Breve será o objetivo deste artigo, destinado a confrontar os sistemas ou ideologias que jamais produziram ou que cessaram de produzir a consciência social, enquanto elemento aglutinante da cultura.
Anarquismo, Comunismo, Fascismo, Nazismo, Islamismo, social catolicismo, protestantismo, o PT (rsrsrsrs) dentre outras tantas propostas não implementaram a Mimesis, continuando a digladiar-se, tendo em vista a direção totalizante ou integradora de nossas sociedades em Crise.
O comunismo a princípio, encarando a organização partidária como um veículo antes de tudo educativo\formativo e portanto tal e qual fora idealizado por Marx e Engels, foi bem sucedido, começando a ocupar os espaços desguarnecidos pela Cristandade estagnada e inoperante. Todavia na mesma medida em que, com o 'revolucionário' Lênin, torna-se vitorioso, podemos observar o organismo do partido tornando-se cada vez mais político e controlador, alias na linha da mesma violência física deflagrada pelo processo revolucionário. Neste momento a prioridade passa a ser a conservação do poder, sicut Machiavelli e 'Il principe'... Cessa o esclarecimento ou a produção de consciência ou não satisfaz a nova demanda (Por não se ter concentrado nela ou simplesmente pecado por tentar adiantar o processo histórico e ignorar a força das estruturas - Especialmente culturais!). E a URSS colapsa ao cabo de setenta anos. Talvez a exceção da pequena Cuba, onde o comunismo é ideológica e culturalmente reforçado por uma justa tradição anti imperialista ou N Americana desenvolvida por Jose Marti, todas as sociedades comunistas mantenham-se apenas superficialmente, por via de um controle externo ou físico, donde resulta sua extrema vulnerabilidade.
Seria interessante oferecer um estudo mais aprofundado sobre o tema da Revolução cultural chinesa, o qual salientaria a complexidade do problema. Por absoluta falta de espaço não podemos oferece-lo agora. Mas recomendamos esta linha de estudos, especialmente aos que acreditam apenas no padrão externo da força ou do controle estatal para manter um grupo social coeso.
O anarquismo, especialmente nos EUA, onde foi contaminado pelo individualismo (cf Murray Bookchin) converteu-se em apêndice daquela cultura, a qual espera que avance na linha do minimalismo crasso. Reverteu assim em anarco capitalismo, corrente a serviço da ideologia dominante, a qual acredita dever levar adiante como herdeiro, e não se sai disto. Em outras partes, como Europa ou França assumiu um aspecto psicologista, irracionalista, subjetivo e em parte individualismo, até ser assimilado pelo pós modernismo, disto resultou uma fragmentação sectária em torno de tipos - O negro, a mulher, o homo afetivo, a criança, o ecossistema, etc que fogem a qualquer integração, e o estereótipo do rebelde sem causa, apenas disposto a gastar as energias da juventude ou a promover a violência pela violência, a luta pela luta... até chegar a agressão gratuita, que reporta as fontes do inconsciente. Tal o quadro geral de um anarquismo que pecou contra a racionalidade e apartou-se da salutar noção de municipalismo, fundamento da policracia ou democracia direta, a qual parecem ter perdido completamente de vista. E é um quadro desolador...
O fascismo e nazismo com a mesma petição a força, inda que militar ou conservadora, presente no comunismo, no islã e no protestantismo sectário, jamais lograram em produzir consciência ou em forma-las, desdenhando ou mesmo deplorando qualquer tipo de esforço educativo\reflexivo que ultrapassasse as fronteiras de um cientificismo\positivismo, acrítico, servil e abjeto. O padrão da força, do poder ou da violência sempre temeu as expansões da consciência livre e disposta a resistência, como demonstra aquele processo levantado por Anito, Melito, Licon e Diopeites; com o apoio velado de Aristófanes, contra o mestre de Atenas. Então o 'Converte ou morre' do islã com suas espadas e ameaças produziu apenas um sistema de controle eficiente, por rotineiro. O que ali se observa em termos de cultura é a impermeabilidade do Estado a uma educação livre, científica ou reflexiva, um terrorismo antes de tudo anti educativo, destinado a aprisionar as mentes. Há uma unidade cultural, mas, apenas imposta pelo poder arbitrário com absoluto sucesso, um treinamento multi secular, através do qual as pessoas foram domesticadas. O que se vê ali não é processo interno de ascensão da consciência livre e uma associação livre de pessoas.
Outro e específico o caso do protestantismo, o qual jamais logrou a produzir (Nem mesmo na Santa Genebra de Calvino onde o controle do poder colapsou tal e qual na URSS) ou reproduzir na Europa a mesma cultura bíblica ou israelita do século VII a C, tendo de perseguir este ideal horrendo na Inglaterra de Cromwell e enfim nos EUA onde foi apenas relativamente ou em parte bem sucedido, de modo que os radicais, como apontou Décio M de Lima nos 'Demônios', tiveram de migrar para o Brasil, onde trabalham neste exato momento com o objetivo de sabotar nossas culturas e substitui-las por aquele projeto.
De fato o protestantismo produziu um dos mais poderosos éthos ou espíritos de todos os tempos, a exemplo do budismo, do Cristianismo, do Islã e do Comunismo, o qual no entanto, por mais turbação que tenha causado, dispersou-se e jamais logrou realizar por completo, por ser a História, ao menos em sua totalidade de formas irreversível e o protestantismo bíblico, ortodoxo e sectário esse olhar utópico de resgate voltado para o A T ou para qualquer fase do judaísmo pré Cristã. Ademais, reforçando a negação do mundo, assim o maniqueísmo, o neo platonismo e outras forças, ele representou, ao menos a princípio, enquanto luteranismo e em seus ensaios, mais um elemento negativo ou o decidido abandono de um ideal Cristã tradicional vinculado a concretude ou a transformação do mundo, cujos imperativos partem da própria crença na Encarnação de Deus {Nada mais miserável do que um comunista apontar-nos isto, a nós Cristãos luteranizados e adormecidos!). Assim o protestantismo, negando-se a inserir-se no mundo e opondo-se a ação dos Catolicismos abre brecha para a produção de um novo tipo de cultura, a qual não dirige (Indiretamente ou por orientação Ética) mas com a qual colabora ativamente. O protestantismo aceita colaborar com o novo espírito do liberalismo econômico, a batiza-lo, a crisma-lo e a servi-lo, sancionado-o no plano da cultura. E assim se integra a ele como elemento da nova construção cultural, iniciada na terra 'Virgem' (De herança clássica ou católica) dos EUA. O resultado disto é a produção de um novo tipo de consciência - o mais recente - a consciência ou cultura americanista, fundamentada no Capitalismo, porém, como já foi dito, com a colaboração ativa do protestantismo, num segundo plano, e de alguns outros elementos. O protestantismo tomou parte na construção deste novo padrão de consciência e dele faz parte, ainda que subordinadamente.
O social Catolicismo, surgido no século XIX, apesar de deitar raízes no século anterior e de representar enfim toda tradição anterior, antiga e medieval, bem como a própria consciência e cultura do passado não logrou afirmar-se entre os neo Católicos luteranizados. Falhou quanto a contagia-los, eletriza-los e mesmo em constituir-se como grupo majoritário destinado a comanda-los. Contou com as melhores e mais nobres almas, chegou a antecipar o justo clamor dos comunistas, mas não impos-se e não vingou como consciência ou forma de cultura, isto a ponto de, no tempo presente, a grande massa de neo Católicos ignorar a Doutrina social ou não leva-la a sério, pelo simples fato da hierarquia religiosa não te-la tornado rigorosamente impositiva, a exemplo das moralidades privadas e inúteis. A maior parte do clero não conheceu e menos aina valorizou esta corrente que é essencial.
A resistência dos neo Católicos foi insuficiente, de modo que o americanismo ou a consciência capitalista ultrapassou suas fronteiras, invadiu nossas sociedades e instalou-se nelas, nem sempre nos lombos do sectarismo protestante, mas, as vezes nas espaldas dos liberalismos ou do positivismo acrítico.
Disto resulta a puerilidade de criticar um simples partido como o PT por não ter produzido cultura nos governos Lula e Dilma, limitando-se a criar consumidores e a promover melhoramentos gerais. Devemos no entanto deplorar que sequer tenha tentado faze-lo, demonstrando vergonhoso conformismo e admitindo alianças nem sempre recomendáveis, assim com os próprios fundamentalistas como o Crivella. Tampouco é Bolsonaro fascista, nacionalista ou qualquer coisa tanto mais profunda do que um pires, no sentido de possuir ideologia, cultura ou consciência. Imaginar Bolsonaro como homem de espírito é não ter espírito... Limita-se ele, por necessidades práticas e instigação dos a aderir ao modelo vigente nos EUA. Não passando de imbecil útil, a favor de uma cultura exógena.
Então onde e quando essa integração cultural, Mimesis ou ascensão Ética verificou-se na História humana. Sem a ascensão Ética, recentemente, lá nos EUA, sob os auspícios de um economicismo ocultado pela religião morta.
Com ascensão Ética e brilho em apenas três oportunidades: No Extremo Oriente por meio do Budismo e do Confucionismo. E esta Constelação manteve-se, ao menos em parte, até meados do século XIX, com a Rebelião dos Samurais e a morte da imperatriz Tsu Hsi. Basta dizer que estes sistemas plasmaram as sociedades do Japão e da China conferindo-lhes por séculos a fio uma coesão e estabilidade que mais para o Ocidente identificamos somente no Antigo Egito. A coesão e estabilidade do antigo Egito giravam em torno de um princípio mais simples: Uma religiosidade essencialmente conservadora, reforçada por uma territorialidade fechada, ou vice versa, como quer Weber. Ali no entanto houve continuidade de algo cujas origens se perdem nos tempos e não a produção de algo que podemos acompanhar historicamente, como no caso do extremo Oriente.
A segunda construção é de matriz racional ou metafísica e naturalista. Diz respeito a antiga Grécia, relaciona-se com a afirmação do conhecimento filosófico e atinge ou conquista o Império romano (E com ele todo circuíto do Mediterrâneo). Inda que a princípio variada esta construção acabou consolidando-se em torno das figuras de Sócrates, Platão, Aristóteles e do legado Humanista transmitido por eles. Prevaleceu ela por quase mil anos, até a queda do Império romano, embora para muitos jamais tenha saído de cena mas sido assumida pelo Catolicismo ou pelo Cristianismo antigo, já na construção da Teologia, já quanto a afirmação de certos postulados Éticos, pelo que poderíamos postular certa continuidade em torno de objetivos como a superação da fragmentariedade e a busca por uma unidade essencial. Para alguns analistas este devaneio grego ainda estaria em marcha através de sistemas ideológicos progressivistas ou escatológicos que não passariam de um Cristianismo secularizado, do que resultaria a possibilidade de um paraíso aqui na terra resultando ele quer da posse dos meios de produção pelo proletariado, do progresso técnico científico, do poder do Estado\lider, do Mercado, da eugenia ou purificação da raça, etc...
A Terceira grande Mimesis ou produção, em larga escala, duma consciência comum, deve-se ao Cristianismo, como continuador ou substituto do Socratismo ou da cultura clássica. Tendo prevalecido com sucesso, por mil anos, em Bizâncio, formação político cultural importantíssima e que deveria se estudada com maior atenção pelos ocidentais e no Ocidente europeu até o fim da Idade Média ou o século XV. Claro que aqui se trata duma reconstrução após a derrocada do grande projeto romano, a qual jamais foi satisfatoriamente realizada devido a sombra do Islã e que por fim foi por completo frustrada pelo advento da reforma protestante, ocasião em que uma Europa totalmente convulsionada sai dos trilhos e entra numa crise interminável (Que se prolonga até hoje). E por ter surgido, a par das diversas culturas de morte ou ideologias, uma nova forma de consciência (Rival da antiga) na América, acentuou-se ainda mais o conflito. Resta concluir que das Idades antiga e média, a partir delas, não houve um desenvolvimento orgânico mas uma drástica ruptura, e que os elementos, princípios e valores tradicionais, ali presentes e comunicados pelo passado foram abortados. O projeto Cristão Católico, desfigurado em parte pela brutalidade medieval, legado pelo socratismo permanece até hoje inacabado. O trágico é que ele representa a expansão da Encarnação do Verbo - desta vez a nível social! - ou a Encarnação de sua palavra (O Evangelho) sob os auspícios do Espírito Santo, sempre em comunhão com a vontade dos homens bons.
Nós, os amigos de Sócrates, acreditamos na retomada deste projeto.
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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020
Produção de consciência e sua descontinuidade no curso da HISTÓRIA humana.
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terça-feira, 13 de novembro de 2018
Estabilidade civilizacional, tendências predominantes, ritmo histórico e conflito
Não conhece nem busca a História leis gerais, pois sua tarefa consiste em identificar as causas imediatas de cada fenômeno ou evento particular. O sentido, a direção, o ritmo, as tendências, as 'leis', o processo Histórico enfim é perseguido pela Sociologia. O que os antigos chamavam providência podemos chamar de leis sócio/históricas ou melhor dizendo de tendências predominantes. Afinal tais leis não atuam de maneira estritamente mecânica ou absoluta como as leis físicas ou naturais, são flexíveis até certo ponto, conhecendo certo grau de indeterminação tendo em vista a ação livre do elemento humano ou melhor as modalidades de ação e interação que são 'infinitas'. A História ou melhor a sociedade humana, a cultura... possuem certamente um ritmo, uma dinâmica, uma frequência; mas não exata ou inelutável. Tinha plena razão W Dilthey ao substituir o paradigma da previsibilidade pelo paradigma da compreensão.
Justificar pertence a ideologia ou a moralidade. Prever a física ou a química. A História buscamos descrever e compreender. E através dela compreender o caminho percorrido pelas diversas Sociedades e pela cultura, em busca de alguns elementos comuns. Não se faz Sociologia geral sem História embora a Sociologia busque certo nexo genérico entre fenômenos que estão dispersos. Abstrai assim do tempo e do espaço, mas, para tanto, deve utilizar-se da História e da Geografia e alimentar-se delas.
Possui a dinâmica Social certas leis gerais desde que compreendamos o termo Lei de maneira 'lata'. Por isso recomendo o emprego do termo tendências predominantes. Claro que a natureza da cultura tem direções bem definidas, as quais podemos, com o devido cuidado esboçar.
Antes de tudo quero abordar o tema da Estabilidade civilizacional e das Crises, o qual faz-se tão premente em nossos dias. Para tanto vou socorrer-me de um Filósofo da História e de um Sociólogo aos quais atribuo o mérito de terem desvendado o segredo da Esfinge; assim Toynbee e P Sorokin, os quais juntamente com F de Coulanges, M Weber e R Nisbet, tenho em conta de geniais.
Constatou Sorokin a generalidade do conflito - quem disse que o conflito não existe ou que nada move? - envolve quase sempre culturas cujos valores antitéticos podem ser definidos como Materialista ou Idealista. Uma cultura em crise é basicamente uma cultura cindida entre valores materiais e ideais ou indefinida; bem como uma cultura fechada, seja materialista ou idealista. A Estabilidade civilizacional ou o 'brilho' corresponderia a uma síntese entre os dois 'sentidos' ou a uma equilibração. Em torno do que poderíamos chamar Realismo. O Realismo tenderia a conciliar a razão e a experiência, o psíquico e o biológico, o mental e o corporal ou físico, a religiosidade ou a fé na vida futura e a ação na vida presente, a Transcendência e a Imanência... Assim a prática da ginástica e dos esportes com o ideal da Kalokagathia, a Ciência e a Filosofia, a técnica e a ética, formando um todo harmonioso, e bem se vê o quanto este ponto de equilíbrio deva ser difícil de ser obtido. Via de regra move-se a Sociedade de um extremo a outro, tal o 'sentido' das crises.
E se o conflito de valores existe dentro da maior parte das Sociedades mais desenvolvidas, devemos considerar um outro tipo de conflito, existente entre diversos padrões de civilizações estáveis e mais ou menos estáveis ou mesmo não estáveis. Segundo Spengler o atual conflito entre o Islã e o Ocidente, remontaria a situações de conflito de conflito anteriores travadas entre a cultura persa e a cultura greco/helenística, a cultura romana e a cultura judaica, a civilização Cristã bizantina e o islã, a civilização Cristã Ocidental e o islã, enfim a civilização Ocidental contemporânea e o islã... Teríamos aqui o prolongamento de um choque milenar de culturas. Noutras palavras seria o islã herdeiro ou legatário do judaísmo antigo ou mesmo do zoroastrismo (o que é discutível - esta última assertativa) enquanto que os Catolicismos - devido ao conceito de Encarnação - seriam em parte legatários do paganismo antigo. Daí o conflito entre as duas tradições: Da transcendência pura e da Transcendência/Imanência.
Sucede no entanto que nossas construções sociais, raramente atingiram o necessário equilíbrio. A exceção do século IV, do século IX, do século XIII e do século XVII, em que conheceram-se aproximações, o ideal de civilização Católica jamais concretizou-se, frustrando-o - A queda do Império romano no século V, o advento do Islã no século VII, o advento do neo paganismo no século XIV, o advento da pseudo reforma, do capitalismo e das culturas de morte a partir do século XVI. Tais eventos tornaram o ideal de civilização Transcendente/imanente inexequível. Para além disto o próprio Catolicismo - seja Ortodoxo ou latino - deixou-se contaminar, poluir e obscurecer sucessivas vezes pelo neo platonismo sob as mais diversas formas, assim do agostinianismo, do palamismo, do zwinglianismo, etc E afastando-se do Eixo da Encarnação, perdeu sua consciência, tornando-se descarnado e confluindo para o judaísmo e o islamismo, facilitando inclusive a dispersão ou a conversão...
Hoje acima de tudo acha-se o padrão de civilização Ocidental cindido entre opostos, em luta e portanto em crise. O que se sucede desde que o protestantismo e seu 'filho' adotivo, o capitalismo, assumiram a direção de nossas sociedades. No protestantismo ortodoxo ou luterano temos uma fé ou religiosidade desvinculada do mundo material e totalmente idealista. No Capitalismo uma praxis naturalista, materialista, anti ética e anti Católica. No americanismo uma síntese monstruosa entre a religiosidade descarnada ou maniqueísta e a praxis capitalista, em oposição a valores humanistas e autenticamente Cristãos ainda presentes nas antigas sociedades europeias, assim como o sentido comunitário, o ideal de bem comum e uma doutrina social normativa.
Entre os vestígios da civilização Católica ainda presentes numa Europa colapsada e os ideais da pseudo civilização Norte americana ou americanista de origem protestante ou calvinista pautada no que chamam 'bíblia' ou antigo testamento, com sua moralidade individualista, grosseira e vulgar, vai um abismo imenso. E este conflito se torna ainda mais agudo nas sociedades latino americanas, onde entram ainda outros conteúdos culturais, que o americanismo não pode aceitar ou compreender. Pois devemos ter em conta que para os puritanos recém chegados da Inglaterra, faziam os naturais deste continente as vezes de perversos cananeus votados ao extermínio.
Se os portugueses e sobretudo os espanhóis trazem a este continente recém descoberto um ideal de Cruzadas ocidentais, desconstruído pelo clero em Valadollid 1551, os puritanos do Mayflower, em 1648, trazem para este continente um ideal sectarista construído face as permanências do Catolicismo europeu, num clima de fanatismo e ódio contra Bispos, cruzes, torres e sinos... Tal e qual os Padres do século quarto tomaram por meta ou modelo social o Evangelho ou a lei de Jesus Cristo e os teólogos medievais do Ocidente a 'Cidade de Deus' de Agostinho - e já se percebe a queda do ideal... os calvinistas tomaram a peito criar uma Sociedade bíblica nos moldes da torá ou do antigo Israel... Daí a necessidade imperativa de satanizar e de aniquilar a cultural anterior ou nativa, segundo os ensaios que já haviam feito nos cantões Católicos da Europa...
Privada de conteúdo Cristão tradicional ou Católico ou de conteúdo nativo, implementaram os puritanos no Norte um ideal de Civilização protestantes que buscam, desde então vender ao mundo como legitimamente Cristão e impor as demais partes da América, conforme a doutrina do destino manifesto. Não apenas a América latina mas agora ao mundo como um todo como forma de legitimar o sistema Capitalista do qual tornou-se colaborador ativo ou servidor, pelo simples fato de que o protestantismo ortodoxo faz muito pouco caso das obras ou da ortopraxia. Mesmo os Catolicismos, posteriormente instalados neste 'solo virgem', tem se deteriorado muito facilmente e perdido sua consciência nesta atmosfera culturalmente tóxica, e tendem inclusive a exportar este Catolicismo negociável, flexível, morno, acomodado... face as necessidades do Mercado ao mundo inteiro, como se fosse produzido por encomenda.
Por isso não temos mais uma civilização Ocidental, unida e coesa, como no século XIII, mas uma sociedade cindida em torno de valores extremistas, como um espiritualismo descarnado e um materialismo insensível e cruel, os quais não se excluem, necessariamente. Em torno de permanências representadas por valores autenticamente Católicos, mesmo quando secularizados, como o socialismo, o ecologismo, etc E em torno de rupturas dramáticas como como a centralização política, os nacionalismos, o odinismo, o capitalismo, etc Vivemos um tempo de desencontro e contradição. A "Era da incoerência."
O que nos torna vulneráveis face a um islã relativamente coeso em torno do velho espírito fetichista e do padrão idealista ou descarnado de pensamento. O islã pode não ter atingido a equilibração civilizacional em termos de cultura, pelo simples fato de afirmar um deus absolutamente transcendente e apartado do universo material, mas fornece a seus adeptos, em termos de cultural, um padrão coeso ou não fragmentado. O ocidente deixou passar diversas oportunidades de equilibração e estabilidade social, até, por meio do protestantismo, do capitalismo e sucessivas culturas de morte, chegar a beira do abismo. Parte de nós zomba da fé ou da divina Revelação e da vida Ética que dela decorrer, embora nossas instituições todas e nossa cultura tenham sido postas sobre tais fundamentos desde tempos imemoriais e ante cristãos, uma vez que os Catolicismos dão continuidade a tudo quanto havia de nobre e excelente no paganismo antigo, fazendo com que remontemos a Platão, Sócrates e Aristóteles.
Ao repudiar preconcebidamente o Catolicismo estamos repudiando os fundamentos mais remotos da nossa identidade e para compreender o que estamos a fazer caberia ler - Coulanges, Dawson e Butterfield... Sociedade alguma subsiste fundamentada no ar, no vácuo ou no espaço. Uma sociedade completamente desarraigada de sua cultura ancestral não se mantém e por isto dizemos que os Catolicismos muito preservaram da cultura pagã ancestral quando o mundo antigo, por vício estrutural, ruiu fragosamente e veio abaixo. Foi um naufrágio e não fosse a presença do Cristianismo Católico experimentaríamos uma regressão tal como jamais fora vista em toda História, podendo quiçá, impugnar as constatações de V G Childe.
Quero dizer ainda que o neo paganismo, o materialismo, o ateísmo e mesmo o ceticismo ou a incredulidade, tal e qual nos tempos antigos nada produziram de relevante em termos de cultura refinada e já se disse que tais ideologias tem se mostrado estéreis nos domínios da Estética, o qual costumam depreciar. E quando se sabe o que esta tal arte moderna, psicologista... temos mais uma esfinge decifrada. Já quanto a ética bem poderíamos dizer que as mesmas causas produzem os mesmos efeitos, não por coincidência. O ateísmo e o materialismo refletidos jamais fogem ao utilitarismo, ao relativismo e ao subjetivismo... e são co relações epistemológicas necessárias. Por esta via jamais se chega a uma noção de Lei natural e assim ao essencialismo Ético em torno a alguns valores universalmente estáveis como o Bem, a Verdade e a Beleza - Digo algo a respeito deles... Para o cientificista ou positivista de nossos tempos Estética e Ética são palavras desprovidas de significados ou vazias, 'flatu vocis' enfim... Isto quando a própria razão e mesmo a própria experiencialidade não nos desamparam e encaminha ao nihilismo.
Nem fé, nem razão e nem mesmo a experiência.Nada fica restando de estável... Como construir ou manter uma civilização neste terreno? Tudo isto é resultado da dissolução, não algo positivo ou construtivo. Civilizações se constroem com afirmações fortes e ousadas em termos de princípios e valores. O protestantismo e suas sucessivas e múltiplas 'evoluções' privou-nos de tudo isto. Tornando-se o indivíduo centro da fé, e em seguida da razão e da experiencialidade, até que vieram a todas a morrer, pelas mãos do individualismo, imoladas!!!
Até aqui o conflito... Vivemos uma época de intenso conflito!
Devo dizer por fim, com Toynbee que a identificação de uma dada Sociedade com essa síntese harmoniosa e rara chamada realismo, não ocorre de qualquer maneira mais através da mimesis. Pois se faz necessário que após ter sido elaborada por uma elite intelectual, pensante ou dirigente, a solução de equilíbrio seja assumida por cada um de seus setores, inclusive pelos mais baixos ou pelas massas correspondendo a um eixo coordenador, capaz de integral todos os cidadãos, qual fossem um só corpo animado por uma só alma. Claro que essa assimilação de valores ou de cultura pressupõem antes de tudo uma organização educacional eficiente. A assimilação da cultura depende sempre da transmissão... Assim sendo uma Sociedade que aspire estabilizar-se deverá disseminar ou fixar determinados princípios e valores comuns por meio da educação, atingido verticalmente cada um de seus estamentos ou mesmo de seus membros.
Caso tais valores empolguem e inspirem os membros mais ativos e produtivos de cada esfera, este vínculo produzirá a estabilidade e promoverá a civilização, desde que tais valores, como já dissemos, representem um são realismo em torno de necessidades espirituais e materiais ou de demandas psíquicas e biológicas de modo a contemplar o homem por inteiro. Caro que esses momentos de mimesis em torno de uma construção teóricas equilibrada ou realista serão raros e breves na História da pobre humanidade e não uma constante, pelo que conheceremos certamente mais e maiores períodos de crise. Ora também o ser humano em fase de crescimento ou o adolescente conhece períodos de crise e ambivalência... Por isso não nos devemos amedrontar, caso isto aconteça também com as diversas culturas ou com a humanidade de modo geral, apenas, como disse Guicciardini, deplorar o fato de vivermos nós em tais épocas - Como durante a eclosão da reforma protestante, a queda de Constantinopla, a expansão do islã, a queda do Império romano, os cem anos posteriores a morte de Alexandre, a Atenas conquistada pelos espartanos...
Talvez, como Platão, vossa genialidade seja estimulada pelas condições adversas... Assim enquanto prevalece a crise, procedais como os entomólogos buscando compreender e identificar cada faceta do processo histórico ou do ritmo conhecido pelas sociedades. A cada um dos que tiveram a paciência necessária para ler este artigo faço votos de boa sorte! Que possais, vós e vossos filhos, ver dias melhores!
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