmo jesuítas e sido alunos dos sacerdotes/filósofos.

Ignorar essa faceta dos patriarcas do iluminismo é ignorar a própria trama da cultura.

Portanto o que eles se limitaram a fazer foi secularizar uma ideia de direito natural e universal que já circulava a séculos nos meios eclesiásticos. Foi deste material essencialmente humanista e Cristão que extraíram os elementos constituitivos da doutrina dos direitos inerentes a pessoa humana.

Como todavia não quisessem vincular tais elementos a tradição Cristã ou como se diz hoje 'reconhecer os créditos' e em alguns casos mesmo a existência de um Deus Legislador - em que pese as advertências de um I kant - a igreja se lhe opôs e fez do naturalismo universalizante um carro de batalha, alias prestando um grande deserviço a civilização.

Até aqui as cogitações de ordem prática editadas pela alta teologia.

Agora se pomos o dedo lá bem no funda da ferida daremos com um problema muito mais sério e grave, que toca a ordem prática das coisas ou a cultura e que por assim dizer obscureceu a mente daqueles que dominavam politicamente a vida da igreja romana i é os curialistas, cardeais, papas e quase todo o alto clero.

Trata-se obviamente da existência da Inquisição ou do santo ofício.

Cujas implicações teológicas são bastante graves e profundas.

Pois não se trata aqui de matar ou de assassinar apenas. O que já seria grave.

Mas de matar ou assassinar pessoas pelo simples fato de discordarem da fé da igreja ou de desejar abandona-la.

O que nos leva a uma questão essencial em termos de Cristianismo e pela qual nos opomos marcadamente por exemplo ao Fascismo e ao Comunismo, que é a questão da liberdade.

Assim a existência da Inquisição implica a negação da liberdade religiosa e bem pensado da liberdade humana. O que nos levaria mais uma vez a ideologia agostiniana e posteriormente a calvinista...

Importa saber que em algum momento do século XIII desta Era, a doutrina tradicional e clássica da liberdade, foi mais uma vez posta em dúvida pelo Cristianismo Ocidental. E negada a simples possibilidade de decidir-se livremente em matéria de fé ou piedade.

A ruptura com a prática anterior foi tão brusca que a nosso ver só pode ser compreendida a partir de um poderoso reforço concedido a ideologia agostiniana, a qual por si só dificilmente teria podido alterar o estado vigente das coisas. Basta lembrar que Bernardo de Clairvoux - o assim chamado oráculo da Idade Média - mesmo sendo agostiniano era totalmente contrário a execução dos heréticos e ao constrangimento em matéria de fé.

Quando penso historicamente a inquisição penso-a como assimilação da instituição islâmica da Murtad pelos cristãos espanhóis islamizados do século XIII.

Aqui, paradoxalmente, a Murtad islâmica acabou por confundir-se com o próprio espírito das cuzadas ocidentais, já despojadas de seu sentido original que era a resistência a um ataque ou a uma agressão ou a uma invasão (jihadismo) promovida pelo islã. Por força de hábito os espanhóis passaram a encarar todo e qualquer dissidente Cristão como um jihadista... perderam por completo a noção de infidelidade (ademais agressiva como a muçulmana) e heresia, muitas vezes pacífica. E tudo foi enfiado no mesmo saco de gatos.

Posteriormente na medida em que as pessoas (clérigos inclusive) foram se aproximando mais e mais do antigo testamento ou da Torá, na perspectiva de um Corão Cristão, a instituição inquisitorial passou a ser alimentada por uma fonte supostamente Cristã e a maior prova neste sentido foi que os reformadores protestantes, com seu apelo a Bíblia unitária, jamais cogitaram em reforma-la ou extingui-la. Muito pelo contrário tanto mais valorizavam o antigo testamento ou os escritos judaicos e portanto a antiga cultura judaica, e tanto mais reproduziam o ideal da intolerância como um ideal essencialmente Cristão, de que temos exemplo em Calvino, em Beza e em Thomas Edwards...

Convergiram aqui três fatores para a afirmação do espírito inquisitorial:

  • A islamização da cultura ibéria e a transposição de elementos como a Murtad
  • Um espírito cada vez mais distorcido de resistência física e social a dominação islâmica.
  • A ideia de um Corão Cristão ou de que os escritos judaicos (Torá) possuem uma autoridade tão elevada e grande quanto o Evangelho de Cristo (Inspiração linear ou plenária)

Mesmo porque a tradição islâmica e a tradição judaica ante Cristã ignoraram supinamente o conceito ou simples ideia de liberdade pessoal (o que engloba a liberdade religiosa). Havendo quem como Fustel de Coulanges defenda que sequer os gregos possuíssem um tal tipo de consciência 'liberal', a exceção do campo da política ou da democracia.

Admitida a premissa de Coulanges somos obrigados a concluir que o conceito de liberdade pessoal e portanto de liberalismo religioso, teve sua gênese no Evangelho ou seja no Cristianismo. Sintomático é que a instituição da Murtad, posta para a morte ou assassinato dos apóstatas, encontra-se tanto no judaísmo antigo ou no Velho testamento quanto no Islamismo mas de modo algum no Evangelho, no Novo Testamento, na Tradição apostólica, no pensamento patrístico ou mesmo na primeira escolástica e no franciscanismo nascente, i é até meados do século XIII, surgindo no contexto específico da Espanha por iniciativa dos Dominicanos.

São mais de mil anos de total ausência de um mecanismo repressor Cristão em termos de fé.

No entanto a adoção desse mecanismo pela Igreja latina a partir do século XIII foi o quanto bastou para obscurecer a ideia de direitos humanos na vida da Igreja. Pois se o homem não tem direito a liberdade e a vida terá direito ao que?

Lamentavelmente a aparição do protestantismo, o estardalhaço feito por ele em torno do antigo testamento e da cultura judaica, o apoio recebido por ele por parte do poder secular, etc acabou por afastar a igreja romana ainda mais de sua própria consciência histórica e por mante-la atada e presa aos elementos islâmicos e judaicos, até em meados do século XIX, após a afirmação dos direitos do homem por parte dos irreligiosos, fazer sua pior cagada (sob Pio IX) ao condenar os direitos da pessoa humana e a sancionar diversas formas de opressão em nome da religião de Cristo e de seu Evangelho, nada ficando a dever - em matéria de insanidade - aos Malafaias, Everaldos, Campos, Cunhas, Felicianos, Crivellas, etc do tempo presente.

Quando Calvino e Beza já haviam sido lançados as urtigas pelos próprios protestantes europeus, os quais ora esforçavam-se por ocultar seus tenebrosos ensinamentos a respeito da pessoa humana, assistimos o espetáculo de um Papa romana repetir-lhes as lições! Negando o liberalismo religioso!
Não se trata obviamente de negar as consequências espirituais do erro em matéria de religião, pelo qual certamente haverá de responder no plano espiritual ante a face de Cristo, mas de negar resolutamente a pretensão judaico/muçulmana de que tais erros devam ser impedidos ou punidos por outros homens, enfim pela mesquita, pela sinagoga ou pela igreja. A questão aqui não é de relativismo, no sentido de que o equivoco em matéria de fé seja irrelevante ou inócuo, como supõem o papa Pio IX. A questão é se as sementes deitadas pelo inimigo possam ser removidas pelo homem ou pelos oficiais da igreja antes do tempo da colheita, e a resposta fornecida pelo Cristo nos Evangelhos é não! É mandamento do Senhor esperar até o momento da ceifa, isto quando a erva má não morrer por si mesma...

No entanto quando retiramos uma peça de ouro ou prata do lamaçal e removemos o lodo que a envolve ali esta o ouro e a prata brilhando novamente. Assim removida a doutrina da inquisição e todas as péssimas ilações teológicas que dela decorrem temos mais uma vez diante de nós a legítima tradição da Igreja Católica a brilhar e como veremos no próximo artigo esta tradição é uma tradição humanista e justicionista destinada a afirmar essencialmente os direitos e as prerrogativas da pessoa humana.