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sábado, 31 de julho de 2021

Tempo de assistir 'O tempo' ou porque Shyamalan não será indicado para o Oscar...



Tirei hoje um tempo para assistir 'O tempo', o novo clássico - Isso mesmo, um clássico, pois toda 'obra prima' nasce já sendo um clássico. - dirigido M Nigth Shyamalan.

A bem da verdade, absorvido por minha leitura das obras de Platão, ignorava que estivesse ele dirigindo um novo filme. No entanto, ao passar pelo Cinema existente no Shopping center de minha cidade, deparamos com o cartaz.

Diante disso, revi meus planos para o Sábado e decidi assistir ao Novo filme, descrito pela vendedora de bilhetes com um filme de 'Suspense' - E de fato ai temos um filme do mais puro suspense, compreendido como mistério. Nem por isso deixa de ser ele de terror. Não porém daquele terror estereotipado e banhado a sangue como 'O massacre da serra elétrica'. Tampouco de um terror sobrenatural e manjado a semelhança de 'O exorcista'. Não. Nada disto, aqui o contexto é outro e, pasme, há narrativa ou concatenação. Aqui temos uma trama, no sentido de que faz oposição a uma urdidura. 

Aqueles leitores nossos que acompanharam-nos até aqui temos de advertir que talvez haja Spoiler. 

Portanto se ainda não assistiu 'O tempo' para de ler este artigo e corra ao Cinema. E não, não estamos recebendo qualquer comissão pelo convite. O quanto aqui fazemos é em benefício da cultura geral, do raciocínio, da Ética, da formação pessoal, etc de não a custo de 'vil metal'.

Não perca portanto a oportunidade de deliciar-se com o tempo, filme feito não para pessoas medíocres mas para gente que pensa ou para seres pensantes. Pois é obra que estimula o pensamento no mais alto grau.

Eu assisti e posso dizer desde já que foi, ao menos para mim, uma experiência tão marcante quanto a que tive ao assistir "Elysium", "O preço do amanhã" ou "V de Vingança". Os quais até hoje são presença obrigatória em meus artigos, aulas, palestras, etc Especialmente quando versam sobre Ética, virtude, moralidade, dilema, ciência, etc

Antes de tudo não creia que o diretor se atrapalha ou embaralha com qualquer coisa. 

Não são 'O Tempo' ou seu diretor que se embaralham. Não - O quanto fazem eles é decodificar para nós uma realidade atrapalhada ou um mundo embaralhado.

Pelo contrário, é 'O tempo' filme de rara acuidade Psicológica e Social, capaz de captar perfeitamente a mentalidade de um psicopata ou canalha que pensa a si mesmo como mocinho, herói ou redentor da humanidade. Em 'O tempo' esta presente o espírito venenoso e sorrateiro de Maquiavel com suas terríficas consequências. Como também esta nele, e é precisamente o que faz dele um marco ou uma obra exponencial, vigorosa resposta a premissa positivista segundo a qual a Ciência nos dará uma Ética, o que alias vem já prometendo há quase dois séculos...

Será que de fato dos laboratórios e tubos de ensaios saíra uma Ética superior a que nos foi dada por Sócrates ou pelo Evangelho (Disse Evangelho não Cristianismo e menos ainda bíblia.)???

Não, não me impressionei com a capacidade de certas pessoas fazerem o mal (Embora quase sempre socrático não creio que a maldade humana seja sempre expressão da ignorância do bem. Todavia conduzido por um otimismo ingênuo e tosco, cheguei a crer que os homens tivessem consciência de seus crimes ou algum vestígio de culpa. "O Tempo" no entanto reconduz-nos a realidade da vida vivida na qual os criminosos não apenas vangloriam-se do que fazem como apresentam-se como beneméritos. 

Assim o é... Fazer o que? Pois enquanto uns possuem sentimentos inconscientes de culpas infundadas outros são simplesmente debochados, insensíveis e cruéis no mais alto grau... 

Talvez se observar com atenção a morte do segundo personagem e de seu cão alguém consiga intuir o desenrolar da trama... O que leva um idoso a morrer antes dos outros? Que leva um cãozinho a perecer primeiro?
 
A partir de 'O tempo' você começará a entender porque os ateus e materialistas apreciam tanto a doutrina no ideologia do Caos, e qual o sentido dessa ideologia. 

Em seguida se lembrará talvez do misterioso 'Triângulo das Bermudas', agradecendo aos céus ou a Providência porque ele não e outros locais do gênero não possuem existência real. Afinal nossa existência, mesmo sendo bizarra, poderia ser ainda mais bizarra e monstruosa. Amorosos céus...

Nada mais reconfortante saber nosso mundo natural e uniforme. 

Para além disto há também material para uma boa reflexão existencial em torno de um casal de jovens, de seu bebê e da morte acidental. 

E como se não bastasse há ainda uma lição de amor em termos de vínculos, cumplicidade e resgate, com direito a heroísmo e quem diria, a um final feliz. Como a ensinar-nos que em meio a mais densa treva pode haver alguma luz...

Há enfermidades - Esquizofrenia, Alzheimer, cegueira, tumor, epilepsia, etc Num quadro de temporalidades, mortes, aparências, engano, amizade, afeto, educação, etc elementos muito bem relacionados uns com os outros e que fazem deste filme, como registrei a princípio, um clássico.

Após terminar de assistir a 'O Tempo' talvez nos tornemos pessoas mais prudentes, quem sabe prudentes como as serpentes e aptos para saber que 'Quando a esmola é demais o santo desconfia' ou se ferra... Pois o preço de um paraíso oferecido de mãos beijadas bem poderá ser um inferno de dor...

Opino no entanto que 'O tempo', devido a seu sentido Revolucionário - Não para comunistas e anarquistas ou no sentido usado por eles! - passará batido. Não contará o apoio das galinhas que não botam ovos, i é, dos críticos e quiçá sequer seja indicado para o Oscar. Pois sem querer ele destapa um cloaca ou boeiro demasiado fétido.

De fato temos uma produção que nas entrelinhas questiona o espectro, ainda vivo e presente, do cientificismo ou do positivismo. 

Claro que uma produção que questiona tais valores não poderá ser bem acolhida por uma mídia movida a grana ou por uma cultura econômica 'evolutiva' ou progressivista. 

"O tempo" como já disse não é uma produção ingênua, mas crítica, e que crítica uma parte ainda essencial - e mitológica - de nossa cultura. 

E como o genial ateniense dizia que antes de buscar conquistar o universo devemos conhecer e dominar a nós mesmos há humanismo na nova produção de Shyamalan. Sendo essa obra mais um testemunho artístico a respeito dessa inversão a que chamamos civilização. 

No entanto não se preocupe se após ter assistido 'O tempo' você não conseguir perceber tudo isso de uma vez. Caso perceba alguns dos elementos apontados já saíra mais rico e melhor... E por fim, sempre poderá reassistir o filme, uma, duas, três ou até mais vezes, que bem merece.

Eis o quanto queríamos registrar sobre "O tempo", seu diretor e seu significado.

Bora partir para o Cine mais próximo e assistir Shyamalan???

 




quarta-feira, 7 de junho de 2017

Seleções de artigos: Os delírios da Mitologia ou Mitologia, Cristianismo e crítica

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Faz parte do discurso atual ridicularizar ao máximo a 'mitologia' Cristã ou Católica enquanto se 'passa ao largo' da mitologia hebraica (Assumida pelos judaizantes alias) e mais ainda da mitologia grega. Quanto a esta última por sinal há inclusive quem chegue as vias da Apologia... Como na série Percy Jackson.

Longe de nós negar ou mesmo menosprezar a Filosofia grega não apenas enquanto monumento literário, mas enquanto construto social, repositório de figuras simbólicas, fonte de temas psicológicos, etc Nós mesmos somos professores de Mitologia Clássica e admiradores confessos seus enquanto expressão literária, social e psicológica.

Coisa completamente diversa é encara-la sob o prisma religioso ou como entidade real. A exemplo dos neo pagãos.

Curiosa a atitude da neo modernidade face ao 'problema', o Cristianismo é ferozmente atacado e reduzido ao absurdo por apresentar Um só Deus feito homem e nascido miraculosamente duma Virgem, enquanto todos os devaneios da mitologia grega são poupados!!!

A questão até pode parecer irrelevante mas não é.

Afinal quem haveria de levar a Mitologia grega a sério?

Aqueles que sem terem abraçado a fé ateística ou materialista, desencantaram-se com a Mitologia hebraica, levianamente associada a fé Cristã.

Especialmente as crianças, os jovens e as pessoas mais imaginativas.

Eu mesmo, enquanto educador e conferencista, após ter abordado determinada narrativa mitológica, tal como a Medusa, o Pegassus, a origem de Afrodite, os repastos do croniana, a origem de Ops, etc, tenho ouvido regularmente a seguinte pergunta: Mas professor, isto aconteceu mesmo? Ou ainda: Mas isto é real professor?

E eu havia acabado de descrever como após a castração de Urano por seu filho Cronos - cujas partes foram lançadas ao mar - de seu esperma mais a espuma do mar, brotou uma deusa, Afrodite. Alias a narrativa não seria menos absurda caso disséssemos que das partes de Cromos mais a espuma do mar saíra uma mulher comum??? Desde quando de sangue ou esperma mais espuma sai uma criatura viva em estado de maturidade??? Quanto mais um ser racional????

E no entanto após haver relatado exatamente isto, ou como um deus engoliu seus próprios filhos ao cabo de anos a fio para num determinado dia, ao ser golpeado no estomago, vomita-los todos vivos, um após o outro. Seguindo-se a aterradora pergunta: Mas aconteceu mesmo? Foi real? Cronos existe? Pégassus existe? Cila existe? A Hidra existe? A quimera existiu? Existiu a Medusa???

É o que costumeiramente ouvimos da parte dos mais jovens. Inclusive quando aludimos a passagens das mitologias nórdica, maia, indiana, japonesa... as quais são ainda mais absurdas com seus homens/milho, deuses cegos, deuses esquartejados, deuses saídos do mar, das montanhas ou do Sol, etc Após cada narrativa segue-se a invariável pergunta: Mas é real? Formulada não por crianças pequenas ou por adultos a guiza de pilhéria, mas seriamente, tanto por jovens quanto por gente madura!

Admitamos que a Mitologia hebraica - A qual nada tem a ver com os mistérios do Cristianismo - tenha servido de introdução as demais mitologias (Pelo simples fato dos pastores e de alguns padres desmiolados terem ensinado os fiéis a acreditarem em mais narrativas). Em que ficam sendo menos ridículas ou absurdas? E por que não podemos viver sem elas, digo sem mitologias? (Apenas enquanto forma religiosa ou 'real').

Admitamos que a Mitologia hebraica seja absurda.

Em que isto torna as demais narrativas mitológicas excelentes ou dignas de crédito.

Mas o Cristianismo!

Pera lá, partamos do princípio, onde é que o Cristianismo nos ensina a crer em deuses, em deuses com vontades diferenciadas, em deuses que não apenas conflitam, mas que positivamente chegam as vias de fato, brigando, combatendo e lutando entre si???

Como poderiam ser 'infinitos' uma ver que a infinitude supõem exclusividade? E como sendo limitados e finitos podem ser propriamente divinos? Deuses é coisa que não pode existir, um conteria o outro, e nenhum deles seria Deus...

Por outro lado se é Deus, por meio das leis naturais que estabeleceu, Conservador do kosmos (I é da ordem que regula o universo 'relações constantes entre causa e efeito') como o triunfo de outro 'deus' e outra sucessão, e a introdução de outra mente e de outra vontade, poderia deixar de introduzir mudança nas leis naturais tornando-se o universo completamente caótico??? Não seria justa admitir que o triunfo de um novo deus acarretasse a substituição de um modelo de universo por outro e assim sua destruição???

Suponhamos ainda que o organizador e conservador deste universo seja um dentre vários e que tenha seu poder ameaçado. Neste caso, sendo atacado por outro ou por outros e tendo de despender tanta força em sua própria defesa como conseguiria manter este nosso universo inalterado e fixo? Enfim como essa luta ou disputa entre deuses beligerantes poderia deixar de acarretar a destruição do nosso mundo introduzindo sucessivas catástrofes???

E no entanto há bilhões de anos temos um Kósmos e mesmo um processo evolutivo que avança em determinada direção. Temos estabilidade e constância, temos regularidade, ritmo e sincronia, temos ordem; o que não nos parece indicar uma disputa pelo poder nos termos da Mitologia, a qual como já dissemos acarretaria a confusão geral e a dissolução dos elementos.

O Cristianismo a principio já se mostra superior a Mitologia - no terreno religioso - por postular o monoteísmo ou a existência de um só Deus, embora não sob a forma da transcendência absoluta, pois como os deuses do paganismo antigo, o Deus dos Cristãos é Deus presente e em contato com a imanência. É Deus envolvido com suas criaturas e não uma entidade totalmente separada e localizável.

Mas o Deus Cristo se Encarna ou se faz homem, dirás tu! Neste caso que diferença há entre Cristianismo e Mitologia?

A diferença já a apontamos - O Cristianismo como a Filosofia grega, não admite princípios paralelos ou conflitantes, não trabalha com o falso conceito (Absurdo) de deuses, não é politeísta, mas monoteísta.

Logo o que afirmamos é a encarnação de Deus e não a manifestação, a encarnação ou a reencarnação de diferentes deuses.

No entanto, replicarás, vocês Cristãos adotam o princípio Mitológico da Encarnação, o qual não se achava presente no judaísmo.

Coisa curiosa. Você censura o Cristianismo por adotar um elemento ou aspecto do paganismo e você mesmo adota-o 'in totum', admitindo inclusive deuses que não possuem existência real.

E no entanto você, admite, segundo a mitologia, que seus deuses ou celícolas assumam formas bem menos refinadas!

Assim o pai Zeus é sátiro, é pavão, é águia, é touro, é ganso, é cisne e é serpente, além de chuva de ouro e raio. Hera, sua esposa converte-se numa velha desgrenhada com o objetivo de enganar a rival Semele, Rea ou Cibele numa árvore, Atena em coruja, Leto em codorniz, Heracles num dragão, as irmãs de Faetonte em choupos, Ino numa vaca (depois virou deusa!), Aretousa em fonte, Narciso em flor, Alcione em golfinho, etc

Neste caso se você considera a Mitologia, com todos os seus absurdos clamorosos, como digna de crédito, por que raios censura os Cristãos por terem tomado um único princípio seu por verdadeiro?

Agora por que tomam o princípio da Encarnação por verdadeiro?

Poderia o amigo demonstrar que, admitida a existência de um Deus Bom e Todo Poderoso, fica sendo sua encarnação, impossível ou irracional???

Eis algo que os esforçados judeus e maometanos, adeptos da transcendência absoluta, ainda não conseguiram demonstrar sem cair na mais absurda e monstruosa das contradições.

Pois fazendo ostentação em torno da onipotência divina, asseveram que deus 'NÃO PODE' se fazer homem ou encarnar-se. Veja bem - DEUS NÃO PODE...

Agora para que Deus não possa fazer alguma coisa temos de provar que esta coisa ou ação seja ou pecaminosa. Pois quanto a isto estamos de acordo, não pode Deus fazer o mal (embora o deus dos judeus e maometanos possa pecar e fazer o mal!!!).

Todavia por que e em que assumir a matéria organizada por ele mesmo e na qual já esta presente seria mal ou pecaminoso???

É a matéria pecaminosa ou indigna? Neste caso por que teria o Deus sábio e perfeito produzido algo mal ou indigno?

Por outro lado, se enquanto obra divina é a matéria digna e boa, por que não poderia o Deus todos poderoso assumi-la?

Reflita, com isenção de preconceitos, e concluíra que nada, absolutamente nada de irracional existe no conceito de Encarnação.

Em certo sentido podemos dizer que o Catolicismo é genial justamente por ter reunido em si mesmo os dois aspectos mais nobres e elevados do judaísmo antigo (Bem como da Filosofia antiga) e do paganismo antigo - O monoteísmo e a Encarnação. Síntese brilhante por meio da qual o monoteísmo desprendendo-se do veneno da transcendência absoluta vincula-se mais ainda a Imanência, conciliando-se com ela. 

Abandonou assim o grande erro do paganismo que era o politeísmo, bem como o grande erro dos hebreus, muçulmanos (semitas em geral) e neo platônicos, a saber, a transcendência absoluta, a qual como vimos implica, necessariamente, separação e localização.

Portanto não fica sendo absurdo ou estúpido o Cristianismo por afirmar que o Uno se fez carne, assumindo a condição dos mortais com o nobre objetivo de beneficia-los?

Particularmente quando formulada por um neo pagão a acusação tem sabor de incoerência.

Na medida em que extasia-se com a ideia de deuses assumindo formas humanas (Assim Zeus tomando a forma de Anfiction com o objetivo de seduzir Alcmena , Atena assumindo a fora de Deífobos, Apolo manifestando-se como o pastor Adureto - 'Eis que descendo a terra apascentei os bois de meu hospedeiro e salvei sua casa da destruição.') e baixando a este mundo com o objetivo bem menos nobre de flertar... Por que sorris diante do Cristo, mas não diante de Apolo ou Hermes??? Que há de ridículo em Jesus que não fique ridículo, ou antes, que fique bonito neles??? E no entanto eles se manifestam como homens para namorar enquanto o Deus Único e verdadeiro manifestou-se entre os homens para mostra-se solidário e mostrar seu amor para com eles!

Assim tanto amou Deus o mundo que dignou-se vir a seu encontro para educa-lo, cura-lo e beneficia-lo espiritual, ética e socialmente.

E no entanto você continua a rir-se quando alegamos que pelo poder Supremo uma Virgem pode conceber e dar luz a seu Criador, de modo a fornecer aos mortais um sinal segundo de sua presença.

Considere porém que a Mitologia assim apresenta a concepção de Áries: A despeito de Zeus ter gerado por si mesmo uma filha, a saber a Virgem Atenas, pensamento seu; a senhora Hera desejando também conceber um filho sem a participação do esposo, engalanou-se e foi consultar o oráculo - Observem que a deusa vem a terra, pedir conselho a um oráculo! - o qual orienta-a do seguinte modo: Após teres adentrado no bosque encontrarás uma linda flor, dourada e desabrochada, assim que a encontrares, sem perda de tempo, senta sobre ela. Tendo feito tudo quanto o oráculo determinará, assim que Hera pôs-se de pé, deu com o menino - Áries - vagindo sobre a flor.

Acreditais além disto ou ao menos não considerais estranho, que Dionísio tenha sido gerado por três meses na panturrilha ou batata da perna de Zeus, seu pai; a qual por isso mesmo passou a chamar-se 'barriga' da perna.

Eis outra narrativa bastante esquisita, não a do Evangelho, afinal nosso Jesus não foi gerado numa panturrilha...

Pois caso Deus existe e seja Onipotente, que desatino há em fazer com que uma Virgem conceba e dê a luz a si mesmo??? Do contrário, não sendo Onipotente, não é Deus.

Tornemos no entanto a esses deuses, os imortais do Olimpo, aos quais inclina-se parte da humanidade atual. E perguntemos aos neo pagãos e simpatizantes como podem ser eternos e ter corpos materiais iguais aos nossos uma vez que nossos corpos materiais são resultados de um lento processo evolutivo peculiar a este planeta??? Teriam todos eles se encarnado??? Não é o que diz a mitologia? Então o que? Teriam corpos materiais e humanos desde toda eternidade??? Veja só ao absurdo que chegamos!

Absurdo dos absurdos pois sequer podemos afirmar que fossem dotados de corpos perfeitos uma vez que Deméter é descrita como sendo provida de quatro olhos, dois no lugar ordinário e mais outros dois acima deles, junto a fronte, além de dois chifres. E narra a mesma mitografia que Rea, sua mãe, assustou-se de tal modo que não queria amamenta-la. Já Árion, filho incestuoso de Deméter Poseidon não passava de um cavalo, isto mesmo de um cavalo - Assim homens ao menos geram homens, mas os deuses pagãos geravam cavalos! Enfim o neto de Deméter, Zagreus; também é dado a luz em posse de um par de chifres.

Agora contemplem este Hefaistos, filho de Zeus Hera o qual teria nascido coxo e com os olhos saltados, a ponto de ser lançado por sua própria genitora, Olimpo abaixo - Aos gritos de: Eis um monstro! - vindo a quebrar as costelas e ficar corcunda! Um deus coxo, corcunda e com os olhos saltados; mas onde esta a beleza disto???

Ousaras dizer-me que este ser disforme ao menos era dotado de uma alma - Se é que deuses tenham alma... - nobre, excelente, impassível e perfeita? Mas que! Vede como lamenta-se o 'deus': Por ser coxo, Afrodite, filha de Zeus, sempre me despreza e ama o horroroso Áries. 

Diante de tais narrativas quem não percebe que Evemeros estava coberto de razão quando declarou que os celícolas do paganismo antigo não passavam de homens e mulheres, reis e rainhas, príncipes e princesas deificados após suas mortes??? Os quais por isso mesmo eram dotados de corpos como os nossos, e não seres de natureza espirituais como os gênios e anjos imaginados pelos persas e semitas...

Acaso nosso Clemente não foi capaz de indicar onde se encontravam as zoanas ou sepulturas dos principais deuses? Indicando que não haviam passado de mortais poderosos?

Não se encarnaram no tempo e no espaço a semelhança de nosso Jesus, e tinham corpos materiais! Ou eram corpos... Acaso tinham alma ou espírito vivo como nós? Ainda aqui a mitologia não nos esclarece. Além de múltiplos limitados pela condição física ou material e portanto mais limitados ainda! Tais os deuses do paganismo antigo! Os quais com pouca habilidade podiam atuar fora do corpo, pelo simples fato de aparentemente não possuírem uma dimensão espiritual ou uma simples alma???

Eis porque, mesmo sendo 'deuses' temeram a investida dos Titãs! Tiveram medo porque tinham corpos que podiam ser torturados! Mas eram imortais, e sempre jovens, e sempre saudáveis, e poderosos não??? Então por que raios temiam a seus tios e primos os deuses antigos, os ctonianos? Porque sabiam - e é a mitologia mesma quem o diz - que o patriarca Uranos após ter sido deposto por seu filho Cronos havia sido castrado e supliciado por ele... Porque sabiam que o próprio Cronos antes de ter sido destronado e enviado a Itália - segundo S Aristides de Atenas teria sido remetido ao Tártaro ou inferno dos gregos - por seu filho mais jovem, Zeus; havia recebido uns bons golpes e levado uma boa sova da parte dele!

Observai a guerra de Troia e vede os magníficos deuses - assim Atenas, a Virgem; assim Afrodite, assim Hera, assim Apolo, assim Áries; o deus da guerra! - no campo de batalha sendo golpeados e atingidos pelos heróis! Pelo simples fato de terem corpos vulneráveis, do que resulta o temor!

Acaso não exclamou a deusa do amor: "Eis-me ferida pelo filho de Tideu, Diomedes; o soberbo!"??? E o senhor da guerra: "Eis-me a pele marcada por Diomedes... pois lá ia eu, o furioso, quando Diomedes ergueu sua lança... e fica o destruidor dos mortais tingido de rubro sangue..." Enquanto Apolo teme Aquiles e dele foge...

Agora dizei-me e respondei-me como pode um temer se é todo poderoso e perfeito??? Não, não eram ou não são TODO poderosos - porque existem outros tantos rivais poderosos! - e perfeitos... Neste caso como podem ser divinos??? Acaso não deve ser a divindade excelsa Toda poderosa e absolutamente perfeita???

Em tudo não passam de homens, apenas de homens que em tese - controversa! - não adoecem, envelhecem ou morrem; além de possuírem certos poderes. E controversa porque Asclépios o deus salutífero é dado como tendo sido morto, alias fulminado, pelo próprio avô, Zeus; isto por ter ousado desobedece-lo e curado um de seus desafetos, a saber o filho de Tíndaro.

"O Pai dos deuses e homens SE IRRITOU, e acertando-o do Olimpo com o raio fuliginoso, matou o letoida."

"Assim tendo sucumbido a avareza foi pilhado pelo filho de Cronos, o qual disparando com as mãos suas, arrebatou-lhe do peio o alento e com o ardente raio feriu o insensato."

E este avarento e insensato fulminado pelo próprio avô, é deus!

Temos além disto Apolo 'seu pai, exercendo o ofício de adivinho - Mas como precisava adivinhas se sendo Deus deveria saber todas as coisas? - e Dionísio, o bêbado; sendo obrigado a refugiar-se nos confins das Índias...

O próprio Dionísio por sinal, teria sido morto e devorado pelos Titãs após ter assumido a forma de um touro e buscado fugir. Pois antes de ter sido Dionísio fora Zagreus.

Já Hermes busca ajudar o espião Dólon evidenciando que não era onisciente e que nada sabia a respeito do próprio presente ou do que se passava entre os troianos.  

Diante de tais narrativas como deixar de exclamar - Quanta miséria!

Digo-o porque além de apresentarem os habitantes do Olimpo como temerosos face aos titãs e heróis, mortais, abjetos e limitados, os mitógrafos no-los apresentam como sujeitos ao destino, tendo suas próprias ações traçadas por ele. Do que resulta ser o destino um poder superior aos deuses e os deuses inferiores ao destino, e o destino ser o verdadeiro deus dos antigos...

Assim o pobre Zeus tem de contentar-se com transformar este desgraçado em estrela, aquela em fonte, este em golfinho e assim por diante por não ser capaz de interferir e mudar-lhes o trágico destino!

Claro que nosso Bom Deus também não interfere. Não porém porque lhe falte poder para tanto e sim porque declinou de interferir por ter submetido este universo ao rígido controle das leis que ele mesmo concebeu. Nosso Deus é 'escravo' da perfeição que contém em si enquanto norma e regra de si mesmo e não submisso a um poder externo e superior a si!

Zeus no entanto assim se expressa após a morte de Sarpedon: "Ai de mim! Pois quanto a Sarpedon, o mais querido dos homens, foi decretado PELO DESTINO que seja ferido por Pátroclo, filho de Menéceu." E o poeta: Eis que perece Sarpedon, filho do grande Zeus e nem mesmo este é capaz de socorre-lo - Limitando-se a homenagea-lo com uma chuva de sangue!

Afinal que onipotência é esta meus senhores? Se aquele que brande o raio e fulmina não é senhor de si! Tendo sua existência traçada por instância superior - O destino! Quanta miséria!

Eis um simulacro de divindade subordinado a um processo impessoal de caráter fatalista!

Que dizer então sobre a Afordite a qual face a sorte de Heitor limitou-se a murmurar: "Quanta dor. Eis que com meus olhos contemplo meu querido correndo em torno das sagradas muralhas de Ílion e meu coração se enche de angústia."???

Outra que andava como louca, chorando e vagando pelos campos em busca da filha Perséfone (Logo ignorando supinamente onde a mesma se encontrava!) era Demeter. Quanto a Persefone, mesmo sendo deusa não fora capaz de defender a si mesma, sendo raptada pelo primo Hades, com quem a contragosto teve de se casar.

Já o 'divino' Febo Apolo lamenta ter servido a mesa de Admeto - Oh palácios de Admeto, em que tive de aceitar e suportar o ofício de copeiro sendo deus!

Tais os deuses da Mitologia.

São dignos de existência?

São verdadeiramente divinos?

Nem infinitos, nem ilimitados, nem incorpóreos (ao menos em parte), nem eternos, nem onipotentes, nem sábios, nem absolutamente perfeitos, etc

Tudo literariamente majestoso mas indigno de Deus.

Tudo muito limitado, finito, material, temporal, imperfeito; logo humano demasiado humano.

Que acontece agora caso arrastemos os mesmos olímpicos ao tribunal da Ética!

Possuem os deuses gregos perfeição moral???

Ainda aqui são primos de javé e alla, podendo fazer o mal, pecar e cometer quaisquer crimes.

São entidades que enganam, dissimulam, prestam falso juramento, cometem injustiça, traem, roubam, assassinam, praticam crueldade - até o sadismo! - fazem-se caprichosas e despóticas, corrompem e são corrompidas, etc

Tais os deuses magníficos e não há dispositivo da lei da consciência que eles não violem descaradamente!

Santidade e pureza é coisa que não há nesta família!

Vemos assim que Afrodite, Áries Zeus adulteram, que Zeus além de ter cometido incesto com Hera também cometeu incesto com Deméter, que Hefaistos exerce pedofilia ou digamos o ofício 'sedução', que Poseidon tornou-se incestuoso com a tia Afrodite e com a irmã Deméter, que Apolo mente, que Hermes Áries roubam - o primeiro tornou-se padroeiro dos ladrões - que Hera 'Cuja cólera enchia o peito' vinga-se, que Atena encoleriza-se e irrita-se contra Zeus seu pai e assassina empregando o sangue da Gorgona. 

Alias só as amantes do 'pai e rei' dos deuses foram um cortejo: Ino, Europa, Danae, Alcmena, Maia, Semele, Leda, Leto, Lâmia, Dione, Antíope, Pasifae, Ganimedes, etc gerando uma hoste de bastardos - Perseu, Heracles, Hermes, Dionísio, Helena, Clientemnestra, Zeto, Anfion, Apolo, Artemis, Castor, Minos, Radamante, Sarpedon...
O mais assombroso no entanto é que Zeus - o pai dos deuses e homens - tenha estuprado sua própria filha Persefone, isto ainda quanto as relações entre pais e filhos constituiam tabu inviolável em praticamente todas as culturas!!! O que não deixa de ser surpreendente!

Dar crédito a mitologia e a 'bela' religião pagã é o universo regido por um incestuoso que violentou a própria filha! Precisa dizer mais alguma coisa?

Não querendo ficar atrás do irmão caçula também Poseidon entregou-se ao desfrute, seduzindo: Ascras, Iphimedeia, Medusa, Chione, Pelope...

Já o harém do valente Áries era composto por: Aglaura, Cirene, Herpina, Otreras, Pirene, Astioque, Betonis Erétria... Dentre outras.

Mesmo o abjeto Hefaistos não teve menos do que sete companheiras: Aglaia, Etna, Cabiro, Gaia, Anticléia e Cinia.

Afrodite além de ter flertado com Áries Poseidon ainda teve por amante a Hermes - de quem gerou Hermafrodito - e a Anquises do qual gerou Enéas amante da bela Dido e fundador de Alba, a grande. 

Artemis ou Diana, após ter sido flagrada ao tomar banho, transformou o pobre Actéion num veado mesmo sabendo que haveria de ser devorado por seus próprios cães. Mesmo sendo deuses e imortal ela não soube compadecer-se do pobre homem mostrando-se sádica e cruel.

Mas o que esperar duma 'deusa' que enviou um javali contra Adonis para mata-lo pelo simples fato de Afrodite - outra divindade não menos cruel - ter matado seu querido Hipolito? E como matou-o? Fazendo com que Fedra ardesse em amores por ele, tirasse a própria vida e incriminasse o justo! Impetrando seu pai, Teseu, ao senhor do Mar, que provocasse um sinistro capaz de mata-lo! Assim assustados por um monstro correm seus cavalos, conduzindo o belo carro, em direção dos penhascos e adeus Hipólito! Tudo porque recusar-se a massagear o ego da deusa do amor.

Assim Afrodite faz perecer o nobre Hipólito e para vingar-se Artemis aniquila Adonis!

Calisto parece ter tido um pouco mais de sorte e ser transformado um urso, após ter emprenhado a celicola enquanto dormia. O fim de tudo foi quase um parricídio por parte do neto divino, Arcas. Zeus no entanto interferiu como pode colocando o pobre urso no céu.  

Chione, amada por Poseidon, Hermes Apolo ocorreu a infeliz ideia de que era mais bela do que Artemis posto que cobiçada por diversos habitantes do Olimpo. Foi o quanto bastou para ter a lingua arrancada e ser morta a flechada pela filha de Leto.

Outra não foi a sorte de Níobe, esposa de Anfião; a qual gabou-se de ser superior a Leto por ter gerado sete filhos e sete filhas. Os quais foram exterminados a frechadas pelos divinos gêmeos... E Níobe convertida em fonte pelo 'poderoso' Zeus...

Já Apolo com o intuito de preservar a virgindade da irmã, envia um escorpião para acabar com o infeliz Orion. 

Quanto a já citada Afrodite não narram os mitógrafos ter levado Hipômenes Atalanta a copularem no templo de Cibele? Com o objetivo de indispor a deusa contra ambos e castiga-los???

Donde se infere que nem mesmo respeito os deuses tinham pelos templos uns dos outros!

Áries teve por filho a Cícino matador de viajantes, o qual fica sendo neto de 'deus'. Mais infeliz do que este foi seu tio, Poseidon o qual teve de enterrar vivos (!!!) os filhos que havia tido de Halia os quais porfiavam  superar uns aos outros em malignidade. Isto para não falarmos em Polifemo, Crisaor, Oto Efialtes igualmente filhos do senhor dos mares, e problemáticos!

Dionísios faz Licurgo ficar louco e assassinar a família a machadadas e as filhas de Penteu trucidarem o próprio pai.

Segundo Ésquilo é Hermes que por meio de truques e estratagemas auxilia Orestes a matar Clientemnestra e consumar o matricídio. É até aqui o que temos de mais ameno...

Contemplemos agora a respeitável matrona Hera, senhora do lar, prestes a assassinar uma criança em seu próprio berço e esta criança é o futuro Herácles. Eis uma 'deusa' infanticida, estranguladora de bebês!

Colérica e vingativa não transformou ela a infeliz Lâmia, rainha da Líbianum monstro espantoso e incapaz de fechar os olhos após ter dado cabo de seus filhos?

Tais os dotes da matrona 'celestial' pintada pela mitologia!

Tomemos agora a Virgem Palas ou Atenas. Será ela distinta de seus familiares, e, consequentemente mesmo vingativa e cruel?

Pudera! Pois também ela transforma a Medusa num monstro apenas por ter alegado ser mais bela do que ela. Mérope é transformada em coruja por ter ridicularizado os olhos glaucos da 'mente de Xeus'.
Ilus é feito cego por ter ousado contemplar o Paládio. E o infeliz Laocoonte mais seus dois filhos estrangulados por suas gigantescas serpentes enviadas por ela... Isto sem falarmos na primeira aranha Aracne, punida por sua ingratidão. Ainda aqui não temos nada semelhante ao mortal que proferiu esta memoráveis palavras: Perdoai setenta vezes sete vezes. 

O próprio Zeus, e é vexatório dize-lo, vez por outra, espancava a mulher Hera. Temos assim um deus machista e espancador de mulheres, simplesmente infame. Já o nosso Jesus desafia as leis de seu povo tratando as mulheres com amabilidade e delicadeza assim a Marta, Maria, a mulher da fonte, a Joana, e a tantas outras. Considerável diferença!

Hefaistos arrenegou a própria mãe - Pagando-lhe mal com mal, enquanto nosso Jesus disse aos homens para pagarem o mal com o bem - e prendeu-a num trono dourado. E somente após ter sido embriagado por Dionísio é que concordou em liberta-la.

Hermes foi quem concedeu a Pandora o dom da mentira e do fingimento.

Eis a sagrada família do politeísmo: Insensíveis, caprichosos, coléricos, vingativos, agressivos, assassinos, cruéis, adúlteros, incestuosos, mentirosos, intemperantes; enfim repositórios de todos os vícios e defeitos que toram os homens desagradáveis.

Neste caso como admitir que tais narrativas sejam dignas de crédito ou que tais seres existam de fato?

Acaso não bastariam tais entidades para converter nossos sonhos em pesadelos?

Logo, em que sua inexistência prejudica a realidade?

E eu sequer mencionei os monstros - os filhos de Forco - em última análise descendentes de Gaia, a terra, logo divinos! Assim a Hidra, Quimera, Cérbero, Cila... Mas que deuses são estes notáveis pela feiura de alma e de corpo e absolutamente asquerosos???

Encerro esta exposição considerando que nem mesmo como criaturas tais entidades mereceriam existir. Quanto mais como 'deuses' em lugar do verdadeiro Deus, magnânimo, filantropo, benfeitor, generoso, amigo e amante dos homens.

Se isto é tudo quanto o neo paganismo tem a opôr ao Cristianismo tudo quanto tenho a dizer a tais pessoas é que tornem a Xenófanes, Parmenides, Anaxágoras, Apolônio, Sócrates, Platão, Aristóteles, Crisipo, Cleantes, etc considerando tudo quanto estes homens excelentes disseram a respeito da mitologia considerada como religião ou realidade.

Certamente há muita coisa de bela e edificante, de tocante e elevado, de majestoso e de divino na mitologia grega. Assim a narrativa de Castor Pólux, a de Alcione, a de Antiope... Como há muita coisa poética no mais alto grau, assim o ciclo edipiano, o ciclo orestiano, etc Percebam no entanto que quase tudo quanto torna a mitologia fascinante provém dos mortais oprimidos pelos deuses olímpicos e não dos deuses, e que a parte menos nobre da mitologia grega diz respeito a justamente a 'teologia'. Reflitam sobre isto e considerem se substituir as fábulas imbecis dos antigos judeus pela teologia pagã não equivale a trocar seis por meia dúzia...

quinta-feira, 4 de maio de 2017

O Svidrigailoff de crime e castigo


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Torquemada e João Calvino, ambos os dois, correspondem ao tipo ascético, que desconfia dos prazeres, alegrias e divertimentos comuns a esta nossa vida. Vida que para eles sabe a morte...

Da existência enxergam apenas a cruz. Sem perceber que uma boa dose de vinho com mirra é necessário para suporta-lhe o peso...

Coisa curiosa de ser ver. Como o asceta e capaz de tornar-se desumano e cruel, e consequentemente de cometer a maiores vilanias, como matar, torturar e oprimir em nome de Cristo, de Deus e da fé...

Na mesma medida em que torturam a si mesmo tornam-se insensíveis a sofrimento alheio e perfeitamente capazes de torturar os demais em nome de Jesus ou da religião...

Talvez por puro e simples amargor seja levado a assassinar e fazer sofrer.

Talvez porque a alegria experimentada pelo outro incomode-o ainda mais do que a auto privação. Quem sabe?

Só sei que o mesmo homem que prostrado ao chão vive mais de jejum do que de qualquer outra coisa, é bem capaz de esfolar o adversário até a morte ou de abrir-lhe o ventre e queimar-lhe as tripas sem soltar um suspiro ou derramar uma única lágrima.

O asceta é capaz de matar e de torturar em nome de Deus acreditando exercer uma ação sagrada. Acredita ser uma espécie de soldado ou miliciano a divindade. Talvez acredite, em sua ingenuidade, ser capaz de defender aquele que adora...

Tendo eliminado seus sentimentos e substituído o coração por um pedaço de pedra será um psicopata?

Quem saberá ou poderá dize-lo?

Intolerante consigo mesmo segundo as exigências da virtude, torna-se muito facilmente intolerante face aos outros desvirtuando a fé que o anima.

O mesmo mistério que o faz verter as mais sinceras e doridas lágrimas aos pés do divino crucificado, impede-o de chorar por uma criança acusada de 'blasfemar' contra seus pais, ou contra um idoso suspeito de heresia...

As feridas e chagas de um pecador ou herético conduzem-no ao paroxismo do ódio.

Que é a fome, a nudez, a miséria ou a enfermidade para ele em comparação com o pecado ou a heresia?

O que voluntariamente assume até o heroísmo não pode atinar que imposto pela natureza constitua peso para os demais...

E seu sadismo chega a ponto de não compreender que o sofrimento cause sofrimento aos outros, ao invés de delicia-los.

O asceta não pode encarar todos os demais homens ou todos os cristãos senão como ascetas e amantes do sofrimento. Não pode compreender como alguém possa fugir a determinadas situações de sofrimentos, mesmo quando lhe é dado ler no livro santo: Assim fugi de cidade em cidade...

Para ele furtar-se ao sofrimento já é, em si mesmo, um gravíssimo pecado.

O sofrimento deve ser amado e buscado com sofreguidão...

E este homem jamais busca ou buscará remover os sofrimentos do mundo ou transformar este mundo num lugar melhor.

A simples ideia ou pensamento de que o ato gerativo comporte certa medida de deleite ou prazer a que chamamos orgasmo transtorna a mente deste homem devoto.

E ele não pode encarar a sexualidade humana como algo natural ou decente.

Tanto os sentidos quanto o corpo físico se lhe apresentam como obstáculos reais a salvação. Sendo mais aconselhável e seguro nega-los. Pelo que chegamos ao maniqueismo ou ao puritanismo... Ideologias segundo as quais a dimensão sexual do ser humano é sempre suspeita ou menosprezada.

O asceta rebela-se contra tudo quanto seja humano e vital; assim contra a alimentação, a comida, a bebida; mas sobretudo quanto o orgasmo. Aquelas devem ser limitadas ao mínimo possível e este negado... O que só é exequível caso o corpo seja torturado ou sofra.

É necessário torturar o próprio corpo por meio de exercícios ascéticos tendo em vista mante-lo submisso e até onde é possível alheio as necessidades mais básicas, como comida, bebida e orgasmo.

Evidentemente que todo este esforço colossal fazem deste homem um neurótico e infeliz. Triunfa de suas necessidades básicas mas a que preço? A que custo? Ficando sua mente destroçada e sua personalidade destruída.

Eis porque a simples visão da felicidade alheia basta para exaspera-lo.

Este homem morigerado cuja carne de aço e o coração de pedra sente-se vivamente incomodado pela contemplação daqueles que vivem segundo a natureza, demandando alegria e contentamento.

Este homem heroico e atilado não pode suportar a simples ideia de que hajam pessoas de bem com esta vida...

Quer que todos sofram, voluntariamente, ou...

E tem disposição, céus eternos, não a torna-las felizes, mas a faze-las sofrer como ele mesmo sofre. Sem compreender - Ele jamais compreenderá isto - que o sofrimento só possuí algum valor quando livremente assumido, jamais quando imposto pela natureza ou por qualquer outra situação.

Coisa monstruosa e tremenda; o asceta fazendo a volta do parafuso, chega a acalentar um sentido ou sentimento visceralmente anti cristão e anti humano.

O ascetismo desvinculado do amor não poucas vezes assume caráter de puro sadismo. Perde o foco e degenera...

Daí os Torquemadas e Calvinos sempre dispostos a queimar pessoas (!!!) tendo em vista seus pecadilhos sexuais.

Perceba o leitor que eles acreditam ser lícito torturar e cometer assassinato com o objetivo de penalizar os pecados da carne...

E no entanto, a própria lei divina, classifica o assassinato como constituindo o pecado mais grave. Então como é possível punir um pecado mais leve por meio de um pecado mais grave???

Apelando a devassidão alheia eles justificam o supremo pecado, do morticínio. E violam sem maiores cerimônias a lei que julgam honrar...

Evidentemente que eles consideram os pecados sexuais mais graves do que o pecado contra a vida ou o assassinato...

E no entanto, quanta miséria, até mesmo a lei carnal dos antigos judeus condena em primeiro lugar o assassinato.

Curiosa a mentalidade da profanação. Homem algum jamais pretendeu honrar a Deus por meio de seus 'pecadilhos' sexuais, os ascetas e juízes no entanto, acreditam ser possível honrar aquele que decretou: 'Não mataras' matando em seu nome...

É a propósito de tudo isto que vem Svidrigailoff. 
Raskolnikoff e Dounia dedicam-lhe o mais vivo horror pelo simples fato de ser femeeiro ou promíscuo; buscando enredar as mocinhas indefesas em seu laço e desgraça-las.

Acusaram-no de ter assassinado Marfa Petrovna. Sem que no entanto haja qualquer prova neste sentido.

Alias tendo-se endividado e ameaçado pelo credor, foi, por assim dizer 'comprado' por Marfa Petrovna. A qual certamente jamais viera a amar.

Alias a própria Marfa sabendo-se mais velha e conhecendo os ardores do moço, autorizara-o a andar com as camponesas. As quais certamente não podia encarar como ameaçadoras... e a cuja honra ligava muito pouca dignidade.

O homem é isto, devasso, luxurioso, promiscuo, mas... de modo algum hipócrita. Alias é o primeiro a denunciar-se. Não tem a si mesmo em conta demasiado elevada. Sabe que leva vida escandalosa e assume esta vida ao invés de oculta-la, Viciado e vicioso o homem não tenta justificar-se.

Por fim este homem vem a travar conhecimento com a 'virtude', representada por Dounia. A qual além de chama-lo a correção mostra-se intransigente face a suas insinuações e propostas.

Tal a virtude é bela e sedutora. Vindo este homem devasso e promíscuo a amar a irmã de Raskolnikoff. Dirá o leitor que é amor de interesse ou paixão, fogo de palha ou qualquer coisa parecida. Já o veremos...

O fato é que a professorinha provinciana não sai de sua cabeça.

E viúvo parte em seu encalço com destino a S Petersburgo.

Agora que pretende este homem devasso?

Uma aventura, uma noite de amor, um caso, mais um orgasmo ou qualquer outra coisa?

Haverá um sentido de vida nisto aqui? Sim, pois este homem encarado com horror por Dounia e Raskolnikoff é devasso declarado.

Pode portanto haver ou surgir algo de bom em seu coração?

A pergunta é pertinente porque segundo o tribunal dos maniqueus e puritanos este homem é réu do pecado mais abominável e sujo que se pode conceber, a ponto de nada existir de bom ou digno nele.

Veja o caso já citado de Sonia. Basta que tenha vendido seu corpo ou se prostituído para ficar sendo uma perdida, imunda, suja e indigna... A ponto de pessoa alguma, além do 'afetado' Raskolnikoff enxergar algo de bom nela.

Os demais oprimem seus empregados, praticam agiotagem, mentem, convivem lado a lado com a mais extrema miséria, seviciam animais... Sem que apesar disto inspirem repugnância aos bons Cristãos... Como inda hoje a miséria, a fome, a guerra, a injustiça e outros pecados são encarados com suma complacência ou seja como coisa trivial ou comum.

Apenas os 'pecados' sexuais despertam indignação nas pessoas...

É todo um sentido maniqueista ou puritano socialmente compartilhado.

Tudo é permitido exceto os pecados do sexo.

Pelo que Svidrigaliloff fica sendo um pária ou um verme isento de qualquer qualidade ou virtude. Aos olhos do tempo converte-se em alguém essencialmente mau...

E no entanto podendo ter estuprado Dunia este execrável homem permite que a moça se vá embora e escape a suas mãos.

É, como dizem, um devasso, homem desprezível, vil, torpe e hediondo. E no entanto, ao tornar-se consciente de que não era correspondido por aquela que viera a amar e não ousando viola-la, ao invés de ir buscar consolo noutros braços ou num copo de vodka, este homem, esmagado pela desilusão amorosa, põem fim a vida estourando os miolos!

Eis o drama! Este homem, considerado torpe e pervertido, após abster-se de estuprar e bem podendo afogar as magoas num copo de vinho ou nos braços de uma prostituta opta por sair da vida pela porta dos fundos.

É o quanto nos basta para divisar algo de bom nas entranhas de sua alma.

Afinal quantos homens honestos, virtuosos, controlados, morigerados, etc não teriam violado a pobre moça ou qualquer outra por simples crueldade ou vaidade após um saque feito a cidade após uma guerra? Acaso todo os estupradores que se aproveitaram dos saques e guerras no passado eram promíscuos ou devassos??? Temo que não... Há muita maldade oculta por trás da boa aparência, como também há bondade oculta por trás da maldade atribuída pelas homens!

Direi mais e irei ainda mais além.

Quantos homens virtuosos, morigerados e ascéticos tem se mostrado insensíveis face aos clamores dos órfãos, do estrangeiro e da viúva? Mostrando-se incapazes para exercer mínimo ato de caridade, como oferecer um copo d água ou uma códea de pão a quem tenha sede ou fome???

Quantos desses 'santos' segundo as aparências ou desses heróis aplaudidos pelo mundo tem se mostrado insensíveis face aos apelos do Mestre: Tive fome e me destes de comer, tive sede...????

Quantos destes respeitáveis varões não tem sabido ou tem se recusado a servir e amar?

O odiado Svidrigailoff no entanto - Homem corrupto, asqueroso, devasso e pervertido devido a sua incontinência sexual - lega milhares de rublos a três miseráveis órfãos (Os quais do contrário estariam condenados a vegetar pelas ruas da grande cidade), a sua irmã e tutora - Prostituta - e mesmo a seu desafeto Raskolnikoff. Até a um quase inimigo ou inimigo, soube este homem, dissoluto fazer bem.

Dirá o leitor benevolente que não foi por amor as crianças que o homem realizou a citada dotação, e que esperava obter alguma vantagem ou benefício em troca. Mas que vantagem ou benefício poderia obter 'a posteriori' se tinha em mira por fim a própria vida??? Direis que Svidrigailoff teve em mira obter uma boa reputação para sua memória! E no entanto não me parece que tenha feito alarde em torno da dotação concedida...

Muito há que se pensar sobre a referida personagem.

A primeira imagem que me vem a cabeça é a desses beberrões, comilões e devassos sempre disponíveis a identificar-se com o outro e a favorece-lo. A do 'pecador', como dizem, sensível... Em oposição ao 'santo' ou virtuoso insensível, indisponível e que não aprendeu a amar e servir; quando não chega mesmo a ser desumano e cruel, odiando e cometendo crimes em nome de Cristo.

Pensei naqueles que afetam ortodoxia e ascetismo ou heroísmo; sem no entanto chegar a imitação de Cristo... e convivendo, muito folgadamente com a fome, a sede, a nudez, a miséria, a ignorância, a injustiça, etc E naqueles que mostrando certa fraqueza pessoal, assimilaram, a luz do Evangelho a sensibilidade do espírito de Cristo, sabendo-se obrigados a socorrer os desamparados pela sorte e a mitigar seus sofrimentos.

Assim o doutor da lei e levita que passam a largo do homem ferido a beira do caminho e o samaritano - Odiado, proscrito, vicioso... - bondoso, que soube identificar-se com o outro...

Buscando dito ou citação com que arrematar esta reflexão, topei com este:

"Porque a caridade apaga a multidão dos pecados."







sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Objetividade ética - Critério humanista

Para mim humanismo não é mera questão de opinião ou ponto de vista, mas de objetividade essencial.

Justamente por não 'admitirmos' a objetividade essencial das coisas somos absolutamente levianos, acomodados, descompromissados, insensíveis.

Graças a essa brincadeira de muito mau gosto alimentada pelo ethos burguês chegamos a duvidar da existência do ser e consequentemente da existência da pobreza, da injustiça, da miséria, da opressão, da dor e do sofrimento alheio, como o qual nos acostumamos a conviver folgadamente. Não nos empenhamos efetivamente na construção de um mundo melhor, mais justo, humano e fraterno pelo simples fato de crer que tudo não passa de aparência ou ilusão.

Para quem vive bem é fácil crer que a experiencialidade da vida alheia, da vida real e vivida, seja ilusória ou aparente.

Quem sofre sofre e por isso não esta interessado no númeno ou na coisa em si imaginada pelos filósofos de gabinete, geralmente bem vestidos e alimentados.

Ser cético face a dor alheia não é ser pensador ou filósofo. Me perdoem é ser cruel, canalha ou psicopata.

O grito de angústia do outro me faz perceber seu sentimento como real.

Chagas purulentas, farrapos, comida podre, palafitas, pontes de madeira, lama podre... é inferno real sobre a terra e sou chamado a posicionar-me face a ele ao invés de ficar diletando...

Para mim a negação do mundo implicará sempre na aceitação do mundo tal qual é e portanto em colaboração e servilismo. Aceito a realidade do mundo para empenhar-me em transforma-la.

Foi da imoderação dos céticos que partiu a negação da Ética e da negação da Ética ou do cientificismo comteano todas as culturas de morte que assombram o Ocidente. E o ceticismo com seu utilitarismo, com seu pragmatismo, com seu emotivismo e sobretudo com o relativismo crasso não lhes opôs resistência alguma. Deixou-nos indefesos face ao liberalismo crasso, o fascismo, os militarismos, o nazismo, o comunismo, etc Batemos de porta e porta pedindo ajuda a essas ideologias necrosadas e não achamos resposta alguma, apenas opressão e sórdida opressão e esmagamento do homem!

O ceticismo metafisico lanço-nos neste báratro de estruturas econômicas ou sociais e nos perdemos por completo e chegamos a negação do outro. Negamos o outro pelo dinheiro, pela raça, pela pátria, pelo partido, pela categoria, pelo gênero... Rotulamos, etiquetamos, desumanizamos...

Tudo porque lá atrás, lá no passado, algum gênio do mal ou ídolo podre declarou que nossa ética sendo meramente subjetiva, relativa e irracional não possuía qualquer padrão ou critério satisfatório.

Objetiva era apenas e tão somente a ciência material e empírica, filha das provetas e tubos dos laboratórios.

Como a Ética não fraciona, não conta, não mede, não pesa, não prevê... passou a ser identificada com os costumes ou preconceitos legados pelo passado remoto ou como resíduo transmitido a estes tempos áureos de par com as superstições mais degradantes...

No entanto era necessário substituir a Ética por alguma coisa. A princípio escolheram a 'deusa' razão. Mas o racionalismo de Voltaire, Rousseau, Diderot, Maine du Biran, Jouffroy, Damiron, Cousin, Renan, etc continuava remetendo os homens a um Ser Supremo e Legislador Eterno. Derribaram-na e entronizaram em seu lugar a ciência, e em seguida o capital, a pátria, a raça, o partido, etc E um deus foi derrubando e devorando seu predecessor... Alguns deuses apenas definharam, outros ressuscitaram quase que miraculosamente; e chegamos a esta luta inglória entre 'pés de barro' que consome as energias do mundo ocidental enquanto o abutre do islã permanece a espreita. A espreita duma civilização, que a semelhança do antigo Império romano, fragiliza-se dia após dia...

Quando encaro a infeliz Europa infeccionada pelos germes cadavéricos do ceticismo, do relativismo, do subjetivismo e das culturas de morte, ocorre-me a imagem horrenda do menino etíope, esquelético, observado pelo abutre faminto.

E ai esta o abutre... Lá em Paris o islamismo, aqui o pentecostalismo, nos EUA o Belt Bible...

Talvez a única liberdade que tenhamos seja a de escolher o monstro porque seremos devorados.

No entanto como ainda não morremos, não demos o último suspiro, não soltamos a respiração, não fomos devorados, temos ainda esperança.

No vestíbulo ainda do inferno de Dante resta-nos ainda um pingo de esperança.

E acreditamos que o cidadão ocidental, superando os preconceitos americanistas e pós modernos (que são o câncer desta civilização moribunda), será cada vez mais de contemplar seu passado, seja ele medieval ou clássico, e reencontrar-se nele ao descobrir as fontes e o sentido de sua cultura original.

Nestes tempos há quem aposte em Marx, em Mises, em Rootbarth, em Stirner, em Lutero, em Calvino, em Nietzsche, em Durkeim, em Dawkins, em Trump... Nós esperamos decididamente em dois derrotados: Num envenenado e num fugitivo ou seja em Sócrates e em Aristóteles, aos quais bem poderíamos adicionar um revolucionário e contestador supliciado nos confins da Judeia. São nossas fontes de inspiração juntamente com o já citado Marx, Weber, Darwin e especialmente Mestre Freud.
A eles: Sócrates e Jesus é que tomamos nosso critério ou padrão de Ética: O homem, sua vida, sua dignidade e sua liberdade.

Pois quando discursamos sobre este homem discursamos sobre nós mesmos lançados que fomos na mesma condição.

Todos conhecemos de perto a dor e a aborrecemos. Todos conhecemos por experiência o prazer e o desejamos, embora não sob a mesma forma!

O problema aqui não é a busca pelo prazer ou a fuga face a dor.

O problema é o outro.

O outro e nossa busca pelo prazer. O outro e nossa fuga face ao sofrimento.

Podemos sacrificar o outro, que é semelhante a nós, tendo em vista a aquisição do prazer ou a eliminação da dor?

Podemos usar o outro para adquirir o prazer ou suavizar a dor?

Podemos por de lado o elemento humano e cogitar apenas na dor e no prazer como fenômenos abstratos?

Qual deveria ser nossa intenção, a intenção reta, a intenção pura?

Como identificar-se é reconhecer a semelhança e admitir que também o outro foge a dor e busca o prazer, a reflexão é pertinente.

Na vida vivida em que fomos lançados isoladamente conseguimos muito pouco e sempre temos laços de dependência mútua.

Assim se hoje os outros dependem de nós, amanhã bem poderemos depender deles.

E quase sempre esperamos algo dos outros.

E até calculamos o que devemos fazer para agradar os outros e ser favoravelmente satisfeitos.

Tendemos a confiar na reciprocidade.

É uma tendência natural esperar o melhor do outro, especialmente quando nos adiantamos e beneficia-mo-lo.

Quantas vezes não recebemos nada do que desejamos justamente porque nada demos e fizemos por merecer?

Neste sentido adiantar-se e beneficiar o outro - ao menos desde que não haja dano ou prejuízo para nós - parece ser a atitude ou critério mais sábio.

Pois se tratarmos os outros como desejamos ser por eles tratados e portanto sempre que possível for amável e benignamente, honramos a natureza comum.

Ademais na medida em que nossas atitudes forem sendo imitadas pelos demais e a corrente do bem tornando-se mais densa as chances de sermos nós mesmos beneficiados irão se tornando bem maiores. Trata-se portanto dum princípio que se levado a sério melhorará a vida de todos.

Da mesma forma, se esperamos que não nos façam quaisquer males comecemos abstendo-nos de fazer mal aos outros. De modo que nosso exemplo venha a ser imitado e o mal entre em declínio.

Evidentemente que este padrão de comportamento nos remete a espécie ou gênero humano em termos de solidariedade.

Ao fazer mal a mesma qualidade que esta no outro faço mal a mim. Pois pela razão, a liberdade, a vontade, a percepção, etc estou no outro e sou um com ele. E ao beneficia-lo beneficio a mim mesmo.

Assim nosso padrão ou critério será o homem ou melhor ainda a humanidade, a espécie humana; e tudo quando a favorece.

Agora quais os bens mais caros e preciosos ao homem?

Antes e tudo a vida! Condição primária para que tenhamos acesso a todos os outros bens oferecidos pelo universo. Não há como ter acesso ao prazer sem estar vivo.

Assim a Ética da pessoa valorizará antes de tudo a vida, e se oporá decididamente a morte, assim ao assassinato e assim a pena capital (embora aqui possam ser feitas algumas exceções).

No entanto esta vida deve valer a pena. Devendo ser digna para ser prazerosa.

E por dignidade devemos considerar antes de tudo a ausência de dor.

Sob pretexto algum seria lícito fazer o outro sofrer, assim profanar-lhe o corpo, mutilar seus membros e tortura-lo. É crime dos mais perversos e abomináveis digno apenas de psicopatas e povos bárbaros.

A integridade do corpo, seguem-se em matéria de dignidade humana a saúde, a alimentação, a vestimenta, a habitação e o lazer.

Abster-se-a o homem virtuoso de comprometer direta ou indiretamente a saúde, a alimentação, a habitação e o ócio alheios. Jamais poderá subtrair remédios, comida, bebida, roupa, brinquedos, etc aqueles que os tenham adquirido honestamente e deles façam uso.

Agora como tais bens costumam ser adquiridos pelo próprio sujeito as custas do valor auferido pelo trabalho que exerce, chegamos a questão da propriedade pessoal. A qual jamais deverá ser confundida com a posse dos meios de produção, esta sempre poderá ser questionada e ter sua legitimidade negada; aquela jamais. A propriedade pessoal é sagrada e inalienável e sua apropriação por particulares ou pelo Estado um crime abominável.

Por propriedade pessoal definimos os proventos obtidos por meio do trabalho. Assim o salário ou estipêndio, bem como todos os objetos ou coisas adquiridos a partir dele. Portanto se um imóvel foi comprado por um trabalhador com as economias advindas de seu trabalho temos propriedade pessoal e portanto intocável. O homem virtuoso jamais ousará apropriar-se de qualquer objeto adquirido as custas do suor alheio, assim não furtará.

Obviamente que isto não toca a questão da herança, do excesso, do acúmulo, etc mas apenas das propriedades e bens adquiridos com o suor do trabalho e USADOS pela família.

Claro que tudo isto nos leva a questão da justiça pessoa e social.

Em termos clássicos definimos a justiça como dar a cada qual aquilo que lhe pertence. Isto apenas é certo, correto e direito.

Aquele que trabalhou e produziu pertence ao menos parte da produção em termos de valor. Como aquele que plantou uma árvore e dela cuidou merece colher os frutos e degusta-los. E aquele que semeou o trigo e por ele velou pertence o direito de ceifa-lo e converte-lo em pão. E aquele que adquiriu a uva e transformou-a em vinho em seu lagar, a felicidade de bebe-lo.

O compromisso do homem com a justiça implica questionar sempre se as pessoas estão tendo acesso aos bens que ajudaram a produzir, e a analisar e a questionar a repartição dos bens.

Há por fim aquela Ética atinente a liberdade humana ou a auto determinação da pessoa e que diz respeito a suas escolhas. Implica admitir que as pessoas possam exercer o ofício que bem quiserem, acreditar no que quiserem (ou não), expressar-se como desejarem e determinar o que haverão de comer, beber, trajar, ouvir e com quem haverão ou se haverão de casar ou com quem haverão de transar... etc, etc, etc.

Como todos desejamos ser livre e determinar nossas vidas é perfeitamente compreensível do ponto de vista racional, que reconheçamos a liberdade alheia. Afinal na mesma medida em que aspirarmos dominar os outros, outros aspirarão dominar-nos. Então o menor é que respeitemos as liberdades uns dos outros numa perspectiva comum. Claro que a dimensão da liberdade tem um limite bastante preciso: A vida, a dignidade alheia e os imperativos da justiça. Grosso modo podemos dizer que a pessoa tudo pode exceto causar dano ou prejuízo ao outro.

Chegamos assim ao supremo critério de ética.

Se o padrão é o outro e aquilo que o outro teme é a dor ou o sofrimento, segue-se que posso fazer absolutamente tudo quanto me der na telha, desde que não atinja ou acometa o outro.

Por este critério temos o fim da moralidade enquanto costume arbitrário e a consagração de uma ética essencialista, humanista e racional.

E temos como saber perfeitamente que a norma: "Não vestireis ao mesmo tempo roupas de lã e linho." em termos de Ética não faz sentido algum pelo simples fato de que a associação dos dois tecidos não prejudica a quem quer que seja.

Dá mesma forma o preceito: "Proibido comer coscorões." torna-se igualmente irrelevante pelo simples fato de não tocar ou atingir a pessoa humana.

Já a recomendação para amar, beneficiar, respeitar e tornar felizes o maior número de seres humanos converte-se em imperativo categórico, num mandamento ou numa necessidade.

Promover o outro em todos os sentidos e sob pretexto algum incomoda-lo. Aqui temos uma regra de ouro.





quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Tópicos de filosofia grega: adiaphoras ou bens naturais?

Uma das questões mais discutidas pelos filósofos gregos e romanos diz respeito a categoria de coisas a que classificaram como adiaphoras ou neutras moralmente falando.

Assim a saúde, a beleza, a riqueza, a fama, e seus opostos a enfermidade, a fealdade, a pobreza e a obscuridade.

Convém no entanto adiantar que se tratam de coisas diferentes; pois enquanto a saúde e a beleza e seus contrários não dependem da livre vontade, a riqueza conquistada e a glória adquirida pertencem a esfera da atividade livre.

Distinguamos portanto, da saúde, da beleza e de seus contrário a riqueza e a glória e seus contrários, reservando o exame destas duas últimas situações para outra ocasião.

Implica saber se saúde e beleza, enfermidade e feiura correspondem a algum tipo de bem, ou se são de fato coisas neutras, i é, adiaphora.

Para tanto convém esclarecer que até mesmo os adeptos da 'adiaphora', como Crisipo de Soli, admitiam que as pessoas comuns ou sem trato filosófico costumavam referir-se a tais condições dadas como a bens.

Não estamos querendo dizer com isto que tais bens possuam 'valoração' moral ou ética derivada da livre vontade. Não escolhemos nascer saudáveis, enfermos, belos ou feios. Tratam-se de condições dadas pela natureza e dela recebidas. Outro é o caso das enfermidades produzidas por qualquer tipo de excesso relacionado com a fruição dos apetites sensíveis. Estas podendo em certa medida ser evitadas podem vir a possuir uma conotação moral.

Por outro lado não é por pertencer a a esfera da natureza que tais 'elementos' deixam de ser bens. Bens naturais, comuns, remotos e condicionais. Naturais devido a seu caráter não volitivo. Comuns porque saúde ou enfermidade, beleza ou feiura correspondem a estados compartilhados por imenso número de pessoas. Remotos porque não pertencem a esfera superior da moral ou da ética e condicionais porque a ausência deles impede ou dificulta o acesso aos bens superiores ou o exercício da vida virtuosa.

Assim a vida ou a existência é bem primário ou primordial na medida em que concede acesso a todos os outros bens, a plena realização das potencialidades, a aquisição da virtude e a perfeição moral. Neste sentido, enquanto condição 'sine qua nom' aos demais bens não pode a vida deixar de ser encarada com um bem. Um bem de categoria ou caráter inferior, no entanto um bem. Em que pese ser mal utilizado por alguns.

Assim os apetites sensíveis são bens na medida em que concorrem para a conservação da vida.

Assim a integridade física dos sentidos também corresponde a um bem na medida em que nos permite entrar em contato com a realidade e conhece-la. Nem podemos deixar de encarar a falta da visão, da audição, do olfato, do paladar ou do tato, como verdadeiros males na medida em que servem de obstáculo a assimilação da realidade. Uma vez que o fim de nossa existência é a aquisição do saber a cegueira e a surdez não podem deixar de serem males por limitarem nosso acesso ao saber e assim a dor quando intensa e constante a ponto de dispersar a concentração dos sentidos e impedir o aprendizado.

Não se tratam de bens em si mesmos ou de bens absolutos; mas de bens na medida em que servem de acesso a outros bens. Assim de bens relativos. Pois sempre se pode fazer mal não apenas da vida e da saúde mas até mesmo dos conhecimentos relativos a natureza. Por isso que o conhecimento é bem relativo na medida em que esta de acordo com a natureza e não absoluto, pelo fato de sempre poder ser usado para causar dano ou prejuízo ao semelhante.

Tampouco podemos descrever a enfermidade ou a fealdade como males absolutos pelo simples fato de não nos poderem induzir a cometer injustiça ou prejudicar nossos semelhantes.

Antes a dor física em algumas situações tem tido o condão de fazer com que alguns homens descartassem a opinião materialista, aproximando-se do Uno e abraçando a virtude. Ora uma dor capaz de tornar o homem reflexivo e consequentemente melhor merece ser classificada como um bem. Porquanto de algum modo dispôs o sujeito ao sumo bem.

Nem podemos negar que qualquer categoria ou tipo capaz de aproximar os homens da perfeição moral, converta-se ela mesma num bem por conexão ou relação com o bem. Tudo quanto serve de acesso ao bem supremo, merece ser considerado bom. Assim as adiaphoras nada tem de neutras ou de inuteis, antes correspondem a algum tipo de bem quanto a ordem da natureza, e ascendem na escala do bem na medida em que aproximam o homem de seu fim mais excelente que é a posse da virtude.





quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Tópicos de Filosofia grega - Ética: a virtude e o prazer; em busca da síntese.

Exposição



Segundo Aristóteles o homem existe para a felicidade: "A felicidade é o bem para que tendem todos os outros atos e o impulso intencional de nossas motivações." .Esta doutrina recebeu o nome de Eudemonismo, pois toma a felicidade por fim.



Ora esta definição comum em nada nos satisfaz uma vez que os próprios hedonistas admitiam ser a Felicidade o bem maior ou a destinação final dos atos humanos. Importa saber o meio porque tal fim era atingido ou aquilo que tornava o homem verdadeiramente feliz.



Aristóteles, aqui seguindo a Platão e a Sócrates, classifica os atos aptos para produzirem a felicidade como VIRTUOSOS. Para Sócrates, Platão, Xenócrates, Aristóteles, etc a felicidade esta diretamente relacionada com a ARETÉ ou virtude.
Consideravam ainda que existiam diversos tipos de virtudes e procuravam organiza-las hierarquicamente. Sócrates e Platão ao que parece colocam a Justiça em primeiro lugar. Já Aristóteles colocava em primeiro lugar a contemplação da verdade pelo intelecto ou a posse do conhecimento. 

Crisipo, Seneca e Epicteto, estoicos, indicaram igualmente que o fim último da criatura racional fosse a posse da felicidade. A qual segundo o fundador da Escola era atingida pela prática da virtude ("O verdadeiro Bem pode consistir apenas na posse da virtude!"), compreendida por eles como qualquer ação empreendida em coerência com a natureza (Cleanto de Assos). Agir naturalmente ou segundo a natureza era para eles, agir virtuosamente. Enfatizavam no entanto a posse da serenidade ou impassibilidade, mesmo diante de situações dolorosas ou trágicas.

Os estoicos não podiam encarar a dor física como mal supremo ou mesmo como mal, mas como adiaphora ou coisa neutra. A respeito da saúde, da beleza, da glória, da riqueza, da doença, da fealdade, da obscuridade e da miséria i é dos bens/males naturais ou transmitidos, costumavam declarar a mesma coisa. Esta proposição foi ao que parece tomada a Platão Espeusipo. Xenócrates parece ter sido o primeiro a classifica-las como bens inferiores ou de segunda classe, isto na medida em que eram virtuosamente administradas em comunicação com os bens superiores.

Crisipo opinava que as pessoas vulgares e hostis a Filosofia tomavam tais dadivas naturais por bens preciosos, acrescentando que o sábio apenas deles se servia com moderação, subordinando-os a uma direção virtuosa ou que não se deixava afetar por eles. 

Os cínicos mantiveram a opinião de Platão ou Sócrates. 

Já os hedonistas sustinham que a felicidade tinha sua causa na fruição do prazer.



Mas não estavam de pleno acordo a respeito de qual gênero ou categoria de prazeres estava posto para a aquisição da felicidade.

Assim Arístipo de Cirene, pupilo de Sócrates, afirmou que a fruição dos apetites carnais ou sensitivos como comida, bebida e atividade sexual constituíam o sentido da vida humana e que a dor, incluindo a dor física, correspondia ao mal supremo. Teodoro de Cirene e Exegias também assumiram este ponto de vista.

Escolasticamente cumpria verificar quais fossem os prazeres mais intensos e duradouros.

Epicuro também afirmou o prazer como sumo bem a ser desejado pelos mortais. No entanto sua ideia de prazer parecer ser bastante afim da ideia aristotélica de Felicidade, de modo geral ele associa este prazer espiritual ou felicidade não apenas com a ausência da aponia ou dor física mas sobretudo com a ataraxia, definida como imperturbabilidade da alma adquirida por meio do auto controle. O sábio estabelecia uma espécie de hierarquia de prazeres, fruindo cada qual deles com certa moderação até que já não podia ser atingido pelas circunstâncias exteriores a si.

A princípio Epicuro parece ter dado bastante valor a saúde corporal, posteriormente no entanto parece ter colocado a amizade acima dela, o que ainda aqui reporta a Sócrates.

Já o estóico Cleanto de Assos parece ter chegado as vias do maniqueísmo, classificando a fruição do prazer como "Oposta a natureza" e "Nociva" 



Desenvolvimento

O primeiro aspecto que nos chama a atenção aqui é a convergência de sentido entre Felicidade e Prazer.

Nem podemos deixar de encarar a Felicidade como algo agradável ou prazeroso.

Tudo quanto podemos dizer é que a Felicidade corresponde a um tipo de prazer tanto mais complexo e refinado. Um tipo de aestesis ou sensação difusa na pessoa como um todo e presente tanto no intelecto quanto no corpo físico. Uma espécie de prazer considerado pelo intelecto e consequentemente ampliado e aprofundado, chegando a constituir um 'estado de espírito' ou modo de ser.

Podemos defini-la ainda como um bem estar ou consciência de bem estar.

Seja como for nenhuma destas definições afasta-se demasiadamente da noção de prazer ou deleite.

A felicidade é sempre algo deleitoso, agradável ou prazeroso e nem podemos pensar doutro modo ou maneira.

Assim se compreendemos felicidade como prazer, a tão decantada oposição entre eudemonismo e hedonismo perde toda sua força.

Examinemos agora a questão dos prazeres.

Para que não tomemos a felicidade pelo que não é.

Antes porém convém analisar a questão da conformidade das ações com a natureza.

Isto porque da satisfação de algum instintos parece quase sempre resultar uma sensação prazerosa.

De fato os instintos parecem estar voltados para determinados fins, grosso modo para a contemplação de certas necessidades imperiosas ditadas pela natureza, a qual para estimular esta contemplação, decretou que a satisfação de tais necessidades correspondesse sempre a uma sensação prazerosa.

Assim após a satisfação de cada apetite resulta uma sensação deleitosa ou certo bem estar.

Do ponto de vista da natureza é o prazer grande benefício. Pois sem este tipo de sensação os organismos em sua fase mais primitiva e inconsciente, quiçá não se sentissem impulsionados a satisfazer suas necessidades essenciais, de que resultariam graves consequências. Nem podemos deixar que reconhecer que a satisfação dos apetites é benéfica tendo em vista a manutenção da vida corporal ou física, e que esta é condição 'sine qua nom' para o exercício da virtude.

De tais relações resulta que ao menos remotamente o prazer apetitivo, sensório ou corporal é um bem enquanto ponto de partida necessário para a posse de outros bens. É bem relativo, secundário e remoto mas mesmo assim um bem como anteviu Xenócrates. Nem se pode, dentro do quadro geral da vida, classifica-lo como Cleanto, ou seja, como um tipo de mal.
No entanto quanto a criatura adulta, desenvolvida, racional e livre também não podemos encarar a fruição dos prazeres apetitivos como o bem supremo ou a chave da felicidade. Cumpre advertir no entanto que de certo modo a felicidade esta relacionada com os ideais acalentados pela pessoa ou com a mente.

Assim para a mente carnal, limitada, vulgar, grosseira, primitiva, etc o ideal de felicidade poderá consistir na fruição dos prazeres apetitivos ou sensoriais e resumir-se em comer, beber e procriar; isto pelo simples fato de ignorar outras possibilidades ou tipos de prazer, quais sejam os de categoria intelectual ou ética. Nem todas as pessoas, por uma questão de formação, são capazes de deleitar-se ao contemplar uma quadro ou escutar uma sinfonia. São incapazes de frui-lo ou de percebe-lo porque não foram educadas para isto... e isto não faz sentido para elas. Concentraram suas energias nos apetites e assim só são capazes de captar os prazeres produzidos pela satisfação dos mesmos.

Quero dizer com isto que alguns tipos de pessoas podem ser sentir felizes ou auferir uma sensação de bem estar apenas com o beber, o comer e o transar; e nem podemos declarar que a felicidade delas seja menor ou inferior a que é sentida por nós ao contemplar um edifício de linhas harmoniosas ou a assistir um espetáculo teatral. Não há um aparelho com que se possa mensurar a felicidade. O máximo que podemos dizer é que somos capazes que fruir uma gama maior de prazeres, parte dos quais ignorados por elas.

E como a felicidade fruída por elas não contempla todos os aspectos do ser ou da personalidade - ignorando o racional e o ético - podemos cogitar que a nossa seja mais vasta e constante. Quanto a dor já atinamos ser boa em algumas circunstâncias. No entanto é certo que dela fugimos e mais ainda da enfermidade, a qual sendo crônica ou incurável não pode ser classificada como algo bom. Tampouco podemos concebe-la como um mal absoluto, mas apenas como um mal relativo caso não nos leve a praticar voluntariamente uma ação prejudicial ou danosa.

Uma coisa parece certa: aquele que aprende a fruir outras formas mais refinadas de prazer como a contemplação do belo (música, teatro, poesia, etc) ou a amizade parece ter encontrado meios com que aliviar os tais males relativos procedentes do corpo físico. E quando o corpo físico declinar terá feito boa provisão... queremos dizer com isto que bem poderá consolar-se da insensibilidade do paladar, da frigidez ou da impotência sexual ouvindo belas canções, compondo poesias, pintando, desenhando, esculpindo, exercendo voluntariado, etc Assim não ficará exasperado, como aqueles que perdendo tais sensações ficaram privados de todo e qualquer tipo de sensações prazerosas.

Eis porque é proveitoso ampliar desde cedo o sentido do prazer.

Por outro lado não podemos deixar de reconhecer que mesmo a fruição dos prazeres apetitivos numa perspectiva natural comporta certos riscos ou perigos que devem ser considerados por ocasionalmente exigirem de nós a abstenção, a contenção e consequentemente o treino ou adestramento, caso desejamos evitar o mal maior da dor, o desastre ou a ruína. Nem sempre a criatura racional poderá satisfazer os apetites alheio a quaisquer circunstâncias de carater externo, o que nos encaminha mais uma vez a questão da hierarquia dos prazeres e da temperança ou sobriedade.

Caso nos tornemos escravos dos apetites por força do prazer e do bem estar podemos sempre estar entrando por um caminho áspero. Daí a necessidade de certo auto controle, resistência ou autonomia; enfim certa dose de liberdade. Na qual pode estar nossa redenção ou melhor preservação.

Todos precisamos de água para beber e devemos bebe-la de tempo em tempo sob pena de perecer. No entanto caso tenhamos acesso a algum tipo de água contaminada faz-se mister evita-la e buscar por qualquer outra reserva ainda que sejamos prezas da sede. Em tais conjunturas os que por hábito resistirem e forem capazes de esperar por outra provisão, no caso saudável; terão escapado a morte ou a algum tipo de enfermidade dolorosa... é sempre mais vantajoso esperar um pouco mais e ingerir água pura do que água suja, mas isto dependerá sempre do hábito.

O mesmo se dá com o alimento.

Aqueles que passarem por situações de fome ou privação por um tempo determinado após o qual haverão de receber alimentos bons, muito lucrarão de durante o tempo da privação abstiverem-se de alimentos venenosos, deteriorados ou contaminados pelas mesmas razões acima expostas.

Por fim quem de nós haverá de negar que é melhor abster-se de transar do que transar com pessoas enfermas sem preservativo??? Expondo-se a contrair AIDS ou Hepatite...

Mesmo em caso de dúvida seria melhor abster-se.

Tendo em vista futuras situações de dor e morte.

Concluímos certificando que nem sempre a fruição do prazer e a decorrente sensação de felicidade ou bem estar corresponderá a um verdadeiro bem, uma vez que deste bem decorrerão males muito maiores! No caso apenas a abstenção ou a privação equivaleria a um verdadeiro bem.

Epicuro foi quem intuiu tais coisas ao declarar que era melhor fugir a excessos ou exageros quanto a satisfação dos apetites e a decorrente fruição do prazer durante a juventude, tendo em vista a conservação da saúde por mais tempo, especialmente durante a velhice.

Este pensador parece ter percebido que a concentração na fruição do prazer pelo prazer, desvinculada dos fins naturais a que tendem e a satisfação da necessidade, parece parece estar relacionada com a deterioração precoce do corpo físico ou com a perda da saúde e a consequente manifestação da enfermidade e da dor. Inferindo que a fruição dos prazeres apetitivos devia ser exercida moderadamente ou em conexão com seus fins. Assim dizia Sócrates o que come deve ter em vista não apenas o sabor mas antes de tudo a satisfação da fome e o que bebe ter em vista não o gosto mas a extinção da sede. Classificava os que bebiam sem ter sede e os que comiam ser ter fome, jungidos pelo gosto ou pelo paladar como escravos dos sentidos.

Não se trata aqui de negar o prazer na perspectiva de Cleantes e dos maniqueus, mas apenas e tão somente de situa-los no contesto mais amplo da existência e do fenômeno humano. O que se contesta aqui é do comer, beber ou transar encarados como sentido da vida. Assim a gula, a embriaguez ou a lubricidade e não a alimentação ou a sexualidade.

Em tais casos é necessário manter uma visão sóbria e equilibrada. E contemplar o homem como um todo!

Importa saber que não podemos confundir - como Aristipo, Teodoro, Exegias e os modernos - a posse da felicidade em sua acepção mais ampla e profunda com a fruição descontrolada dos apetites ou o prazer sensorial.

Podemos admitir que no contesto de uma vida virtuosa, ela corresponda a um bem de condição inferior, mas não ao bem superior ou a virtude, uma vez que esta só existe no plano da liberdade ou da escolha. Aqui apenas o celibato tocaria a virtude, caso fosse posto a serviço das virtudes superiores como a causa da justiça por exemplo. Mesmo enquanto opção livre esta 'virtude' jamais deixaria de ser um meio para tornar-se virtude em si mesma.

E sempre alguém poderia cultivar a vida celibatária tendo em vista consagrar-se a atividades viciosas. Como aquele que se torna-se celibatário tendo em vista amealhar mais dinheiro e juntar fortuna superior a dos demais.

É o que temos por hora a declarar sobre o prazer, o bem, a virtude e a felicidade.

Resta-nos agora examinar a questão da utilidade.