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segunda-feira, 17 de abril de 2017

Sobre a eclipse do municipalismo as vésperas da queda do Império romano


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Texto base para reflexão: M Guizot 'Sobre o regime municipal no Império romano durante o século V..."


Foi duplo o gênero de fatores responsáveis pela queda do Império romano e com ele da expansão civilizacional antiga. Cuja fonte, deita raiz tanto no Egito quanto na Suméria, tocando a 3.500 a C.

O primeiro tipo foi suficientemente expostos por diversos autores materialistas ou marxistas e devemos busca-lo na estrutura econômica.

Pautada no escravismo, na pilhagem e consequentemente, nas guerras de conquistas.

Tendo atingido os extremos ocupáveis do mundo antigo, não pode mais este império expandir-se. O Norte da Europa, o Sul da África, As estepes russas e os desertos da arábia eram inviáveis. A única saída possível, para o extremo Oriente - Índia e China - achava-se bloqueada pelo novo Império persa. O acesso ao comércio tornou-se precário e além disto as distâncias eram consideráveis.

Diante disto apresentavam-se diversos problemas:


  • Como escoar a produção se as vias comerciais eram limitadas?
  • Como manter o preço estável quando o elemento escravo, principiando a minguar por falta de guerras, tornava-se cada vez mais caro? E -
  • Como administrar ou gerenciar de modo orgânico a produção de bens - criando demandas e mercados internos - se, aquele tempo os meios de comunicação e mesmo de transporte, eram demasiado limitados?

Devido a cultura escravista os cidadãos mais humildes achavam vergonhoso trabalhar preferindo viver de esmolas a custa do Estado. Do que resultou um entorpecimento irreversível. Para não poucos romanos, o ideal de vida era justamente ser sustentado pelo governo através de 'rações'. Não cogitavam em produzir e menos ainda em defender as fronteiras do Império ou combater.

Ademais por que raios expor-se a tantos e tão graves perigos nas fronteiras em torca de soldo, se rações gratuitas - O pão e circo - estava no acesso de qualquer um?

Considere-se agora que a míngua do elemento militar encarecia o soldo e consequentemente as despesas. Ficando sempre mais barato contratar bárbaros romanizados - os godos - para defender o Império (!!!). Convertendo-se o exército, majoritariamente germânico, num estado dentro do estado.

Para agravar ainda mais a situação, o abolicionismo Cristão, avançava a passos largos. De modo que o triunfo da ética e da justiça, pressupunha e de fato acentuava ainda mais a crise econômica, produzindo a redução do elemento servil e, evidentemente o aumento da inflação.

As despesas com importação de trigo para as rações e com o exército vão se tornando cada vez maiores. Ao poder central a única saída viável - para manter a ordem interna e a paz nas fronteiras - foi aumentar os impostos. Como nem os Senadores multimilionários e tampouco os cidadãos comuns e escravos pagavam impostos, incidiram eles mormente sobre a até então fecunda classe média citadina (Ou se querem pequena burguesia urbana) compostas por pequenos e médios comerciantes e funcionários públicos.

Também o pequeno e médio proprietário rural sentiu-se onerado.

Por todas as partes do Império foi este cidadão médio, na cidade ou no campo, taxado e responsabilizado pela crise.

Até que ao cabo de cem ou cento e cinquenta anos, esta categoria de cidadãos estava virtualmente morta! E com ela o municipalismo e a vida urbana ou citadina no Ocidente, com raras exceções (Algumas cidades litorâneas mantiveram-se devido a suas condições específicas de portos e ao comércio marítimo com a parte Oriental e viva do Império). Tombaram os até então fecundos municípios das Hispanias e das Gálias, sucedendo a ruralização a passos largos...

Quanto aos pequenos proprietários ou abandonavam suas terras e fugiam em demanda das grandes metrópoles - como Roma - na esperança de obterem 'rações' ou alienavam suas propriedades aos grande senhores e com elas suas liberdades. Segundo a antiga tradição do clientelismo... E punham-se a trabalhar no lugar dos antigos escravos tendo em vista a suficiência da 'Vila'.

Tudo isto supõem um cenário dramático de transformações sociais.

Consideremos que aquelas multidões esperavam ser alimentadas pela máquina imperial até o fim de suas vidas. Dela dependendo para obterem rações e sobreviver. E sequer imaginassem que aquele Império miserável e desguarnecido pudesse vir a cair! A queda do império e o desamparo era algo que se não lhes passava pela cabeça. Imaginavam que o trigo caia dos céus e que semelhante estado de coisas se manteria 'ad infinitum'.

Engano fatal.

E no entanto quanto menos braços nos campos menos suprimentos e quanto menos suprimentos havia, mais caros ficavam... Resultando disto um círculo vicioso.

Diante disto aprouve ao governo central, ao tempo de Diocleciano, impedir que as pessoas continuassem a fugir, demandando as grandes cidades. Fazia-se mister reduzir as liberdades, com grande agravo da cultura ancestral. Desde então os pequenos camponeses foram legalmente fixados a terra. Enquanto os habitantes das cidades foram obrigados por lei a perpetuar os ofícios exercidos por seus pais e antepassados.

Em situações de crise, as liberdades tendem a ser reduzidas ou eliminadas. Foi exatamente o que se sucedeu no Império a partir do ano 300 desta Era.

Todavia, apesar de tantos e imensos sacrifícios a condição do Império não melhorava e ele não dava mostras de recuperação.

Do que resultou, por fim, a perda de sentido.

Nas últimas décadas do século IV, quando até mesmo a distribuição das rações principio a falhar, - Dando espaço as primeiras fomes que caracterizarão todo período subsequente - veio a desilusão. Não poucos compreenderam que a situação havia se invertido e que agora o Império é que se mantinha e sustentava as custas do povo. A maior parte da população começou a encarar o até então 'divino' gênio de roma como uma espécie de diabo ou gênio do mal. Tomaram consciência sobre sua condição de oprimidos, sentiram na pela o despotismo dos césares, perceberam que já não passavam de ovelhas famintas, esqueléticas e vulneráveis.

Foi quando desejaram a destruição do Império.

Pois como se lhes faltasse pão, encaravam todo patrimônio cultural até então acumulado como coisa supérflua ou como luxo.

Onde falta pão a cultura não faz sentido! E perde-se.

Num determinado momento do século IV o Império passou de mocinho a vilão no imaginário popular.

Os próprios mandatários, pressionados pelos godos que se achavam nas fronteiras, perguntaram a si mesmos se não estava na hora de injetar sangue novo nas veias do antigo império com o intuito de salva-lo. Quem sabe os godos ocupando postos de trabalho produzissem renda? Foi o que pensaram os conselheiros do Imperador Valente, pelos idos de 376.

Situação em que parte do povo, certamente, já encarava os bárbaros - compreenda-se o godo ou bárbaro civilizado/romanizado - como libertadores!

É clássica a passagem de Amiano Marcelino descrevendo como o Imperador Valente não apenas abriu as fronteiras a tal povo, como dispôs que a máquina imperial - Com seus barcos e carros - auxiliasse os godos na travessia do Danúbio. O que ele esta introduzindo nas veias do império é veneno mortal conjecturou no velho cortesão. Um ano depois Valente era batido pelos Godos em Andrinopla e queimado vivo por eles.

Após o desastre de Andrinopla, Teodósio - o 'Último dos romanos' - sempre intimidado por Alarico, representou apenas um 'interegno' antes do 'Fim do mundo', em 410, quando os Godos conquistaram a antiga capital do Império roma.

A situação descrita por Guizot e ao que parece jamais desmentida pela arqueologia ou a paleografia, diz respeito principalmente a apatia com que os cidadãos 'romanos' da parte ocidental do Império, assistiram sua queda sem sequer dar mostras de revolta ou registrar as consequentes lamentações pela ordem ou regime que chegava ao fim. A passividade face a queda do quadrisecular foi patética. É como se ninguém mais aspirasse por sua sobrevivência. Mais - é como se os antigos cidadãos romanos encarrassem os bárbaros germânicos como libertadores. Situação que tornou a repetir-se em diversas partes do Império Bizantino por ocasião da primeira Jihad Maometana no século VII.

Segundo o citado autor francês, o fim inglório do municipalismo e a adoção, por parte do Império, de um regime cada vez mais despótico e autocrático é que acarretou semelhante situação de revolta. Era um governo cujos custos estavam sendo maiores do que os benefícios. A um lado impostos e taxas cada vez maiores e a outro, decretos arbitrários, extinção das antigas liberdades e situação de extrema penúria. Os pais havia comido a carne mas os filhos do século IV estavam roendo osso. O governo romano ou melhor a existência do Império se tornará insuportável. Era uma máquina que já não funcionava mais, e onerava, e oprimia os próprios cidadãos...

Foram as situações de tirania ou despotismo que levaram primeiramente os latinos e posteriormente paste dos orientais a encarar os invasores: Aqui teutônicos e ali islâmicos, como libertadores. Em que pese a destruição da cultura. Pois como já dissemos a cultura só faz sentido para quem tem a barriga cheia, assim, faltando pão...

Em semelhante conjuntura um único elemento deu mostras de preocupação, por compreender a dinâmica da cultura. O alto clero Católico, assim os Bispos Sinézio de Cirene e Agostinho de Hipona, o anacoreta Jerônimo de Stridon, o estudioso Sidônio Apolinário. Estes sabiam que a antiga cultura estava ameaçada, que o arcabouço da civilização clássica, em parte incorporado pela Igreja, estava prestes a desabar e que um novo mundo estava prestes a surgir.

Lição de História a ser aprendida pelos governantes: Situações de angústia extrema convertem os críticos do regime, por piores que sejam em heróis.

Seja como for não é muito difícil compreender porque os latinos ou ocidentais equivocaram-se em sua apreciação.

O equivoco se deve ao fato de que os godos ou bárbaros da fronteira estavam já civilizados ou familiarizados com os costumes e as tradições romanas. O que eles não podiam ver ou perceber é o que estava por trás do movimento daqueles povos. O que não conheciam é o caráter das tribos mais afastadas como  Vândalos, Alanos, Suevos, Ostrogodos, Hunos, etc O que não imaginavam é que os Godos estavam sendo empurrados por povos tanto mais rudes e grosseiros.

A entrada dos Godos no Império certamente não causou maiores desastres. Não foram eles certamente que como os Hicsos do antigo Egito, vieram pilhando, incendiando ou demolindo tudo pelo caminho e deixando apenas ruínas após si. Em determinadas situações, como foi exposto por Dubos e Coulanges, o que houve foi apenas instalação pacífica ou acomodação. Assim nas Gálias onde estabeleceram-se os Francos, assim nas regiões ocupadas pelo Godo.

No entanto a entrada dos primeiros foi como a ruptura de um dique, cujas forças não podiam mais ser contidas. No encalço dos Godos e Francos vieram os Suevos, Alanos, Hunos, Ostrogodos, Vândalos; e não foi por acaso que o nome destes últimos foi identificado com a destruição e a selvageria. Após os Godos romanizados, o Caos. Após o Godo ter estendido a mão a seus parentes mais distantes a situação tornou-se insustentável e o Império romano do Ocidente foi varrido da face da terra como por um tufão.

E lá estão as ruínas do Capitólio e do Fórum para testemunhar este trágico evento.

A longo prazo aconteceu o que os Bispos e Filósofos temiam: Não apenas as escolas, bibliotecas, museus, pinacotecas, galerias de arte, templos, etc foram destruídos mas até mesmo as pontes, portos, estradas, fábricas, hospitais, etc Enfim toda estrutura urbana de uma realidade extinta. Retornando a maior parte da porção Ocidental do Império a antiga condição rural. A subsistência. Ao status de pequena comunidade auto suficiente. Em prejuízo do letramento, da Filosofia, das Ciências e artes. Do que resultou sensível rebaixamento em termos de qualidade de vida.

Se houveram sombras na Idade Média, foram estas trazidas pela migração e instalação do elemento teutônico e das revoluções por ele provocadas.

Evidentemente que nem topo equipamento cultural produzido pelos romanos e introduzido no Oeste da Europa se perdeu. Apenas parte dele e por algum tempo. Reduzindo a marcha da civilização e recompondo as coisas.

De modo geral o que podemos declarar sobre o sentir dos diversos grupos sociais as vésperas da queda do Império romano do Ocidente é isto:

  • Os Cristãos ao menos em parte haviam se deixado dominar por uma falsa ideia de martírio ou por um delírio místico em torno dele, ignorando supinamente as situações sociais e políticos que não apenas justificam mas exigem uma resistência em termos essencialmente Cristãos. Outra parte deles acalentava, ainda que inconscientemente, certo desejo de vingança face a estrutura política que havia massacrado os antigos mártires seus confrades. Eles desconfiavam da cidade do César, se é que não aspiravam por sua destruição.
  • A classe média fora praticamente extinta assim como as liberdades populares. 
  • O povo simples, que era o grosso da nação, amolecido pela distribuição de trigo, vinho, azeite e carne; além de ingressos para os espetáculos e roupa, sequer pensavam em trabalhar, quanto mais em lutar e combater. Eis porque Alarico as portas de Roma classificou-os como erva grossa prestes a ser ceifada ou como um rebanho de ovelhas gordas, tal sua inércia e passividade.
Como já dissemos não haviam mais escravos e o exército era ocupado e controlado pelos Godos.

Diante de tal situação como admirar-se de que este Império tenha desabado fragosamente ao mais leve toque?

Pois não se tratava mais daquele corpo saudável e pujante dos séculos I e II ou do tempo de Augusto com suas hostes de escravos, regime marcial, fartura de bens, estabilidade monetária, acesso aos Mercados mais distantes do Oriente, liberdades civis, municipalismo florescente, etc

Deste império já não havia nem sombra em meados do século III. Que dizer então dos anos 300 ou 400?

O que temos aqui é um corpo disforme, enfermo e achacado, pela falta de mão de obra, pela inflação, pelo valor excessivo dos impostos, pela extinção das liberdades, pela eliminação da classe média urbana, pela fixação do pequeno proprietário a terra, pelo deficit nos cofres públicos, pelo amolecimento das massas, pela morte da consciência cultural, pela angústia e insatisfação dos cidadãos, etc

Tudo quanto faltava ali era, tal e qual o antigo Império Persa, o aparecimento de um elemento forte o bastante para tirar proveito da situação. O fruto estava já maduro e só faltava quem o colhesse quando apareceram os bárbaros nas fronteiras. Em certo sentido o império romano já estava morto. Tudo quanto podemos dizer é que o Império romano derrubou a si mesmo pelo simples fato de nãos ser capaz de vencer a crise que nele se instalará desde o século III. Como um organismo vivo seu estado de saúde foi se agravando mais e mais até o óbito. Os bárbaros foram os coveiros deste grande império. Mas não daquela vida municipal intensa, que já havia deixado de existir, século e meio antes. 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Reflexões críticas em torno de Jacques Ellul

Jacques Ellul como ele mesmo disse, havia sido durante a juventude leitor de Celso, De Holbach, Renan e outros críticos do Cristianismo. Em 1940, anos vinte e dois anos, aderiu ao Cristianismo, tombando todavia na superstição protestante...

Não sei até que ponto assimilou o protestantismo. Ao fim da vida no entanto, parece ter desesperado por completo de qualquer estrutura eclesial e apresentado o Cristianismo como a suprema traição ao espírito de Cristo, o que até certo ponto e medida corresponde aos fatos.

Nada tenho em absoluto contra os Cristãos honestos e sinceros que desejam permanecer alheios a quaisquer instituições eclesiásticas. Exceto se sua fé ou teologia for protestante. Minha perspectiva, ainda que não eclesiástica ou anti eclesiástica permaneceria sendo Católica ou girando em torno de princípios e valores Católicos...

Por mais que possa parecer estranho a alguns, julgo que seja perfeitamente possível conciliar o Espírito ou sentido Católico com uma rejeição provisória a estrutura da Igreja ou duma Igreja contaminada pelo espírito protestante e/ou cooptada pelo espírito do Capitalismo. Neste sentido podemos falar numa 'greve' espiritual ou num boicote as formas deturpadas de Catolicismo, sem nos afastarmos da fé ou da vivência Católica em termos de caridade, justiça, lealdade, veracidade, etc

Claro que na perspectiva Católica esse repúdio a estrutura eclesiástica será sempre provisório e otimista. Animado pela firme esperança de que a estrutura da igreja será reformada ética e doutrinariamente, não num sentido protestante, mas no sentido oposto, segundo a norma e regra da tradição.

Folgo até que grande parte dos Católicos desertasse desses cultos protestantizados e dessa fé teórica ou fideísta exigindo de seus pastores e prelados um retorno as tradições ancestrais, uma retomada de consciência, uma restauração da cultura... em termos de Catolicismo. Implicaria isto uma série de medidas aparentemente contraditórias, mas, unitárias em termos de cultura e consciência histórica:

A revalorização do padrão simbólico de culto, o repúdio aos mitos judaicos contidos no antigo testamento, a substituição do padrão fetichista dos milagres por um padrão Ético em termos de finalidade, a reconciliação com o semi pelagianismo ancestral e consequente reabilitação da vontade humana, a revisão da doutrina das penas eternas, a desconstrução de todas as formas de preconceito, a afirmação da justiça social e condenação do liberalismo econômico, a negação do relativismo ecumênico, a resistência ao fetichismo criacionista, etc

Todos estes elementos estavam ao menos potencialmente presentes no Catolicismo do século IV desta Era. O qual é por assim dizer a Era de ouro ou zênite do Catolicismo. Só um retorno radical ao sentido histórico ou patrístico do Cristianismo será capaz de salvar-lhe a ele e a própria civilização européia da crise porque passa.

É um objetivo nobre.

Que justificaria uma 'greve espiritual' ou boicote por parte dos Católicos conscientes.

Nem deixariam eles de ter acesso a elementos Católicos.

Uma vez que podem ter calvários, oratórios e livros de piedade em suas próprias residências.

E sempre poderão servir a Jesus Cristo nos pobres e injustiçados.

Nem poderão deixar de obter a graça sacramental caso mantenham a boa vontade e o sentido de comunhão.

Desassociar-se das estruturas contaminadas e dos maus católicos tombados no solifideismo luterano é antes uma necessidade.

Não se trata de negar a estrutura visível ou material da igreja bem como sua dimensão imanente, mas de pressionar os membros dessa estrutura a reverem seus pontos de vista. Os Católicos cuja fé é pura não só podem como devem mostrar seu descontentamento face a semelhante estado de coisas.

A situação atual justifica plenamente o abandono provisório de uma estrutura eclesiástica protestantizada!

Neste sentido, funcional e provisório, nos podemos sim alienar de toda e qualquer estrutura eclesiástica e apesar disto como dizia Bernanos: amar a Igreja e sofrer por ela, conservar o sentido estrito de ortodoxia, alimentar a fé ancestral! O que não podemos sacrificar, com Jacques Ellul, é justamente a fé, a teologia e a orientação Católicas. Aqui ficamos sempre conservadores...

O protestante Ellul conserva sua fé... Nós também conservamos a nossa fé...

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Capitalismo, Socialismo e Comunismo face ao humanismo II

Resta-nos constatar se o Comunismo e os Socialismos são humanismos.

Gostaria de tecer algumas considerações a respeito:

Antes de tudo gostaria de salientar que o Socialismo é antes de tudo um estado de indignação e inconformidade provocado pelo capitalismo ou melhor por seus resultados e já digo que não pode experimenta-la quem não possuí algum senso de justiça.

Todo socialista é em certo sentido não só herdeiro de Jesus Cristo mas antes de tudo - cronologicamente falando - legatário de Platão.

Se você não se identifica com o outro e se situações de injustiça são incapazes de revolta-lo jamais compreendera o Socialismo. Encarando-o muito provavelmente como uma patologia, síndrome, loucura ou delírio.

Uma questão de princípios, de valores, de sentido.

Não preciso de Marx aqui. Não entra Engels aqui. Não dependo de Lênin. Apenas uma consciência de justiça face a situações de injustiça.

Os socialismos todos trazem este sentido idealista do vir a ser ou do que deve ser em oposição ao que é e uma firme aspiração por alterar esta realidade indesejável.

A consciência burguesa além de conformar-se dizendo: É assim mesmo! ainda mistifica alegando que sempre fora assim. Quando sabemos que o capitalismo foi precedido por outras formas de produção econômica e organização social. Nem sempre fora assim, portanto nem sempre precisará se-lo.

Não gostaríamos de ser explorados ou de estar no lugar de um proletário. E por isso proclamamos a necessidade de redimi-lo. É o que chamamos de solidariedade ou alteridade.

Todos apreciamos ser verdadeiramente livres em posse de nosso espaço, de nossas roupas, de alimentos, etc e por isso desejamos que todos experimentem essa mesma liberdade!

"O que vocês desejam que os outros vos façam, fazei vós assim a eles."

Tal o objetivo dos socialistas.

Apreciemos agora os meios:

O socialismo ao contrário do comunismo recusa-se a encarar o golpe a sedição ou a revolução sangrenta como uma receita de infalível para todos os problemas sociais. Não adere pois a mística vulgar e grosseira da violência... nem acredita que condições sociais possam ser fabricadas ou criadas a partir da força bruta.

Não excluí a possibilidade de um conflito em determinadas circunstâncias. Não ignora as doutrinas da guerra justa, da legítima defesa, da auto determinação de um grupo social, etc Não é legitimista ingênuo. Mas também não desespera quanto a via do político ou institucional, acreditando na ampliação e aprofundamento da democracia que temos até chegarmos ao poder popular e a democracia direta; após termos percorrido um lento caminho, sempre dialogando com a cultura e investindo em educação.

Agora o que socialismo algum admite é a doutrina da ditadura ou o viés totalitário do Comunismo.

A diferença aqui, em que pesem as mentiras, calúnias e generalizações da canalha liberal, é crucial: Os socialismos todos encaram o liberalismo político legado pela burguesia como um bem ou como algo essencialmente positivo. O liberalismo a ser demolido não é o político mas o econômico. A democracia burguesa ou formal não deve ser revogada mas ampliada ou aprofundada até tornar-se popular.

Em geral os socialismos, por diversas vias - como plebiscitos, referendos, meios de comunicação virtuais, etc - buscam superar a democracia burguesa de Locke jamais revoga-la implementando uma ordem autocrática ou absolutista. A liberdade para os socialistas é um valor real que buscam conciliar com a igualdade desprezada pelos capitalistas.

Daí o tema dos socialistas em geral ser: Igualdade e Liberdade e/ou vice versa.

Donde se concluí que por via alguma o socialismo pode se apresentado como um anti humanismo. Tendo em vista seu compromisso com as liberdades e com os direitos fundamentais da pessoa humana. Podem classifica-lo como loucura ou ingenuidade mas não como um anti humanismo.

Pois mesmo a igualdade que busca não é absoluta - como a que buscam os comunistas - mas relativa. Pois trata-se como esclarece Bakhunin duma igualdade de oportunidades ou chances, a partir das quais - dentro de certos límites - as desigualdades decorrentes do esforço humano tornam-se legítimas. Não o são no contesto capitalista porque jamais se parte de condições iguais... tendo os filhos dos milionários todas as chances e os filhos dos trabalhadores chances bem reduzidas.

A todos os títulos é o socialismo uma doutrina equilibrada, que nega-se a reproduzir em larga escala os pecados do capitalismo.

Passemos agora ao comunismo.

Será ele um humanismo?

Para chegarmos a uma conclusão satisfatória comecemos separando os fins dos meios.

O fim aqui é o mesmo: o controle das atividades econômicas pelo grupo social e a consequente extinção das injustiças.

Sentido precipuamente socrático, cristão, ético que o capitalismo não possuí nem compreende.

Neste sentido há uma certa identidade de fins entre o ideal Católico e o ideal comunista, alias socialista.

Faz-se mister confessar que a seu modo é o comunismo ou brado de alarma. Uma consciência de que algo não vai bem. O sintoma de uma enfermidade quiçá bastante grave. Ora o capitalismo é esta enfermidade grave, é uma consciência acomodada, um sistema impenitente! A ponto daqueles que pretendem corrigi-lo ou enjaula-lo - como Keynes - passarem por heréticos!

O comunismo tem algo de heroico e nobre por ter se sensibilizado face as situações experimentadas pelo proletariado. Fez dele uma espécie de Messias... mas porque antes o capitalismo o havia crucificado!!! Não, este proletariado não é uma classe predestinada, um messias, um redentor ou uma categoria perfeita... É no entanto mártir da cobiça e como tal digno de lástima e de regeneração.

O Comunismo teve o mérito de percebe-lo e de converte-lo numa verdade distorcida! A qual nem por isso deixa de ser verdade. O Comunismo por um tempo importou-se com aquele ser encadeado as máquinas e sujeito a uma disciplina sub humana, aspirando redimi-lo. Há aqui solidariedade! Há aqui alteridade! Então há aqui um conteúdo de humanismo.

Soube o marxismo ortodoxo perceber a situação ou identificar o problema. O que não soube foi soluciona-lo, adotando uma metodologia incorreta, alias amplamente empregada pelo capitalismo.

Antes que o comunismo santifica-se os golpes de estado, desesperando do processo histórico e da educação, o capitalismo implementara a democracia burguesa ou representativa por meio de golpes de estado. E se a Revolução Russa foi uma sedição, que foi a tão festejada Revolução francesa de 89???

Golpes fomentados por elites sem qualquer participação popular que derrubaram os monarcas absolutistas. Não o povo! Pois não houve nem plebiscito, nem referendo, nem qualquer tipo de consulta uma vez que o bom povo era monarquista em sua maioria (!!!). Foi a imposição duma ordem democrática. E já sabemos porque nossas democracias sequer estão consolidadas. Porque ainda não se aprofundaram ou ampliaram tornando-se mais consistentes e reais... Porque ainda não assumiram a forma grega... Uma vez que houve a sobreposição de formas democráticas sobre uma cultura monárquica, ocorrendo a educação para a democracia 'a posteriori'.

Nem é para admirar que os EUA em pleno século XIX ainda perpetrem golpes democráticos sempre mal sucedidos!

Jamais nos libertamos do golpismo. Não é apanágio exclusivo dos comunistas mas vício de que se serviram os liberais do passado cuidando apressar a História e burlar o processo de produção cultural.

Nem mesmo quanto a panaceia ditatorial pode o liberalismo eximir-se.

Afinal Robespierre não teve de fazer-se ditador após a grande Revolução, cuidando apressar a História? A qual tornou a recuar assim que ele fechou seus olhos... não tivemos a ditadura florianista aqui no Brasil, logo após o 15 de Novembro???

Democracia que precise apoiar em ditadura, que tido de democracia é esta?

Trágico foi o erro de Lênin ao sancionar a ditadura do proletariado ora atribuída aos sociais democratas Marx e Engels. De marxista tem a ditadura marxista muito pouco... Marx jamais considerou seriamente a politica e jamais aprofundou suas pesquisas neste campo. Não foi ele quem concebeu o partido como uma espécie de igreja sem deus ou vaticano secularizado, mas Lênin.

Pode-se justifica-lo no entanto se se leva em consideração o espirito do povo russo, impermeável a cultura democrática européia. Como implantar uma democracia burguesa numa cultura 'tzarista'? Absurdo dos absurdos! Tinha mesmo o marxismo russo ou bolchevismo de assumir as formas autocráticas oferecidas pela cultura e apresentar-se em certo sentido como uma continuação do tzarismo. Não deve portanto a Revolução dos russos constituir objeto de nossos melindres.

Problema aqui é desejar transpor a realidade russa - em termos de leninismo - para países em que havia já uma cultura mais ou menos democrática em formação, revertendo este quadro e fomentando ditaduras. Tal o equivoco sinistro do comunismo ou bolchevismo. Desejar reproduzir a experiência russa noutros contextos e culturas.

Tal o erro dos Estados Unidos, das potências ocidentais e desses comunóides e anarcóides que chegaram a vislumbrar primaveras democráticas num contexto islâmico. Quando sabemos que os fundamentalismos e massas fanatizadas só podem ser contidas - e devem se-lo - por regimes despóticos e autoritários. Do contrário a tentativa de implantar-se uma democracia de dentro para fora degenera sempre em teocracia, por falta duma consciência laicista e dum sentido da liberdade.

Pecam comunistas, anarquistas e mesmo socialistas, ao examinarem as terras do Oriente por falta de afinidade com a cultura. Os EUA erram e pecam porque interferem e seus adversários pecam e erram porque esperam do islamismo o que ele não pode dar ou fornecer: suporte para a policracia e para o socialismo. Assim os tontos que em 17 esperavam poder implantar uma ordem democrática onde antes florescerá o tzarismo! Assim os que em 89 juntamente com Robespierre cuidavam lançar os fundamentos de um mundo mais justo e fraterno numa cultura ainda demasiado monárquica, religiosa e um pouco burguesa...

Quando os homens aprenderão que devem caminhar em comunhão com o processo histórico agindo dentro de determinados limites e sem cogitar poder apressar a História?

Resta-nos não só concluir que em que pese seu fim humanista, os métodos adotados pelo comunismo não só não foram humanistas como chegaram a ser inumanos. Foram todavia tais métodos tomados ao liberalismo, 'pai de todas as Revoluções' como diziam De Maistre, Veuillot, A Nicholas e outros reacionários do século XIX. A mesma sensação experimentada pelos liberais de hoje face a propaganda comunista e as diversas tentativas de golpe foram já experimentadas pelos monarquistas do século XIX. Agora se os liberais perpetraram golpes contra os feudais e substituiram-nos por que lamentam-se tanto face a possibilidade de golpes comunistas???

Por todos estes títulos é necessário descrer nos golpes enquanto solução para os problemas sociais e confiar na educação e nas instituições democráticas. Caso desejem abalar o estado burguês, sirvam-se da desobediência civil de Thoureau! Tal o sentido do socialismo!

Reconheçamos enfim que o liberalismo econômico não é o anjo que pretende ser nem o Comunismo o demônio que pintam uma vez que este limitou-se a reproduzir os erros e falsidades daquele, tendo inclusive o mérito de acrescentar-lhe uns temperos ou cheiros de humanismo; coisa que o liberalismo econômico jamais possuiu.

Algo há de humanismo no Comunismo ainda que ele não seja humanista em decorrência de seus métodos materialistas e grosseiros, resultados de uma visão determinista de mundo. Agora no capitalismo, que não passa de um culto arqui sacrílego tributado a Mamon não resta humanismo algum. Pois a afirmação dos economicismos foi a morte do ideal, da razão e da ética.

Capitalismo, Socialismo e Comunismo face ao humanismo I

Definições:

  • Capitalismo: O mesmo que liberalismo econômico ou sistema de livre mercado
  • Socialismo: Existem diversas formas de socialismo > solidarismo, personalismo, keynesianismo, social democracia, anarco socialismo, marxismos heterodoxos, etc Todas estas formas tem por comum as seguintes características:
  1. Controle do mercado - ou planificação -  pelo grupo social em termos de estado ou sociedade apenas; do que decorre a negação do economicismo, na medida em que a atividade econômica é regulamentada por leis externas a si, politicamente elaboradas
  2. A conciliação da igualdade com o ideal da liberdade. O Socialismo encara como positivo o sentido da liberdade - seja pessoal ou político - legado pelo liberalismo burguês.
  3. Opção preferencial por termos pacíficos ou institucionais.
Opõem-se portanto o socialismo não só o liberalismo econômico ou capitalismo mas também a 'ditadura do proletariado' - bem como a toda e qualquer forma de totalitarismo - e a noção de golpe ou Revolução em termos sangrentos; logo ao comunismo.
  • Comunismo: Marxismo ortodoxo, leninismo, bolchevismo, capitalismo de mercado. É um tipo específico de socialismo (pretensiosamente científico) caracterizado pelo autoritarismo. Esta fundamentado nas flutuações políticas de K Marx (cujo conhecimento em termos de ciência política era deficiente) e nas lucubrações despóticas do russo W Lênin. Faz apologia do golpe e da revolução em termos físico, materiais ou violentos.

Analisemos agora, pormenorizadamente, cada um destes sistemas face aos imperativos do humanismo, definido enquanto teoria voltada para o bem estar do ser humano.

Já foi dito por alguns. Leio-o em Berdiaeff (Nova Idade Média) que o capitalismo é um humanismo.

Mas se seu fim último do capital é o lucro e suas normas e regras ditadas pelas necessidades do Mercado como poderia se-lo?
Digo, pelo contrário que este sistema inverteu e subverteu a legítima ordem das coisas.

Não foi o homem feito para o capital, o lucro, a economia... MAS A ECONOMIA FEITA PELO HOMEM. Donde sendo humana, deveria ser humanitária e humanista e subordinar-se a um princípio ético ou espiritual qual seja o bem comum, qual seja a justiça. Tal no entanto não se dá e pelo simples fato de que o liberalismo postula o reino autonomo e portanto o primado da economia. Recusando-se a admitir qualquer controle, não só social e político mas mesmo ético.

Neste sentido as leis da economia são tão amorais quanto as leis da física ou da química e a estrutura do mercado sabe tanto de justiça quanto a estrutura do átomo ou da célula.

Não o capitalismo não pode subordinar-se as exigências da justiça uma vez que tal subordinação implicaria controle externo ou limitação. Admitir isto seria a negação da doutrina do lucro máximo que é seu motor.

Verdade seja dita sem ocultação: o capitalismo esta posto para o lucro ou o acumulo de bens materiais ou riquezas e não para o homem. Não contempla a condição integral deste homem. Sendo tão ou mais materialista do que o Comunismo tem mutilado o homem desde o princípio. De fato ele não se preocupa com a mente do homem, com o sentimento do homem, com as potencialidades do homem; enfim com o que há de imaterial, de ideal, de transcendente neste homem. O capitalismo não cogita em consciência.

Filho seu, o comunismo limita-se a reproduzir e a levar adiante os vícios produzidos por ele qual seja a mistica ateísta, o materialismo vulgar, o imediatismo, o tecnicismo... São carne da mesma carne e sangue do mesmo sangue. Não, caro leitor, não foi o Comunismo que assentou o reino pecaminoso do anti Cristo neste mundo impedindo o Cristianismo de Encarnar-se ou o Catolicismo de inspirar toda uma rodem social; foi o liberalismo econômico. Foi este que por meio do protestantismo nascente atalhou os passos do Cristianismo frustando-o ou impedido-o de realizar-se nas estruturas sociais produzindo uma cultura humanista.

O comunismo é e será sempre consequência. A causa ou raiz do mal, do mal estar da civilização é, a par do agostinianismo/calvinismo, o capitalismo, Foi este que pela primeira vez, e na prática, negou o primado do espírito afirmado pela Helade gloriosa. Foi este que lançou as bases duma ordem materialista mecanicista submissa a necessidades artificiais e que alienou o homem do trabalho. Quando Marx veio ao mundo deu já com o homem demolido e a sociedade humana em frangalhos.

Não sou eu quem o diz, é Berdiaeff ainda, é Bloy é Belloc, é Mounier; os quais estudaram a fundo a patologia de que sofre a civilização e a crise de identidade porque passamos.

O comunismo nada removeu.  PROTESTANTISMO E CAPITALISMO é que removeram os fundamentos antigos, eternos e transcendentes da cultura abrindo um abismo a nossos pés.

Primeiro demoliram os princípios gerais duma fé Católica por definição e privaram o homem desta inspiração. Foi feito... e o protestantismo não podia mesmo substituir como pretendia, o Catolicismo. Até seria hipocrisia de sua parte assumir o papel da igreja que tanto criticara...

Restou no entanto a razão!

E podemos dizer que restou mundo. Pois trata-se do critério adotado pela civilização clássica, sobre o qual bem se pode construir uma Ética (racionalista) objetiva e comum acima da democracia meramente formal ou do político e do econômico. No entanto esta Ética como admitia Kant carecia de um Legislador Supremo. Cheirava assim a deísmo ou a teismo naturalista desagradando os ateus fanáticos.

Alias, por pura e simples questão de oportunismo, aqui; o genial e divino Kant jamais foi levado a sério por seus pupilos, alguns dos quais até apresentaram-no como idiota. Podemos discordar de Kant e repudiar seus dogmas anti metafísicos, mas não te-lo por idiota apenas porque tornou ao ponto de partida ou fez a volta do parafuso.

Imolaram a metafísica e a Ética e tomaram a ciência por guia infalível. Segundo critério da sensação e da percepção ou da experiência. Aqui ainda resta algo; mas já não é transcendente... uma democracia meramente formal ou vazia de conteúdo e portanto relativista do ponto de vista da Ética ou da moral e uma ciência que a semelhança do mercado repudia qualquer coisa que pretenda estar acima de si mesma.

Mas a ciência era concreta.

Por fim vieram os pós modernos, profetas do subjetivismo e do relativismo absolutos, vigários de Hume e aniquilaram este positivismo já desmoralizado pelos Católicos e Racionalistas. E nada mais houve de objetivo ou concreto acima da democracia formal e do liberalismo econômico. Porque a morte da razão matou a ética... destruiu o espaço comum, antes ocupado pela fé Católica e nada restou.

Assim diante das sucessivas mortes da fé, da razão e da percepção só podia mesmo prevalecer o domínio material do econômico, manipulado descaradamente uma forma democrática vazia ou igualmente relativa.

Todas essas mortes e estes cadáveres acumulados desde os tempos da reforma protestante é que tem alimentado o urubu do capitalismo. Ajuntando-lhe ainda mais podridão...

Os capitalistas no entanto asseveram que seu sistema é um humanismo na medida em que afirma não só a liberdade econômica, mas também as liberdades pessoal e política dando continuidade ao ideal greco cristão.

Cumpre desfazer semelhante falácia.

E certificar publicamente que a liberdade acenada pelo liberalismo econômico não passa duma liberdade meramente teórica ou farisaica pelo simples fato de estar desvinculada da justiça. De fato o que o capitalismo dá com uma mão tira com a outra. Assim o que assegura formalmente impossibilita na prática.

Acena de fato com a liberdade mas na prática priva a maior parte das pessoas das condições concretas que constituem os meios porque a liberdade afirma-se e é posta em prática. Admite que o homem é livre mas impede-o de viver livremente por falta de meios ou condições materiais quais sejam habitação, roupa, comida, etc Como pode ser livre uma pessoa que vive de salário? Poderá ela viver sem trabalhar? Escolher entre trabalhar ou não? Escolher entre viver ou morrer? Será que poder trocar de patrão ou senhor constitui mesmo a mais refinada expressão da liberdade humana?

É uma liberdade fantasma, ilusória, aparente.

Pois não contempla a totalidade ou ao menos a maior parte dos seres humanos, mas meia dúzia de privilegiados apenas. É uma liberdade excludente, elitista, aristocrática, de uns poucos. E conquistada as custas da sujeição alheia. Regime que na verdade produz dependentes, clientes ou lacaios numa escala gigantesca. Ao menos quando não é externamente controlado... deixando de ser o que é.

De fato, capitalismo bom, é sempre capitalismo enjaulado ou controlado em certa medida por algum agente de natureza externa. Satisfeitas as exigências descabidas dos 'clássicos' ou dos neo liberais temos uma escravidão ou servidão disfarçada, produção de massas humanas angustiadas e porta de entrada para os fundamentalismo e o fim da civilização. O capitalismo ao invés de brindar o ser humano com o exercício concreto da liberdade tem é brincado com 'massas' humanas, alienadas, acriticas e despersonalizada fornecendo ao teocracia a matéria prima de que precisa para destruir por completo a civilização,

Tem além disto, restringido ou diminuído o espaço do liberalismo político como esclarece Arendt e sabotado a cidadania. Preparando os homens para o autoritarismo religioso ou secular, De fato as necessidades do capital e ritmo de trabalho tem impossibilitado uma reflexão em larga escala a respeito do político e o aprofundamento da cidadania numa perspectiva democrática de democracia pura ou direta. Mais ainda, tem o liberalismo econômico, quando ameaçado por qualquer reação socialista ou trabalhista, traído sordidamente o liberalismo político e negociado com a democracia e os direitos da pessoa humana. Tem sido infiel a seus princípios teóricos, criticado hipocritamente o comunismo e apadrinhado golpes e ditaduras e recorrido a déspotas e se associado a tiranos!

Donde chegamos a constatação de que o liberalismo econômico encara o liberalismo político ou a democracia formal como uma espécie de meio para exercer o controle da Sociedade. Quando perde o jogo, acaba com a partida. E subvenciona golpes, sedições, inquisições políticas que nada ficam devendo ao bolchevismo.

O bolchevismo no entanto assume seu totalitarismo, enquanto que o liberalismo econômico continua a apresentar-se hipocritamente como seu defensor e redentor; quando é na verdade seu algoz e o principal responsável por seu fracasso.

Pois para impedir que a sociedade exerça seus direitos de controle sobre a produção econômica e o acumulo de bens, impede que a democracia seja ampliada e aprofundada, despojando-se das faixas representativas com que foi atada por Locke e assumindo sua forma primitiva, real ou direta.

É um sistema que apresenta a liberdade como algo indesejável, como algo sem qualidade, como algo porque se deve viver e morrer. Eis porque os exércitos burgueses precisam de pajés ou feiticeiros sejam padres ou pastores e uma mística nacionalista que degenera quase sempre em fascismo: Porque do ponto de vista da natureza tanto mais capitalista, tanto mais indesejável ou insuportável é a vida numa sociedade! Agora do que a democracia mais precisa é de pessoas que morram por ela. Morre por ela apenas quem é livre de fato, ou seja, quem tem qualidade de vida.

O capitalismo não pretende por esta qualidade de vida no acesso das massas humanas por implicar em investimentos sociais e transferência de recursos para o humano. Logo não pretende construir uma nova Sociedade desejável, é arquiteto dessa Sociedade do desespero que encaminha o homem ao fanatismo religioso e a intolerância.

Ignora supinamente a justiça como uma palavra vã por falta de significado econômico.

Como poderia ser um humanismo???

É o pai de todos os anti humanismos e um dos anti humanismos mais virulentos. Isto que é o éthos capitalista.