Mostrando postagens com marcador Existencialismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Existencialismo. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Conhecendo o outro lado de Juan Valera II - Um liberalismo salutar



Resultado de imagem para juan valera





Já abordei exaustivamente o tema dos liberalismoS, cujo S maiúsculo vem a calhar. Assim como jamais houve uma Cruzada, uma Renascença ou uma Revolução Francesa mas diversas CruzadaS, RenascençaS e RevoluçõeS francesaS, tampouco existe algo como LIBERALISMO em singular... E se os autores ingleses insistem doentiamente a respeito de tal espantalho é porque aspiram levar o capitalismo no reboque da democracia ou melhor do liberalismo político e do liberalismo moral/pessoal. E, sem embargo, não há conexão ontológica entre eles!

Como não há conexão ontológica entre aborto e socialismo... em que pese os asnos abortistas... Alias não sou contra a sociedade discutir a discriminalização do aborto em certas situações sociais, como a extrema ou pobreza ou miséria. Questiono apenas o Dogma da liberalização geral, em termos de direito atribuído a mulher e sem relação com as circunstâncias externas. Abortar não constitui direito algum quando os interessados podiam ter evitado a concepção... assim no caso das pessoas instruídas e economicamente bem constituídas.

Mas vamos ao liberal Juan Valera, a respeito do qual ignoro supinamente se assumiu ou não o liberalismo econômico. Pelo simples fato de não ter podido ler todas as suas obras. Valera no entanto apresenta-se como liberal por ter assumido, na Espanha desencontrada do século XIX, o liberalismo religioso. Leia-se liberalismo e não relativismo e menos ainda ceticismo, pois este Valera não cessa de apresentar-se como Católico, em que pesem suas críticas, sempre lúcidas e ponderadas, a respeito de como os iletrados, os fanáticos e as massas pensavam o Catolicismo...

Valera tem qualidade Católica. Por não confundir os mistérios centrais da Religião com bentinhos, medalhas, milagres, aparições, canonizações, tremeliques, etc ou seja, face a toda esta craca ou ganga que onera o Catolicismo seja o romano ou mesmo o Ortodoxo, e que tanto agrada os ignorantes.

Em política não me parece que tenha sido liberal, por ter sido embaixador dos reis, e suponho eu, menos ainda em economia.

É curioso que ainda hoje prolifere este tipo de mau Católico, ignorante ou malicioso, que fazendo guerra aos liberalismos político e pessoal/religioso - e consequentemente sustentando o totalitarismo - bem como a forma democrática, 'pegue leve' face ao liberalismo econômico, primogênito do protestantismo...

Católicos há querendo que a sacrossanta religião assuma o filho que não é dela, e que batize e crisme o bastardinho da reforma, digo o Capitalismo ou liberalismo econômico. Não odeiam apenas ao judeu/alemão barbudo com sua ditadura do proletariado - pois também eles acalentam a ditadura ou a tirania na alma! - mas também ao imortal autor da 'Ética protestante e o espírito do Capitalismo'... pois aspiram demonstrar que mamonolatria ou a idolatria do capital teve berço Católico... Pobre para Leão XIII...

O que eles não sabem ou mal sabem é que Aquino, ao tomar Aristóteles por mestre e guia, desbancou Agostinho há quase oitocentos anos. Agostinho, na Civitas Dei (Que não deixa de ser uma obra memorável - por ter primeiramente aplicado o conceito de Humanidade ou de Humanitas a síntese História) foi quem baralhou ou confundiu as duas esferas - Deus e César - perfeitamente separadas pelo Verbo divino, além de promover o regime monárquico (Vezo de que Aquino não se desprende). Além disto o Bispo de Hipona apresenta a vida política segundo sua visão maniqueísta ou fetichista, como uma espécie de castigo pós pecado.

Para Aristóteles a vida política possui um fim em si mesmo ou seja é autárquica.

Aquino fez opção de seguir Aristóteles. Quanto a igreja romana - e o autor destas linhas, que admira Aquino, não é romano, mas Católico Ortodoxo - foi canonizado e sua teologia apadrinhada pelo Papa Leão XIII. Para nós é um pensador vigoroso e teólogo respeitável.

Aquino formulou a tese dos fins estanques mas articulados. Assim o fim da Igreja ou da piedade é encaminhar-nos a felicidade eterna. Já o fim da Sociedade civil ou política é promover a felicidade humana em termos de natureza.

As consequências aqui são estrondosas: Embora enquanto princípio o poder proceda de Deus, seu objeto primário ou imediato é o povo. E temos já aqui a teoria do poder popular. Muito bem estabelecida por Aquino. No entanto Aquino respeita em demasia a Agostinho e lhe paga tributo - bem como a seu tempo - incensando a monarquia. Pois segundo crê Aquino, o povo não tarda a alienar seu poder, transmitindo-o ao governante.

Em que pese este 'senão' por parte de Aquino ele não deixa - em contraposição a diversos autores de 'Espelhos' dos séculos XVI e XVII - de reconhecer que o povo tem o direito de fiscalizar e de impugnar o exercício do poder. Justificando plenamente a rebelião caso o príncipe ou soberano anteponha quaisquer interesses particulares ou privados ao 'Bem comum'. Permanecendo, ainda aqui, fiel a Aristóteles e a seu critério, por nos exposto num artigo precedente.

Já dissemos que tais princípios não foram apenas reproduzidos mas ampliados pelos neo escolásticos de Salamanca até chegarmos ao liberalismo político/pessoal pleno, aos Direitos humanos e ao Constitucionalismo. Alias antes que os ingleses impusessem sua Magna Carta ao rei João sem terra, já as cortes espanholas haviam imposto uma carta a seu rei. Basta lembrar que durante o Reino Visigótico foi a Espanha governada pelos Sínodos de Toledo, os quais na prática funcionaram como cortes e limitaram o poder do rei. Este sistema foi amplamente exposto por S Isidoro de Sevilha e a par dele florescia o sistema municipalista implantado pelos romanos.

Mas não se havia chegado a qualquer teoria democrática. As cidades Suíças, que adotaram as formas democráticas no decurso dos séculos XIV e XV, jamais conheceram uma teoria democrática.

Quanto a simples forma democrática, Waley (1969) nos informa que a primeira cidade Italiana a adota-la foi Pisa no ano de 1085. Milão assume a dita forma em 1097, Arezzo em 1098, Luca, Bolonha e Siena cerca de 1125. Alastrando-se esta forma 'republicana' como era chamada então por toda Toscana e Lombardia. Curiosamente não temos notícia de que o Papa romano, os bispos ou sínodos a tenham impugnada como herética ou anti Cristã.... Como querem os adeptos do direito divino ou os integralistas.

As populações eram Católicas, as cidades possuíam Bispos, clérigos, monges, teólogos, etc e ninguém deu com a heresia democrática. O quanto temos a dizer é que no século XIII, que corresponde ao apogeu da Civilização Italiana ou mesmo europeia, temos, por parte de diversos autores, todos Católicos, decidida defesa da forma democrática. Assim Ptolomeu de Luca, responsável por completar o 'Governo dos príncipes' de Aquino, Dominicano e Bispo de Torcello além de confessor do papa romano João XXII. Ora este homem religioso identifica a forma monárquica como tirânica e aplica o termo Político apenas a forma democrática, declarando que o sistema eletivo sempre deve contar com a preferência das pessoas.

Seu ponto de vista foi aprovado e desenvolvido por: Brunetto Latini, Dante, Alberto Mussato, Dino Compagni, Bonvesin della Riva, Marsiglio de Padua, Coluccio Salutati, Leonardo Bruni, P P Vergerio, Poggio Bracciolini, Alberti, Manetti, Matteo Palmieri, Landino, Platina... Temos aqui clérigos franciscanos, secretários papais, etc Temos assim que os primeiros teóricos ou advogados do sistema democrático foram Católicos. Ponto e basta... E as repúblicas democráticas floresceram ali aos pés de Roma e do Vaticano. A menos que Roma fosse completamente cega não teria deixado de condenar semelhante praxis, caso fosse anti Cristã.

Roma não se manifestou. Admitindo a tese tomada ao própria Aquino e aos neo escolásticos: Não cabe a Igreja, de modo algum, julgar as formas ou estruturas políticas... Pois esta função pertence a ciência política. A Igreja cabe julgar os atos do governante tomando por base a Lei natural ou os direitos essenciais da pessoa humana. Destarte seu juízo é ético e válido apenas, em princípio, para o povo de Jesus Cristo Senhor Nosso. Juízos puramente políticos a Igreja não elabora porque não lhe cabem. É o que se deduz da doutrina de Aquino, como fizeram os neo escolásticos.

Destarte quem quiser condenar a divisão, seja honesto, torne a Agostinho e condene não a Aristóteles apenas, mas a Aquino, como corruptor e a seus continuadores como corruptos. Por outro lado, admitidos os princípios admitidos por Aquino, não é possível fugir as deduções lógicas feitas por seus continuadores. Escolasticamente...

Juan Valera podia ignorar quase tudo isto. Não presumo que o soube-se ou que o ignora-se... Limito-me a declarar que conhecia muito bem as origens dos direitos humanos e da liberdade religiosa, vinculando-os a Vitória e a sua escola; e endossando-os numa época em que o sinistro Donoso Cortes tipificava a Ortodoxia... Quando penso Donoso Cortes com seu confusionismo integrista não posso deixar de ter em mente a crítica magistral elaborada por Valera.

E para tanto desejo reproduzir algumas parcas passagens suas. As quais vem a calhar nestes tumultuosos dias em que a infidelidade dos Católicos assoma aos céus:

"Meu antagonista deseja estabelecer que Catolicismo, Liberalismo e Socialismo correspondem a três escolas totalmente opostas e inimigas umas das outras e supõem que não é possível ser liberal sem ser cético ou ser socialista sem se ateu e o que é pior ser Católico sem ser servil..."


"Assim seria como se disséssemos que a escola liberal, inspiram-lhe vivo horror tanto a postura dogmática de Donoso ou Torquemada quanto a negação ousada de Proudhon ou Babeuf - A escola liberal por ter pingo de juízo causam-lhe horror os extremos do Dogma e do Anti dogma, ambos inconsistentes... pobre dela caso de ao porto 'Católico' de S Antonio em Sevilha, com o saque feito em nome de Deus e do rei aos gritos de 'Morte a nação - Viva a Inquisição e aos grilhões!' ou aos escolhos socialistas dos incêndios de Valladolid e Palência. 'A escola liberal só domina quando a civilização desfalece' diz ele, e por isso domina a Inglaterra, a França e a Bélgica... Por isso espero que jamais chegue o dia das negações radicais ou das afirmações soberanas ou seja a festa de Torquemada ou Robespierre, a apoteose de S Bartolomeu ou do terror, a exaltação dos autos de fé ou da guilhotina, dos assassinatos de judeus, indígenas ou frades. Para que tais dias jamais venha a brilhar, a escola liberal, busca distinguir todas as noções POR MEIO DA DISCUSSÃO... E PROPAGA A DOUTRINA FILOŚOFICA QUE NOS ACONSELHA A EXAMINAR DETIDAMENTE ANTES DE CRER NO MARQUÊS DE VALDEGAMAS OU NO CIDADÃO AIGUALS DE IZCO."


"Escrevendo, falando, pensando e até sonhando pode errar o ser humano. O que não queremos de modo algum é que o amarrem, que lhe cortem a lingua, que o façam mudo, que o deixem manco, que o amordacem para que jamais venha a errar... queremos a liberdade de pensar, a liberdade de andar, como queremos a liberdade de viver. Vivendo se erra pois é a vida exposição ao erro, nem por isso aspiramos que se assassine a alguém com o objetivo de evitar que erre."


"Não pode assim esta nossa terra não poderá erguer muralha que impeça a corrente do espírito humano de penetra-la. Todo bem e todo mal que esta corrente trás consigo forçosamente penetrará nossa sociedade, e temos que lançar nossos espíritos nela. Se por receio de nela cair nos retirarmos, esta corrente nos arrastará e nos levará para onde quiser. Caso tenhamos a ousadia de entrar nela, poderemos contribuir para imprimir-lhe uma nova direção, uma direção sã. Assim tomaremos parte numa grande obra, e estaremos situados entre os povos que vão a frente da Civilização. Nós que levamos a fé de nossos pais e a civilização a um Novo Mundo. Nós que tanto contribuímos para o zênite da Civilização, em que pesem as negações dos contrários, não iremos nos converter em fósseis ou em múmias, não iremos nos emparedar ou enfiar a cabeça no chão e nos separar de todo comércio humano e espiritual por receio de que nos seduzam, de que nos enganem, de que nos iludam, de que burlem de nossa inocência. Isto seria uma loucura digna apenas dos paraguaios do doutor Francia."


"Apresentas tu o Estado como uma casa, onde o bom governo faz as vezes de pai de família ou de tutor e o povo de filho ou menino e na qual o governo vela para que o pobre menino jamais fique enfermo ou jamais caia, guiando-o, tomando-o pela mão, afastando de seus lábios qualquer alimento nocivo ou lançando-o entre as grades do chiqueirinho; e ali, preso, eternamente, ficará seguro e jamais se lastimará. Ora este povo jamais crescerá..."


"Boa unidade Católica fechada essa que a Espanha fantasia. Uma Unidade Católica em luta aberta contra a informação e a liberdade opõem-se a dignidade humana e a vontade divina, a qual deseja que a ela nos submetamos não por receio dos poderes terrenos mas por amor. Não apenas quanto ao exterior, a aparência e a forma mas no mais profundo do ser... Por isso não vejo a de extinguir a ciência humana, de fechar a porta ao progresso ou de impedir que se pense e se discuta para que se creia. ANTES ME PARECE MELHOR E MAIS EXCELENTE QUE CREIAMOS MAIS FIRME E PIAMENTE TANTO MAIS PENSEMOS, SAIBAMOS E DISCUTAMOS."

"Assim se a Rebelião de Proudhon vomita blasfêmias contra Deus, a reação encetada por Donoso Cortês vomita outras tantas blasfêmias contra a humanidade e contra os dons naturais que o Senhor Deus chamou a existência. Era dignos um do outro... Proudhon arrenegava Deus e lhe declarava guerra porque não lhe revelava o segredo de fazer os homens felizes. Donoso cortês arrenegava a humanidade inteira porque não admitia a soberania de sua inteligência ou a perícia de suas opiniões. Negava aos demais o apanágio da inteligência porque não o tomavam por árbitro infalível e para que suas opiniões ficassem sendo invulneráveis cuidava de mistura-las ímpia e criminosamente com a sã doutrina da Igreja
." Assim todos os integralistas, jutamos nós...

E para encerrar este artigo selecionamos esta joia literária:






"Apesar das limitações que inquinam minhas obras, quisera por meio delas obter uma fama póstuma; quisera deixar algo que me sobrevivesse. Bem sei que não serei muito popular ou muito lido, porém dentro de cem ou duzentos anos não faltarão aficcionados por livros raros que me tenham em suas bibliotecas. Pode ser que um Salamanca ou um Gayangos de então, adquiram um exemplar desta edição a peso de ouro, pois chegarão a ser raros, provavelmente por ser esta a única edição que dou a público, assim pelo descuido com que manipularão estes exemplares, empregando-os para embrulhar qualquer coisa. Este pensamento do bibliófilo é que me há de salvar da onda do mortal esquecimento. Ele me anima, me conforta, me guia e por isso optei por publicar estes artigos.


Apenas pelo pensar e dar por certo que dentro de um ou dois séculos, se poderá dizer que por um Valera bem conservado haverá quem dê mil ou mesmo dois mil reais, dou por bem empregados os que gasto nesta impressão e o desdem que agora obtenho do grande público. Tudo se poder sofrer e suportar na esperança de que ainda haja um Valera bem conservado daqui a um par de séculos; especialmente se considerarmos que o Valera em carne e osso, ou seja, aquele que vos escreve, se vai lentamente envelhecendo, desfazendo e consumindo. Sobreviva assim meu espírito e reste algo dele neste pobre mundo, tão querido quanto ingrato, mesmo que no fundo empoeirado de uma estante e em raras ocasiões em contato com outros espíritos humanos, salvo é claro com os espíritos daqueles eruditos que folgam ler tudo quanto ninguém jamais quer ler."


terça-feira, 23 de janeiro de 2018

O ateísmo, o agnosticismo, a Kalokagatia e a morte da estética III - O sentido e as aspirações frustradas

"A existência sem a música seria um equívoco." Nietzsche 



Ao tecer suas considerações sobre o 'ateísmo' militante ou proselitista o sensato John Gray - e não o bispo Fulton Scheen (mas bem poderia ter sido ele) - publicou um fragmento bastante curto mas nem por isso pouco extenso e profundo, pelo contrário seu significado é vasto, então 'Verbi gratia':

"A crença no progresso é uma relíquia da concepção Cristã da Historia... Um ateísmo intelectualmente vigoroso começaria por questiona-la." 2011 p 332

E por ser completo ou mostrar fundamento, remete-nos a leitura de uma obra tão clássica quanto insuspeita ( Seu autor é um irreligioso confesso. ), a "Towards the ligth..." de Grayling.

Por coerência meus amigos ateus deveriam principiar abraçando a única opção que parece estar de acordo com sua ideologia - O nihilismo. Por via de escolástica ou de coerência lógica o ateísmo conduz necessariamente ao nihilismo, ou a abdicação de qualquer sentido ou direção quanto a existência humana. Claro que nossos antagonistas sempre poderão dizer, com os anarquistas, que a lógica, a coerência, a racionalidade... são formas de controle ou de dominação rsrsrsrsrsrsrs de autoritarismo enfim. Começaram tentando demonstrar racionalmente que Deus inexiste, e agora refugiam-se na palhoça do irracionalismo...

No entanto se usam de argumentação racional com o objetivo de demonstrar que não existe deus algum - e é evidente que me refiro ao Deus dos filósofos e não ao Deus da fé ou da Revelação.  - por que raios não levam essa argumentação adiante? Por que abandonam-na no meio do caminho? Por que não fazem o trajeto em sua completude?

Simples - Porque sem uma mente ordenadora, um ente organizador, um legislador supremo, uma consciência transcendente em comunhão com a Imanência, não podemos falar em qualquer sentido, direção ou tendência histórica. Toda direção supõem necessariamente um objetivo a ser alcançado e este um plano. Mas como pode haver plano sem que haja Planejador, mente ou consciência???

Concordamos com os cientificistas, ateus, materialistas, etc Não se pode discutir e menos ainda impor o 'Design inteligente' em aulas de Biologia. Teoricamente as aulas de Biologia deveriam contentar-se com os 'fatos' em sua simplicidade. No entanto, se assim o é, por que raios o Biólogo Dawkins e tantos outros teem o direito de negar o sentido e portanto de fazer metafísica ateística em nome da Biologia e da ciência??? Eis a contradição... Pois há centos de Professores de Biologia vendendo metafísica ateística em nome da ciência em nossas salas de aula. Não deveriam interpretar ou especular em torno do fado evolutivo, mas o fazem e sem maiores cerimônias! Raramente nos deparamos com aulas verdadeiramente científicas, factuais e portanto agnósticas.... No entanto apenas a metafísica teísta tem levado a carga, não a de Mr Dawkins e seus companheiros, apóstolos do ateísmo.

Tudo bem removamos o design inteligente do campo da Metafísica e substitua-mo-lo pela nova moda, do Caos. Diante disto poderemos falar em tendência, direção ou sentido??? Certamente que não. Mas é díficil encarar a Evolução das espécies e a manifestação da auto consciência, da razão, da liberdade e da Ética sem dar com a tendência. Basta pensar, refletir, ponderar... por alguns instantes. Daí - Fuga pelo irracionalismo. Pera lá, mas não somos nós que até agora argumentávamos racionalmente contra a existência de Deus??? No entanto quando chegamos a contemplação do fenômeno humano em sua especificidade e o trajeto porque chegamos até aqui, fica difícil ignorar a questão do sentido.

A maior parte dos neo ateus no entanto teimam, obstinadamente, em apresentar a velha fé redentora assumida pelo positivismo e portanto transplantada da religião, alias Cristã, aos domínios da natura... E atribuem essa redenção, sob o nome de progresso, a ciência. O credo de Dawkins, Dennet, Hitchens, Amis, Pulmann e outros tantos apóstolos do neo ateísmo continua sendo o Progresso técnico oferecido pela divina ciência. Progresso diante do qual tecem as mais absurdas, desmioladas e idealistas conjecturas... a ponto de imaginarem-se compondo poemas Épicos, sinfonias e mesmo santuários a nova divindade Redentora que conduzirá a humanidade num paraíso, ou melhor que converterá nossa terra num paraíso de esplendor... O 'Hino' é cristão, mas a ideologia comum, ao Cristianismo e ao neo ateísmo com seu legado positivista totalmente ultrapassado...

De nossa parte o quanto fazemos é perguntar-nos sobre o pôrque dos ateístas não terem lançado as favas esse resíduo secularizado da fé e de uma fé redentora? Temos que questiona-los e de perguntar-lher sobre o pôrque de não terem canonizado o nihilismo e negado o sentido da existência. Possível é duvidar, questionar, silenciar... embora seja já doloroso. Agora concluir pela total falta de sentido ou pelo absurdo da existência, e, enfim, pela malignidade essencial da razão até aborrecer a auto consciência de si mesmo parece ser para poucos, muito poucos. Demandando alias a elaboração de um discurso eficaz destinado a impedir que homens convertam-se em lemingues. Camus teve de elaborar tal discurso para que o suicídio não se converter-se em epidemia. E no entanto os países agnósticos ou materialistas - que contam com o maior número de ateus, embora eles jamais constituam a maioria! - nos quais a sociedade atingiu os melhores índices em termos de condição humana, são os que apresentam os maiores índices de suicídio e isto a ponto de preocupar as autoridades.

Dir-se-a que em tais países as pessoas dão cabo da própria vida porque enfrentam uma condição de miserabilidade extrema. Em se tratando da Suécia, da Dinamarca, da Finlândia, da Noruega, da Holanda, etc a pressuposição acima é absurda, pois o estado de bem estar social cuida de todos. Então por que se matam? Afetando sabença, os apóstolos do ateísmo, apelarão certamente ao clima - Falta de luz solar, sombras, nuvens, frio... A explicação até parece boa, mas temos que considerar que a epidemia de suicídios é recente, tendo acompanhado a ascensão da irreligiosidade. Já o clima, como qualquer um sabe, é elemento constante, cujo 'tom' remonta há milênios...Diante disto qualquer um de nós pode perceber o tamanho da falácia. O clima não explica absolutamente nada... pois não sofreu qualquer alteração sensível no tempo presente.

Claro que a questão não sendo social - Já parou para pensar que nas favelas do Brasil ou nas 'Vilas' da América latina a taxa de suicídios é bem menos do que nos países acima citados? - conduz-nos a uma questão muito pouco agradável a nossos amigos ateus que é a questão existencial, i é, a questão já alardeada em torno do sentido da existência. Essa questão foi proposta inúmeras vezes sob diversas formas e temos as versões de - Marco Aurélio, Agostinho, Pascal e Kierkegaard, dentre outros...

Claro que há ateus valorosos. Os quais apresentando o fenômeno humano como um golpe de sorte ou um acidente provocado pelos átomos que giram eternamente (Hume), declaram não haver sentido ou finalidade alguma. E não podem fugir a conclusão segundo a qual a consciência de si, que pela negação do sentido implica frustração, equivale a uma aberração, enquanto que a razão chega a ser comparada a um verme que nos corrói por dentro e nos incomoda, e nos martiriza com essa busca utópica pelo sentido. Sentido, objetivo, direção, finalidade, tendência que nos remete sempre a um Deus.

Assim o tributo pago ao ateísmo, jamais poderia ter sido barato, e foi o nihilismo.

O que questiono aqui é a leviandade dos neo ateus que não estão dispostos a pagar o preço estipulado e que continuam a enganar a pobre humanidade a partir de uma fé seculariza e a anunciar, não menos que Karl Marx, que a ciência e a técnica nos abrirão as portas do paraíso na terra. Sendo assim comecem a pinta-lo e a publicar revistinhas como as testemunhas de jeová! De fato, sua ciência tecnicista até poderia (o fato é que não pode), eliminar todos os sofrimentos que o homem impoẽm ao outro homem (isto é tarefa precípua da Ética. Ética que o positivismo sempre negou). No entanto como declara Tasso da Silveira, jamais poderia eliminar a consciência de nossa finitude face a vastidão imensa do universo. Jamais poderia eliminar o drama existencial que nos persegue onde quer que estejamos.

Fato é que os ateus não são capazes de eliminar este drama cósmico e tampouco a busca do homem pelo sentido da existência em que foi lançado. Remetemos mais uma vez o amigo leitor a John Gray - "A religião não foi embora. Reprimi-la é como reprimir o sexo. Tentativa fadada ao fracasso." p 335. A bem da verdade, mesmo aqueles que não creem, continua o mesmo Gray - inspirado por um senso de realidade muito superior ao de S Freud - o que deveríamos tentar fazer é investigar quais sejam as formas menos evasivas e mais evoluídas em termos de religião, para tentar educar e moldar este impulso da melhor maneira possível. Comunicar-lhe formas mais amenas e humanas, deveria a ser a meta de todos nós, inclusive dos ateus mais inteligentes, que dispensam a existência de um Nous ou de uma revelação. Deixar tal impulso entregue a si mesmo ou descurado, implica uma total falta de responsabilidade pela qual pagaremos muito caro. Mas os ateus continuam adotando padrões irracionalistas - Combatem como Dawkins, as fés mais evoluídas - Que tendo assimilado algum elemento racional aspiram compor-se com a ciência e promover o homem - e apoiam, ao menos indiretamente as religiões atrasadas e rudimentares, declarando que as religiões devem ser necessariamente fundamentalistas e fanáticas. Em certo sentido odeiam mais ao espiritismo, aos catolicismos e ao budismo do que ao islã e ao pentecostalismo, os quais de modo algum temem.

Por que teci tantas conjecturas de o tema deste artigo é a estética ou a beleza?

Um amigo a quem muito prezo, alegou que há algumas almas fortes que apegam-se a religião tradicional devido a questão da estética, da beleza, da arte, etc Mas me parece que ele não consegue penetrar o porque desta petição estética ou deslinda-la, talvez porque creia, não o sei, que a beleza, ou seja relativa nos termos de um Kant e dos modernistas, ou seja supérflua.

É a questão que tentei responder neste três artigos, chegando a conclusão.

Na hipótese da escolástica ateística do nihilismo ou na total falta de sentido quanto a existência não nos deveríamos preocupar nem com a Beleza, nem com a Bondade... Bastar-nos-iam a verdade isolada. Feia ou isenta de beleza. Existiria apenas uma verdade dura e uma dura verdade, beleza e bondade seriam utopias ou ideias relativos construídos pelo homem em sua prisão ou cubículo universal. Temos uma ideal e uma fome de beleza, mas ela não existe fora de nós ou sequer existem em si mesma. Diga-se o mesmo da bondade...

Há muito que os ateus sacrificaram á estética, ignoro sérias reflexões em termos de estética feitas por ateus. No mais do mais contentam-se com as opiniões já expostas de Kant... A Ética foi oficialmente abandonada pelos próprios positivistas e todas as tentativas de produzir-se uma Ética - E ME REFIRO É CLARO A UMA ÉTICA HUMANISTA QUE PROTEJA E PROMOVA O SER HUMANO - em termos de biologismo evolucionista (Spencer - Darwinismo social e Kropotkin) ou de pragmatismo tem sido desastrosas, jamais atingido o fim a que se propuseram. Ateísmo e materialismo não tem sido bem sucedidos no sentido de produzir uma ética eficaz... Gray com absoluta razão refere-se a essas falhas terríveis, sobre as quais ateu algum gosta de refletir, em termos de Nazismo e Comunismo, e bem poderia adicionar o formalismo jurídico de Kelsen. Além disto tem o ateísmo em sua quase que totalidade tem pactuado com o liberalismo econômico ou Capitalismo que é outra cultura de morte e matriz das demais culturas de morte.

Já quanto a produção estética ainda não chegou o dia em que gênios ou ateus inspirados haverão de compor os magníficos dramas, loas, sinfonias, poemas épicos, catedrais, conjuntos esculturais, etc em homenagem a ciência. O ateísmo tem sido estéril em termos de produção artística, exceto quando ateus fazem petição a fontes de inspiração religiosas ou mesmo cristãs... Pior, quando produzem alguma arte é sempre a prostituída arte de Kant, psicologista, subjetivista, anárquica e sem regras... Fruto se sonhos caóticos e pesadelos tenebrosos. Coisa que qualquer moleque de dois anos bem podia fazer rabiscando sobre uma folha ou mesmo, acreditem, cagando! No setor do modernismo talvez encontremos os gênios do ateísmo, ineptos para traçar a perspectiva de um desenho, para misturar as cores com delicadeza, para fazer arranjos, para obter rimas preciosas, etc, etc, etc Claro que se não há regras ou normas objetivamente fixadas para a confecção da obra de arte, a avaliação de que é objeto só poder arbitrária, em termos de um 'gosto' sem qualquer justificativa plausível.

Bem o que eu quis e quero dizer que a busca pelo sentido, tal como fora compreendida pelos antigos gregos, compreende não apenas a verdade... pois a verdade sempre poderia ser 'Não ha verdade alguma' rsrsrsrsrs ou 'Não há sentido'. A verdade para esgotar plenamente o sentido da existência deve estar necessariamente acompanhada pela bondade e pela beleza. A bondade e a verdade devem ser belas. A beleza e a bondade devem ser verdadeiras e a verdade e a beleza devem ser boas. Assim se manifesta plenamente o sentido da vida que todos buscamos. O Bom, o belo e o verdadeiro foram uma Unidade inseparável ou uma Trindade ideal no dizer de Flaubert. Até podemos substituir a religiosidade pela contemplação estética a maneira de Gautier, o que não podemos fazer é substituir a contemplação estética por qualquer outra coisa sem mutilar-nos a nós mesmos. A dimensão estética da vida faz parte de nossa integralidade e, se a religião busca satisfaze-la e o ateísmo não - mostrando-se insensível - a questão esta revolvida - O ateísmo é bisonho por reduzir a dimensão da existência a uma verdade gélida e fria...

"Deus não existe." declara o ateu. Ótimo em que isto nos tornará melhores e como produzirá beleza??? Ah não estamos em posse de padrões essencialistas que nos tornem melhores em sentido unívoco pois a Bondade é relativa e o homem seu supremo critério (Excelente, então deixemos o torturados torturar e o estuprador estuprar e cessemos hipocritamente de condenar Hitler, Stalin ou Bush fundamentados em nossas opiniões individuais! ). Já quanto e beleza, podemos bem passar sem ela???

Mas eu sinto uma necessidade intrínseca pela beleza ou uma demanda pela estética e pela arte que o ateísmo jamais satisfez ou satisfaz e por isso julgo-o inadequado e suas dissertações em torno de uma verdade estéril, irrelevantes. Minha sensibilidade estética opõem-se ao ateísmo por ser improdutivo... Essa busca por um a beleza ideal é que conduz-me a um Fídias, a um Praxisteles, e um Polignoto, a um Parrásio, a um Tirtaeus, a um Terpandro, a um Homero, a um Sófocles, a um Ésquilo, a um Eurípedes, a um Vírgilio, a um Estácio, a um Dante, a um Camões, a um Cervantes, a um Tasso, a um Milton, a um La Fontaine, a um Shakespeare, a um Moliére, a um Bach, a um Mozart, a um Bethoveen, a um Dellacroix, a um Millet, a um Schaeffer, a um G Doré, a um Calixto, a um Pedro Américo, a um Meirelles, a um Bilac, a um Raimundo de Menezes, a um Martins Pena, a uma Anna Pavlovna, a um Nijinsky, a um Ray Conniff, etc Nenhum dos quais era ateu ou inspirou-se no ateísmo. Muito pela contrário a maior parte destes homens que buscaram saciar a sede estética de seus companheiros e que se esforçaram para tornar este recanto um pouco mais belo eram em sua quase que totalidade Cristãos e mais Católicos! Recomendo a leitura de 'O gênio do Cristianismo' de Chateaubriand. As almas insensíveis, superficiais e vulgares não compreenderão esta obra magnífica - Teve gente da igreja que não pode compreende-la (Os agostinianos é claro) - Sócrates, Platão, Aristóteles, Parmenides, Anaxágoras, Xenofanes, etc compreende-la-iam...

E as arrevezadinhas demonstrações ateísticas de Onfray ouso opor apenas as Catedrais francesas, alemãs, italianas e inglesas... ou o Partenon, mas falar no Partenon seria pura covardia. Esperemos enfim que os apóstolos do neo ateísmo possam o quanto antes brindar-nos com um Partenon ou com um Taj Mahal...

segunda-feira, 1 de maio de 2017

O sentido mais íntimo de 'Crime e castigo' ou o problema de Raskolnikoff

Resultado de imagem para raskolnikov


Acho irrelevante ficar discutindo se Capitu traiu ou não o Bentinho. É algo que não me adiciona nada.

Adoro a Trilogia machadiana (Digna de um Dostoevsky, de um Dickens, de um Balzac ou de um Eça - Os mestres supremos!) e por isso digo que há muito mais coisa a explorar-se nela - Digo de relevante - do que as aventuras de Dna Capitu e seo Escobar.

Coisa de maior quilate toca a Raskolnikoff. Poucas personagens tão interessantes ou fascinantes quanto ele. Ocorrem-me apenas o Sinuhe de Mika Watari, o Imperador Claudio de Graves, Dna Lola e mana Rosa da Sra Leandro Dupré...

No entanto Raskolnikoff e mesmo Razoumikhine parecem-me ultrapassar a todas.

Durante quase quinhentas páginas a obra toca aos motivos que levaram Raskolnikoff a fazer 'aquilo'... Quero dizer assassinar a agiota ou o 'verme desprezível', mais sua irmã Isabel, a adela, com um golpe de machado no sinciput, estourando-lhe o crânio.

No entanto a resposta é dada apenas na última parte durante a confissão feita a Sônia.

Após sucessivas tentativas... De modo que podemos imaginar uma cebola tendo suas cascas removidas, uma após a outra, em direção do interior.

Assim Raskonicoff vai analisando a si mesmo a partir da consciência até chegar aos meandros mais sombria da inconsciência e fornecer-nos a resposta mais apropriada.

Já no começo da obra nos deparamos com a afirmação de que ninguém conhece melhor o homem do que ele mesmo.

Eis porque o ponto culminante da obra é a introspecção feita pelo filho de Pulqueria Fedorovna no quarto da prostituta...

Antes que alguém mais afoito suponha que lá foi ter o homem com o propósito de obter uma mera noite de prazer ou para transar, adianto que não.

Em que pese a admiração confessa de Freud por sua obra, o clássico russo não é freudiano na plena acepção da palavra. Svidrigailoff tem via sexual desregrada por assim dizer, sem que por isso sua personalidade deixe ser bastante rica e complexa. Ali a sexualidade não assume proporções 'desmesurada' e tampouco a religiosidade; e a vida ou melhor a tragédia humana jamais se diluí em qualquer uma dessas áreas sendo absorvida por elas. Há sexualidade, há religião, mas a vida ou melhor o drama da vida é muito mais amplo e podemos dizer que Dostoevsky esta muito mais próximo de Adler do que do primeiro Freud, i é, do Freud de 1900.

Nem mesmo o economicismo capitalista/marxista toca ao fundo da questão humana na perspectiva do grande Mestre.

Há algo maior, mais amplo e mais profundo para além da fé, da sexualidade ou da economia.

De um modo ou de outro, de uma forma ou de outra, de qualquer maneira este homem quer Ser ou afirmar-se. E esse desejo de ser, de afirmar-se, de poder, de imortalizar-se é que consome o homem. É existencialismo puro porque o drama do homem é existir. Existo. Mas como prolongar esta existência na memória coletiva da humanidade?

Lembra de algum modo a busca de Aquiles e de Alexandre pela glória.

Tomemos porém as falsas pistas.

Por que mataste a velha Raskolnikoff?
A primeira resposta oferecida é trivial -

Matei porque se tratava de uma agiota sem sensibilidade ou coração, um ser inútil, uma parasita, etc O que suscitou meu ódio.

Mas será?

Por que mataste a velha Raskolnikoff?
A primeira resposta conduz-nos a escola social do direito ou da criminologia, tributária de K Marx:
Matei porque era pobre, porque minha condição era miserável, porque sofria privações, porque não tinha o que comer, impelido pela necessidade enfim. Foram as condições sociais que determinaram fazer o que fiz.

Já antes de ter consumado o crime cogitava que não podia deixar de comete-lo.

Alguns dias depois no entanto confessava que a certeza de que não podia deixar de ter cometido aquele crime seria doce para ele.

Pois se é certo que tendo dado largas aos mais nobres sentimentos empenhou parte do dinheiro enviado regularmente pela pobre mãe com o intuito aliviar o sofrimento alheio, experimentando consequentemente uma situação se penúria, não é menos certo que Razoumikhine experimentava as mesmas dificuldades, recorrendo no entanto a traduções de textos e algumas aulas com o objetivo de angariar subsídios.

Conduzido por uma honestidade inflexível para consigo mesmo o irmão de Dounia conclui que bem poderia ter imitado o exemplo do colega de curso. Sente que não havia esgotado todas as possibilidades viáveis no sentido de ter escapado a penúria.

Ademais obtido o dinheiro ou os recursos desejados, acabou ocultando-os debaixo de uma pedra e abstendo-se de fazer uso dele.

Seja com for há situações de miséria, de penúria ou de indignidade que bastam para conduzir o ser humano a loucura. É constatação científica feita há alguns poucos anos. Claro que há pessoas e pessoas, mentes e mentes, temperamentos e temperamentos... E que os limites variam de pessoa para pessoa. Sem que os efeitos sociais da miséria, sobre uma média de pessoas deixem de ser significativos.

Não é o caso de Raskolnikoff por ele mesmo sente que não chegara ao limite, e que a loucura surgira posteriormente, como consequência do ato praticado. E não antes, como causa. Tal o resultado de sua introspecção.

Então por que mataste a velha Raskolnikoff?
Claro que nosso ex estudante de direito, como todo e qualquer ser humano, tentará racionalizar e em certa medida justificar o crime por si cometido.

E por via alguma conseguia arrepender-se do que havia feito.

Sentia-se mal, constrangido, abalado, etc não por ter partido a cabeça da velha e lhe tirado a vida, mas apenas por ter denunciado a si mesmo num momento de fraqueza (???!!!!???).

De fato não fora pego. Pois a tempo fora notificado sobre a morte de Svidrigalioff... 

Mesmo assim num momento de grandeza ou fragilidade denunciou-se.

Havia portanto ocasiões em que se arrependia não de ter cometido seu crime, julgando-se inocente, mas sim de não ter podido conter-se, de não ter podido vencer a si mesmo, de não ter podido manter a constância da alma, de ter se desestabilizado e ido entregar-se a polícia.

Envergonhava-se quanto ao estado de desordem mental a que chegará após a consumação do crime e cuja gênese sequer sabia explicar.

Julgava-se talvez ou muito provavelmente sabotado pelo próprio medo de vir a ser pego.

Quiçá sua cruz fosse a cruz do medo.

O fato é que não conseguia conviver com esta situação de fraqueza.

A fraqueza ou a sensibilidade face ao crime é que exasperavam-no.

Mas por que?

A resposta temos no artigo que publicará alguns meses antes e que fora usado pelo juiz de instrução criminal, Porfírio com o intuito de conduzir as investigações.

Artigo em que nosso estudante de direito, antecipando Nietzsche, sustentava que o homem superior ou super homem - Fosse um Napoleão, um Cesar, um Maomé ou um Newton; não importa quem! - não só podia como devia cometer quaisquer crimes, e sem o menor constrangimento, pelo simples fato de estar plenamente cônscio a respeito de sua genialidade e de seu desígnio, enquanto benfeitor do gênero humano. Aqui matar, roubar ou mentir, se necessário fosse, não constituía apenas um direito mas um dever daquele homem... Já qualquer laivo de sensibilidade ou de arrependimento face ao 'crime' implicaria fragilidade, e portanto vulgaridade.

Ali a vocação para a riqueza ou a prosperidade, segundo Calvino (cf Weber 'A ética protestante e o espírito do capitalismo') indicaria a predestinação. Aqui o arrependimento ou a sensibilidade indicariam a vulgaridade...

Aquele homem especial, genial ou superior deveria ter suas vistas postas apenas sobre o fim, jamais sobre os meios. Pois os fins justificariam plenamente os meios...

O único crime aqui era ser pego, preso, punido, etc Numa palavra: Falhar e não atingir seu fim.

Pois ninguém (Atente aqui a mente sagaz!) ou quase ninguém, increpa como criminoso aquele que extermina milhares ou milhões de vidas humanas nas guerras. Será que chegamos aqui a Timothy McVeigh? 
E estátuas são erguidas a César, Átila, Maomé, Tamerlão, Henrique VIII, Filipe II, Cromwell, etc E nomes de ruas, praças, escolas, etc são conferidos aqueles que dissiparam tantas vidas humanas.

Enquanto aquele que comete um ou alguns assassinatos, estes são tidos em conta de criminosos, punidos, castigados, suplicados...

Por que raios matar alguns é encarado com horror pelas massas, enquanto exterminar povos inteiros é encarado por elas com a mais absoluta naturalidade?

Porque aqueles milhões, guiados por um gênio ou por um homem superior, lutam por um desígnio... Enquanto os outros, tendo sido pegos, e antes disto aminados por um desígnio vulgar como a fome (???) ou a miséria (???) mostram-se inferiores e vulgares.

Em tese, os crimes do home superior ou genial jamais vem a luz porque ele não foi, não é ou não será pego. Podendo, a custa de crimes perfeitos, realizar sua ascensão até o topo.

Tais as doutrinas expostas por Raskolnikoff  postas em sociologuês...

Toquemos porém a alma...

Porque é evidente que tendo colhido em algum lugar esta 'bela' doutrina do homem sem compaixão e desenvolvido-a o nobre moço não pode deixar de perguntar a si mesmo se é ou não é um destes homens superiores...

Sou ou não sou um deste super homens? Pertenço ou não pertenço a essa casta de homens superiores? Que sou eu??? A que rango pertenço???

Aqui o único teste possível é a execução de um crime, crime feito a sangue frio e perfeito.

Raskolnikoff precisa matar, não para obter dinheiro em primeiro lugar, mas para saber que é? Se é dos homens geniais ou dos vulgares...

Antes do crime vive este dilema e precisa resolve-lo.

E se hesita e não comete o crime já vai tendo a si mesmo em conta de vulgar.

Por isso planeja, por isso apropria-se sorrateiramente do machado, por isso vai a casa da velha e por isso da cabo dela. Sem no entanto contar com a aparição da Isabel... A qual se lhe apresenta a consciência como inocente. E já não sabemos que efeito a morte da pobre adela produziu no íntimo de seu ser.

Então por que Raskolnikoff mata, amigo leitor?

Mata, olhe só, para afirmar-se.

Aqui eliminar a vida do outro é espécie de introdução a vida.

Mata para ser.

E até consumar este ato perverso nosso homem estava firmemente convencido de que passaria pelo teste.

Eis a fé de Raskolnikoff: Que mataria e permaneceria o mesmo, ou seja, indiferente.

Era sua fé e tudo empenhou: A mãe, a irmã...

E no entanto mal comete o crime fragmenta-se em dois. O estado de tensão espiritual aumenta e sua sanidade mental deteriora-se. O homem já não é senhor de si e ao cabe de mil e uma peripécias acaba de entregar-se a polícia.

O fato é que após ter cometido o crime e mesmo sem se julgar arrependido sofria... E como sofria. Talvez sofresse mais pelo medo de ser preso... Mas sofria e não deixa de sofrer.

Julgava-se senhor de si enquanto assistia perder o controle de tudo...

E qual o epílogo de tudo isto?

Sucumbindo a tensão o homem é vencido por si mesmo e constata, necessariamente, a luz de sua doutrina, não ser um super homem mas um fracassado. E acredita nisto e sofre sobretudo por isto. Sofre porque convencido de que não era genial ou predestinado. Sofre porque concluir que não passava de um homem vulgar.

A consequência mais prática aqui fica sendo a morte de sua mãe.

Pois a infeliz Pulqueria Fedorovna não consegue suportar a dor da desventura, e sucumbe miseravelmente após ter perdido o uso das faculdades mentais.

O homem acreditava ter ganho o mundo inteiro ou a oportunidade do mundo, e... no fim das contas perde a criatura que mais amava, a mãe.

E tampouco pode assumir seu grande amor, Sônia, pelo simples fato de ter sido condenado ao degredo por oito longos anos...

Evidente que não pretendo postular a monocausalidade do crime. Toda monocausalidade me parece forçada e suspeita. Há crimes e crimes, motivações e motivações...

Há certamente quem mate por ódio ou vingança, como há quem mate para roubar movido por necessidades materiais... No entanto tais motivações não esgotam as fontes do crime. Há outras.

Assim Raskolnikoff mata para ser, para a afirmar-se e até podemos dizer que mata por uma questão de necessidade psicológica.

Mata apenas para sentir que é capaz de matar, que pode matar ou que tem o direito de matar.

Até aqui 'Crime e castigo', até aqui Dostoevsky, até aqui literatura russa, até aqui ficção.

E no entanto este autor é mestre consumado em matéria de psicologia. E até antecipa Adler.
Neste caso que fazer para que a conquista a auto afirmação não se converta em tragédia?

Penso que a resposta aqui esteja no livro que Raskolnicoff tomou as mãos já nas últimas linhas do romance; no Evangelho.

Na sacralidade com que este livro único nimba a vida humana.

Eis a melhor cartilha com que educar nossos filhos e moderar o instinto vital da afirmação.

De fato o homem deve buscar por sua afirmação, realização, fama e glória; mas sempre numa perspectiva Ética, visando não prejudicar ou causar dano, as beneficiar concretamente o maior número possível de seres humanos sem cometer pecado algum.

Tome não o caminho de Hitler, Bush, Pot, Stalin, Napoleão, Ivan, Tamerlão, Átila, César, etc os quais de fato não passaram de criminosos ou de psicopatas; mas o caminho de Buda, Confúcio, Sócrates, Platão, Jesus... S João de Deus, S Camilo de Lelis, Cotolengo, Abbe L Eppé, Braile, Abbe Pierre, Pe Damien Deveuster, Pe Ibiapina, Pe Bento, Irmã Dulce, A Schweitzer, Madre Tereza... O caminho do amor enfim, que é o melhor de todos os caminhos.

Tomando o caminho de Raskolnikoff tomará certamente o caminho da dor...