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terça-feira, 8 de novembro de 2016

A mania de rotular as pessoas





Se é verdade que o 'Bom filho a casa torna' eu voltei...

Após ter reservado um tempo a leitura e ao estudo, eu voltei...

Precisava reabastecer-me. Movimentar o fluxo das ideias, oxigenar a mente, exercitar os neurônios... Afinal água que não corre, apodrece e máquina que não se movimenta enferruja.

Assim o pensamento que não se abastece com leituras, estudos, informações.

Realmente não sei se fiz alguma falta, mas, pro via das dúvidas...

Voltei e começarei chutando o 'pau' ou melhor o suporte da barraca. Pois quero ver a casa, digo, algumas casas virem abaixo, e estrondosamente.

Durante as Idades Média e Moderna o barato era classificar o outro como Herege ou Herético. O que jamais foi privilégio dos papistas, também os protestantes, luteranos, calvinistas, zwinglianos e mesmo anabatistas costumavam empregar o termo sem um pingo de moderação. Mais ou menos como dizemos hoje 'Filho da puta' ou, lamentavelmente, capitalista, comunista, fascista, anarquista, macumbeiro, etc

De fato nos últimos dois séculos termo herege ou herético foi substituído, com relativo sucesso, por maia dúzia de rótulos cujo fim ou objetivo é pura e simplesmente satanizar certa categoria de seres humanos e de torna-los odiosos e odiados, exatamente como nas Idades pretéritas.

De modo que as pessoas jamais deixaram de ser rotuladas, apenas foram criados alguns outros rótulos. No entanto por parte daquele que recorre ao rótulo o objetivo é sempre e eternamente o mesmo: Tornar seu oponente ou desafeto ideológico odioso.

Não, não sou, nem de longe relativista.

Pelo simples fato de que o relativismo, levado as últimas consequências, tudo desculpa, tudo absolve, tudo sanciona; inclusive o nazismo, o estupro, a tortura, a teocracia.

Sou pela ética da Essência e portanto por uma epistemologia realista e objetiva, que conceba existência a verdade e sirva de respaldo para condenar o erro enquanto erro e condena-lo irremissivelmente. Certas ideologias ou culturas de morte, certos venenos ideológicos, certas teorias anti humanas e humanistas precisam ser irremissivelmente condenadas em nome do fenômeno humano e sua dignidade impar.

Lamento proferir verdades amargas, mas, se de fato o ateísmo e o materialismo crasso tudo fragmentam, tudo isolam e tudo tornam individual, subjetivo e relativo, temos de discutir sobre as ilações ou decorrências Éticas de semelhante ponto de vista e retomar o tema socrático da universalidade e atemporalidade do Bem e do Mal.

De fato tenho minhas ideias, opiniões, teorias; as quais julgo serem verdadeiras na medida em que estejam embasadas no mundo da concretude por via da experiência. Tenho meus pontos de vista muito bem definidos. Minha religiosidade, um modelo de organização social, uma plataforma política, uma doutrina econômica, uma concepção de mente ou personalidade, certo sentido em termos de História, etc

Tenho portanto ideologias, certas ideologias, fruto de acurada investigação, resultado de anos e mais anos de estudos, produto de diversas leituras, etc E como disse a pouco não posso crer que todas as ideologias sejam absolutamente iguais ou que a policracia e o fascismo sejam equivalentes...

De minha parte não temo definir-me honestamente como Cristão Católico (Ortodoxo não romano), aristotélico ou realista, socrático ou humanista, policrata (partidário da democracia direta - a longo prazo e a ser construída a partir da democracia que temos.), solidarista, keynesiano ou trabalhista, construtivista, eclético ou semi freudiano, etc Não tenho qualquer dificuldade em apresentar-me e em apresentar as verdades que acredito serem válidas e valiosas.

Mais, procuro viver o que acredito numa linha de coerência.

Implica admitir que não posso deixar de encarar as ideologias opostas: o protestantismo, o relativismo kantiano, os anti humanismos (assim o nazismo), os totalitarismos (comunismo e fascismo), o individualismo, o capitalismo, o idealismo, o materialismo crasso, o behaviorismo, o ateísmo, etc como equivocadas, perigosas e indesejáveis. E tampouco deixar de opor-me a elas e as instituições que as representam e defendem.

Assim, a 'igreja' calvinista, a 'assembléia de deus', o movimento neo nazista, o partido fascista, o partido comunista, o PSDB, o PMDB, o DEM, o instituto Von Mises, o regime de mercado, a FIESP, a Polícia militar, o Exército, a ATEA, etc, etc, etc

Segundo meu ponto de vista associar-me a qualquer ou das instituições acima - dentre muitas outras - ou colaborar com elas equivaleria a trair sordidamente os ideais a que professo aderir.

A consciência obriga-me antes de tudo a examinar e a - sempre que for possível - abraçar as soluções ou iniciativas propostas pelos padrões católicos, pela plataforma centro socialista, pelos libertários ou policratas, pelos humanistas e solidaristas e assim ecologistas, defensores dos direitos da infância, feministas, paladinos da liberdade sexual, etc, pelos educadores progressistas, pelos realistas, objetivistas, semi pacifistas, etc Embora realize sempre um exame crítico sinto-me obrigado a iniciar meu exame partindo das propostas das organizações que representam tais valores, e posso declarar que quase sempre satisfazem-me.

Por isso - como ex protestante - sempre folguei em opor-me ao movimento ecumênico (Que implica assimilar certa doze do espírito protestante), por isso jamais tenho votado em candidatos filiados a partidos de direita, por isso jamais colaborei com coletivos ou organizações de matriz totalitário, por isso tenho denunciado todas as associações culturais de caráter puritano ou preconceituoso, por isso tenho evitado o simples ato de falar a plateias ou clubes de viez liberal, patriótico, militar, etc Tenho buscado selecionar as organizações, instituições e grupos a que falo partindo duma linha de coerência e já cheguei a ser escrupuloso inclusive!

Hoje no entanto, sendo mais flexível, permitindo-me algumas exceções.


Assim, em que pese minha repulsa pelo espírito protestante e tudo quanto representa, não hesitaria em ir a uma apresentações de música sacro erudita num templo luterano ou metodista. Como não deixaria de ir a uma exposição cultural sobre os EUA na sede do DEM ou sobre a Rússia ou a Ex URSS na sede do P C. Tampouco deixaria de assistir a uma palestra sobre qualquer tema interessante no Palácio da Polícia ou a uma exposição filatélica no B C. E se me permitem escolher um tema e falar livremente, aceito falar a qualquer platéia.

Como bom Socrático ou (até mesmo) seguidor do velho Platão (ao menos quanto a este aspecto) continuo acreditando que o mal merece ser odiado e o Bem apenas ou o que é Bom, amado, assim da verdade. Pois não creio que o Bem subsista separadamente da verdade e da beleza (Kalokagatia).

Estou firmemente persuadido de que certos ensinamentos e doutrinas errôneas devam ser detestados pelo homem virtuoso e submetidos a sua crítica. Não acredito que cada qual tenha sua verdadezinha individual, que todas as opiniões sejam igualmente aceitáveis, que esteja obrigado a concordar com todas as teorias (inclusive as opostas) e que nada haja de universalmente válido e seguro.

Portanto devo dizer que odeio o erro, bem como as opiniões erradas e as teorias, e as ideologias falaciosas. Se dissesse que não odeio de todo meu coração e que aborreço ao racismo, ao nazismo, a tortura, a pena capital, ao fanatismo religioso, ao fetichismo, o machismo, o adultismo, a injustiça, a repressão sexual, a homofobia, etc e que amo tudo quanto esteja em oposição a tais ideologias não me sentiria humano ou sequer racional.

Para tapar a boca do abismo que esta a nossos pés é necessário ultrapassar ou transcender o imaginário individualista e retomar o discurso da essencialidade. Condenar esta ou aquela cultura de morte em termos meramente individuais e subjetivos numa perspectiva relativa é pura e simplesmente admitir que nossa condenação esta firmada na força ou no poder... Portanto caso o fascismo, o comunismo ou o nazismo obtenham o poder condenar-nos-ão segundo o mesmo princípio e pelo poder ou a força farão sancionar suas opiniões... Se nada há no mundo além de opiniões.

Não pode o nazismo ou o comunismo sem falso sem que a policracia seja verdadeira em termos de essência e não de consenso opinativo ou poder.

Agora por odiar o protestantismo, o judaísmo antigo ou farisaico, o islamismo, o fetichismo, o ateísmo, o materialismo crasso, o relativismo, o subjetivismo, os totalitarismos, os individualismos, etc direi que todos os partidários dessas ideologias não passam de vilões?

Podemos dizer que todas as pessoas favoráveis ao nazismo, ao fascismo, ao comunismo, ao capitalismo, ao anarco individualismo, ao protestantismo, ao sectarismo, ao islamismo, ao ateísmo, ao materialismo, ao relativismo, ao subjetivismo, sejam más?

Será lícito confundir as pessoas com as ideologias que professam ou com as instituições de que fazem parte?

Permitam-me a mim acreditar que de modo geral a maior parte das pessoas esta acima da ideologia que declaram professar, que pessoas honestas professam opiniões falsas e que boas pessoas possam pertencer a instituições odiosas!

Permitam-me crer que pessoas possam estar de boa vontade e sinceramente equivocadas!

Permitam-me julgar que até mesmo nas piores seitas protestantes como nos partidos nazista, fascista e comunista possa haver certo número de pessoas que acreditam ter dado com o bem, o belo e a verdade, e que se deixaram enganar ou iludir pelas aparências???

Acaso me dirão que todos os alemães filiados ao Partido Nazi (e eram dezenas de milhões), que todos os russos filiados ao P C nos anos 50, que todos os habitantes do Belt Bible, que todos os muçulmanos ou empresários (burgueses) espalhados pela face da terra tenham plena consciência a respeito do que creem ou fazem???

Haverá quem o diga. Quem diga sim e conclua que a imensa maioria dos seres humanos pratique o mal ou sustente o erro conscientemente pelo simples prazer de mentir ou de fazer o outro sofrer. Que há um sadismo ou uma crueldade difusa na espécie humana. Lutero, Freud e até certo ponto Lênin, certamente pensavam assim. Eu no entanto prefiro partilhar o otimismo de um Sócrates ou de um Jesus e a crer que se alguns deleitam-se em praticas conscientemente o mal, a maioria age quase sempre inconscientemente i é crendo professar a verdade e fazer o bem.

Isto quando não são enganadas pelos líderes religioso, políticos ou sociais; exploradas em sua boa fé e manipuladas em sua angústia abissal.

Por mais que odeie o protestantismo, o capitalismo, o comunismo, o nazismo, etc não me peçam para concordar com o uso dos termos: protestante, capitalismo, empresário, burguês, fascista, comunista, nazista, etc como o equivalente a mostro ou a ser humano privado de dignidade e direitos.

Não me peçam para sancionar o uso desses 'nomes' com o intuito de coisificar as pessoas ou de converte-las em espantalhos!

Num primeiro momento sou levado a crer que aquele sectário religioso, muçulmano, empresário, comunista, fascista, relativista, subjetivista, etc não passa de um alienado, de um ignorante, de um mal informado e manipulado pelo sistema a que pertence. O que deve levar-me não a uma atitude agressiva, violenta, feroz e sim a uma atitude cordial, carinhosa, amena, voltada para o diálogo e buscando esclarece-lo.

O sentimento que devemos nutrir face aos que pensam ou creem diferente não é sentimento de ódio pelo homem.

Doutrinas e crenças não só podem como devem ser odiadas, mas pessoas, sempre que possível (esgotadas todas as possibilidades) devem ser compreendidas e amadas. E este sentido de amor, carinho e compreensão para com uma pessoa que perdeu o caminho deve conduzir-nos a troca de ideias ou ao diálogo nos termos do grande Sócrates ou do divino Jesus e não ao ataque e a agressão...

Ei-a! Pessoas não são opiniões, não são ideologias, não são erros, não são organizações, não são igrejas e tampouco clubes ou partidos; são pessoas.

Podemos e até devemos discordar delas, mas isto não nos obriga a crer que são desonestas, safadas, canalhas, maldosas ou mentirosas. Uma coisa é discordar teoricamente e outras conhecer os motivos mais íntimos e profundos que conduziram aquela pessoa a determinada posição teórica ou intelectual! Aqui temos de proceder com a máxima prudência e se não conhecemos a pessoa, e se lidamos com uma multidão de seres humanos EVITAR QUALQUER TIPO DE GENERALIZAÇÃO APRESSADA.

Se não temos contato pessoa com a pessoa, abstenha-mo-nos de julga-la ou de ataca-la. Permaneçamos no campo da doutrina apenas!

"Odeia o erro e ama o que errou." é norma e regra formulada milênio e meio pelo Bispo de Hipona e julgo que hoje seja mais atual do que nunca.

Pois com o objetivo de fomentar a cólera, a raiva, a paixão, o ódio, o instinto de agressividade, a ferocidade atávica... nossa sociedade manipula nomes, joga com palavras e rotula seres racionais e livres fazendo-nos crer que são monstros e que devam ser exterminados.

Foi assim que usaram o termo herege, o termo judeu, o termo burguês, o termo comunista e o termo fascista; dentre outros. Claro que essas condições todas existem. Claro que algumas são odiosas e outras (judeu) não. Saibamos no entanto distinguir os homens nossos irmãos, membros da mesma família e representantes do mesmo gênero das ideias erradas que possam vir a endossar.

E tenhamos sempre em nossos corações o fato de que pessoas não são ideias e ideias não são pessoas. Que uma coisa podes e deves detestar (os 'ismos') e a outra deves buscar compreender.

Assim o papista não é um inquisidor, o herege não é necessariamente um pecador, o judeu não envenena poços, o burguês não é necessariamente insensível, o comunista não come criancinhas... Abandonemos os estereótipos antes que seja tarde.


sexta-feira, 23 de outubro de 2015

A sexta monarquia... ou a afirmação das monarquias tupiniquins

Depusemos D pedro II.

Novos tempos.

Era necessário arquitetar uma nova estrutura mais evoluída, algo semelhante a República ou democracia.

Incoerentes não começamos por criar uma cultura democrática.

Quero dizer que não realizamos um plebiscito consultando os interessados i é o povo, a sociedade, os brasileiros.... indagando se preferiam a monarquia ou um novo regime.

Penso que seria contra producente. A monarquia venceria.

Por isso fizemos um golpe e impusemos anti democraticamente a forma republicana.

Sobrepusemos uma forma republicana a uma cultura ou imaginário monárquicos arraigados por uma tradição secular.

Do que resultaram diversos golpes e reversões ditatoriais; sempre tendo em vista 'salvar' a democracia....

Chega a ser uma história rocambolesca a destes golpes de 91, 30, 64...

Disse que a monarquia sairia vencedora num plebiscito e por diversas razões.

Uma delas por sinal psicológica e relacionada até certo ponto com o sucesso deste regime proclamado velho, antigo, ultrapassado...

Não eu não sou monarquista, pelo contrário, sou policrata, ou seja, adepto da democracia direta.

No entanto como dialogo com a cultura numa perspectiva realista busco compreender as razões da monarquia.

E fazer justiça ao velho Pedro II, o Imperador democrata...

Justiça é algo que se faz a qualquer um independente da ideologia, da crença, do partido, da concepção social, etc

Torne-mos porém as razões da monarquia ou melhor a razão, porque contentar-me-ei com assinalar uma apenas.

Parte das pessoas tendem a encarar os governantes, mesmo os representantes da democracia formal, como cuidadores, enfim como substitutos de seus pais...

Ninguém melhor do que o rei ou a rainha com sua presença constante encarna a imagem do pai ou da mãe.

Para alguns esta relação parece ser reconfortante.

Pois o pai é alguém que não apenas cuida mas em certo sentido livra-nos da responsabilidade e protege-nos da liberdade na medida em que decide as coisas por nós.

Sempre que errar poderemos culpa-lo.

Jamais nos tornando culpados.

Por incrível que pareça certo número de pessoas aspira porque outros tomem decisões no lugar delas. Não estão preparadas para optar, decidir, julgar, determinar, etc

Então consideram vantajoso ser tuteladas.

Sentem-se protegidas inclusive.

Trata-se com certeza de pessoas imaturas, que não cresceram interiormente, que não desenvolveram suas capacidades.

Pessoas inseguras desejam que a existência de seus pais prolongue-se para sempre.

De modo que continuem a decidir por elas.

Exceto no caso de se casarem com um cônjuge autoritário que reproduza a relação nos mesmos termos de dependência.

Quando não há alguém que controle e decida apegam-se a imagem genérica do pai, assim a do papa, assim a do rei...

O qual passa a ser identificado com o Pai dos crentes ou com o pai comum da nação...

Nem se pode negar que para algumas mentes demasiado leves esta imagem deste pai comum fortaleça e consolide os laços sociais...

A fantasia cria laços artificiais sem que haja qualquer relação ontológica ou essencial. A função social no entanto é preenchida... e possíveis conflitos inclusive, suavizados, pela presença da imagem paterna no governante.

De minha parte não posso deixar de considerar este tipo de relações apolíticas com decorrências políticas ou de relação política disfarçada como algo bastante primitivo e vulgar.

O homem ou a mulher amadurecidos devem assumir o ônus da liberdade e da responsabilidade fazendo suas opções tanto na esfera da vida privada como na esfera da vida pública, neste caso exercendo a cidadania e objetivando administração do bem comum.

Devem ser formados para a cidadania desde pequeninos na perspectiva da cultura. Implica que os pais criem seus filhos para o mundo ou para a vida, para os outros, para a autonomia... Os pais no entanto tem dificuldade para compreender esta dimensão democrática da educação e visam, ao menos parte deles, manter os laços de dependência e sob a forma mais estrita.

E criam cidadãos dependentes... excelentes para as monarquias asiáticas ou para as necessidades artificiais do mercado, mas inaptos para a gestão democrática da comunidade.

Morto o pai sobrevive na figura do rei...

A sobreposição arbitrária de uma forma republicana sobre este tipo de cultura mostra-se sempre inócua.

De modo que em qualquer situação de crise ou perigo o 'ditador' ou déspota é acolhido entusiasticamente como salvador da pátria.

Não as pessoas não aspiram por ser autoras de sua redenção.

O neo Cristianismo - com a ideia monergista de que deus salva o homem sem o homem e de que o homem nada tem a fazer- a seu tempo, reforça ainda mais esta concepção comodista segundo a qual devemos esperar uma salvação a ser dada por outro sem que nada tenhamos a fazer...

E perpetua esta cultura de pais salvadores...

Nem somos capazes de encarar a nós mesmos como agentes da redenção comum.

Tudo nos leva a repousar nos braços da monarquia ou da ditadura como em berço esplêndido.

Evidência de que a cultura permanece e prevalece temos a mão cheia...

Servindo inclusive a propósitos ideológicos.

Por menos que aprecie a monarquia devo reconhecer que tal rei tal povo.

O povo tende a assimilar os costumes de seu modelo, o rei.

Eis porque preferiria um Pedro II, o erudito barbado que frequentava as sessões do I H G B, a um rei imbecil, estúpido ou degenerado.

Se há que se ter rei e nobres que sejam probos, virtuosos, honestos... enfim dignos de imitação pelos méritos do espírito cultivado e não uns porcos de Circe, como diria Sócrates.

Em tais esquemas hierárquicos a virtude tende a ser assimilada verticalmente.

Melhor que os reis e príncipes sejam temperantes, operosos, justos, bondosos, pacíficos, instruídos, amigos da ciência...

O velho Pedro II foi mais ou menos tudo isto. Foi melhor que muito presidente, a exceção talvez de Getúlio, Juscelino, Jango e Lula. FHC não dá a unha do dedo mindinho do grande monarca bragantino...

Eis porque a cultura reteve certo saudosismo da monarquia qual fosse nossa Belle Époche tupiniquim...

Ficou o costume de designar pela alcunha de rei aquele que na Sociedade destacava-se dos demais; assim rei da voz para o melhor cantor e rei do gado para o melhor pecuarista...

Disto apropriaram-se os meios de comunicação de massas, especialmente a TV globo com o intuito de a um tempo resgatar e fortalecer este imaginário decadente e a outro com o intuito de influenciar negativamente o povo, tornando-o mais bronco, deseducado, alienado e rude.

Forjou pois a imprensa falsas monarquias de caráter plebeu e profano colocando-as a serviço de falsos valores.

Eis porque ouvimos constantemente as expressões: 'rainha dos baixinhos', 'rei da melodia', 'rei do futebol'... designando estes falsos monarcas da vulgaridade.

Particularmente nada tenho contra a sra Maria da Graça Xuxa Menegel, absolutamente nada. Muito pelo contrário até chego a admira-la por sabe-la solidária face ao sofrimento e a dor alheia e mantenedora de diversas instituições benemerentes. Além de sabe-la perseguida e caluniada pelos fanáticos religiosos.

Nem por isso aprecio-lhe como cantora ou dançarina; embora algumas de suas músicas tenham certo encanto e sejam úteis para entreter as crianças.

Nem por isso posso encara-la como uma espécie de rainha das crianças ou dos pequeninos.

Implicaria reconhecer que todos os pequeninos teem os mesmos gostos e que todos devem apreciar o tipo de ritmo cultivado por ela...

Considero esta promoção de um culto pessoal e acrítico na fase infantil da existência como algo perigoso senão nocivo. O mito fica enraizado e o 'ídolo' passa a ser encarado como uma espécie de super homem ou como uma espécie de criatura sobre humana... podendo ser transferido para o plano político ou religioso muito facilmente e com consequência catastróficas.

Não são súditos ou bobos de corte que devemos formar mas seres humanos criativos, autonomos e com iniciativa própria.

Triste ver como nossas meninas e garotas vão ficando padronizadas na medida em que imitam os gestos e expressões da tal rainha...

Compreendo até que seja uma fase. Coisa a ser superada e suplantada não alimentada.

No entanto há coisa muito pior do que a realeza do X...

Tomemos o sr Braga, digo Roberto Carlos. A imprensa ousa proclama-lo como rei da música com que direito? Alguém disse, a imprensa reproduziu e os demais continuaram a repeti-lo como um dogma, em que pese haver vozes muito mais belas e cultivadas do que a sua, como a do falecido Agostinho dos Santos ou a do nosso Mauricy Moura, dentre outros é claro.

No entanto após a TV globo imprimir o rótulo ou a etiqueta, fica o personagem entronizado e já não se pode questionar a realeza artificial e ficticia sem acirrar os ânimos da massa.

Importa questionar a quem aproveita tais títulos.

Quem lucra com eles?

Obviamente que atendem a uma necessidade variegada, a qual não é estranho o Mercado!

Compra-se aquele disco, fita ou DVD porque é do 'rei' e não aquele outro porque é de plebeu.

E não se dá qualquer chance para o plebeu provar que canta melhor ou que seu repertório é mais belo porque o título de rei concedido pela imprensa condiciona a maior parte das pessoas.

É um tipo de canonização profana destinada a eliminar o senso crítico.

Deve-se gostar do 'rei' afinal todos dizem que é o 'rei' e até fica chato discordar!

Cria-se um culto.

Já não é questão de música, mérito, beleza ou valor mas de mística, como aquela que envolve roupas e produtos.

Ser 'rei' coroado pela mídia equivale a ser de marca, trás assim a enganadora mística do nome.

Afinal que é um nome?

Até os monarquistas mais zelosos conviriam que o que faz um rei não é o nome ou o título mas a pessoa ou seja conduta.

Assim o 'título' de rei não é garantia absoluta de qualidade.

Ivan IV o terrível foi rei... como Henrique VIII foi rei...

Midiaticamente falando no entanto ser coroado rei por meio de um pacto é a melhor garantia de sucesso e lucro.

Há no entanto coisa bem pior.

Porque duma maneira ou de outra tanto a citada apresentadora loira como o sr Braga parecem-me cidadãos mais ou menos virtuosos, e nada há que pese muito gravemente sobre suas reputações.

Toquemos agora ao monarca supremo ou imperador midiático, o tal rei do futebol, sr Edson Arantes do Nascimento. Nada temos de pessoal contra ele.

Não o conhecemos. Conhecemos de vista sua mãe Dna Celeste, senhorinha que julgo tão boa quanto minha veneranda mãe.

Como não apreciamos modas ou imposições sociais nem de futebol gostamos.

Nem podemos negar ou julgar o talento deste sr como jogador. Não o pretendemos, não ousamos, não podemos...

Sapateiros não ultrapassamos os sapatos!

Todos sabem no entanto que o Brasil contou com muitos outros futebolistas de valor.

Quando era menino recordo-me de Zico, de Sócrates e outros.

No passado remoto houve um Friedenreich 'el tigre' e mais próximo de nós um Garrincha.

Não entendemos bem o assunto mas julgamos que a escolha do sr Pelé deva ser puramente subjetiva e não objetiva.

Até somos levados a crer que este mito foi construído com finalidade social e política pelo simples fato do sr E A N ser negro.

Afinal sabemos muito bem que após a abolição formal da escravatura proclamou-se a República sem que os negros alforriados tirassem qualquer proveito disto.

Alias parte dos apoiantes do novo regime compunha-se de escravocratas paulistas malquistados com a princesa Isabel e sedentos de vingança. Triste fato, mas real...

Falou-se muito em liberdades mas os negros ficaram ai largados ao deus dará ou a ver navios.

Programa algum foi elaborado tendo em vista sua inserção na boa sociedade brasileira. Oportunidade ou chance alguma lhes foi dada.

Até serem implantadas as 'cotas' para afrodescendentes com grande escândalo por parte das elites brancaronas.

A propósito das políticas afirmativas introduzidas pelo governo dos trabalhistas a partir de 2003 ocorre-me a famosa frase de Jacob Gorender: 'No Brasil, implementar pequenas reformas é ser revolucionário.' devido ao caráter ferozmente conservador de nossa sociedade patriarcal e latifundiária. Caráter que o fundamentalismo religioso emergente veio a fortalecer ainda mais nos últimos anos.

Tornemos porém ao mito do Pelé; jovem negro de origem humilde que fez carreira e tornou-se milionário jogando bola...

Como o negro não havia sido inserido na Sociedade brasileira, encontrando-se discriminado e posto a margem dela, forjou-se um mito, o mito Pelé.

E este mito contém uma mensagem perigosa:

"Qualquer jovem negro ou pardo da periferia pode vencer na vida e tornar-se milionário jogando futebol OU SEJA SEM A NECESSIDADE DE DEDICAR-SE AOS ESTUDOS E INSERIR-SE NO MUNDO ACADÊMIA."

Formação superior, escola, estudo... para os meninos brancos filhos das elites. Ao negro ou pardo ficava a esperança ou a ilusão de tornar-se rico e famoso jogando futebol.

Os resultados desta mensagem subliminar ou deste currículo oculto os professores que atuam na periferia sabem de cor. Parte da clientela masculina, especialmente negra ou parda, preocupa-se apenas com as aulas de educação física, as quais por sinal, resumem-se a partidas de futebol. Quanto as demais categorias de estudos é comum ouvi-los declarar: "Não preciso estudar isto, vou ser jogador de futebol como o Ronaldo ou o Neymar!"que são os meninos de periferia que substituiram o Pelé no imaginário deles.

Não poucos sonham com o ficar facilmente ricos, ir para o exterior e namorar moças brancas ou mesmo loiras, residentes em 'locais melhores'....

Trata-se de algo muito triste mas o educador que trabalha com a clientela mais humilde, via de regra, não tem foco no vestibular ou na faculdade. Já exauridos pelo trabalho não cuidam fatigar-se e sacrificar-se ainda mais estudando... afinal puseram em suas cabecinhas de vento que há um modo muito mais facil de vencer na vida: tornando-se craque de futebol como o Pelé...

No entanto quantos e quantos Pelés existem no Brasil???

Em que isto muda uma realidade social partilhada por milhões???

Há única coisa que poderia muda-la seria a democratização do ensino compreendida como acesso livre e igualitário a educação superior.

É isto que os afrodescendentes deveriam cobrar e por isso que deviam mobilizar-se ao invés de manterem seus olhos e os de seus filhos fixados neste ídolo de pés de barro que é o sr Pelé.

Neste sentido a gênese do mito Pelé é essencialmente reacionária.

Por injetar falsas esperanças em nossos jovens de periferia e faze-los abdicarem da única esperança concreta que teem: a instrução, a formação a educação superior.

Agora como as esperanças falsas vão morrendo precocemente ao curso da vida, ao mito do Pelé e a ilusão do futebol sucede muito facilmente a imagem do Fernandinho Beira mar (ou do líder da boca mais próxima) e a ilusão do tráfico com a mesma promessa de acesso facil a riqueza.

Resta-me finalizar deplorando a atitude deste falso monarca que não soube ser pai - logo ser humano - por ter repudiado até o fim a sra Sandra Arantes do Nascimento sua filha ilegítima.

Que tenha tido uma filha bastarda é plenamente compreensível e até comum no cenário cultural brasileiro.

Agora saber ter uma filha em tais condições e renega-la até o fim de seus dias; carne de sua carne e sangue de seu sangue é absolutamente monstruoso. Notório pela falta de ética ou como se dizia antigamente pela imoralidade.

Se este homem é rei, só pode ser rei da imoralidade, da crueldade, da vileza...

O pior no entanto é que as massas guiadas pelos meios de comunicação e pela propaganda, assimilam o comportamento destes falsos monarcas, idolos podres e mitos inconsistentes... e vai degenerando a Sociedade de geração em geração.

Tornando-se mais individualista, mais intemperante, mais insensível, mais rude e mais grosseira.

Em tempos de Pelé D Pedro II não faz mais escola!