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sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Revisionismo protestante - Seitas para Católicas, que troço é esse???

Em tempos que prolifera o fundamentalismo bíblico com suas monstruosidades e bizarrices é sempre bom mostrar o outro lado da moeda...

Afinal como dizia Mencken, lá nos EUA dos 1900, a evolução ou progresso intelectual dos cidadãos podia sem mensurado em termos de hierarquia confessional. Achando-se, é claro, os batistas - com o dogma imbecil da inerrância bíblica - na base da pirâmide seguidos de perto pelos calvinistas... Já no alto da pirâmide achavam-se os anglicanos e papistas com seus refinados construtos teológicos.

Operava já o pentecostalismo ou a pajelança de Pharran entre as massas mais embrutecidas... Mas não proliferava como hoje.

Há cem anos atrás ou mais eram os protestantes históricos, especialmente metodistas e luteranos, que abandonavam os preconceitos ancestrais e catolicizavam... Restabelecendo os Sacramentos, o ritual e mesmo alguns artigos do Dogma entre suas membresias. Os luteranos da Rússia por sinal, tendo Fesller a sua testa, chegaram a ultrapassar os próprios papistas e a rivalizar com nossos Ortodoxos quanto ao esplendor litúrgico de seus ofícios. De modo que ao entrar em qualquer templo luterano de Moscow tinha-se a nítida sensação de estar num templo papista ou anglicano.

Outra não era a direção dos metodistas e mesmo de alguns presbiterianos dos Estados Unidos, os quais na mesma medida em que iam descobrindo os tesouros da literatura e da tradição patrísticas iam forjando seus próprios movimentos de 'Oxford'. E restabelecendo a Confirmação, a Penitência, a Ordenação, o incenso, as representações, as cruzes, enfim tudo quanto caracteriza o nosso Cristianismo em oposição ao judaísmo e ao islan, cuja pobreza estética ou formal é notória.

Seja como for não podemos classificar tais organizações como para Católicas. Na medida em que ao menos formalmente, permaneceram apegadas aos princípios errôneos divulgados pela falsa reforma, assim a doutrina da salvação imoral, vicária e fetichista pela fé somente ou nos pecados, assim a doutrina da predestinação, assim a doutrina do livre examinismo... Claro que tais agremiações não cogitavam, nem de longe, por tais princípios em prática, mantinham-nos todavia em seus 'credos' como letra morta.

As seitas para Católicas de modo geral constituem elementos bastante curiosos devido a seu caráter, digamos assim, paradoxal ou antagônico; pois se quanto ao conteúdo ou a matéria caracterizam por levar ainda mais adiante a revolução iniciada pelo demagogo Martinho Lutero, quanto a forma tem renunciado ao modelo protestante 'tradicional' e reproduzido o modelo Católico, da autoridade hierárquica, assim quando a Ética, o que tem bastado para exasperar os demais intérpretes da Bíblia, seus companheiros.

De fato os protestantes formalmente 'ortodoxos' - compreenda-se coerentes e fiéis aos princípios enunciados pelos reformadores - costumam nutrir mais ódio, rancor e má vontade quanto a estes seus irmãos revisionistas ou traidores, do que pelos odiados filhos das igrejas Católicas, comumente classificados como idólatras, politeístas ou pagãos, uma vez que o sectarismo protestante permanece preso ao dogma judaico da transcendência absoluta, jamais tendo assimilado por completo ou até as últimas consequências o mistério central de nossa fé que é a Encarnação de Deus ou a manifestação do Verbo na carne.

Há meio milênio já estão os sectários judaizantes do protestantismo em guerra contra a imanência, já sob a égide do antigo testamento e do rabinismo com Calvino, já sob a égide do neo platonismo com Zwinglio. Pugnam assim por um deus puramente espiritual e descarnado como o jao dos hebreus ou o alla dos maometanos, por um culto puramente espiritual e expurgado de quaisquer representações, por um redenção meramente espiritual e descarnada que desconsidere os problemas ou mesmo a sorte deste mundo, por uma salvação individualista e mágica que excluí as obras e consequentemente a mediação de nosso semelhante, por uma igreja invisível ou fantasmagórica composta por eleitos e predestinados, por uma espiritualidade invisível que exclua os Sacramentos até a presença do Senhor da ceia... E por ai seguem eles, na contra mão da encarnação de Cristo, 'espiritualizando' tudo - e enquanto Deus insere-se por assim dizer na matéria e no mundo físico eles desertam dele...

Aqui as seitas para católicas rompem decididamente com a tradição ancestral inaugurada pelos três reformadores ( Lutero, Zwinglio e Calvino) e vão por outro caminho, pelo caminho inverso.

Por seitas para Católicas, queremos designar as congregações dos Adventistas, dos jeovistas, dos mórmons e numa medida menor da CCB, a 'Obra de respeito' como é designada pelo nosso Délcio Monteiro de Lima. E de respeito mesmo uma vez que não canonizou a instituição judaica do dízimo e que consequentemente não vive de prebendas estabelecendo vínculos e laços - de dependência e servidão - com as instituições financeiras deste mundo. Alias os jeovistas também não cobram dízimos...

O fato é que nenhuma dessas seitas quer ou cogita ser invisível ou fantasmagórica como queria o Dr Lutero. Querem ser visíveis e bem visíveis a ponto de alastrarem-se pelo mundo afora e substituir a igreja dos Bispos ou a ordem divina. Aspiram concretamente pela dominação e por isso são e querem ser muito bem visíveis, em todos os sentidos.

Outro aspecto comum entre a Ortodoxia e tais seitas é que ao contrário das demais seitas protestantes - que vivem conflitando sobre interpretações e doutrinas se bem que, admitam uma salvação 'comum' para seus adeptos - é que as seitas para Católicas, resgatando e levando adiante o conceito tradicional de Revelação divina, ousam afirmar-se como depositárias da verdade divina, ou mesmo como necessárias a salvação e, pasme, como únicas, encarando as seitas rivais como falsas ou diabólicas. Comum o adventista, o jeovista ou o congregado afirmarem em alto e bom som, como a verdadeira Igreja, que fora de suas seitas não há redenção.

Assim as seitas para Católicas não temem apresentar-se como visíveis e salvíficas.

A grande ruptura no entanto deu-se a nível do princípio operacional do Biblismo, que é o livre exame, doutrina segundo a qual cada indivíduo deve extrair os elementos ou o conteúdo intelectual da divina Revelação (Dogmas) por meio da leitura da Bíblia i é por meio da técnica exegética, da especulação racional ou duma suposta inspiração mágica. Claro que se trata do princípio responsável pelo estado de fragmentação e confusão doutrinal característico do protestantismo 'ortodoxo'. Afinal cada qual lê a mesma Bíblia a sua maneira e compreende-a de modo diverso jamais tocando ao terreno comum e uniforma da verdade... Tudo quanto há no protestantismo ortodoxo são interpretações contraditórias, alias centos ou milhares delas, ou opiniões, conjecturas, hipóteses, suspeitas, etc o que de modo algum pode servir de fundamento a verdadeira religião. No passado cada protestante 'ortodoxo' sustentava a divindade de sua própria seita e denunciava todas as outras como falsas, hoje continuam a divergir a respeito de pontos importantíssimos - como a presença real e o batismo infantil - alegando no entanto que tais divisões são irrelevantes e levando seus clientes mais atilados a darem por irrelevante o ensinamento de Cristo ou a porém em dúvida o conceito de Revelação... Esta acomodação foi necessária para serenar a guerra doutrinária que lavrou entre eles desde 1800... Hoje, via de regra, a doutrina é irrelevante ou de somenos importância, desde que não seja a Católica...

Os fundadores das seitas Católicas, nascidos como nós, neste ambiente de rivalidade e confusão, ressentiram muito cedo quanto a falta de unidade entre as seitas bíblicas e consequentemente quanto ao desamparo em que se achava o protestantismo ancestral face a verdade divina... Sentindo-se levados a restabelecer sobrenaturalmente tanto uma quanto outra coisa.

Como no entanto conheciam muito bem o defeito de fabricação da reforma procuraram estabelecer 'corpos governantes' a semelhança do colégio apostólico, aos quais atribuíram o direito de fornecer a interpretação exata da Bíblia aos indivíduos i é a membresia. Grosso modo eles costumam afirmar que limitam-se a ensinar as pessoas a lerem a Bíblia corretamente ou a fornecerem o sentido unívoco e a posse da verdade objetiva divinamente revelada, tal e qual a igreja antiga fazia e faz.

Perceba-se a diferença crucial - Aqui nem o corpo governante, nem o individuo ou fiel buscam ou devem buscar qualquer coisa. Antes que a Bíblia seja examinada o corpo governante ou a autoridade já esta em plena posse da verdade. Assim enquanto nosso protestante ortodoxo, isolado em seu quarto inclusive, demanda pela verdade perdida e pela doutrina o afiliado as seitas para Católicas recebe a doutrina prontinha e já formulada. Logo a Bíblia - manipulada pelo indivíduo - já não constitui fonte única da doutrina, mas meio ou instrumento por meio do qual a verdade é comunicada pelo corpo governante. Há aqui um sistema ou conjunto de doutrinas que precede a leitura do livro e ao qual o catecúmeno deve submeter-se dócil e passivamente. Ao menos teoricamente, no protestantismo ortodoxo, o indivíduo colhe por si só a doutrina sem a necessidade de qualquer orientação humana de caráter externo ou autoritativo. Aqui o indivíduo isolado é a autoridade suprema. Ali ele é ensinado ou instruído por outros homens, dos quais recebe o sentido comum.

Claro que a ideia segundo a qual a leitura da Bíblia deva preceder o credo ou a verdade só funcionou para uns poucos privilegiados ou espertalhões a exemplo de Lutero. Os quais editaram e impuseram suas interpretações ou opiniões individuais aos idiotas. Precedendo desde então a doutrina ou o credo a leitura da Bíblia, fosse luterana, zwingliana, calvinista, congregacionalista, anabatista ou metodista. A doutrina segue sempre antes... Os pastores a princípio colocam a Bíblia nas mãos da vítima, fazendo-a crer que ela mesma é livre para extrair as verdades de fé, PARA NUM SEGUNDO MOMENTO ORIENTA-LA NA DIREÇÃO DE SUA TRADIÇÃO OU CRENÇA. Ao menos a igreja antiga age sem embuste ou honestamente alegando preceder a escritura do Evangelho e ter sido comissionada pelo próprio Jesus segundo o padrão apostólico da sucessão. Assim as seitas para Católicas...

O que Lutero julgou ter demolido e Calvino - por meio de sínodos e credos espúrios - julgou ter restabelecido precária e matreiramente, as seitas para Católicas assumiram de fato, oficialmente e sem pejo. Tal o padrão externo da autoridade ou a normatividade da leitura bíblica, ora furtada aos nuances do subjetivismo crasso. A partir daí as seitas para Católicas adquiriram uma unidade mais ou menos sólida, a ponto de rivalizarem com as grandes igrejas episcopais em sua disputa pela clientela religiosa. Eis porque - nos manuais protestantes - seus nomes costumam vir alistados mesmo antes dos nomes das odiadas igrejas romana, anglicana e Ortodoxa, merecendo seus ensinamentos cuidadosa refutação por parte dos pastores, a qual no entanto redunda quase sempre em benefício das ditas seitas ou dos catolicismos devido a sua inanidade.

E como acentuam a virtude da obediência ou da submissão face aos respectivos corpos governantes, não podiam tais organizações deixar de entrar pelo terreno da soteriologia, da antropologia e da ética, abordando a temática da fé e das obras segundo a doutrina Ortodoxa, ao menos proximamente. O que nos leva a mais uma revisão ou ressignificação em termos de princípios, ou seja, a ruptura com o solifideismo ou com a crença na salvação pela fé somente i é sem obras éticas, sem amor, sem caridade, sem justiça, sem virtude, etc Todas as seitas para Católicas abandonaram decididamente tanto o monergismo quanto seu pressuposto essencial que é a doutrina da depravação total da natureza humana. Alinharam-se mais uma vez com os Catolicismo de que fugiam e tornaram-se ainda mais detestadas pelos protestantes 'ortodoxos'.

É unânime entre jeovistas, mórmons, adventistas e congregados que o fiel é salvo não pecando ou em seus pecados mas de seus pecados por uma graça eficaz ou capaz de secundar a livre vontade em seus anelos pela santidade e pela perfeição. É o homem recuperado ou resgatado por Cristo para a obediência ou melhor dizendo para a vivência do Evangelho e prática da nova lei. Por isso em comunhão com seu Mestre pode e deve abster-se de pecar e não viver desbragadamente como qualquer gentio... A perspectiva aqui é totalmente diversa da luterana ou da anabatista, pois o sangue não sucede ao pecado, ocultando-o vicariamente, mas precede-o tornando-o evitável e desnecessário. Trata-se mais de pedir forças para não pecar do que de pedir perdão para em seguida tornar a pecar. Trata-se de conhecer as exigências do Evangelho e de leva-las a sério, implica compromisso, esforço e heroísmo por parte da vontade de colabora com a graça.

Já segundo a opinião de Lutero é o homem ao mesmo tempo justo, salvo, predestinado, santo e pecador uma vez que a Santa divindade - que tudo pode - recusa-se a liberta-lo integralmente do mal e do pecado, quiçá para mante-lo humilde... Miserável, insensível, canalha, mas humilde... Como se a humildade e não a caridade ou a justiça constituíssem as virtudes mais elevadas. Aqui a santidade, a perfeição, a beleza, a caridade, a justiça, enfim tudo quanto seja Cristão é sacrificado a humildade... Receando Cristo que a santidade e a perfeição tornem este homem orgulhoso e ponham-no a perder... Neste caso por que teria dito ele: Sêde perfeitos como vosso Pai Celestial é perfeito, ao invés de ter antecipado o agostiniano alemão e dito: Sêde pecadores, miseráveis, imperfeitos mas humildes???

Para arrematar este artigo já demasiado longo gostaria de ressaltar outros pontos de vista em que as seitas para católicas acham-se de acordo com a fé da igreja ou em suas proximidades -

Os adventistas do sétimo dia admitem a virgindade perpétua da santa mãe de Cristo, antes e depois do parto.

Os membros da CCB tem autorização para beber com sobriedade, além disto os líderes da seita não podem exercer quaisquer cargos políticos, orientação seguida igualmente pelos jeovistas.

Os jeovistas são cessacionistas e como nós estão persuadidos de que os milagres - realizados por Cristo e pelos apóstolos - tendo cumprido a função a que haviam sido destinados deixaram de existir. Não mais interferindo a divindade, diretamente, na ordem natural do mundo. Evidente que eles merecem ser aplaudidos por isto.

Já quanto aos SUD são inúmeros os pontos de acordo entre a seita a que pertencem e a Ortodoxia, de modo que até seria fastidioso elenca-los.

De um modo ou de outro, a sua maneira, cada uma dessas seitas nos aponta para a verdadeira igreja apostólica que recebeu sua autoridade divina das mãos do próprio Mestre Jesus Cristo. A seu modo, cada uma delas, testemunha em favor de nossa fé Ortodoxa, imaculada, pura e Católica na mesma medida em que souberam superar os preconceitos e paradigmas protestantes afirmados pela pseudo reforma.

reiramente, por meio de sínodos e credos espúrios,






terça-feira, 18 de abril de 2017

Henry Thomas Buckle e a Civilização espanhola I

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Em termos de concepção ou doutrina Histórica há basicamente dois tipos de determinismos materialistas:


  •  O determinismo geográfico ou espacial formulado por Friedrich Ratzel, o qual incidindo sobre o caráter humano produz tipos psicológicos específicos.
  • O determinismo economicista formulado por K Marx, na dependência do citado Ratzel e que acentua a produção e circulação de bens e valores enquanto fator produtor de cultura e a cultura como fator determinante das ações humanas.
H Taine, L Metchnnicoff T H Buckle e Huntington, dentre outros, foram partidários da primeira forma, a qual acrescentaram suas contribuições específicas. H Taine, A Comte, E Durkheim insistiram especialmente sobre a determinação exercida sobre o meio social, através da cultura, sobre os indivíduos. Plasmando seus tipos e determinando suas ações.

Ratzel, Metchinnicoff, Buckle, Huntington insistiram mais sobre a dependência da estrutura social e da formação da cultura quanto aos elementos geográficos da hidrografia, vegetação, relevo e clima. Os quais inegavelmente podem servir como obstáculos intransponíveis não só quando a formação e evolução das Sociedades, mas inclusive a manutenção da própria vida. Enquanto fatores precipuamente negativos, os elementos geográficos não deixam de ser considerados pelo possibilismo ( Vidal de La Blache) o qual no entanto, aos fatores e condições positivas, adicionam o fenômeno ou fator humano como elemento a parte, produzindo um esquema de sinergia ou parceria.

A tese de Buckle faz é monocausal, fazendo o fenômeno ou fator humano depender do espacial ou geográfica.

Por considerar, no mínimo interessante, a análise deste teórico, sobre a gênese e a decadência do Império espanhola, resolvi expô-la criticamente, como que dialogando com o autor e dizendo porque não concordo com ele a respeito deste ou daquele aspecto.

A fonte de Buckle a respeito da formação da Sociedade espanhola - Numa dimensão nacional a partir do século XV - encontra-se na História da civilização na Inglaterra, que é sua obra prima, e um clássico da historiografia de par com as obras de Gibbon, Hallam, Thierry, Jubainville, Coulanges, Breasted, Glotz, Spengler, V G Childe, Huizinga, Toynbee, Pirenne, Bloch, Ganschoff, Jarreth, Hanotaux, Febvre, Le Goff, Braudel, Duby, Delumeau, Chaunu, Todorov, etc

Principia Buckle sua abordagem salientando a pobreza do solo espanhol, em parte semi árido. E relacionando a precariedade e as incertezas com cultivo com um padrão de pensamento mágico fetichista. Segundo este autor a instabilidade do meio é que determina a mentalidade mágico fetichista de um povo. Logo em seguida relaciona o estado de miserabilidade intelectual dos visigóticos refugiados nas Astúrias e na Cantábria com o estado montanhoso do pais.

A tese nada tem de nova.

Cerca de século e meio antes dele, Montesquieu emitiu a hipótese segundo a qual os povos agrícolas das regiões baixas e férteis seriam pacíficos enquanto que os povos pastoris das montanhas seriam belicosos e cruéis. O exemplo mais citado nos livros de História é o dos sumérios/babilônicos, da baixa Mesopotâmia; e os assírios, do Norte, região montanhosa.

A explicação parece remontar a Ibn Khaldum que na Mukadima relacionou os povos das planícies aluvionais, a própria vida urbana e a civilização com a moleza e as regiões desertas com a coragem, a valentia e belicosidade. O que nos faria compreender porque o árabe é o que é...

Semelhante ponto de vista me parece discutível pelo simples fato de que a relação nem sempre produz os mesmos resultados.

Assim:

# Os povos germânicos procedendo de uma região tão fértil quanto a 'Alemanha' e dados ao cultivo da terra nada tinham de dóceis ou mansos.

# Os belicosos romanos procedem do lácio, região relativamente plana, situada entre a Emília romana, a Toscana (ao Norte) e a Campânia (ao Sul) ou seja entre as regiões mais férteis da Itália e as quais nada fica a dever. E mesmo apesar do relevo plano e da fertilidade os romanos conquistaram não apenas toda planície mas toda Europa Ocidental por meio da espada.

# Os helvécios ou Suíços acantonados em seus alpes, converteram-se no decorrer da Idade Média, numa das Sociedades mais pacíficas e brandas da Europa.

# Sabinos, Marsos, Volscos, Samnitas e Equos apesar de constituírem populações montanhosas (habitavam nos Apeninos) foram submetidos pelos latinos da planície.

# Ilírios e Dácios, habitantes dos Cárpatos eram povos relativamente pacíficos, a ponto de terem sido incorporados pelo Império romano.

Por outro lado se nos parece evidente que povos insubmissos tendam a buscar refúgio nas montanhas. A relação neste caso seria inversa.

Não se trata aqui de negar a influência exercida pelo meio sobre determinado povo e mas de contestar que o único fator a ser considerado sela ele, atribuindo-lhe um caráter mágico. Em que pese a influência do meio, os povos tem algo seu como queria o já citado Vidal de La Blache. Assim faltando gênio ou iniciativa a determinado povo, o meio por si só nada produz. A civilização consiste numa interação entre o meio e seus ocupantes.

Por si só as montanhas ou o solo árido da Península ibérica nada explicam.

Alguém dúvida?

Considere então o mapa da Península Itálica, que é tão ou mais montanhosa do que a Espanha - Assim a Península balcânica - e a região da Europa que comporta o maior número de vulcões além de ser a mais susceptível de ser flagelada por terremotos.

Ponto pacífico.

Por outro lado fenômeno algum impressionou e impressiona mais a mentalidade do homem primitivo do que o vulcanismo (Erupções) seguindo pelos terremotos e consequentemente, maremotos. A ponto de tais populações recorrerem amiúde a sacrifícios humanos com o objetivo de aplacar ou conter as forças da natureza, sempre associadas aos deuses ou espíritos.

E no entanto esta Itália não só jamais viu florescer em suas sociedades algo semelhante a Inquisição espanhola, como durante os séculos XIV, XV, XVI e XVII esteve a frente do movimento Renascentista. E contando com cidadãos da envergadura de um Petrarca, de um Boccacio, de um Ficcino, de um Maquiavel, de um Da Vinci, de um Acquapendente, de um Galileu, de um Torricelli, de um Malpighi, etc, etc, etc

Querer explicar o misticismo, a religiosidade ou mesmo o fanatismo dos espanhóis por meio das montanhas ou da orologia, é deixa-lo sem qualquer explicação, uma vez que tais fenômenos deveriam ter prevalecido com muito mais razão na Itália, região em que as erupções e terremotos levavam as populações ao paroxismo...

Precisamos portanto buscar outros elementos para explicar o misticismo ou o fanatismo espanhol no plano da cultura.

Entrou aqui a engenho dos reis ou o oportunismo político?

É coisa que não se pode negar, pois já se disse várias vezes e insistentemente, que na Espanha, a Inquisição converteu-se muito rapidamente em repartição de estado com propósitos discricionários. Enfim como modo de tirar proveito político da religiosidade de um povo. Não se trata aqui de produzir fanatismo ou fundamentalismo mas de explora-lo.

Agora que teria produzido tais arroubos de misticismo?

As montanhas? De modo algum pois também estão presentes nas Penínsulas Itálica e Balcânica.

O engenho dos reis e governantes?

Não porque haviam reis e governantes por toda Europa; assim na França e na Inglaterra.

O Catolicismo?

Não, pois este também se achava presente em todos os recantos da Europa, assim na Itália e na França.

Catolicismo e monarquia eram elementos comuns a toda Europa e nem por isto a Europa como um todo percorreu o mesmo rumo sócio cultural que a Espanha.

A depender do Catolicismo e da monarquia a História da Europa seria igual.

A depender da orologia ou das montanhas, P Ibérica, P Itálica e P Balcânica teriam seguido os mesmos rumos.

Qual fator diferenciado deveríamos buscar na Espanha os arroubos de misticismo ou os acessos de fanatismo característicos daquele povo?

Se a simples leitura do antigo testamento ou o simples contato com a literatura dos antigos judeus foi capaz de transtornar as mentes dos 'civilizados' ingleses de Buckle, para não falarmos nos escoceses, nos franceses e nos suíços; os quais enquanto foram dominados ou inspirados pelo calvinismo, mostraram-se tão bárbaros e grosseiros quanto os espanhóis (Afinal não fizeram queimar Servet a lenha verde na Praça Champel pelo simples fato de ter insinuado que o sangue circulava nas veias?).

Em que os fanáticos calvinistas iconoclastas, depredadores de igreja e queimadores de bibliotecas foram mais dóceis ou civilizados do que os espanhóis não o sei?

Alias o número de igrejas e obras de arte demolidas na Escócia, da Holanda e em certas regiões da França, é coisa impressionante. Poucas delas restaram em tais paragens, apesar de sabermos quão religiosas haviam sido as gentes medievais. Tal o furor vesano desta reforma alimentada pela leitura da Torá ou da Tanak.

Que dizer então dos espanhóis em cujo território conviveram por séculos a fio não apenas Cristãos e Judeus, mas Cristãos e muçulmanos? E em cujo território os Cristãos - Mustaribes ou mozárabes - adotaram costumes árabes, arabizando-se...

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Não poucos analistas tem sugerido que a Inquisição espanhola, posteriormente cooptada pela monarquia com objetivos de natureza política, foi produto da dupla influência exercida por instituições judaicas - Como os tribunais das Sinagogas, responsáveis por disciplinar nos heréticos - e muçulmanas, neste caso evidentemente a Murtad; associada a uma compreensão equivocada das Cruzadas, a partir de determinado momento encarada como uma jihad Cristã.

De fato o Catolicismo espanhol (Teologicamente muito pouco profundo ou consistente após seu exílio forçado nas montanhas asturianas.) parece ter absorvido tanto elementos judaicos - Como a ideia de um tribunal religioso apto para punir os profitentes e impedir a apostasia - quanto elementos muçulmanos, como a ideia análoga de Murtad. Já a Cruzada multisecular exercida contra os muçulmanos fez com que assimilassem o espírito do jihadismo ou que concebessem um jihadismo 'cristão'.

Foi tudo fruto da ignorância e vulgaridade do elemento Cristão acantonado nas montanhas bem como da convivência com tradições religiosas aquele tempo (Como é o caso do judaísmo, hora progressista em sua maior parte) marcadamente fundamentalistas, controladoras e fanáticas. O que aconteceu na Espanha medieval foi assimilação cultural.

Por outro lado não podemos negar que este caráter inquisitorial tenha sido reforçado - e é justamente aqui que a mentalidade espanhola nos parece tanto mais digna de compreensão ou mesmo de simpatia - pela irrupção da 'maravilhosa' reforma protestante, com o decorrente estado de anomia religiosa e guerra aberta. Negar que a reforma protestante trouxe o caos as sociedade que a abraçaram é falsear a História. Aquilo, permitam-me dizer foi uma orgia de duendes ou delírio de fanatismo.

Que dizer a respeito das guerras religiosas que assolaram a França, Alemanha e Inglaterra por mais de século ou seja de meados de 1525 a 1648. Das revoltas dos nobres e dos camponeses na Alemanha luterana ao fim da Guerra dos Trinta anos e da Revolução Inglesa, o saldo de mortes foi pavoroso.

Somente a Guerra dos trinta anos deve ter feito 7.000.000 de mortos. Adicionemos outros tantos 3.000.000 por conta de todos os distúrbios anteriores a contar da Rebelião dos nobres adiante e chegamos a cifra, possível de 10.000.000 de almas removidas da face da terra após o advento da 'divina' reformação. Estou falando em um décimo em comparação com o total de mortos durante as duas grandes guerras mundiais.

Isto sem falarmos nos aleijados, nos órfãos, nas situações de miséria, na destruição de patrimônio e no caos social generalizado.

Diante de tudo quanto sucedia no centro e Norte da Europa o amigo leitor acha mesmo que as populações do Sul da Europa, especialmente as da P Ibérica, não se sentiam mais seguras sob a tutela da execranda inquisição. Diante dos que estava sucedendo no resto da Europa parte considerável dos cidadãos portugueses e espanhóis dos séculos XVI e XVII eram gratos a Inquisição.

Caso aceitemos o número - Comprovadamente absurdo - de mortos proposto por Llorente; 32.000 e adicionemos o total de bruxos sacrificados pela inquisição Alemã; 25.000 e o saldo das demais inquisições europeias como a Portuguesa e a Italiana 5.000 chegamos a cifra de 60.000 mortos. CIFRA DUZENTAS VEZES MENOR DO QUE O SALDO DE MORTES PROVOCADAS PELO ADVENTO DA REFORMA PROTESTANTE!
Sabemos no entanto, por fontes mais sérias e confiáveis - porque acatólicas e insuspeitas - que a inquisição espanhola, durante toda sua duração, não chegou a supliciar mais do que 5.000 pessoas, enquanto que as demais todas juntas sequer atingiram estas cifra; ficando o saldo de mortes da inquisição papista em cerca de 10.000 pessoas. Apenas se acrescentamos os processos por bruxaria - E para tanto devemos acrescentar e fazer notar que os protestantes alemães e ingleses foram campeões em queima de bruxos deixando os papistas no chinelo - que culminaram em pena capital, atingimos a cifra total de 30 mil mortos. UMA CIFRA QUASE QUATROCENTAS VEZES MENOR DO QUE O SALDO DE MORTES PROVOCADAS PELA 'MARAVILHOSA' REFORMA PROTESTANTE. Sem contarmos as bruxas e bruxos queimados por eles...
Os 'estúpidos' ibéricos estavam perfeitamente cônscios de que para eles a Inquisição representava um mal muito menor e não estavam nem um pouco interessados numa 'liberdade' responsável por tão imensa hecatombe.

Foi apenas após o fim das guerras religiosas i é a partir da segunda metade do século XVII e particularmente a partir do século XVIII e do iluminismo, que a opinião pública começou a oscilar e a clamar contra os abusos da Inquisição. Aqui o erro funesto da monarquia espanhola foi mante-lo - já noutro contesto, de liberdade - até meados do século XIX. Ocasião em que as condições do velho continente haviam mudado por completo e que as massas já não faziam a menos ideia do que tinha sido o Centro Norte da Europa século e meio antes. A memória dos efeitos da grande rebelião protestante havia desparecido, de modo que a Inquisição converteu-se em prato predileto da crítico, ou seja, em vilã. O que não reflete nem de longe a opinião dos insulares nos séculos XVI e XVII.

É importante que isto fique bem claro, assim o caráter revolucionário, violento e agressivo da reforma protestante, a qual nada teve de democrática ou de pacífica, sendo imposta a ferro e fogo pelos governantes - Fossem reis ou senados municipais - no mais das vezes a contra gosto do bom povo. Devo lembrar a guerra santa proclama por Zwinglio contra os cantões Católicos da Suíça, que se recusaram a abraçar sua reforma ou submeter-se a suas opiniões religiosas ou de como 'Novo Maomé' pereceu com a espada em punho atacando os Cristãos em Cappel???

Que dizer então sobre Genebra, Leyde ou Drogueda? Tais as calamidades produzidas pela nova religião bíblica.

Por isso os líderes protestantes fazendo galas do santo Evangelho folgavam dizer terem trazido não a paz mas a espada a infeliz Europa.

Em questão de saldo de mortos ou custo benefício a odiada inquisição espanhola foi mais vantajosa, a P Ibéria, do que a amada reformação ao resto da Europa.

Isto é tão certo que atualmente os pastores são obrigados a se sair com desculpas como estas:

"NÃO IMPORTA SE FORAM MUITOS OU POUCOS CASOS, importa que você não pode dizer, estou certo e você errado, por isso vou te queimar."

De plano acordo, não podemos fazer isto, é um crime, já dizia nosso S João Crisóstomo.

Por outro lado também não podemos admitir que um homem ou um grupo de homens ordenem a toda uma população que abandonem a fé ancestral em benefício duma outra ou que aceitem essa mudança passivamente permitindo que seus locais de culto sejam destruídos...
A diversos títulos e em diversas ocasiões os reformados tentaram fazer isto com o apoio de Lutero, Calvino, Knox, etc

Em que a mudança religiosa na Inglaterra, proclamada ou decretada por Eduardo VI foi liberal não o sei? Em que a população Católica de Genebra e das outras cidades da Suíça foi teve sua escolha respeitada também não sei...

Evidentemente que tudo isto tinha mesmo de degenerar em guerra ou conflito aberto, fazendo reverter o renascentismo, aniquilando o humanismo e fazendo a Europa ficar paralisada por séculos, se é que não a fez recuar.

Diante de tal situação - Calamitosa e angustiante para os próprios protestantes alemães do final do século XVI - é perfeitamente natural e compreensível que o número de mortos tenha sido objeto de consideração por nossos ancestrais ibéricos do século XVI, ora tidos em conta de molengas ou estúpidos.

É que levaram em consideração as condições porque passava a maior parte da Europa naquele momento e qual fora o fator causal que a precipitará naquele 'forno'; considerações que nós cidadãos do século XXI desconsideramos ou ignoramos.

Enfim, tal condição, só fez por confirmar o povo espanhol na velha direção assumida durante o auge das Cruzadas Ocidentais. Pelo simples fato de saberem que a introdução de qualquer religiosidade judaizante num contesto Cristão e Católico resultaria sempre em conflito. O que nos leva a constatar que o recrudescimento da intolerância religiosa no Brasil contemporâneo associada ao crescimento das formas pentecostais, bíblicas ou judaizantes - Em que pese nossa tradição de tolerância e o secularismo - é bem mais do que mera ou simples coincidência.

Como poderia ter sido diferente na Europa do século XVI?

E como os cidadãos europeus poderiam suportar paciente ou alegremente um tal estado de coisas?

Por isso digo que a irrupção da Reforma protestante e especialmente de suas consequências a nível social, fortaleceram ainda mais o espírito inquisitorial dos espanhóis.

Resta-nos delucidar porque o espírito científico não floresceu na Península.



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quarta-feira, 16 de setembro de 2015

A expansão do individualismo.

Jamais o mundo antigo teve conhecimento do que ora conhecemos por individualismo. Essencialmente gregário assistiu a emersão da pessoa humana na Hélade e sua afirmação ou assimilação pelo Evangelho.

Este núcleo pessoal no entanto jamais perdeu seus vínculos com as demais pessoas e a consciência de pertencer a um grupo social. Adquiriu a pessoa humana um espaço com direitos e garantias, primeiramente morais, posteriormente legais, mas jamais negou pertencer a um contesto mais amplo e anterior a si ou a um contexto social.

O homem greco romano fosse pagão ou cristão, bem como o homem medieval jamais concebeu a si mesmo como uma átomo isolado e disperso. Jamais perdeu por completo a noção de espécie, de identidade, de unidade, de familiaridade... jamais pretendeu deixar de viver em comunhão para isolar-se ou encastelar-se numa torre de marfim.

Podia até acreditar que era melhor do que os outros. Porém jamais concebeu a possibilidade de viver completamente separado dos demais seres humanos. Este homem jamais deixou de reconhecer que mesmo sendo homem e tendo direitos achava-se inserido numa ordem maior do que si mesmo. Ele jamais permitiu que os vínculos sociais da solidariedade fossem rompidos por completo. Jamais tornou-se totalmente indiferente a seus semelhantes!

Este homem antigo ou medieval fosse pagão ou cristão jamais lograria compreender um Max Stirner ou uma Ayn Rand. Tornou-se pessoa, conquistou seu espaço, afirmou seus direitos, implementou sua liberdade mas jamais sacrificou por completo a noção de Polis, e quando a Polis deixou de existir substitui-a a Igreja numa dimensão Universal ou Católica reforçando ainda mais os laços de identidade e solidariedade.

Apesar disto houve uma ruptura dramática. Pois o individualismo ai esta, vivo e florescente em oposição a herança que nos foi legada pelos nobres e excelentes ancestrais! O escopo deste pequeno artigo é justamente esclarecer o amigo leitor sobre quando se deu tal ruptura e sobre quando este novo padrão cultural; individualista foi afirmando-se sucessivamente nos diversos domínios da sociedade e dos saberes, alargando suas fronteiras.

Queremos acompanhar a trajetória de sua expansão e palmilhar os caminhos por ele percorridos, deslindado as ideologias que o alimentaram.

Em certo sentido podemos atribuir a gênese do individualismo contemporâneo a teoria política aventada pelo publicista italiano N Maquiavel nas primeiras décadas do décimo sexto século. Antes dele ao menos teoricamente, a conduta do príncipe ou governante deveria estar voltada para o bem comum e fundamentada na Ética comum subministrada pela igreja romana. Agora Maquiavel propõem uma nova tese: a fruição e manutenção do poder em benefício próprio e não podemos deixar de ver nesta nova tese uma afirmação da vontade individual face a imperativos sociais ou comuns e um fundamento comum.

Curiosamente parece que o individualismo precedeu o liberalismo no campo da política. Pelo simples fato de compor-se com qualquer forma política. Pois a teoria maquiavélica gira em tornos dos fins e não dos meios... E o fim aqui é a posse do poder pelo individuo e a afirmação de dua vontade.

Nem cogita este individuo na igualdade democrática. A qual alias deve repugnar. Mas apenas a posse de um poder absoluto e arbitrário. E podemos já notar que a vontade deste individuo esta em oposição ao bem comum. Este individuo governa em proveito próprio, mantendo apenas cálculos e aparências.

Não se separa ou isola da Sociedade na plena acepção do termo. Mas coloca-se acima dela, num patamar superior e pretende domina-la tendo em vista suas necessidades. O vínculo aqui tornou-se fácil e artificial, mas as aparências como dissemos são mantidas, o discurso é mantido.

Maquiavel é velhaco, oportunista, demagógico mas não iconoclástico. Hipócrita mas não demolidor.

É conselheiro de reis, príncipes e nobres e sequer cogita, como Voltaire, em dirigir suas lições ao homem comum, ao homem simples, ao homem do povo.

Maquiavel tornou-se foco de intenso debate nos gabinetes dos intelectuais. Recebendo centenas de confutações. Justificou as decisões dos príncipes como 'razões de Estado'. Obscureceu o primado da ética ou da justiça. Mas, de modo geral nem criou nem podia criar cultura por ser um intelectual ou erudito.

Lutero foi quem removeu a máscara com que Maquiavel havia coberto o morto e conferindo-lhe uma conotação religiosa produziu de fato uma cultura INDIVIDUALISTA. Afinal no passado - e talvez ainda hoje - apenas a fé ou o discurso religioso era capaz de alterar a dinâmica da cultura produzindo novos paradigmas.

A antiguidade afirmou a salvação do homem na Polis em comunhão com sua raça, com sua família, com seu povo ou sua unidade cultural. O Catolicismo afirmou uma redenção eclesiástica ou seja no organismo vivo da Igreja em comunhão com os demais 'santos', em relação de caridade com os outros fiéis, num clima de solidariedade. Para salvar-se devia o Católico cultivar a virtude e abundar em boas obras, o que só podia ser realizado em contato com outros ou seja em comunhão. Era na convivência com a irmandade que a virtude eram exercitada.

Lutero no entanto, afirmando a salvação pela fé somente e eliminando a necessidade de obras - TANTO A PRIORI (como os Católicos) quando A POSTERIORI (como os calvinistas) - torna supérfluo o exercício da virtude e portanto o contato social. Consciente ou inconscientemente a reforma protestante afrouxou os laços sociais que prendiam os fiéis uns aos outros até construir um discurso completo em torno da salvação individual em oposição a salvação comunitária e solidária dos catolicismos.

Espiritualmente perde-se aqui a noção do outro. Pode ele incorrer na danação eterna e parar no quinto dos infernos desde que EU me salve. E bem posso estar feliz no paraíso enquanto meus pais, conjuges ou até filhos sejam atormentados pelas 'míticas' chamas da churrasqueira divina... A justiça obriga-nos a admitir que a construção desta teologia indiferente e egoísta, estava já em formação no seio da igreja romana. No entanto parte desta igreja ousou afirmar a salvação dos antigos mestres do paganismo ou mesmo dos heréticos de boa fé.

O protestantismo com sua fixação mórbida na graça divina e seu pouco caso pelas obras lançou a totalidade dos pagãos, heréticos e infiéis nas tais chamas, mostrando-se mais radical, quando devia mostra-se mais generoso para fazer-se digno do Evangelho daquele que disse: Perdoai setenta vezes sete vezes!

Desde então - do momento em que se afirmou a salvação individual - foram as obras de fato substituídas por outros meios mais 'refinados' como a oração. Sendo a salvação um negócio particular que se dá entre deus e a alma do individuo sem qualquer mediação humana, apenas o contato direto com esse deus por meio da prece faz sentido... O próximo sai de foco e a oração substitui as boas obras desconstruindo as relações humanas ou sociais.

Foi a reforma com sua busca individual por deus e o colóquio direto entre deus e seus eleitos por meio da prece, uma alienação ou afastamento progressivo do outro e consequentemente uma negação radical da tradição cristã e da consciência gregária tão viva e presente no Cristianismo nascente, quando todos tinham tudo em comum... e viviam em comunhão até mesmo de bens materiais!

Após a reforma protestante homens, famílias, bairros, regiões e nações inteiras afastam-se umas das outras para buscar a deus na solidão ou no deserto. Foi a sementeira dos nacionalismos ( a principio com suas igrejas ou cristianismos nacionais) mas também dos individualismos e do subjetivismo por obras e graça do livre exame, e do relativismo pela contrafação das verdades, dogmas ou credos editados por cada seita. Foi todo o aflorar de um novo mundo e duma nova cultura. Em que tudo quanto seja unificador foi desprezado: a comunhão, a tradição, a objetividade, a verdade... todas estas palavras perdem seus sentido.

Sem querer, pretendendo recuperar o espirito do Cristo e dos apóstolos, os reformadores evocam as sombras de Górgias e Protágoras. O qual não tardara a reencarnar-se num Hume e num Kant e a repudiar a existência da verdade e a objetividade do bem.

O homem tornou-se, por meio do livre exame, a medida da doutrina Cristã. Multidões de individuos converteram-se em papas ou profetas e afirmaram credos conflitantes constituindo seitas ou partidos. Até que em meio a tantas verdades ou versões da verdade o homem desesperou da verdade, como desesperou da razão. Mas permaneceu marcadamente individualista.

Pois do domínio da fé passou o individualismo muito facilmente ao domínio da economia. Afirmando o primado do individual sobre o coletivo. Em certo sentido o capitalismo não passa dum calvinismo secularizado onde a busca do individuo pelo lucro substitui a velha busca por deus e pela redenção. O homem passou a busca uma outra coisa, mas manteve a mesma atitude de isolamento e a mesma desconfiança face ao grupo social. O protestantismo comunicou ao liberalismo nascente o mesmo ressentimento que votará a igreja antiga sob a forma de um ressentimento contra a Sociedade.

Não é por simples acaso que Lutero era agostiniano. Não é por simples acaso de Adam Smith era calvinista. A ênfase do discurso economicista liberal sobre a ação dos indivíduos e o repúdio a todo e qualquer tipo de controle externo ou social é pura e simples reprodução secularizada da mesma relação existente entre as seitas reformadas e a Igreja Antiga. Com a busca da relação a sós com deus e o repúdio a qualquer tipo de controle doutrinal...

Alastrou-se o individualismo da teologia a economia.

Transbordará no século XVII Mandeville e enfim no século XIX primeiramente com Max Stirner e posteriormente com Nietszche ( TODOS PROTESTANTES em termos de cultura e formação) para os domínios da Filosofia. Assumindo-se como individualismo e sendo devidamente codificado. Foi neste momento que a cultura tomou plena consciência da cultura.

Resta-nos declarar que não cremos que o individualismo criasse cultura e suplantasse por completo nossa herança já clássica, já Católica em termos de 'socialismo' ou 'alteridade', e chegasse a afirmar-se no plano da economia, até assumir a forma de corrente filosófica sem o adjutório da religião ou os favores do protestantismo com sua doutrina de salvação individual pela fé somente. Foi desta crença essencialmente anti cristã que o individualismo os demais domínios do ser alastrando-se por ele subvertendo as estruturas da Sociedade até conduzir-nos a crise da civilização. Podemos dizer que após o recuo da fé protestante o individualismo continuou a avançar já secularizado... e podemos até dizer que avança ainda hoje, juntamente com o nacionalismo, o totalitarismo, a teocracia e outros tantos espectros saídos do abismo.

No próximo artigo teremos ocasião de ver como e em que terrenos o individualismo afirma-se no momento presente.