Nada mais icônico do que a propaganda dos T. E.s sobre a importância do voto no rádio e na TV. Tem certo ar de misticismo ou melhor de fetichismo que chega a repugnância. É sem dúvida algo que baralha a realidade e mistifica.
Querem passar a impressão, leviana; de que ser cidadão resume-se em votar i é em ir, obrigatoriamente, de quatro em quatro anos participar do ritual de transferência de poder que sanciona o 'status quo'. Querem passar a impressão de que votar tudo é e tudo resolve e esta impressão é perigosíssima.
Não nos enganemos, votar é um detalhe, quiçá ínfimo. É algo que faz parte da política ou melhor da cidadania, mas que não pode esgota-la.
Votar nem nos converterá em cidadãos nem solucionará todos os nossos problemas. Faz parte, não é tudo.
Alias devemos aproveitar a oportunidade para salientar a monstruosidade do voto obrigatório num contesto democrático.
O que por sinal corresponde a uma intencionalidade, e a uma intencionalidade política - Impedir ou travar a consolidação de uma política consciente e cidadã.
Afinal aquele que vota por força da lei, obrigado, revoltado...Votará de qualquer jeito ou em qualquer um, quando não venderá seu voto aquele que pague mais. Consolidado nosso coronelismo enrustido e alimentando ainda mais a venalidade e a corrupção.
Da obrigatoriedade do voto é que resulta este mercado ou melhor a oferta de eleitores que se vendem e podem ser facilmente comprados. A massa se vende porque não vê motivo algum para votar... porque não vê sentido nesta ação... E não vendo sentido esculacha, votando no tiririca ou mesmo num bode.
No outro extremo temos os abstenceístas, muitos dos quais anarquistas.
Nós, eles e os autoritários conscientes ou fascistas temos algo em comum: Reconhecemos as deficiências, mazelas, vícios e defeitos do sistema representativo elaborado por John Locke no século XVII. Democrata que não reconheça a fragilidade intrínseca da democracia representativa ou burguesa fantasia e não pode ser bom democrata. Nós, com os contrários, reconhecemos o problema.
Os anarquistas no caso acreditam que o sistema entrará em colapso por meio do abstenceísmo i é do voto nulo ou da não participação nas eleições. No entanto, o que vemos e percebemos é que, apesar das abstenções o sistema continua firme e forte, sem dar sinais de que esteja demasiadamente abalado ou prestes a cair. Os nulos hoje ainda não passam de 20%. Será que um dia chegarão a 80%??? Tenho motivos para duvidar...
No caso deles a abstenção ou seu sucesso levaria ao colapso do que chamamos macro estado. Mas quando Brasil ou Argentina dissolverem-se política e administrativamente que haverá de substitui-las? Pequenas agremiações regionais ou mesmo municipais a semelhança das antigas cidade estados gregas? O que inclusive facilitaria, sem dúvida, o exercício da policracia ou da democracia direta. É um ideal nobre - o da policracia - e do qual partilhamos, sem no entanto nos deixar enganar pela solução das cidades estado.
As cidades estado gregas, num determinado momento assumiram, em sua maior parte, a forma democrática. Foi algo belo e esplendoroso, mas nem tudo foram rosas. Pois havia, lá fora, um colossal Império persa a espreita. O trágico aqui foi que as cidades gregas não se conseguiram entender e formar uma Unidade contra o inimigo comum, o que gerou um impasse. Durante mais de século viveu a Grécia sob pressão daquele inimigo externo unificado. Até que Alexandre conquistou-o. Não sem antes unificar a força as cidades estado e, consequentemente erradicar a democracia, exterminando-as em seu próprio berço. Não poucos teóricos alegam que teve de imolar a democracia as necessidades da cultura. Pois fragilizada pela divisão e conquistada pelos persas a Grécia viria a compor o Império e a perder dua identidade cultural.
Foi uma opção dramática, e que até hoje não podemos avaliar serenamente.
Não se diga porém que inexiste um Império semelhante ao persa disposto a ocupar qualquer nicho ou espaço criado no planeta. Seria pura ingenuidade acreditar que as cidades estado do 'aquífero' não seriam assediadas por um inimigo externo poderoso e muito bem organizado nos tempos em que a água vai adquirindo tanto valor. Seria igualmente ingênuo asseverar que nossas cidades estado brasileiras ou bolivianas manteriam a concórdia ou conservariam algum tipo de unidade militar. Francamente falando, olhando para o Norte deste continente, não creio que a adoção do modelo grego convenha a América latina. Aqui temos de ser realista.
Por isso sou favorável, quiçá seguindo o exemplo de Bolivar e de José Bonifácio, a construção de uma democracia cada vez mais direta no contexto do macro estado. Quiçá através dos meios de comunicação digitais e a exemplo do Demoex da Suécia.
Abrir mão do macro estado no atual contexto bem poderia beneficiar a construção de um imperialismo colossal.
Outros tantos anarquistas, cientes de todos estes problemas, tornam a Bakhunin com seu evasivo - Não sabemos nem queremos saber que venha ser o futuro mas apenas destruir... No entanto é próprio do homem pensar o futuro ou melhor planeja-lo. Seja como for esta evasiva me parece fútil. Pois quem sabe se destruindo o que existe sem pensar o futuro não estamos preparando um futuro pior???Refletir e buscar soluções sóbrias sempre foi o caminho mais seguro para chegar ao melhor e o ser humano merece esta seguridade. Temos assim de oferecer algo ou alguma perspectiva com relação ao futuro e não me parece que o anarquismo esteja sendo bem sucedido neste sentido.
Já dissemos quando oferece alguma resposta sobre o futuro na melhor das hipóteses recorre a experiência grega em torno das cidades estado. Experiência que como vimos não deixou de ser problemática, como não deixa de se-lo no tempo presente. Dizemos melhor das hipóteses ou mais realista pelo simples fato de que parte dos anarquistas jamais furtou-se a quimera Stirneriana em torno de uma Não sociedade ou de agremiações de indivíduos, chegando aos confins do ANCAP... Claro que isto não corresponde aos ideais de um Kropotkin ou mesmo de um Bakhunin, e no entanto ao menos parte deles tem cogitado na eliminação do que concebemos por Sociedade. Como se vê, a confusão entre as noções de Estado e Sociedade torna o problema ainda mais sério e abre as portas para o espectro do individualismo...
Já os autoritários, militaristas, absolutistas, fascistas, etc são pela eliminação da democracia e pela adoção de uma ordem hierárquica, autoritária e despótica. A solução não podia ser pior... embora seus teóricos conheçam, talvez até melhor que os anarquistas, os vícios e defeitos da democracia burguesa.
Não poucos dentre eles - digo parte dos fascistas - tem exposto de deplorado a existência do que chamam plutocracia ou seja, de uma regime político ou de uma democracia a serviço de interesses puramente econômicos, do mercado ou do capital. A crítica não parte apenas dos Comunistas, mas de alguns fascistas, alias classificados como socialistas. Seja como forma eles acreditam que uma autoridade 'neutra' seja capaz de julgar a questão, de fazer justiça aos injustiçados, de conter as aspirações do Mercado e de cimentar a conciliação entre as partes instaurando uma 'paz perpétua'.
O problema aqui não diz respeito a suposta neutralidade classista ou econômica da autoridade em questão. Nem poderíamos negar a priori a existência de uma autoridade ética e voltada para o bem comum. O problema aqui é de ordem histórica, matemática e psicológica. Será prudente apostar que o titular de tão grande autoridade não se deixará corromper pelo exercício da mesma? Parece-me que para cada monarca virtuoso a História nos oferece o exemplo de mil psicopatas e degenerados como Heliogabalo, Tamerlão, Hitler, Stalin ou Bush. Não eu não acho prudente apostar no poder e na autoridade de um só e julgo que o poder absoluto corrompe absolutamente produzindo apenas monstros. Aqui os nobres e virtuosos correspondem a ínfima exceção, sendo coisa rara.
Para mim a solução pelo autoritarismo seria emenda pior que o soneto. E vemos já quem em nome da autoridade, da lei e da ordem queira sancionar a praga da tortura, que é um crime contra a humanidade.
Melhor que os homens partilhem a administração das coisa pública e se contenham uns aos outros.
Tornamos assim a solução democrática, em torno da participação, do gerenciamento comum do poder e da cidadania. Sem deixar de reconhecer que nossa forma ou estrutura é viciada e que deva ser alterada de modo a tornar-se mais eficiente e assim mais democrática.
Não é nem pelo individualismo e pela destruição, necessária, do macro estado e menos ainda pelo retorno ao despotismo que devemos sair da democracia burguesa, formal, parlamentar ou representativa mas por meio da democracia direta ou da policracia.
Nosso objetivo deve ser construir, na dimensão do macro estado, novos mecanismos capazes de ampliar a participação popular ou a cidadania, além é claro de empregar os mecanismos consagrados do plebiscito e do referendo com uma assiduidade cada vez maior. Devemos além disto priorizar a política de base resgatando o velho ideal do municipalismo, pois é na esfera do município que se torna possível um nível maior e mais profundo de participação.
Dentro desta perspectiva é claro que o voto acabará perdendo seu brilho artificial. Terá cada vez mais um peso relativo.
De certo modo o próprio abstenceísmo não deixa de presumir demasiadamente do voto e de emprestar-lhe muito importância. Pois aposta que o aumento dos votos nulos levará o sistema ao colapso.
O quanto podemos dizer sobre a realidade do tempo presente chega a ser simples - A propaganda posta em circulação nos meios de comunicação e que identifica a cidadania ou a política com o ato de votar é tendenciosa. Votar não solucionará todos os nossos problemas e isto pelo simples fato de que outros também votam, de que ignorantes e canalhas votam, de que as massas sem consciência votam... Assim, a cidadania pressupõem certo 'proselitismo' ou cerra dose de conscientização. Temos de discutir, de dialogar, de debater sobre política, temos de argumentar e de ganhar o outro, temos de persuadir o outro sobre a importância do voto cidadão, temos de nos engajar na política antes de dizer que a política não presta.
Platão já dizia que não se fará uma boa política sem a participação dos bons cidadãos. E é aqui que a abstenção, fuga ou omissão dos virtuosos enojados dará espaço e poder aos maus... Caso nos retiremos o preço a ser pago será sermos dominados pelos maus ou pelos inferiores, pelos ignorantes, pelas massas...
O Brasil é exemplo vivo disto.
Bolsonaro e seus apoiantes, assim como a sinistra bancada 'evanjéguica' correspondem a minorias ou a elementos minoritários muito bem articulados que auferem imenso benefício da abstenção por parte dos que não concordam com seus respectivos ideários. Pois bem, estas pessoas virtuosas e conscientes poderiam ajudar-nos a conter estas duas ameaças, mas preferem lavar as mãos como Pilatos e não participar, não interferir.
Digo mais. Com o apoio de tanta gente boa mas desiludida seria muito mais fácil transferir o poder para pessoas que não fossem apenas honestas mas que fossem aptas, digo bem informadas, inteligentes, capacitadas, hábeis, engajadas, etc Querendo ou não as nossas vidas são reguladas e atingidas penas decisões tomadas pelo poder político; e abstenção alguma muda isto. Querendo ou não as pessoas humildes, os trabalhadores, os assalariados, os jovens, as crianças, as mulheres e até os animais e o meio ambiente tem suas existências alteradas ou influenciadas, para melhor ou para pior, pela esfera da política institucional. Querendo ou não o que eles, os políticos profissionais, fazem repercute em nossas vidas sob a forma de qualidade ou de indignidade.
Diante desta realidade inegável fico perguntando-me se não seria melhor partir de princípios e valores saudáveis para escolher representantes leais, dedicados a justiça social, a promoção humana e ao bem comum??? Talvez eleger alguém com tais características seja fazer o mínimo ou alguma coisa. Digo eleger alguém que além de honesto, probo e impoluto seja também conhecedor da realidade social e aspire transforma-la, a partir de uma demanda ética. Agora na falta de semelhante pessoa porque ao invés de criticar e maldizer também não entramos nós na arena da política levando esta ética, estes princípios, estes valores???
Votar com consciência pode ser parte mínima e cada vez mais mínima, no entanto, mesmo assim, faz parte. Não alterará radicalmente as coisas, mas talvez ajude a impedir que elas piorem radical e aceleradamente. Talvez não possamos fazer todo bem que desejamos, mas sempre será possível conter algum mal.
Assim entre a abstenção e o idealismo romântico tomemos por critério um sóbrio realismo. Quem sabe fazendo pouco ou o mínimo seja melhor do que nada fazer ou que sonhar com futuros incertos e imaginários. Talvez abandonar esta forma precária e fragilizada de democracia e permitir que se degenere ao máximo venha a ser o caminho da mais abjeta servidão. Talvez sirva não a propósitos libertários mas a propósitos ainda mais totalitários, opressores, despóticos e tirânicos dos quantos se achem em operação no tempo presente. Afinal, ao fim da linha, que poderá saber quem ou o que substituíra o sistema que temos??? Quem poderá garantir-nos de que não sobrevirá algo ainda pior, mais sórdido e mais destrutivo???
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terça-feira, 18 de setembro de 2018
Curso de Política I - Voto: Entre a abstenção e o pensamento mágico.
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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
Problemas de democracia pura ou direta - Era Políbio um sabotador?
Quando penso no impacto ou melhor no incomodo ou no pavor produzido pela ideia de democracia direta em certas mentes o único equivalente que me ocorre é a afirmação do Jesus Revolucionário em oposição ao rabino embiocado da tradição conformista...
Em certas rodas emancipadas discorrer sobre a democracia direta é ofício tão amargo quanto discorrer sobre o Jesus 'Evangélico' i é feminista, socialista, não homofóbico, etc num ambiente sectário...
Isto porque vivemos numa civilização oficial ou aparentemente democrática!
No entanto para muitos nosso enfoque ainda corresponde a um tabu ou a uma utopia e não poucos desmiolados ensaiam relaciona-lo com Marx, Engels ou o odiado espantalho do Comunismo. Quando estamos falando em Clístenes... outra lingua, outro departamento.
E no entanto a evolução atinente aos meios de comunicação e transporte bem como criação da Internet torna essa realidade tão perseguida não apenas possível mas perfeitamente viável e o Demoex constitui apenas um exemplo neste sentido.
O mundo virtual é que haverá de franquear acesso ao universo da democracia direta tornando possível sua construção.
Não é que antes sua construção fosse impossível.
A construção da democracia direta jamais foi impossível.
Ser indesejável ou inviável a qualquer título não comporta impossibilidade.
A construção era possível porém em termos bastante restritos ou diminutos, resolvendo-se desde o tempo dos gregos na cidade/estado, e até podemos dizer que a cidade/estado era a 'cruz' da democracia direta.
Pois a afirmação da cidade estado dependia - e sempre dependerá - da demolição do macro estado ou do estado nação.
Aparentemente nada mal até aqui.
Destruamos o macro estado ou o estado nação.
Acontece 'coisa meiga' que não existe apenas um estado nação ou macro estado abstrato, mas praticamente duas centenas de países ou de estados nações espalhados pelo mundo.
Qual deles você espera destruir primeiro?
A indagação é pertinente porque quando você destruir o primeiro macro estado ou estado nação e decompo-lo em dezenas ou centenas de comunidades regidas segundo o princípio da democracia direta, deve estar pronto para aguentar o repuxo dos países vizinhos, os quais de imediato tentarão submeter as pequenas cidades/estado buscando aumentar seu próprio território e poder.
Assim ao aniquilar um estado nação sempre podemos estar alimentando um estado nação ainda maior ou um Império. Trotsky bem sabia que um estado cuja economia seja diferenciada e bem sucedido tende a produzir alterações no Mercado global. Daí a necessidade de por meio da força desmontar qualquer pais ou sociedade socialista ou de economia alternativa e não integrada. A implantação de um novo modelo econômico não capitalista deverá acontecer em esfera global pelo simples fato de que o capitalismo é global. Do contrário os países dominados por esta ideologia não hesitarão atacar aqueles que se desviarem... Em certo sentido é a mesma dinâmica que toca as cidades/estado ou as pequenas comunidades auto geridas.
Ou o modelo das cidades/estado será universalmente adotado ou malogrará sucumbindo a ambição dos demais estados, dos estados imperialistas. Em certo sentido os países ou macro estados anulam a força ou o poder um dos outros e intimidam-se mutuamente pela relativa proximidade do tamanho. No entanto entre os macro estados e as cidades/estado a disparidade chega a ser assombrosa e a ameaça de dominação real.
Triste mas real, criem uma reserva indígena autônoma em qualquer lugar do mundo, reconheça e afirmem sua independência e não dou um ano para que não venha a converter-se em base e província dos EUA. O mesmo argumento vale igualmente para a criação de comunidades auto geridas ou das cidades/estado segundo o modelo grego.
O que nos leva ao historiador Políbio, o qual bem poderia ser classificado como sabotador da democracia pura ou absoluta, sujos méritos não reconhece, propondo uma solução mista (vide artigo anterior). Não Polibio mesmo sendo grego não apreciava a democracia direta. Pois conhecia melhor do que ninguém a experiência grega.
Certamente não fora a democracia que produzira a cidade/estado. A cidade/estado certamente precede a democracia e lhe serve de cenário. E ela nem fora um problema até o momento em que as ondas do Imperialismo oriental, no caso persa, chegaram as praias do mar Egeu.
Até o século VI a C viviam os europeus, inclusive os gregos, isolados dos mundo 'civilizado' em seus rincões paradisíacos. O mundo oriental no entanto 'girava' já há vinte e cinco séculos, desde os tempos dos Sumérios e Egípcios e desde os tempos de Sharukin senhor de Agadê ou do grande Faraó Tutmósis III buscavam tais povos dominar uns aos outros e unificar o governo sob o 'Imperium'. Pouco antes dos Persas os ferozes assírios - comandados pelo fabuloso Sardanapalo (Assurnabipal) haviam consagrado todas as energias de seu pais a este ideal e depois deles, por algum tempo, os babilônicos de Nabu kuduri Usur.
No entanto se qualquer algum deles teve conhecimento sobre a existência da Península balcânica e seus habitantes, certamente que jamais pretendeu conquista-la. Sobretudo tendo um Egito ou uma Caldeia assim tão perto... Aquilo sim compensava pelo substrato de riquezas ou mesmo de cultua acumulada. Não a Grécia com suas montanhas e terras infecundas, alias igualmente pobre em termos de cultura.
Dia veio no entanto em que o Império posterior ao Babilônico acabou estendendo suas fronteiras orientais até o Indo e as Ocidentais até a Lídia (na Ásia menor), pátria de Creso, e em fim a um grupo de cidades jônias situadas a borda do Mar Ocidental. Apesar de terem esboçado alguma resistência tais cidades foram logo adicionadas pelo Império, o qual havia por assim dizer chegado a seus termos. No entanto Império algum atinge seus termos enquanto haja terra para ocupar ou reino para conquistar. E para a infelicidade dos gregos peninsulares a China achava-se bem mais distante de Susa ou de Persepolis. De modo que a opção mais viável era a Grécia peninsular, isto no dealbar do quinto século a C.
Quando o poderoso Império Persa lançou suas cobiçosas vistas sobre a pequenina Península balcânica, ela já se achava coalhada de pequenas cidades rivais umas das outras. Em Atenas, uma das maiores e mais promissoras a democracia fora estabelecida por Clístenes há quase vinte anos, assim em outras tantas cidades embora algumas ainda correspondessem a monarquias e outras fossem comandadas por algum tipo de aristocracia. No entanto a democracia era a ideologia do momento e propagava-se como uma epidemia através dos apóstolos enviados por Atenas o que não deixava de produzir sedições e certo tumulto...
No entanto os atenienses obtiveram a vitória em Maratona. Quando a Dário foi repousar com seus pais pouco tempo depois.
Todavia, desde aquele momento Xerxes, mais prevenido e menos entusiástico, não pode mais retirar suas vistas da Grécia. No entanto, ainda mais uma vez, Atenas e seus parceiros obtiveram arrasadora vitória em Platéia e Salamina. Desde então o Império dos Persas recolheu-se e limitou-se a observar o campo rival.
De fato os belicosos atenienses haviam contido o gingante persa, mas de modo algum abatido-o e não podiam os gregos separados em pequenas cidades estado cogitar em conquista o Império Persa. Diante disto sucedeu a boa parte dos cidadãos gregos, inclusive a parte dos atenienses, a ideia de unificar politicamente o pais.
Somente unificada poderia a Grécia conquistar o Império Persa e livrar-se duma vez para sempre daquela ameaça que jamais cessará de espreita-la.
Além das divergências em torno do regime e da forma políticas, a ideia da unificação converteu-se num elemento a mais de desarmonia entre os gregos e assim as arbitrariedades e ambições imperialistas de Atenas e disto resultou o que havia de pior para os gregos: A oposição e a guerra (e portanto a vulnerabilidade e o desguarnecimento) ao invés da acalentada unidade, cada vez mais distante.
De fato a Guerra do Peloponeso foi um evento desastroso que não deixou de repercutir em muitas consciências. Os gregos já sabiam e a muito tempo que a prática da democracia num contesto politicamente unificado seria impossível, todavia, foi o conflito entre as cidades que tornou este tema por assim dizer muito mais agudo, convertendo-o numa espécie de dilema.
E o dilema foi posto nos seguintes termos: Unidade Política ou Democracia?
Seguiu-se um debate que prolongou-se por quase setenta anos.
Entrementes as lutas fratricidas entre as cidades prosseguiam e dentro de diversas cidades as turbações causadas pela sucessiva troca das formas de governo. Era um pandemônio e muitos cidadãos achavam-se extenuados. Outros tantos cidadãos temiam por um ataque iminente dos persas. Apenas a sorte ou seja as condições igualmente precárias do Império impediram que a Grécia fosse conquistada durante o século IV a C.
Foi quando apareceu Alexandre.
Alexandre era bárbaro pelo nascimento posto que macedônio i é não grego. No entanto fora educado por Aristóteles e por isso culturalmente grego e em certo sentido herdeiro das tradições helênicas. Tal e qual seu pai, homem de visão, Alexandre percebeu que assim que o Império se recuperasse, logo na primeira oportunidade conquistaria a Grécia e daria cabo da cultura grega. Era um risco potencial e só poderia ser evitado caso a Grécia somando forças atacasse e conquistasse o Império.
No entanto, devido as cidades/estado e ao regime democrático a unificação de dentro para fora era impossível. Separados pela democracia e pelos limites de suas cidades os gregos jamais chegariam a qualquer acordo. Foi quando o príncipe Alexandre, filho de Filipe, um macedônio, um bárbaro, um profano, decidiu conquista a Grécia e unifica-la de fora para dentro, a revelia de seus cidadãos.
Que Alexandre tenha deliberado conquistar a Grécia e unifica-la não nos deve surpreender. Alias se ele não o fizesse os persas o fariam.
O que nos deve surpreender e pede explicação é a pouco e quase nula resistência esboçada pelos gregos, inclusive pelos atenienses, zelosos defensores das tradições democráticas. Para Alexandre conquistar a península foi quase como colher um fruto maduro. Entrou pacificamente na maioria das cidades quando não foi aclamado por seus habitantes. Em Atenas não foi demasiado diferente apenas Demóstenes disparava seu verbo solene em favor do liberalismo político e da democracia! E que verbo! Em situações bastante raras o verbo revestiu-se de formas tão belas até a sublimidade. Todavia como não é dado a palavra e mesmo a beleza disputar com a realidade das coisas, venceu o partido de Ésquines. E o bárbaro Alexandre foi aclamado como libertador e herói no santuário da democracia.
Para alguns foi a suprema profanação, para outros no entanto a conquista de Alexandre e unificação política constituiu de fato um progresso. Parafraseando o apóstolo Paulo diriam alguns que a democracia antiga ou grega das cidades/estado precisava morrer, a semelhança do grão de trigo, para germinar, brotar e renascer com maior vigor nas sociedades futuras.
Então o significado dos gregos em geral e dos atenienses em particular terem acolhido tão benevolamente ao príncipe macedônico coloca-se nos seguintes termos: Ou mantinham a democracia, as cidades/estado, a divisão e o conflito, e ficavam vulneráveis face ao colossal império persa, pondo em risco a totalidade de sua cultura e visão de mundo (admitindo-se que os persas submetessem a península) ou sacrificavam parte desta cultura, a saber a democracia e a existência das cidades/estado, deixavam-se conquista e unificar por um príncipe helenizado (ou culturalmente grego) e davam cabo do odioso Império Persa.
Claro que a maior parte dos homens ponderados optou pela segunda alternativa: Sacrificar a democracia para salvar o restante da cultura. Poucos dentre eles mostraram-se dispostos a manter autonomia das cidades, mesmo sabendo que era condição 'sine qua nom' a democracia não podia subsistir. Como num avião que perde altitude alguma coisa tinha de ser lançada fora para aliviar o peso e naquela conjuntura a melhor coisa a ser lançada fora era a rivalidade existente entre as pequenas cidades e juntamente com elas a democracia. Viabilizar uma democracia direta em larga escala é o que os antigos gregos não podiam com os rudimentares meios de transporte e comunicação que possuíam. Se ao menos contassem com rádio, TV, Internet... Mas não contavam. Uma democracia de proporções maiores do que uma cidade era inviável, utópica e até prejudicial por jamais poder estender-se para além da cidade e fazer frente aos grandes reinos e Impérios bárbaros.
Desde então ficou o conceito de democracia sob sua forma pura, legítima ou direta associado ao espantalho da 'cidade/estado' e como tal sujeito as mais severas críticas por parte dos pré cientistas políticos, dentre os quais Políbio, para quem a forma romana, impura e mitigada de democracia, existente dentro de um sistema misto era bem mais atraente pelo simples fato de poder ser posta em prática numa escala mais ampla. Pois o Senado romano é aristocrático e representativo, apresentando-se já a solução inglesa da representatividade proposta por J Locke. Antes da Internet um ideal de macro democracia relacionado com um estado nação ou macro estado, devia ser necessariamente representativo. Ainda hoje imitamos mais aos romanos do que aos gregos, embora já possamos imitar os gregos e retomar seu ideal de democracia direta ou pura.
Portanto mais do que vil sabotador, Polibio foi um critico realista, salientando os obstáculos naturais a democracia direta, segundo as circunstâncias daquele tempo e a História da antiga Grécia, que conheceu como poucos. Assim se aspiramos pela implantação da democracia pura e direta no macro estado convém analisar e ponderar sobre a crítica estabelecida pelos antigos.
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