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quarta-feira, 29 de julho de 2026

O terror que produz horror ou a história da censura a indústria do terror nos EUA

 Via de regra, quando pensamos nas inquisições 'made in EUA' ou na dita terra do liberalismo (Nem sempre tão liberal quanto pintam) o que nos vem aos miolos são bruxas de Salem, lei seca ou MaCartismo.

Houve no entanto diversos tipos de repressões naquele país do Norte. Não apenas quanto o sexo, as drogas e a bebida, o que até seria compreensível, mas até mesmo contra o terror ou a produção artística que envolve o sobrenatural, e considero sua contemplação e compreensão como algo mínimo curioso, talvez por comportar um elemento metafísico que as demais formas de repressão não comportam, ao menos de uma forma tão explícita.

De fato havia a tentativa de manter a fantasia do terror em limites cristãos ou piedosos.

Assim esses códigos auto restritivos, que entraram com o MaCartismo até meados dos anos 60 determinavam que as crenças religiosas fossem respeitadas, que o clero não pudesse ser criticado, que o nome de Deus não fosse citado levianamente e sobretudo que o bem sempre triunfasse do mal... Era todo um vies levemente providencial que aponta já para a fonte do problema.

Efetivamente há algo de distinto entre o terror clássico que partindo de Walpolle com 'O castelo de Otranto' chega ao mestre supremo M R James, passando por Le Fanu ou mesmo Stocker. 

Poe é um dos poucos, e o primeiro, a afastar-se do modelo gótico ou da receita de bolo, em que o mal é sempre contido no final, dando espaço a um desfecho quase sempre feliz.

Em Poe há morbidez, na qual os males humanos se agravam até destruir a vida presente. Ao menos na imanência o epílogo nem sempre é feliz. Em Poe se percebe já um desconfortável realismo, que se choca com o paradigma romântico tradicional.

Apesar disto inexiste qualquer especulação sobre uma providência genérica ou sobre o mundo espiritual ou invisível. Aqui Poe apenas é omisso em seu recorte. Não parecer haver uma pretensão de totalidade nas obras de Poe ou uma metafísica pessimista, caótica ou anti providencialista. Dir-se-ia no máximo que para esse autor o mal triunfa, episódios ou frequentemente, neste mundo e que o resto, o resto é mistério. Então Poe, silencia, caso pensasse doutro modo.

Mesmo no possível telemita Bram Stoker, o caçador de vampiros, Dr Von Helsing, logra destruir o conde Drácula e assim eliminar o mal.

De modo geral um novo modelo de terror parece inaugurado, de fato, pelo estado unidense incrédulo ou ateu, H P Lovecraft. H P Lovecraft inicia sua produção cerca de 1917, com pouco mais de 25 anos de idade e produz cerca de setenta narrativas até cerca de 37, quando vem a óbito com cerca de 47 anos ou seja bastante precocemente. Produziu terror por cerca de duas décadas portanto e mais, com ele temos não apenas uma ruptura porém o início de uma tradição, a qual haverá de refletir-se no cinema inclusive, com 'O bebê de Rosemary' e 'O exorcista' película em que o Pe Mallony, creio eu, termina pessimamente. E há também o exorcismo de Emily Rose...

Bem, o mal começa a triunfar de modo totalizante com o pai de Chtullu... E é exatamente esse aspecto que trara preocupações a Cristandade despreocupada com a fome ou com a justiça, e preocupações não de todo inverossimeis ou fantasiosas. Pois a algo de perturbador, para as mentes mal formadas, nas obras de Lovecraft e seus continuadores.

Digo, para as almas vulgares e despreparadas ou massificadas. Afinal A Derleth, seu amigo e imitador, era um apostólico romano devoto e, eu mesmo, apesar de Ortodoxo, já li com gosto metade de suas obras em diversos idiomas. E revelo já o segredo, que é não as considerar seriamente ou encara-las como produto da imaginação, pois fantasia é o que são e sua metafísica não cristã pura bobagem.

Digo isto porque ele Lovecraft subjaz todo um panorama ideológico ou uma metafísica bastante bem delineada. 

Aqui não há um bom Deus ou qualquer vestígio de providencia amorosa. Salvo se havendo Deus produziu ele o universo e entregou-o a outros poderes que o substituíram - Conforme o esquema do Deísmo crasso. E sequer poderíamos avaliar tal ser como bom, uma vez que aqueles que tomaram o poder não são nada bons.

Ao que parece esses poderes em conflito sucedem uns aos outros como dinastias... Ou que comandam distintos setores da realidade ou distintos universos. O que nós levaria a uma multiplicidade caótica em termos de tempo e espaço. 

Pela narrativa de Conan, o Bárbaro e seu universo hiboriano, somos informados sobre as linhagens dos deuses antigos. Por meio de algo semelhante aos arquivos de Churchward... E retrocedemos a Atlântida, a Mu e a Lemúria.

Por sinal, apesar dos cataclismos que destruíram tais civilizações, ao que parece os representantes dessas tradições místicas, lograram escapar a aniquilação, conseguindo transmitir esse tipo de conhecimento, que seria a feitiçaria sangrenta ou os ritos bárbaros que abrem portais invisíveis e possibilitam a comunicação com tais entidades. O que nos lembra o Telema ou a Goetia.

Existiria portanto uma continuação ou tradição, quase que uma sucessão apostólica, em termos de magia ou misticismo negro, que não obra de Lovecraft está vinculada ao Necronomicon, do árabe insano Abdul Alhazred. Um desses entes, procedentes das estrelas seria Chtullu, o qual está a receber um corpo produzido pelos magos e a criar uma nova humanidade ou uma nova Era.

E essa última parte da narrativa nós levaria aos deuses astronautas ou anúncios do recém falecido Daniken, de Vilekovsky, de Sitchin e outros.

Aliás, só para constar, há a projeção futura do Conan ou de um Conan pós apocalíptico, que é Thundarr (Sabor Mad Max) e no qual os deuses retomam o controle e a magia recupera seu prestígio. 

Portanto existe certo encadeamento entre tais narrativas a ponto de produzir uma visão totalizante ou um panorama total de caráter caótico e povoado por deuses sanguinários que combatem entre si e sucedem uns aos outros por algum tempo. 

Nesse quadro sinistro restaria aos mortais, conectar, alimentar e servir tais seres com o objetivo de obter sua proteção e, obviamente, poder. A partir daí segue o insano, com efusão de sangue, tortura, estupro, sadismo, etc a parte que, com certa razão foi condenada pelo código Hays, por ser, admitimos nós, carga um tanto pesada para mentes simples e já atormentadas.

A partir da queda do código Hays, da rebelião e da assim chamada contra cultura, teremos outros temperos adicionados a este universo irracionalista como o sexo e as drogas, os quais vão se fazendo presentes em doses cada vez maiores. 

E, a exemplo de certas correntes da assim chamada arte moderna, vão confluindo para este terreno certos ideais anarquistas como a libertação do inconsciente e do mundo onírico, em cujo plano o caos se torna não apenas hiper monstruoso porém absoluto. Pelo que chegamos, no final dos anos 80, salvo engano meu, a Sandman (N Gaiman - Vertigo) e com ele aos domínios do bizarro. 

Veja que os próprios deuses aqui são gerados no ato de sonhar ou produtos do sonho, como para Buda, caso existissem, não escapavam a roda e para os primitivos aedos gregos eram subordinados ao fado ou ao destino. Portanto esses deuses não são seres ilimitados e onipotentes, porém criaturas tão problemáticas quanto nós, embora tanto mais poderosas. Bem, considere ser caprichosamente controlado por uma chusma de entidades problemáticas... Num seleto repertório de que fazem parte: o Destino, a morte, a destruição, a angústia, a insanidade, etc 

A meu ver este aflorar do onírico, com Morpheus, representa o ápice da tradição inaugurada por Lovecraft setenta anos antes. 

Contrário a censura ou a qualquer tipo de controle exercido por fanáticos religiosos devo admitir não somente a existência de um forte conteúdo ideológico ou metafísico anti Cristão em tais narrativas, como seu aspecto geral potencialmente fecundo quanto a produção de angústia e desespero... 

Penso serem narrativas voltadas para um público adulto e não gostaria que meus filhos ou que qualquer criança ou adolescente as folheasse. É, penso eu, coisa para gente madura e esclarecida, que sabe já distinguir perfeitamente a fantasia da realidade, obtendo distração. N Mailer foi curto e grosso: São narrativas para intelectuais e não para o vulgo. Para intelectuais mentalmente estáveis e mais ou menos equilibrados e portanto para um público seleto ou restrito.

Remédios controlados também fazem parte da realidade e são necessários para algumas pessoas. Porém nem todo remédio pode ser consumido por todos os por qualquer um.

Mesmo sendo totalmente contra todo e qualquer controle externo e formal quanto a produção desse tipo de literatura, sou favorável sim a um controle externo, social, democrático e parcial, quanto as faixas etárias do consumo e sobretudo a uma orientação cerrada por parte dos pais, responsáveis e educadores.

De fato sequer conhecemos perfeitamente os efeitos ou consequências dos jogos eletrônicos que envolvem efusão de violência, sangria e carnificina nas mentes em formação, que se dirá então de narrativas totalizantes em torno de uma metafísica caótica que conduz ao desespero?

Me parece enfim que o resultado do consumo dependa sempre da qualidade da pessoa e que a chave para uma leitura saudável de tais produções esteja em não considera-las como realidade e sim como o que de fato são: Fantasia, segundo o mesmo esquema que aplicamos a mitologia grega ou aos contos de fada... Ficção e nada além de ficção.

As mentes sensíveis se afastem e as almas impresionaveis evitem.




sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Ainda o fascismo e seus problemas

Ainda a propósito da unidade social e da cessação do conflito entre burguesia e proletariado (Não inventado por Marx mas constatado por Sismondi de Sismondi.), provocado pela ambição descontrolada dos patrões, voltou o fascismo, seu olhar - mais uma vez, para o passado.

E a ideia, advinda do Ariston Metron e da Mediocritas aurea foi tentar ampliar a classe média. O que já havia sido sugerido por Defoe e Swift na Inglaterra do século XVIII. E fica posto o ideário: Reduzir a distância entre os extremos da alta fortuna e da miséria, interferindo politicamente tendo em vista a expansão da classe média.

Como se vê, o que temos aqui, foge definitivamente ao Marxismo ou  Comunismo. O qual aposta no avanço do capitalismo, no recrudescimento do conflito e no papel heroico do proletariado tendo em vista a tomada do poder.

Aqui, a classe média é encarada como entidade pequeno burguesa, que serve como uma espécie de mola destinada a aliviar a tensão do conflito. É de fato encarada como uma vilã contra revolucionária por estar na contra partida do processo e deve ser (Talvez com um empurraozinho) engolida ou abatida por ele. 

Assim o programa fascista, que supõe a atenuação do conflito pela ampliação dessa classe por meio de intervenções restritivas (As assim chamadas Reformas.) face as ambições do mercado é avaliado como algo essencialmente maligno.

De fato avaliando o protocolo fascista (Relacionado aqui com o protocolo social democrata.) como reformista, os líderes comunistas só podem encara-lo como um retorno indesejável ao passado, como um saudosismo ou ainda como algo essencialmente reacionário em oposição a noção linear de progresso legada pelo positivismo.

É como se a orientação fascista fosse capaz de impedir ou de atrasar a tão sonhada revolução ao atenuar o conflito. Daí o ódio irascível.

O que nos ajuda a entender uma dinâmica contemporânea em que, paradoxalmente, os comunistas aliam-se aos liberais extremados contra quaisquer Reformas propostas pelos reformistas ou pelo centro, se que lhes importe a condição das pessoas, uma vez que a meta suprema é a Revolução.

E é justamente a percepção dessa cosmovisão, assustadora, devido a sua insensibilidade ou crueldade, que tem afastado o povo do comunismo e não poucas vezes aproximado-o do fascismo. Afinal se é algo que o povo não quer ou deseja é o avanço do protocolo Neo liberal. Em parte devido a cultura cristã católica, o povo aspira, em certa medida, pela paz e não por qualquer tipo de revolução.

E no entanto esse mesmo fascismo, cuja proposta no campo da economia me parece interessante, aproxima-se a outro lado desse mesmo comunismo truculento, da abominação nazista e da monstruosidade islâmica e aparta-se tanto do anarquismo quanto do liberalismo político ou da democracia, a qual chega encarar com uma corrupção.

No campo da autoridade ou do poder político é o fascismo liberticida, despótico, ditatorial, tirânico, totalitário e repressor... até estatolatria paga ou o culto cego ao líder.

É ideologicamente irracionalista e agostiniano... sem dúvida que é. Desconfia do potencial da razão, lança dúvidas quanto a liberdade e encara os humanos como 'lobos' (Sic) vorazes. O que sabe o "Leviata" de Hobbes. 

Por onde toca ao militarismo e assume um aspecto anti humanista. Assume posturas como o critério da força e a obediência cega, renovando o choque entre Trasímaco e Sócrates, este partidário de uma racionalidade crítica, que levou-o a desobedecer, ao invés de cometer uma injustiça, e eliminar Leão de Égina.

Essa resistência mecânico formal a ordem dada, em nome de  princípios éticos ou direitos inerentes é inaceitável do ponto de vista do fascismo, o que desvela parte de seu espírito.

Curioso que, partindo do fascismo, os anarquistas não se tenham dado conta que o irracionalismo, via de regra (E com a mesma intensidade que os maniqueismos.) tem servido de apoio ao despotismo. Uma vez que o exercício do livre arbítrio está conectado a capacidade racional.

Sugere o irracionalismo, que sendo o ser humano incapaz de avaliar ou refletir é, consequentemente, incapaz de deliberar/decidir. Devendo ser tutorado ou controlado pela autoridade arbitrária sancionada pela Tradição.

Naturalmente que os alunos de Sócrates e os seguidores de Jesus não podem concordar com os teóricos do fascismo, pelo simples fato de afirmarem decididamente tanto a capacidade racional como a vontade livre dos seres humanos.

A partir daí, forma-se uma outra cosmovisão, posta para a afirmação de direitos essenciais numa realidade democrática ou cidadã. E uma oposição marcada ao ideário fascista, o qual, em seu conjunto, só podemos classificar como mais um anti humanismo e enfim como uma cultura de morte.

Enfim não acreditamos que a Redenção social parta da submissão passiva ou acrítica a uma autoridade caprichosa e a isso damos o nome que merece: Escravidão ou servilismo. E não menos que um anarquista qualquer repudiamos a ela.

De fato não nos resta qualquer ditadura: Dos líderes religiosos (Como Calvino), dos políticos (O Diretório), do proletariado, dos cientistas, dos militares... De esquerda, de direita, de centro... Pois somos filhos daquela liberdade que tem por berço o Evangelho. 

Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte': 


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segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Os problemas do anarquismo

Se, ao contrário do protestantismo, do capitalismo e do comunismo o anarquismo jamais esteve a ponto de substituir o papismo e de unificar a Europa ou o mundo, nem por isso sua origem e facetas deixam de ser interessantes.

Quem o criou...

Não se pode saber com exatidão - Pois alguns autores apontam os 'Diggers' da Revolução inglesa e outros até mesmo os 'Levellers'. Outros, em termos de continuidade apontam Godwin: Esposo de Mary Wollstonecraft, pai da segunda Mary e genro de Shelley, o qual como Paine e Benthan era democrata, politicamente liberal e miniarquista, mas de modo algum anarquista - Tal o caso dos revolucionários do século XVII: Todos no máximo republicanos exaltados ou jacobinos... Nem os diggers, nem os jacobisnos, nem Babeuff, Paine, Benthan ou qualquer outro jamais concebera o homem abstratamente como uma espécie de ilha ou numa perspectiva não social.

Quem então teria criado o anarquismo...

Atrevo-me a apontar como seu criador o luterano alemão Johann Kaspar Schmidt, de Bayreuth, mais conhecido como Max Stirner, aluno de Hegel e Feuerbach e autor da obra " O uno e sua propriedade". O qual é apontado por muitos autores como precursor do anarco capitalismo e do pós anarquismo. Curiosamente fez ele parte do clube dos livros ou dos jovens hegelianos, juntamente com Marx e Engels (A História tem dessas), merecendo inclusive uma impugnação por parte do primeiro na obra "A Ideologia alemã".

Além de ter antecipado o pós modernismo e o nihilism, Stirner, que era anti católico, anti socialista, anti comunista, anti humanista, anti democrático, etc teve ao menos a ombridade de definir-se como Egoísta, pois argumentava não apenas pela destruição do Estado ou do Macroestado mas da Sociedade ou do convívio humano. 

Esse Stirner exerceu influência decisiva sobre Spooner e Tucker, dentre outros, aqui do outro lado do Oceano e podemos traçar a linhagem até M Rothbard, M Friedman e Ayn Rand. De fato foi ele a matriz de todos os anarquismos individualistas. 

Aqui um aparte, pois embora não conheçamos detalhadamente o luteranismo de Bayreuth, podemos, por via do pietismo, conjecturar que o anarquismo Stirneriano foi, a exemplo, do capitalismo, do destino manifesto ou do nazismo (cf Georges Santayana "O Egotismo na Filosofia alemã") uma secularização da busca por uma redenção individualista, dissociada da igreja, da comunidade ou do outro.

Outro o caso do francês Pierre J Proudhon, o qual escreveu ao cabo de décadas e também é apontado por alguns como pai do anarquismo. Polímata e polígrafo da estatura de um Marx ou de um Weber leu ele toda bibliografia precedente sobre o tema das liberdades, dos direitos, do Estado e da vida política - Por isso é, o conjunto de sua obra contraditório e confusionista ou caótico, pois reflete suas revisões, correções e assunções sobre o assunto. Assim, suas obras iniciais ainda ressentem a influência de Stirner, da qual se vai desprendendo nas obras da maturidade até, já no fim da vida, resgatar as tradições comunais da França campesina. 

Em certo sentido prenunciou o primitivismo, o retorno da História, a não linearidade do progresso, etc - Pelo que mereceu ser combatido tanto pelos positivistas quanto por Marx, na "Miséria da filosofia" - Julgo todavia que J S Mill, com sua economia estacionária, teria simpatizado com ele. 

A partir daí com os nobres russos M Bakunin e P Kropotkin, toma o anarquismo outro caminho, a ponto de podermos já falar em anarquismos: O ocidental, sempre incerto e tributário de Stirner e o Oriental ou russo, de tradição comunal e portanto comunista ou socialista. 

Bakunin por sinal é quem, com sua genialidade, impõem forma definitiva a um anarquismo que podemos chamar de clássico. E o faz orbitar em torno de três pontos: O micro estado, em oposição ao macro estado; a policracia ou democracia direta, em oposição a democracia representativa ou burguesa dos anglo saxões e a miniarquia e oposição ao totalitarismo de então. Quanto a este último ponto cumpre esclarecer que ao contrário de Rousseau - Com sua vontade geral totalitária e absoluta que tudo invade. - Bakunin (Herdeiro do liberalismo inglês) situou o poder coercitivo do grupo na esfera do 'Bem comum' ou daquilo que é propriamente político, reconhecendo que os costumes, a moralidade ou a vida privada não deveria ser objeto de controle. Uma visão avançada e grandiosa, ninguém pode negar.

Aqui é Bakunin que faz retorno ou petição ao passado, retomando o ideal grego da democracia direta e sendo, em certa medida, reacionário, e não futurista inconsequente como Stirner ou Marx. Alias, sobre a 'Ditadura do proletariado' proposta por Marx e seus comunistas, declarou ele "A liberdade jamais procederá da tirania... Devendo não ser dada ao povo porém conquistada por ele."

Era esse Bakunin herdeiro da tradição Blanquista e assim da sedição ou do jacobinismo (E por aqui toca o comunismo de Marx.), noutras palavras dessa mística revolucionária intensa, legada a Lênin por G Sorel, autor das "Reflexões sobre a violência". Já Kropotkin, mantendo o legado de Tolstoi, assume um programa pacifista ou no mínimo tímido e realista face ao emprego da violência. Pelo que repudiou essa mística revolucionária em torno de uma transformação radical da cultura por meio da força. 

Ainda aqui o anarquismo soube ser bem mais refinado que o comunismo. Pois ambas as vertentes - Inclusive a de Bakunin, ao menos enquanto preparação necessária para a Revolução. - russas ou orientais buscaram investir na educação ou na formação da consciência (E por ai já se vê que não eram todos materialistas ou deterministas economicistas.) criando escolas e idealizando uma instrução alternativa e paralela a estatal. Na Espanha e na Itália chegaram inclusive a produzir uma corrente pedagógica, representada por Ferrer y Guardia. 

E no entanto tal projeto foi internamente sabotado e veio abaixo - Sendo vital para nós saber exatamente porque.

Sucedeu com o anarquismo o que já se havia sucedido com o protestantismo ou com o capitalismo. Pois em determinado momento deixou de ser mera construção social e política, para converter-se em metafísica ou mística totalizante, e invadir outros setores da existência como a Gnoseologia\Epistemologia, assumindo opiniões tão corrosivas quanto o ceticismo, o subjetivismo, o relativismo... E desembocando no pós modernismo atual - Chegando inclusive, com P Feyerabend, a querer reformular o método científico. 

Enfim os anarquistas chegaram a concluir que a razão, a racionalidade e o racionalismo eram limitações impostas pelo poder ou uma forma de dominação que também devia ser demolida e levantaram críticas similares (Estas em parte justas face a um ideário positivista que era quase sempre acrítico face ao poder.) a ciência.

O problema aqui é que toda essa história de pós modernismo, por verdade, imaginário coletivo, narrativas, etc desguarneceu a civilização e a cultura face aos ataques do fetichismo, das mitologias e dos fundamentalismos, em especial protestante e islâmico. O que tornou nossa civilização 'mal feita' vulnerável a projetos ainda mais desastrosos, com referenciais postos na Arábia do século VII d C.

Naturalmente que o anarquismo 'político' tornou-se inócuo e despovoado, subsistindo hoje apenas como um resíduo pós modernista e incomodo, tendo em vista nossa resistência as demais culturas de morte circundantes. 

Invadido, em certos setores, por um ideal de linearidade histórica ou evolutiva, e ao mesmo tempo infestado pelo irracionalismo, o anarquismo não mais consegue responder aos principais questionamentos emitidos por seus críticos.

Quero dizer que tal e qual os comunistas, os anarquistas materialistas e de tendência positivista não podem admitir que o protestantismo ou o islamismo > Formas religiosas ultrapassadas, inócuas e inofensivas (kkk) possam tomar posse do poder e ameaçar a 'sifilização' tornando-a ainda pior... 

Diante disto eles continuam - Apesar da intifada fundamentalista que assistimos em quase todo mundo. - sustentando candidamente a abolição do exército e da polícia... Organizações viciadas e indesejáveis, e no entanto, face a realidade atual: Necessárias. Do contrário quem impedirá os pastores ou os ulemás de tomarem o poder pela força e construírem suas teocracias movidas pela Tanak ou pela Sharia... A ameaça é real.

Grosso modo é este problema derivado de outro, a que os anarquistas jamais prestaram a devida atenção: Como manter a soberania do micro estado ou das pequenas aldeias indígenas (Caso obtenham independência ou autonomia política.) face as aspirações imperialistas de macro estados como os EUA... 

Alias os Comunistas da URSS também falharam por completo, apesar das sensatas advertências de um Trotsky, ao tentar manter seu sistema dentro das fronteiras, abdicando 


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quinta-feira, 16 de março de 2023

Psicologia, psicanálise, Freud e a questão da multiplicidade de existências - Reflexões sobre a obra de Hermínio C Miranda 'A memória e o tempo' Edicel 1984 - Parte III

 A comédia behaviorista


             


      

         No entanto os senhores e profetas do materialismo não descansam. E a exemplo de Jao jamais dormem ou cochilam...

          E por isso resolveram tomar a Psicologia de assalto e introduzir a querida ideologia no território do espírito, que é a mente.


          Foi essa façanha realizada nos EUA por um certo J B Watson, o inventor daquela Psicologia 'materialista' e 'científica' - Em oposição ao Freudismo e a Psicanálise -  chamada behaviorismo.

           Tem a expressão behaviorismo sua origem em Behaviour ou comportamento, pelo simples fato de limitar-se a analisar aqueles fenômenos externos aos quais damos o nome de comportamento. 

            Em suma o behaviorismo ocupa-se apenas do quanto aflora a consciência do sujeito ou a suas interações com o mundo.

            Isto porque, para seus teóricos, algo semelhante a uma mente ou agregado de ideias, conceitos, opiniões, crenças, esperanças - IMATERIAIS, não pode ter existência própria ou real e menos ainda atuar sobre o corpo físico. 

             Portanto, caso esse ente, cognominado mente exista, é por assim dizer inacessível ou incognoscível (Quem aqui lembra do sr Kant...) i é não pode ser estudado ou conhecido. Dando na mesma avançar e declarar que a dita mente inexiste ou que foi inventada por Freud e seus sequazes...

              Necessário dizer que o behaviorismo ou melhor seu pai, Watson, parte do fisiologista russo Pavlov, o qual, há cerca de um século, trabalhando com cães, descobriu o reflexo condicionado ou o condicionamento comportamental - Nos cães e por ext em gatos, ratos... A esse tempo era já ateu e materialista, por obra e graça do partido comunista...

              Era algo relativo ao comportamento de certos animais que ora sabemos serem dotados de inteligência - O que obviamente nada tem a ver com o tal condicionamento, pelo simples fato de ser fenômeno totalmente distinto e irredutível a ele. 

              E no entanto teve o Behaviorismo a 'magnífica' ideia de aplicar o dito condicionamento aos seres humanos com exclusão de quaisquer fenômenos propriamente mentais, como se tudo explicasse. Pelo que batizaram o condicionamento associado ao comportamento - Humano ou animal, uma vez que para eles dá sempre no mesmo. - sob a alcunha de reforços. 

              Observe a equação: Dos impulsos ou sensações neuronais (Portanto materiais) parte o condicionamento, do condicionamento os reforços e dos reforços o comportamento e tudo quanto nós idiotas temos em conta de consciência ou personalidade.

               Pois se não existe mente não pode existir consciência ou personalidade na acepção clássica dos termos. 

               Portanto inexiste qualquer solução estável ou coerente face ao mundo externo e menos ainda qualquer centro ou polo organização 'mental'. É como se a aberrante doutrina do Caos surgisse primeiramente no campo da Psicologia, pelo simples fato de converter o ser humano num confuso agregado de ações externas. 

                Mesmo algo mais ou menos estável como princípios, valores e crenças resultam em última análise de interações neuronais, quiçá, ao menos em parte causadas ou provocadas pelo condicionamento externo ou melhor dizendo pelos reforços positivos e negativos. 

                 Adiante: A Sociedade, de alguma maneira, tendo em vista certos interesses misteriosos, treina ou amestra os atores sociais para que assumam determinadas posturas. 

                 Perceba o amigo leitor nos domínios da Psicologia, por obra e graça do behaviorismo, o mesmo reducionismo - Afilhado do materialismo e por ext do positivismo! - presente na Biologia... Desde agora convertidas em desdobramentos da Química e da Física, inclusive sujeitas as mesmas leis básicas. 

                  Perceba ainda que ao fim dessa linha tudo quanto resta é Química ou melhor dizendo Física, diluindo-se todo conhecimento nela. Pelo behaviorismo é eliminado o conceito de mente no Homo Sapiens (O qual, por puro preconceito, jamais fora aplicado aos outros animais.). Ficando o humano nivelado a caricatura que fazíamos das 'bestas'... Pelo behaviorismo homem e animais são nivelados pela eliminação da inteligência, da consciência, da personalidade, da mente... De tudo quanto distingue homem e animais dos vegetais ou dos minerais. 

                      Convém lembrar aqui que Kant não apenas reconhecia a necessidade de produzir uma área dedicada ao conhecimento do mundo mental como a colocava ao lado da física e da Filosofia. Kant 197. B 876. 

                       Eis porque, o behaviorismo, eliminando todas essas entidades ou fenômenos que fogem a compreensão de seu materialismo crasso,  elimina precisamente o humano, e consequentemente - Desumaniza, despersonaliza, reduz, simplifica, empobrece... até apresentar humanos e animais como agregados de sensações ou de impulsos neuronais necessariamente caóticos.


                       De fato o ideólogo materialista Buchner (O mais mansinho deles) refere-se ao homem nestes termos: "Não sendo senão produto da matéria, não é o ser que os moralistas pintam." - O que por sinal tem lá uma pitadinha de Sade... E nem poderia ser ético sem estar em posse de sua liberdade ou livre arbítrio.

                       Tal o serviço prestado ao homem, a criatura racional e livre, pela ideologia materialista. Entre nós e um pé de couve ou uma bananeira não há qualquer diferença essencial. 

                        Agora sem objeto próprio, admitida a xaropada reducionista, tanto a Psicologia como a Biologia perdem por completo a razão de ser, por perderem o objeto próprio, no caso da primeira a mente e no caso da segunda a vida. Considere que se tudo quanto há é comportamento ou ação e que essas por meio do reforço ou do condicionamento, partem dos neurônios tudo quanto temos é medicina, fisiologia, biologia... Pois fica a Psicologia sendo caso de interações ou contatos neuronais, a serem estudados, repito, pela Fisiologia ou pela Biologia. 

                     Por fim se a Biologia reverte, não sei porque processos misteriosos, a Química ou da Física, convertendo-se em bailado de átomos ou em equações e fórmulas matemáticas, já não existe Biologia propriamente dita. 

                     A conclusão a que se chega é simples: Privadas de seus objetos específicos Biologia e Psicologia desaparecem por completo ou saem de cena sem deixar vestígios. A menos que se convertam em departamento da Química e da Física pelas quais são absorvidas. 

                     A bem da verdade, amigo leitor, quanto a Psicologia, sequer o nome os positivistas apreciam, como podemos ler nesta peça de E J Litreé: "Talvez pareça insólita a expressão de 'fisiologia psíquica'. Poderia ter escolhido Psicologia para designar o estudo das faculdades intelectuais e morais... porém sendo certo que a Psicologia foi, em sua origem, e ainda é o 'estudo do espírito' considerado como distinto da substância nervosa, NÃO DEVO NEM QUERO SERVIR-ME DUMA EXPRESSÃO QUE PERTENCE A UM TIPO DE FILOSOFIA MUITO DIFERENTE DAQUELA QUE EMPRESTA SEU NOME AS CIÊNCIAS POSITIVAS. NESTAS CIÊNCIAS NÃO SE CONHECE PROPRIEDADE ALGUMA DISTINTA DA MATÉRIA... Daí ter escolhido eu a palavra 'fisiologia' e bem poderia ter optado por 'fisiologia cerebral' embora esta envolva assunto bem mais vasto... tudo quanto aqui pretendo é... inculcar que a descrição DOS FENÔMENOS PSÍQUICOS, COM SUA SUBORDINAÇÃO E ENCADEAMENTO, ENQUANTO PURA FISIOLOGIA EM TERMOS DE FUNÇÃO E EFEITOS. Desde que a Psicologia rompeu com as ideias inatas e adotou o esquema de Locke APROXIMOU-SE DA FISIOLOGIA. E tanto mais a Fisiologia se de conta da extensão de seus domínios, tanto menos se assustou com os anátemas da Psicologia... HOJE NÃO RESTA JÁ DÚVIDA ALGUMA DE QUE OS FENÔMENOS INTELECTUAIS E MORAIS SÃO FENÔMENOS PERTENCENTES AO SISTEMA NERVOSO E QUE O TIPO HUMANO NADA MAIS É QUE UM ELO (UM TANTO MAIS LARGO) DUMA CADEIA QUE SE PROLONGA, SEM NÍTIDOS LIMITES ATÉ AS MAIS SIMPLES FORMAS DE VIDA... contanto que empreguemos o método descritivo, derivado da observação e da experiência, será ela FISIOLOGIA." Litreé "A ciência sob o ponto de vista filosófico" Paris 1873 p 306 e "A filosofia positiva' 23 de Março de 1860. - Percebe como tudo quanto existe para o sucessor de Comte é Psiquiatria...

                     Aqui Mirville "A ordem começará a reinar na mente humana apenas no dia em que a Psicologia se transformar numa espécie de física cerebral e a História numa espécie de física social." 

                     Destarte o complexo humano torna-se incrivelmente simples e compreensível. Somos agregados de nervos que são agregados de átomos... Nada a mais, nada além. E tudo quanto fuja a esse esquema, como a Evolução das formas de vida ou a mente, seja eliminado, oculto ou posto debaixo do tapete. E tudo fica muito bem assim porque o sr materialismo o quer...

                       Átomos que ligam-se uns aos outros numa loteria da sorte... Células que se unem umas as outras noutra loteria de sorte... Tecidos que se encontram, mais uma vez, numa terceira loteria de sorte... E desse turbilhão confuso de matéria, saem - Como Atena armada da cabeça de Zeus seu pai... - leis físico químicas, vida e pensamento> Tudo numa palavra: Golpe de sorte... Resultado de átomos e células e tecidos bailando ao acaso...

                   Melhor descomplicar e após falsear a Evolução dos seres vivos eliminar a mente...

                   Destarte facilitam-se as coisas para o materialismo e quem discordar deixa de ser científico... Quanta manipulação ideológica e desonestidade.

                    Isso num tempo em que podemos, a força de demonstrações, reverter toda xaropada e admitir que grande parte dos animais - Por questão de estudos me limito aos mamíferos! - possui não apenas inteligência, mas vida metal e portanto mente, da qual resultam fenômenos psicológicos complexos...

                     Já não se trata, como no miserável esquema behaviorista, de reduzir a criatura humana a uma 'animalidade' já mutilada e muito mal compreendida e sim de atribuir ao animal uma vida psíquica ou mental injustamente negada. Pois cães e gatos sonham... e tem neuroses, traumas, fobias, etc

                     Podemos portanto falar já não em reducionismo físico químico mas em Psiquismo e Psicologia animal. Fútil a tentativa ideológica de eliminar a mente e a razão no Ser humano quando a primeira manifesta-se já nos animais mais próximo senão em quase todos. 

                      Enfim para poder entrar no esquema materialista deve a condição humana ser simplificada ou melhor despojada de elementos constituintes que lhe são essenciais como a racionalidade e o livre arbítrio. Pois somente com a negação de tais elementos pode enquadrar-se no esquema materialista equivalendo já a um pé de couve ou a uma laranjeira... Admitida sua complexidade manifesta e sua vida mental ou psicológica fica o materialismo em maus lençóis...

                   Não sei porque caminhos confirma-se um veredito lavrado em séculos passados e segundo o qual a destruição de Deus e da Imortalidade - E não estou falando de fé ou religião. Vão estudar Aristóteles e Platão seus burros! - resultariam na destruição ou mutilação do próprio ser humano. E o behaviorismo nos domínios da Psicologia nada mais é do que isso: Uma mutilação, negação e empobrecimento da natureza humana...

              Reservo para o fim a resposta de Paul Janet a Litreé e os positivistas
: "A mentes que foram criadas nas ciências exatas e positivas, mas que, entretanto, sentem como que um impulso irresistível para a Filosofia. E elas não podem satisfazer um tal instinto senão com os elementos que já têm em mãos. IGNORANTES EM CIÊNCIAS PSICOLÓGICAS E TENDO ESTUDADO APENAS OS RUDIMENTOS DA METAFÍSICAS, estão dispostas todavia, a combater, tanto a metafísica quanto a psicologia, sobre a qual quase nada sabem. Tendo feito isso, elas se imaginam criadoras de uma ciência positiva, no entanto o que elas criaram foi uma teoria metafísica nova, mutilada e incompleta. Arrogam-se a autoridade e infalibilidade que pertencem as ciências reais, baseadas na experiência e no cálculo; mas elas são desprovidas dessa autoridade, pois as suas ideias, tão defeituosas quanto possam ser, pertencem a mesma classe daquelas que buscam combater." Janet "Revue des Deux Mondes; 01 de Agosto de 1864 p 727 sgs 


 


          

domingo, 1 de março de 2020

Nótulas sobre o pensamento contemporâneo

- Como já dissemos nem Descartes nem Spinoza foram iconoclastas no sentido de negar por completo o passado ou o pensamento antigo. Criaram algo novo, novos espaços e setores, os quais todavia conectaram aquele passado. Tampouco Hume ou mesmo La Mothe Vayer, assim Montaigne criaram algo que fosse radicalmente novo, remontando sempre aos céticos do passado ou a tradição agostiniana. Kant é quem criou algo de novo ou um novo sistema, merecendo ser classificado como Copérnico ou Lutero da Filosofia. Foi ele que, buscando elaborar uma solução de compromisso entre o ceticismo e o dogmatismo, produziu o idealismo transcendental ou crítico condenando o exercício da Metafísica ou melhor da Teodiceia e buscando justificar o conhecimento derivado do empirismo, do que resultou a ideologia positivista. Buscou assim Kant evadir-se ao materialismo, ao espiritualismo, ao teísmo e ao ateísmo, lançando as bases do agnosticismo.

No entanto este mesmo Kant, enquanto pensador do conhecimento ou gnoseológico, fugiu a simples empiria e praticou a especulação metafísica. Resulta disto que não repudiou a Metafísica como um todo, e que fez um recorte, focalizando sua crítica na Teodiceia i é em Deus e por ext na imortalidade da alma, com o objetivo de apresentar tais problemas como intangíveis ao intelecto e assim como insolúveis. Agora por que fez Kant este recorte, fixando arbitrariamente (Onde achou ou quis.) as "Colunas de Hércules" da reflexão? Para dar competente resposta a indagação acima devemos ter em mente que esse tão aclamado Kant era Luterano - Jamais rompeu formalmente com essa fé - e que Lutero, irracionalista e fideísta (Agostiniano), tinha Aristóteles, a Filosofia greco romana, o pensamento clássico, a Teodiceia naturalista e a própria razão em conta de seus principais inimigos (Mais do que o Papa romano). Lutero queria tudo atribuir a fé e Kant seguiu-o, atribuindo o tema de Deus a religião, a fé ou aos livros religiosos, e dando todos os antigos gregos por perfeitos estúpidos. Kant foi um imitador de Pirro no sentido de buscar justificar metafisicamente ou filosoficamente um preconceito de origem religiosa, no primeiro caso o Luteranismo e no segundo o Busdismo... a dinâmica é a mesma - A Epoché continua sendo budista (Assim a ataraxia) e o fideísmo gnoseológico continua sendo luterano, sem que haja verdadeiro conteúdo filosófico em tais afirmações. No primeiro caso temos apenas uma mutilação arbitrária e no segundo uma fuga face a reflexão filosófica. (cf Kant e a Teologia)

- Quanto a linguagem ou expressão, bastante complexa, com que nos deparamos na obra de Kant há muita crítica injusta e destemperada. Que hajam graves contradições - Apontadas com habilidade pelo Pe Thiago Sinibaldi - em seu pensamento é assente e demonstrável, que tenha cunhado expressões ocas nos parece exagerado e injusto. Kant visava dar golpe de misericórdia na escolástica (A qual recusava-se a estudar - O que nos parece bem pouco filosófico). Para tanto foi a suas fontes mais remotas i é a Aristóteles (Campeão da Teologia natural) cujo vocabulário técnico, bastante complexo, adota e assume. Kant não tem culpa de que os modernos ou pós modernistas ignorem supinamente o aparato conceitual aristotélico.

- Resta dizer que quem é por Kant, esta em conflito aberto com tudo quanto o antecede, assim com Parmenides, Anaxágoras, Sócrates, Platão, Aristóteles, Speusipos, Straton, Dikaiarkos, Xenócrates, Crantor, Zenon, Antioco, Cícero, Sêneca, Filiponos, Eurígena, Aquino, Scottus, Phleton, Ficcino, Pomponnazi, Telésio, Erasmo, Bacon, Descartes, Spinoza...

- Outro é o caso de Hegel, metafísico confesso, o qual prosseguiu decididamente na senda traçada por Leibnitz, construindo expressões ainda mais grotescas, pomposas e vazias (cf Schopenhauer)  Criou uma Filosofia de bolha de sabão ou bexiga, a custa de tais expressões sem sentido e disto resultou outro sistema bastante aclamado em torno do Estado, o qual a partir de um lento processo imanente identifica com o pensamento divino. Deste homem confuso e desorientado partiram todos os idealistas alemães como Fichte, Schelling e aqueles tão criticados por Marx na 'Ideologia alemã', cada qual apresentando uma versão própria da 'filosofia' e pagando tributo a um subjetivismo desbragado. A reação, como não poderia deixar de ser, foi a 'inversão' de Marx, i é, em termos já de materialismo/ateísmo ou de positivismo. Em certo sentido Hegel, pela via da compulsão, conduziu a metafísica alemã ao colapso e a morte, fortalecendo a posição dos kantianos e marxistas.

- Marx, não se satisfazendo com a metafísica materialista mecanicista dos iluministas franceses (Helvetius e De Holbach), adicionou alguns temperos hegelianos e a partir de uma análise histórico social, formulou sua doutrina do materialismo dialético. O preconceito materialista seja sob um ou outro rótulo, cegou-o e desviou-o para sempre de um são realismo. Ele jamais pode reconhecer, em pé de igualdade com as forças materialistas de produção, o potencial concreto das ideias fossem ou não religiosas. Concedemos que deparou com uma Sociedade materialista e economicista e com uma religiosidade - Representada pelo protestantismo - derrotada e servil... No entanto este encontro não justifica a generalização abstrata com que pretendeu, a partir desta realidade particular ou específica, explicar todo processo histórico, desde a História primitiva, incluindo a Antiguidade e a I Média. Fugiu aos limites do simples recorte e metafisicou.

A simples existência dos mártires Cristãos dos primeiros séculos ou da substituição do paganismo antigo pelo Cristianismo, a dinâmica do islamismo ou do Japão e China budistas e o significado do socratismo deveriam te-lo alertado a respeito de suas precipitações. Especialmente após Fustel de Coulanges - Antecipando Weber, Graves, Dawson, Butterfield e Voeglin - ter publicado sua monumental 'Cidade antiga'.

- Atenuando as críticas nem sempre justas e sensatas de Popper convém admitir que a obra de Marx possui dois aspectos: Um objetivo ou como dizem científico que é sua análise crítica do capitalismo mormente representada pelo Capital. Esta não apenas permanece válida como foi utilizada por J M Keynes. O outro aspecto parece fugir a sua orientação - Não a nossa! - materialista, pré positivista, anti metafísica, etc é seu apelo a uma normatividade ética ou ideal ou seu futurismo. Marx, ao contrário dos demais empiristas/materialistas ressente, ao fim de tudo, uma influência Socrático/Cristã. Pelo simples fato de não contentar-se com uma realidade dada (O que é) tida em conta de injusta, ousando crítica-la e substitui-la por uma outra ordem, a qual só pode ser derivada de princípios ou valores ideais. Disto resultou a Ideologia Comunista, a qual apesar de seus equívocos monstruosamente bizarros, foge ao conformismo anti ético e até cruel de seus críticos ateus, materialistas, positivistas e cientificistas. Ora os humanistas e Cristãos, mesmo discordando quanto aos métodos propostos por Marx e seus colaboradores, não podem acompanhar os ateus, materialistas, positivistas e cientificistas quanto a aceitação passiva de uma realidade ingrata ou injusta. E por isso, em que pesem os erros gravíssimos do comunismo, ousam declarar que a posição de parte de seus críticos é ainda pior e mais grave.

- Já aludimos diversas vezes ao erro de Freud. Como Marx ele fugiu aos limites do recorte e dando com uma realidade cultural ou particular, abstraiu do tempo do tempo e do espaço, elaborando uma metafísica pan sexualista posteriormente emendada ou reformada com base nas sensatas críticas elaboradas por seus ex discípulos. De modo que num determinado momento o próprio Freud - Sem jamais retratar-se formalmente - rompe com o paradigma sexualista e admite outros princípios de regulação. Sua abstração metafísica, como a de Marx, é grotesca. Não seu método ou o caráter relativo de suas constatações, menos ainda o resultado de sua crítica ao puritanismo/moralismo vigente. Claro que a partir de suas críticas parte da Sociedade passou ao extremo contrário, i é a um sexismo desbragado, com sérias consequências sociais, políticas e culturais. Em que pese este desvio continuamos buscando utopicamente por um padrão de equilíbrio em que a sexualidade humana seja aceita com naturalidade, mas, sem ser deificada ou exaltada acima de tudo.

- Darwin alias é anterior a Freud. Porém queríamos estabelecer uma conexão entre o erro de um e de outro. Darwin não pertence aos domínios da Filosofia ou do pensamento abstrato posto que pesquisador ou naturalista. Era ele um homem do empirismo. No entanto sua formulação teorética - já antecipada por Lamarck, St Hillaire e outros - não poderia deixar de incidir sobre todos os domínios do pensamento humano - Psicologia e teologia, passando pela economia e pela sociologia. Foi a partir dele que o naturalismo converteu-se num paradigma, mais do que a própria evolução. Assim ele coroa a obra de Copérnico, Agricola, Newton, Hutton e Buffon/Lamarck/St Hilaire, demonstrando que o corpo humano esta inserido na ordem natural e que também este homem vaidoso não passa de um animal, ainda que racional. Não é o centro do universo, tampouco o centro da terra e sequer o centro da vida. Destarte terá este homem de procurar sua particularidade gloriosa na capacidade perceptiva e racional para a reflexão e para a apreensão das verdades metafísicas. A Filosofia é que lhe trará o sentido especial que sempre buscou por caminhos errados. É este homem um dentre tantos animais, vagando sobre um grão de pó na periferia do espaço... E no entanto, como dizia Pascal nos 'Pensamentos', tem consciência de si ou pensa, enquanto que nem Júpiter, nem o Sol, nem Arcturo tem consciência de si ou capacidade para pensar. É um caniço, um verme, um grão de poeira ou uma átomo perdido na imensidão do universo, e ainda assim caniço, verme, poeira ou átomo pensante...

- Einstein, o qual jamais supos que sua teoria física da relatividade geral fosse gnoseologicamente relativa ou duvidosa, demoliu o mito do espaço absoluto. Tudo quando temos em nosso universo é uma relação entre corpos em movimento. Neste universo que se expande ou amplia tudo esta em movimento, pois o estado de repouso é relativo a certas situações vividas por nós humanos. Este computador bem pode estar em repouso com relação a mim... Move-se no entanto caso esteja eu num trem. Move-se com as placas tectônicas, com o planeta, com a galáxia, com o universo... Tudo é movimento. E o tempo uma propriedade deste universo em expansão. Por isso nosso referenciais de tempo são relativos a terra ou ao sol, não absolutos. Quiçá o aspecto mais interessante da teoria da relatividade geral não seja a teoria em si - Simples dedução com base nas experiências feitas por Morley em 1881 - mas sua expressão (Tomada a Descartes e Newton) em termos matemáticos cujo sentido e exatidão pouquíssimos intelectuais foram capazes de compreender.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Os cavaleiros do apocalipse ou a intelectualidade vs obscurantismo bíblico/protestante

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Como ex protestante ousarei declarar que a humanidade tem pegado pesado com o papismo ou com os catolicismos de modo geral, e pegado demasiadamente pesado com o protestantismo e o princípio estreito do biblismo, abismo que se abre aos pés de nossa civilização, ora arrancada de seus fundamentos.

Observe o leitor que a bíblia - mesmo o Evangelho, cujo tema é a transcendência e não a verdade imanente ou científica - ou o antigo testamento, que é um livro ou registro escrito, jamais poderá pronunciar -se objetivamente no sentido de reconhecer a Evolução biológica dos seres vivos. Outro o caso do papismo, o qual na pessoa de seu chefe ou líder, Pio XII, na Encíclica "Humani generis", pode posicionar -se claramente no sentido de permitir que suas ovelhas assumissem como empiricamente veraz a Evolução do corpo. Tal pode parecer muito pouco aos olhos de alguns, porém, em comparação com o descontrole protestante assume contornos bastante significativos.

PERMITIU o livre exame, superficial e imvecilmente exercido pelas massas, que elas firmassem e afirmassem uma cultura fetichista/criacionista tomada a letra do Genesis e mantendo a letra do Genesis ao invés de dar passagem a uma solução crítica e libertadora. O que daqui resultou não foi nada libertador mas servil no mais alto grau posto que, o protestantismo ortodoxo e sectário, que vomitou injúrias sobre a Igreja antiga e a Tradição Cristã jamais pretendeu ou ousou criticar a bíblia, quero dizer os escritos judaicas e isto pelo simples fato de, com Calvino, ter canonizado a tese de um Corão cristão, infalível de capa a capa sob todos os aspectos. Tal a doutrina da inspiração linear ou plenária, a quintessência do obscurantismo protestante.

A parte disto parte do catolicismo antigo foi, por tradição, aberto a especulação racional ou ao padrão de pensamento grego, daí o surgimento da Teologia sistemática com Clemente e Orígenes, em Alexandria, a sombra da grande Biblioteca e enfim da corrente escolástica, da qual resultou, mesmo a partir de uma postura crítica ou hostil, o ressurgimento da Filosofia enquanto atividade autônomo. Nem Erasmo, nem Bacon, nem Descartes, nem Montaigne foram queimados ou excomungados pela igreja antiga. Mesmo Pomponazzi e Telesio puderam construir seus ousados sistemas na terra dos papás romanos e tal deve ser considerado.

O protestantismo, sendo ferozmente racionalista com Lutero e estreitamente bíblico com Calvino, tendia a ser mais negativo, como tende até hoje. Por isso pricipia ele, na pessoa do próprio fundador Lutero - Tido por muitos em conta de progressista - condenando Copérnico e o heliocentrismo, por ext., nos termos mais severos e categóricos, setenta anos antes do Vaticano. Totalmente injusto e absurdo fazer clamor em torno da condenação de Galilei pelo papa e passar em branco a condenação destemperada de Copérnico - aliás diácono da Igreja Romana! - pelo pai do protestantismo.

Talvez por isso cientistas como Agrícola terem repudiado tacitamente a nova fé, cujo real conteúdo aquilatatam. Mesmo um pensador ousado como Erasmo acabou por fim voltando se contra ela. Tampouco fora endossada pelo condenado Galileu, o qual, num de seus livros, põem abertamente em cheque a crença supersticiosa na inspiração plenária, explicitando que a ciência não é objeto ou parte da Revelação divina.

Logrou o protestantismo posterior ludibriar a platéia pelo simples fato de se ter cindido em múltiplas seitas, e de, no contesto europeu, seus ramos históricos, terem adotado - ao menos em parte - uma crítica naturalista que reverteu contra a bíblia e produziu uma religiosidade não apenas liberal mas incrédula.

Confiados na fragmentação do protestantismo em múltiplas seitas e na aparição de um grupo liberal, - De que faziam parte materialistas e ateus inclusive - os pensadores e cientistas incrédulos, em sua maior parte, jamais se deram ao trabalho de combate-lo, quando não o encararam, ingenuamente, como um aliado.
O papismo ou os catolicismos, em sua unidade credal e extensão pareciam bem mais ameaçadoras.

Foi uma análise precipitada e equivocada, posto que as aparências enganam. O protestantismo sobretudo, por atribuir a gente semi analfabeta um método monacal e acima de suas forças, tinha mesmo de fomentar um sectarismo de massas e assim um ethos fundamentalista calçado numa visão unitária (Por isso cooranica do Lívŕo) e numa visão superficial. Nem a visão de mundo estreita e não científica que possuíam exigia mais deles.

Tenho declarado, em minhas polêmicas com os defensores do livre exame bíblico, que tal exame até pode encaminhar a fé Ortodoxa é Católica, que é o conteúdo da verdade revelada ou ao menos a algum sentido histórico do Cristianismo, na periferia da objetividade ou da tradição. Para tanto porém jamais poderia ser livre quanto a forma, mas estrito, metódico, erudito, técnico e cientifico. Claro que estamos falando de um método restrito e elitista, exportado dos mosteiros cristãos. O qual dependia de toda uma estrutura educativa difusa, ainda hoje inexistente, quanto mais aquela época. Não era e não é algo para ser posto no acesso da gente simples, analfabeta ou sumariamente letrada.

O erro cabal dos protestantes foi querer estender este método ao povo. Um método ainda hoje reservado a teólogos ou a estudiosos consagrados ao estudo dos Evangelhos. O exame dos Evangelhos em sua dimensão literária (Deus originais são gregos como a República e a Memorabilia) assim cultural, histórica, geográfica... é coisa de médico ou jurista. Imaginem só os leigos e semi letrados praticando direito ou medicina??? Foi exatamente o que o protestantismo fez no âmbito da religião ou das Escrituras promovendo uma versão superficial, subjetiva e distorcida quase sempre judaizante e anti Cristã, mas também anti científica e irracionalista, pelo simples fato de estar calcada nos antigos mitos do antigo testamento, cujas raízes sumerianas tocam aos albores da História.

Eis porque este livre exame voluntarista e irresponsável, estimulado pela reforma nascente, tinha de resultar por fim num robustecer da consciência mitológica e numa postura a princípio irracionalista e enfim anti científica.

Em tempos de racionalismo e empirismo ou de controle mecânico por parte da Igreja antiga, nada disto assustava. Muito pelo contrário mais temiam os cientificistas dos catolicismos, devido a coerência interna que tais sistemas apresentavam e a couraça escolástica, buscando não poucas vezes enfraquece-los com o auxílio dessas seitas bíblicas, aliás bem mais próximas do modelo norte americanista ou capitalista que acalentavam. Aliás as seitas ainda servem  este propósito cultural inserido na imanência...

Todavia em tempos de pós modernismo, - Quando pensadores é filósofos da ciência tornam a Hume e Kant, arrematado contra a experiência e o raciocínio, e arvorado as bandeiras do ceticismo e do relativismo, (Aliás semeados pela prática do livre exame protestante.) - inverteu-se a situação em benefício do irracionalismo, do emocionalismo, do voluntarismo, do moralismo e das citadas seitas, que mais e mais vão abrindo espaço e adquirindo poder.

Há no entanto algo ainda mais obscuro. A falharem miseravelmente quanto a sua ideologia por falta de um aparelho educativo que produzisse qualidade, os próprios reformadores canonizaram a degeneração na medida em que canonizaram o fetichismo e anteciparam a manobra pentecostal. Na medida em que preconizavam a iluminação ou inspiração individual, ensinando irresponsavelmente que as massas receberiam a instrução bíblica diretamente do espírito santo, sem a necessidade do estudo, santificaram a ignorância e conferiram-lhe uma chancela social. Hoje entre as massas livre examinadoras ser igorante ou sumariamente letrado equivale a virtude... Como levar consciência científica a este nicho?

Para ser povo livre é necessário mais que letramento formal ou elementar. É necessária uma educação de qualidade, que traga consciência. É consciencia ou sentido que qualifica um povo diz com razão Freire. Massas não podem ser livres e se a Igreja velha, por não ter educado com suficiência e dado sentido mais amplo, falhou e produziu ou manteve massas, ao menos ajudou o antigo regime elitista a controla-las. Da mesma forma o partido Comunista, quando falhou igualmente em produzir consciência. FOI O SECTARISMO PROTESTANTE, ESPECIALMENTE PENTECOSTAL, que viabilizou está horrenda rebelião de massas iconoclasticas mais do que o Comunismo ou o Anarquismo, a partir desta democracia formal que inconsequentemente admite o voto do analfabeto ou do analfabeto funcional. O clamor dessas massas é triplo - Aspiram pelo fim das liberdades e direitos fundamentais, o aniquilamento da ciência ou de uma visão mais naturalista do mundo e enfim o controle do poder - Moralismo puritano, fetichismo e teocracia são as três parcas para nós e palavras de ordem ou programas para eles.

É necessário revelar ainda o quanto estes sectários perversos, não menos do que a intifada cultural do islã tem se beneficiado dos erros táticos cometidos ainda a pouco e obstinadamente repetidos já pelos neo darwinistas ateus, cientificistas, positivistas, etc Já pelos comunistas e anarquistas ou até mesmo por espíritas e esotéricos mas avisados cujas críticas igualam todas as formas religiosas ou priorizam a velha e combalida igreja romana, em parte degenerada aliás pela influência protestante fundamentalista. É como chutar cão morto, enquanto o cão vivo se multiplica. Hoje porém é bem mais fácil cooptar um romano ou Católico medianamente instruido do que um crente raiz conformado com a própria ignorância. O protestantismo no entanto tem tirado largo proveito disto, no sentido de apresentar se as massas incultas como inocente e puro, como anjo de luz e mesmo amigo do progresso...

DAI  a necessidade extrema de expor seu caráter essencialmente obscurantista anti libertário, anti científico e anti policratico. Por isso nada melhor do que registrar tudo quanto ou ao menos parte do que os principais homens de ciência e pensamento, como Rousseau, Prestley, Darwin, Marx ou Freud tiveram de sofrer por parte das massas fanáticas, dos pastores e desta cultura bíblica anti humanista (Dale Nogare). EIS UMA HISTÓRIA OU CRÔNICA A SER ESCRITA E DIVULGADA NUM PAIS CADA VEZ MAIS SECTÁRIO E AZEDO!!!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Breve crônica do nosso tempo... Aetatis tenebrae!!!

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As trevas estão aqui... Vivas, densas e presentes. Mesmo quando temos nossos olhares voltados para as vidraças de nossos ancestrais medievos...

Ocioso declarar que não há democracia sem Ética. Além de algum preparo, é claro. Sócrates jamais criticou a forma democrática em si mesma mas o despreparo técnico e sobretudo Ético dos democratas. A democracia, mais do que qualquer outro sistema, demanda cidadãos intensamente éticos... Democracia sem Ética será sempre qualquer outra coisa: Plutocracia, Oligarquia, Oclocracia... menos Democracia. Não fosse aquela policracia aparente ou degenerada e Sócrates teria sido absolvido. Ele era o médico ou terapeuta, com o diagnóstico em mãos. Posteriormente as coisas só pioraram... Mas ele tentou fornecer um padrão seguro a Ética, assim a Democracia.

Diante disto como não ficar o homem estarrecido diante do que contempla???

Trump, após ter cometido patente crime, de abuso de poder, tão levianamente absolvido pelo Senado dos EUA quanto Dilma foi levianamente condenada pelo nosso. Aqui e lá os fundamentos da democracia sofrem rude abalo. Quando os homens públicos exercem juízos ideológicos e partidários em detrimento deste fundamento pétreo do Estado que é a justiça tudo esta perdido. Chegamos ao fundo do poço, mesmo quando nosso discurso seja aparentemente democrático. Também a geração que fez Sócrates ingerir a taça de cicuta ela hábil e eloquente em tecer discursos democráticos... E no entanto toda aquela aparência formalística foi rolando de abismo em abismo... Terrível lição que ainda não aprendemos. Pois não se trata aqui, como julgam os sectários e ideólogos, do PT ou do Partido Democrata... Você simplesmente não pode salvar ou redimir qualquer coisa partindo de uma perspectiva injusta.

O que aqui assistimos no Brasil, a partir das denúncias de alguém tão culpado quanto Eduardo Cunha, quanto o que lá assistiu-se: Uma absolvição precoce, movida por preocupações partidárias e a negativa escandalosa de se dar ouvido a testemunhas põem em choque os fundamentos espirituais de nossas instituições. Temos um edifício belo assentado sobre a areia ou o lodo! Não é contra Marx ou Engels que se peleja, mas contra Sócrates, Platão e Aristóteles, lídimos paradigmas da justiça e próceres de nossa cultura. É contra nossa herança grega, clássica e humanista que pugnamos em nome de preocupações artificiais e vazias!

Mais grave todavia que a absolvição leviana do demagogo Conservador N. Americano é o apoio que continua a receber por parte das multidões sem dignidade e consciência, sempre conduzidas por motivações imediatistas, pragmáticas ou financeiras: Se a economia vai bem, tudo está bem! - E depois ainda reclamam quando classificamos esta 'sifilização' como economicista e apóstata... De fato o homem econômico 'Nada sabe além de comprar e vender', como dizia Confúcio. E perdeu ele, por completo, o sentido da vida ou a noção de que sejam os fundamentos do convívio!

Se a economia vai bem podemos nos conformar com a injustiça... Especialmente de um petista ou democrata qualquer está do outro lado do banco. Com a mesma lógica maligna, infernal e desumana os sectários partidaristas que apresentam-se como Messias redentores mandariam seus desafetos, as toneladas, ao cadafalso. Em seguida apresenta-se Kelsen com sua turma para declarar: Deixai passar... Sem incomodar-vos com questões metafísicas em termos de justiça. Discordo de Grotius quando condena a neutralidade face aos juízos de qualquer organização humana, inda que supra nacional. Posto que não há organização incorruptível ou infalível. Mas concedo que não é digno manter-se neutro face a qualquer forma de injustiça, mesmo que para tanto nos devamos opor não apenas a juízes e tribunais, mas inclusive a parlamentos nacionais e supra nacionais, como o da ONU.

Não preciso ser petista para identificar-me com a injustiçada Dilma Russef ou estar matriculado no partido democrata para solidarizar-me com os cidadãos N. Americanos que se opõem aos abusos cometidos por Trump, basta-me ser humano, ter consciência, ser digno, buscar ver além das fronteiras partidárias ou ideológicas. Difícil é entender porque os demais seres humanos não podem compreender algo tão simples...

Enquanto tais atrocidades, alimentadas já pelo capitalismo, já pelo fundamentalismo religioso e cego, vão sucedendo por este pobre mundo, quase hospício, 'nossa' esquerda 'radical', infectada por um gérmen de morte vai embarcando mais e mais no barco furado do pós modernismo, a ponto de glorificar não apenas o Carnaval mas até mesmo, pasmem, o B B B... Da até então odiada Rede Globo, talvez agora convertida em instrumento de emancipação das massas ou do proletariado.

Haja visto que a Revista Fórum acaba de publicar referências embevecidas a este espetáculo massificador voltado para as massas. Como alguns dos competidores, buscando agradar a audiência e abocanhar o prêmio milionário, fizessem algumas declarações favoráveis ao feminismo, foi o quanto bastou para serem aclamados como gênios, intelectuais, heróis, etc enfim como protótipos do 'revolucionário', e quanto a este último elogio nada tenho a declarar ou que duvidar rsrsrsrsrs. Agora quanto a relevância intelectual destes moços muito teria a dizer... Mas a revista Fórum deu de imaginar que o B B B equivale a Acadêmia de Platão, o Liceu de Aristóteles, o Pórtico, o Concílio Ecumênico, a Sorbonne, a A B L ou sei mais eu ao que...

Bem poderia a dita publicação dar espaço a autênticos estudiosos ou intelectuais, envolvidos em pesquisas em inúmeras acadêmias... E desenvolvendo belos trabalhos as áreas de Ética, Ciências Políticas, Sociologia, Psicologia, História, Literatura, etc Não poucos em favor da dignidade humana, da promoção social, do bem comum, etc E no entanto onde vai ela beber 'sabença' no B B B, cujos participantes, servem-se de todo um aparelho conceitual ou vocabulário pós modernista e anti científico procedente é claro dos E U A, a pátria do irracionalismo (Bem como do Capitalismo, do fundamentalismo, do formalismo democrático e doutros tantos venenos!) ou do anti intelectualismo. E a esquerda carnavalesca do Brasil vai de comboio... A constatação é óbvia: Com essas babaquices ineptas como 'lugar de fala', apropriação cultural (Chamamos isto de circulação de cultura!), etc não se chegará a lugar algum, e não se deve esperar qualquer redenção desses falsos profetas.

Como queriam Platão, Quintiliano, Feltre, Russeau, Freire... dentre tantos outros, devemos investir é na Educação ou no esforço educativo, numa Educação destinada a questionar e superar o pós modernismo com sua sopa irracionalista: Cética, relativista, subjetivista, etc Somente questionando a epistemologia apresentada por uma civilização decadente e em crise poderemos chegar a algum lugar. Precisamos restabelecer a confiança do homem em si mesmo, em suas capacidades cognitivas, em sua percepção, em seu raciocínio... sob pena de sermos, em pouco tempo, engolfados pelo que há de pior: O fundamentalismo religioso. Ao sectarismo ideológico ou partidário inspirado por culturas de morte como o agostinianismo, o maquiavelismo, o capitalismo, o comunismo, o fascismo, o anarquismo, o nazismo, etc temos de opor a velha cultura clássica ou socrática posta para a verdade metafísica, seja gnoseológica, estética ou sobretudo Ética, em termos de uma Ética essencial, não ilusória ou aparente.

Enquanto finalizo estas linhas sou informado de que a mesma Gleisi Hoffman que repudiou qualquer aliança em torno de Ciro Gomes e do PDT teria sinalizado a possibilidade de alianças com DEM e PSDB... A notícia foi desmentida pela própria G. H há dois dias, mas a questão ficou mal esclarecida. Seja como for os petistas esqueceram de vetar PSC rsrsrsrsrsrs Mas que há para se admirar quando o próprio Lula, aos modos de macaco imitando o Freixo, declarou ser necessário aproximar-se dos 'Evangélicos' i é do mesmo setor religioso e fundamentalista que traindo o PT, promoveu ativamente o golpe contra Dilma entre as massas... Pelo jeito os esquerdistas folclóricos não aprenderam nada com a História recente e estão dispostos a repetir os mesmos erros funestos!!! Supondo-se a viabilidade da união com os fanáticos religiosos, que haverá de monstruoso em unir-se a DEM e PSDB ou PMDB, famigerados valhacoutos dessas ideologias abomináveis??? PT, PSOL e aliados não tem qualquer noção precisa em termos de cultura ou de dinâmica religiosa. Sequer leram Engels, quanto mais Max Weber... Triste, Triste... Buscar apoio nessas canas quebradas que são as seitas protestantes, pontas de lança culturais do Capitalismo e do Minimalismo. Mas PT não aprende mesmo e é inútil tentar convencer seus quadros...

Já o Paulo Guedes, afirmando seu compromisso ideológico e cultural com os E U A, apresenta os funcionários públicos deste pais, em parte consciência alerta deste corpo social, como parasitas ou vagabundos, como sanguessugas que sugam o erário... Como admirar-se em tempos de estado mínimo??? Tolo o funcionário público que esperava rosas ou algo de bom deste governo neo liberal economicista... A prioridade aqui é destruir qualquer tipo de consciência sócio intelectual e produzir massas no acesso do fanatismo. Só assim o P S L poderá manter-se ou florescer. PSDB e DEM assim já brincavam. Negócio é demolir a Educação pública convertendo-a em beabá. Para em seguida proletarizar o funcionário público, obstruindo sua formação educativa e humana. Assim é que fabricam-se massas anencéfalas ou eleitores servis e acríticos. Dos militares, políticos e juízes que fazem aprovar regularmente o aumento do próprio salário, já colossal, o nobre ministro bolsonarista não se lembra...

Cuida ele, que ocupa cargo designado e vive ora viajando pelo mundo afora, ora com o copinho de água geladinha debaixo do ar condicionado, que tal seja a condição de todos os funcionários públicos da República, em especial dos professores públicos. Comece comparando os salários sr Guedes, para constatar quem é o demagogo... Contemplando o concursado e o designado já em termos de salário quanto de regalias e privilégios clamorosos bem se vê quem seja parasita, quem onere os cofres públicos... E quem o Guedes quer que pague a conta. A mira do ministro americanizante são os funcionários públicos estaduais e municipais que não foram flagelados pela sinistra reforma da presidência. Eis a carne de fogueira cobiçada pelo grande inquisidor financeiro ou capitalista: O funcionário público concursado, contra quem ele, habilmente, espera lançar as massas arguindo privilégios... Olhem os cidadãos para os militares, políticos e juízes, isto é, para as verdadeiras castas que proliferam pelo pais afora, cuidando caçar seus privilégios que são monstruosos além de clamorosos.

Oxalá, diante de tanta insanidade poder dizer ao mundo: Pare mundo que quero saltar... Alias, mundo não, hospício...




domingo, 9 de fevereiro de 2020

Grotius x Maquiavel, Bakunin, Hayek ou Humanismo vs pós modermismo

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O que Lutero, Maquiavel, Bakunin, Nietzsche, Mussolini, Hayek tem a ver uns com os outros? Claro que a maior parte deles era individualista e que, com Stirner e Rand, foram os principais teóricos dessa Ideologia venenosa. Curiosamente eram todos irracionalistas, relativistas, subjetivistas, psicologista.... É portanto tão intensos a uma Ética quanto os filhos de Litreé e Kelsen, ou seja, os empiristas/positivistas, fossem estes cá agnósticos, materialistas ou ateus.

Em Cousin, Damiron, Jouffroy, M de Biran, E Renan... temos a outra face da moeda, e ela não foi religiosa, fideista ou revelada como supõe a crítica neo ateistica e superficial, mas naturalista ou metafísica, conforme o modelo grego, seja pré socrático, platônica, aristotélico ou estóico. Grotius parece ter precedido a todos estes, como já veremos, embora suas fontes remontem a escola salmanticense e por esta via comuniquem com a neo escolástica.

Quanto aos autores acima é notório o caráter pré positivista no sentido dos ramos do saber por eles cultivados serem apresentados como autônomos não apenas face a uma moralidade religiosa muitas vezes toscas, mas face a qualquer instância superior, assim a uma ordenação Ética inda que naturalista. Afirmam o primado do conhecimento material ou empírico e chegam inclusive a prometer que de sua ciência empírica ou ignorância crassa, brotara vida Ética.

Ignoram assim que a instância Ética do Ideal seja distinta da instância material ou real do conhecimento científico ou mesmo superior a ela. Pelo que a ciência torna-se soberana e incontrolável, assumindo o lugar o velho Deus e adquirindo acentos religiosos ou místico, tal e qual o comunismo, o fascismo e outras ideologias políticas seculares por trás das quais subjaz a decantada escatologia cristã. A C Grayling.

A epistemogia deles no entanto parece ser mais sofisticada que a do positivismo, na medida em que para eles o empirismo já não aponta para uma perfeição racional e sim para a odiada imperfeição ou para um elemento caótico, que nem mesmo a experiência habitual poderia reverter.

Por isso abominam a Ética ou a desprezam, enquanto tentativa de controle racional sempre infrutífera. Segundo creem qualquer tentativa de controle racional, alheia a realidade, só poderia piorar semelhante estado de coisas. O mais aconselhável seria aceitar a realidade do incontrolável e do irracional tal qual é, deixá-la fruir e acomodar-se. O que implica abandonar todo e qualquer reformismo idealista enquanto tentativa de corrigir a realidade dada.

Maquiavel, além de ter criticado o falso moralismo reinante ou os abusos do tempo, bem poderia ter ensaiado algum tipo de solução Ética. Mas é justamente o que não se vê no Príncipe... A contra partida dos meios de dominação parece inexistir, assumindo o mal certo contorno absoluto. O fim último parece ser o poder e o mais parece ser meio, enquanto a fortuna é apenas a sorte, o acidental, o estocástico. Mussolini, partindo de Sorel, é igualmente voluntarista e irracionalista, não acredita no auto controle racional do Homem ou no processo social de auto educação, dai sua confiança tola na autoridade cega, no autoritarismo, na tirania, no despotismo, da ditadura, na submissão, no controle, etc

Outro não é o discurso de certos comunistas e anarquistas em torno da tão sonhada revolução. Pois quando perguntamos a eles a respeito dos excessos de violência relacionados com um conflito social de caráter físico ou armado, eles limitam -se a declarar - sofismando - que a violência já existe 'oculta' em nossa sociedade de classes, etc Ignorando ou fingindo ignorar que a condição é bem distinta posto que atenuada pelas leis, e que nem outra seria uma situação de guerra aberta cujos excessos e abusos teríamos de prever para controlar.

Assim que fazer com os que se aproveitam da Revolução para cometer os crimes mais sádicos? Que fazer com os feridos em conflito? Com os prisioneiros? Com os civis? Que pensar sobre a tortura? E os animais... É os famintos... É o patrimônio histórico cultural? Eis assuntos de Ética em torno da tão Revolução que os comunistas e anarquistas deveriam estar discutindo ou pensando desde 1848 mas com relação aos quais nutrem verdadeira ojeriza.

Isto para não aludir a questões práticas em torno da administração pública seja das empresas ou dos municípios... O que ao menos foi considerado pelos heterodoxos Herr, Jaures, Blum... Os ortodoxos no entanto fornecem-nos apenas está miserável resposta: Esperem a revolução acontecer pois é em seu desenrolar que encontraremos as soluções. Embora seja característico do homem calcular, planejar e pensar sobre o futuro. Mas o que há por trás de tudo isto? A suposição de que a revolução é um fenômeno irredutível a razão, incontrolável, imprevisível em seus contornos... Claro que uma guerra ou revolução parte de um impulso. Seus nuances e resultados todavia podem sim ser racionalizado, e toda História das guerras gregas e romanas apontam para este caminho. Do contrário a estratégia das minorias jamais teria vencido o número dos oponentes ou Alexandre vencido os persas.

Criar uma Ética de guerra é tão importante quanto pensar operações estratégicas. Os anarquistas é comunistas porém preferem não pensar o problema ou não refletir, dando tal reflexão por ociosa. Tal o caráter imprevisível e irracionalista dos conflitos humanos. Como o caráter do fenômeno político para o florentino.

Outra não é a opinião de Hayek - derivada é claro de Kant - sobre os movimentos ou flutuações do Mercado, igualmente aleatórios, irracionais e incontroláveis... Daí o caráter negativo, segundo ele, de todo é qualquer controle ou tentativa de planejamento racional exercida pela sociedade política... Apenas os inseridos conheceriam intuitivamente ou pela prática habitual, tais flutuações ou crises, sabendo igualmente que elas possuem dinâmica própria e que, como nos casos de gripe, nada se pode fazer alem de esperar que ela siga seu curso natural. Nada podemos corrigir, em absoluto!

Eis o político, o curso da Revolução e o Mercado descritos quase que nos mesmos termos por um pós renascentista angustiado, por alguns teóricos anarquistas e por um ideólogo neo liberal e a tônica comum é o irracionalismo, irredutível a qualquer modelo ou solução ideal é portanto a uma normatividade Ética. Por isso o maquiavelismo, o anarquismo, o comunismo e o neo liberalismo aproximam-se não somente do empirismo/positivista, mas de outros sistemas irracionalistas - Como o cristianismo protestante Luterano, quanto a resistência a uma vida Ética superior é absoluta.

E o humano fica sempre esmagado - Pela fé religiosa, pelo poder político, pela tirania do Mercado, pelas revoluções 'libertadoras, pela pedido filosofia da fragmentação ou do particular, pela negação do conceito (De justiça ou bem comum...)

A todos estes oponho, além de Sócrates, sempre atento ao que fosse humano; é Descartes, Hugo Grotius. E por que Hugo Grotius? Porque buscou disciplina o que chamamos guerra bem como a convivência entre os Estados fornecendo-lhes uma Ética como produto de anos e anos de cuidadosa reflexão. Imaginou ele diversas situações possíveis e a melhor maneira de relaciona-las com o bem e a justiça, resultando disto um Tomo inteiro com cerca de seiscentas citações.

Numa perspectiva mais ampla sua obra foi resultado de um exercício reflexivo iniciado cerca de século e meio antes em Salamanca, Espanha, onde um grupo de teólogos dominicanos, liderados por Vitória, principaram a refletir sobre a nova condição do mundo após as descobertas de Colombo. Como as novas culturas encontradas achavam-se separadas da cultura Cristã européia quanto a fé, aqueles sacerdotes buscaram por outro elemento comum que pudesse unir os homens, dando com a razão ou a racionalidade e o Direito natural, do qual derivam o que hoje temos em conta de Direitos humanos, direitos essenciais e não duvidosos ou relativos.

Os próprios Dominicanos puderam servir-se do Direito romano e de alguns testemunhos legados pelos antigos pensadores gregos, em especial pelos estoicos. Isto porque os gregos do século VII a C e os romanos do séculos I e II d C haviam sido postos diante das mesmas circunstâncias que os europeus do século XVI - A descoberta de uma vasta pluralidade cultural e credal, a qual levou-os em busca de um elemento comum em termos de imanência - Assim a razão ou a capacidade reflexiva, a partir da qual reduziram uma Ética essencial, a que deram o nome de Direito das gentes, tal a fonte do jusnaturalismo ou da Teoria Ética do direito, a qual o positivista Hans Kelsen opôs sua teoria pura.

Da negação da razão pelo empirismo positivista e pelo pós modernismo resultou a negação desta Ética essencial da pessoa É a crise porque passam a Civilização e a cultura. Pois esta Ética continua sendo relativizado e negada hoje, não passando muitas vezes de vão ou de palavra vazia. Falamos muito sobre Ética mas não a levamos a sério ou vivenciamos, certamente porque não estamos convencidos em termos de veracidade essencial. Neste caso o problema é sempre Epistemológico.... Afinal de que nos serviria uma Ética duvidosa, ilusória ou aparente? Coisas há a respeita das quais devemos ter certeza absoluta e inabalável, de modo a mover a vontade. Nossa cultura envenenada não satisfaz esta demanda psicológica...


Ps.: Poderia adicionar aqui os agostinianos todos, sejam protestantes, como Lutero e a maior parte dos sectários catastrofistas, assim os romanistas que receberam a alcunha de tradicionalistas (século XIX) justamente por repudiarem nosso aparato racional - Assim grande parte dos INTEGRISTAS ou CONSERVADORES: De Bonald, De Maistre, Donoso Cortes, Ubaghs, Tamburini, etc  Estes mereceram condenação explicita por parte do Concílio do Vaticano I - O qual vindicando nossa tradição autêntica afirmou a capacidade da razão humana - embora os conservadores 'católicos' levassem este substrato cultural adiante e podemos constatar este receio face a razão tanto nos agnósticos como Gray quanto nos 'católicos' deslocados como Russel Kirk. Também são irracionalistas como Agostinho e Lutero e por isso pretendem substituir o critério da Razão pelo critério da TRADIÇÃO. O critério ou padrão TRADICIONAL porém só é válido no âmbito interno da divina Revelação ou da Religião e não da imanência, já porque os antigos pagãos apelaram obstinadamente a ele contra o Cristianismo emergente, e nossos apologistas, os padres da Igreja, a Razão, com o objetivo de invalida-lo.