- Diversos autores teem classificado os jônicos (Pré socráticos), até Anaxágoras, como monistas materialistas, pelo simples fato de terem buscado saber qual fosse o elemento primordial (Arkhé). Talvez fossem dualistas e para eles a existência de um elemento diretor Imaterial/intelectual não passasse duma obviedade.
- Uma coisa é certa. Pitágoras foi o primeiro a enfocar um elemento estrutural abstrato. Quiçá sua teoria não tenha sido bem compreendida a seu tempo. Seja como for ele parece ter antecipado Descartes, Newton e Einstein no sentido de afirmar que nosso universo possui uma estrutura matematicamente inteligível.
- Podem chorar os pós modernistas e todo rebanho de céticos, relativistas e subjetivistas, o princípio de 'Não contradição' expresso por Parmênides de Elea continua sendo para a Filosofia o que a alavanca era para a Física de Arquimedes. Por isso Aristóteles declarou que os maiores vultos do pensamento anterior a Sócrates haviam sido Parmênides e Anaxágoras, concordo.
- Anaxágoras não excluiu nem poderia ter excluído o elemento material, alias eterno. Realista por definição considerou que aquele elemento era inerte ou passivo por carecer de inteligência e por isso enfatizou a ação do elemento intelectual/Imaterial ou Espiritual sobre o elemento material ou caótico, o qual ciclicamente reorganizava, conforme já havia sido descrito pelo não menos genial Anaximandro. Quiçá o Apeiron e o Nous sejam termos similares.
- Heráclito foi quem forneceu base a Protágoras de Abdera, o qual repudiava a apreensão da verdade por parte do intelecto por julgar que o fluxo da natureza fosse demasiado fugaz. Quando o homem cuidava ter apreendido determinada impressão, já esta se havia convertido em qualquer outra coisa.
- Demócrito não foi pré socrático mas contemporâneo tanto se Sócrates quanto de Platão. Provavelmente foi ele o primeiro materialista, bem como o primeiro a analisar a moralidade humana, antecipando o trabalho de Sócrates.
- Sócrates foi um dos primeiros, senão o único (Mas recordo Carneádes e Epicteto), filósofo de origem humilde. Até seus dias era a Filosofia exercício das elites, executado entre as paredes de alguma Escola e sob a direção de escolarcas bem remunerados. Havia assim uma espécie de monopólio ou segredo. Sócrates foi quem pela primeira vez levou a Filosofia a praça ou as ruas de Atenas, colocando-a no acesso do grande público ou de todos. Sua atitude crítica face aos tabus e preconceitos vigentes foi encarada como perigosa pelos proprietários, sacerdotes, militares e pelos conservadores de modo geral. Anito, Melito, Licon e Diopeites moveram-lhe processo e fizeram-lhe entornar a cicuta sob a acusação de ter corrompido a juventude, pelo simples fato que que a fizeram pensar... Tudo muito atual.
- Platão tentou superar a tensão - Universal/particular ou Repouso/movimento, tradicionalmente posta pelo pensamento grego e disto resultou sua Teoria das formas representada pelo 'Mito da caverna'. É citado como idealista no sentido de imaterialista ou espiritualista, todavia ao que parece o seu 'mundo das ideias' não era isento de materialidade física.
- Como Newton, Aristóteles teve seus pés postos sobre os ombros largos de um Aristócles (Platão) e por isso elaborou uma teoria das formas bem mais realista e consistente além de ter especulado sobre todas as áreas da Filosofia e mesmo do que viria a ser chamado 'Ciência'.
- Pirro, o primeiro cético, tomou sua doutrina ou melhor postura, ao Budismo quando com Alexandre, o grande, vagava pelos confins da Índia. A epokhé ou anulação da vontade, conduz ao Nirvana que é a Ataraxia ou Apatheia. A princípio - Apud V Brochard - tentou Pirro dar aplicação prática a sua doutrina, disto resultando diversos acidentes. Diante disto converteu-se ela em simples negação de qualquer ideal metafísico e os céticos em conservadores por definição. O ceticismo com efeito afirmou-se no mesmo exato momento em que o ideal político dos antigos gregos entrou em colapso após a morte de Alexandre, durante as guerras empreendidas pelos diádocos e epígonos.
- Quiçá epicurismo e estoicismo, se bem compreendidos e despidos dos possíveis extremismos não sejam inconciliáveis pelo simples fato do sofrimento físico ou corporal ser quase sempre compensado por um outro tipo de prazer, interior ou da consciência, sempre que cumprimos com nossos deveres e exercitamos a virtude. A virtude é quase sempre deleitosa ao ser racional, mesmo quando o corpo físico seja esmagado pela dor.
- Nos últimos séculos antes desta Era o aristotelismo havia dado origem a doxografia e aos estudos gramático literários em Alexandria e Pérgamo, bem como a pesquisa científica a partir de Teofrasto de Éreso e Straton de Salônica ou Dikaiarkos de Messina. Foi trágico que por volta do século I a C esta corrente se esgotasse e cedesse passo, primeiramente ao platonismo. O platonismo a seu tempo de releitura a releitura chegou ao neo platonismo e através deste a simples teurgia i é a magia. Isto no exato instante em que outros tantos cultos de mistério, como o mitracismo, o orfismo, o serapismo, etc invadiam o mundo greco romano. Toda uma cultura de massas, de comboio na miséria e instabilidade social, precipitou as multidões nos abismos do misticismo... Nem mesmo os pensadores ficaram indiferentes a este movimento de convergência, disto resultando um continuo e sucessivo declínio em termos de pensamento filosófico. Sendo inútil evocar causas externas ou lançar a culpa no dorso do Cristianismo emergente. Tudo estava decidido e decidiu-se ao cabo do conflito platonismo/aristotelismo e a derrota deste último enquanto padrão de pensamento realista favorável já a ciência já a um raciocínio vigoroso. Vencido o aristotelismo/realismo ficou selado o destino da Filosofia clássica já porque não podia o platonismo deixar de receber outros significados e enquanto neo platonismo de resistir a tempestade mística em formação.
- Resta declarar que nos primeiros séculos desta Era o predomínio do neo platonismo em todas as Escolas nos obriga a dar o exercício filosófico como agonizante e esta magistral criação do espírito humano as portas da morte. Pois em lugar de Parmenides, Anaxágoras, Anaximandro, Pitágoras, Aristóteles ou Dikaiarkos o que temos é a triste figura de um Jâmblico praticando puro e simples wiccanismo e dedicando-se a pressagiar o futuro...
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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020
Nótulas sobre a Filosofia antiga ou clássica.
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domingo, 9 de fevereiro de 2020
Grotius x Maquiavel, Bakunin, Hayek ou Humanismo vs pós modermismo

O que Lutero, Maquiavel, Bakunin, Nietzsche, Mussolini, Hayek tem a ver uns com os outros? Claro que a maior parte deles era individualista e que, com Stirner e Rand, foram os principais teóricos dessa Ideologia venenosa. Curiosamente eram todos irracionalistas, relativistas, subjetivistas, psicologista.... É portanto tão intensos a uma Ética quanto os filhos de Litreé e Kelsen, ou seja, os empiristas/positivistas, fossem estes cá agnósticos, materialistas ou ateus.
Em Cousin, Damiron, Jouffroy, M de Biran, E Renan... temos a outra face da moeda, e ela não foi religiosa, fideista ou revelada como supõe a crítica neo ateistica e superficial, mas naturalista ou metafísica, conforme o modelo grego, seja pré socrático, platônica, aristotélico ou estóico. Grotius parece ter precedido a todos estes, como já veremos, embora suas fontes remontem a escola salmanticense e por esta via comuniquem com a neo escolástica.
Quanto aos autores acima é notório o caráter pré positivista no sentido dos ramos do saber por eles cultivados serem apresentados como autônomos não apenas face a uma moralidade religiosa muitas vezes toscas, mas face a qualquer instância superior, assim a uma ordenação Ética inda que naturalista. Afirmam o primado do conhecimento material ou empírico e chegam inclusive a prometer que de sua ciência empírica ou ignorância crassa, brotara vida Ética.
Ignoram assim que a instância Ética do Ideal seja distinta da instância material ou real do conhecimento científico ou mesmo superior a ela. Pelo que a ciência torna-se soberana e incontrolável, assumindo o lugar o velho Deus e adquirindo acentos religiosos ou místico, tal e qual o comunismo, o fascismo e outras ideologias políticas seculares por trás das quais subjaz a decantada escatologia cristã. A C Grayling.
A epistemogia deles no entanto parece ser mais sofisticada que a do positivismo, na medida em que para eles o empirismo já não aponta para uma perfeição racional e sim para a odiada imperfeição ou para um elemento caótico, que nem mesmo a experiência habitual poderia reverter.
Por isso abominam a Ética ou a desprezam, enquanto tentativa de controle racional sempre infrutífera. Segundo creem qualquer tentativa de controle racional, alheia a realidade, só poderia piorar semelhante estado de coisas. O mais aconselhável seria aceitar a realidade do incontrolável e do irracional tal qual é, deixá-la fruir e acomodar-se. O que implica abandonar todo e qualquer reformismo idealista enquanto tentativa de corrigir a realidade dada.
Maquiavel, além de ter criticado o falso moralismo reinante ou os abusos do tempo, bem poderia ter ensaiado algum tipo de solução Ética. Mas é justamente o que não se vê no Príncipe... A contra partida dos meios de dominação parece inexistir, assumindo o mal certo contorno absoluto. O fim último parece ser o poder e o mais parece ser meio, enquanto a fortuna é apenas a sorte, o acidental, o estocástico. Mussolini, partindo de Sorel, é igualmente voluntarista e irracionalista, não acredita no auto controle racional do Homem ou no processo social de auto educação, dai sua confiança tola na autoridade cega, no autoritarismo, na tirania, no despotismo, da ditadura, na submissão, no controle, etc
Outro não é o discurso de certos comunistas e anarquistas em torno da tão sonhada revolução. Pois quando perguntamos a eles a respeito dos excessos de violência relacionados com um conflito social de caráter físico ou armado, eles limitam -se a declarar - sofismando - que a violência já existe 'oculta' em nossa sociedade de classes, etc Ignorando ou fingindo ignorar que a condição é bem distinta posto que atenuada pelas leis, e que nem outra seria uma situação de guerra aberta cujos excessos e abusos teríamos de prever para controlar.
Assim que fazer com os que se aproveitam da Revolução para cometer os crimes mais sádicos? Que fazer com os feridos em conflito? Com os prisioneiros? Com os civis? Que pensar sobre a tortura? E os animais... É os famintos... É o patrimônio histórico cultural? Eis assuntos de Ética em torno da tão Revolução que os comunistas e anarquistas deveriam estar discutindo ou pensando desde 1848 mas com relação aos quais nutrem verdadeira ojeriza.
Isto para não aludir a questões práticas em torno da administração pública seja das empresas ou dos municípios... O que ao menos foi considerado pelos heterodoxos Herr, Jaures, Blum... Os ortodoxos no entanto fornecem-nos apenas está miserável resposta: Esperem a revolução acontecer pois é em seu desenrolar que encontraremos as soluções. Embora seja característico do homem calcular, planejar e pensar sobre o futuro. Mas o que há por trás de tudo isto? A suposição de que a revolução é um fenômeno irredutível a razão, incontrolável, imprevisível em seus contornos... Claro que uma guerra ou revolução parte de um impulso. Seus nuances e resultados todavia podem sim ser racionalizado, e toda História das guerras gregas e romanas apontam para este caminho. Do contrário a estratégia das minorias jamais teria vencido o número dos oponentes ou Alexandre vencido os persas.
Criar uma Ética de guerra é tão importante quanto pensar operações estratégicas. Os anarquistas é comunistas porém preferem não pensar o problema ou não refletir, dando tal reflexão por ociosa. Tal o caráter imprevisível e irracionalista dos conflitos humanos. Como o caráter do fenômeno político para o florentino.
Outra não é a opinião de Hayek - derivada é claro de Kant - sobre os movimentos ou flutuações do Mercado, igualmente aleatórios, irracionais e incontroláveis... Daí o caráter negativo, segundo ele, de todo é qualquer controle ou tentativa de planejamento racional exercida pela sociedade política... Apenas os inseridos conheceriam intuitivamente ou pela prática habitual, tais flutuações ou crises, sabendo igualmente que elas possuem dinâmica própria e que, como nos casos de gripe, nada se pode fazer alem de esperar que ela siga seu curso natural. Nada podemos corrigir, em absoluto!
Eis o político, o curso da Revolução e o Mercado descritos quase que nos mesmos termos por um pós renascentista angustiado, por alguns teóricos anarquistas e por um ideólogo neo liberal e a tônica comum é o irracionalismo, irredutível a qualquer modelo ou solução ideal é portanto a uma normatividade Ética. Por isso o maquiavelismo, o anarquismo, o comunismo e o neo liberalismo aproximam-se não somente do empirismo/positivista, mas de outros sistemas irracionalistas - Como o cristianismo protestante Luterano, quanto a resistência a uma vida Ética superior é absoluta.
E o humano fica sempre esmagado - Pela fé religiosa, pelo poder político, pela tirania do Mercado, pelas revoluções 'libertadoras, pela pedido filosofia da fragmentação ou do particular, pela negação do conceito (De justiça ou bem comum...)
A todos estes oponho, além de Sócrates, sempre atento ao que fosse humano; é Descartes, Hugo Grotius. E por que Hugo Grotius? Porque buscou disciplina o que chamamos guerra bem como a convivência entre os Estados fornecendo-lhes uma Ética como produto de anos e anos de cuidadosa reflexão. Imaginou ele diversas situações possíveis e a melhor maneira de relaciona-las com o bem e a justiça, resultando disto um Tomo inteiro com cerca de seiscentas citações.
Numa perspectiva mais ampla sua obra foi resultado de um exercício reflexivo iniciado cerca de século e meio antes em Salamanca, Espanha, onde um grupo de teólogos dominicanos, liderados por Vitória, principaram a refletir sobre a nova condição do mundo após as descobertas de Colombo. Como as novas culturas encontradas achavam-se separadas da cultura Cristã européia quanto a fé, aqueles sacerdotes buscaram por outro elemento comum que pudesse unir os homens, dando com a razão ou a racionalidade e o Direito natural, do qual derivam o que hoje temos em conta de Direitos humanos, direitos essenciais e não duvidosos ou relativos.
Os próprios Dominicanos puderam servir-se do Direito romano e de alguns testemunhos legados pelos antigos pensadores gregos, em especial pelos estoicos. Isto porque os gregos do século VII a C e os romanos do séculos I e II d C haviam sido postos diante das mesmas circunstâncias que os europeus do século XVI - A descoberta de uma vasta pluralidade cultural e credal, a qual levou-os em busca de um elemento comum em termos de imanência - Assim a razão ou a capacidade reflexiva, a partir da qual reduziram uma Ética essencial, a que deram o nome de Direito das gentes, tal a fonte do jusnaturalismo ou da Teoria Ética do direito, a qual o positivista Hans Kelsen opôs sua teoria pura.
Da negação da razão pelo empirismo positivista e pelo pós modernismo resultou a negação desta Ética essencial da pessoa É a crise porque passam a Civilização e a cultura. Pois esta Ética continua sendo relativizado e negada hoje, não passando muitas vezes de vão ou de palavra vazia. Falamos muito sobre Ética mas não a levamos a sério ou vivenciamos, certamente porque não estamos convencidos em termos de veracidade essencial. Neste caso o problema é sempre Epistemológico.... Afinal de que nos serviria uma Ética duvidosa, ilusória ou aparente? Coisas há a respeita das quais devemos ter certeza absoluta e inabalável, de modo a mover a vontade. Nossa cultura envenenada não satisfaz esta demanda psicológica...
Ps.: Poderia adicionar aqui os agostinianos todos, sejam protestantes, como Lutero e a maior parte dos sectários catastrofistas, assim os romanistas que receberam a alcunha de tradicionalistas (século XIX) justamente por repudiarem nosso aparato racional - Assim grande parte dos INTEGRISTAS ou CONSERVADORES: De Bonald, De Maistre, Donoso Cortes, Ubaghs, Tamburini, etc Estes mereceram condenação explicita por parte do Concílio do Vaticano I - O qual vindicando nossa tradição autêntica afirmou a capacidade da razão humana - embora os conservadores 'católicos' levassem este substrato cultural adiante e podemos constatar este receio face a razão tanto nos agnósticos como Gray quanto nos 'católicos' deslocados como Russel Kirk. Também são irracionalistas como Agostinho e Lutero e por isso pretendem substituir o critério da Razão pelo critério da TRADIÇÃO. O critério ou padrão TRADICIONAL porém só é válido no âmbito interno da divina Revelação ou da Religião e não da imanência, já porque os antigos pagãos apelaram obstinadamente a ele contra o Cristianismo emergente, e nossos apologistas, os padres da Igreja, a Razão, com o objetivo de invalida-lo.
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