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sábado, 25 de novembro de 2023

Religião e Moralidade - Cristianismo e moralidade > Reflexão oportuna

 

O FALIBILISMO MORAL DA IGREJA.


Aspecto que já tornei público em diversas ocasiões: Apesar de me ser atribuído um eclesiasticismo radical, no sentido de que afirmo e reconheço ser a Igreja Católica Ortodoxa (E em menor proporção seus galhos rotos i é as igrejas romana e anglicana.) mãe, senhora, guardiã e mantenedora infalível dos mistérios de Cristo, sabem muitos que não reconheço a infalibilidade da igreja em matéria de ética ou moralidade, setor com relação ao qual afirmo resolutamente sua falibilidade.

Quem quiser ousar ou demonstrar o oposto, prepare-se e venha... Aceitamos contraponto.
Quanto a monges bobões, clérigos ou mesmo Bispos devotos, que em seu zelo cego e irrefletido queiram aumentar ao máximo a autoridade da igreja, devo dizer que nada se deve acrescentar ou adicionar as coisas divinas. Nem disse eu que o sábio não deva ouvir, considerar e ponderar sobre os ensinamentos da igreja nesse campo. O que disse e repetirei a exaustão é que tais ensinamentos não não infalíveis. Podem bem ser úteis e proveitosos
mas não são infalíveis.
E por que não são infalíveis?
Há séculos o protestante Barbeirac demonstrou quão pouco acordo há entre nossos homens base )Os Santos Padres.) sobre questões de moralidade. De fato a variedade é imensa e nada do quanto varia pode ser considerado divino ou dogmático. (Nossa norma e regra é a uniformidade.)
Temos porém acesso a fonte mais pura da Ética e da moralidade, que são as palavras de Jesus Cristo Nosso Senhor, fontes do nosso Evangelho escrito. Dirá você, caro amigo, que se tal recurso, não tem valor quanto aos mistérios de Cristo, tampouco servirá como guia em matéria de moralidade, haja visto os estragos provocados pelo livre exame.
Digo e respondo que o problema não está no exame em si - Acalentado por uma boa e piedosa intenção. - mas no livre. E que mesmo para nossos Ortodoxos, quanto os mistérios de Cristo, há imenso proveito estudar ou examinar o Santo Evangelho na perspectiva da tradição ou em comunhão com a Igreja. Tanto mais proveito trará um tal estudo no campo das moralidades e para a vida pessoal, caso o estudioso não tenha pretensão de criar doutrinas ou fundar seitas para os outros. Pois o veneno está justamente aqui.
Quem estuda moralidades estude discretamente para si mesmo ou sem alarde, indo diretamente a prístina fonte Evangelho. Não ao novo testamento, nem a Paulo e jamais ao antigo testamento, mas as palavras sagradas de Jesus - E não ficará desorientado. (Sobre a técnica ou uso do texto grego inspirado já escrevemos em demasia.)
No entanto as doutrinas metafísicas ou os mistérios de Jesus Cristo, foram entregues a Igreja viva e visível dos apóstolos, mestra incorruptível da verdade e a respeito da qual está escrito: 'As portas do inferno não prevalecerão contra ela... '    Pois será perpetuamente guarda fiel da Integralidade da Revelação divina.



A RELIGIÃO, O CRISTIANISMO E O CONTROLE DA SEXUALIDADE HUMANA.

Não foi ou é a troco de nada que a igreja politiqueira e as seitas politiqueiras, tem ultrapassado a Lei de Jesus Cristo e buscado controlar a sexualidade humana.
Controlada a sexualidade humana por terceiros, fica o ser humano sendo miserável escravo ou algo tão manipulável quanto a cera de uma vela.
Eis porque o sistema de controle chamado islamismo levou esse policiamento ao máximo grau.
Felizmente os Cristãos estudiosos do Evangelho ou das tradições apostólicas sabem que Jesus Cristo não estabeleceu qualquer polícia sexual. De fato não é nosso Evangelho qualquer coisa semelhante a um Kama Sutra invertido ou uma coleção de tabus sexuais como a Torá. E Jesus Cristo amiúde passa a largo desses tabus sexuais, alimentares ou pertencentes ao traje, que faziam o banquete daqueles fariseus hipócritas que o crucificaram. E mesmo quando Nosso Senhor toca em tais assuntos, é quase sempre perceptível alguma questão de Ética por trás deles. Logo não é questão de pura e simples sexualidade porém algo mais e bem podemos dizer que Jesus Cristo não se importa com a sexualidade humana ou que não está fixado nela promulgando tabus. Portanto é um campo ou domínio que fica sempre pertencente a liberdade pessoal. O que as pessoas fazem dentro de quatro paredes diz respeito somente a elas e a mais ninguém. Nada mais miserável do que uma moral religiosa ou espiritual focada doentiamente na sexualidade humana.


RELIGIÃO E MORALISMO.


Devem as crenças religiosas conter alguma moralidade sumária e sobretudo uma orientação Ética. 

Pois uma fé que não tornasse a humanidade melhor ou que não colaborasse poderosamente para a criação de um mundo melhor, i é, mais justo, solidário, fraterno, etc seria totalmente inútil e dispensável. 

Felizmente é o Evangelho antes de tudo e sobretudo uma Ética ou uma coleção de princípios e valores gerais a serem aplicados pelos fiéis as mais diversas circunstâncias, o que por sinal honorifica a racionalidade dos mesmos. 

E no entanto esse precípuo fim não fundamenta a religião ou comunica-lhe vida, pois a vida das religiões é sempre metafísica ou derivada de certos mistérios, dogmas ou artigos de fé.

Portanto se o objeto da fé é Ético a vida da fé procede de elementos como a Trindade, a Encarnação, a Graça divina, os Sacramentos, a Eucaristia, a Comunhão dos Santos, etc e são estes, por assim dizer, o tutano ou o filé da religião. 

Torna-se o Cristianismo moralista, quanto nega ou minimiza tais mistérios, substituindo-os pela moralidade ou colocando a moralidade acima deles. E, via de regra, uma moralidade rasa, externa, mecânica e formal; bem a gosto dos escribas e fariseus que assassinaram nosso Bom Jesus. 

E um tal quadro só pode ser descrito como inversão, subversão e perversão no campo da Revelação divina - Cuja hierarquia deve ser mantida imaculadamente.  

Que fazem os fanáticos moralistas... 

Destroem a Revelação divina ou a religião, como se estivessem plantando um árvore enterrando seus galhos e regando suas raízes...

E ao plantar a árvore ao contrário, matam-na. De fato corresponde o moralismo ou a fixação em regras formais, no plano espiritual, ao declínio e a morte das religiões.


PROTESTANTISMO E MORALISMO.


Procede a infecção moralista ou moralizante, do Protestantismo - Com seus ideais puritanos! - por via da Igreja romana, infectada desde o século XVI e totalmente tomada (Pelo puritanismo.) desde o século XIX ou a Era vitoriana. E daí passa a Ortodoxia ou ao Catolicismo Ortodoxo e até ao espiritismo... e vai essa lepra maligna cobrindo toda Igreja de Cristo.

Mas como veio a afirmar-se no seio do protestantismo...

Eis uma pergunta interessante e digna de investigação.

Observe, amigo leitor, o islamismo e o judaísmo. Por certo não contam tais religiões com um vasto acervo de mistérios, dogmas e artigos de fé como os Cristianismos apostólicos... Sendo muito mais pobres metafisicamente falando, a ponto de até passarem por monoteísmos naturais... A não ser - No caso do judaísmo antigo e do Islã. - pelos dogmas horrendos do destino, do inferno, dos diabos, etc 

Para compensar a imensa pobreza metafísica de que padecem, judaísmo e islamismo, afirmaram-se no campo da moralidade como sistemas jurídicos ou legais.

Outro o caso do Catolicismo Ortodoxo ou das Igrejas apostólicas, romana e anglicana, que concentraram-se nos mistérios da fé ou numa vida metafísica expressa por dogmas como: Trindade, Encarnação, União hipostática, Eucaristia, Maternidade divina, etc - O que por sinal engendrou outro tipo de vida e de cultura, ora em declínio > Lamentavelmente.

Esse tipo de reflexão exigia uma Educação de alto nível ou vastos conhecimentos em matéria de Filosofia e a Sociedade falhou miseravelmente em tais campos.

O protestantismo é produto dessa falência - Provocada remotamente pelo agostinianismo no Ocidente. - e começou, como é sabido, eliminando paulatinamente esse conteúdo metafísico (Distintivo do Cristianismo) até chegar a Encarnação e a Trindade. O que restou foi algo semelhante ao islamismo ou ao judaísmo antigo: Uma imensa miséria ou um vácuo colossal. E os protestantes, voltados para o antigo testamento, não tardaram a preencher esse vácuo ou essa lacuna com preceitos formais, normas e regras tomados a Paulo ou mesmo a Torá de Moisés. - Assim a observância do Sábado ou de um Domingo sabático, diversos tabus sexuais, alimentares, etc E condenaram em nome de Cristo a tatuagem, o cigarro, o consumo de alcool, etc TAIS AS ORIGENS DO PURITANISMO e provém do espírito da própria reforma...

Que a Ortodoxia, o papismo ou o anglicanismo tomem o mesmo rumo é uma perigosa tragédia.

Ps.: No Oriente, é o puritanismo instilado nos Cristãos pela abominação islâmica com sua sharia, ou seja, procede da cultura. Outra tragédia. (Pois nossos Cristãos sequer são capazes de atinar que os professores de moralidade islâmica apresentam nosso Bom Deus Jesus Cristo como pura e simples criatura ordinária.)

E por ai vai. 

As fontes e veículos do moralismo hipócrita, indicam que ele não é uma direção saudável para o povo de Cristo. 


sexta-feira, 17 de março de 2023

Psicologia, psicanálise, Freud e a questão da multiplicidade de existências - Reflexões sobre a obra de Hermínio C Miranda 'A memória e o tempo' Edicel 1984 - Parte VI

               Nada tenho contra o espiritismo prático e até gratidão tenho para com o espiritismo doutrinal ou kardecismo.

                Nascido protestante jamais o fui de coração, por isso lendo o antigo testamento perdi a fé, tornando-me agnóstico.

                Por estranhos caminhos conheci o papismo ou a fé apostólica romana e ainda jovem abracei-a com entusiasmo.

                No entanto a leitura dos clássicos, o conhecimento da Filosofia e juntamente com isso a leitura de diversas obras doutrinais do espiritismo (Eu havia sido convidado a refuta-lo pelo Vigário de minha paróquia.) plantearam-me inúmeros problemas em torno de Antropologia e Soteriologia, todos derivados da ideologia agostiniana assumida pela igreja romana. A leitura dos padres gregos encaminhou-me ao Catolicismo Ortodoxo, o qual ao menos naquelas duas áreas aproxima-se do espiritismo (Na verdade é o espiritismo que nessas duas áreas aproxima-se do Cristianismo antigo ou
 primitivo.)


                 Portanto, mesmo após ter repudiado as crenças na expiação, na soberania da graça, na predestinação e no inferno eterno (Praticamente todas agostinianas, alheias ao texto grego do Evangelho e indignas!) não apenas continuei sendo Cristão Apostólico como aprimorei minha fé, descobrindo o autêntico Catolicismo - Ortodoxo e afastando-me ainda mais da aberração protestante.

                  Por que raios não me fiz espírita doutrinal ou kardecista... Por diversos motivos. O principal porém é porque o espiritismo, repudiando a divindade de Cristo, repudia consequentemente o mistério da Encarnação de Deus, aproximando-se de uma corrente filosófica com que jamais simpatizei, a saber, o neo platonismo, com seu deus puramente espiritual e separado do mundo ao modo do javé judeu ou do allá maometano. No Catolicismo e no hinduísmo a relação com o mundo ou com a matéria, com a Imanência enfim é outra e corresponde perfeitamente a meu modo de ver as coisas.

                   Os espiritistas por sinal, chegam a aproximar dos ocultistas ou esotéricos ao apresentarem o divino Jesus como mera criatura ou simples profeta e colocarem-no ao lado de Moisés, Buda ou Maomé... Compreendo que comparem nosso divino Mestre com Buda ou Confúcio, os quais são mesmo como manifestações suas ou emissários seus. Agora comparar nosso Jesus com Moisés (No qual há muito de mítico como reconheceu Freud.) ou com o sanguinário Maomé, tenha santa paciência... Acho tudo isso asqueroso e revoltante e Jesus me parece mesmo um Ente deslocado em seu nicho, mais parecido com um Sócrates do que com um rabino embiocado...

                      Então não posso ser espírita. O que, como disse, não me faz odiar o espiritismo doutrinal mas apenas discordar dele, até de modo amistoso - Uma vez que a Ética espírita por vezes é mais lúcida que a nossa, i é, que a Ética eclesiástica (Por vezes muito judaica ou muito protestante, mesmo quando romana ou Ortodoxa - Um desastre.) Quanto ao espiritismo prático ou sem ilações doutrinárias ou supostas revelações religiosas nada tenho contra.

                      Tecerei então algumas críticas amistosas ao espiritismo sempre focado no âmbito da Revelação divina, tal e qual costumo fazer ao criticar os unitários e maometanos. Pois uns são por profetas e outros por espíritos, enquanto nós postulamos como veículo mais excelente a Encarnação de Deus ou a manifestação de Deus na carne.

                      Principiarei dizendo o óbvio - Que a comunicação da verdade demanda garantias de seguridade, o quanto possível as mais exatas e infalíveis. Admitindo a preciosidade ou importância da Revelação divina para nossas vidas, para nossa vida Ética, para nossa conduta, para nosso enriquecimento espiritual, etc temos o direito de concluir por um veículo perfeito e sem defeito.

                       Corresponde a tal exigência, tão sóbria quanto sensata, a mediação dos espíritos desencarnados que serviram de guias ao sr Hippolyte Leon Denizard Rivail, mais conhecido como Allan Kardec ou seus predecessores como o juiz Edmonds... Davis... Cahagnet.

                        Antes porém façamos um parênteses importante - Via de regra os críticos pouco informados sobre Kardec e suas obras ou o espiritismo de modo geral supõe muito naturalmente que o objeto das comunicações mediúnicas era o próprio Kardec, e que os espíritos do além o instruíam tal e qual a superna divindade teria instruído Moisés ou Maomé... 

                        A impressão é absolutamente equivocada - Quero dizer, não corresponde a verdade histórica, a princípio, pelos idos de 1856, os espíritos - Por meio de uma comunicação. - teriam comissionado Kardec para sintetizar as comunicações obtidas por um grupo composto por cerca de uma dezena de médiuns reunidos nas residências de Madame De Plainemaison e do casal Boudin, dentre outras. 

                         Via de regra eram tais grupos (A exceção da Sra De Plainemaison) formados por umas adolescentes ou mocinhas, algumas inclusive com cerca de quatorze anos de idade, a exemplo das senhoritas Caroline e Juline (Boudin), Aline Carlotti, Ruth Japhet e Ermance Dufaux - 

                           Tal a origem da primeira e mais afamada obra codificada por Kardec - 'O livro dos espíritos' 1857. A partir de então, e a cabo de uns dez anos apareceriam cerca de oito obras, dentre as quais 'O livro dos médiuns' 1861 e 'O céu e o inferno' 1865. Segundo se diz as comunicações chegam a dezenas de milhares e os médiuns. No entanto, nos idos de 1860, após ter recebido comunicações ou informações procedentes de cerca de quinze diferentes países, foi feita uma segunda edição, Revisada. 

                            Até aqui nosso precioso parentético, quiçá um tanto prolixo...

                            Tornemos agora a questão das garantias...

                                      Que nos pode dizer sobre isso o próprio espiritismo...

                             Lembremos primeiramente que certa vez estourou uma grande controvérsia no seio do espiritismo doutrinal - Não a da reencarnação com os anglo saxões, porém a de J B Roustaing. 

                             E teve nosso Brasil notáveis campeões roustainguianos, a ponto de levar as chamas do incêndio até a FEB... Não vou entrar no mérito de tais debates (Em que tomaram parte Leopoldo Cirne, Leopolo Machado, Imbassahy, Crysanto de Brito, etc) que cheiram a unitarismo e a monofisitismo. 

                                 Quis apenas refrescar as memórias de quantos esqueceram que no auge dessa amarga polêmica uma boa alma lembrou-se de que certa vez, Kardec, ao falar sobre os espíritos ignorantes, declarou que costumam eles levar seus preconceitos religiosos e ideias fixas para as plagas de além túmulo... Conclusão: Os espíritos do Roustaing eram 'romanos' ou como se diz católicos...

                                    Assim se há espíritos romanos - e diversos autores espíritas admitiram que sim! Então que barafunda ou confusão há no além, pois deve haver espírito ariano ou maometano (Como os de Kardec), protestante, judeu, budista, hindu, etc cada qual apegado a suas crençazinhas terrícolas e sem aquele acesso direto a divindade atribuído aos comunicadores de Kardec... E pela enésima vez surge a fé. No sentido de que os médiuns de Kardec eram diferentes, melhores ou especiais. 

                                      Ao contrário dos guias do juiz Edmonds, de Roustaing ou de Pietro Ubaldi, os quais emitiram opiniões ou considerações diferentes... 

                                      Ueh mas não é Revelação divina... Nesse caso como admitir a contradição... Dizendo que os demais foram enganados ou desorientados enquanto que Kardec - Ou melhor dizendo seus médiuns -  teve acesso privilegiado aos arcanos do além. 


                                        Lamento dizer que uma tal solução remete ao universo das seitas protestantes, nas quais cada uma declara estar na posse do espírito santo enquanto afirma que todas as outras são presas do capeta...


                                      Admitida essa explicação, dos espíritos fanáticos presos a determinadas crenças, quem nos pode garantir que as comunicações kardequianas opostas a fé Ortodoxa i é contrárias a divindade de Cristo, a Eucaristia, aos Sacramentos, a Sucessão apostólica, etc não procedem de espíritos protestantes, os quais no além continuam odiando a velha fé da Igreja antiga... Enfim, tudo fruto de um protestantismo invisível...

                                       Aqui meu amigo espírita, enojado, já pergunta: Acabou, já chegamos aos espíritos ruins ou impuros...

                                       De modo algum, ainda não, pois ainda há os espíritos levianos - 'Ignorantes, maliciosos, irrefletidos e zombeteiros... vulgarmente tratados por duendes, trols, gnomos, fadas, gênios, diabretes, etc" (L E 1936 p 44), os quais, segundo Sir Arthur Conan Doyle, sequer conhecem - Enquanto desencarnados - o princípio de reencarnação... in Evening standard, 07 de Junho de 1926

                                          A respeito desta outra categoria demos ainda a palavra ao notável escritor britânico:

                                         "A dificuldade desaparece, penso eu, quando percebemos que essas pessoas espirituais não são de forma alguma oniscientes, e que o assunto diz respeito ao seu futuro, que parece ser um assunto para debate entre eles, como é conosco."

                                           
E Kardec: "... os espíritos, do mesmo modo que entre os homens, ha-os muito ignorantes, de maneira que nunca serão demais as cautelas que se tomem contra A TENDÊNCIA A CRER QUE, POR SEREM ESPÍRITOS, DEVAM SAVER TUDO." L E 1936 p 33

                                           "Allan Kardec faz em 1863 uma análise geral das comunicações mediúnicas que lhe vinham as mãos de todas as partes. Diz então (R S Maio de 1863) que tem mais de 3.600 examinadas, das quais 3.000 (80%) são de uma moralidade irreprochável. Desse número , considera publicáveis menos de trezentas, embora apenas cem sejam de mérito excepcional (2%). Quanto aos trabalhos de grande fôlego que lhe remeteram, sobre trinta só achará cinco ou seis de real valor (15 a 20%). E ele comenta 'No mundo invisível, como na terra, não faltam escritores, mas OS BONS ESCRITORES SÃO RAROS." Wantuil e Thiesen II 1980 p 139

                                           
Ressalto aqui o ínfimo número de comunicações relevantes e o papel do classificador ou daquele que seleciona, papel totalmente subjetivo. 

                                           Quanto a essa questão, da Revelação divina ou da comunicação espiritual, os kardecistas aplicam a ela o dogma da Comunhão dos Santos criando uma espécie de corrente de informações. É o que se aduz do L E - 1936 pg 46 iten 113 onde após declarar que os espíritos Superiores ou iluminados - Que não mais reencarnam por terem atingido a perfeição, a inalterável bem aventurança e a posse de Deus. - São mensageiros ou ministros de Deus... e comandantes dos espíritos inferiores, aos quais instruem e guiam... "Podem os homens por-se em comunicação com eles, porém seria presunçoso aquele que pretende-se te-los constantemente a sua disposição." 

                                           
Conclusão: Parece que os espíritos instruem uns aos outros no que concerne as coisas divinas indo esta ordem do superior ao inferior i é dos espíritos por assim dizer perfeitos aos menos perfeitos ou imperfeitos, e que via de regra - Já pela simples quantidade - estamos em contato com os intermediários dos intermediários, sem que tenhamos acesso direto ao conhecimento divino, o que parece implicar em perda de qualidade, pelo simples fato dos espíritos imperfeitos não poderem assimilar tudo.

                                           Mesmo a propósito dos espíritos superiores - Que é como Kardec humildemente avalia seus guias - diz o codificador: "É erro crer que os espíritos tenha ciência infusa, o saber deles está, no espaço como na terra, subordinado ao seu grau de adiantamento, e há os que acerca de tais coisas, sabem menos do que os homens. Suas comunicações estão em relação com seus conhecimentos, e, por isso mesmo, NÃO PODEM SER INFALÍVEIS."  (R S 1866 - Abril)

                                         
Todavia se não são oniscientes, ao menos enquanto conhecedores das coisas sagradas, como podem ensinar-nos a respeito do Bom Deus com o grau de puridade a que aspiramos.

                                           Eternos céus, os espíritos desencarnados, confessam os próprios espíritas de renome, comunicam apenas suas próprias opiniões, impressões, suspeitas ou conjecturas i é o que 'acham', portanto nada de divino.

                                       Sem embargo o honesto Hermínio C Miranda, nas páginas 55 e 56 de sua obra ainda menciona os espíritos neuróticos e psicóticos, com seu acervo de complexos, traumas, agitações, transtornos, etc asseverando inclusive que são tão numerosos quanto os daqui, além de sujeitos aos mesmos mecanismos mentais ou vicissitudes...

                                      Percebem de onde surgiram tantas narrativas idiotas sobre a vida dos espíritos em Marte, Vênus ou Plutão... Da imaginação ou elaboração inconsciente dos próprios espíritos. Da fantasia fantasmal. Dos hospícios de além túmulo...

                                        Por fim em diversas, obras, pautadas por sinal nas comunicações dos espíritos Kardec confessa honestamente que há espíritos maus e mentirosos, desejosos de desencaminhar a humanidade ou apenas de aparecer - Adquirindo assim fama e glória. 

                                         Tomemos suas palavras ou as palavras de seus espíritos: "102 - Décima classe: Espíritos impuros - São inclinados ao mal, de que fazem o objeto de suas preocupações. Como espíritos dão conselhos pérfidos, sopram a discórdia e a desconfiança, E SE MASCARAM DE TODAS AS MANEIRAS PARA MELHOR ENGANAR." Livro dos Espíritos 1936 p 41


                             
                    No entanto, para que não fiquemos desorientados e assustados, os guias de Kardec tencionam fornecer-nos um critério seguro com que identificar a idoneidade moral dos espíritos e de suas comunicações - "Nas manifestações, eles se dão a conhecer por sua linguagem. A trivialidade e a grosseira das expressões nos espíritos, como nos homens, é sempre indício de inferioridade moral, senão também intelectual. " Id ibd

                               Quer aqui o sr Kardec ou seus espíritos iluminados, que tomemos a pessoa desencarnada e invisível por sua linguagem, querendo dizer que uma pessoa anti ética ou maldosa apresentará, necessariamente, uma linguagem vulgar. 

                                Que pensar sobre isso...


                                Admitimos francamente que a linguagem natural ou espontânea de uma pessoa má será vulgar, grosseira ou desbragada. Porém - No caso em que a pessoa má seja inteligente (O que sucede não poucas vezes.) e deseje enganar, não lhe faltará habilidade para tanto e pouca dificuldade terá para assumir outra linguagem, aparentemente nobre e elevada.

                                 Pessoas inteligentes simulam e simulam a ponto de tecer discursos encantadores, a exemplo de um Calvino ou de um Hitler, de um Bush, de um Trump, etc Simplesmente mudam de linguagem caso necessário seja, afetam outro linguajar, selecionam palavras, etc 


                                  De modo que a pura e simples análise de um discurso não nos pode garantir coisa alguma em termos de moralidade. E isso só seria discutível ou duvidoso caso todos os espíritos maus fossem igualmente ignorantes, o que Kardec naturalmente jamais disse... Logo, nada que os espíritos maus dotados de certa inteligência não possam burlar em se tratando dos humanos. 

                         Fácil portanto o humano ficar a mercê dos espíritos maus e enganadores.

                          Examinemos agora uma outra faceta não menos importante das comunicações.

                         
Pois como se não bastassem os espíritos fanáticos, ignorantes, neuróticos e maus, damos na obra do profo Erny - o qual por sinal foi letrado de renome, que as identidades de todos os comunicantes são inseguras, posto que não possuem certidão de nascimento, carteira de identidade ou mesmo de motorista com a devida fotografia.

                           Presumidamente apresentam-se como Maria, Paulo de Tarso, Agostinho, Tomás de Aquino, Tereza D Avilla, Lucius, André Luis, Meimei, Paraclito, Emmanuel, etc todavia quem sejam de fato, com certeza certa, não podemos saber. Pois são invisíveis...

                            Debalde assevera o sr Kardec pelos idos de 1858 "A experiência nos ensina a conhecer os espíritos, como nos ensina a conhecer os homens."

                             Pobre Kardec - Irmão gêmeo de Cândido e filho de Leibnitz . Pois parafraseando Confúcio bem poderíamos dizer: "Se não sabemos que é a vida, como saber o que é a morte..." 

                              De fato, se quase dois séculos após a criação da Psicologia, a intervenção de tantos sábios, tantas pesquisas, tantas publicações, etc sabemos tão pouco sobre o homem encarnado, vivo e visível como pretender que saibamos algo sobre entidades invisíveis e anônimas... Inclusive o homem do povo - Que nada sabe em termos de Psicologia profunda, inconsciente, personalidade, etc

                            Isso quanto os tipos ou categorias de espíritos e sua condição anônima...


                            Pois ainda que excluamos todas essas variedades de espíritos: Neuróticos, zombeteiros, ignorantes ou maldosos - Todos invisíveis e anônimos... continuamos num mato sem cachorro. Abandonados, perdidos e confusos...

                               Bastando para tanto saber que nem sempre são espíritos desencarnados... 

                               Mas como... 

                               Isso mesmo - basta saber que muitas vezes 'o espírito' em questão bem pode ser o inconsciente do próprio médium i é um entidade imaginada por ele e que é ele mesmo. Claro que a fantasia é inconsciente e não intencional. E no entanto há engano, mesmo sem a vontade de enganar.

                                Tal o fenômeno de múltipla personalidade.

                                Impossível... Claro que não.

                                Tal a hipótese contemplada por primeiramente, e de modo inadequado, pelo profo William Benjamin Carpenter ainda em 1853.

                                 Finalmente, em 1855, uma carta anônima, rompendo com a esquema puramente físico naturalista, postulou o desdobramento da personalidade do médium (Cuchet 2012 p 85 sgs) - Supreendentemente foi tal tese, retomada seriamente, trinta anos depois pelo Dr Pierre Janet (1903 p 377 sgs) notável adversário dos positivistas. 

                                  Ocioso dizer que Kardec conhecia perfeitamente essa opinião (Pois segundo Canuto de Abreu integrava o grupo de pesquisadores da Sociedade Mesmeriana coordenado pelo Barão Du Potet. cf  'O livro dos espíritos e sua tradição histórico lendária') - Elencada também por Blavatsky (O véu de Ísis) e Sir William Croockes, dentre outros - discutida, posteriormente, por todos os Parapsicólogos e avaliada como tese, que associada a hiperestesia, a telepatia e a pre cognição, tornaria, não impossível, porém extremamente difícil a comprovação direta da sobrevivência- Fato de que Kardec não se deu conta, tal e qual seus seguidores. 

                                    "Assim o médium tiraria de si mesmo, e por efeito de suas lucidez, tudo quanto diz, e todas as noções que transmite, mesmo sobre coisas que lhe sejam estranhas em seu estado normal." Kardec 1857 p 24 sgs Já em 1861 (p 39) o codificador admite que o desdobramento poderia bem ser a causa DE MUITAS DAS SUPOSTAS COMUNICAÇÕES ESPIRITUAIS. 

                                       Mais - Kardec admitia que mesmo nas comunicações mediúnicas autênticas, as informações fornecidas eram muitas vezes, UMA COMBINAÇÃO DE CONTEÚDOS ORIUNDOS DO ESPÍRITO COM DADOS INERENTES DO INCONSCIENTE DO MÉDIUM (Kardec 1865 a p 155 "O pensamento do espírito pode, ademais, ser alterado pelo meio que atravessa para se manifestar." (R S 1866 - Abril)

                                        Reflitamos por um instante sobre o que o sr Kardec está a dizer. Pois está a dizer que a pretenciosa terceira Revelação nada tem de divina ou transcendente não passando de dois elementos puramente humanos ou naturais misturados uns com o outro - O espírito desencarnado, que é humano e sempre falível e o espírito ou melhor o inconsciente igualmente falível do médium. Absolutamente nada de Sagrado, celestial ou infalível e perfeito. 

                                Nem mesmo as comunicações dos humanos desencarnados são puras ou isentas de influência por parte dos vivos, humanos e encarnados como nós!

                                                                  Passemos - Pois também pode, o suposto espírito, corresponder a manifestação da mente viva e encarnada de um outro médium qualquer em desdobramento, esteja ele na mesa ou nas proximidades. Como poderia ser produto de elaboração conjunta ou comum, com a intervenção de diversas mentes i é uma colcha de retalhos.

                                 A exemplo do que temos nas manifestações de 'fantasmas' de vivos... cf "Phantasms of the livings - Gurney, Myers e Podmore, London 1886 (Tradução francesa por L Marillier "Les hallucinations télépathique, Paris, 1889). As quais não se limitam a manifestar apenas imagens visuais estáticas (Supostos resíduo ou cascas.) mas inclusive algumas impressões visuais dinâmicas acompanhadas de impressões auditivas  dinâmicas. Naturalmente que o inconsciente de um agente vivo pode produzir impressões dinâmicas e não apenas estáticas. 

                                   Sequer preciso mencionar aqui o fenômenos a que dão o nome de viagens astrais ou saídas de corpos, as quais, sejam o que forem, sucedem durante o sono. cf Hector Durville "Le fantôme des vivants". As quais poderiam sempre terminar em incorporação ou simples ação sobre outro agente em transe, como as trocas de corpos ou de espíritos apresentadas em diversas comédias, sendo a mais conhecida 'Um espírito baixou em mim' 1984 com Steve Martin e Lily Tomlin como Edwina Cutwater.

                                     
   Tanto podemos ter o desdobramento imediato da mente do médium, de seus companheiros ou de algum membro do auditório como a intromissão de qualquer outro espírito vivo. 

                                 Em meio a tanta comunicação exótica e divergente quanta não é de vivo, seja no corpo ou fora dele...

                                  De modo que admitido mais esse raminho de joio no trigal abala-se ainda mais a garantia divina da Revelação ou da Religião, convertendo-se ela em algo essencialmente humano, imanente e natural, a exemplo do unitarismo com seus profetas - Como Maomé. - ou o protestantismo por meio do livre exame ou da especulação exegética...

                                    Tudo muito humano, demasiado humano.

                                     Após o incrível cipoal de espíritos acima descrito, a condição do anonimato e os fenômenos sonambúlicos de desdobramento mental chegamos já ao fundo do poço...

                                     Creio que não. 

                                     Pois restam ainda outras duas expressões da realidade: A fraude e a alucinação, individual ou coletiva. 

                                     A fraude foi admitida sem maiores problemas por Kardec e vinculada expressamente a muitas comunicações (1869 p 36) Limitando-se ele a objetar que nem tudo era falso, ou que havia um resíduo verdadeiro. (1866 p58 sgs). Amiúde vinculava o charlatanismo a cobrança (1869 p 89) e concluía dizendo que os verdadeiros médiuns só tinham a ganhar com a exposição dos impostores. (1859 p 96)

                                     Até que chegamos, por fim, a ilusão ou a alucinação, fenômeno psicológico amplamente demonstrado e sobre o qual não pairam quaisquer dúvidas. Apenas quanto as alucinações coletivas devemos tomar bastante cuidado tendo em vista os fatores predisponentes. Pois a exemplo do 'inconsciente coletivo' - Conceito amplamente discutível. - costuma ser usada como uma espécie de lugar comum ou panacéia pelos naturalistas.

                                     Seja como for Kardec não deixou de leva-la em consideração. Destarte concedeu, sem maiores problemas, que a ignorância, a superstição e a credulidade bem podia produzir alucinações confundidas com fenômenos mediúnicos. (1868 p 29) O quanto objeta, e com propriedade, é que a alucinação costuma ser estática e não dinâmica ou inteligente (1861 p 196) Insistindo mais uma vez que o acesso a informações desconhecidas por parte do instrumento, comprovaria a ação de um espírito guia. 

                                     Kardec ignorava por completo o fenômeno natural da clarividência associado a vida inconsciente ou a personalidade múltipla. Mas não a clarividência ou a profecia em si mesma associada ao sonambulismo puro e simples (1858 p 61). 

                                     Portanto temos bem de par com a 'terceira revelação' i é bem juntinho ou ao lado -  

* Quanto aos fenômenos:

                                      # Fraudes ou imposturas - Admitidas.
                                      # Ilusões e alucinações - Admitidas.
                                      # Forças puramente mentais e desdobramentos psíquicos - Admitidos.

* E quanto os espíritos comunicantes:

                                     # Espíritos neuróticos -
                                     # Espíritos fanáticos - Admitidos.
                                     # Espíritos ignorantes - Admitidos.
                                     # Espíritos malignos - 
Admitidos. 
                                     # Espíritos Superiores FALÍVEIS -Admitidos.

                                      Além das condições de invisibilidade e anonimato partilhadas por todos os espíritos sem exceção. 

                                      Conclusão 01: As autênticas comunicações espíritas não passam de um resíduo ou de mínima parte dentre o conjunto dos fenômenos abordados.  

                                       Conclusão 02 : As comunicações dos espíritos superiores não passam de resíduo ou de ínfima parte dentre a massa de comunicações obtidas pelos médiuns reais ou supostos.

                                         Conclusão 03: É a tal da terceira relevação resíduo de resíduo ou como se diz 'pepita de ouro' extraída a um mar ou oceano de lama. 

                                  Diante de tão imenso cipoal ou labirinto os
 kardecistas costumam vir a liça postulando não sei quais energias ou emanações do bem, uma proteção específica de deus ou de Jesus ou ainda dos espíritos de luz, etc quanto aos MÉDIUNS DE KARDEC - Em que pese as hostes de espíritos zombeteiros e enganadores, o desdobramento mental dos vivos e o anonimato... envolvidos por desdobramentos, capacidades mentais, alucinações e fraudes (Nenhuma das quais excluída por completo por Kardec).

                                     E o quanto assistimos é uma autêntica fuga ao naturalismo.


                                     Apesar das advertências feitas pelo Codificador: "Não há palavra sacramental alguma, sinal cabalístico algum, ou talismã ou ação que possa exercer influência sobre os espíritos (Ao contrário do que diz a querida Blavatsky) --- Mas não é exato que alguns espíritos TENHAM DITADO FÓRMULAS CABALÍSTICAS. Efetivamente, espíritos há que indicam sinais e palavras estranhas ou ainda prescrevem certos gestos por meio dos quais se fazem os assim chamados conjuros. Mas, ficai certificados que tais espíritos estão é a escarnecer e a zombar da vossa credulidade."

                                             
Lamento contrariar os amigos espíritas mas é Kardec quem adverte não haver qualquer seguro espiritual ou garantia de proteção face a essa imensa massa de fraudes, alucinações, desdobramentos e espíritos malignos, ignorantes, neuróticos, anônimos... que cercam o pequeno número de comunicações relevantes.

                                   E são esses mesmos espíritas, que afetando cientificismo, chegam a por em dúvida não apenas os supostos milagres ou intervenções sobrenaturais - Aqui com plena razão! - mas por vezes até mesmo os milagres do divino Jesus consignados no Evangelho Redentor.


                                               
Curioso ver como os kardecistas - Que tanto apreciam o positivismo, o naturalismo ou o cessacionismo (E o autor deste artigo é cessacionista convicto!) com seus temperos deístas. - tresandam e põem-se logo a falar em alguma ajuda providencial já aos médiuns de Kardec já ao próprio Kardec, a qual tornaria tais médiuns invulneráveis ou conferiria ao ilustre professor francês uma espécie de infalibilidade, quiçá arremedo da infalibilidade papal promulgada por Pio IX em 1870.

                                          Verdade seja dita - Impede o pudor que a maioria dos espiritistas, particularmente os mais instruídos, atribua tal prerrogativa a Kardec, mesmo quando admitem que ele selecionou as comunicações e que selecionando atuou falivelmente, como qualquer outro ser humano. 


                                          E é precisamente aqui e a partir daqui que todo esse edifício que se arvora em ciência, filosofia e revelação começa a desabar fragosamente... A desmanchar-se, a ruir e a dar por terra...

                                          A maioria deles prefere, com Canuto de Abreu 1957 p X "O resultado de sua redação só era incorporado ao texto depois de cuidadosamente revisado e corrigido, palavra por palavra, pelos Instrutores."

                                         
Tal o ping pong ou o jogo Tênis espiritual -

                                           As comunicações são, em seu conjunto duvidosas, bem como os espíritos em seu conjunto. 

                                           Como resolvemos isso...

                                           Dizendo que foram examinadas e selecionadas por Kardec.

                                           Reivindica Kardec a perfeição da infalibilidade como o Pio IX, o papa epilético... Certamente que não.

                                            Então...

                                            Recorre Kardec a um recurso especioso que não poucas vezes confunde ou entusiasma seus leitores a ponto de correr louros, aplausos e ovações.

                                             A todo instante Kardec opõem a fé supostamente cega da Igreja antiga a razão ou ao raciocínio. Aqui, paradoxalmente, não é nada 'sofisticado', positivista ou empirista, porém racionalista ou metafísico, tal e qual Leibnitz, Descartes, Voltaire, etc. 

                                              Como um protestante livre examinista falando sobre a bíblia ou o Evangelho (Sem ser o Evangelho ou a bíblia.) Kardec escreve sobre a razão e o raciocínio, a ponto de ser fastidioso citar. E a impressão que se tem é que ele Kardec encarna a razão ou seja o único mortal capaz de raciocinar - Mesmo quando confessa sua falibilidade.

                                                Importa dizer que é a razão um guia naturalmente seguro, mormente quando haja acordo entre os sábios a respeito das conclusões. Fica no entanto sendo, ainda hoje - Como nos tempos de Orígenes. - um recurso restrito e pouco acessível ao grosso do povo ou a gente medíocre e sem instrução. 

                                                  Outro o conceito de Revelação ou Religião, sobretudo quanto associada ao veículo mais adequado - que é a Encarnação de Deus, e ao recurso a autoridade, pelo qual se atinge a gente medíocre ou até mesmo as massas. 

                                                   Os próprios conceitos de Razão (Natural) e Revelação (Sobrenatural) parecem distintos - Ainda que não sejam opostos e destinados encaixarem um no outro, completando a comunicação divina e infalível as aquisições limitadas e apenas humanamente seguras da Razão. 

                                                     Admitido isto o quanto temos aqui não é Religião ou Revelação e menos ainda Ciência porém uma Reflexão ou uma especulação metafísica feita a partir de comunicações incertas e duvidosas i é um tipo de filosofia muito pobre, que pode partir de premissas equivocadas.

                                                      Caso Kardec, sendo humano, seja o critério ou padrão das comunicações, todo espiritismo é puramente humano e natural, mesmo quando houvesse alguma comunicação fidedigna incluída no conjunto.

                                                       Daí Canuto de Abreu... postular a revisão do quanto foi feito por Kardec pelos espíritos... Os quais bem podem ser fanáticos, neuróticos, ignorantes, malvados, etc e são sempre falíveis... 

                                                        Kardec no entanto confere o título de Superiores ou iluminados aos espíritos que assentem a seus juízos. Por que superiores ou iluminados... Porque concordam com ele. Kardec como que canoniza os espíritos que aprovam seu trabalho. Que seriedade há nisto...

                                                         Kardec aprova os espíritos que aprovam Kardec... Senhores isso é pura marmota. 

                                                                            Eternos céus - Imaginávamos uma auto comunicação divina, com garantias razoáveis, puridade, exatidão, etc E eis que os kardecistas, que se julgam cientistas ou filósofos, brindam-nos com possíveis fraudes, alucinações, fenômenos paranormais, comunicações de vivos e toda casta de espíritos: Fanáticos ou irredutíveis e espíritos neuróticos/psicóticos, ignorantes, zombeteiros, falíveis, anônimos (Para você se sentir no AlAnom), etc então me diz se isso não é um mercado ou uma feira... Labirinto sem fio de Ariadne!

                                                     E... no entanto... Apesar disso... Nosso cândido declara sereno e calmo que os espíritos que dirigiam os médiuns de Kardec eram os mais puros e elevados do universo, os melhores, a elite do mundo espiritual - Pois certamente havia ali uma operação divina ou uma ação providencial. 

                                               E incomodam-se nossos amigos quando dizemos que isso não passa de fé e de uma fé grandiosa, de uma fé colossal, duma fé imensa... Quiçá mais fé do que qualquer Ortodoxo que crê na divindade de nosso Senhor o Bom Jesus.

                                                                   Como ainda aqui e sempre quero ser justo, concedo que para as comunicações pessoais ou NÃO DOUTRINÁRIAS - Nas quais pessoas das mais diversas fés, buscam contatar algum ente querido para acertar alguma pendência, tais prevenções e garantias não venham ao caso. Bastando para tanto evocar o falecido no ambiente certo (E do modo correto) - Num ambiente de paz, serenidade, amor e boas energias, a luz do Evangelho e com recurso a prece. - e interagir com ele, deixando o mais a cargo da intuição... que é a meu ver a melhor forma de reconhecer alguém com quem convivemos. Se interage e comunica alguns de segredos ignorados pelo médium podemos dar por plausível a presença do defunto.

                                                                  Manifestamente outro e diverso o caso desse espiritismo doutrinário ou kardecista que pretende substituir os padrões mais seguros da Revelação divina - Que são a Encarnação e na sucessão apostólica na Igreja. - pela mediação de entidades invisíveis e anônimas  que não podem ser identificadas com seguridade. Sabendo que o universo espiritual é bastante similar ao nosso e que está densamente povoado por entidades problemáticas como atribuir-lhe a prerrogativa de informar-nos sobre as coisas santas e divinas...

                                                       Quiçá algum espírita frustrado, após ter lido estas linhas, julgue que queremos desencaminha-lo do espiritismo. Longe de nós. Apenas da doutrina ou do Kardecismo ou ao menos de certos aspectos dela... Quanto ao espiritismo basta dizer que também existe o NÃO doutrinal, perfeitamente compatível com a fé Ortodoxa ou mesmo com as práticas da igreja romana. Pois um romano, anglicano ou Católico Ortodoxo bem pode lá ir receber seus passes, ouvir alguma comunicação, etc sem deixar de ser Cristão. Como pode ir aos centros Kardecistas - Caso se sinta bem. - sem aceitar a doutrina ou aderir a ela. 

                                                    Por não acreditar que a condenação da evocação dos mortos por parte dos antigos judeus tenha qualquer coisa de sagrada ou de divina (É puramente cultural e não consta em nosso Sagrado Evangelho!) sou pela conciliação até onde for possível e não por qualquer ruptura dramática ou radical, mesmo porque o espiritismo possuí uma Ética admirável, filha desse Evangelho e a qual não posso desdenhar. 


                                                    Eis o que tenho a escrever sobre a doutrina de Kardec e suas garantias.

                                  


                           

                                 

Psicologia, psicanálise, Freud e a questão da multiplicidade de existências - Reflexões sobre a obra de Hermínio C Miranda 'A memória e o tempo' Edicel 1984 - Parte V

 

A reencarnação, o espiritismo prático e o espiritismo doutrinal ou Kardecismo.


            Que pensar e dizer sobre a Reencarnação ou a pluralidade de existência.

             É algo que devemos analisar ou concluir por nós mesmos, uma vez que os espíritos de um e do outro lado da Mancha não estão de acordo - Sendo os espíritos anglo saxões pela negativa...

              Ademais, como declara o sr Hermínio C Miranda - A página 55 da obra em questão - que 'Há tantos neuróticos e psicóticos no mundo póstumo quanto neste de matéria densa.' - E mais adiante (p 56) refere aos traumas, complexos, bloqueios, etc dos desencarnados... Pelo que mesmo sem desejar mentir podem fantasiar ou imaginar, no caso 'vidas passadas' exatamente como nós ou nosso inconsciente. 

             Tornaremos, no capítulo subsequente, a examinar a ideia de uma 'Revelação' comunicada por espíritos desencarnados. 

              Quanto a fé - Cristã, Católica e Ortodoxa - discordamos por completo da opinião descabida segundo a qual a Reencarnação ou pluralidade de existências se choca com a Ressurreição dos mortos ou com o Resgate dos mortais.

               Afinal podemos admitir que todos os humanos ressuscitarão em seu derradeiro ou último corpo ou ainda que todos os humanos obterão um corpo. Outro o caso da Redenção simplista nos termos de um Agostinho, de Lutero ou dos protestantes, que é uma redenção confortável, fácil, amoral e anti Ética. Outro o caso da Redenção Católica ou Ortodoxa posta pelos padres da Igreja e inseparável da crença na reparação do mal.

                No entanto é necessário reconhecer que mesmo estando presente no Evangelho - Segundo as palavras de S Cirilo citadas pelo Pe Maldonado SJ nos Comentários a S Juan: "Os apóstolos lhe fizeram tal pergunta porque acreditavam na doutrina da transmigração." e esporadicamente (Como uma Hipótese) num ou noutro padre da Igreja > Como Agostinho, no prólogo das Confissões, a doutrina da pluralidade de existência não faz parte do que Cognominamos Revelação ou da auto comunicação divina dada por Jesus Cristo. 

                  Forçoso reconhecer que a Reencarnação não faz parte da essencialidade da fé ou da doutrina Cristã - Passando inclusive bem longe do restante do antigo testamento, como declara Jean Prieur no  'Mistério do eterno retorno', o qual, por obra e graça de um judaísmo mais tosco assume a unicidade da vida. 

                   E no entanto concordamos com o Dr R N Champlinn - É a opinião favorável a pluralidade de vidas - SEPARADA DA ÍNFAME DOUTRINA DO KARMA OU DA SAMSARA. (ESTA sim um absurdo monstruoso!) - excelente ferramenta teológica posta a serviço a Divina Revelação assente no Evangelho, tornando-a mais lúcida inclusive, se é que podemos dizer. Afinal por meio dela podemos admitir que todos os seres humanos que viveram nos incontáveis séculos anteriores a Encarnação do Verbo Jesus Cristo e a manifestação da Lei Evangélica, tem ora a chance de ter contato com essa Lei divina e de progredir nos domínios do espírito. Digo o mesmo das pequeninas crianças que morreram demasiado cedo, especialmente as não batizadas ou incorporadas a nosso abençoado Redentor. Posso ainda supor que outros tantos desejam voltar a este mundo sublunar para exercer missões e encaminhar seus irmãos a Jesus Cristo - E EM TODAS ESSAS SITUAÇÕES A PLURALIDADE DE EXISTÊNCIAS NÃO CORRESPONDERIA A UMA GRAÇA OU ACESSO A JESUS CRISTO...

                 No entanto, como disse acima, não pertencem a Reencarnação a fé ou a instrução divina.

                 Excluída qualquer tipo de certeza empírica ou revelada (Credal) só nos resta avaliar a hipótese da Reencarnação (Sempre desvinculada do Karma igualmente postulado pelos Hindus!) do ponto de vista meramente racional, tal e qual examinamos a existência de Deus e a sobrevivência da alma por ser assunto próximo, congênere ou co relato.

                  Que pensar sobre a reencarnação desvinculada de qualquer elemento religioso ou credal...

                  A mim me parece plausível que, admitido o valor da vida como experiência enriquecedora para o espírito, ter a vida ceifada aos dois, cinco, dez ou mesmo vinte anos - E portando na infância ou na juventude! - equivalha a uma desgraça ou infortúnio, inúmeras vezes causado por um acidente ou golpe de azar. 

                   Suponho portanto que em tais casos seja digno da sapiísssima Providência celestial permitir que essas almas vazias retornem a este nosso mundo e adquiram outros corpos com o intuíto de conviver com outros humanos, de obter novas experiências e por meio delas aprender ou adquirir conhecimento. 

                   Há em seguida o caso daqueles que por pura sorte ou azar recebem um corpo físico deficiente, o qual serve de obstáculo a experiência e ao aprendizado - Assim os que nasceram com paralisia cerebral e outros tipos de deficiência. Também me parece justo e digno que renasçam em posse de melhores corpos, de modo a completar seu aprendizado.

                    E há por fim aqueles que por causas de natureza diversa, como a escravidão ou o excesso de trabalho, extrema necessidade, avitaminose, o analfabetismo, etc não progridem no aprendizado, partindo quase como chegaram a este mundo ou ainda num grau assustador de ignorância/alienação. Também a esses me parece acertado que obtenham outras vidas.

                      De modo geral - E posso dize-lo como professor ou educador! -  uma única vida em condições médias ou normais já me parece insuficiente tendo em vista tudo quanto devamos aprender e conhecer. Parece-me portanto bastante plausível que haja pluralidade de vidas e que esta economia natural preceda a economia da graça ou da Redenção, devendo está inserir-se nela e dela servir-se, como já disse como uma graça. 

                        Não vejo portanto a pluralidade de vidas como os hindus, budistas e espíritas ou seja como uma punição pós pecado, e sim como uma ordem natural das coisas. Episodicamente pode e deve servir para reparar - Na comunhão e Lei de Jesus Cristo e sob o termo de 'Penitência. No entanto não parece ser essa sua função primária. Nascemos, morremos e renascemos, pelo menos a maior parte de nós, os medíocres para progredir em conhecimento e virtude. 

                         Portanto os mesmos raciocínios metafísicos ou especulações que me levam a afirmar a existência de uma Consciência Suprema, dum Ser imperecível, dum Espírito Eterno, de uma Lei Universal e de uma Alma do Mundo, bem como da sobrevivência da alma humana após a dissolução do corpo físico, os mesmos e exatos raciocínios me levam a postular a pluralidade de existências. Não a fé Cristã ou a divina revelação e menos ainda a comunicação de espíritos humanos, mas repito, a pura e simples reflexão.

                          Então qual o problema dos espíritas doutrinários ou kardecistas, assim do sr Hermínio C de Miranda... Onde é que nos separamos e por que nos separamos...

                          Nos separamos pontuadamente quanto a memórias de tais vidas na vida presente ou quanto a recordação ou ainda memórias das vidas passadas, mormente quando obtidas artificialmente por meio de Hipnose ou regressão. Pois consideramos tudo isso uma bizarrice monstruosa.

                          Tornamos já a essa temática tão cara $$$ a indústria de romances espiríticos Gasparetto S/A...

                           De nossa parte embora admitamos que, muito provavelmente, a maior parte dos humanos corresponda mais de uma existência, julgamos que quando assumimos uma nova vida a memória ou lembrança das vidas anteriores seja bloqueada por disposição divina tornando-se, via de regra, inacessível - Ao menos a tentativas artificiais no sentido de recobra-las. 

                           Qual o objetivo desse bloqueio... Acaso seria ele arbitrário ou caprichoso... De modo algum. Nós acreditamos que as memórias das ações realizadas numa existência anterior fiquem bloqueadas para evitar situações ou melhor confusões semelhantes aos casos de múltipla personalidade (Tal o caso Sybil). 

                            Naturalmente que tais almas que passaram por outras existências podem portar e portanto trazer para uma nova existência traumas, complexos, hábitos, tendências, etc mas não a memória de ações particulares. 

                             No entanto é perfeitamente compreensível e admissível que entre uma existência e outra, estando isentas de corpo ou desencarnadas, recobrem as memórias de cada existência porque passaram. 

                             Manifesto o engodo de todas essas ridículas tentativas de recuperar tais memórias por meio do que chamam regressão. Isto porque como tem sido cabalmente demonstrado pelos psicólogos é próprio do inconsciente fantasiar, de modo a satisfazer seus desejos. Portanto, caso acalente alguma crença - Como a reencarnação. - tentará o inconsciente dramatizar em torno dela com o intento de justifica-la. 

                               Bom salientar que Freud abandonou a Hipnose justamente por isso, pelo fato do inconsciente fantasiar com demasiada facilidade. Muito antes de Freud, ao tempo de Charcot e da Salpetrière, os críticos de Nancy já o haviam observado, declarando que frequentemente o próprio hipnotizador, Charcot, introduzia a histeria nas pacientes elaborando um enredo a que elas davam seguimento. 

                                Há inclusive diversas produções cinematográficas que apresentam o inconsciente fantasiando ou assumindo o papel de diabos, espíritos, deuses, etc até que se descobre que era tudo humano e demasiado humano, fruto da fantasia. 

                                 Eis porque na maioria quase que absoluta dessas regressões e relatos, raramente alguém foi pobre, obscuro ou feio na vida anterior e quase todos foram princesas, príncipes, reis, nobres, milionários, artistas, atores, enfim; gente bem sucedida e feliz. Tudo Césares, Cleópatras, Teodoras, Carlos V, Maria Antonieta, Carmem Miranda, Edith Piaf... Poucos os mendigos, pedintes, escravos... Pois todo esse enredo é forjado pelo ego tendo em vista a satisfação dos desejos ou a criação de uma vida dos sonhos...

                                  Caso houvesse em tais regressões alguma evidência de prova seria antes de tudo o aflorar de tais memórias numa pessoa que jamais ouviu falar em pluralidade de vidas, num ateu, num materialista ou num fanático religioso totalmente cético quanto a reencarnação. Jamais passou por minhas mãos sequer um relato desse tipo... Inútil mencionar protestantes, romanos, ortodoxos, judeus, etc em tese alheios ou infensos a reencarnação, pois bem podem no fundo simpatizar com ela ou mesmo acreditar, ainda que ocultamente... mencionar espiritas, esotéricos ou ocultistas então é pura deslealdade, afinal por que apenas os que admitem a reencarnação teriam memórias de outras vidas.

                                     O segundo tipo de evidência diz respeito as provas materiais e objetivas - Semelhantes as que os Historiadores e Arqueólogos manejam ao reconstituírem o passado. - que porventura confirmassem um desses relatos de regressão. 

                                     Explico - Quanto as viagens astrais ou melhor dizendo, quanto a pan cognição, temos na literatura metapsiquica ou parapsicológica, relatos controlados e circunstanciais (Provenientes de psicólogos como Freud e Jung dentre outros.) de pessoas que declaram ter abandonado seus corpos, ido durante o sono a lugares distantes e descrito tais locais, como o quarto de uma estalagem. Seria apenas mais um relato qualquer, provavelmente fantasioso, caso o autor da pesquisa não se tivesse dado ao trabalho de contatar as pessoas que estavam naquele local no mesmo momento e constatar que a descrição feita pelo sensitivo correspondia a cena até os mínimos detalhes: Disposição do ambiente, móveis, objetos, pessoas, animais e mesmo as cores das roupas... Isso a ponto de eliminar, estatisticamente, qualquer alegação em torno de coincidências.

                                       Até onde me é dado saber relato algum de vidas passadas obtido por regressão descobriu qualquer coisa de inédita em termos de conhecimento histórico que mais tarde tenha sido confirmado. Tampouco dilucidou qualquer mistério ou enigma importante... E nem sequer uma tumba perdida, como a de Alexandre ou a de Cleópatra foi descoberta graças ao relato de algum Alexandre ou de alguma Cleópatra regredidos...

                                        Repito, nos registros sobre pesquisas psíquicas que envolvem espíritos, fantasmas, assombrações, profecias ou paranormais, por vezes topamos com tais indicações ou evidências concretas que certificam-lhes a veracidade. - Pois contra fatos não há argumentos. Já nos inúmeros relatos sobre regressão não encontramos tais dados ou evidências materiais e tudo não passa de uma narrativa, mesmo quando isenta de contradição, o que por sinal nada prova uma vez que o Inconsciente é esperto.

                                        Quanto ao caso Bridey Murphy, obstinadamente citado pelos espíritas, após termos lido diversos livros e artigos sobre ele, podemos asseverar que há diversas incongruências histórias - Para além disso damos a público o seguinte fragmento:

"
Em Chicago o Rev. Wally White, pastor de um templo que Virgínia Tighe outrora frequentava, aplicou-se à análise cuidadosa das circunstâncias da juventude dessa paciente, conseguindo finalmente atingir as fontes de suas «revelações»…

Verificou, sim, que Virgínia, por muito tempo a partir dos seus sete anos de idade, habitara em Chicago, do outro lado da mesma rua em que residia uma senhora irlandesa denominada Bridie (não Bridey) Murphy Corkell; a jovem frequentava assiduamente a casa dessa pessoa, que oferecia ambiente tipicamente irlandês, onde Virgínia dançava a «jiga» e declamava poesias regionais da Irlanda, reproduzindo até mesmo a pronúncia e as expressões linguísticas dos habitantes desse país; Virgínia aos poucos tornou-se mais e mais interessada por quanto via e ouvia nesse meio irlandês, já que entrou em namoro com o filho de Bridie Murphy Corkell, chamado João (Sean, em irlandês regional); no seu pretenso enredo de encarnação anterior, «Bridey Murphy» chegava a dizer que se casara com Sean MacCarthy! … Ficou outrossim averiguado que aos sete anos de idade Virgínia raspara realmente a pintura de sua cama, e em consequência fora severamente punida (o que lhe causara, por certo, profunda impressão). Os peritos reconheceram igualmente que muitos nomes de pessoas e lugares da Irlanda, assim como certos episódios da vida na Irlanda descritos por Bridey Murphy no seu enredo, haviam sido manifestados a Virgínia pelo contato assíduo que a jovem tinha com a colônia irlandesa frequentadora da casa de Bridie Murphy Corkell. Assim puderam os estudiosos chegar à conclusão de que os pormenores, por vezes tão vivos e realistas, da «pre-vida» de Virgínia Tighe nada mais eram do que noções adquiridas pela paciente no decorrer mesmo da vida atual, tornando-se então inútil e arbitrária a explicação reencarnacionista."

                              Em suma tudo quanto temos aqui é uma elaboração fantasiosa do Inconsciente servindo-se da memória. O que explica os ligeiros equívocos - Tudo muito humano e demasiado humano. 

                               Como ignoro qualquer narrativa de regressão da qual não façam parte ao menos alguns equívocos em matéria de História, Geografia, etc não vou entrar aqui no mérito da questão que planteia a possibilidade de uma narrativa sem equívocos ser produzida pelo inconsciente com base em dados obtidos por meio de capacidades paranormais como a precognição. No entanto caso a pessoa em questão fosse comprovadamente paranormal e partidária da pluralidade de existência temo que a demonstração ficaria comprometida.

                                Resta-nos dizer algo sobre as alegadas memórias de vidas passadas que afloram espontaneamente durante o sono ou nos sonhos. Quanto a estas quero ser tanto mais comedido, mesmo quando sei que o mundo onírico é domínio da vida inconsciente. E no entanto há sonhos que envolvem clarividência rigorosamente comprovados. Diante disso surge a questão: Poderiam os sonhos funcionar como janelas e desbloquear tais memórias... Caso assim fosse deveríamos exigir as mesmas evidências que exigimos quanto as pretensas regressões. São neste caso os sonhos que envolvem supostas cenas do passado mais felizes... Definitivamente não! Pois não tenho que qualquer ponto ou vírgula tenha sido adicionado ao conhecimento histórico por meio de sonhos recordatórios - Ainda aqui nenhum mistério ou enigma resolvido, apenas puerilidades VAGAS E GENÉRICAS.

                                  Por isso digo aos teimosos e obstinados que insistem na tese da recordação: Ofereçam-nos um material menos genérico ou vago, um material tanto mais concreto, sólido e consistente, como a descoberta de um templo, de uma tumba ou de alguma ruína. Caso me ofereçam algo assim tornarei a examinar o assunto com a devida atenção e carinho. Por hora todavia devo dizer que mesmo admitindo a multiplicidade de existências nego que, por quaisquer vias, tenhamos acesso as lembranças relativas a tais existências. 

                                   Por isso, recorrendo como Freud a Mitologia grega, digo que os que renascem são como tivessem bebido as águas do Léthes no reino de Hades. 


                              

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Revolução, violência, razão e Cristianismo.

Poucos temas há, tão polêmicos quanto o tema da violência.

Tema em que se vai da rejeição absoluta ou do pacifismo crasso a aceitação absoluta assim ao odinismo, entre os quais há toda uma série de gradações.

No Evangelho damos ora com Jesus Cristo mandando Pedro embainhar sua espada ora com o próprio Jesus expulsando os fariseus do tempo com um chicote. 

Textos que tem dado o que falar e sido empregados por pacifistas como Tolstoi e por odinistas como Sorel.

De modo geral a Igreja Antiga ou dos padres, ao menos no plano da fé, repudiou decididamente o apoio da força ou da violência. Outro o caso das relações pessoais, onde predominou igualmente o pacifismo, alias crasso. E por fim outro o caso das relações sociais, havendo cristãos pacifistas, cristãos revolucionários e cristãos equilibrados ou partidários do emprego a violência circunstancial ou contida.

Agora por que o mesmo Jesus que empunha o chicote aqui repreende Pedro acolá, mormente quando ele Pedro exercita a defesa enquanto que ele Jesus ataca?

Há quem diga, equivocadamente, que Jesus aqui procede como Deus enquanto que Pedro ali procede como mero homem. Não aprecio todavia esse tipo de interpretação, a qual me sabe a monofisita. Evidentemente que quando perdoa Jesus os pecadores sabemos que tal ação tem seu motor primário na natureza eterna e divina. Agora quando exerce certa violência ou força contra os mercadores sacrílegos não temos como saber com exatidão qual seja o motor primário ou mais remoto de tal atitude. 

Direi então que o motor mais provável dessa ação Cristológica executada pela natureza humana seja a natureza divina, embora não possamos demonstra-la. 

Todavia meu ponto de vista e bem outro e consiste em distinguir que faz Jesus do que faz Pedro. Pois Pedro empunha uma espada que fere e mata. Enquanto Jesus emprega um feixe de cordas (Ev de João 2,15).

Insistirei resolutamente quanto a esta distinção, a ponto de apresenta-la como fundamental: Pedro não empunha um feixe de cordas e Jesus não utiliza uma espada. Pois os partidários de que a violência é sancionada por Deus quanto as coisas profanas costumam alegar que dá no mesmo Jesus ter empregado uma feixe de cordas ou chicote, uma espada, uma lança, uma metralhadora ou uma bomba. Advirto porém que o texto em questão não diz respeito ao emprego da violência no plano social, e sim ao suposto emprego da violência no plano religioso ou da fé, o que acaba por chocar-se contra o conjunto dos ensinamentos de Jesus. O qual a um tempo condenou radicalmente o emprego da violência no plano do ideal e a outro jamais imiscuiu-se em questões formais de sociologia ou política, as quais são indiferentes ao Evangelho.

Ora, justamente por tal narrativa estar vinculada a piedade religiosa não cabe recurso a violência ou mesmo a força. 

Segundo a narrativa sumária de S Mateus Jesus expulsou ou teria expulsado os vendedores, derrubando suas mesas e cadeiras. Agora como fez isto? Onde Mateus silencia S João completa: Valeu-se dum feixe de cordas a guiza de chicote. Donde concluem alguns que teria batido nos cambistas. A narrativa todavia indica que com o chicote espantou os animais que ali se achavam. De que resultou terem as mesas, cadeiras e moedas caído pelo chão (Outras foram derrubadas pelo próprio Jesus) e a fuga de ao menos alguns mercadores devido a surpresa e ao pavor, afinal aquele tipo de ataque era algo atípico e inesperado. 

Teria o Senhor ao menos batido nos animais que ali se achavam com o objetivo de espanta-los?

Também isto tenho por demasiado improvável.

É coisa a respeito de que a letra do Evangelho igualmente silencia e o Redentor sempre poderia ter feito girar e zunir aquele chicote com cordas, bem como bater com ele no chão e nas mesas e cadeiras para assustar os animais po-los em fuga e causar todo aquele tumulto assombroso.

Nada no Evangelho impõem a crença ou ensinamento de que chicoteou Jesus os pobres animais e menos ainda que tenha surrado a sacerdotes e cambistas, e isto sempre será ultrapassar a letra, profanar a divina Revelação e simplificar as coisas.

Nem pode aquilo que sequer se equipara a um chicote ser equiparado a lanças, espadas, machados, revólveres, metralhas e bombas... E apenas alguns cérebros doentios poderiam concebe-lo. Ademais o quanto teríamos aqui seria a aprovação quanto ao emprego da violência no âmbito da fé ou da religião. Sendo assim por que os primeiros Cristãos não partiram para o ataque e conquistaram o império romano recorrendo a guerra e a espada? Deixando-se inclusive condenar injustamente sem esboçar resistência? Acaso não compreenderam o sentido 'oculto' do Evangelho?

Admitia essa versão nada teríamos em Jesus além de um outro Moisés ou Maomé, alias, neste caso Zwinglio e Calvino o teriam compreendido melhor do que quaisquer outros. Tal a versão odinista do Jesus fascista e do Jesus fascista uma vez que os Comunistas ao menos não se importam com ele a ponto de distorcer seu caráter e ensinamentos.

Implica essa constatação admitir que o emprego da violência quanto as relações sociais e políticas não é norteado pela Lei religiosa e ética de Jesus Cristo - A qual obviamente remove-o das relações ou do convívio pessoal. - mas pela experiencialidade e sobretudo pela reflexão. 

Apesar disso há algo desse espírito evangélico que se estande remotamente as relações sociais, como que a guiza de inspiração. Trata-se aqui da condenação do primeiro motor do odinismo ou daqueles que estimulam a agressividade e a conquista associadas a violência. Então a violência para ser lícita deve romper com o paradigma anti Cristão da belicosidade ou da conquista. E circunscrever-se a esfera da defesa. O uso político e social da violência na perspectiva Cristã estará sempre a serviço da defesa, jamais da agressão ou da conquista.

Não pode portanto a violência, no sentido Cristão, servir ao assim chamado imperialismo seja qual for ele.

Tal a única baliza ou exigência ética.

Para além disto temos de conceder que é a violência um fenômeno tão instrumental quanto a estrutura política formal de nossa democracia. O qual por isso mesmo deve servir a algum propósito ideal ou ético. Quero dizer que a violência não pode ser avaliada em si mesma como algo bom (Como fazem os odinistas) ou mau (Como faz o pacifismo crasso.) mas sim quanto a seu fim ou objetivo. Então a pergunta a ser feita é se esse fenômeno pode estar a serviço de algo digno como o bem, a justiça ou a virtude, ainda que circunstancialmente.

Pois não pensamos como os revolucionários i é em acionar qualquer gatilho social por meio dela e assim criar novo homem ou nova humanidade. Eis o que não se pode ou deve esperar da violência, engendrando veleidades místicas. Podemos dizer sim a violência, mas não a sua mística. Não posso ver como a violência em si mesma ou mesmo enquanto meio possa entusiasmar o homem reflexivo.

Nem entusiasmar nem demonizar mas apenas avaliar até que medida podemos usa-la vinculando-a a uma boa causa.

Claro que ao utilizarmos a violência em benefício das crianças, dos idosos, das mulheres, dos deficientes, dos injustiçados, da natureza, etc estaremos fazendo um bom uso dela. 

Importa saber que a violência precisa ser administrada pela razão e assim sempre planejada, contida, limitada, etc 

Nem podemos conceber (Ao modo dos odinistas) a violência ou a força física como as diversas culturas de morte afirmam o mercado, a fé, a política, a ciência, etc i é como algo fora do controle da ética ou acima dela. Simples assim: A estância da Ética deve predominar em todos os setores da existência humana. Daí não estarmos de acordo com um uso irracionalista, cego ou voluntarista da violência.

Ao contrário dos Revolucionários, que imaginam a violência como gatilho ou motor primário da mudança, o quanto pretendemos é usa-la em algumas situações sociais circunstanciais, apenas com o objetivo de substituir umas pessoas por outras, assim as más, egoístas e injustas por outras que sejam éticas e tanto mais dignas. Não pretendemos tocar as estruturas, crendo que tenham elas seu fluxo, e que virão a ser alteradas pelas pessoas dignas e conscientes através dos meios educativos, políticos e sociais. Nós acreditamos na evolução orgânica das estruturas ou em sua transformação interna através do acúmulo de reformas acionadas pela formação ética dos cidadãos. É coisa de cultura não de murros, pontapés e bombas.

É por isso mesmo que não atribuímos as situações de violências, guerras, batalhas e conflitos a solução de todos os nossos problemas. Pois de fato nada resolverão. Limitando-se a criar novas possibilidades de ação, conforme delas resulte a troca dos quadros. É recurso destinado a arejar as estruturas e não passe de mágica que as altere radicalmente e a partir delas a sociedade como um todo. Toda essa mecânica social imaginada pelos metafísicos anarquistas, comunistas, nazistas, fascistas, etc é furada e assim as idéias de revolução e contra revolução.

Continua