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sexta-feira, 22 de setembro de 2023

Garrett surrando o Sardinha ou deslindando a toxidade, não da democracia ou da liberdade, mas do Economicismo ou do ethos burguês.






Em apoio do quanto registramos no artigo precedente reproduzimos abaixo as profundas considerações do ilustre literato português sobre o velho estado religioso ou confessional, sem duvida deteriorado pelo estatismo e absolutismo, em comparação com o um Estado Político de trânsito ou passagem para a treva economicista e portanto contendo os germes que o haviam de fazer enfermar, agonizar e morrer no tempo presente. 

Atentem que a visão acurada de Garret, falecido em 1854, era bem mais acurada que a do Sardinha (Nascido em 1887 - Portanto mais de trinta anos depois.) o qual, preso de estranha paranoia, pouco ou nada presumia do capitalismo ou do mercado e do protestantismo - Exatamente como os neo romanos ou tortodoxos de fancaria, títeres da cultura de morte protestantes ou da sifilização norte americana.

Substituam a expressão 'barões' por 'burgueses' por 'capitalistas' e a atualidade do texto saltara as vistas:

"Frades... Frades... Não, não gosto deles. Como os temos visto neste século, como os conhecemos hoje, não gosto deles e não os quero para nada, moral ou socialmente falando.

No ponto de vista estético porém, o frade faz muita falta...

Nos campos o efeito era ainda maior: Eles caracterizavam aquela paisagem, poetizavam a situação mais prosaica do monte ou vale; e sem tais necessárias e obrigadas figuras aquele painel não é já o mesmo.

Além disso, o convento no povoado e o mosteiro no ermo, amenizavam e davam grandeza a tudo: ELES PROTEGIAM AS ÁRVORES, SANTIFICAVAM AS FONTES e enchiam a terra de poesia e solenidade.

O que não sabem, podem ou querem fazer OS BARÕES AGIOTAS que os substituíram.

É muito mais poético o frade que o barão.

O frade era, até certo ponto, o Dom Quixote da Sociedade antiga.

O barão é, sob quase todos os aspectos, o Sancho Pança da sociedade nova...

O barão é pois USURARIAMENTE revolucionário e revolucionariamente usurário...

Por isso brigamos muito tempo, afinal vencemos nós, e assentimos em que os barões corressem com os frades da terra. No que fizemos uma SANDICE como nunca se fez outra. O BARÃO MORDEU NO FRADE, DEVOROU-O E ESCOUCEOU-NOS A NÓS DEPOIS...

Sim, o frade não nos pode compreender a nós e por isso morreu, e nem nós pudemos compreender o frade, e por isso constituimos esses barões que nos conduzem a morte e fazem morrer.

São a moléstia deste século; são eles e não os jesuítas, a cólera morbus da sociedade atual são os barões. Nosso amigo Eugênio Sue errou feio em seu 'Judeu errante', o qual precisa ser refeito.

Decerto foi o frade que errou primeiro em não querer compreender a nós, a nosso século, a nossas inspirações e inspirações; com que falseou sua posição, isolou-se da vida social e fez de sua morte uma necessidade por assim dizer infalível e sem remédio.

Assustou-se com a liberdade, que era amiga sua, e que o havia de reformar, e associou-se ao despotismo, que de modo algum o amava, senão relaxado e vicioso, para dele servir-se e servido ser.

Nós também erramos em não entender o tolerável erro do frade e em lhe não dar outra direção social, e EVITAR ASSIM OS BARÕES, QUE É O MAIS DANINHO BICHO ROEDOR...

E eu que sou da liberdade e do progresso antes prefiro a oposição dos frades de ontem a dos barões de hoje...

O progresso e a liberdade perdeu, não ganhou.

Quando me lembra tudo isso, quando vejo os conventos em ruínas, os egressos a esmolar pelas ruas e os barões de berlinda, sinto saudade dos frades, não dos frades que foram mas dos que podiam ter vindo a ser."

Não era democracia ou liberdade em si mesma como fim mas, democracia de ocasião, de passagem ou trânsito para o mercado, para o acúmulo irrestrito de bens, para um novo ethos, para uma nova cultura, para uma cultura exógena, para o economicismo. E foi a ruína e transtorno do nosso universo seja ele grego, latino ou medievo - Nem o Rei e menos ainda o Povo ou os cidadãos mas o barão i é o burguês, o patrão ou o empresário > E Sim, este novo mundo saiu muito pior do que os antigos!

Já não há decerto o monstro infame das inquisições, colossalmente inchado ou engordado pelos 'liberais' ingênuos ou safados... Que nem todos os frades eram queimadores de gente (E a maioria não era!) como foram cruéis e insensíveis e assassinos os barões ou patrões do século XIX já na Inglaterra, já na Alemanha e quiçá na própria França...

A figura desse empreendedor santificado pela imprensa moderna. A figura desse empresário sem consciência. A figura do bancário avarento foi historicamente muito mais danosa que a do inquisidor, a do rei ou a dos Revolucionários, ao menos quanto a extensão do poder. Apenas a figura do empreendedor conta com advogados contratados que lhe emprestam as mais róseas tintas, e fica como um macaco maquiado... 

Porém foi ele que poluiu e polui a terra, que exterminou e extermina animais, que aniquilou e aniquila florestas não sem ter feito trabalhar a mulher grávida, o idoso e a criança de seus quatro anos em troca de um mísero naco de pão...

Essa História já foi muito bem escrita e registrada não por Marx, Engels ou Lênin ou ainda por seus embiocados seguidores mas pelo Cristão Charles Dickens - A tinta negra ou vermelha brota do cálamo de Dickens o qual nos revela o feito desses barões que prostituíam nossa democracia e nosso liberalismo puro tal e qual haviam prostituído a fé nos tempos da infeliz reforma protestante...

Sardinha, cego pela ideologia ou pelos amores que dedicava a anglos ou germânicos, não pode percebe-lo, mas percebeu-o o velho Garrett, que lhe dá uma aula.

O frade romano ou ortodoxo lá estava, no quadro ou contexto, do campo e da Vila em comunhão com a mãe natureza, convivendo ou comungando com animais, e árvores, e fontes - A exemplo do seráfico pai S Francisco ou de S Serafim de Sarov... E os defendiam, guardavam e protegiam... Mantendo e conservando aquele ambiente pintado pelo pincel de Millet - Em que ao por do Sol os lavradores dobravam os joelhos sobre a negra terra que os nutria e recitavam a Ave Maria a mãe de seu pobre Deus enquanto dobravam os sinos... 

Havia trabalho duro e fatigante, sim havia. Mas também havia sentido para quem era senhor de seu pequenino torrão, para aquele que em sua choupana era aguardado pela esposa devotada e pelos filhinhos saudosos... Congregados em torno de uma mesa onde havia pão cheiroso tirado do forno, azeite, queijo e vinho. E flores plantadas e torno a pequena casa. E o cão e o gato abanando suas caudas.

Parte deles não era constituída por proprietários ou donos de terra. Havia que se lhes ter dado terra e não movido a cidade. Pois já não há terra para dar... E sequer trabalho nas grandes cidades - Menos ainda trabalho digno. E menos ainda liberdade. E lhe tiraram a esposa - Que hora também trabalha como uma burra! - e os filhinhos (Postos na creche), e as flores, os animais... Tudo enfim. Até que esse homem e essa mulher, pelas mãos do barão ou do burguês, conheceram a angústia e o desespero, uma escravidão oculta ou disfarçada.

Sim, o tempo do Frade era menos ingrato.

Não nos enganemos - Não considero esse modelo ideal ou perfeito, antes muito mesquinho... Porém em comparação com o mundo urbano do assalariado é e era paraíso.

E não adianta dizer ou clamar que o capitalismo que pinto não é mais o mesmo, que transformou-se também e tornou-se mais humano e suportável, e desejável em tempos em que um governo inspirado. Tal devemos agradecer aos anarquistas, fabianistas, trabalhistas, católicos, etc que moveram céus e terras para criar uma legislação protetiva que jamais cessou de ser ameaçada pelos economicistas ou capitalistas.

Nem a concederam de bom grado, nem jamais se conformaram com ela.

Daí a atividade frenética do governo anterior, liberal economicista ou capitalista - Não fascista como quer a esquerda pós modernista desmiolada. - no sentido de destruir essa legislação e fazer o Brasil recuar ao século XIX, inglês, por sinal... Quadro social a respeito de que, diziam alguns analistas, era ainda mais cruel do que a escravidão negra em nosso país. Pois o cenário urbano na Inglaterra e na Alemanha do século XIX foi monstruoso... E o ideal economicista jamais se desprendeu dele, clamando a todo instante pela ilimitação ou pela restrição do Estado, ainda quando democrático ou popular.

Para as populações rurais de toda Europa foi o liberalismo econômico autêntica porta sobre o qual bem se poderiam fixar as memoráveis palavras: "Vós que aqui entrais perdei toda esperança de sair." 

Não, o frade jamais fora tão cruel e mesquinho quanto o patrão e os mosteiros até ofereciam escolas, enfermarias, dispensários, asilos, etc O que jamais se viu ser oferecido em larga escala pelos maravilhosos empreendedores do século XIX.

Parece-me, como a Garrett, necessária, a passagem do regime confessional ou credal ao político e laicista, de modo algum a passagem ou trânsito do Estado político ao estado Econômico, empresarial ou economicista - Como já é abertamente defendido por certos panfletários ANCAP oriundos dos EUA. No entanto se tal passagem, do puramente político ao econômico corresponde a um fenômeno inelutável, então laboramos em erro grave e devemos reconhecer que os conservadores totais ou ''católicos" atidos ao modelo medieval estariam certos. 

Pois nossa democracia, a democracia que queremos não é a dos EUA ou da Inglaterra por não ser mínima quanto a qualquer coisa mas ampla (Dentro do espaço do Bem Comum) o suficiente para proteger o trabalhador, a ecologia, a natureza, as plantas, os animais, o mar, o solo, etc Nosso projeto é tão amplo quanto ao do frade de outrora uma vez que nosso olhar político e cidadão se inspira nos mesmos valores. 





segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Mais problemas de Socialismo - Foi esta teoria ultrapassada?

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Após termos considerado a situação das sociedades contemporâneas reguladas pela ideologia Capitalista ou as consequências produzidas por esta ideologia, não menos utópica e certamente mais irracional e insidiosa do que o socialismo, podemos passar a terceira questão, proposta nos seguintes termos:

"Não é - o socialismo - uma ideologia ultrapassada? A ideia de Marx daria certo no nosso contexto hoje?"

De minha parte começarei apontando um aspecto bastante curioso e contraditório da crítica direcionada o modelo socialista.

Curioso e sobremodo curioso que alguns adversários destes sistema acusem-no de utópico enquanto que outros acusam-no de ultrapassado. Mas como poder ser utópico, i é impossível de ser implantado ou realizado no mundo e ao mesmo tempo ultrapassado, logo até certo ponto trivial ou comum?

Seja como for a indagação posta nestes termos - Se foi ele, o socialismo, ultrapassado? - é importante na medida em que damos com ele em diversas situações geográficas e históricas não enquanto mera ideologia utópica mas enquanto práxis ou prática i é enquanto modelo de organização social.

Nem é como mera ideologia que deve ser avaliado, ele ou o capitalismo; mas na prática ou na aplicação.

Neste sentido é perfeitamente redarguir com outra pergunta: E o capitalismo, não é ele uma ideologia ultrapassada? Pelo simples fato de nos ter conduzido a beira de um colapso ambiental ou de um suicídio enquanto espécie? Pelo simples fato de ter acenado com o infinito num sistema que é finito? Por ter sancionada a tendência do indivíduo tornar-se lobo do outro? Por ter estancado a circulação das elites e criado um Império de medíocres (Reverto assim a crítica favorável dos elitistas mal informados)? Por ter ignorado supinamente a existência da dimensão ética da vida conforma as lições do positivismo? Por ter promovido um sem número de guerras fratricidas? Por não poucas vezes ter 'brincado' com o veneno do fanatismo religioso?

Por quanto mais nossa terra poderá resistir?

Não sabemos, mas intuímos que não nos resta mais muito tempo...

E tudo graças a quem?

A teoria segundo a qual o principal objetivo desta vida é obter dinheiro, lucro ou fortuna em máximo grau, SE POSSÍVEL, honestamente.

Dados os objetivos foram delineados os meios, os quais conhecemos muito bem...

E agora temos diante de nós os resultados - milhares de espécies de plantas e vegetais definitivamente extintos, a terra em estado de super aquecimento, os pólos derretendo, os oceanos subindo de nível, os tornados e ciclones tornando-se mais poderosos, etc, etc, etc E gente e mais gente dizendo que tudo isto é perfeitamente normal ou mesmo que não esta acontecendo absolutamente nada. Que somos uns tolos cooptados pela propaganda vermelha, cujo objetivo é massacrar a reputação do bom e velho capitalismo!!!

Diante de tudo isto que ouvimos por parte dos chefes ou das cabeças medíocres ou mesmo imbecis do sistema (Bush e ou Trump)???

Que o ritmo da economia Norte americana é mais importante do que a conservação do planeta ou que não podemos parar de produzir...

Tal a resposta que nos é oferecida pelo sistema da moda ou do momento.

Mas os tubarões estão atacando os banhistas nas praias do Recife, coisa que jamais se viu... Tudo efeito da propaganda socialista ou do PT, os tubarões foram certamente cooptados.

Por fim como falar na viabilidade ou no sucesso de um sistema responsável pela depredação do planeta no mais alto grau e que continua, após dois séculos, repetindo como mantra que devemos acumular, lucrar, produzir ou explorar ao máximo????!!!! Que nível de racionalidade pode existir neste padrão de pensamento???

Fomos enganados desde o princípio por um sistema falacioso que editou promessas em torno de infinitude ou ilimitação num espaço material que é finito e quantificável.

O que nos leva a sonhar com foguetes e colônias na lua ou em Marte onde possamos continuar a explotação após termos transformado este nosso planeta num cadáver um numa carniça ambulante, contaminado por um nível de poluição jamais visto no universo observável. Estamos no mínimo transformando a terra em que vivemos num imenso lixão, monturo ou depósito de resíduos, e ainda não podemos sair dela ou abandonada a semelhança dos ratos que saltam do convés.

Apesar disto o discurso é o mesmo e se mantém inalterado, havendo quem insista em tecer loas e dirigir aplausos ao deus capital.

Agora vou revelar ao amigo leitor uma verdade importante e a respeito da qual muito devemos meditar: E este nosso mundo todo infectado por sucessivas epidemias de socialismo não é o ambiente ou mundo ideal sonhado pelos liberais ou capitalistas...

Como é???

Isso mesmo. Devido ao maior ou menor grau de contaminação socialista produzida pela revolta ou pela resistência de tantos idiotas, o capitalismo jamais atingiu o seu nível ideal de desenvolvimento porque jamais foi de fato deixado livre e ao sabor de suas próprias forças!!!! Você compreendeu bem???

Diante disto temos de considerar a profunda reflexão do outro Karl, o Polayni: Via de regra desdouramos quanto a todo este grau de resistência experimentado pelas diversas sociedades face as aspirações do liberalismo, sem imaginar o quanto toda esta resistência desacelerou-o. Sabe-se lá em que estádio de degradação estaríamos agora caso não fosse a soma de toda resistência ao modelo do lucro máximo... Se ainda não chegamos ao fim da linha, agradeçam o odiado socialismo enquanto elemento de contenção.

Evidentemente que o Capitalismo desejaria ter feito mais e muito mais...

Tendo por modelo a clássica sociedade vitoriana da livre iniciativa, a qual esteve em vigor de 1830 a 1880, ou seja mais ou menos durante meio século na querida Albion. Temos ai a santa Genebra do capitalismo ou sua idade áurea com que jamais cessou de sonhar. Nem precisamos ler as obras dos rancorosos socialistas que tudo falseiam para conhecer a sociedade de Jack, o estripador; pois temos as obras clássicas e estilosas do britaníssimo Mestre Charles Dickens, condecorado por sua majestade. Nada muito distante do quadro pintado pelo odiado Marc Ferro em seu 'Livro negro'... Há quem diga e não sem fundamento que durante o período áureo do capitalismo os escravos brasileiros desfrutavam de uma condição pouco melhor do que os trabalhadores livres de Manchester... Os quais além de viverem em barracões de papelão sem água encanada, luz ou esgoto, comiam, quando tinham, um pedaço de pão duro, além de cobrirem-se com trapos, num pais em que o inverno é bastante rigoroso.

Estou falando em crianças de seis anos (alguns registros dizem quatro!), de octogenários e de mulheres no oitavo mês de gravidez, trabalhando nos corredores das minhas de carvão sem qualquer tipo de proteção, com um pedaço de pão velho no estomago (muitas vezes vazio) por até dezoito horas por dia e 364 dias ao ano. Tudo muito bem regulado em nome da liberdade de contrato... Afinal quem não quisesse bem poderia deixar de trabalhar PARA MORRER DE FOME COM SUA LIBERDADE!!! Bom insistir que tudo isto foi sustentado e mantido em nome da bela doutrina da livre iniciativa e da neutralidade do estado face a dinâmica natural do próprio Mercado. Mais, em nome de tudo isto, até foi formulada uma refinada doutrina a respeito do mínimo de insumos a serem oferecidos ao trabalhador em troca da força de trabalho, o qual lhe permitiria apenas conservar a vida! O que ainda hoje é seriamente discutido entre os acadêmicos liberais!!! Preciso entrar nos detalhes desta quantificação matemática em termos de pão, água e pano necessários ao trabalhador para permanecer vivo e trabalhando ou melhor produzindo para seu patrão???

Enfim nobre amigo leitor, este é o ideal ou a proposta clássica do Capitalismo, frustrada apenas e tão somente devido as ardilosas conjurações tecidas pelos socialistas frustrados e rancorosos, os quais recusaram-se - oh céus - a aceita-la. Aqui todos são vagabundos pelo simples fato de não quererem trabalhar intensamente, isto é, ao máximo - e a pão e água - por aquele empreendedor exemplar que é o patrão. E não venham com chorumelas pois esse negócio de 'mais valia' não existe rsrsrsrsrsrs

De fato o Capitalismo tem acenado não apenas com a circulação das elites mas também com a posse de riquezas para todos ou para a maioria dos membros do corpo social e ao menos para os mais esforçados, que adotem sua regra de vida, i é, trabalhar honestamente e economizar. No entanto quando examinamos mais de perto o que vemos? Vemos a maior parte dos trabalhadores ou assalariados - o capitalismo clássico é contra um salário mínimo fixado pelo estado em nome do maravilhoso livre contrato - enriquecerem??? Não. Então o que vemos??? Bem o que nós vemos é os herdeiros enriquecerem (mais e mais a cada geração)... Os que jamais põem as mãos na massa enriquecerem... Os trapaceiros sem consciência enriquecerem... Os bem casados enriquecerem... E acumularem cada vez mais riqueza.

Vemos quem não trabalha mas vive gozando a vida enriquecer ou acumular e quem busca ganhar o sustento com o suor do próprio rosto rojar na miséria... É o que amiúde vemos, e por que??? Porque, respondem-nos os advogados do capitalismo, os trabalhadores, os trabalhadores são esbanjadores - pelo simples fato de quererem provar vinho ou atum uma vez por ano ou uma vez na vida - enquanto que os patrões são sacrificados, morigerados, heroicos, disciplinados e praticamente, abençoados por deus rsrsrsrsrsrsrs Alguém se lembra de Max Weber e da 'Ética protestante...' Como se vê o capitalismo tem seu 'hagiológio' onde constam os nomes dos patrões morigerados, apesar do caviar, do Hanessy, dos banhos em leite de aveia, das cirurgias plásticas, iates, ferraris, heliportos, etc Quem não percebe que proporcionalmente este patrão gasta muito pouco para viver tão bem???

Agora por que acumula tanto é o que não explicam... Porque lá entra a mais valia ou a parte - colossal - do trabalho produzido de cada trabalhador abnegado, a qual fica com o senhor patrão. Imagine então o que sucede com quem explota o trabalho de dez mil operários abnegados... A cada ano mais dez fábricas ou filiais, apesar dos limitadíssimos gastos com festas e recepções a um milhão de reais cada!!! Enquanto o trabalhador ganha 900 pratinhas graças ao salário mínimo fixado pelo Estado ou pelo poder político... Pois a depender da maravilhosa ideologia capitalista passaria muito bem com cem reais por mês caso não morresse. Quanto aos filhos pequeninos - salário família ou o bolsa família correspondem a situações monstruosas para nosso asceta do capital - que se prostituíssem como nos velhos tempos da Rainha Vitória e fossem respeitosamente deflorados pelos membros da elite reinante.

A bem da verdade o que temos aqui é pura falácia (cf Henry George 'Progresso e pobreza) i é miséria acumulando-se de um lado na mesma proporção em que a fortuna acumula-se do outro em muito poucas mãos. E uma ampliação continua da separação social entre as classes. Uma minoria incipiente de milionários cada vez mais milionários e uma maioria de miseráveis cada vez mais miseráveis. O que nos conduz de chofre - na medida em que a religiosidade apaziguadora vai perdendo a força - a situações de conflito e violência e consequentemente a necessidade das elites terem as mãos um aparelho repressor - em certo sentido retornamos ao paradigma da coerção física na medida em que a alienação da fé vai perdendo sua força - muito bem organizado, tal e qual uma polícia militar.

Tal a situação entre as classes, mas não só entre elas; pois na mesma medida em que algumas sociedades vão abraçando a ideologia capitalista e atingido máximo desenvolvimento em seu espaço, tendem a lançar-se contra as sociedades mais fracas com o objetivo de coloniza-las ou escraviza-las gerando outras relações de dependência e uma situação de miséria social generalizada, assim o subdesenvolvimentos. Por outro lado na medida em que as sociedades exploradas vão tomando consciência de sua situação, mesmo quando não se tornam comunistas ou mesmo socialistas, tendem a insubordinar-se e a sacudir o jugo da dominação imperialista, resultando disto outros tantos conflitos extra nacionais ou mundiais i é as guerras.

No interior das diversas sociedades o capitalismo alimentando a revolta estimula a rebelião e a sedição, produzindo um clima continuo de instabilidade e insegurança. Externamente produz uma série de choques e guerras entre as diversas sociedades imperialistas e subdesenvolvidas. Outras tantas guerras que fogem a esta dinâmica são produzidas ou alimentadas tendo em vista as necessidades da indústria bélica ou mesmo da indústria civil - cujo objetivo premeditado é a reconstrução da infra estrutura destruída pelas guerras - enfim do Mercado. O Mercado precisa ser aquecido pelas guerras, as guerras são feitas e exploradas economicamente.

De tudo isto, tenho de parar por aqui ou de escrever uma Enciclopédia rsrsrsrsrs, ressalta claramente a inviabilidade do Capitalismo, observada desde as mais priscas eras i é desde Th Morus e Campanella. Melhor dizendo, desde Evemeros, Zenon e Jambulos. E desenvolvidas por Bacon, Harrington, Mably, Morelly, etc St Simon, Owen, Fourier... Não a poucos observadores qualquer uma destas utopias - que só é utopia enquanto não é realizada por algum homem mais atilado - é preferível a realidade acima descrita. Foi o desencanto - a expressão é de T S Elliot - ou a angústia produzidos pela nova sociedade do capital que lançou parte dos homens nos braços da utopia.

O socialismo no entanto, em maior ou menos medida, tendo existido concretamente e na maioria das vezes com sucesso, numa determinada conjuntura histórica, não nos parece nem ultrapassado nem inviável, mas absolutamente necessário enquanto única forma de oposição a realidade indesejável que temos, o Capitalismo.

Como poderia ser ou estar ultrapassado se no momento presente ou agora mesmo - e há mais de meio século - regula os destinos das sociedades mais civilizadas do planeta, no Norte da Europa ou Escandinávia? Como poderia ser ou estar ultrapassado sem em Cuba tem enfrentado com relativo sucesso um embargo imposto pela nação mais poderosa da terra? Como poderia ser ou estar ultrapassado após tudo quando tem realizado pela população mais humilde da Venezuela e na perspectiva de uma democracia semi direta? Como poderia ser ou estar ultrapassado se em parte contribuiu com o que a de melhor para as legislações trabalhistas da Alemanha, Inglaterra, França, Itália, Espanha e Portugal tornando tais sociedade relativamente estáveis apesar dos progressos do capitalismo???

Já quanto as ideias de Karl Marx - já dissemos que o Socialismo não procede de K Marx mas de Urukagina, Akenaton, Faléas, Sócrates, Buda, Confúcio, Jesus, Paulo, Padres da Igreja, Escolásticos, Utópicos, etc - temos que distinguir seu duplo conteúdo: O conteúdo científico, de crítica formal ao modelo capitalista, vazado em sua obra clássica o capital. Temos aqui uma análise empiria e econômica de uma realidade dada, a qual revela sua inoperância ou seus defeitos estruturais. Neste terreno as críticas de Marx são tão válidas que tiveram de ser consideradas e incorporadas por J M Keynes. O capitalismo é viciado e inviável socialmente falando.

Já no 'Manifesto comunista' e obras congêneres temos um projeto de sociedade futura fundamentado em determinados princípios e valores, e portanto numa ética tomadas ao Cristianismo e ao Humanismo socrático. Concedemos sem maiores problemas - não somos positivistas - que este projeto seja mais ético, abstrato, metafísico, etc do que científico. Para além disto a proposta do Marx socialista costuma ser mais radical que as demais propostas socialistas de modo que ele é um tanto demolidor ou iconoclástico e isto a ponto de querer eliminar o regime assalariado - contaminado pela mais valia - e para tanto fazer uma 'reforma agrária' dos meios de produção, compreendido como os instrumentos ou aparelhos destinados a produzir algum bem de natureza econômica i é negociável. Naturalmente que isto, para nós - que não somos comunistas - é discutível. Por fim quanto aos meios embora Marx mesmo, tal como Engels, Kautsky e Berstein e nós mesmos, tenha em sua última fase optado pela via institucional (superando assim sua crítica um tanto radical assumida na 'Crítica ao programa de Gotha) devemos lembrar que Lênin, a partir de Sorel, elaborou uma mística revolucionária a partir da qual o conceito de Revolução passou a ser compreendido necessariamente e exclusivamente em termos de um conflito bélico sempre regado com sangue. Desde então os comunistas ou marxistas ortodoxos esforçam-se por atribuir esta opinião a Marx e isto a ponto de alguns deles acusarem já não somente Kautsky, mas o próprio F Engels e mesmo Eleonor - filha de Marx - de terem falsificado o pensamento do barbudinho e criado ou legalizado a social democracia compreendida como via institucional. Segundo esta visão artificiosa tantos quantos precederam Lênin teriam sido renegados ou falsificadores. No mínimo, nenhum deles teria penetrado e compreendido perfeitamente o pensamento de Marx antes do russo. O idealismo embutido nessa teoria salta a vista - É como se Paulo tivesse compreendido melhor a mensagem de Jesus do que Pedro, Tiago e João i é as testemunhas oculares da palavra ou como se os califas tivessem compreendido os ensinamentos de Maomé, melhor que a shahaba.

Claro que todo este projeto de Marx e mais ainda a metodologia canonizada por Lênin e jamais aceita acriticamente pelos sociais democratas e 'revisionistas' é mais do que discutível e eu não penso que a mística ou receita de bolo da Revolução armada e violenta ou da sedição, seja viável - abstratamente - em quaisquer sociedades. Os modos porque alcançar o socialismo são diversos ou múltiplos e a institucionalidade poderá ou não se possível, em muitas situações o é. Isto porém é discutir com Lênin não com Marx e tenho para mim que a cosmovisão de Lênin, segundo reconhece Engels numa de suas últimas cartas a Kautsky só é viável em situações não democráticas de exceção, assim como um golpe de estado semelhante ao qual estamos vivenciando hoje no Brasil. E não preciso ser comunista e nem mesmo socialista mas simples liberal (em política), democrata ou policrático para reconhecer que um governo ilegítimo ou golpista deva ser removido por meio da força ou das armas, este ensinamento não é de Marx ou Engels mas dos grandes teóricos da Revolução Francesa, de Alfieri, enfim de John Locke ou mesmo do Pe Jesuíta Juan de Mariana. Não é problema de socialismo ou marxismo mas de política e de liberalismo clássico face a tirania. A própria Constituição dos EUA é taxativa ao declarar que todo cidadão tem o dever de rebelar-se face a uma situação anti democrática de golpe. Salvo em tais situações anti democráticas que fogem a legalidade os socialistas, mesmo marxistas - não leninistas - aceitam o jogo democrático, embora os mais esclarecidos aspirem desconstruir a democracia burguesa ou formal ampliando-a e aprofundando-o na perspectiva de uma democracia cada vez mais direta, a exemplo do bolivarianismo venezuelano, do Demoex na Suécia, etc o que reporta a Gramsci, Polantzas e outros teóricos que seguem na vertente oposta a de Lênin. 

Penso que qualquer uma dessas propostas socialistas - excluída a da ditadura do proletariado, conceito tomado por Marx ao atrabiliário Blanqui e canonizado por Lênin - seja preferida a realidade capitalista. Não me refiro aqui ao comunismo enquanto solução futuro ou ao marxismo ortodoxo, mas apenas e tão somente a qualquer solução socialista nos termos de uma social democracia vinculada a implementação de uma democracia direta ou semi direta que permita ao povo desmassificado e esclarecido tornar-se agente de sua História. Sim eu acredito na viabilidade desta proposta. Temos aqui uma vasta gama de propostas socialistas a serem empiricamente testadas no corpo social e não podemos dizer que seja inviável antes de testa-las e esgota-las todas.

Os percalços históricos dos socialismos

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Após termos analisado os motivos porque os intelectuais e professores, e pequenos funcionários públicos, com seus méritos pessoais, tendem a assumir uma postura não apenas crítica, mas hostil face ao Capitalismo cumpre examinar a questão seguinte - vide artigo precedente - sobre o insucesso dos socialismos.

"Existiram e existem vários lugares em que não deram certo."

Mas, aparentemente a democracia ateniense, extinta no século III a C, também não deu certo...

Deveríamos tornar ao esquema dos reinados divinos do Oriente?

Uma coisa que não deu certo num determinado período histórico ou em determinadas condições, bem poderá dar certo noutras.

Assim a democracia direta ou policracia nos Landsgemeine suíços ou o Demoex na Suécia.

Acho hipocrisia lançar criticas a pequenina Cuba pelo simples fato de estar sob um embargo econômico unilateralmente imposto por um Império. Levantem o embargo, julguem a pequena Ilha em condições de IGUALDADE -  exigência da justiça - e então ai discutiremos. Desconsiderar o embargo imposto a essa república, é para mim pura e simples desonestidade.

Antes de criticarem a Revolução Venezuelana tentem observar imparcialmente a conjuração de formar internas e externas que levantou-se contra ela. Afinal quem nestes nossos tempos ignora que o mercado financeiro engendra e administra crises econômicas com objetivos meramente políticos assim desestabilizar determinadas sociedade que adotaram um modelo 'não ortodoxo' buscando levantar as massas contra os governantes???

Certamente não aprecio a Revolução cubana devido a seu conteúdo autoritário ou despótico, no entanto quem não vê ou percebe quão pouca democracia real existe nas esferas mais altas do governo Norte Americano? Concedo sem maiores problemas que os norte americanos tenham forte tradição democrática, admirável por sinal, mas na esfera do municipalismo, não enquanto Estado nacional. Todavia para ser justo quanto a república de 'Castro' tenho de considerar a realidade social anterior ao regime comunista que era a da não menos despótica e imperialista Emenda Platt... E tenho de levar em conta as críticas tecidas, já no século XIX, pelo não comunista, Jose Marti, um dos ícones da Revolução cubana. Desconsiderar todos este fatores é julgar sem devido conhecimento de causa.

Há uma Coréia do Sul. Beleza mas também há Estados Unidos da América do Norte policiando ideologicamente o mundo com ferocidade e arrogância; buscando tirar proveito econômico. Há um Bush, há um Trump... Há idiotas, psicopatas e palermas com bombas atômicas do outro lado, quem se importa ou incomoda??? Alias por que os EUA podem ter bombas atômicas e as demais sociedades livres não podem? Em que são melhores ou superiores??? Isto não cria uma disparidade em termos de poder como foi dito pelo Dr Enéias Carneiro??? Em que critério material nos baseamos para classificar os EUA como bons e a Coréia do Norte como má? Aqui os paralogismos vão se acumulando ao infinito...

Há no momento atual um esforço político muito bem coordenado no sentido de impedir a todo custo que soluções não capitalistas, logo socialistas, deem certo. São pura e simplesmente boicotadas por meia da força seja física ou econômica. Não morrem de morte natural, por si mesmas (falência múltipla de órgãos). São mortas ou assassinadas por outras Sociedades... São impedidas de dar certo por obra de um poder externo.

Vou no entanto retroceder e examinar o passado.

A primeira reforma social aconteceu muito mas muito tempo antes que se ouvisse falar no odiado Karl Marx. Que digo? Aconteceu muito mas muito tempo antes que se ouvisse falar os nomes de Jesus, Sócrates, Buda ou Confúcio. Pois aconteceu na pequena cidade de Lagash, na Suméria ou no Sul da Mesopotâmia - atual Iraque - há cerca de 3.500 anos, por iniciativa do rei Urukagina. Os detalhes podem ser encontrados - há textos originais - na "Suméria, berço da civilização." de Samuel Noah Kramer e numa versão tanto mais abreviada em Max Beer "História do Socialismo". Curioso aqui é que Urukagina apelava a uma ordem social mais antiga, fixada no início ou aurora dos tempos, apresentando-se destarte mais como um reacionário e restaurador do que como um revolucionário. Seu ideal de justiça ou de sociedade equilibrada, numa perspectiva histórica, esta no passado.

Teria sua reforma social dado certo? É o que não podemos saber uma vez que pouco depois de ter sido implementada foi a pequena Lagash invadida e conquistada por Lugalzagezi de Umma.

Outra tentativa, um pouco mais sutil e de teor mais religioso, de reforma social, afogada em sangue deu-se no Egito de Akenaten, o faraó monoteísta e anti imperialista que aboliu os sacrifícios sangrentos. Podemos le-la romanceadamente no 'Egipcio' de Mika Watari, filmado em 1953 creio eu. Temos aqui mais uma vez, uma iniciativa de reforma social pacifica até certo ponto, violentamente reprimida pelos poderosos sacerdotes de Amon Rá e pelos chefes militares.

Segundo Aristóteles o primeiro grego a idealizar uma Constituição socialista foi Faléias de Calcedônia. Aristóteles pode passar a proposta de Faleias por uma severa crítica, não pode todavia apelar a realidade concreta e certificar que a proposta de Faléias não havia dado certo, o que nos leva a supor justamente o contrário, isto é, ter ela vigorado com relativo sucesso na cidade de Calcedônia.

Para além disto podemos compendiar os seguintes exemplos:

  • A Bizâncio Cristã nos séculos IX a XII pode ser descrita como uma república em que a promoção social atingiu alto nível de sofisticação em que pese as estrutura política formal da monarquia. Embora ela tenha passado por sérias mudanças sociais e crises foi destruída pelos turcos seljúcidas no século XV.
  • O Império inca funcionou perfeitamente por no mínimo um século adotando um modelo fortemente socialista destruído pelos espanhóis em 1530.
  • A República guaranítica dos Jesuítas, criada no Paraguai pelos idos do século XVII, também foi por assim dizer destruída externamente pelos conquistadores portugueses após ter dado certo por cerca de um século.



Temos acima o exemplo de três sociedades relativamente socialistas que deram certo por um bom tempo e que foram destruídas externamente por outras sociedade sem que tivessem apresentado - no caso das duas últimas ao menos - sérios problemas estruturais a nível de organização interna.

Quanto a Europa civilizada no entanto, após a reforma protestante, impos-se cada vez mais um modelo burguês, liberal economicista ou capitalista cuja dinâmica foi descrita com absoluta precisão por David Ricardo já no comecinho do século XIX. A simples substituição do ideal gregário - tomado pelo catolicismo já ao judaismo, já ao platonismo grego - pelo ideal individualista canonizado pelo protestantismo mudou por completo a dinâmica da cultura na medida em que conferiu uma sansão espiritual ou metafísica ao novo padrão de relações econômicas até então incipiente. A igreja antiga fiel ao pensamento de Aristóteles a respeito dos juros e ao conceito tradicional de avareza legado pelo judaísmo, jamais havia se disposto a conceder tal tipo de sansão aos ensaios de liberalismo feitos pela burguesia. Sua tendência era reprimi-los justamente por meio daqueles poderes e sansões imateriais de plasmam a cultura e a mantém estável.

Eis senão quando estoura a reforma protestante, trazendo em seu bojo outros tipos de valores como o aquele individualismo peculiar as sociedades nórdicas e teutônicas e cuja gênese foi detalhadamente explicada por Le Play e Turville. Após ter sido ele introduzido na esfera da religiosidade Cristã, em franca oposição a tradição milenar, fica fácil compreender como e porque inseriu-se facilmente em todos os demais domínios da cultura produzindo outros tantos nichos de pensamento individual ou liberal. Desde então pode o liberalismo incipiente ou a avareza alimentar-se da cultura e impor-se materialmente no mundo real, criando novas estruturas. A partir da dinâmica cultural criada pelo protestantismo o liberalismo econômico, mesmo antes de sua codificação pôde encarnar-se muito facilmente em todas as sociedades europeias e esta solução cultural, ao menos nos países protestantes, inviabilizou qualquer saída pelo socialismo.

Em todas estas sociedades o Socialismo, mesmo enquanto parte do ideário Cristão tradicional, foi cada vez mais retomando aquela direção ancestral naturalista característica do modelo grego, e seguindo pela decididamente pela via do agnosticismo até o ateísmo e o materialismo. O que vindo a chocar as sociedades católicas tradicionais acabou despertando uma estranha oposição. Isto a ponto do Catolicismo romper com seus próprios valores no curso dos séculos XVIII e XIX, ocasião em que os Católicos mais esclarecidos, capitaneados por F Lammenais, Von Keteller e Maning criaram um partido Católico social resgatando sua tradição. Na Itália Nitti e De Amicis apresentaram este partido como socialista. O termo socialista havia sido inventando pelo pensador francês Pierre Leroux pelos idos de 1830.

Quanto ao socialismo naturalista foi proposto primeiramente proposto pelos niveladores ou diggers durante a revolução inglesa. Assim Liliburne, assim Winstanley inda que de modo bastante sutil e de matiz religioso. Devemos lembrar que a Inglaterra é pátria do único reformador protestante classificado por muitos como socialista Hugh Latimer e que a proposta do anglo Católico W Laud e seu circulo era igualmente socialista e até mais socialista e popular em oposição ao ideário puritano/calvinista em que topamos já com uma orientação liberal economicista. Seja como for a Revolução Inglesa jamais foi comandada pelos diggers em qualquer uma de suas fases ou etapas, enquanto que o partido anglo católicos foi esmagado com o rei, ficando vencedores os puritanos. E este é o motivo porque é classificada como uma Revolução burguesa do começo ao fim ou em sua totalidade. Jamais houve uma fase ou período socialista na R Inglesa, apenas uma fermentação teórica.

Outra é a situação da R Francesa, sobretudo com o incorruptível Robespierre. Aqui pela primeira vez damos com um ideário socialista no comando e portanto com uma fase caracteristicamente socialista, o que evidentemente supõem uma direção relativamente igualitária e teses como a reforma agrária, o abolicionismo, etc No fim das contas Robespierre é assassinado, sucedendo-se uma restauração sob Bonaparte. Babeuff seu continuador, avança na direção de propostas ainda mais radicais e aspira levar as reformas robespierrianas a frente capitaneando a 'conjuração dos iguais'. A conjuração falha vindo ele a ser processado e morto. É sucedido por Ph Buonarroti e este por A Blanqui sob diversos aspectos práticos, como a polêmica 'ditadura do proletariado' inspirador e mentor de K Marx. Fácil compreender que a direção desta cepa vai de tornando cada vez mais radical até dar no extremismo comunista.

Concomitantemente, no século XIX, especialmente após a revogação das leis sobre o fornecimento de suprimentos aos pobres (criadas logo após o fantasma da Revolução ter ameaçado a Merry England após a 'queda' da França) pelos idos de 1830, a formação de um denso mercado de reserva e a implementação de uma dinâmica capitalistas ideal nos moldes clássicos de teóricos já consagrados - como - Smith, Davi Ricardo, Petty, etc - a opção socialista ou mesmo comunista vai se tornando cada vez mais atraente para os clérigos - fossem unitários, romanistas ou anglo católicos - professores, pequenos funcionários públicos, artistas, poetas, cientistas, etc enfim para tantos quantos recusavam-se a aceitar a realidade dada como única opção possível e aspiravam reconstruir a sociedade noutros moldes. A imensa produção de injustiça, miséria e ignorância no cenário áureo da Inglaterra vitoriana exasperava os setores mais reflexivos e críticos daquela sociedade na mesma medida em que agradava os donos do poder.

Desde 1870 os conflitos sociais tornam-se agudos e desde 1880 a 1920 há um grande esforço por parte das elites intelectuais, pertencentes as classes médias, no sentido de buscar soluções institucionais para o problema em termos de reformas e de reformas destinadas a limitar ou conter o Mercado. Na Inglaterra o conjunto dessas aspirações reguladoras (logo socialistas) de viés institucional, destinadas a proteger a pessoa do trabalhador recebe o nome de trabalhismo. Essas reformas são sistematizadas e organizadas de modo efetivo em 1945 quando Clement Attle esmaga o 'vitorioso' Churchill e adota uma agenda de bem estar social inspirada em J M Keynes. 

Destarte, num nível maior ou menos a Inglaterra foi socialista ao cabo de cem anos i é desde 1880 a 1980 i e ao período Tatcher e mais acentuadamente ainda a partir de 1945 sem que no entanto esta opção acarretasse maiores problemas ou levasse o país ao colapso. De fato nada no período pré Tatcher sugere qualquer tipo de crise mais séria em termos sociais ou econômicos. Havia estabilidade e relativa segurança. Neste caso qual a razão ou razões de Tatcher??? Antes de tudo a conjuntura externa da guerra fria e o decorrente alinhamento com os EUA. Era necessário demonstrar que a proposta neo liberal era não apenas viável mais excelente e aqueles que na Inglaterra sentiam saudades da doutrina clássica do lucro máximo compraram a ideia. Assim o socialismo foi em parte desmontado com o objetivo de promover ideologicamente o liberalismo num clima de guerra fria.

Tal a situação da Inglaterra. De modo que não se pode dizer que o socialismo não deu certo naquele contexto. Ser arbitrariamente removido num contesto de institucionalidade é bem outra coisa.

O segundo exemplo de socialismo bem sucedidos e tão bem sucedidos a ponto de amenizar os conflitos étnicos que seriam reavivados uma década depois - num contesto de liberalismo ascendente - é a então Jugoslávia de Iosip Broz Tito, a qual partindo do comunismo tomou um rumo sui generis, chegando inclusive a conquistar o respeito da URSS e a funcionar muito bem até a morte do Marechal, ocasião em que veio a passar por uma crise devido a questões de natureza política como a liderança e a ser levado de roldão juntamente com as demais sociedades comunistas do Leste Europeu.

O terceiro exemplo bem sucedido e muito bem sucedido temos nos países Escandinavos, capciosamente apresentados como capitalistas ou liberais por certa propaganda desleal e desonesta. Th Picket no entanto não apenas faz lembrar que tais países tem permanecido rigorosamente fiéis ao modelo de bem estar social inspirado em J M Keynes pois mais de meio século, como faz questão de demonstrar que tais países apresentam as mais altas taxas de impostos do mundo ( por onde se vê que não são liberais nem em sonho) e que o montante desses impostos é redistribuído a toda população por meio de investimentos sociais implementados nas áreas da habitação, educação, saúde, lazer e cultura, o que impede o aumento excessivo da desigualdade e a proliferação da miséria. Evidentemente que este mecanismo redistributivo, responsável pela situação de equilíbrio vigente em tais sociedades, não é econômico ou financeiro, mas político e externo ao Mercado. Nem se vê como esse princípio regulador externo esteja de acordo com as aspirações do liberalismo clássico...

A honestidade nos obriga a reconhecer que os países do Leste europeu nada tem de capitalistas, pois na mesma medida que concedem total liberdade a iniciativa individual ou privada, taxam implacavelmente toda as iniciativas bem sucedidas por meio de impostos com o objetivo de reverter parte da renda produzida pelas empresas capitalistas aos trabalhadores. Situação em que a sociedade ou o estado realiza uma mediação muito bem sucedida e eficaz. Claro que o livre consentimento dos liberais não esta em jogo e que eles não cessam de criticar ferozmente estes sistema, o qual nada tem de capitalista.

Ora este sistema de redistribuição de renda pautado nos impostos e na promoção social tem se mantido até hoje e se mostrado relativamente eficaz. Basta dizer que se trata das sociedades com o melhor índice de qualidade de vida do planeta. E que estão muito a frente da Sociedade norte americana, a qual como demonstraram Lênin e Rosa Luxemburgo não se pode sustentar sem recorrer ao imperialismo, a pirataria internacional e a guerra desde que conquistou os territórios indígenas em 1890 e atingiu o máximo limite possível em termos de expansão territorial contínua. Os cidadãos Norte americanos tinham razão em ser otimistas e confiantes em 1776 quando ainda havia um imenso território a ser conquistado e um montante colossal de riquezas naturais a serem pilhadas, o que possibilitava, até certo ponto a sustentabilidade. Outra é a situação dos EUA a partir do final do século XIX e especialmente no decorrer do século XX na medida em que a própria dinâmica do Capitalismo vai produzindo desigualdade e miséria cf Henry George 'Progresso e pobreza' e estimulando o conflito social.

Desde então a 'maravilhosa' sociedade Yankee teve de enfrentar um pavorosa crise econômica, com todo um lastro de tragédias pessoais e o recrudescimento da repressão com o consequente apego doentio ao mecanismo repressor da pena capital, além de implementar uma política cada vez mais imperialista - sancionada culturalmente pela doutrina do destino manifesto - responsável pela eclosão de centenas de conflitos por todos planeta. Diante disto não podemos deixar de pensar aquela sociedade animada pelo espírito capitalista como um morcego vampiro ou uma sanguessuga, enfim com um ser parasitário cuja existência depende da matéria tomada a outros seres, no caso a outras sociedades, votadas a uma situação de subdesenvolvimento (anemia espiritual).

Toda a vez que qualquer pessoa muito mal informada questiona-me sobre o fato do Capitalismo ir muito bem nos EUA obrigado ou dos EUA irem muito bem (não importa a forma da pergunta), limito-me a replicar: Mas a que preço, mas a que custo! Já pararam para pensa na contrapartida representada pelo imperialismo, o sub desenvolvimento, a miséria e as guerras??? Será pouco??? Acaso os EUA com seu belo capitalismo poderiam sustentar-se sem molestar ou abusar de outras sociedades ou manter-se ficando na sua??? Será portanto o capitalismo um modelo internamente sustentável ou um modelo que depende da existência de outras sociedades e continentes humanos a serem explorados ou melhor escravizados???

Só para concluir: Tenho observado diversos modelos socialistas perfeitamente realistas e funcionais em todo decorrer da História desde Faléias de Calcedônia. O que não me convence por outro lado é a perfeita funcionalidade de um modelo que dependa da pilhagem e da força, da guerra e da sabotagem, de embargos e terroristas para manter-se. E que tenha causado tantos problemas ao mundo em menos de cem anos. Por fim na medida em que este sistema de lucro máximo viraliza outras sociedades damos com os recursos naturais se esgotando, com a mãe natureza explorada num ritmo irracional e com a fauna e a flora cada vez mais ameaçadas por uma extinção em massa. Nesta perspectiva o que vejo e a ideologia ou proposta capitalista conduzir a humanidade ao suicídio ou convertendo-nos em predadores implacáveis. Afinal não podemos adotar propostas infinitas e pretensiosas num plano finito, e tampouco estimular os instintos agressivos e doentios do ego com esse tipo de proposta. De fato há em nós uma tendência que aponta para o egoísmo crônico, a qual precisa ser educada ou mesmo reprimida (pela ética ou pela fé religiosa é claro).

Tendemos a nos multiplicar ao máximo, a acumular ao máximo... mesmo sendo entidades distintas numa cifra alarmante. Tudo isto é marcadamente irracional até a loucura pois ignoramos nossa condição e os limites de nossos recursos, sonhando em pilhar outros mundos e oprimir as formas de vidas que neles vivam. O Capitalismo nos tem convertido em zumbis predadores alucinados por cérebros... Por isso profanamos a terra em que vivemos cf Scott Nearing estupramos a mãe natureza e convertemos a sociedade num inferno sobre a terra.

Enfim admitindo que os socialismos não tivessem funcionado não estaria demonstrado que o capitalismo funciona ou funcionou algum dia. Dado por certo que o socialismo não funcionasse por defeito estrutural ou de natureza interna, seriamos forçados a concluir que nada funciona. Tudo quando nos restaria seria o nada absoluto e a total falta de esperança. Ora o homem não pode viver sem esperança ou mesmo utopia. Em posse plena de suas faculdades não é um ser conformado... 









sábado, 21 de janeiro de 2017

Breve resposta a Milton Friedman a respeito do capitalismo e da liberdade

Impossível escrever um ensaio sobre capitalismo e liberdade, enquanto fenômenos reais, humanos e sociais sem assumir uma perspectiva marcadamente história.

Do contrário teremos um ensaio metafísico. Favorável ou contrário ao capitalismo mas sempre metafísico.

Tanto mais abstrações e especulações neste âmbito menos valor.

História se faz com fatos e não com convicções ainda que honestas.

Eis porque nos permitimos a classificar a obra de Milton Friedman 'Capitalismo e liberdade' sob todos os aspectos como 'metafísica' ou escolástica, tal a pobreza dos fatos destinados a ampara-la.

Aqui selecionar e excluir partindo de pressupostos ideológicos será sempre desonesto. Implica manipular e não construir a História. História se constrói levando em conta todos os fatos ou os fatos em sua globalidade.

É somente a partir da integralidade dos fatos que podemos formular juízos históricos.

Não foi o que fez Friedman o qual partiu de uma ideia fixa e pré estabelecida segundo a qual o liberalismo econômico promove necessariamente o liberalismo político enquanto que o Socialismo ou controle econômico estaria relacionado com o totalitarismo.

E partindo desta ideia equivocada e tosca selecionou material e compôs mais uma Apologia furada do capitalismo. Falseou descaradamente a História e ainda assim fez seguidores, especialmente, é claro, no Brasil.

Hannah Arendt tomou o caminho contrário, examinou atentamente a História, partindo de nossa herança grega até a afirmação do Capitalismo e concluiu que o liberalismo econômico tem restringido mais e mais o espaço da reflexão política.

Apresentemos portanto os fatos que Friedmann ardilosamente ocultou:

  • Apesar do governo F D Roosevelt, após a falência do modelo liberal, em 1929, ter assumido um caráter marcadamente intervencionista (Implementou o New Deal formulado por J M Keynes) e de apoio a sindicatos e trabalhadores inclusive não houve praticamente qualquer alteração na estrutura de governo dos EUA
  • A construção do modelo trabalhista inglês de bem estar social ao decorrer da última quadra do século XIX foi igualmente norteada pelos princípios políticos liberais ou democráticos, sem que houvesse qualquer alteração neste sentido. Na Inglaterra liberalismo político e trabalhismo caminharam de mãos dadas até o advento da sra Tatcher e isto ao cabo de quase um século.
  • A implementação do modelo de bem estar social nos países escandinavos transcorreu da mesma maneira ou seja nos termos do liberalismo político vigente.


Portanto a relação apontada pelo sr Friedman segundo a qual o capitalismo esta para o liberalismo político como o socialismo esta para o despotismo, é coisa que não se verifica. Pois tanto os EUA, quanto Inglaterra e Escandinávia acabaram por romper com o modelo liberal clássica e por adotar certa medida de intervencionismo - e portanto de socialismo - sem que houvesse qualquer alteração ou ruptura significativa nos domínios da política.

É o quanto nos bastaria para contestar a generalização feita por ele e apresenta-la como superficial e infundada.

E no entanto contamos com outro gênero de argumentos.

Que dizem respeito a imposição do modelo econômico liberal por um poder político autocrático.

Assim o próprio Friedman não hesitou em aconselhar e apoiar o ditador chileno Pinochet em sua cruzada anti socialista destinada a implementar o liberalismo econômico no Chile. E ele mesmo, o autor de Capitalismo e liberdade serviu como padrinho a união entre despotismo e liberalismo econômico. Demonstrando com fatos e exemplos que sua teoria era pífia...
Outro aspecto demasiado marcante da política latino americana recente foi a supressão violenta do modelo político liberal ou da ordem democrática em beneficio do liberalismo econômico, no caso ameaçado por reformas de caráter intervencionista. Sempre que o liberalismo político inclinou-se a adoção - A exemplo da Inglaterra - de um modelo político trabalhista ou socialista de bem estar o curso de qualquer uma dessas Repúblicas foi atalhado por uma ditadura destinada a manter a 'ordem' vigente ou seja capitalista. E o capitalismo soube servir-se muito bem da tirania com objetivo de conservar-se ou afirmar-se, fazendo muito pouco caso tanto dos valores democráticos quanto os direitos da pessoa humana.

Tal os casos do Brasil, Uruguai, Paraguai, Argentina, etc no curso dos anos 50, 60 e 70.

Conjuntura em que assistimos o florescimento de diversos regimes autocráticos, nenhum deles de caráter socialista, mas todos, sem exceção, de caráter marcadamente liberal economicista ou capitalista. E dessas interrupções indecorosas resultaram exílios, torturas, assassinatos e outros tantos crimes abomináveis na mais larga medida. Tudo com o objetivo de salvaguardar os interesses do Mercado, embora não correspondessem ao interesse dos povos em questão, que era, evidentemente, bem estar e qualidade de vida. 

Ainda aqui a relação estabelecida por Friedman apresenta-se como forçada ou falaciosa. A bem da verdade o capitalismo não tem escrúpulos e jamais conheceu outra lei que a obtenção do lucro máximo.

Só nos resta esclarecer que o exemplo escolhido por Friedman em oposição ao Inglês ou ao Yankee foram os modelos continentais europeus do período entre guerras ou fascistas, bem como os modelos comunistas do Leste europeu nos quais o socialismo - em termos de garantias e leis trabalhistas - foi implementado por ditadores.

Resta esclarecer que o prestígio obtido por tais lideres só pode ser compreendido a partir de uma situação preexistente produzida pelo liberalismo econômico. Pois ao contrário do que acontecerá na Inglaterra, nos países continentais as democracias jamais conseguiram desprender-se do liberalismo economicista tornando-se populares. E ficando o poder político subordinado ao poder econômico não foi possível abrir caminho até as reformas sociais revindicadas pelas massas ou seja a implementação dos direitos trabalhistas. Mantendo-se o liberalismo econômico em estado mais ou menos puro como na Inglaterra entre 1840 e 1880. 

Foi justamente a negação de tais direitos ao cabo de meio século ou mais que serviu para desacreditar o liberalismo político ou as formas democráticas entre as massas trabalhadoras, as que dominadas pela angústia lançaram-se aos braços dos demagogos. Mas por que se lançaram aos braços de homens tão odiosos como um Hitler e Mussolini? Porque estes homens espertos acenaram-lhes com as tão sonhadas garantias de trabalho denegadas pelos liberais...

Então quem é que empurrou a massa sofrida do proletariado europeu para os braços abertos dos ditadores? A política precedente inspirada pelo modelo liberal economicista é que acalentou e alimentou o ódio a democracia puramente formal. Foi a democracia burguesa, enquanto mero apêndice do sistema que preparou o ambiente para as principais ditaduras européia do entre guerras. O que bem poderia ter sido evitado caso esses liberais tivessem assimilado o exemplo da política inglesa em termos de negociação e de concessões ao programa trabalhista.

No entanto o programa adotado na maior parte desses países foi de resistência as aspirações dos trabalhadores e, após ao término da primeira guerra, de sangria... E o escolhido para ser sangrado foi o trabalhado, pelo simples fato de não se protegido pelas leis. Sentindo-se socialmente vulnerável e completamente desamparado pelo poder político 'miniarquista' o homem do povo foi facilmente seduzido pelo canto da sereia fascista com sua temática do Estado forte, interventor e mediador.

A ascensão dos tiranos e ditadores fascistas só pode ser compreendida a partir do messianismo e este messianismo a partir de uma situação de angústia extrema experimentada pelos povos. Se os ditadores puderam explorar o tema da emancipação ou libertação é porque já antes da servidão política aqueles povos conheceram outro tipo de servidão não menos cruel, a servidão econômica em termos de privação de direitos e vulnerabilidade social. Noutras palavras, foi a política inspirada pelo modelo liberal economicista, com seu lastro de desigualdade e miséria, que preparou o terreno para a afirmação da estatolatria seja ela comunista, nazista ou fascista.

Foi a ideia de um estado frágil e omisso em termos de econômica que desgastou o modelo democrático e a ideia de um estado forte e mediador em termos de economia que tornou o despotismo atraente. No fim das contas as massas sofridas preferiram a servidão política a econômica por acreditarem que aquela era bem menos dura...

Donde se infere que o fascismo e o comunismo alimentaram-se de situações contraditórias ou de patologias sociais produzidas pelo sistema liberal economicista e pela democracia meramente formal.