Mostrando postagens com marcador Epistemologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Epistemologia. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Entrevista - Continuação

02) Tipo Wallon, Piaget e Vygotsky?

Sem dúvida. Constrói-se o ser humano a partir do que recebeu ou trás, ordenando o conhecimento e estabelecendo relações orgânicas. Não é ele responsável pelo que é ou recebeu mas é responsável pelo que faz com o que é ou recebeu, na magnífica definição de Sartre. Parece que a capacidade de superar-se e de ultrapassar aquilo que ultrapassar aquilo que o influencia e limita faz parte de sua condição. 

O realismo no entanto, e tal realismo tem um acento trágico, considera que em parte dos humanos tal capacidade existe e existirá apenas como potência, jamais vindo a converter-se em ato. Isto por não ser ativada ou excitada pelo meio externo ou por uma educação de qualidade. O exercício da racionalidade precisa ser despertado pelo esforço educativo, o qual por isso mesmo é dever da comunidade, do grupo social ou do Estado. Pois é a partir da experiência educativa que as potencialidades humanas, em termos de habilidades e competências, tornam-se realidades. O que implica a necessidade de uma educação integral, que coloque as pessoas em contato com as principais correntes de pensamento, inclusive com as que sabemos não serem sadias, de modo a que as pessoas, atuando criticamente, façam a seleção. 

Uma educação completa ou integral não pode excluir qualquer elemento ou ser meramente técnica, como pretende este governo ideológico, acrítico e colaboracionista até o sectarismo, pressupondo que vivamos no melhor dos mundos ou sociedades possíveis e que nos devamos conformar com a injustiça. 

Uma educação humanista, integral e completa abarca a história da Filosofia ou do pensamento, a História da arte, a História das crenças religiosas, a História dos sistemas econômicos, Teoria sociológica, Teoria psicológica, Epistemologia, Gnoseologia, Ética, etc Nenhum destes conteúdos é inútil ou ocioso. Não é questão de luxo mas de colocar o ser humano em contato com universo de seu pensamento. Tampouco é necessário, ao apresentar tais conteúdos, afetar uma neutralidade artificial - Segundo os falsos pressupostos do positivismo - bastando que o expositor seja honesto, ou seja, que assuma leal e publicamente seus pressupostos e que jamais falsifique as opiniões de qualquer autor, atribuindo-lhe apenas o que ensinou. 

Na medida em que tais conteúdos são negados a parte dos cidadãos ou que lhes é imposta uma restrição que nada tem de neutra, lhes é negada uma contemplação mais ou menos completa da realidade psicológica, mental, social e histórica, e só podemos classificar uma tal negação em termos de ocultação intencional, e portanto de crime. Nem pode o Estado ocultar a realidade humana em sua complexidade, esconder, disfarçar, etc sem tornar-se manipulador. Implica tal opção - Sob quaisquer aspectos anti ética - alienar parte dos atores sociais e produzir massas. Todas as vezes que o Estado patrocina a ignorância ou a alienação ao invés de dilatar as fronteiras do conhecimento torna-se criminoso ou pecador.

Enfim nós acreditamos que o conhecimento da realidade ou o ensino integral (Que assume um conteúdo Ético) seja por si só libertador e que em certo sentido (Não no convencional empregado pelos sectários!) equipare-se a tão sonhada revolução. Os verdadeiros arsenais estão em nossas bibliotecas, as autênticas armas são os livros e a bomba mais poderosa é a informação associada a reflexão. 

Ema educação meramente 'positiva' ou técnica implica viés materialista e pragmático. É como dissemos educação aparente ou superficial, destinada a definir o espaço ou local do cidadão na sociedade e a criar excelentes empregados, operários, trabalhadores, subalternos, colaboradores, etc sempre incapazes de questionar a Sociedade ou de dialogar com ela. Fornecer uma educação para certo tipo de trabalho é negar oportunidade ao cidadão e fixa-lo. É sobretudo oferecer uma vidinha comum, prosaica ou trivial. É esterilizar o espírito. É destruir vocações. É condenar possíveis pensadores, cientistas, artistas, etc a inexistência. É mutilar o ser humano e fabricar possíveis fanáticos religiosos, marionetes, robôs, zumbis; em suma negacionistas. 

Temos de nos opor a esse tipo de educação limitada, sumária, superficial, seletiva... O qual trará morte ao espírito e acelerá a decadência da civilização. Precisamos de uma educação ou melhor de uma formação integral e humanista que fuja aos pressupostos artificiosos do positivismo e possibilite ao educando posicionar-se criticamente face a realidade do mundo.

02) Escola sem partido ou Ideologia?

A Ideologia porta-mo-la todos nós, cada um de nós, inclusive o positivista que afeta ser cem por cento objetivo. O positivismo no entanto é uma Ideologia como outra qualquer, assim como o Capitalismo - Que tampouco se assume quando busca formar colaboradores ingênuos e acríticos a partir do ensino público. - o ateísmo, o materialismo, etc  

É como nariz, cada qual tem o seu.

Importa que o educador, ao invés de afetar um a neutralidade utópica ou hipócrita, seja honesto ou leal, apresentando a suas turmas seus pressupostos ou sua afiliação ideológica e que ao expor o roteiro teórico da Psicologia, da Sociologia, da Filosofia ou da Pedagogia ao invés de fazer uma seleção sectária ofereça um panorama geral quanto possível completo. É necessário por fim que jamais falsifique as informações, atribuindo a cada pensador ou teórico o que realmente disse ou ensinou. 

Como no entanto é e deve ser a Escola, como salientou Dewey, uma organização democrática destinada a criar democratas, é natural que haja ampla liberdade de ensino, resultando desta abusos e confusão. No entanto é melhor conviver com os abusos de uma educação democrática ou liberal do que estabelecer uma educação autoritária no sentido de estabelecer um currículo fechado verticalmente imposto por ideólogos ainda piores. Aqui a atuação do sectarismo seria ainda pior e a emenda sairia pior do que o soneto. Melhor cometer equívocos por excesso de liberdade do que criar um currículo fechado, sectário e aparentemente objetivo.

Julgo no entanto que em meio a uma saudável esfera de liberdade deva haver um critério ou padrão sumário. De modo a evitar-se qualquer tipo de pregação ideológica semelhante a dos pastores e fanáticos. Concordo com certos críticos e reconheço que não é aconselhável ou de bom tom converter o plano de aula em catecismo comunista, fascista, nazista, capitalista ou anarquista. E julgo que o educador deva ou seguir o currículo, em parte completo, oferecido pelo Estado ou em caso de objeção, criar um roteiro completo e abrangente, que lhe permita circular com a sala pelas principais teorias ou doutrinas que compõem o ensino de sua disciplina. 

A melhor solução todavia me parece acompanhar a curiosidade dos alunos estimulando-os aula após aula a tirarem suas dúvidas ou a fazer perguntas. Creio que o melhor método consista em ouvir os educandos, permitindo, sempre que possível que a demanda intelectual e teórica parta deles. Dar voz ao aluno (E até empregaria o termo 'protagonismo' caso não estivesse batido.) é uma solução excelente. Quando uma pergunta parte de um aluno toda e qualquer restrição é criminosa parta do professor, d diretor, do dirigente, do secretário da Educação, do Governador, do ministro ou do presidente da República... Pois esse aluno tem direito ao saber, ao conhecimento a uma resposta consistente. 

Ofereçam o roteiro ou o currículo aos alunos e não hesitem, em caso de interesses divergentes, passar ao sufrágio. Permitam que o grupo ou a sala escolha o curso das aulas, que estabeleçam as prioridades. Convoquem os educandos a opinar. Partam da demanda ou da solicitação da turma e o ensino será democrático. 

Se os alunos perguntarem sobre o comunismo, exponham honestamente os ensinamentos de Marx, mesmo quando discordem dele. Se questionarem sobre o anarquismo ofereça-lhes Godwin, Stirner, Proudhon e Bakhunin, e Sorel; ainda Tolstoi, Kropotkin, Ellul, etc Se pedirem informações sobre o fascismo exponham fielmente as opiniões de Mussolini; e assim sucessivamente sem medo, receio u temor - Pois tal é a missão de um bom professor: Informar seus alunos. 

Partam dos alunos e não de vocês, é o que aconselho a todos os professores, inclusive aos sectários. E cessem com essas pregações impositivas e toscas. Do contrário os autoritários vão usar esse argumento contra a liberdade de ensino e convencer muita gente. 

03) Gnoseologia -

Sou por uma Gnoseologia forte e positiva.

Noutras palavras sou partidário de um dogmatismo moderado ou da possibilidade do conhecimento. Portanto contrário a afirmação cética, alias contraditória em si mesma, a menos que o ceticismo corresponda a uma exceção enquanto única verdade. Caso o ceticismo deva ser posto em dúvida que credibilidade merece ele? É uma proposta frágil e insegura.

Ademais pressupõe o ceticismo uma antropologia pessimista ou negativa, a qual é, por definição artificial, partindo sempre de crenças ou mitos, jamais duma análise sóbria da própria natureza. 

Caso Sorel alegue que é o dogmatismo ou a antropologia otimista dos antigos gregos fruto de sua realidade social, respondemos que a antropologia pessimista é fruto de conjuntura social ingrata, posterior a morte de Alexandre e a decomposição de seu Império... Dos epígonos, dos diádocos, etc

Ademais esse tipo de antropologia intrusa teve já seu roteiro e sua gênese traçada, reportando ao misticismo oriental, assim a Buda, a renúncia da vontade e ao nirvana. Haja visto que Pirro de Elias, segundo Laércio e outros doxógrafos gregos, havia sido ouvinte dos bicus... Nada de Filosófico aqui.

Para além disso admitimos que o otimismo ou realismo antropológico, em que pese seu caráter natural e naturalista, seja assimilado com mais facilidade por uma sociedade afortunada e segura de si. A admissão de um determinado padrão antropológico não é alheia ou indiferente a uma dada condição social, o que não significa que derive necessariamente dela.

Outro o caso do pessimismo. O qual jamais se sustentou sem petição a algum mito ou crença religiosa. O que continua sendo válido em nossos dias e em nossa cultura - Em que o pessimismo antropológico e cognitivo de modo geral é tributário do agostinianismo (Assim do Jansenismo, do luteranismo, do calvinismo e do protestantismo...) e este enfim do Maniqueísmo, Ideologia muito mais mazdeísta ou zoroastriana do que Cristã. 

Mesmo a igreja apostólica romana, admitindo um agostinianismo diluído, em diversos graus ou níveis, não deixou de portar e transmitir alguma dose desse veneno. Cuja aceitação por sinal, foi potencializada pela queda do império romano e pelo advento dos bárbaros germânicos no Ocidente e pelo advento do islã no Oriente. 

Nada de sério no pessimismo antropológico ou em seu resíduo cognitivo, mero epifenômeno de lendas religiosas potencializado por situações de crise ou decadência - Como a nossa... E reforçado seja pela baixa estima seja por um falso sentimento de culpa inconsciente.

Compreensível que nossa civilização decadente se tenha convertido em viveiro ou sementeira do Ceticismo. 

No entanto o que devemos considerar é a condição do ser humano. 

04 - Por que?

Porque o ser humano demanda pelo saber ou pelo conhecimento como demanda por água e alimento.

Alias enquanto o corpo demanda por água e alimento, a mente demanda pelo saber do qual se alimenta.

Admitir que jamais obtemos qualquer tipo de conhecimento e que nossa ignorância seja invencível é dar nossa espécie por frustrada. 

Coisa admirável, demandar a vontade por algo que esteja acima de nosso alcance ou seja impossível.

Além disso parte da espécie esta persuadida de que nosso aparelho cognitivo seja eficaz. 

Diante disto seriamos autorizados a concluir que as laranjeiras e bananeiras ao produzirem laranjas e bananas cumprem com sua função ou atuam conforme a natureza.

Nós no entanto apesar do propósito e de um aparelho cognitivo, falhamos... sendo como que abortos da natureza. Situação patética e dolorosa.

Estrelas, montanhas, árvores e vermes são mais felizes do que nós por não terem mínimo grau de consciência. Nós no entanto temos consciência para perceber que somos presas duma ignorância insuperável. 

Nada mais dramático do que ter consciência da própria ignorância e saber que nada pode ser feito para remediar tal condição.

Por tal via se chega muito rapidamente ao nihilismo crasso e logicamente ao suicídio.


05 - Epistemologia?

Sou partidário do realismo objetivo vinculado a escola de Aristóteles e dos escolásticos medievais, ou se preferem o senso comum de Th Reid. 

Quero dizer com isto que admito a existência da verdade, de algumas verdades absolutas e de certas verdades relativas porém não menos verazes.

A parte é maior do que o todo. Penso Logo existo. É o homem um ser para a morte.

Aqui quem duvida passe ligeiro a demonstração.

Recebo o óbvio ou o axiomático como verídico assim o que é comunitária ou socialmente percebido, embora hajam exceções. Nossos sentidos são limitados e por vezes falham, o que não significa que falhem sempre ou que nos enganem a todo momento.

Alias por ser limitado nosso conhecimento não se torna falso ou errôneo, pois são conceitos ou perspectivas distintas.

Considero não apenas válida como profunda a resposta dada por Antíoco de Ascalon aos relativistas e subjetivistas de seu tempo: Caso a experiência fosse criada pelos sentidos cada qual criaria a sua experiência e a sua verdade. Cada qual conceberia um mundo a parte e jamais nos poderíamos entender. Se nos entendemos é porque existe um fundo comum percebido por todos. Uma vez que aqueles que possuem a mesma qualidade dos sentidos percebem as mesmas formas, cores ou sons sem prévio acordo somos levados a concluir que as impressões sensoriais procedem não dos sujeitos cognoscentes e sim das coisas ou dos objetos.

Dizer que uma caneta é ou pode ser um lápis segundo a vontade do sujeito é emprestar demasiado poder as palavras. O que por birra ou capricho dizemos não muda a natura das coisas, e o contrário disto é o velho antropocentrismo. Semelhante aquele outro princípio falacioso segundo o qual existe o que é percebido... Todavia as estrelas e mundos que nos vemos continuam a subsistir sem das a miníma importância para nós ou nossa percepção. De fato você pode dar a um alfinete o nome de preskia, o alfinete no entanto continuará sendo aquilo que é, algo que pontudo que serve para furar. Também pode chamar um copo de avião, agora demonstrar que seja avião, entrando nele e decolando, esta acima de suas forças. De fato toda essa questão segundo a qual posso fazer dos objetos ou das coisas o que quiser é sempre pura balela, no máximo mudamos os nomes, não a essência das coisas. É um jogo de palavras miserável.

O que a coisa ou objeto é para cada um de nós ou para os indivíduos é irrelevante, importa o que os objetos ou coisas são em si mesmos e o que informam-nos sobre si mesmos. 

06) Verdade?

Relação de equivalência entre dado objeto ou coisa e nosso intelecto. Quando nossos sentidos detectam algo que se encontra presente no objeto temos este fenômeno relacional que é a verdade. Alias a verdade é sempre relativa, não quanto a vontade do sujeito, mas quanto ao objeto que é seu critério. 

Quando um grupo de estudantes percebe a forma retangular do quadro negro temos uma verdade. Quanto uma turma percebe a cor azul do armário temos outra verdade. Cada vez que atribuímos ou negamos determinada qualidade a um ser em conformidade com sua condição temos a verdade.

07) Critério ou padrão?

A evidência ou algo que nos é seguramente transmitido ou revelado pelo objeto ou, simplificando, a coisa ou o objeto.

08) Não o sujeito ou o aparelho sensorial?

De modo algum. O aparelho sensorial ou cognitivo limita-se a apropriar-se de um dado ou de um aspecto transmitido pelo objeto. Percebem os sentidos aquilo que está no objeto equivalendo portanto a um simples meio ou veículo. Percebemos através dos sentidos e não os sentidos. O quanto percebemos pertence ao objeto e nele se encontra.

09) Método, roteiro ou caminho?

Principiamos pela sensação e chegamos a relações bastante complexas que partem do Silogismo percorrendo um longo caminho: Sensação, Percepção, Abstração, Comparação, Conceito, Juízo (Que é uma relação afirmativa ou negativa entre dois conceitos) e Silogismo, a partir do qual temos diversas formulações lógicas. Isto quanto a nossos processos cognitivos triviais e comuns, a respeito dos quais nem sempre estamos conscientes ou fazemos quaisquer observações.

Caso atentemos ao esquema perceberemos que o conteúdo do conhecimento principia com a ação dos sentidos i é com a sensação e a percepção, posto que ao nascer não trazemos ou portamos qualquer conteúdo formal. O que, como já dissemos, não quer dizer que não portemos uma orientação esquemática, como uma espécie de programação de computador, destinada a ordenar o conhecimento adquirido. 

Com a abstração e a partir dela entramos nesse universo mental, lógico ou racional, que nos leva a formulação não apenas de silogismos mas de fórmulas, leis e teorias. 

Pois o roteiro do que conhecemos por ciência obedece ao mesma ordenação comum. Posto que inexiste experiência pura que por si mesma converta-se em fórmula, lei ou teoria. De fato se o ponto de partida para a Lei ou a Teoria são os dados coletados pela ciência, os esquemas de análise e síntese fogem já por completo a experiencialidade pura, correspondendo a operações mentais. Isto para não falarmos na na formulação daquela relação de termos que procede da natureza mesma das coisas. Essa relação, que é a Lei, é aduzida ou formulada pelo sujeito partindo de conceitos comuns que não são, necessariamente falando, objetos da experiência. Nem poderíamos levar a experiência aos primeiros princípios ou aos axiomas sem fazer eterna petição de princípios...

De modo que a ciência não é apenas experiência mas uma reflexão ponderada sobre os resultados da experiência dentro de um aparelho conceitual definido.

Segundo a visão equilibrada do Conceitualismo o conhecimento, seja qual for, resulta da ação comum e coordenada dos sentidos ou da experiência e do raciocínio ou da reflexão. Sendo fruto da empiria e da razão. Empirismo crasso e racionalismo crasso não passam de posicionamentos extremistas e equivocados. 

10) Metafísica?

Como já foi dito por Schopenhauer "É o homem um animal ou ser metafísico." 

E mesmo sem querer faz metafísica.

Por isso não partilho dos preconceitos do luterano I. Kant, alias tomados ao irracionalismo de Lutero, tributário de Ockhan e enfim do já citado Agostinho com sua antropologia pessimista. Nada de consistente nessa filosofia alemã, espécie de protestantismo secularizado. Prefiro, decididamente a Filosofia grega ou clássica, a qual não tinha vergonha alguma de ser metafísica.

Alias o ateísmo e o materialismo tão em moda nestes nossos tempos são metafísicas, ainda que muito mal formuladas. Apenas o agnosticismo, que é uma espécie de ceticismo limitado ao raciocínio, não seria tão metafísico. Incerta ou dúbia a posição de Kant pelo simples fato de ter buscado estabelecer limites ou fronteiras, o que ao contrário do ceticismo crasso supõem sim uma metafísica, da qual os positivistas são tributários. 

De qualquer modo ou maneira nada me parece mais monstruoso do que os ateus e materialistas clamarem contra a metafísica. Sabe ao espiritismo kardecista apresentando-se como científico. E ao próprio positivismo. Tudo bem século XIX... Pretensa objetividade. 

Bem nós não buscamos disfarçar qualquer coisa, e fazemos metafísica séria e consciente a partir de um aparelho conceitual aristotélico sujas fontes chegam a Parmênides e a Anaxágoras.

Nem seria possível negar a metafísica ou arbitrariamente a Ontologia ou a Teodiceia apenas sem tocar a gnoseologia e a epistemologia tão habilmente manejadas pelo alemão, e o que é ainda pior ou mais grave, sem comprometer a estética e enfim a Ética. Embora Kant tenha tentado salvar a Ética em sua 'Razão prática' desde Litreé, Levy Bruhl e Ayer, o qual proclamou-a como sem sentido e vazia de significado. 

Enfim declarar que nossos conhecimento é aparente, provável, ilusório, superficial ou convencional e não essencial ou real me parece pior do que o ceticismo que nega possibilidade. Melhor negar a possibilidade do saber do que converte-lo numa farsa ou em algo não consistente. 






sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Contraponto ao cientificismo, incongruências...

Esta o cientificismo para a ciência como uma Hipertrofia.

Nada mais é ele do que a última barreira posto por alguns entre o conhecimento e o ceticismo crasso.

Afinal após se ter voltado contra a fé religiosa e julgado te-la esmagado voltou-se essa construção metafísica contra a Filosofia, julgando poder por limites a razão e estabelecer o paradigma do empirismo crasso ou da experiencialidade pura. O que de fato foi insinuado por Kant e canonizado por Comte e seus adeptos os positivistas. As objeções já de início foram insidiosas, já porque a epistemologia ou a gnoseologia não são parques de diversões ou tendas circenses... Monstruosa a simples suposição de uma experiencialidade pura a parte da dedução racional que sempre a acompanha. Mas por que raios a razão deve servir apenas de dama de companhia?

Os céticos optaram preferencialmente por nega-la. Creio ter sido mais digno e respeitoso. A fé já converterá, insolentemente, a razão em serva. Eis que agora é ela, a fé, imitada pelo novo credo cientificista...

E no entanto é este homem, o homem moderno ou o homem de ciências moderno, mera abstração. Antes foi filósofo natural, e como bem diz Koestler, tal diz muita coisa. Não se faz teoria cosmológica sem aparato racional... Pois queiram ou não é exercício metafísico. Teorias gerais tem sido proclamadas como construções metafísicas por Popper inclusive. O qual, bem ao modo de Hume, lançou-as todas as urtigas, inclusive o evolucionismo biológico, assim o freudismo e o marxismo em sua totalidade... nivelando-as a astrologia. E esse Popper querido não media, não pesava, e tampouco contava - Era epistemólogo... Tão querido dos empiristas crassos. Todas estas relações não deixam de ser divertidas.

Isto porque, para escapar ao ceticismo e impor-se como conhecimento válido e verdadeiro, deve a ciência descer a arena da gnoseologia ou a epistemologia. As quais não são ciências, nem produto da experiência ou do empirismo, mas exercício especulativo executado pela razão pura. E não se surpreenda que Kant ao analisar o conhecimento ou o saber e aquilatar sua validade a partir de sua razão purinha foi ele mesmo um metafísico, não um cientista. Alias se alguém professa o materialismo ou o empirismo não pode evitar ser classificado como metafísico. De fato meus amiguinhos não é a crítica da ciência feita pela própria ciência em termos empíricos (Isso não existe!) mas pela Filosofia, segundo o método abstrato da dedução lógica!!! Filosofia da ciência é mera especulação ou metafísica, e não indução... Dispensa-se o laboratório para elabora-la. É coisa de gabinete. Que bem poderia ser feita na ágora de Atenas.

Mas os cientificistas parecem não saber nada disto...

Não é que parecem não saber. Não sabem mesmo, posto que não estudam ou conhecem Filosofia! Proclamando-a ociosa ou inútil. De fato não estão aptos a discutir sobre epistemologia ou gnoseologia, e por isso escrevem tantas e tão monstruosas aberrações. Diante disto podemos dizer que continua faltando Filosofia... O trágico enfim converte-se em comédia quanto a isto tudo adicionam uns temperos de ceticismo. Chegando aqui temos acabada a obra do Dr Franknstein...

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

O marxismo, a verdade e o relativismo. Ensaio epistemológico.

Habitualmente ouvimos ser o marxismo ou sua epistemologia, serem apresentados como relativistas e, os marxistas rebaterem, dizendo que não é bem assim. Daí a necessidade de pontuarmos o assunto e verificar que é o marxismo face a verdade ou qual seja sua perspectiva epistemológica.

Grosso modo podemos dizer que é o marxismo um relativismo, porém de modo algum um relativismo crasso ou individualista, análogo ao relativismo pós moderno, que é dentre todos o mais virulento.

No relativismo individualista nada há que transcenda as unidades individuais e isoladas, pelo que a fragmentação é total ou absoluta. Aqui a única referência que temos é o indivíduo separado de todos os outros - Tal é o critério de todas as coisas!

"O homem é a medida de todas as coisas." Que homem? A espécie enquanto receptáculo de uma capacidade racional ou o indivíduo pautado em sua vontade??? O relativismo pós moderno responde dizendo que cada homem constrói sua verdade, válida apenas para si e que não existe qualquer verdade comum, transcendente ou absoluta. O marxismo não chega a tais confins... quero dizer ao 'vir a ser'... a instabilidade plena... a fragmentação total... ao Caos, conservando alguma unidade, ainda que não seja transcendente.

Privado de fundamentos metafísicos, abstratos, espirituais; assim essenciais e perpétuos, a exemplo da 'Filosofia perene' ou das teorias das formas elaboradas por Platão ou Aristóteles, nem por isto o marxismo dissolve-se por completo num relativismo individualista, atomizando-se.

Assumindo-se como uma espécie de meio termo entre o 'vir a ser' e a 'essência' apresentando-se como um relativismo, mas, como relativismo social, fruto de uma conjuntura histórica muito mais estável do que as impressões individuais. O marxismo admite impressões estáveis e comuns, inda que mutáveis a longo prazo.

De fato julgam os marxistas - A partir de seu materialismo dialético - que a realidade cultural e assim a própria compreensão humana do que seja verdadeiro ou real (superestrutura) esteja assentada sobre uma infra estrutura definida em termos de relações econômicas de produção. Tais relações possuem formas estáveis e comuns em determinadas fases da História humana, as quais perduram por considerável espaço de tempo (Muito mais amplo do que o tempo fruído por algumas gerações humanas.) i é até que as relações de produção sofram alguma alteração significativa.

Delas resulta uma compreensão perdurável em termos de mundo a qual, mesmo sem tornar-se metafísica ou perene nem por isso chega a diluir-se por completo num aos de impressões, emoções, gostos ou opiniões. Destarte a noção de verdade proposta pelos marxistas, sem tornar-se imutável e perpétua como a Socrática, a Aristotélica ou a Católica, nem por isso deixa de possuir certa consistência e durabilidade. Estamos portanto diante duma perspectiva totalmente diversa e não do mesmo e exato relativismo.

domingo, 3 de setembro de 2017

O problema da neutralidade em ciências humanas

Resultado de imagem para K popper



Um dos temas mais polêmicos no que diz respeito a produção de um conhecimento científico é o da assim chamada 'neutralidade' ou isenção, a qual epistemologicamente chamamos objetividade.

A contrário do que se pensa o tema diz respeito tanto as ciência humanas quanto as ciências exatas, embora pareça mais sensível no campo das primeiras.

Para abordar o problema com propriedade devemos começar estabelecendo uma distinção absolutamente necessária: A neutralidade da produção do saber e a neutralidade em sua divulgação ou uso. E é evidente que ambas as instâncias: obtenção e uso do saber científico pertencem a esfera da ciência. Os positivistas no entanto criaram um espantalho bastante eficaz. Segundo dizem apenas a ciência pura é objetiva, já a ciência aplicada pertenceria a uma Ética, que eles por sinal repudiam.

A bem da verdade, como diz o professor Crane Briton, não se pretende ou pretendia mudar o átomo. A princípio a assertativa até parece veraz. Tenho-a no entanto por inexata, e pelo simples fato de que mal devassaram o átomo os cientistas pretenderam parti-lo com o objetivo de produzir uma determinada força. Diga-se o mesmo a respeito da célula ou dos genes, cuja manipulação tem determinados objetivos externos. Serão estes objetivos relacionados com a partição do átomo ou com a manipulação dos genes, e postos numa determinada direção, neutros, objetivos, isentos ou puramente objetivos? O que se deseja produzir a partir de tais experimentos? E sobretudo para que produzir tais fenômenos? Os cientistas certamente não estão preocupados com os fins últimos da ciência que produzem... Tudo isto no entanto é vendido como ciência. E o cientista vai acompanhando todo processo... Tenho para comigo, com Max Lerner, que nem tudo isto seja neutro...

No entanto nos é vendida a ideia de que a física e a química são ciências absolutamente neutras ou objetivas. Havendo no campo do positivismo quem as encare como equivalendo aos dois únicos campos da ciência, e, portanto - segundo os cânones do mesmo positivismo 'ortodoxo' - como as duas únicas formas de conhecimento válido e verdadeiro a que temos acesso. Segundo estes senhores nada poderemos saber fora do campo físico/químico, no qual vigoraria um tipo de empirismo puro e não contaminado pela razão ou pelo subjetivismo.

Seduzidos pela lábia dos positivistas toda uma série de biólogos e até mesmo de psicólogos e sociólogos adotaram sem mais i é passivamente, os métodos próprios das ciências exatas, buscando assegurar o mesmo grau de objetividade ou de neutralidade. Quanto a Biologia, foi até certo ponto acolhida e tolerada pelos sucessores de Comte, chegando a compôr trio com a Física e a Química, em que pese a jamais observável Evolução das espécies, classificada por K Popper como falaciosa, pelo simples fato de enquanto teoria não poder ser imediatamente constatada dependendo de todo um aparelho conceitual preexistente, o que implica contaminação racional ou subjetiva. Alias evolucionismo implica toda uma cadeia de causalidades, o que cheira a metafísica... Tal Pirro, tal Hume, tal Popper. De fato teoria alguma pode ser reduzida a um empirismo grosseiro supondo sempre e necessariamente algo mais... O quanto basta para exasperar o partido dos céticos.

Cumpre advertir o leitor de que alguns positivistas fanáticos e irredutíveis continuam repudiando o caráter cientifico da própria Biologia, pasme! Um deles alias, e bem recentemente, tendo entrado em polêmica como o famoso Biólogo Richard Dawkins - Devido, as ilações ateísticas e portanto metafísicas que costuma vender como ciência - questionou formalmente seu status de cientista alegando que não era nem físico nem químico.

Evidentemente que esses senhores, completamente dominados pela ilusão positivista construída em torno de um empirismo puro, levam adiante a antiga opinião, até certo ponto emitida por Francis Bacon, de que a ciência lida apenas com fatos imediatamente constatáveis - eles abdicam de quaisquer pretensões em termos de teoria - ou de que a ciência lida apenas com fatos, os quais, na mesma medida em que são descobertos, vão se encaixando por si sós em seu devido lugar... Sabemos no entanto que os fatos não podem se encaixar por si mesmos num plano geral a menos que este plano geral preexista na mente enquanto algo que transcende os fatos... O que nos conduz de chofre a ideia de todo um aparelho conceitual preexistente ou a teoria. Fatos são dados, e dados são organizados, classificados e relacionados pela capacidade racional do homem, numa direção bastante rigorosa a que chamamos lógica. Os positivistas sabem muito melhor do que nós que nem a racionalidade, nem a lógica pertencem a mesma categoria que a experiencialidade. A lógica diz respeito a operações mentais de caráter interno com relação ao homem, são realizadas no corpo físico e pelo corpo físico, fugindo no entanto a materialidade pura e supondo a existências doutra realidade existente na matéria e com a matéria. Não entrarei no mérito desta questão, mas sei que para os positivistas tudo isto implica contaminação subjetiva.

Até aqui restrinjo-me a Biologia, cujo fundamento pétreo é a teoria da Evolução... Algo que não é imediatamente constatável a partir da experiência, e que foge ao empirismo puro canonizado pelos apóstolos do positivismo e do cientificismo. Ah só uma observação: Os criacionistas e fanáticos religiosos agradecem e aplaudem os positivistas na medida em que - com o charlatão Popper - buscam apresenta-la como uma formulação puramente subjetiva ou como mero preconceito, declarando insolúvel a questão sobre a origem da vida. Claro que essa petição de incognoscibilidade tende a favorecer os mitos tomados ao Gênesis, ao Corão e a outros livros religiosos, na medida em que nos tornamos capazes de opor-lhe qualquer outra coisa em termos de concretude. Afinal os espaços que acabam não sendo preenchidos por algum tipo de conhecimento válido e verdadeiro ou científico, acabam sempre sendo invadidos pela superstição. Sintomático que os ulemas e pastores fundamentalistas estejam bastante familiarizados com as epistemologias contemporâneas, sejam elas positivistas, céticas, relativistas, subjetivistas, etc Eu mesmo já tive o prazer de escutar o falastrão do Silas Malafaia recitando K Popper em seu programa de TV!!!

Constato que a epistemologia da ciência, fugindo a solução realista - seja a de Aristóteles, a de Lênin ou qualquer outra - voltou-se contra o próprio conhecimento científico, já no que diz respeito a Biologia. Imaginem então qual seja a condição das ciências ou dos conhecimentos humanos dentro destes esquemas pretensamente neutros ou objetivos???

Do ponto de vista do empirismo puro, que é o carro chefe do positivismo, não há como fugir a constatação de que as ciências humanas não são ciências, e portanto, ainda na perspectiva do positivismo, de que não são conhecimentos válidos e verdadeiros a respeito dos quais podemos ter alguma certeza.

Neste caso que são as ciências humanas?

Tal e qual a Ética ou da metafísica (Porque a Ética é se sempre será domínio da metafísica, fugindo ao monstro da experiencialidade pura - A EXPERIENCIALIDADE NÃO PODE DETERMINAR O QUE DEVE SER APENAS O QUE É.) a respeito da qual os positivistas não fazem caso algum, o que cognominamos 'ciências humanas' não passa de formulação puramente subjetivista, relativa e cultural. Nem mais nem menos...

Naturalmente que nem todos os cientistas concordam com os pontífices do cientificismo ou aceitam as pretensões dos teóricos positivistas. Em maior ou menor medida no entanto refletiu-se a crítica positivista no campo das próprias ciências humanas produzindo uma enorme sensação de insegurança, dúvidas, questionamentos, etc Tudo em torno da busca pela puridade científica definida como objetividade pura e consequentemente neutralidade, isenção; até a apologia do descritivismo levada ao absoluto.

A tônica aqui foi copiar os métodos materiais e empíricos das tais ciências exatas e transferi-lo para o campo das humanidades. Desde então foi proclamada apriorística e pomposamente a materialidade absoluta do homem, o que em termos de Psicologia por exemplo deu origem a curiosa vertente dos behaviorista. Se o átomo e puramente material e a célula puramente material por que cargas dágua o homem fugiria a esta regra geral? Percebam o caráter metafísico ou especulativo do questionamento. De fato alma ou espírito algum - em termos de entidade imaterial - foi encontrado no homem, ao menos pelos Biólogos... Sob pena de heresia, i é de chocar-se com a mística cientificista, tiveram as ciências do homem de professar o novo dogma do materialismo. No entanto entre a noção de limitar o campo de investigação das ciências empíricas a materialidade e professar o que sabemos por materialismo vai larga diferença... Ficando expostas, mais uma vez, as guarras metafísicas do positivismo e seu mórbido estado de contradição.

Tal observação nos leva a um segundo aparte. O que os neo positivistas e cientificistas encaram como um progresso - i é, a afirmação tácita do materialismo no sentido de que todas as formas de existência sejam puramente materiais e que tudo quando exista posse ser percebido por nossos sentidos - era encarado por seus ancestrais ou pioneiros como pura e simples ilação metafisica. Assim o ateísmo, o teísmo, o espiritualismo e o materialismo; aos quais opunham a doutrina do silêncio, alegando que o sábia devia recusar-se a opinar a respeito de tudo quanto estivesse para além da experiencialidade pura ou do empirismo. Tal o domínio do mistério, por definição impenetrável. Os ateus e materialistas no entanto - os quais costumam apresentar-se como honestíssimos - costumam tudo embaralhar e confundir... Sem levar em conta os pressupostos ideológicos embutidos na opção cético/agnóstica e tomando o agnosticismo por brincadeira. No entanto para positivistas sinceros e agnósticos iniciados no domínio da epistemologia uns e outros ultrapassam a demarcação existente entre o conhecimento válido e verdadeiro e a metafísica...

Seja como for lá as ciências humanas deram de afetar não apenas os métodos próprios das ciências exatas como assumir o pressuposto materialista canonizado pelo positivismo contemporâneo. De fato as ciências físicas ou exatas são materiais e empírica no sentido clássico de reprodução controlada dos fenômenos analisados. Agora quanto as ciências humanas, seu campo de estudos é o homem com todas as variáveis resultantes de seu caráter enquanto ser auto movente, auto consciente ou livre. É o homem ser dotado de vontade e também de força para, dentro de certos limites, alterar a si mesmo e o o entorno de si. O que não pode ser desconsiderado sem grave dano para as ciências do homem. Reproduzir o pressuposto materialista e inseri-lo no domínio das ciência humanas, isto sim implica mutilar o homem e distorcer a realidade. Se há algum elemento nas ciência humanas que contamina a dinâmica do conhecimento tornando-a permeável a ação da subjetividade, é justamente a afirmação apriorística do materialismo. Jamais o positivismo ou a ciência levou a sério a simples possibilidade de averiguar seriamente a existência, no homem - e por meio dos efeitos ou consequências - de algo que fuja a materialidade pura e simples. De modo que a ideia ou ideologia foi imposta antes de qualquer inquérito isento ou imparcial.

O materialismo, digamos honestamento, foi transplantado das ciências exatas, físicas ou materiais para os domínios das ciências humanas por exigência dos teóricos positivistas e sob pena das ciências humanas não serem reconhecidas por eles como objetivas e consequentemente como um tipo de conhecimento válido ou verdadeiro. Não nos limitamos a copiar os métodos de todo inadequados das ciências físicas, assumimos seus pressupostos aprioristicamente como se o homem equivalesse a um átomo ou a uma célula, nem mais nem menos. A mente foi ignorada e a própria Psicologia não behaviorista classificada preconceituosamente como anti científica! Para não falarmos na Psicanalise, levada ao mesmo por K Popper ao mesmo pelourinho que a Evolução das espécies e pelos mesmos motivos. Felizmente Engels - pelos idos de 1860 na controvérsia contra o radical E Dietgen - reconheceu que as alegações materialistas ainda não estavam empiricamente demonstradas (queria dizer cientificamente), prenunciado no entanto que tal demonstração não tardaria a ser feita. Mais de meio século depois foi a mesma profissão de fé, realizada pelo líder comunista e epistemólogo W Lênin, o qual também teve de reconhecer que a demonstração científica do materialismo ainda não havia sido elaborada. Isto do lado comunista, cujo amor e dedicação ao dogma materialista são bastante conhecidos. Agora vejamos do outro lado - Popper e Eccles em um livro sobre o cérebro escrito pelos idos de 1970 reproduziram quase que textualmente as palavras de Engels e Lênin admitindo que os fenômenos de consciência não podiam ser, em sua totalidade, reduzidos a massa encefálica em termos de empiria. Penfield pela mesma época e após ter estudado o cérebro humano por quase meio século também teve de admitir que em termos de capacidade cognitiva e consciência, algo fugia a materialidade pura e simples e que em nome da experiencialidade não se podia afirmar que nossa massa encefálica fosse a única produtora de todos estes fenômenos em termos de causalidade pura e simples.

Portanto o processo da Psicologia e a Psicanálise é que não nos parece estabelecido sobre bases científicas ou isentas como querem os positivistas, mas sobre bases preconcebidas e viciadas. Suas constatações e conclusões, auferidas por métodos bastante distintos das ciências exatas, jamais foram levadas a sério, justamente por se lhe exigir - preconcebidamente - que adotasse os mesmíssimos métodos que ela e averiguasse os fenômenos mentais ou de consciência por meio de provetas, tubos de ensaio, réguas, balanças, etc Freud e seus sucessores foram classificados como heréticos justamente por não admitirem tais interferências metodológicas, e isto pelo simples fato de partirem de indivíduos totalmente alheios a especificidade dos fenômenos em questão. Os quais como papas infalíveis e sem conhecimento a respeito da matéria buscavam impor arrogantemente seus pontos de vista empírico/materialistas ou positivistas. Tal o caráter da 'odiosa Revolução' iniciada por Freud.

Não menos do que a Escola behaviorista de Psicologia - que representa uma Psicologia rasa, digamos de passagem - algumas Escolas Sociológicas, embrenharam-se pelo mesmo caminho das ciências exatas ou empíricas. Marx por sinal já havia incorporado a metafísica ou ideologia materialista a sua escola social. Durkheim evidentemente foi pelo mesmo caminho, se bem que o profundo Gabriel Tarde, identificasse já algo de metafísico ou abstrato em suas categorias e formulações, o que não haveremos de discutir neste artigo. Seja como for um dos primeiros teóricos a considerar o aspecto psicológico e livre do homem no terreno da Sociologia parece ter sido M Weber, pensador social cujos escritos reportam frequentemente a intencionalidade do agente humano. É mérito seu ter inserido o homem no contexto social ou sociológico, o qual com ele deixa de ser uma partícula determinada pelo ambiente para ao menos interagir com ele pondo algo de seu. E nem podemos deixar de encarar esta tese, que faz jus a liberdade humana, como a mais objetiva, isenta e próxima da realidade no âmbito da Sociologia.

Quanto a História e o Direito naturalmente que o positivismo não pode encarar tais áreas do conhecimento sequer como ciências humanas mas como técnicas. Reconstituir a História ou analisar as relações sociais em termos legais, é para o positivismo algo eminentemente prático. Mas desde quando a experiencialidade de todas as demais ciências foge a praticidade??? Desde quando aos diversos procedimentos ou metodologias encetados pelas diversas áreas do conhecimento falta este aspecto prático??? A única diferença a ser considerada aqui é que a técnica relativa a produção do saber no âmbito das ciências exatas equivale a determinados meios de controle realizado num local específico chamado laboratório. Tendo por regra a reprodução e controle dos fenômenos em questão. Já o trabalho do Historiador se dá fora de um laboratório - podendo ser realizado em sua residência, num arquivo, numa Biblioteca, etc - ou como dizemos na vida vivida, embora não exclua a contribuição de ciências auxiliares bastante 'laboratoriais'. Assim a arqueologia tem métodos de investigação tão precisos quanto a medicina com seu olhar clínico... É a medicina uma ciência ou uma forma de conhecimento válido ou verdadeiro??? Há positivistas 'sunitas' que ousem nega-lo??? Neste caso apontemos as sucessivas curas obtidas pela medicina e levemos em questão os resultados...

A bem da verdade o praticante de ciências exatas, físico, químicas ou mesmo biológicas, treinado na escola do positivismo, desconfia de qualquer controle realizado fora de um laboratório ou de qualquer método que não seja a reprodução controlada. Acontece que o Historiador não pode reproduzir eventos humanos ou sociais realizados no passado. Sua tarefa não é reproduzir mas reconstituir e compreender, relacionando cada evento com sua causa ou causas imediatas. (Não se trata aqui de causas gerais, as quais são buscadas pela Sociologia, não pela História)

E no entanto, como já dissemos o Historiador academicamente graduado, tem lá seu método, bastante rigoroso e tão adequado aos fins quanto o método do médico ou do detetive. Havendo dentre eles quem faça trabalhos bastante sérios como um L Ranke, um Doellinger, um Jhansens, um Lamprecht, um Breasted, um V G Childe, um P Montet, um Parrot, um Soustelle, um Ganchoff, um Pirene, um Huizinga, um L Febvré, um M Bloch, um Toynbee, um Spengler, um G Duby, um Le Goff, um Christopher Hill, um Keith Thomas, um Delumeau, etc, etc, etc

O problema aqui é tomar a definição de ciência como sinônimo de único tipo de conhecimento válido e verdadeiro - crença subjacente nos domínios do neo positivismo - e lançar em bloco, ao fogo, as obras dos autores acima, juntamente com as obras de arrivistas, charlatães e pseudo historiadores sem formação a exemplo de Daniken, Sichtin, Churchward, etc Claro que a falta de Historiadores reconhecidamente responsáveis e competentes o grande público sentir-se-a tentado a abraçar explicações mitológicas... Até passar dos braços do Daniken as mãos do Malafaia. Tomando a Bíblia e o Corão não só como manuais de Biologia, mas também de História - Vindo o ceticismo dos positivistas a alimentar a superstição e o fanatismo das massas.

A outra face do problema, transferida das ciências exatas para as ciências humanas, gira em torno do caráter meramente descritivo ou normativo da ciência ou das ciências. Via de regra o físico ou o químico não exaram juízos de valor a respeito dos fatos que descobrem. E por si mesmos dificilmente lhes ocorreria a ideia de alterar o ponto de ebulição da água, o qual nem mesmo avaliam em termos de bem e mal.

Já os problemas suscitados pelas ciências humanas, da mesma maneira que os problemas enfrentados pela medicina - isto as doenças - dificilmente deixam de suscitar semelhante tipo de avaliação i é Ética ou em termos de bem e mal. Em geral os assuntos ou fenômenos humanos relativos a ação livre do homem despertam no analista o vivo desejo de opinar, não talvez enquanto analista ou cientista, mas certamente como homem. A própria condição humana leva-nos a avaliar em termos qualitativos o quanto seja humano e esta tendência parece natural e insuperável. O positivismo no entanto compreende que devamos permanecer absolutamente neutros diante deles... No entanto como poderia o médico permanecer total e completamente neutro diante dos sofrimentos de seu paciente ou de uma enfermidade extremamente dolorosa??? Como o Historiador poderia permanecer neutro e isento face a tantos roubos, assassinatos, estupros e crimes hediondos constatados por si???

Podemos exigir do ser humano uma semelhante impassibilidade ou isenção sem mutila-lo? Podemos chegar a um meio termo?

Quanto ao Psicólogo, que trabalha com enfermidades de caráter mental ou comportamental, não vejo como possa deixar de assumir uma postura normativa, já aspirando curar ou corrigir a enfermidade em questão, já preceituando tudo quanto seja necessário a cura. O Psicólogo deverá trilhar o mesmo caminho que o médico do corpo, pelo simples fato de ser o médico da alma. Nem vejo como poderá permanecer neutro e isento diante dos fatores que acarretam ou causam as enfermidades mentais, mormente quando provocados deliberadamente por outros seres humanos. Seria demais pedir a um Psicólogo digno deste nome que encarasse com naturalidade e complacência a cultura da repressão sexual. Naturalmente que uma cultura ou um modo de vida responsável pela produção de certo número de enfermidades mentais, tende a ser questionada pelo Psicólogo ao menos enquanto homem que é. A ciência limitar-se-a a verificar a relação existente entre determinado comportamento ou prática social e a enfermidade mental. A ciência para por aqui e seu trabalho esta realizado. No entanto seria demais esperar do cientista, enquanto homem que deixasse de denunciar aquele tipo de comportamento pernicioso.

Por estranho que pareça a Sociologia não foge tanto a esta regra.

A Sociologia como disse Weber é meramente descritiva, limitando-se a descrever a realidade social tal como é. A Sociologia esgota-se nisto, pleno acordo.

No entanto, não decorre disto, que o Sociólogo - que também é um homem e como tal um Ser Ético -deva furtar-se a toda e qualquer apreciação em termos de princípios e valores, buscando remédios com que sanar as enfermidades sociais e utilizando-se da própria Sociologia como ferramenta preciosa. Como Sociólogo limitar-se-a a descrever. Como homem, cidadão e pensador no entanto é absolutamente natural que denuncie e combate as mazelas sociais que descreve. O único tributo exigido pela honestidade é que apresente-se como Sociólogo apenas quando e enquanto descreve e como pensador ou Filósofo Social enquanto crítica e indica soluções. Alias quem melhor para indicar soluções e propostas do que um pensador social formado em Sociologia??? Quanto a impedir o Sociólogo de pensar a sociedade que descreve partindo de seus princípios e valores, da ética ou da idealidade, em que se baseia tal pressuposto??? O máximo que podemos exigir do cientista em questão é que separe bem uma coisa da outra... Sabendo no entanto que metafísicos ateísticos a exemplo de Hitchens, Dawkins e Harris não procedem assim. E vai lá molesta-los o positivismo??? jamais vi...



quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Intelectualidade e ateísmo, uma resposta definitiva






Certos professores há que em seus cursos asseveram ensinam a repetem, entusiasticamente, que a maior parte da intelectualidade - em termos de cientistas e filósofos - teria professado o ateísmo ou sido ateia. É coisa que se ouve sair dos lábios de qualquer sectário ateísta... E que as custas de ser repetida pelos prosélitos - mal informados ou intencionados - acabo se convertendo numa das tão decantadas 'verdades do tempo'. Particularmente os pensadores mais eminentes e brilhantes teriam sido ateus em sua quase que totalidade.

É o que se ouve, o que se repete, o que se crê...

Tal a fé.

Como já tivemos ocasião de abordar o tema em nosso pequeno cenáculo, aqui em casa, limitar-nos-emos a publicar o que já foi exaustivamente estudado e discutido por nós e pelos comensais.

E para tanto principiamos pela Bibliografia: Manual biográfico literários sobre as ciências exatas e naturais. Johann Christian Poggendorff 1863

A respeito desta obra faz-se mister declarar que constitui uma verdadeira Enciclopédia destinada imortalizar tantos quantos dedicaram-se a pesquisa científica (com exclusão das ciências humanas) até meados de 1860, transcrevendo suas biografias e abordando diversos aspectos de sua vidas, inclusive os pensamentos religiosos. Daí sua relevância neste campo. E já adianto que seu trabalho foi continuado - por outros uma vez que J C P faleceu em 1877 - até cerca de 1900 (volume quarto). Enfim não há como abordar científica e honestamente o tema da religiosidade ou do suposto ateísmo dos cientistas sem se recorrer a esta fonte que é sob diversos aspectos primária e essencial.

Quanto aos filósofos e suas crenças há o livrinho de Huberto Rohden 'Tu és o Cristo filho do Deus vivo" Vozes 1918

Dito isto passemos ao 'problema'


Buscando uma definição para ateísmo


Cujo primeiro aspecto é a irredutibilidade em termos de definição.

Sócrates dissera certa vez: Se aspiras dialogar comigo define os teus conceitos.

Assim se vamos debater em torno do ateísmo a primeira exigência a ser feita é que haja acordo a respeito do que seja ateísmo. Do contrário estaremos a dialogar inutilmente a respeito de 'fenômenos' diferentes...

E no entanto quanto a este aspecto ateísmo e judaísmo caminham de mãos dadas uma vez quer também o judaísmo recusa-se a um definição clara e objetiva.

Perguntas a um judeu? Que é judaísmo? E ele te responde: Crença, fé, religião; excluindo os ateus, incrédulos, budistas, etc

Perguntas a outro judeu: Que é judaísmo? E ele te responde: Judaísmo é povo, é a nação composta pelos descendentes do patriarca Abraão, e arrola em seu número: Ateus, materialistas, irreligiosos, budistas, etc

Segundo a primeira definição Nordau, Marx, Einstein, Asimov, Sagan, etc não são judeus. Já segundo a outra definição continuam sendo contados como judeus. De modo que no fim das contas serão milhões de judeus a menos ou a mais...

E qualquer trânsfuga religioso, relativista e mal intencionado sempre poderá alegar que a religião ou a fé judaica produziu uma 'elite' de intelectuais!

Outra não é a postura - sinuosa - do protestantismo. Quando o protestantismo recebe críticas por parte da Ortodoxia, do papismo, do espiritismo e de quaisquer outras religiões no sentido de ter promovido a incredulidade na Europa contemporânea, seus defensores negam veementemente que os protestantes 'liberais' - inda que pastores como Collani - sejam protestantes. Como negam veementemente que os unitários ou arianos (Testemunhas de Jeová) sejam protestantes... No entanto quando os mesmos críticos ou os incrédulos alegam que o protestantismo (claro que estamos nos referindo ao protestantismo 'ortodoxo' seja batista ou calvinista, e essencialmente 'biblicista') foi bastante pobre em termos de ciência, os apologistas protestantes não exitam arrolar Sir Isaac Newton, - que era unitário ou ariano - ou Sabatier que era liberal, isto quando não têm o desplante de arrolar os Bispos (sic) da Igreja Episcopal.

Na ora de defender a fé os paladinos da reforma lançam tudo que é liberal ou incrédulo (ao menos com relação a totalidade da Bíblia) ou episcopal para fora da arca, o que por sinal é razoável. No entanto quanto se trata de compor 'Apologias' em defesa do protestantismo são quase sempre incluídos. É quando Hanack vira 'cristão piedoso'...

Tal o judaísmo, tal o protestantismo com suas divagações em torno de definição.

Tal o ateísmo.

Pois de modo geral na ora de cooptar prosélitos ou de fazer propaganda os ateus fogem a definição formal e objetiva de ateísmo enquanto 'Convicção a respeito da inexistência de Deus' ou ainda capacidade de demonstrar que Deus não existe, ou ainda como pura e simples negação de Deus, e põem-se a enfiar na 'igrejola' aqueles que apenas duvidam (tanto do ateísmo quanto do teísmo) ou consideram a questão inacessível ao conhecimento humano, assim os céticos, abstencionistas ou agnósticos de Comte. E como não param por ai, incluem ainda os agnósticos ingleses de Huxley os quais sequer - como Spencer e Stuart Mill cujas obras contém diversas alusões a um ser 'INCOGNOSCÍVEL' - ousam por em dúvida a existência de um Supremo Ser mas apenas sua definição ou cognoscibilidade a exemplo dos antigos gregos, e seguindo por este caminho 'largo e fácil' tantos quantos nas Sociedades mais avançadas do Planeta, como a Escandinávia, a Holanda, a Bélgica, a Suíça, os antigos países comunistas, etc simplesmente não têm qualquer vínculo religioso ou fé. Ficando os incrédulos ou indiferentes e matéria de religião alistados como 'ateus' mesmo quando as mesmas pesquisas explicitam, logo na linha abaixo, que essas pessoas admitem a existência de uma energia ou forma de consciência supranatural ou mesmo a existência de um Deus (!!!)

Diante desta manobra ou melhor farra, assiste-nos o pleno direito de perguntar onde é que está a honestidade ou melhor ainda, onde esta a maravilhosa Ética ateística que os leva inclusive a denunciar tudo quando seja religioso como desonesto ou falsificador???

Cade a seriedade, o espírito científico, a probidade, a moral, a Ética dos nossos apóstolos ateísticos???

Sim porque nesta mistura heteróclita e esdrúxula de conceitos que se opõem e excluem mutuamente como:
  • Deísmo
  • Agnosticismo
  • Indiferentismo religioso
  • Espiritualidade não institucional

Tudo quanto posso ver é safadeza mesmo.

No entanto como alguns ateus são mesmo tão fanáticos e obstinados quanto seus desafetos religiosos vou soletrar:

Os agnósticos ingleses - ou ao menos parte deles - que admitem a existência do Incognoscível, bem como aquelas populações das 'repúblicas' ateísticas que admitem a existência de um Deus não revelado ou de uma energia ou ainda de algo sagrado, merecem, ser classificados como deístas.

Como os deístas afirmam a existência de algo que transcende a vida e a matéria, é evidente que estão em oposição aos ateus que negam terminantemente a existência de qualquer coisa nesse sentido. Aqui a exclusão é manifesta uma vez que a afirmação e a negação incidem sobre o mesmo objeto - qualquer tipo de concepção que remeta a Deus.

Os agnósticos franceses ou positivistas da Escola de Comte e Litreé repetiram a exaustão que não eram ateus pelo simples fato de que o ateu - como o teísta - cuida saber a respeito de algo que ele agnóstico afirma nada saber. O agnóstico ao contrário do ateu e do teísta não assume posição a respeito do assunto, não afirma nem nega, abstém-se de formular qualquer juízo metafísico pois como I kant e D Hume não admite a validade desde tipo de conhecimento. Tanto que os agnósticos (aquele que não conhece) partindo de seu ceticismo inveterado classifica o ateísta como metafísico.

Filosoficamente, do ponto de vista da episteme, são posicionamentos inconciliáveis ou paradoxais e podemos asseverar que quando um Filósofo ou pensador define-se como agnóstico, esta querendo dizer em alto e bom som que não esta convencido a respeito da validade do ateísmo e que dele dúvida tanto quanto dúvida do teísmo.

Aos ateus, ainda aqui acompanhando as diatribes dos pastores - quando tentam explicar porque o pagador de dízimos não obteve o milagres alegando que não tinha fé, que é um pecador, etc - resta o péssimo recurso de apresentar os agnósticos como 'ateus fracos', 'ateus medrosos', 'ateus tímidos', 'ateus enrustidos', pois ignorando, como toscos que são, o problema das origens do conhecimento, da gnoseologia, da episteme, da metafisica, etc não podem mesmo admitir que hajam agnósticos sinceros. Daí embrenharem-se pela via do subjetivismo crasso elaborando juízos de valor tão miseráveis em torno da intencionalidade e da sinceridade alheia. Porque recusam-se a assinar a fórmula de fé ateística todo agnóstico fica sendo fracote, tímido, covarde, medroso, etc

Alias nestes tristes tempos em que ateísmo virou moda entre as cabecinhas sem conteúdo que sem contentam em repetir as abobrinhas cozidas ou fritadas pelo Bernacchi e temperadas pelo Oiced Mocam, o fato de boa parte dos intelectuais recusarem-se a referendar o novo credo parece-nos sintomático. Afinal vivemos em tempos de liberdade não é mesmo??? E não há duzentos anos, sob o jugo infame das Inquisições... Ou sob o controle dos déspotas e tiranos.

Medo do que? Receio do que? Que tipo de temor respirariam os intelectuais agnósticos ou 'ateus enrustidos' numa sociedade democrática ou liberal?

Acaso os comunistas não alardeavam seu ateísmo e seu materialismo há cem ou cinquenta anos passados sem que qualquer um deles fosse acusado de 'ateísmo', mas de sedição, pelo simples fato de aspirarem alterar a ordem política e econômica vigente???

Quantos processos ou autor de fé anti ateístas foram realizados no Ocidente ao cabo do século XX???

Pelo modo com que os ateus expressam-se diríamos estar em Meca, Medina, Riad, ou em qualquer uma dessas maravilhosas sociedades muçulmanas em que os ateus são pura e simplesmente executados ou decapitados em obediências as leis do Corão ou melhor aos ditames da Sharia. E eu nem observo qualquer esforço por parte do apostolado ateístico de enviar missionários aos países muçulmanos com o objetivo de conquista-los a esta fé machista, adultista, homofóbica, escravista, etc que tantos males tem causado a pobre humanidade!

Por que raios precisam os ateus esconder-se ou ocultarem-se - com a máscara do agnosticismo - numa Sociedade livre? Será que lhes falta coragem (a essa imensa multidão que os ateus classificam como medrosa ou fingida) para afrontar uma simples crítica ou cara feia??? Admitindo que todos os agnósticos seja mesmo ateus ocultos ou disfarçados seríamos obrigados a concluir pela incapacidade crônica do ateísmo em comunicar coragem ou em despertar compromisso entre seus profitentes... Imagina então se como os antigos Cristãos ou as minorias Cristãs nas sociedades islâmicas essa manada de ateus fracos corre-se perigo de vida??? Haveriam de enfrentar a morte e de morrer por sua fé uma vez que não são capazes de enfrentar as críticas de uma Sociedade liberal?

Ao que parece não é o ateísmo apto para despertar aquela mesma firmeza com que os mártires cristãos souberam enfrentar o jugo do império romano.

Portanto como esperam pode enfrentar e resistir heroicamente a jihad islâmica que já se alevanta nos confins da Europa e ameaça submergir e destruir o berço de nossa civilização (Grécia e Roma, não Inglaterra!)?

Diante da facilidade e rapidez com que os ateus mais atilados classificam seus 'irmãos' e correligionários como 'medrosos' em tempos de democracia só nos resta concluir com o Papa ateísta Richard Dawkins que apenas o Cristianismo ou um retorno decidido a fé ancestral poderá fazer frente a ameaça do islã e salvar a Europa. Não fui em quem o disse querido leitor mas o autor de "Deus, um delírio', os créditos são dele, e a reflexão fica por sua conta...

Continua 

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Fundamentos epistemológicos da crise contemporânea.

Mesmo admitindo, alias com mestre Sócrates,  que a Ética constituiu o primeiro e o mais importante domínio da Filosofia ou do esforço racional, não posso por de lado ou ignorar o domínio explorado por Platão e Aristóteles ou seja a epistemologia. Pois de algum modo ou maneira encontram-se associados.

Consideremos que na medida em que tiver uma epistemologia essencial, objetiva e forte; terei consequentemente uma Ética essencial, objetiva e forte.

Por outro lado, a partir de uma epistemologia cética, relativista ou subjetivista como atingirei uma Ética essencial e forte??? Que não seja sinônimo de opinião individual e consequentemente sempre discutível???

Serão o estupro, a tortura e o assassinato opiniões ou ponto de vista discutíveis???

Assim o genocídio, a opressão religiosa, a injustiça social???

E Nazismo??? Acaso não passará de uma dentre tantas e tantas interpretações igualmente válidas??? Assim o fascismo, o comunismo e todas as culturas de morte???

Se há apenas interpretação então tudo e permitido e se tudo é permitido... Que será do homem?

***

Fingindo que o mundo inexiste ou que não pode ser valida e verdadeiramente conhecido não eliminaremos seus problemas.
Caso um enfermo não reconheça sua própria existência e não aceite a realidade de seu corpo e de sua doença como poderá ser tratado e curado?
A partir de uma epistemologia individualista, subjetivista e relativista não chegaremos a lugar algum.
E seremos sempre incapazes de resistir ao nazismo, ao fascismo, ao comunismo, a teocracia... Jamais superaremos o capitalismo.
E não avançaremos moralmente.
Quando sacrificamos a noção de Verdade e afirmamos que tudo não passa de interpretação ou de opinião nivelamos todas as coisas e sancionamos todos os tipos de comportamento.
As raízes e fundamentos desta crise são epistemológicos.
No entanto a dor, o mal, o crime, o vício, a crueldade, a opressão, a negação do outro são fatos ou fenômenos reais.

***
Não se pode deter o fluxo de imensos cursos d água com represas de palha ou barragens de papel.
Para conter o fluxo de muitas águas é necessário dispor de uma estrutura feita com concreto e ferro, que são elementos resistentes.
Não se pode conter as culturas de morte - nazismo, fascismo, comunismo, fundamentalismo, anarco individualismo, capitalismo, machismo, homofobia, adultismo, etc - com epistemologias de palha ou papel i é com teorias relativistas e subjetivistas.
Pois se tudo é relativo aos individuos não existe melhor ou pior, bem ou mal, vício ou virtude.
Precisamos tornar urgentemente a epistemologia realista de Aristóteles e a Ética essencialista de Sócrates.
Ou nos reconciliamos com a Grécia antiga e resgatamos nossos princípios e valores ancestrais ou nos dissolveremos no Caos.
Alias, as culturas de morte são ácidas e dissolventes, palha, papel e madeira não são materiais aptos para conter o ácido.

***

Desde que perdemos o sentido da racionalidade, do realismo, do objetivismo e da empiria caminhamos para isto, para a afirmação da mediocridade ou da nulidade.

Precisamos tornar a Aristóteles, rever nossos conceitos epistemológ
icos, superar Kant e todas as formas de idealismo germânico.