Mostrando postagens com marcador Kalokagathia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Kalokagathia. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Nos diálogos de Platão... I


Resultado de imagem para platão/socrates



Não sabemos exatamente quantos Diálogos ele legou a posteridade. Os estudiosos e críticos não estão de acordo, afinal além das obras indubitáveis há obras duvidosas e apócrifas.

Há quem fale em 22 - Os indubitáveis - e quem adicione seis, chegando a 28 e mais cinco - suspeitos ou duvidosos - chegando assim a 33, além das Cartas, atingindo a soma de 34 obras. E há é claro, quem por amor a Platão e falta de mais Diálogos, aceite ingenuamente outros 8, certamente apócrifos.

Dentre estes destacam-se, pela densidade e a doutrina, A República ou Da Justiça (Peri Dikaion) e as Leis (Peri Nomoi), a primeira, composta durante a juventude e portanto bastante idealista, a segunda uma espécie de revisão, composta já na idade madura, alguns anos antes da morte de um quase octogenário. Da República, com sua comunidade de mulheres e filhos e uma confiança ingênua na autoridade, as Leis, com seu objetivismo legal, comparável ao Constitucionalismo hodierno, vai caminho... O Caminho de Platão.

Um Platão que teria cruzado com Sócrates com cerca de vinte anos de idade. E ficado literalmente preso aquela mente grandiosa. A qual no entanto lhe foi arrebatada oito ou dez anos depois, e por um regime, formal ou pretensamente democrático. Platão jamais recuperou-se deste trauma. E se críticos declaram que a Igreja supliciou Giordano Bruno que dizer da República que assassinou o melhor de todos os homens??? De fato Platão jamais pode distinguir a Democracia da Oclocracia ou da Demagogia. E concebeu o paradigma da autoridade redentora, mesmo quando na velhice, achou por bem delimitar sua esfera.

Há nos afamados Diálogos - Literariamente muito mais ricos do que a massa dos escritos atribuídos a Aristóteles ou por ele escritos - uma grande gama de personagens famosos - Professores, generais, médicos, devotos, poetas, estadistas, etc Criton, Eutrifon, Crítias, Adimanto, Glauco, Céfalo, Cálias, Querefon, Queremon, Protágoras, Laques, Nicias, Cármides, Trasímacos, Górgias, Agaton, Fedro, Erixímaco, Pausânias, Aristófanes, Fedon, Zenon, Parmênides, Alcebíades, Protarco, Filebo, Timaeus, Hermócrates, Clínias, Meguilo, etc que ora dormem no Kerameikos... A impressão é que estamos numa das praças ou largos da velha metrópole helênica a ouvir as arengas produzidas pelo filho de Fenarete.

Atualmente os Diálogos de Aristócles (Sim, Platão é apelido e significa Ombrão ou ombros largos!) constituem a principal referência ao Pai do humanismo, i é, a Sócrates. Mas não a única, e sequer a melhor ou a mais fiel. A antiguidade clássica conheceu muitas outras fontes a respeito do ilustre mártir da Filosofia: Fedon, Critias, Glauco, Adeimantos, Euclides de Megara, Aristipo de Cirene, Antístenes e mesmo um sapateiro... Todas estas fontes, citadas e fragmentariamente reproduzidas por Laércio, Stobaeus, Athenaios, Aulo Gélio e outros doxógrafos antigos acham-se atualmente perdidas para nós. Contamos porém com a Memorabilia de Xenofonte e com alguns fragmentos de Aesquines de Asfeto, rival de Platão.

Seja como for a Sócrates não é Platão e Platão não é Sócrates. Embora Platão estivesse persuadido de que era uma espécie de homenagem ou recompensa atribuir ao mestre suas lucubrações metafísicas em torno das origens do conhecimento ou sua origem das ideias. Para Th Gomperz por exemplo, o Sócrates histórico é o Sócrates de Xenofonte. Para outros é do Aesquines de Asfeto... ou mesmo a caricatura de Aristófanes. O certo é que nem tudo quanto Platão atribui a Sócrates parece digno de aceitação. Sócrates, sem jamais negar a possibilidade, veracidade ou a objetividade do conhecimento parece ter sido antes de tudo um Mestre de Ética, concentrando seus esforços sobre o fenômeno humano - "Do que me tenho eu ocupado senão do conhecimento do homem?" indaga ele na insuspeita Apologia. Criticou certamente os conhecimentos que julgava ingênuos ou aparentes e muito teve de demolir segundo as circunstâncias. Deixou muitas reflexões ou diálogos inconclusos, mas nada indica que tenha sido cético ou relativista. Especialmente quando opunha-se decididamente a Górgias, Protágoras e os demais sofistas, buscando por um padrão ou critério exato no plano da Ética. Se Sócrates concordaria com Descartes no sentido de que os frutos da Filosofia pertencem aos domínios da Ética, como o francês não ignorava a ilação metafísica existente entre a gnoseologia e a Ética ou que sem Verdade absoluta não era possível postular uma Ética do absoluto ou para além das opiniões e aspirações individuais. Mesmo assim quis começar pela Ética e tão larga foi sua seara que ao deixar a vida, aos setenta anos, estava sua obra incompleta ou mesma por começar.

Sócrates jamais repudiou a verdade e provavelmente em alguns momentos de sua carreira apoiou a tendência naturalizante atribuída aos Sofistas e Filósofos de modo geral. Queremos dizer que compreendeu ou apresentou os deuses da mitologia como forças da natureza, sem no entanto, como eles postular o assustador ateísmo ou mesmo agnosticismo. Foi Sócrates o principal apoiante do teísmo ou monoteísmo racional, metafísico e racionalista, não religioso, revelado ou fideísta. Seja como for tal não foi seu foco - A questão dos deuses e da natureza - e não insistiu muito sobre o assunto, exceto para sustentar que a existência de um ELEMENTO UNIFICADOR {Jamais alheio a consciência grega} era absolutamente necessário no sentido de sustentar uma economia universal, seja no plano do conhecimento, da Ética ou da Estética. O Bem, a verdade e a beleza eram expressões universais de um Ente universal. E o Bem, antes de tudo, foi o objeto da busca socrática. Pois para Sócrates uma ordenação hierárquica situava tais qualidades. E ao Bem pertencia a primazia. A Ética para ele é soberana.

Assim se a crítica da verdade não tocou ao mestre, até por questão de oportunidade, ficou ao encargo do filho de Perictione e Ariston, o qual tentando conciliar os opostos, assim Parmênides e Heráclito, apresentou seu sistema como criado por Sócrates. Nisto não há mentira, há homenagem ou preito de gratidão, segundo a cultura dos antigos. Todavia não devemos crer nem imaginar Sócrates dissertando sobre vidas sucessivas, reminiscências, mundo ideal, arquétipos, etc Tudo isto é apenas e tão somente Platão, o qual para construir seu sistema serve-se das tradições religiosas dos órficos e pitagóricos. Nada demasiado sólido ou racional... Daí a reelaboração, racionalista ou naturalista, desta teoria platônica das formas, apresentada pelo Estagirita, a qual para muitos tornou-se definitiva, ao menos no plano da Gnoseologia ou da metafísica do conhecimento. Aristóteles porém tinha seus pés sobre os ombros de um gigante colossal, do primeiro pensador sistemático do conhecimento: Platão, o pupilo de Sócrates.

Daí a conveniência de que o homem de hoje conheça suas obras ou Diálogos, lidos inclusive por Oppenheimer e Sagan, dentre outros cientistas quase contemporâneos.

Acompanhe em alguns de nossos artigos a apresentação crítica de algumas de suas obras já estudadas por nós.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Carta a um entusiasta da lusitanidade e das letras portuguesas

I - A circulação da cultura, o cosmopolitismo e a distinção entre a cultura grega e a cultura latina

Trocas ou permutas culturais sempre existiram e são certamente o 'motor' da evolução humana. Por meio destas trocas diversos universos culturais entram em choque e se fazem opções e julgamentos, o que pode ser saudável. Se você adota uma linha de análise racional ou científica, embora isto não seja tudo.

Parece ou deve existir uma espécie de seleção natural da cultura. Nós, homens ou pessoas refinadas precisamos de padrões, princípios e valores para julgar as culturas. O curioso é que estes padrões já fazem parte de uma dada cultura. Penso que haja certa objetividade em algumas culturas e que possam, elas e seus elementos, ser organizados hierarquicamente.

Você mencionou a cultura romana. De fato, não poucos, confundem a cultura grega com a cultura romana. E já foi dito que ao conquistarem os gregos pelas armas foram os romanos conquistados pela cultura grega. Isto é verdade, mas apenas em parte. Uma elite, parte de outra elite bem maior, formada pelos melhores romanos, absorveram o pensamento ou como queiram, a cultura grega em sua puridade. No entanto de modo geral não foi assim e temos de compreender isto muito bem para saber o que é e porque é o nosso mundo.

Sim os latinos tem suas virtudes e dou-os, ou seu temperamento por muito superior ao nórdico ou anglo saxão, de cujo bojo saiu o americanismo que hora nos polui e contamina a todos, não só a nós mas a Europa, ao velho mundo, arrancado de suas tradições, cultura e raízes pela reforma e pelo capitalismo. Os latinos eram práticos e excelentes administradores, tinham certas criatividade técnica que faltava aos gregos e sua arquitetura é até mais bela.


II - Humanismos Grego, Romano e Renascentista - Modelos distintos



No entanto esses mesmos latinos eram mais ou menos toscos e impermeáveis a contemplação do espírito. Interessavam-se mais por jogos do que pelo teatro e mais por espetáculos de gladiadores do que por esportes, a ponto de encarar os gregos como um povo degenerado ou corrupto.

Em termos de humanismo os romanos não assimilaram tudo, e o quanto assimilaram obscureceram. Clássica é a exposição de Aulus Gelio sobre a Humanitas romana, retomada pela renascença, e a Humanitas grega ou helênica. Para os gregos o ideal humanista não se restringia a erudição ou as letras, enfim a nossos belos versos de Virgílio ou Stacio, mas comportava o desejou ou a aspiração de beneficiar todos os seres humanos, inclusive os bárbaros ou de, de algum modo, promover o homem, o humano e de promove-lo integralmente.

Os romanos eram neste sentido mais ou menos semelhantes aos Norte americanos, que tratavam seus escravos com mais dureza do que os nossos. Os gregos até onde nos é dado saber eram mais suaves para com seus escravos. Assim quando as batalhas e combates. Os romanos eram mais agressivos, mais insensíveis e mais violentos do que os gregos. Sem chegarem a ser uns individualistas consumados ou terem consciência ideológica disto, eram indiferentes aos sofrimentos e miséria alheias, ao menos durante o declínio do Império e foi este declínio de uma orientação basicamente egoísta ou hedonista.

Veja nobre Wilson que estes romanos, que este ilustri vir escandalizou-se do Cristianismo nascente e dele mofou justamente devido a seu conteúdo fraternalista ou solidário. Estas nova consciência social, que recordava o socratismo, foi muito mal avaliada pelos senhores da cultura latina. Luciano de Samosata, Fronton, Filostrato, Juliano, Porfírio, Jamblico... qual o teor de suas críticas a nova fé? Que os cristãos assistiam os pobres, os aleijados, os enfermos, os escravos, os encarcerados, etc Então já sabes porque o Nazareno foi cognominado Novo Sócrates ou Sócrates redivivo e não novo Cícero ou novo Terêncio, ou novo Plauto. Para os romanos Humanitas era escrever ou falar bem, amar as artes, brilhar nos salões. Eles esvaziaram e empobreceram o conceito grego retomado por Jesus.

Mas a Renascença, após a I Média, retoma o conceito romano, não o grego. E introduz, a parte de benefícios, como a liberdade, a racionalidade, o pensamento científico... uma certa doze de alienação face ao outro. Lamentavelmente, fora as exceções - como S Tomas Morus - este 'vir' renascentista que temos de admirar e aplaudir já não é homem completo ou perfeito, ao contrário do Santo medieval que embrenha-se no leprosário ou cria hospitais, ele se aparta das multidões sofredoras. Claro que a multidão ou a massa é sempre fastidiosa ao homem culto, mortifica-o e penso que até Jesus foi mortificado pelos apóstolos e pelo povo. Mas ele cumpriu seu dever e é nosso exemplo. O Santo medieval é mais sublime do que nosso 'Vir' porque mesmo não sendo instruído identifica-se e compadece-se. Reteve o bem ou a ética, a melhor parte. O homem renascentista ficou com a casca ou com a aparência, i é com a arte ou a beleza, no máximo com uma verdade 'fria', assumiu um legado dos antigos romanos e não dos gregos ilustres. O Kalokagathos é um homem mais completo...
 
III - Tentativas de síntese, afirmação do protestantismo e do capitalismo e a falsa civilização norte americana.


Por um instante dos admiráveis Jesuítas acenaram com este ideal completo de homem completo ou do Kalokagathos. Assumiram o que havia de eterno e sublime na grande Renascença e associaram a ética Evangélica ou Cristã, afirmando um humanismo Cristão. Passou-se isto em algum momento entre os séculos XVI e XVII. Mas, lamentavelmente, não foram estas sementes que desabrocharam e plasmaram a nova cultura. O estrago estava já feito pela reforma protestante e o mundo protestante ou anglo saxão, movido por um individualismo ideológico e consciente, a caminho da nova ordem capitalista. Aquilo foi o dobre de finados para o projeto Jesuíta e mesmo a 'grande portugalidade' ou a Hispanidade apartaram-se logo dele...

As tendências ancestrais ou romanas que definhavam e poluiam a Renascença foram categoricamente reafirmadas pela pseudo reforma e a própria igreja romana, que já chafurdava no pântano do agostinianismo, assumiu a perspectiva solifideista numa proporção cada vez maior. O espiritualismo descarnado ou idealismo, associados ao individualismo crasso produziram uma outra 'civilização' ou uma anti civilização, americanista e de matriz já protestante, já capitalista. Nesta cultura de morte o anti humanismo converteu-se em lei. Deus não foi substituído pelo homem como sonhavam tantos e tantos e sequer pela razão ou pela ciência, mas pelo que há de mais vulgar e rasteiro: O amor ao dinheiro, o capital, o lucro, pelo que chamam de mercado enfim.

Claro que diante deste novo padrão, mesmo o padrão romano ou lusitano, mostra-se infinitamente superior. Os franceses até certo ponto adotaram o programa Jesuítico. Aspiraram produzir um Cristianismo letrado e brilhante. Parte dos anglo Católicos do outro lado da mancha também. Na Inglaterra após a morte do grande W Laud e na França apesar de S Vicente de Paulo, a insensibilidade e a indiferença; senão o hedonismo é que associaram-se as letras, artes e ciências e já não havia consciência social ou humanidade. Nossos Católicos não se deram conta disto, produziram um monstro e prepararam a Revolução, mesmo com toda sua erudição clássica ou refinamento. E tudo isto já apontava para algo ainda pior e mais feio - A afirmação absoluta do individualismo economicista nos séculos XIX e XX.

É incrível mas mesmo parte das elites educadas pela Igreja, não se puderam manter a parte deste fluxo cultural. Os Católicos racionais, racionalistas ou semi racionalistas foram um refresco caso compare-mo-los aos Católicos 'positivistas' ou mancomunados com o cientificismo. Mas isto não era o pior, pois antes de surgiram os malsinados Católicos comunistas apareceram em cena - ideologicamente porque já eram 'velhos' - os Católicos capitalistas ou liberais economicistas que é o tipo mais escandaloso e irreverente pelo simples fato, de segundo J Maritain, relacionar-se com o solifideísmo protestante. Pois são Católicos que cessaram de investir nos irmãos, na caridade, na assistência social, etc para investir no tal mercado ou católicos que trocaram os irmãos pelas riquezas - Católicos materialistas!!! Avarentos! Idólatras!!! Agora diga-me como o Católico poderia deixar de por seu tesouro nos céus??? E de empenhar todas as suas energias na construção de um mundo melhor, mais justo e fraterno; conforma a ótica e ética do nosso Evangelho.

Tudo isto já prenunciava o triunfo fácil do veneno que nos mata e do mal que nos assola - O americanismo!


IV - Crise e conflito de Civilizações: Nossa herança grega X americanismo


A grande luta do século, do milênio, da Era e da civilização não toca ao latinismo ou mesmo ao lusitanismo e o americanismo; exceto quanto a Portugal e Brasil talvez, mas entre nossas fontes e raízes mais remotas - Nossa herança grega, o humanismo pleno (com Ética da alteridade), a Kalokagathia, a autêntica Arete e a pseudo civilização protestante, capitalista e Norte americana.

Advertência que já editamos diversas vezes: Não existe civilização ou cultura Ocidental. O que é vendido como tal é o projeto Norte americano, culturalmente imperialista é claro. Ele não corresponde nem ao projeto latino, nem ao projeto Cristão/Católico, ao projeto helênico ou a qualquer síntese feita a partir destes elementos. Não corresponde a nossa autêntica e legítima cultura. A Nossas tradições e raízes. A nosso legado ancestral... Mas a um elemento estranho, que introduziu a confusão. Vivemos um conflito de culturas, mais do que um conflito de classes talvez. Crise porque temos uma sobreposição de civilizações e culturas. Crise porque temos um agregado artificial de elementos conflitantes. Crise porque temos vivido um sincretismo irracionalista e tosco.

Temos duas culturas em choque ou conflito e temos de afirmar e de gritas e de divulgar isto. Não vivemos o projeto de Sócrates, Aristóteles, Platão ou Jesus... Através dos meios de transporte e comunicação, valendo-se do poder do dinheiro os Norte americanos tem divulgado um outro projeto e vendido como nosso ou como projeto comum do Ocidente - assim sem anti comunismo boçal... É gato por lebre. Nosso projeto é outro e distinto de ambos. É reacionário em grande parte por ser antigo, mas, paradoxalmente, revolucionário e progressista por opor-se a esta confusão ou a este mistifório a que vende por civilização europeia ou comum.

Que há de Dante, Cervantes, Camões ou Tasso nela??? Nada, absolutamente nada e até a arte foi corrompida e obscurecida por meio da arte psicologista ou moderna, santuário do subjetivismo e do relativismo reinantes, frutos de uma cultura ou de uma civilização deterioradas, assim como o ceticismo. Sem querer ser Spengleriano, tudo em nossa volta fala de crise, ruína, decomposição, morte...Vivemos o ocaso da cultura porque a cultura deteriorou em suas novas formas. O Comunismo leva estes germes de morte adiante... Porta os velhos germes de morte do positivismo e do tecnicismo.


V - Os fundamentos religiosos de nossa Civilização e a crise do 'Catolicismo' Ocidental

Certamente que a portugalidade como a romanidade religiosa, foram superiores ao anglicismo e ao protestantismo. Mas, Roma caiu, assimilou modos protestantes - Doutrinas, princípios e valores protestantes. E não podemos ter a ilusão de fazer algo a partir dela.

Portugal e Brasil, e Espanha, e França, e Itália, do passado foram o que foram graças a Igreja romana. Se você abstrai deste elemento nada se produz em termos de cultura.

Veja que estes povos já se tornam protestantes meu caro! Como não queres que ass
umam uma cultura alienígena e de origem protestante cujos elementos são a democracia indireta ou representativa e o capitalismo ou livre mercado? Como escapar a este Imperialismo cultural ou a artificialidade desta cultura sem algo como a Igreja papalina?

Impossível - It's impossible...

O resto da cultura não se sustenta sem o substrato religioso do qual depende. Não vejo esperança de resgatar a latinidade exatamente como era, a hispanidade ou a lusitanidade. Teremos de fazer outras reelaborações com o material a partir de algo mais antigo e seguro - a Igreja Católica Ortodoxa e o Socratismo/Aristotelismo (nossa herança grega). Temos de produzir outra síntese, como diria Toynbee, e opo-la ao americanismo e seus aparelhos e aparato. Teremos de rezar para que se efetue a Mimesis ou para que esta reelaboração seja aceita pelas elites intelectuais e chegue até as massas perpassando todo corpo social. É um desafio e tanto e por isto devemos estar conscientes dele.

Temos de pugnar pela cultura restabelecendo suas fontes, as quais, ao contrário do que disse K Marx, são religiosas. cf Coulanges, Dawson e Butterfield.


VI - O idioma e a poesia não nos salvarão


As linguas comunicam-se, transformam-se, alteram-se, evoluem, declinam, sofrem influxo de outras linguas e do mesmo modo a cultura. A lingua é como uma casca. Importante manter a norma culta para fazer-se compreender e evitar duvidas e conflitos. Mas a lingua não salvará a cultura. A salvação da cultura exige um elemento estável e o mais estável de todos que é a religião e a religião tradicional, especialmente a que afeta 'imutabilidade'. Ela sempre será o melhor suporte para a cultura e por isso precisamos é debruçar-nos sobre o terreno religioso. E decifrar o Cristo, e compreender o Evangelho, e conhecer sua ética, e encarar a crise da igreja romana, e saber o que significa protestantismo, e precisar quando e porque a crise começou. Isto é fazer diagnóstico.

Nem as armas e munições, nem a lingua, nem mesmo o Estado e as leis, produzem a cultura que lhes da suporte. Volte-se para o fenômeno religioso e a esfinge soltará a lingua e lhe falará e quem sabe você poderá fazer algo de grandioso e imortal pela pobre humanidade, assim como Paulo, Fócio, Aquino, Mohler, etc


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O ateísmo, o agnosticismo, a Kalokagathia e a morte da Estética I


 Resultado de imagem para Vitória de samotrácia



 "Só é realmente belo o que não serve para nada. Tudo quanto é útil contém certa de fealdade." Theóphile Gautier


É a palavra Aesthetica/estética, que remete ao grego aesthesis (sensação), de origem germânica tendo sido concebida por A G Baumgarten em meados do século XVIII. Querendo designar a sensação relacionada com a contemplação/fruição da beleza.

Já a palavra Kalokagathia, era empregada pelos antigos gregos com o objetivo de expressar seu amor pelo quanto fosse Bom e Belo, naturalmente que o Bom e o Belo deviam ser Verdadeiros. Assim por extensão este vocábulo servia para designar um ideal de Bondade, Beleza e Verdade cultivados pela cultura helênica. Tal o tripé sob o qual repousavam todas as demais virtudes encomiadas pelo divino Sócrates e seu Pupilo Platão. Para nossos nobres e excelentes ancestrais o Bom, o Belo e o Verdadeiro eram como expressões da mesma perfeição divina. Compunham uma unidade que não podia ser fragmentada e que era expressa pela Ética, a Lógica e Estética.

Segundo Platão o ideal mais puro de beleza estaria relacionado com os tipos ideais ou isentos de acidentes, presentes na dimensão das ideias e não com os seres reais a que chamava de cópias. Toda cópia é imperfeita e imperfeita devido aos acidentes que produzem as variações. Neste nosso mundo há diversos tipos, no mundo ideal um tipo apenas. Temos então de remover os acidentes do ser concreto para atingir o ser ideal, e mesmo assim a tarefa não era muito fácil. Seja como for os gregos perseguiram-na...

Não se contentavam com a posse de verdades ou com o verdadeiro apenas e nem podiam conceber uma verdade que fosse feia ou isenta de beleza. Examinaram a si mesmo, olharam para dentro de suas almas e nelas descobriram uma sede perene de beleza. O Resultado disto foi o templo de Diana Efesina, o Partenon, o Fórum romano, o Maiseon Carré... A Vitória de Samotrakia, a Vênus de Melos, a Amazona ferida, o discóbulo, o Apolo Apoximenos e todo um novo mundo de bronze e mármore que revestiu a Hélade.

A música de Tirtaeus e Terpandrous, o estro de Homero, as Odes de Píndaro, as peças de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes; o dealbar de uma nova era!

Aristóteles sempre mais realista e prosaico que seu mestre, determinou estabelecer algumas normas ou regras concretas com relação a realidade da Beleza neste mundo, buscando objetiva-la.  E estabeleceu os critérios da Simetria, da Composição, Ordenação, Proposição e enfim do Equilíbrio. Logrando expressar aquilo que se achava não apenas no interior dos antigos gregos mas de todo ser humano, de toda criatura racional. Pois tudo isto está cheio de racionalidade.

Lamentavelmente após o declínio de Roma assomaram os bárbaros, primeiro ao Ocidente e em seguida aos Oriente, estes capitaneados por Mafoma.

Os belos templos em que a beleza era glorificada tornaram-se pastos das chamas. O Fórum juncou-se de ruínas. As telas e painéis converteram-se em cinzas. A glória de Zeuxis e Polignoto foi aniquilada, os bronzes derretidos e as delicadas estátuas de mármore partidas em pedaços com exceção de algumas poucas. Pois como diz Keneth Clark o homem primitivo, bárbaro e grosseiro em sua rudilidade não podendo dar com o sentido do Belo ou sentindo-se frustrado por não poder produzi-lo sente-se inquieto e incomodado diante dele. A beleza exaspera-o, porque reflete um ideal que como disse Platão, está além deste mundo das concretudes, o único mundo conhecido e amado pelo homem simples. Daí ele atirar-se sobre a obra de arte com um furor iconoclástico e com o objetivo de destruí-la.

Dominado por uma ideia elevada a respeito do bem e por certa noção vigorosa de verdade teve o homem Cristão que aproximar-se da beleza ideal ou da estética as apalpeladas, pois estava a princípio dominado pelos preconceitos da cultura judaica ou sêmita com seu eterno desprezo pela Imanência e consequentemente pelas artes plásticas, as quais jamais soube produzir em larga escala e com competência.

Judaísmo e islamismo, enquanto epifenômenos da cultura semítica mutilaram criminosamente a natureza divina, oferecendo a humanidade supostas verdades dissociadas da Beleza. Temeram que a beleza do mundo pudesse ser representada e por fim reverenciada pelos homens ignorando que a Beleza presente no universo e transplantada as obras de arte é atributo do ser divino. Nem podiam tais crenças insistir a respeito da Beleza presente numa Transcendência absoluta, incorpórea e separada do mundo que produziu. A própria divindade acabou sendo despojada da Beleza. É algo que jao ou ala não contém...

Tristemente o Cristianismo herdou tal vezo do judaísmo... Felizmente, devido ao dogma da Encarnação, que é um sinal da Imanência, não tardou a supera-lo e em 787 desta Era, o Concílio Geral, reunido mais uma vez em Nikaia, sancionou a tradição multi secular (A igreja com afrescos de Dura Europos - 240 desta Era é testemunha preciosa quanto a esta tradição bem como as Catacumbas romanas) do culto as imagens, especialmente das pinturas. Desde então as perspectivas da arte Cristã, em termos de pintura e de alguma escultura, tornaram-se ainda mais sólidas, amplas e profundas e a arte desenvolveu-se mais uma vez. Se bem que a puridade dos princípios estéticos greco romanos se houvesse perdido durante a grande calamidade.

O Renascimento artístico ocidental foi uma tentativa mais ou menos feliz de retomar esse ideal. Formalmente foi bastante feliz pois as obras produzidas por seus mestres são formalmente impecáveis e perfeitas, deliciando os olhos de toda gente sensível. No entanto, separado da tradição bizantina, perdeu seus fundamentos históricos ou concretos, mergulhando num mundo de imaginação e fantasia e laborando em monstruosos anacronismos com seus apóstolos e profetas, e soldados romanos trajados segundo a moda do tempo, i é das Idades média e/ou moderna.

Grosso modo a estética em sua puridade formal e a História só vieram a encontrar-se ao tempo do romantismo (chega a ser paradoxal) pelos fins do décimo oitavo século e ao cabo de praticamente todo século décimo nono, embora ao fim deste século já se prenunciasse o 'modernismo'. Foi um interregno bastante curto o do neo classicismo, perdurando por um século apenas, mas um século deslumbrante. Pois trata-se do século de 'La madaleine' de Paris... Quadra em que a Ortodoxia, o anglicanismo e o papismo recobriram mais uma vez a velha Europa com escrínios de mármore e estátuas de bronze agora dedicados a figuras de carne e osso, como Jesus Cristo, sua piedosa mãe, seus apóstolos, os mártires dos primeiros séculos, etc e tudo isto em meio a todo um simbolismo recuperado i é tomado ao paganismo antigo. Isto sem mencionarmos os painéis ou quadros, como os de Ary Scheffer, além é claro de Delacroix, Millet, tão entusiasticamente elogiado por Van Gogh em suas Cartas a Théo, Blake e Kramskoi. No entanto foi apenas um segundo renascimento, e nem neste nem no primeiro foram os fundamentos metafísicos desta produção recuperados. O espírito grego jamais foi completamente reassumido pelos Cristãos, e por um motivo bastante claro - Ali estava Agostinho com sua doutrina de degradação total da natureza, ali está a doutrina da existência pessoal de um Diabo, ali está a doutrina das penas eternas do inferno com seus tormentos tão sádicos quanto mitológicos. Há ali feiura e feiura eternizada. Então eles não podiam aplicar os canones clássicos a essa arte com fidelidade absoluta!

continua