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terça-feira, 17 de julho de 2018

Dialogando com G Sorel

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Em G Sorel desembocam diversas tradições ou correntes de pensamento, as vezes demasiado afastadas uma da outra. A ponto de Lênin classifica-lo como um pensador embrulhado ou como diríamos confuso. De fato, a impressão que temos ao lê-lo é que sobrepôs um amontoado de ideias sem se preocupar com a coerência e ainda aqui carrega o vezo de Nietzsche e do anarquismo. Era honesto, e apresentava-se como irracionalista, para ele a tônica da vida era o mito. Não a razão, alias, racionalismo, intelectualismo, institucionalismo, pacifismo; e tudo quando temos em conta de civilizado era para ele decadente; e aqui encontra-se com O Spengler.

Há nele uma forte influência Católica ou mesmo agostiniana, que apesar da esperança, faz com que tema um futuro sombrio. Como Rosa Luxemburgo ele não é imune a hipótese da barbárie. Há um forte conteúdo conservador tomado a De Bonald, De Maistre, Tocqueville e outros que lhe infunde um ódio insuperável a democracia burguesa ou meramente formal e ao capitalismo; enfim ao conjunto que costumeiramente chamamos liberalismo, para ele essencialmente corrupto. É um homem, que acima de tudo, abomina a forma democrática vigente. Sera sucessivamente conservador ou melhor reacionário e marxista heterodoxo, flertará com o integralismo da 'Ação francesa' - aproximando-se de Ch Maurras (outro pensador bastante rico quanto perigoso), até namorar com Mussolini e o fascismo jamais renunciando a seu ódio anti liberal. Há nele um conteúdo Marxista, mas heterodoxo, posto que repudia o materialismo dialético, pelo simples fato de conhecer o valor das ideias e o significado do determinismo mecanicista. E nem aqui se esgota, pois há também nele um conteúdo anarquista que o leva a forjar o 'mito' da greve geral e a dissertar sobre o emprego metódico da violência. Pelo conteúdo marcadamente Ético, encontra-se com P Kropotkin e opõem-se já a Maquiavel, já a seus cultores sejam Bakunin ou Lênin, Marx ou Engels.

Como se vê este homem é um caudal de 'varia doctrina'.

Ademais os títulos de suas obras são por si mesmos significativos - "O processo de Sócrates" onde defende a condenação de Sócrates pelo areópago. "As causas da dissolução do comunismo", "A decadência do mundo antigo" e finalmente as "Reflexões sobre a violência" que é seu 'Magnum opus'.

Também escreveu, em 1889, uma obra sobre a Bíblia em que manifestava certa predileção pelo Antigo Testamento devido a seu conteúdo 'heroico' ou seja a seu caráter violento. O próprio Nietzsche em algumas de suas passagens parece ter esboçado o mesmo tipo de sentimento a respeito da excelência do antigo testamento face ao Evangelho e Wulfilas, o primeiro Bispo dos alemães, já havia deduzido por esta similaridade entre os livros dos antigos judeus, especialmente Reis e Crônicas, e o caráter do primitivo povo alemão sob o paganismo.

Assim na 'Decadência' não poupa críticas aos antigos gregos - ou aos romanos helenizados - com seu ideal de civilização racional, político e jurídico ou institucional, que encara como decadente ou degenerado. Para ele, Sorel - e aqui temos de pensar em O Spengler e no Nazismo - as fases mais grandiosas da civilização correspondem justamente aos momentos de crise e tensão, nos quais predomina a violência. Assim o antigo israel, a Germânia ante Cristã, a baixa Idade Média... períodos em que ele enxerga a apoteose do heroísmo, na esteira de Carlyle. Aqui temos a expansão da energia criadora, ali uma contensão ou negação desta energia que equivale a um estado vegetativo ou comatoso.

Há portanto, entre nós ele, uma contradição marcante em torno do progresso - que ele com certa razão, em termos técnicos, encara como utópico ou mitológico (crítica que vale para os positivistas) - pois o que encaramos como o ápice da civilização ele encara como decadência e o que encaramos como crise e decadência, ele encara como apogeu. Com efeito, o ideal deste irracionalista não podia estar na Grécia Clássica ou na Roma dos Antoninos e a Roma que ele glorifica é certamente a Roma imperialista e expansionista da República, a Roma de Scipião Afer e Múmio, a Roma que venceu Cartago e devastou Corinto!
Já dissemos - Com Catão, este homem expulsaria Carnéades e seus companheiros de Roma e subscreveria o Édito de Domiciano, enviando Epicteto e demais filósofos ao exílio. E ele não disfarça seu ódio pelos intelectuais de gabinete, responsáveis por falsear a História.

Apesar deste lamentável exagero, que malbarata a paz e sua consequência, que é o progresso artístico, literário, religioso, científico... Sorel não deixa de ensinar-nos grande e perigosas verdades. Homem de inteligência acurada não deixa de antever que a par da violência física responsável pelo derramamento de sangue há outras formas de violência, e de uma violência dissimulada ou oculta, que trás em si um germe de morte! Refere-se destarte a nosso pacifismo não poucas vezes hipócrita - que oculta covardia e decadência! - e a maldade com que é a institucionalidade manipulada e oprime o homem. O que este homem genial soube captar foi a pior forma de abuso sob a qual tem caído nossas instituições - A jurisprudência e o parlamento - no sentido de (Em nome da paz e da segurança) exercerem uma opressão dissimulada e hipócrita. Face a qual as massas institucionalmente oprimidas ficam completamente indefesas. Assim o fórum, o parlamento e até mesmo o púlpito servindo a dominação econômica ou a plutocracia; sutilmente é claro...

Sem atingir as instituições, cremos nós, Sorel demonstrou que elas não são imunes a um abuso deplorável por parte de muitos, e que o discurso em torno da paz e da civilização, da racionalidade e da institucionalidade, pode comportar uma intencionalidade essencialmente má, ignominiosa... Podemos usar dos conceitos e formas de civilização para dominar, oprimir e explorar mais eficazmente. Portanto temos de, sem condenar as instituições ou a civilização em si mesma - caindo no extremo de Sorel, e chegando aos confins do Nazismo - examinar muito bem o discurso e compara-lo com a realidade. Já Freud dissera com razão que no futuro as pessoas avaliarão a civilização em termos de acesso a ela mesma i é em termos de acesso ao prazer, face aos sacrifícios empenhados. E se nos parece que um ideal de civilização restrito, em que umas poucas pessoas privilegiadas tenha acesso a maior parte dos bens enquanto os demais ficam a chupar os dedos não se manterá para sempre...

Os benefícios da civilização devem ser paulatinamente estendidos a maior parte de seus membros, de modo que ela valha a pena. Por isso como o velho Keynes temos de falar em qualidade de vida ou em bem estar, em justiça social ou no bem comum de Aristóteles. São discursos indispensáveis e metas que temos de buscar atingir. Do contrário a civilização, encarada como mero Slogan, não resistirá as críticas honestas de um Sorel ou aos ataques, nem sempre injustos de um Marx ou de um Engels, de um Tolstoi ou de um Kropotkin, ou até mesmo de um liberal como J S Mill.

Outro aspecto demasiado interessante, que Sorel tomou a Nietzsche, e que precisa ser aprofundado diz respeito a mística no pacifismo ou mesmo da não agressão, a qual sempre pode ocultar fragilidade e covardia, malbaratando-lhe todo valor. Os Católicos mais esclarecidos concordam que a opção pela paz ou pela não agressão só tem valor quando assumida por alguém que é capaz de agredir, de atacar, de exercer a violência, de lutar e de vencer; jamais quando assumida por fracos e covardes a guiza de disfarce, o que amiúde tem ocorrido no terreno do Cristianismo. Massas degeneradas afetando pacifismo.

O martírio de nossos ancestrais, os pioneiros da fé, só teve valor porque em qualquer tempo podiam renunciar livremente a sua fé ou a seus ideais, e salvar suas vidas. Podiam escapar, podiam lutar e vencer, como declara Tertuliano, mas preferiram morrer por e com seus ideais. Aqui a força das ideias ou como quer Sorel, do mito - que ele mesmo tenta restabelecer. Aqui a força mais poderosa, a força interior e espiritual, a força do caráter ou da personalidade, que leva de arrasto a força meramente física. Mais forte é aquele que podendo lutar, combater e vencer se deixa supliciar por uma ideia. Quem mais controlado, disciplinado e vitorioso do que este homem??? Por outro lado o simples ato de deixar-se matar sem poder escapar ou ter forças para lutar, como no caso dos Romanov, não tem valor algum. Só é martírio se existe a opção de salvar-se por meio da abjuração. É a liberdade que mede a força do martírio, o qual implica em sair da vida voluntariamente. Hora quem vence o amor pela vida é capaz de vencer qualquer coisa.

Há aqui, no verdadeiro martírio que mostra-se indiferente face a morte, o adversário mais temido pelo gênero humano, uma força ou um poder que nem Nietzsche nem Sorel puderam aquilatar devidamente. Como há valor no autêntico pacifismo assumido por quem sendo forte poderia lutar e defender-se. E como há valor na não agressão por parte de quem poderia atacar ou lutar. Por outro lado Sorel não deixa de ter razão quando se refere aos degenerados que sendo covardes ou fracos assumem um pacifismo oportunista. É uma situação real e o mínimo que cada um deveria fazer é examinar a si mesmo antes de afetar aparências e profanar o Evangelho. Se é fraco ou covarde que assuma sinceramente suas limitações... É o mínimo que se espera de um Cristão devoto.

Destarte não é o pacifismo um valor absoluto, mas algo que será avaliado a partir de certas condições ou circunstância. E tampouco é absoluto, como já dissemos, face as exigências da justiça. Por isso concordamos com Sorel no sentido de que haja uma violência necessária e desejável, quando posta a serviço da justiça ou da vida humana, que são valores de ordem superior. Apenas acrescentamos, por questão de prudência, a seguinte restrição: O recurso a violência defensiva ou ao que chamam revolução só deve ser aplicado após se esgotarem todos os demais recursos quais sejam: A ação parlamentar, a greve geral, a mobilização, os recursos judiciais, a desobediência civil... Aplicados e esgotados todos os recursos não só podemos como devemos recorrer a violência. Não a violência pela violência, mas tendo em vista um objetivo ético, como a concretização da justiça.

Justiça seja feita, Sorel também condena a violência pela violência e denunciou como absurdas as execuções feitas pelos jacobinos durante a grande Revolução. Como certamente, apoiando Kropotkin e Martov, condenaria o recurso a tortura por parte dos bolcheviques. Não apadrinha psicopatas, inda que seu discurso contenha um entusiasmo imoderado do qual não partilhamos. Pois não nutrimos maiores ilusões a respeito da tal Revolução violenta, não a encaramos como uma panacéia e menos ainda como o ápice da civilização. Com todos os abusos e defeitos que cremos, devam ser eliminados, nós preferimos o ideal grego de civilização. Com olhos críticos, ainda assim optamos pela institucionalidade e pelo modelo racionalista, afinal também a Revolução pode degenerar e a violência sair do controle, resultando em algo tão funesto e monstruoso quando foi o nazismo. Ademais a teocracia, seja protestante ou islâmica, reforça também ela a apologia da violência, escarnecendo do Evangelho e seu ideal de paz relativa ou não violência.

Diante de tudo quando escrevemos vale a pela ler as 'Reflexões' de Sorel, mas da maneira como ele mesmo desejaria que as lessemos ou seja criticamente. Certamente uma leitura crítica de sua obra lhe seria muito mais honrosa do que uma leitura religiosa, tipo de leitura que ele, com travo de amargura, atribuía aos leitores de Marx e Engels... Portanto dialoguemos com Sorel ao invés de concordarmos mecanicamente com ele. E boa leitura!

terça-feira, 18 de abril de 2017

Sobre o caráter e missão dos povos germânicos no contesto Ocidental II

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Na perspectiva de um helenizante ou 'grecizante' Cristão (Católico evidentemente - alias tome-se Católico por seu autêntico sentido Ortodoxo!)



Embora são sejamos germanófilos ou germanizantes, cumpre-nos tentar ser justos em nossas apreciações a respeito do valor dos fatos históricos e assim das invasões teutônicas do século V. Averiguando que nos trouxeram de ruim e que nos trouxeram de útil, bom ou proveitoso.

A respeito do aspecto negativo de tais invasões, relacionado com o eclipsar da cultura grego romana e portanto tanto do espírito filosófico quanto do espírito científico e ainda das letras e das artes, já nos pronunciamos no artigo precedente.

Quanto a perda inútil de vidas e efusão de sangue, como Cristãos deploramos sinceramente, mas reconhecemos que desgraçadamente assim tem sido século após século e - aqui o pior - que assim o é no tempo presente, em que um psicopata como D Trump, posando como dono do mundo, propõem-se a atacar a Coréia do Norte, com grave risco para toda humanidade e bilhões de vidas humanas. Tudo em nome do oportunismo, da vaidade, da arrogância, etc E tais sociedade ousam declarar-se Cristãs!

Ao menos a maior parte senão a quase que totalidade dos invasores germânicos eram pagãos ou arianos, e portanto infensos ao Dogma da Encarnação ou da divindade de Cristo, que é o padrão niceno ou atanasiano de fé. Hoje afetam adorar o Cristo, e matam e torturam, e roubam - pilhando nações inteiras - em seu nome! Onde chegamos!

Mas passemos sem delongas a ulterior missão dos povos germânicos na Europa.

Pois preservar o Europa era preservar o Catolicismo - Ao menos até a irrupção da falsa Reforma no século XVI - preservar o Catolicismo, preservar a parcela que este tomou a cultura antiga, grego romana, e preservar esta, preservar os fundamentos mais remotos de nossa Civilização. Os quais como já vimos deitam suas raízes mais remotas no antigo Egito e na antiga Suméria. Trata-se portanto de lutar por nossas raízes e por nossa identidade.

Sucede no entanto que por volta do século IV, após três séculos de ostensiva perseguição por parte do Império dos Césares, haviam os Cristãos desenvolvido um culto destemperado, uma mística ou mesmo um delírio, em torno do martírio.

Longe de nós negar a importância deste fenômeno da esfera pessoal da vida Cristã, quando organicamente relacionado com a confissão de fé, no seio de uma Sociedade não Cristã.

Equivoco no entanto, e dos graves, é transplantar a mesma dinâmica para uma Sociedade já Cristianizada ou para uma Sociedade pluralista e tolerante em que os Cristãos gozem de plena liberdade. Nem Jesus jamais pretendeu dar lições de política ou sociologia nos Santos Evangelhos, nem devemos nós transplantar o ideal do martírio para tais setores da existência. Permitindo ou assistindo passivamente a destruição de uma sociedade livre ou cristianizada por hordas de bárbaros sem educação. Isto não é Cristianismo e nada tem de Cristianismo, é moleza ou covardia.

O mesmo Cristão que em sua vida e em suas relações pessoais, tem o dever de dar a outra face quando agredido por outrem - E jamais negamos isto - no contesto de uma Sociedade Cristã ou tolerante ameaçada ou invadida por pessoas de mentalidade fanática, tem o grave dever, de como cidadão, empunhar armas e colaborar ativamente tendo em vista a defesa desta Sociedade. Pensando mormente nos idosos, nas crianças e nas mulheres e nos agravos que tais categorias de pessoas teriam de sofrer as mãos de um conquistador cruel.

A Solidariedade social constrange o Cristão a lutar por sua liberdade e pela liberdade de todos no contexto político ou imanente.

Tal a luminosa doutrina da guerra justa ou da legítima defesa na esfera social da existência. O Cristão não só pode como deve abdicar da livre resistência, e antes morrer do que matar, quanto a confissão de sua fé ou suas relações pessoais; jamais quando a sociedade se encontra em perigo. Aqui o outro é prioridade, especialmente os mais vulneráveis, e é necessário lutar e morrer por eles. O que demanda força, não apenas de corpo ou física, mas sobretudo de alma, em termos de valentia, coragem ou ousadia. Pois em certar situações é a coragem grande virtude.

É exatamente aqui que tocamos aos povos germânicos.

Pois representavam exatamente isto: Força física e valentia ou coragem. Predicados indispensáveis tendo em vista a contensão do flagelo muçulmano.

Como já dissemos devido a uma compreensão equivocada de martírio, a uma noção errônea de paz, a uma passividade estúpida que conduzia a inação e ao servilismo os antigos Cristãos 'romanos' não pareciam estar a altura de resistir a um inimigo tão formidável quanto o islã com sua jihad alimentada pelo fanatismo. Fazia-se mister injetar sangue novo nas veias do império para torna-lo forte e resistente.

A Cristandade e Civilização salvaram-se porque em 732, em Poitiers nas Gálias, os sectários de Maomé depararam-se não com uma multidão de Cristãos narcotizados por um entendimento errado a respeito do martírio, mas com os francos, fortes e corajosos capitaneados pelo Prefeito do Palácio, Carlos Martel. Do contrário teriam sido os cristãos ineptos ou covardes, esmagados e a Europa ocupada de ponta a ponta, até os confins da Alemanha ou da Bulgária pelo islã, fechando o roteiro do Mediterrâneo, erradicando por completo o Catolicismo e com ele as fontes clássicas ou pagãs de nossa ancestralidade e cultura.

Teríamos um Ocidente aniquilado. E decerto não estaria escrevendo estas linhas ou sendo lido por vós, uma vez que não existiriam computadores ou Internet. Descoberta da América ou Colombo. Aviões, automóveis, trens ou tecnologia... Pois tudo isto é fruto ou resultado de outros caminhos, decisões e desdobramentos culturais; os quais não partiram do islã nem poderiam ter partido dele. Uma vez que a própria Mutazzila - um apropriar da Filosofia grega pelo primitivo islã - foi completamente exterminada pela Ortodoxia corânica ou sunita, firmada pelos imames Achari e Gazali.

Não passaríamos de uma sucessão de minaretes e muezzins enfileirados de Múrcia a Upsala ou Atenas! Com suas multidões de fanáticos curvados em direção da Meca recitando a shahada. Seria o fim inglório, trágico e patético duma saga iniciada 4000 anos antes no Egito e na Suméria. E o Epílogo teria sido em Tuors ou Poitiers em 732, onde poderíamos lavrar uma placa a guiza de epitáfio e marcar: Aqui jaz a Civilização Clássica * 3500 a C a + 732 a C.

No entanto fomos salvos da catástrofe total pelos germânicos ou francos em 732 e novamente no século XII graças as Cruzadas. As quais, ao contrário do que se ensina vulgarmente, jamais consistiram num ataque ou numa agressão, mas numa resposta necessária a jihad iniciada pelos fanáticos muçulmanos em 634 desta Era e jamais encerrada ao cabo de meio milênio. Tratou-se portanto de um mecanismo de defesa social ou duma iniciativa legítima. Duma resistência absolutamente necessária face a um inimigo insidioso.

O qual já havia arrebatado parte do antigo Império a ponta da espada e imposto violentamente suas crenças aos vencidos. Segundo a norma e regra assaz conhecida do: Converte ou morre! Práticada por eles ainda hoje, em pleno século XXI. Os Yazeds e Mandeus que o digam...

Lamentavelmente, temos de admitir, a antiga Cristandade latina não estava a altura do desafio lançado pela fúria dos maometanos. Não reconheciam que em certas situações extremas pode a força ser administrada para o bem na perspectiva da liberdade e da justiça. Chegando a ter a passividade e a inércia em conta de virtudes. O que veio a degenerar num pacifismo crasso e acrítico, o qual de modo algum é Cristão.

De fato o Cristão ama a paz e justamente por isto abastem-se de atacar a quem quer que seja. Mais: Se atacado, responde com nobreza, voltando a outra face ao agressor. E se sua fé é ameaçada, morre alegremente por ela. E afirma e divulga sua crença pura morrendo, jamais matando ou supliciando em nome de Cristo. Todavia se a Sociedade Cristã ou civilizada e tolerante é atacada, dispõem-se a resistir heroicamente, e a dar combate aos fanáticos e fundamentalistas, de modo a que não venham oprimir os mais fracos. Quando o que esta em jogo o grupo social e o regime da liberdade, postos sob o fogo da teocracia abjeta, então o Cristão, amante da paz, devera combater e lutar valorosamente.

A sociedade romana ou ante germânica não tinha esta compreensão.

Tiveram-na os povos germânicos ou construíram-na a partir de sua experiencialidade e devemos compreender esta elaboração como um contributo precioso sem o qual a Civilização iniciada junto aos grandes rios do Oriente jamais teria chegado em linha reta aos dias da ONU ou da Internet, sendo desviada do caminho ou ficando paralisada devido a adoção de um modelo de fé fetichista, teocrático e despótico, incompatível com o espírito de liberdade que conduziu-a até aqui.

Cabendo a nós o grave dever de ser gratos face a contribuição destes povos tendo em vista os ulteriores progressos da Sociedade Ocidental. Nela temos um problema a ser resolvido, que é o Capitalismo. O que não significa que ela mesma seja um problema em seu conjunto. Nós é que temos de distinguir uma coisa da outra, separando os elementos positivos e anteriores ao advento do Capitalismo, dos negativos afirmados a partir dele, ao invés de condena-la como um todo.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Sobre a eclipse do municipalismo as vésperas da queda do Império romano


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Texto base para reflexão: M Guizot 'Sobre o regime municipal no Império romano durante o século V..."


Foi duplo o gênero de fatores responsáveis pela queda do Império romano e com ele da expansão civilizacional antiga. Cuja fonte, deita raiz tanto no Egito quanto na Suméria, tocando a 3.500 a C.

O primeiro tipo foi suficientemente expostos por diversos autores materialistas ou marxistas e devemos busca-lo na estrutura econômica.

Pautada no escravismo, na pilhagem e consequentemente, nas guerras de conquistas.

Tendo atingido os extremos ocupáveis do mundo antigo, não pode mais este império expandir-se. O Norte da Europa, o Sul da África, As estepes russas e os desertos da arábia eram inviáveis. A única saída possível, para o extremo Oriente - Índia e China - achava-se bloqueada pelo novo Império persa. O acesso ao comércio tornou-se precário e além disto as distâncias eram consideráveis.

Diante disto apresentavam-se diversos problemas:


  • Como escoar a produção se as vias comerciais eram limitadas?
  • Como manter o preço estável quando o elemento escravo, principiando a minguar por falta de guerras, tornava-se cada vez mais caro? E -
  • Como administrar ou gerenciar de modo orgânico a produção de bens - criando demandas e mercados internos - se, aquele tempo os meios de comunicação e mesmo de transporte, eram demasiado limitados?

Devido a cultura escravista os cidadãos mais humildes achavam vergonhoso trabalhar preferindo viver de esmolas a custa do Estado. Do que resultou um entorpecimento irreversível. Para não poucos romanos, o ideal de vida era justamente ser sustentado pelo governo através de 'rações'. Não cogitavam em produzir e menos ainda em defender as fronteiras do Império ou combater.

Ademais por que raios expor-se a tantos e tão graves perigos nas fronteiras em torca de soldo, se rações gratuitas - O pão e circo - estava no acesso de qualquer um?

Considere-se agora que a míngua do elemento militar encarecia o soldo e consequentemente as despesas. Ficando sempre mais barato contratar bárbaros romanizados - os godos - para defender o Império (!!!). Convertendo-se o exército, majoritariamente germânico, num estado dentro do estado.

Para agravar ainda mais a situação, o abolicionismo Cristão, avançava a passos largos. De modo que o triunfo da ética e da justiça, pressupunha e de fato acentuava ainda mais a crise econômica, produzindo a redução do elemento servil e, evidentemente o aumento da inflação.

As despesas com importação de trigo para as rações e com o exército vão se tornando cada vez maiores. Ao poder central a única saída viável - para manter a ordem interna e a paz nas fronteiras - foi aumentar os impostos. Como nem os Senadores multimilionários e tampouco os cidadãos comuns e escravos pagavam impostos, incidiram eles mormente sobre a até então fecunda classe média citadina (Ou se querem pequena burguesia urbana) compostas por pequenos e médios comerciantes e funcionários públicos.

Também o pequeno e médio proprietário rural sentiu-se onerado.

Por todas as partes do Império foi este cidadão médio, na cidade ou no campo, taxado e responsabilizado pela crise.

Até que ao cabo de cem ou cento e cinquenta anos, esta categoria de cidadãos estava virtualmente morta! E com ela o municipalismo e a vida urbana ou citadina no Ocidente, com raras exceções (Algumas cidades litorâneas mantiveram-se devido a suas condições específicas de portos e ao comércio marítimo com a parte Oriental e viva do Império). Tombaram os até então fecundos municípios das Hispanias e das Gálias, sucedendo a ruralização a passos largos...

Quanto aos pequenos proprietários ou abandonavam suas terras e fugiam em demanda das grandes metrópoles - como Roma - na esperança de obterem 'rações' ou alienavam suas propriedades aos grande senhores e com elas suas liberdades. Segundo a antiga tradição do clientelismo... E punham-se a trabalhar no lugar dos antigos escravos tendo em vista a suficiência da 'Vila'.

Tudo isto supõem um cenário dramático de transformações sociais.

Consideremos que aquelas multidões esperavam ser alimentadas pela máquina imperial até o fim de suas vidas. Dela dependendo para obterem rações e sobreviver. E sequer imaginassem que aquele Império miserável e desguarnecido pudesse vir a cair! A queda do império e o desamparo era algo que se não lhes passava pela cabeça. Imaginavam que o trigo caia dos céus e que semelhante estado de coisas se manteria 'ad infinitum'.

Engano fatal.

E no entanto quanto menos braços nos campos menos suprimentos e quanto menos suprimentos havia, mais caros ficavam... Resultando disto um círculo vicioso.

Diante disto aprouve ao governo central, ao tempo de Diocleciano, impedir que as pessoas continuassem a fugir, demandando as grandes cidades. Fazia-se mister reduzir as liberdades, com grande agravo da cultura ancestral. Desde então os pequenos camponeses foram legalmente fixados a terra. Enquanto os habitantes das cidades foram obrigados por lei a perpetuar os ofícios exercidos por seus pais e antepassados.

Em situações de crise, as liberdades tendem a ser reduzidas ou eliminadas. Foi exatamente o que se sucedeu no Império a partir do ano 300 desta Era.

Todavia, apesar de tantos e imensos sacrifícios a condição do Império não melhorava e ele não dava mostras de recuperação.

Do que resultou, por fim, a perda de sentido.

Nas últimas décadas do século IV, quando até mesmo a distribuição das rações principio a falhar, - Dando espaço as primeiras fomes que caracterizarão todo período subsequente - veio a desilusão. Não poucos compreenderam que a situação havia se invertido e que agora o Império é que se mantinha e sustentava as custas do povo. A maior parte da população começou a encarar o até então 'divino' gênio de roma como uma espécie de diabo ou gênio do mal. Tomaram consciência sobre sua condição de oprimidos, sentiram na pela o despotismo dos césares, perceberam que já não passavam de ovelhas famintas, esqueléticas e vulneráveis.

Foi quando desejaram a destruição do Império.

Pois como se lhes faltasse pão, encaravam todo patrimônio cultural até então acumulado como coisa supérflua ou como luxo.

Onde falta pão a cultura não faz sentido! E perde-se.

Num determinado momento do século IV o Império passou de mocinho a vilão no imaginário popular.

Os próprios mandatários, pressionados pelos godos que se achavam nas fronteiras, perguntaram a si mesmos se não estava na hora de injetar sangue novo nas veias do antigo império com o intuito de salva-lo. Quem sabe os godos ocupando postos de trabalho produzissem renda? Foi o que pensaram os conselheiros do Imperador Valente, pelos idos de 376.

Situação em que parte do povo, certamente, já encarava os bárbaros - compreenda-se o godo ou bárbaro civilizado/romanizado - como libertadores!

É clássica a passagem de Amiano Marcelino descrevendo como o Imperador Valente não apenas abriu as fronteiras a tal povo, como dispôs que a máquina imperial - Com seus barcos e carros - auxiliasse os godos na travessia do Danúbio. O que ele esta introduzindo nas veias do império é veneno mortal conjecturou no velho cortesão. Um ano depois Valente era batido pelos Godos em Andrinopla e queimado vivo por eles.

Após o desastre de Andrinopla, Teodósio - o 'Último dos romanos' - sempre intimidado por Alarico, representou apenas um 'interegno' antes do 'Fim do mundo', em 410, quando os Godos conquistaram a antiga capital do Império roma.

A situação descrita por Guizot e ao que parece jamais desmentida pela arqueologia ou a paleografia, diz respeito principalmente a apatia com que os cidadãos 'romanos' da parte ocidental do Império, assistiram sua queda sem sequer dar mostras de revolta ou registrar as consequentes lamentações pela ordem ou regime que chegava ao fim. A passividade face a queda do quadrisecular foi patética. É como se ninguém mais aspirasse por sua sobrevivência. Mais - é como se os antigos cidadãos romanos encarrassem os bárbaros germânicos como libertadores. Situação que tornou a repetir-se em diversas partes do Império Bizantino por ocasião da primeira Jihad Maometana no século VII.

Segundo o citado autor francês, o fim inglório do municipalismo e a adoção, por parte do Império, de um regime cada vez mais despótico e autocrático é que acarretou semelhante situação de revolta. Era um governo cujos custos estavam sendo maiores do que os benefícios. A um lado impostos e taxas cada vez maiores e a outro, decretos arbitrários, extinção das antigas liberdades e situação de extrema penúria. Os pais havia comido a carne mas os filhos do século IV estavam roendo osso. O governo romano ou melhor a existência do Império se tornará insuportável. Era uma máquina que já não funcionava mais, e onerava, e oprimia os próprios cidadãos...

Foram as situações de tirania ou despotismo que levaram primeiramente os latinos e posteriormente paste dos orientais a encarar os invasores: Aqui teutônicos e ali islâmicos, como libertadores. Em que pese a destruição da cultura. Pois como já dissemos a cultura só faz sentido para quem tem a barriga cheia, assim, faltando pão...

Em semelhante conjuntura um único elemento deu mostras de preocupação, por compreender a dinâmica da cultura. O alto clero Católico, assim os Bispos Sinézio de Cirene e Agostinho de Hipona, o anacoreta Jerônimo de Stridon, o estudioso Sidônio Apolinário. Estes sabiam que a antiga cultura estava ameaçada, que o arcabouço da civilização clássica, em parte incorporado pela Igreja, estava prestes a desabar e que um novo mundo estava prestes a surgir.

Lição de História a ser aprendida pelos governantes: Situações de angústia extrema convertem os críticos do regime, por piores que sejam em heróis.

Seja como for não é muito difícil compreender porque os latinos ou ocidentais equivocaram-se em sua apreciação.

O equivoco se deve ao fato de que os godos ou bárbaros da fronteira estavam já civilizados ou familiarizados com os costumes e as tradições romanas. O que eles não podiam ver ou perceber é o que estava por trás do movimento daqueles povos. O que não conheciam é o caráter das tribos mais afastadas como  Vândalos, Alanos, Suevos, Ostrogodos, Hunos, etc O que não imaginavam é que os Godos estavam sendo empurrados por povos tanto mais rudes e grosseiros.

A entrada dos Godos no Império certamente não causou maiores desastres. Não foram eles certamente que como os Hicsos do antigo Egito, vieram pilhando, incendiando ou demolindo tudo pelo caminho e deixando apenas ruínas após si. Em determinadas situações, como foi exposto por Dubos e Coulanges, o que houve foi apenas instalação pacífica ou acomodação. Assim nas Gálias onde estabeleceram-se os Francos, assim nas regiões ocupadas pelo Godo.

No entanto a entrada dos primeiros foi como a ruptura de um dique, cujas forças não podiam mais ser contidas. No encalço dos Godos e Francos vieram os Suevos, Alanos, Hunos, Ostrogodos, Vândalos; e não foi por acaso que o nome destes últimos foi identificado com a destruição e a selvageria. Após os Godos romanizados, o Caos. Após o Godo ter estendido a mão a seus parentes mais distantes a situação tornou-se insustentável e o Império romano do Ocidente foi varrido da face da terra como por um tufão.

E lá estão as ruínas do Capitólio e do Fórum para testemunhar este trágico evento.

A longo prazo aconteceu o que os Bispos e Filósofos temiam: Não apenas as escolas, bibliotecas, museus, pinacotecas, galerias de arte, templos, etc foram destruídos mas até mesmo as pontes, portos, estradas, fábricas, hospitais, etc Enfim toda estrutura urbana de uma realidade extinta. Retornando a maior parte da porção Ocidental do Império a antiga condição rural. A subsistência. Ao status de pequena comunidade auto suficiente. Em prejuízo do letramento, da Filosofia, das Ciências e artes. Do que resultou sensível rebaixamento em termos de qualidade de vida.

Se houveram sombras na Idade Média, foram estas trazidas pela migração e instalação do elemento teutônico e das revoluções por ele provocadas.

Evidentemente que nem topo equipamento cultural produzido pelos romanos e introduzido no Oeste da Europa se perdeu. Apenas parte dele e por algum tempo. Reduzindo a marcha da civilização e recompondo as coisas.

De modo geral o que podemos declarar sobre o sentir dos diversos grupos sociais as vésperas da queda do Império romano do Ocidente é isto:

  • Os Cristãos ao menos em parte haviam se deixado dominar por uma falsa ideia de martírio ou por um delírio místico em torno dele, ignorando supinamente as situações sociais e políticos que não apenas justificam mas exigem uma resistência em termos essencialmente Cristãos. Outra parte deles acalentava, ainda que inconscientemente, certo desejo de vingança face a estrutura política que havia massacrado os antigos mártires seus confrades. Eles desconfiavam da cidade do César, se é que não aspiravam por sua destruição.
  • A classe média fora praticamente extinta assim como as liberdades populares. 
  • O povo simples, que era o grosso da nação, amolecido pela distribuição de trigo, vinho, azeite e carne; além de ingressos para os espetáculos e roupa, sequer pensavam em trabalhar, quanto mais em lutar e combater. Eis porque Alarico as portas de Roma classificou-os como erva grossa prestes a ser ceifada ou como um rebanho de ovelhas gordas, tal sua inércia e passividade.
Como já dissemos não haviam mais escravos e o exército era ocupado e controlado pelos Godos.

Diante de tal situação como admirar-se de que este Império tenha desabado fragosamente ao mais leve toque?

Pois não se tratava mais daquele corpo saudável e pujante dos séculos I e II ou do tempo de Augusto com suas hostes de escravos, regime marcial, fartura de bens, estabilidade monetária, acesso aos Mercados mais distantes do Oriente, liberdades civis, municipalismo florescente, etc

Deste império já não havia nem sombra em meados do século III. Que dizer então dos anos 300 ou 400?

O que temos aqui é um corpo disforme, enfermo e achacado, pela falta de mão de obra, pela inflação, pelo valor excessivo dos impostos, pela extinção das liberdades, pela eliminação da classe média urbana, pela fixação do pequeno proprietário a terra, pelo deficit nos cofres públicos, pelo amolecimento das massas, pela morte da consciência cultural, pela angústia e insatisfação dos cidadãos, etc

Tudo quanto faltava ali era, tal e qual o antigo Império Persa, o aparecimento de um elemento forte o bastante para tirar proveito da situação. O fruto estava já maduro e só faltava quem o colhesse quando apareceram os bárbaros nas fronteiras. Em certo sentido o império romano já estava morto. Tudo quanto podemos dizer é que o Império romano derrubou a si mesmo pelo simples fato de nãos ser capaz de vencer a crise que nele se instalará desde o século III. Como um organismo vivo seu estado de saúde foi se agravando mais e mais até o óbito. Os bárbaros foram os coveiros deste grande império. Mas não daquela vida municipal intensa, que já havia deixado de existir, século e meio antes.