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sábado, 2 de dezembro de 2023

Apresentação do Cristianismo Histórico não deturpado pelos Ocidentais ou latinos (Protestantes e romanos)


- Jamais existiram quaisquer Adão e Eva, criado a partir do barro ou magicamente feito a partir de uma costela.
Como jamais existiram árvores do bem e do mal, serpentes com asas ou patas ou ainda um jardim do Éden.
Tudo isso não passa de um relato mitológico produzido a partir do 'Enumah Elish', um relato babilônico ancestral. Alias nesse relato é o homem feito a partir do barro de modo a significar seu alto valor posto que do solo barrento da Mesopotâmia eram feitos os tijolos com que se construíam as cidades, os potes de cerâmica e até mesmo as tabuinhas com que se escrevia.
Em sua ingenuidade os antigos hebreus copiaram o relato ancestral, o que se enquadrava perfeitamente em sua mentalidade era mágico fetichista ou pré científica.
Forçoso declarar que nada há de histórico ou real em tal relato. No máximo teríamos uma ilustração alegórica sobre a presença do mal no mundo ou ainda sobre a ação organizadora do espírito sobre a matéria, ainda que muito mal compreendida. O mais provável é que o elemento material seja eterno e que o elemento Imaterial ou divino atue eternamente sobre ele produzindo uma infinidade de mundos.


- E no entanto o mal moral ou ético está presente no mundo dos humanos desde seus primórdios e representa uma infidelidade a própria consciência, testemunha de uma Lei superior e divina.

- Naturalmente que o mal moral faça pressupor, naqueles homens, consciência ou conhecimento e livre vontade. Embora o raio dessa consciência dependa das circunstâncias histórico sociais. Nem precisa ser sua extensão idêntica a nossa.

- A própria doutrina Ortodoxa declara e admite que esse mal, não metafísico ou essencial, perpetuou-se pelo exemplo, i é, através da educação, da cultura, etc Não se trata portanto um mal juridicamente imputado a pessoas inocentes e menos ainda a uma 'massa' de seres humanos. Pois não é próprio da justiça infinita transferir a culpa do criminoso aos inocentes e isso é sempre aberrante.

- Tampouco corrompeu ele por completo a natureza humana, a ponto de afetar a racionalidade e a livre vontade ou as capacidades para conhecer e decidir, limitando-se a feri-la ou debilitada. Nem poderia qualquer ação humana destruir por completo a 'Imagem e semelhança' de nosso bom Deus.

- Disto resultou a alienação da espécie com relação ao Sagrado ou uma ruptura. Noutras palavras: Perdeu o ser humano sua comunhão com Deus e com o todo ou o universo e, a partir daí, fragmentou-se ainda mais. E por esse caminho chegamos a ambivalência e ao conflito interno.

- Para sanar, recuperar, purificar e educar esse ser fragmentado e decadente, a Trindade consubstancial e indivisível, assumiu a natureza humana e se manifestou na carne.

- Nem as pessoas divinas se separaram - Qual fossem diferentes deuses. - e deram morte uma a outra ou pagou a excelsa divindade qualquer coisa a quem quer que fosse. Pois não há poder superior a ela nem é ela masoquista.
Quis a divindade partilhar da nossa condição e padecer na cruz para manifestar sua solidariedade ou seu amor e ser nosso companheira na jornada da dor e do sofrimento. E tal é um ato de infinita nobreza, gentileza, benevolência e filantropia. Embora seja Deus impassível em si mesmo, tornou-se nosso camarada por meio da natureza humana a que se uniu.
Imolou portanto a si mesmo apenas para nos atrair a si.

- Por fim todos os humanos, mesmo após a morte e sem dúvida alguma até o dia do juízo final, tem a possibilidade de se unirem a Jesus Cristo ou de abandonar o mal e passar ao bem. E alguns de nós tem a esperança de que tal possibilidade se estenda para além do juízo final e de que todos sejam recuperados ou restaurados no Deus encarnado Jesus Cristo.

Tal a versão original, legítima e correta do Cristianismo - Sem Triteísmo, expiação, predestinação ou penas eternas. - não deturpada pelos papas romanos, reformadores protestantes e sobretudo Agostinho. A Ortodoxia oriental é testemunho histórico disto.

terça-feira, 3 de março de 2020

A manipulação/exposição do corpo, o carnaval e a revolução.

Já há algum tempo estava para escrever algo sobre este tema. Fui protelando já por ser complexo, já por ser polêmico.

Até que a reação dos comunistas, anarquistas e cia ao desfile da mangueira (2020) forneceu-me a devida ocasião.

Creio ser dever meu, como articulista e formador de opinião, adiantar que esta análise, como de praxe, não será nada convencional ou destinada a agradar qualquer rebanho, seja o dos conservadores, puritanos, moralistas, fanáticos... seja o dos pós modernistas, sexistas, radifens, etc Por pensar criticamente não acompanho bandos. Penso por mim mesmo, a partir é claro de minhas fontes, sempre vastas...

Em tempos de maniqueísmo/puritanismo mostrar o corpo ou ainda manipula-lo tinha acentos sociais e políticos. Por isso Freud, Atrino, Ellis, etc, em meados de 1900 foram revolucionários... E meio século depois veio a Revolução que prepararam, já a sessenta anos.

Desde então a maior parte de nós pode assumir uma identidade sexual e paralelamente ter acesso e manipular o próprio corpo. Devemos nós considerar tal acontecimentos como um dos mais significativos da História humana, mesmo quando em diversos cenários passamos ao extremo oposto: A deificação do corpo ou da aparência física e uma sexualização exacerbada... De fato fomos de um extremo a outro, daí esperarmos por uma equilibração - Momento em que a sexualidade será encarada apenas como natural ou como parte significativa da vida (Não como seu centro ou foco).

Sabe o leitor que nossa posição face a sexualidade advém da cultura clássica. Portanto sendo reacionária por definição é igualmente progressista e livre. Somos favoráveis aos relacionamentos abertos e contra o controle ou manipulação da sexualidade pelo assim chamado 'parceiro' (s). Isto não quer dizer que sejamos libertinos ou sexistas a moda do Marquês de Sade. O quanto queremos dizer é que o corpo/sexo tem valor, um valor positivo e que a vida sexual tem significativa para o homem. Nossa mensagem tem sido sempre esta: Que a sexualidade ou o corpo sejam encarados com naturalidade não com hostilidade ou pessimismo a exemplo do passado.

Não partilhamos portanto da opinião daqueles que encaram a sexualidade como o supremo valor da existência humana, os quais costumamos chamar sexistas. Somos humanistas... Nosso feminismo diz respeito apenas a igualdade de direitos entre homem e mulher ou a condenação do machismo. Quanto ao ao valor da pessoa somos humanistas! Nem agostinianos, nem puritanos, nem sexistas... Quando nos alinhamos com os trabalhadores é apenas por questão de justiça - Tal o sentido do recorte trabalhista. Mas para além de feministas ou trabalhistas ou de qualquer rótulo - Mesmo o de Cristão Católico - o que pretendemos ser é humanistas. Nada em Sócrates, Aristóteles, Confúcio, Buda ou Jesus indicam-nos que a sexualidade corresponda ao supremo valor da existência humana, mas, uma fonte de prazer a ser corretamente gerenciada.

Não apreciamos um ou outro extremismos.

A luz do que acima registramos podemos dizer que em determinados contestos expor o corpo pode ser pessoalmente libertador, e para isto há espaços de nudismo ou naturalismo. Para além disto cada qual é livre para trajar-se como quiser, a luz de sua própria personalidade. Outra coisa e bem distinta é imaginar que sua própria nudez ou sexualidade seja social ou politicamente relevante, e este é o foco deste artigo. O problema é uma determinada pessoa ou mesmo um determinado grupo de pessoas pretender que a exposição de seu corpo seja revolucionária sessenta anos após a Revolução sexual e numa situação de reconhecida liberdade.

Reconheço seu direito de trajar-se como bem quiser ou se expor seu corpo publicamente ou ficar completamente nu. O que questiono é que semelhante atitude seja revolucionária ou melhor perigosa para o sistema. Penso ou julgo que aqueles que são ou foram perigosos para o sistema: Lamarca, Mariguella, Herzog, Chico Mendes, Dorothy Stang, Patrícia Acioli, Marielle Franco, etc estão mortos! Isto é ser socialmente relevante ou revolucionário.

A Psicologia indica muito claramente que as pessoas que tem algo a mais a oferecer não costumam cobrir ou desnudar por completo o corpo, mas vestir-se com naturalidade e equilíbrio. De minha parte ouso dizer que desconfio dos homens e mulheres que costumam ostentar os membros do corpo, cultivar doentiamente a forma física ou vangloriar-se da beleza, salvo é claro como fonte de renda. Para mim tais pessoas mostram a única coisa que possuem. O ser humano todavia é bem mais do que um corpo sarado ou escultural. E há a dimensão da ética, da inteligência e até da elegância... Tais elementos fazem um ser humano completo, centro de uma personalidade rica e atraente.

Claro que um corpo bonito pode ser um valor. Desde que em conexão com outros valores já citados. O materialismo crasso apenas concordaria em declarar que é o ser humano apenas um corpo a ser ostentado e nada mais... Pois, lamentavelmente a beleza corporal degrada-se com o passar do tempo, cedendo lugar ao que chamamos de feiura: Flacidez, estrias, linhas, manchas, etc A posse de princípios e valores saudáveis (Como o amor a justiça), de inteligência cultivada, de bom humor, elegância, etc são dons perenes, que jamais passam...

Para mim a exposição do corpo apenas denota um profundo vazio em termos de outros valores humanos, e nada tem de social ou politicamente relevante, menos ainda de revolucionário. Ainda aqui ouso discordar veementemente de um pós modernismo que perdeu o trem da História. É verdade que os europeus - prevalencendo-se de certa presença moralista - adoram balançar suas bundas caídas ou flácidos glúteos... No entanto, salvo a existência de concomitante greve, paralisação, etc as bundas para nada servem. Não intimidam seja o patrão ou o governo. Mobilizações, passeatas, greves, boicotes, etc intimidam os patrões e governos mesmo sem nudez ou bundas caídas. Assim você sempre poderá mostra sua buzanfa... Mas não atribuir-lhe uma conotação político social relevante.

Quer que sua nudez seja revolucionária ou relevante? Ostente-a no Iran ou em qualqer país muçulmano do Oriente Médio. No Brasil exposição do corpo não choca porque é já corriqueira...

No país do Carnaval, grosso modo, as coisas são ainda mais exóticas ou esquisitas...

Pois aqui não apenas se mostra o corpo ou ostenta a nudez, mas canta-se, dança-se... (Também se bebe cerveja aquecendo-se essa indústria ou o mercado). As pessoas exaltam-se e pulam, gritam, chacoalham o corpo, etc O que é de praxe... É o carnaval... E temos de reconhecer que faz parte de uma cultura igualmente descompassada. Posto que não vivemos mais numa sociedade fechada e repressora que dependa de uma válvula de escape... Mas como já o disse - Compreende-se.

O que não compreendo é que se atribua qualquer relevância política ou caráter revolucionário a tal festividade, especialmente quando gerenciada por essas colossais agremiações chamadas escolas de Samba, alias subvencionadas pelo poder estatal i é verba concedida pelas prefeituras ou mesmo por agremiações empresariais... Mesmo o Carnaval popular, realizado pelos blocos de rua, com suas marchas, degenerou em comércio de bebidas! Há alguns anos quando subimos a S Paulo para protestar contra o vampiro golpista Michel Temer, demos com um bloco de rua muito aminado e marchinhas satíricas... Foi muito divertido acompanha-lo. Sabido é no que resultou essa muito animada reunião... Em nada! Cantamos, pulamos, gritamos, dançamos... e o Temer lá continuou no poder. Mesmo algumas escolas de samba do pais satirizaram o vampiro, assim os trens elétricos do Nordeste... Mas a situação ficou na mesma.

O que quero dizer com isto é que é da condição ou da cultura do Brasileiro rir ou tirar sarro de tudo, brincar, pular, dançar, cantar, gritar, ostentar o corpo... Fazer carnaval. E se fica eternamente nisso. E disto não resulta absolutamente nada de concreto! Quando o Carnaval com suas sátiras conquistou algo para o povo??? Não, não se passa disso... E os políticos ou demagogos bem sabem (Daí injetarem dinheiro nas Escolas de Samba). Por mais que a esquerda caricata e pós modernista aclame o desfile da Mangueira como revolucionário os políticos não tem receio ou medo dele, pois sabem que ao chegar a quarta feira de cinza os sambistas estão em suas casas curtindo a ressaca do dia anterior ou se recompondo, não com coquetéis molotovs ou fuzis em mãos!!! E disto não sai ou saíra revolução... Passada a febre do carnaval sobe a maré do conformismo...

Ulisses Guimarães já o dizia: 'Político tem medo do povo nas ruas...' [Com pedras ou paus nas mãos e fazendo greve geral.] - os parentéticos são nossos. Não de massas chacoalhando-se no sambódromo. Lá também estão os políticos nos camarotes, degustando caviar, bebendo champanhe e paquerando as filhas do homem trabalhador...

Tal a realidade e nada do que a mangueira fez ou fizer para ganhar troféu e prêmio vaio mudar isto.

Encarar a mangueira, qualquer escola de samba financiada pelo poder público ou time de futebol, como organizações revolucionárias não é menos ingênuo ou tolo do que encarar a Assembléia de deus ou a CCB como organizações revolucionárias...

Querem curtir o Carnaval, beleza... Só não me venham dizer que os políticos vão se sentir ameaçados ou ter medinho das passistas seminuas ou do passista tinindo sua cuica... Pois é isto o cúmulo da alienação.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Notulas sobre o pensamento medieval

- Após as invasões germano/árabes, as simples escolas e instituições educativas clássicas desapareceram. Que dizer então de uma Filosofia agonizante? Doravante a reflexão Filosófica será posta a serviço da Teologia Católica ou Ortodoxa, enquanto tentativa de se compreender racionalmente os elementos da fé Cristã. Enquanto atividade autônoma, iniciada mil anos antes pelos gregos a Filosofia chega ao fim.

- Julgo jamais ter existido uma Filosofia escolástica. No entanto diversos problemas de ordem filosófica foram postos e examinados no contesto da Teologia escolástica, sem que a profundidade da reflexão ficasse comprometida.

- O primeiro teólogo Cristão a servir se largamente da Filosofia clássica foi S Clemente de Alexandria, a quem devemos a transcrição de cerca de trezentos fragmentos clássicos, doutro modo perdidos. Seu exemplo foi seguido por Orígenes, famoso escolarca alexandrino, por Eusébio de Cesárea e outros, até S João Damasceno, primeiro expositor a fazer uso de Aristóteles e guia, por assim dizer de Tomás de Aquino.

- Parte dos cristãos ocidentais ou latinos, mais afeitos a gramática ou a arte retórica bem como as instituições do direito romano, chegou a nutrir sérios preconceitos contra o manejo da Filosofia pelos crentes, do que temis exemplo no 'anti teológico' Tertuliano.

- A principio Agostinho assimilou o pensamento Oriental, chegando a compor uma obra contra os académicos, há muito comprometidos com o ceticismo. Posteriormente no entanto, toda sua concepção de mundo é sua teologia foram afetadas pela queda do Império Romano ou pela Invasão de Roma por Alarico. Desde então assumiu ele uma posição maniqueísta, deturpando o conceito de pecado ancestral, negando o livre arbítrio, afirmando a predestinação e construindo um sistema próprio chamado agostinianismo ou grafismo o qual serviu de base ao luteranismo e ao protestantismo de modo geral. Tal sistema é pessimista da antropologia a epistemologia, havendo alguma evidência disto ja nas Confissões. Com efeito está a Agostinho nas bases de - Al Achari, Al Gasali, Ockhan, Lutero, Montaigne, Jansenio, Pascal, dos 'tradicionalistas', de grande parte dos neo conservadores e de outros tantos irracionalistas.

- Devemos ao Cristianismo histórico, Católico, Ortodoxo, tradicional ou episcopal, em termos de literatura a conservação de parte significativa da produção clássica compilada pelos monges da Assíria a Irlanda. Em termos de Ética a retomada ou conservação do ideário humanista/reformista proposto por Sócrates e Platão, o que foi constatado tanto por um Nietzsche quanto por um Werner Jaeger. Em termos de gnoseologia realista um certo apego  velha tradição aristotélica bem como a metafísica grega tradicional. É o quanto nos liga ao mundo antigo, enquanto elemento de continuidade. Neste sentido a Igreja histórica ou antiga é como que um cordão umbilical que ainda nos liga a Cultura clássica.

- O falacioso conceito agostiniano de pecado original, com toda sua carga de pessimismo, remete nos a queda ou a morte do Homem grego romano enquanto ideal/padrão posto pela cultura, assim ao trauma ou impacto produzido por esta queda. A falência dos projetos Socrático e Aristotélica, ao cabo de quase mil anos, não podiam deixar de repercutir no ideário dos Cristãos iletrados do Ocidente produzindo um paradigma negativo.

- Não poderia nem pode o islã produzir qualquer contribuição ao pensamento Filosófico. No entanto, a princípio - Tal e qual os judeus a partir de Aristóbulo e Filon - Continuados no decorrer da Idade Média por Avicebrom e Maimonida - e os já citados padres Cristãos - não podiam os muçulmanos, instalados na orla do Mediterrâneo ou nos domínios do Império Persa, permanecer impermeáveis ao patrimônio cultural clássico. Ali instalados quase que de pronto foi o pensamento Filosófico introduzido por convertidos Cristãos (Ou mesmo por clérigos Assírios, Siríacos, Coptas e Bizantinos) ou Zoroastrianos resultando em duas vertentes rivais: A Mutakallim ou Alh al Kalãm e a Mutazila. A primeira, representada por Al Isfaraini 'Ostad' fazia uso da Filosofia com o objetivo de compreender ou justificar o sentido tradicional dos elementos da fé. A segunda, representada por Ibn Ubayd e pelo próprio Averróis (Ibn Rodh), adotou um posicionamento mais crítico, buscando soluções de compromisso bastante ousadas.

Ao cabo de três séculos foi a Mutazila condenada pelos líderes religiosos e teólogos ortodoxos do islã como uma contaminação ou poluição grega e classificada como heresia. Por fim no século XI, Al Achari e Gazali, usando de material grego fornecido pelo ceticismo ou pelo agostinianismo - E antecipando Ockhan, Lutero e Kant - atacaram já a percepção, já a razão em benefício da fé cega, assim dos livros e profetas. O que se seguiu após eles foi uma inquisição feroz... O remanescente dos Mutazilas refugiou-se em Al Andaluz junto aos últimos Umayas, onde em pouco tempo veio a extinguir-se cedendo espaço a estreita ortodoxia sunita. E como diz Reilly o pensamento racional e livre jamais tornou a renascer no seio do Islã, prova de que era de fato um elemento exógeno, em oposição a cultura árabe ou semita. Possivelmente Averróis foi o único Filósofo situado no contesto islâmico.

- A Teologia escolástica de modo geral não sufocou o exercício Filosófico, antes estimulou o mesmo quando o fazia convergir para outro fim e o subordinada à outra área do saber. Penso na Escolástica como um período de gestação ou ventre, em que foi gestada a Filofosia moderna, novamente senhora de si.  O próprio Descartes não foi capaz de romper por completo com esta tradição, embora como Filósofo da Natureza ou epistemologo científico buscasse já por um.novo critério ou padrão.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Por que 'Ela só pensa naquilo...' - O propósito de Damares Alves e da Continência...

Não me julgo fanático, exceto pela liberdade.

Compreendo assim que livremente assumida a continência sexual ou o celibato, representem valores dignos de respeito. Assim se alguém gerencia ou controla sua sexualidade sem tornar-se neurótico ou por ter um propósito/sentido mais elevado, quem sou eu para critica-lo? Nem posso deixar de encarar o que chamam de sexismo i é a super valorização da dimensão sexual como algo negativo. Quando afirmamos que a sexualidade não deve ser satanizada/negativizada mas encarada com naturalidade não queremos dizer com isto apresentar o sexo como supremo valor da vida humana ou a sexualidade como seu aspecto mais importante. Para nós a sexualidade, mesmo quando encarada com naturalidade, sempre será parte da vida, não a vida. Nós não assumimos a posição de um Marquês de Sade, deplora-mo-la, tanto quanto deploramos o maniqueísmo. Uma coisa é o corpo ser aceito, outra negado e outra idolatrado... fugimos aos extremos.

No entanto, enquanto parte, defendemos uma sexualidade livre e isenta de pre conceitos.

E quanto a continência ou ao gerenciamento da vida sexualidade, encara-mo-lo como possível valor apenas quando livremente assumido pelo sujeito a partir de suas conclusões, i é, apenas quando é significativo para ele e jamais como algo imposto por alguém ou mesmo pela sociedade.

Como fator formativo da personalidade humana a dimensão sexual da vida deve ser considerada com todo cuidado e certamente ser gerenciada pelo sujeito. Claro que no setor familiar da Sociedade serão oferecidos ou mesmo impostos certos tipos de conduta como desejáveis, isto a guiza de educação. Desde que não haja excessos, como a agressão, temos um fenômeno normal. Certamente que a partir daí podem resultar seríssimos problemas. Tal no entanto é o curso da vida, ao menos em seus primeiros passos. Agradeça a natureza ou a Providência aquele que teve a sorte de obter pais ou educadores amorosos, liberais e pacientes. Os demais só tem a chorar...

No entanto para além da infância e da adolescência, é normal e justo que o homem adulto, na posse de sua liberdade, reconsidere os princípios e valores recebidos, mormente quando lhe parecem já sufocantes, já tacanhos; e quando produziram em si determinados problemas ou patologias psíquicas, assim traumas, bloqueios, fobias... Pois tudo isto e muito mais pode produzir uma sexualidade artificial, reprimida ou excessivamente limitada. Então é justo que, apesar das ameaças dos padres arrogantes ou dos pastores imbecis, a pessoa se reavalie e reconstrua a si próprio, questionando a educação sexual que recebeu.

Normal que os pais controlem - até certo ponto e apenas com determinados meios - a sexualidade dos filhos e não trataremos mais disto. Parece um direito ou uma necessidade natural, mesmo quando sofra os mais terríveis abusos por parte de pais neuróticos.

Agora por que raios aspiram os padres e pastores (No tempo presente estes antes de todos)- Por vezes os reis, presidentes, generais e patrões... gerenciar a sexualidade alheia?

Já disse que sexo é poder e que o exercício da sexualidade implica relações de poder, mais talvez que de afeto... Controlar a dimensão sexual do outro é controlar o outro, é domina-lo, é dispor dele. Quando alguém dispõem do poder de uma Nefer Nefer de 'O egipcio' (Mika Waltari), de uma Dalila, de uma Lais, de uma Gruchenca... estebelece-se a relação senhor/servo, uma escravidão. A dependência afetivo/sexual pode ter a força de correntes e cadeias, advertem o padre e o pastor, partindo da fina psicologia do antigo testamento, cujo fundo talvez reconheça a grande força ou o grande poder da líbido sobre o sexo masculino. Não vou entrar aqui nos termos da relação Homem, Mulher e Líbido ou dependência -

Sucede porém que a mesma relação por assim dizer 'se reproduz' sempre que outrem, seja padre ou pastor, passa a direcionar a sexualidade alheia. Também aqui, por meio de uma continência ou de uma abstinência imposta (Na qual muitas vezes não se vê o mínimo sentido.) por uma autoridade externa, estabelece-se uma relação de dominação e poder, mesmo porque, quem admite ser guiado externamente quanto a própria sexualidade dificilmente estabelecerá limites ou fronteiras quanto a qualquer tipo de controle externo, concedendo em ser dirigido por completo i é quanto a todos os setores da vida. Uma pessoa dominada por outra quanto a todos os setores da vida, tendo abdicado de sua liberdade, converteu-se num boneco ou numa marionete.

Voluntariamente assumido por uma pessoa adulta a Continência ou o Celibato podem ser libertadores  e contribuir no sentido de constuir-se uma personalidade heroica, no pleno sentido da palavra. Já dissemos: Controlar, dominar ou gerenciar a concupiscência ou pulsão (Impulso) sexual, transferindo esta energia para outro setor qualquer da vida e escapando a neurose, é quase uma obra divina.

Abdicar artificialmente da sexualidade por imposição externa, além de ser a porta de entrada da neurose e da insanidade, pode estabelecer uma relação desigual de poder e assim dar vezo a um controle moral, econômico, social e político. Generais, técnicos de futebol, demagogos politiqueiros, patrões ambiciosos, etc sucedem cada vez mais ao charlatão ou déspota religioso, buscando impor a transferência de energia, e obter um time ou exército vitorioso ou uma maior produção de bens...

Felizmente patrões, técnicos, ideólogos, etc não dispõem do mesmo poder que os padres e pastores ou dos meios de um General. E o atleta, o proletário, o afiliado e mesmo o soldado (Fora da caserna) sempre poderão farrear e burlar ou mentir. Os líderes religiosos apenas podem possuir a alma e o coração do homem, mesmo quando o ameaçam com os míticos fogos do inferno... e é aqui que o controle obtém sucesso e se torna absoluto. Caso o lider decrete: Vocês, meus fiéis, transarão ou farão sexo assim e assado (Estabelecendo um roteiro ou receita em nome de Cristo), a situação esta decidida e aqueles que concordam sinceramente convertem-se em matéria plástica... como cera quente.

Nem se trata de chegar ao celibato ou a abstinência provisória absoluta. Basta que as formas sexuais sejam dadas ou definidas por outrem no sentido de permitido e não permitido. Admitido este tipo de moralidade temos o controle. Talvez por isto o Verbo Jesus praticamente não revindicou autoridade sobre a sexualidade humana ou apresentou seu Evangelho como um Kama Sutra, dum Deuteronômio ou de um Sahi (Hadith), recusando-se a fazer o jogo dos oportunistas e ambiciosos e confiando no poder da verdade. Quando leio o Evangelho, buscando mostras de controle sexual e falhando em encontra-lo, não poucas vezes consolida-se minha fé na Divindade deste Jesus que tem tão pouco em comum com os manipuladores de homens e demagogos.

Tornando ao tema em questão, depreende-se do quanto foi escrito e do fato segundo o qual, não possui a sociedade política sólidos e profundos conhecimentos psicológicos a respeito da personalidade humana, a ponto de, tal e como os pais e responsáveis, gerenciar a sexualidade alheia ou mesmo educa-la, impondo qualquer tipo de padrão comum ou coletivo. Os pais exercem tal gerenciamento por necessidade absoluta, dentro dos limites de seus lares. E cada lar assume um tipo de olhar, lei ou padrão distinto, não cabendo a sociedade ou ao poder político selecionar ou padrão ou julgar o tema. Mormente quando devem estes jovens obter a autonomia, fugindo inclusive a autoridade paternal. De modo algum poderia o Estado assumir este caráter paternal ou paternalista - a menos que o velho Filmer estivesse correto rsrsrsrsrs - apresentando-se como cuidador de um rebanho de adultos, aos quais pelo contrário convém dirigir todos os assuntos do Estado, desde que principiem por obter a autonomia que os caracteriza como pessoas humanas e não como vil rebanho de alimárias!

Alias a simples ideia implícita no projeto do Estado anti liberal brasileiro educar sexualmente os jovens, sugerindo-lhe modelos de conduta, já pressupõem a intenção de gerenciar e uniformizar e assim de dominar o futuro cidadão, convertendo-o em simples tutelado, impedindo-o de atingir a autonomia e consequentemente frustrando os ideais liberais e democráticos. É uma refinada e oculta forma de controle e opressão imposta por um governo híbrido ou amorfo, parte militarista e parte economicista liberal, inspirado nos modelos irracionais e sectários importados dos EUA.

O espectro do maniqueísmo estatólatra - Satanizando a dimensão sexual da vida...



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É necessário fechar as portas do totalitarismo... Tranca-las, trava-las com ferrolhos de aço, com os ferrolhos do liberalismo, não do econômico e dúbio é claro, mas, com os ferrolhos dos liberalismos saudáveis, do Liberalismo moral, do Liberalismo social e do Liberalismo Político, guardiões de nossa civilização, ou do que ainda resta dela.

Neste sentido toda e qualquer brecha ou fissura deve ser imediatamente denunciada e execrada, por mais inocente que pareça ser. Toda grade inundação ou avalanche começa com uma pequena rachadura ou com uma pequena pedrinha... a qual se vai abrindo, ou rolando, e tudo arrastando em seu percalço e semeando morte e destruição. Tudo no entanto começou com uma gotícula quase invisível ou com um pedacinho de cristal.

Como o menino da fábula há que se por o dedo no furo e ali ficar. Para salvar o dique ou a represa. Não podemos deixar de perceber o desprendimento da pedrinha, e de gritar - Alerta, alerta!!!

É sintomático e doentio que todas as atuais e indevidas intromissões do poder público ou do Estado nas vidas dos cidadãos e em nichos que devem ser regulados pela Liberdade pessoal (Como a moralidade) partam sempre daqueles que condenam as mesmas intromissões no campo divino ou sagrado da economia (Economicistas)... Aspiram estes senhores - demagogos ou fariseus - emancipar as atividades econômicas (Inclusive face a certas exigências ÉTICAS) as custas de outros setores da atividade humana, como a política, a moralidade, etc Até podemos avançar e declarar que boa parte dos liberais economicistas são, concomitantemente autoritários em política (E favoráveis a sistemas ditatoriais ou despóticos desde que canonizem suas opiniões econômicas), puritanos ou moralistas e não poucas vezes fanáticos e intolerantes em matéria de religião.

Engana-se redondamente aquele que faz dos liberalismos um embrulho ou pacote só. Pois as aspirações do Liberalismo econômico são totalitárias e absorventes. Já declaramos um bilhão de vezes - Há um terrível conflito entre os Liberalismos e o pivô é o liberalismo econômico - Prática falaciosa que aspira afirmar-se as custas dos demais liberalismos (essenciais) sacrificando-os.

Este conflito, facilmente negado - Pelos oportunistas do pacote - faz-se cada vez mais patente em todo nosso mundo ocidental, dos EUA ao Brasil, onde vemos os capitalistas unidos e associados não apenas a ditadores, déspotas, tiranos, militarizantes, autoritários e golpistas, mas também a massas e líderes religiosos fundamentalistas, cuja suprema aspiração é criar ou recriar estruturas repressoras e moralizantes nos moldes da Torá ou da Sharia e a partir delas dominar, oprimir e escravizar mentalmente os homens livres, privando-os de sua autonomia. Compreende-se que a religião, através da vida Ética, seja INDIRETAMENTE totalizante - nos princípios e valores éticos que afirma e propõem para seus seguidores. E nisto vemos um bem. Outra coisa é ser totalitária e aspirar servir-se do Estado com o sórdido objetivo de impor uma uniformidade moral, pautada em preconceitos absurdos. Monstruoso é o Estado, por meio dos falsos liberais (economicistas), que dele se apossaram por meio de uma estrutura democrática meramente formal, aproximarem-se deste setor obscurantista.

No passado acreditava-se que os liberalismos essenciais cairiam sob os golpes do Comunismo, do Fascismo ou do Nazismo... Ora percebemos que vacila sob os golpes do fundamentalismo religioso ou sectário (Sempre resistente ao éthos ou a orientação LIBERAL, essencial a vida democrática e fundamento seu), cada vez mais alimentado e apoiado pelos economicistas traidores do liberalismo, os quais querem um Estado mínimo ou policial apenas em termos econômicos ou de propriedade. Desde que possam 'Comprar e vender' - O termo pejorativo é de Confúcio - pouco se lhes dá que as massas ou o povo como um todo seja entregue como rebanho ou gado nas garras dos líderes religiosos sem consciência... Pouco se lhes dá que a Torá ou o Corão prevaleçam política e socialmente desde que se mantenham ricos ou em posse do poder.

A suprema ameaça enfrentada pelos liberalismos essenciais e por toda civilização ou seu projeto é esta sútil aliança entre o banqueiro, o deputado/presidente e o pastor, i é entre o poder econômico (Em posse do político ou no controle) e esta fermentação sectária que demanda por uma estrutura teocrática e, consequentemente, por uma sharia ou inquisição destinada a eliminar os dissidentes e a extinguir as diferenças, até uniformizar moralmente o homem, convertido já em escravo...

O objetivo agora - Pasme cidadão!!! - é queimar dinheiro público favorecendo um determinado ideal - Particular, jamais público! - de éthos sexual: A abstinência ou melhor a continência. Nada de novo debaixo do sol... Parte considerável da igreja romana sempre foi favorável a tal tipo de solução, mas, apenas uma parte ainda menor ou mínima, arvorou-se em dirigir os governos anteriores, tendo em vista esta finalidade. Em geral a igreja romana - fazendo uso de um direito que é seu - limitava-se a orientar seus fiéis quanto a esfera da vida pessoal. O que ora assistimos, trinta ou vinte anos depois, é a atitude concreta de apossar-se do poder público e de volta-lo para uma finalidade que a própria igreja romana, há mais de trinta ou quarenta anos, reconheceu como pessoal. É algo voltado para os partidários de tal e tal agremiação religiosa, não para os cidadãos como um todo. Uma vez que as concepções e valores sexuais são distintos e todos merecem - do ponto de vista social - a mesma tolerância.

Se não cabe a esfera da religião impor tais valores e tais práticas no contesto de uma Sociedade pluralista, menos ainda ao Estado pode caber tais aspirações!!! Não cabe a uma dada seita ou grupo religioso julgar uma sociedade política pluralista. Como não cabe ao poder político faze-lo, arvorando-se em juiz de moralidades distintas. Foi o governo constituído para velar pelo bem comum ou pela dimensão do comum, assim pelos imperativos da ÉTICA, pela interação e conduta social, etc não para interferir na dimensão privada das vidas de seus cidadãos. Sem que disto deixe de resultar a mesma confusão entre o público e o privado que alimentou - A não muito tempo - a prática anti liberal e anti democrática da censura e pouco antes dela as inquisições e autos de fé.

Penso e julgo que os cidadãos livres deveriam fazer algo de concreto face a tal abuso. Pleiteando junto aos meios jurídicos, últimos guardiães dos princípios e valores liberais... O que a cidadã Damares esta planejando nada é além de mais uma investida - A última foi contra a agremiação artística Porta dos fundos - urdida pelos fundamentalistas e fanáticos religiosos (Em geral bíblicos, calvinistas e pentecostais - Sempre com o apoio e imbecis úteis pertencentes as igrejas Ortodoxa e romana.). São eles os principais promotores desta nova Cruzada puritana ou moralizante bem a gosto dos E U A.

Aprovado esse tido de campanha não tardarão os moralizantes (Exportados pelo Sul dos E U A) a
avançar e ditar 'regras' a fala, ao vestuário, ao cardápio, etc até chegarmos ao modelo da Genebra de Calvino, o qual sempre pretenderam impor a sua pátria de origem - Sem que jamais obtivessem completo sucesso. Admitida uma intervenção esses urubus jamais recuarão, pararão ou se darão por satisfeitos. Até lançarem toda Torá pela guela desta infeliz república, convertendo-a em Califado bíblico protestante. Começarão, a princípio, idealizando outras tantas campanhas com o dinheiro público - Isto com o objetivo de criar entre nós (Ou de consolidar) uma consciência puritana ou moralista tanto mais agressiva. Serão campanha contra o Palavrão, a Masturbação, a Homo afetividade, as roupas curtas ou imorais, determinadas músicas ou danças até chegarem a abstinência de álcool, exatamente como nos E U A...  Em seguida eles tentarão impor tais costumes ou pontos de vista e opiniões por meio da lei.

Consiste isto em utilizar do erário com o objetivo de construir ou alimentar determinada consciência IDEOLÓGICA. Levado a cabo, hipocritamente, por um governo que se diz descomprometido ou não ideológico, apenas por não ser comunista rsrsrsrsrs Como se fosse o Comunismo a única Ideologia da face da terra... Enquanto o governo fiscaliza ou finge fiscalizar, arbitrariamente, uma única janela, entram ideologias muito piores (Inspiradas no Sagrado!!!) pela porta escancarada de um Estado muito pouco liberal.

Foi um ministro do STF que recentemente proferiu esta alocução imortal (Se bem que constante num autor como John Gray - Apud Anatomia): Estamos assistindo a uma manobra maligna, a construção de um Estado democrático não liberal ou anti liberal. Noutras palavras: Ao invés de avançar e construir uma democracia cada vez mais real e proativa como na Antiga Grécia, estamos implementando aquele modelo defeituoso de Rousseau (apud Nisbet), apenas uma casca ou carcaça de democracia, uma mera estrutura externa (Sem vida) ou formalismo. Um tipo de democracia como este, destinado a impor a vontade de algum grupo majoritário e a extinguir a liberdade não é democracia, apenas tirania exercida pela maioria, e em detrimento de direitos fundamentais.

Num momento crucial como este só me pode ocorrer e vir a mente uma figura.

A figura exponencial de um J S Mill. Espectro hoje - Para quem tem a felicidade de conhecer - mais ameaçador do que o de um Marx ou o de um Proudhon, quando penso Mill, penso Freud, Malthus, Peter Singer, Marcuse, Nearing... E alguns outros rebeldes seletos. Imaginem só, face a mística irresponsável e destrutiva de um capitalismo - C ujas aspirações parecem ser infinitas o valor de um conceito tão racional quanto "Economia estacionária". Foi cunhado por J S Mill há século e meio. No entanto Mill soube ir além e levar seus princípios as derradeiras consequências. Por isso Gray (Opus cit.) ousou declarar que ele aceitaria com absoluta naturalidade tanto a prática da Eutanásia quanto a da Homoafetividade como decorrências lógicas e necessárias de sua doutrina sobre a liberdade, alias, a que tem dado suporte a nossa cultura democrática e vivificado nossas instituições marcadas por guerras fratricidas, pogrons, golpes, censuras e inquisições.

A figura soturna e patética da Sra Damares oponho este colosso do pensamento humano chamado J S Mill. Isto numa Era preocupante, em que as massas tupiniquins principiam confundir Mill ou Ellul com Marx, liberalismo político ou policracia com Comunismo (rsrsrsrs). Alias para eles tudo é comunismo é os pastores ineptos só avançam graças ao espantalho do Comunismo, o qual falseiam e distorcem, apenas para apresentarem-se como nossos defensores...



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domingo, 17 de junho de 2018

De vera doctrina - Fragmentos da Encíclica "Graves de communi re" por Leão XIII > Contra os monarquistas/integralistas e CAPITALISTAS

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1 - O tecnicismo nada resolve:

"As mudanças, também, que as invenções mecânicas da época introduziram, a rapidez da comunicação entre os lugares e os dispositivos de todo tipo para diminuir o trabalho e aumentar o ganho, todos adicionam amargura ao conflito." I 


2 - O remédio é a doutrina pura do Santo Evangelho:

"
Tornamos evidente que os remédios que são mais úteis para proteger a causa da religião, e para terminar a disputa entre as diferentes classes da sociedade, deveriam ser encontrados nos preceitos do EVANGELHO." II



3 - Sugestões concretas em favor dos mais humildes:

"
Na ordem de ação, muito tem sido feito em favor do proletariado, especialmente naqueles lugares onde a pobreza era pior. Muitas novas instituições foram estabelecidas a pé, aquelas que já foram estabelecidas foram aumentadas, e todas colheram o benefício de uma maior estabilidade. Tais são, por exemplo, os escritórios populares que fornecem informações aos não instruídos; os bancos rurais que fazem empréstimos a pequenos agricultores; as sociedades para ajuda mútua ou alívio; os sindicatos de operários e outras associações ou instituições do mesmo tipo. Assim, sob os auspícios da Igreja, uma medida de ação unida entre os católicos foi assegurada..." III 

4 - Se os pobres são explorados pelos ricos?

"
bem como algum planejamento na criação de agências para a proteção das massas que, de fato, são tão freqüentemente oprimidas pela astúcia e exploração de suas necessidades como por sua própria indigência e labuta." III 

5 - O nome Socialismo Cristão foi adotado pelos Católicos embora, segundo o Papa, seja ambíguo ou dúbio:

"
O nome do socialismo cristão, com seus derivados, que foi adotado por alguns, foi muito bem permitido cair em desuso." IV 

6 - O nome 'Cristãos sociais' ou 'Católicos sociais' teve voga:

"
Nos países mais preocupados com este assunto, há alguns que são conhecidos como cristãos sociais. Em outros lugares, o movimento é descrito como a Democracia Cristã e seus partidários como Democratas Cristãos, em oposição ao que os socialistas chamam de Democracia Social. Não é dada muita exceção ao primeiro desses dois nomes, isto é, cristãos sociais, mas muitos homens excelentes consideram o termo "democracia cristã" censurável." IV 


7 - O que o Papa considera equivocado no Socialismo ou na Social Democracia são o materialismo e o naturalismo:

"
O que é a social-democracia e o que a democracia cristã deve ser, certamente ninguém pode duvidar. O primeiro, com a devida consideração pela maior ou menor intemperança de seu enunciado, é levado a tal excesso por muitos a ponto de sustentar que não há realmente nada existente acima da ordem natural das coisas, e que a aquisição e desfrute de corporalidade e externa bens constituem a felicidade do homem." V


8 - A Justiça é preceito sagrado. E o direito a propriedade pessoal:

"
Portanto, para a democracia cristã, A JUSTIÇA É SAGRADA; deve sustentar que o direito de adquirir e possuir propriedade não pode ser impugnado..." VI9 - CONDENAÇÃO DO INTEGRALISMO MONÁRQUICO OU DA MONARQUIA DIVINA:

"
Pois, as leis da natureza e do Evangelho, que por direito são superiores a todas as contingências humanas, são necessariamente independentes de todas as formas particulares de governo civil, enquanto ao mesmo tempo estão em harmonia com tudo o que não é repugnante à moralidade e justiça." VII"São, portanto, e devem permanecer absolutamente livres das paixões e das vicissitudes dos partidos, de modo que, sob qualquer constituição política, os cidadãos possam e devam respeitar as leis que os ordenam a amar a Deus acima de todas as coisas, e a seus vizinhos como eles mesmos. Esta sempre foi a política da Igreja. Os Pontífices Romanos agiam de acordo com esse princípio, sempre que lidavam com países diferentes, independentemente do que pudesse ser o caráter de seus governos. Portanto, a mente e a ação dos católicos devotados a promover o bem-estar das classes trabalhadoras nunca podem ser acionadas com o propósito de favorecer e introduzir um governo no lugar de outro." VII
10 - O TRABALHISMO não pode ser condenado sob qualquer alegação:
"
que ninguém condene aquele zelo que, de acordo com as leis naturais e divinas, visa fazer a condição daqueles que trabalham mais toleráveis; permitir-lhes obter, pouco a pouco, os meios pelos quais podem prover o futuro; ajudá-los a praticar em público e em particular os deveres que a moralidade e a religião inculcam; para ajudá-los a sentir que não são animais, mas homens, não pagãos, mas cristãos, e assim capacitá-los a se esforçar mais zelosamente e mais ansiosamente pela única coisa necessária; ou seja, aquele bem final para o qual nascemos neste mundo." X11 - A questão social não é meramente econômica (ERRO POSITIVISTA) diz respeito a Ética e a Religião (conexão com a religião):

"
Nós projetamos especificamente aqui a virtude e a religião. Pois, é opinião de alguns, e o erro já é muito comum, que a questão social é meramente econômica, enquanto na verdade ela é, acima de tudo, uma questão moral e religiosa, e por essa razão deve ser estabelecido pelos princípios da moralidade e de acordo com os ditames da religião." XI12 - O mandamento do amor fraternal abarca o que é necessário para o bem estar desta vida ou para a vida do corpo físico e não apenas o espiritual - CONDENAÇÃO DO ESPIRITUALISMO MANIQUEÍSTA:

"
estar atento ao que Cristo tão amorosamente disse aos Seus:" Eu lhes dou um novo mandamento: que vocês se amem uns aos outros, como eu os amei, que vocês amem-se uns aos outros. Por isso todos os homens saberão que são meus discípulos, se vocês se amam um pelo outro. "(7) Este zelo em vir ao resgate de nossos semelhantes deve, é claro, ser solícito, primeiro para o eterno bem das almas, mas não deve negligenciar o que é bom e útil para esta vida." XIII
"
Ele declarou que levaria em conta especialmente a caridade que os homens exercitavam um para o outro. E nesse discurso há uma coisa que excita especialmente nossa surpresa, a saber, que Cristo omite aquelas obras de misericórdia que confortam a alma e se referem apenas àquelas que consolam o corpo, Ele as considera como sendo feitas a Si mesmo: estava com fome e me deste de comer, estava com sede e me deste de beber, eu era um estranho e tu me acolheste, nu e me cobriste, doente e me visitaste , estive na prisão e viestes a mim. " XIV

13 - As antigas instituições sociais criadas pelos antigos com o objetivo de aliviar o sofrimento humano obedecem a LEI da caridade:


"
Esta lei da caridade que Ele impôs a Seus Apóstolos, eles da maneira mais sagrada e zelosa colocada em prática; e depois deles aqueles que abraçaram o cristianismo originaram aquela maravilhosa variedade de instituições para aliviar todas as misérias pelas quais a humanidade é afligida. E essas instituições continuaram e aumentaram continuamente seus poderes de alívio e foram as glórias especiais do cristianismo e da civilização de que ela era a fonte, de modo que os homens de mente certa nunca deixam de admirar essas fundações, conscientes de que são da tendência dos homens se preocupar com os seus próprios e negligenciar as necessidades dos outros." XV14 - Buscar o BEM COMUM e não apenas o pessoal:

"
Assim, a justiça e a caridade estão tão ligadas umas às outras, sob a lei suave e doce de Cristo, que formam um admirável poder coesivo na sociedade humana e levam todos os seus membros a exercer uma espécie de providência em cuidar dos seus próprios e em procurar o bem comum também. XVI"Pois ninguém vive apenas por sua vantagem pessoal em uma comunidade; ele também vive para o bem comum, de modo que, quando outros não podem contribuir com sua parte para o bem geral, aqueles que podem fazê-lo são obrigados a compensar a deficiência. A própria extensão dos benefícios que eles receberam aumenta o fardo de sua responsabilidade, e um relato mais rigoroso terá que ser prestado a Deus que concedeu essas bênçãos sobre eles. O que também deve exortar todos ao cumprimento de seu dever a esse respeito é o desastre generalizado que eventualmente cairá sobre todas as classes da sociedade se sua assistência não chegar no tempo; e, portanto, é que aquele que negligencia a causa das massas angustiadas está desconsiderando seu próprio interesse, bem como o da comunidade." XIX
15 - Instituições permanentes de auxílio:


"
No que diz respeito não apenas ao auxílio temporário concedido às classes trabalhadoras, mas ao estabelecimento de instituições permanentes em seu favor, é de louvar que a caridade as realize." XVII16 - A caridade e a solidariedade não caem na esfera da liberdade, mas da ESTRITA OBRIGAÇÃO:


"
Faríamos com que eles entendam que eles não são de todo livres para cuidar ou negligenciar aqueles que estão abaixo deles, mas que é um dever estrito que os vincula." XIX

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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Repressão sexual, civilização, barbárie e sexualidade - Ensaios sobre Freud




Uma das abordagens mais interessantes de Freud diz respeito certamente a relação existente entre repressão ou limitação do prazer e Civilização ou cultura.

Conforme teoriza ele a criação da Sociedade Civilizada só foi possível a partir da limitação do prazer. Inclusive do prazer sexual, dentre outros. Não nos esqueçamos de que o próprio ócio é um prazer.

No entanto este mesmo homem também se via ameaçado pela decadência de seu próprio corpo que é a velhice, pela enfermidade, pela dor, pelos movimentos arbitrários da natureza e, o que é pior, pelo convívio com seus próprios semelhantes. De modo que as ocasiões de sofrimento não eram poucas.

Diante disto concebeu e implementou o ambicioso plano de alterar, até onde fosse possível, as forças da natureza, tendo em vista reduzir ao máximo as ocasiões acima elencadas. A partir daí foi que surgiu a técnica e posteriormente a ciência, as quais ao menos por um tempo tornaram sua vida mais amena.

O espaço em que a técnica surgiu e em que a vida tornou-se mais amena foi o espaço urbano das primeiras cidades. Com a expansão da vida urbana é assumido um ideal de civilização ou de desenvolvimento.

Tudo isto já o sabemos...

Há no entanto muita coisa de interessante nas entrelinhas a par de algumas possíveis deduções apressadas que poderiam ser feitas. É este aspecto embutido na teoria freudiana de Sociedade que queremos abordar.

A dar a limitação do prazer e a restrição da sexualidade por impulso em termos de civilização e as civilizações por mais ou menos desenvolvidas a primeira conclusão a ser sacada é que quanto mais notável é uma civilização tanto mais repressora é. A dar tal inferência por exata seriamos forçados a concluir que as civilizações egípcia e sumeriana, grega e romana, chinesa e indiana foram acentuadamente maniqueístas, puritanas e repressoras.

Ao que parece a hipótese do Dr Freud, em termos de uma repressão meramente funcional i é relacionada com a disciplina do trabalho. As civilizações ou melhor o esforço dispendido tendo em vista a elaboração delas, teve por consequência uma redução, relacionada ao menos com o montante de tempo gasto com a obtenção de certos prazeres sensíveis, dentre os quais o sexo. Caso aqueles homens primitivos tivessem optado por estar dormindo ou fazendo sexo durante a maior parte do tempo disponível por um lado o trabalho coletivo seria impossível de ser realizado e por outro chegariam ao esgotamento. O tempo teve de ser ordenado e a fruição do prazer, do lazer ou do ócio relegada a um determinado período. Além disto, na mesma medida em que o esforço fosse tanto mais intenso e o gasto de energia maior, a própria fruição do prazer devia ser restringida.

Houve uma restrição em termos de prazer, não todavia em termos absolutos, senão em termos relativos e funcionais. Nos períodos em que não estavam trabalhando e nas horas do dia em que não estavam trabalhando aqueles homens deviam ter livre acesso ao prazer. Outro aspecto tanto mais importante e digno de ser considerado é que a restrição dos prazeres em tais sociedades, as mais avançadas, deu-se prioritariamente em termos de quantidade, jamais ou quase nunca de qualidade ou forma. Necessário ressaltar este aspecto. Quero dizer que em nenhuma das civilizações acima apontadas topamos por exemplo com a condenação de alguma forma de fruição sexual em si mesma. Assim a prostituição, assim a masturbação, assim a homoafetividade... jamais chegaram a ser questionadas em si mesmas. Restrita quanto ao acesso em termos de tempo, a sexualidade chinesa, indiana, egípcia, sumeriana ou greco romana permanece aberta, indeterminada e rica quanto as formas.

Como não pretendo escrever uma História do sexo na antiguidade ou nas antigas civilizações, digo das mais desenvolvidas e, graças as escavações em Pompéia estamos bastante bem informados sobre a presença do sexo na vida dos antigos romanos, limitar-me-ei em abordar, de passagem apenas, a sexualidade no antigo Egito. Nada ali era tabu uma vez que Ramsés, o grande Faraó, contraiu matrimônio com sua própria filha Meritamon. De fato o sexo estava difuso em toda civilização Egípcia, a começar pelo universo religioso. Aton, o deus primordial, masturba-se com o objetivo de produzir os primeiros seres divinos. Chu e Tefnut transam produzindo Geb e Nut, os quais dão origem aos primeiros reis divinos. Crianças assistiam a realização do ato sexual feito por seus pais. Noutras circunstâncias Geb pratica a auto felação. Amiúde os deuses são representados com o falo ereto, ejaculando. O próprio Faraó masturbava-se publicamente no Nilo, uma vez por ano, com o objetivo de fecundar a colheita. Segundo um mito já clássico Isis após recompor o corpo do falecido Osiris recria seu falo por meio da magia. Cenas de caça são pintadas nos túmulos significando veladamente a sexualidade. Havia um deus da líbido, da dança, da embriagues, do sexo; o qual era Bes. O papiro erótico de Turim, representando a vida quotidiana num bordel de Tebas, expõem aos leitores cenas explicitas de masturbação feminina, etc Preciso mencionar a saga do padeiro Panet? E mencionar que sequer foi castigado ou punido pela lei? Nem preciso dizer que os antigos egípcios não tinham maiores problemas com seus corpos ou com a nudez; que meninos e escravos andavam praticamente nus enquanto que as mulheres da elite limitavam-se a cobri-se sumariamente com um pano de linho fino. Nada mais comum em Deir el Medinat do que desenhos de natureza sensual ou erótica. O matrimônio era flexível, o divórcio comum, a poligamia e a semi poligamia amplamente disseminadas e a mística da virgindade ignorada. Mesmo a homo afetividade era originalmente tolerada desde que não houvesse subjugação forçada. Além disto os egípcios drogavam-se usando flores de lótus, embriagavam-se com cerveja, etc, etc, etc Prazer ali não parece ter sido tabu.

Trabalhavam, e refiro-me aos trabalhadores livres, no entanto esses egípcios dez dias durante a semana. Sendo assim como encontravam energias ou forças para praticar sexo? Acaso não estaria o sexo apenas na imaginação ou na fantasia de tais pessoas??? Algumas pinturas e representações parecem indicar-nos que a vetusta civilização do Nilo conhecia já o que chamamos de excitantes ou melhor dizendo substâncias afrodisíacas. Certamente não faziam sexo a todo tempo mas quando o faziam faziam intensamente. E no entanto apesar da fruição do prazer, seja por meio do sexo, da cerveja, dos narcóticos ou da dança, a civilização Egípcia foi o que foi. Não sobrecarregou ao extremo seu povo com tabus sexuais, os quais sequer existiam.

Quanto aos antigos indianos limitar-me-ei a mencionar que são os autores do Kama Sutra...  Diga-se o mesmo do Tantra.

Outro é o caso da sexualidade na Mesopotâmia, pelo simples fato de que achasse esta região de par com as 'terras santas' do islã e do judaísmo, e devido a presença da cultura semita. Claro que tomamos por base aqui a cultura original sumeriana ou de matriz sumeriano/asiânica, atendo-nos especialmente ao Sul desta região, ocupado posteriormente pela cultura babilônica, em oposição ao Norte assírio muito mais bem mais semitizado. Tenha-se em mente que os acádios são um povo sêmita.

Compreende-se portanto porque o tema foi relegado ao silêncio e porque a sexualidade dos mesopotâmicos foi ocultada ou mesmo negada desde os bons tempos da 'santa' rainha Vitória... Apesar disto salta a vista de todo e qualquer sumerólogo o aspecto positivo com que os antigos babilônicos não apenas encaravam mas representavam, comumente, o sexo. Basta dizer que a Epopéia de Gilgamesh refere-se ao sexo como um dos principais prazeres de que os mortais devem desfrutar enquanto passam pela vida. O texto de Shumma âlu CIV, 1,14 refere-se explicitamente ao sexo anal sem adicionar qualquer juízo depreciativo. O mesmo texto acima citado refere-se positivamente a prática homossexual desde que levada a cabo com um 'assinnu' ou prostituto profissional, excluindo a coação (outra era a postura dos assírios). Já foi sugerido alias que havia certo conteúdo homo afetivo entre Gilgamesh e Enkidu. A prostituição por fim era tida em conta de sagrada e em algumas regiões deviam as moças prostituir-se em honra a deusa do amor Astarte. O incesto no entanto é tido em conta de Tabu e a mulher goza de muito menos liberdade do que no Egito. Não se pode no entanto sustentar que a primitiva Sociedade mesopotâmico/sumeriana fosse demasiado repressora ou mesmo repressora em termos de sexualidade ou de prazer. Tornou-se no entanto cada vez mais limitada e policiadora na medida em que o elemento sêmita se foi tornando preponderante, especialmente ao Norte, entre os assírios.

Após termos passado em revista a sexualidade em tais civilizações, a saber as mais desenvolvidas e ricas da antiguidade, podemos estabelecer que mesmo admitindo-se como certa aquela redução quantitativa em termos de prazer necessária a produção da cultura, a forma por assim dizer do contato sexual jamais tornou-se objeto de tabu ou policiamento, e que inexiste por assim dizer uma relação proporcional entre restrição ao prazer ou melhor dizendo entre preconceitos de natureza sexual e grau de desenvolvimento cultural. O desenvolvimento da cultura ou o florescimento da civilização antiga não parece estar na dependência do que podemos classificar como comportamento moralista, maniqueísta ou puritano em termos de negação consciente do corpo ou do orgasmo. Tal tipo de relação é o que não se constata. Eis a primeira relação a que chegamos.

O que nos leva a um problema ou a uma pergunta.

E a existência das culturas maniqueístas implica algum tipo de relação em termos de sentido ou organização social.

Quanto a esta pergunta talvez nos seja possível sugerir um caminho novo ou diferente.

Não precisarei ser erudito ou onerar o leitor com outra aula de História com o objetivo de sugerir uma certa relação existente entre a repressão sexual, os tabus, a negação do corpo ou o maniqueísmo e o espírito agressivo ou a belicosidade de algumas culturas.

Chegado a este ponto devemos esperar pelos protestos de alguns. Os quais dirão que todos os povos e culturas da antiguidade eram agressivos e belicosos na mesma proporção. Este tipo de afirmação se me parece arbitrário e artificial, gratuito enfim. Típico daquela gente simplória que diz para si mesma: Como todas as culturas são iguais todas devem estar em posse das mesmas qualidades e dos mesmos defeitos. Aqui tudo muito apriorístico.

No entanto ousarei perguntar a toda essa boa gente relativista por que não damos com as mesmas cenas de empalamento, esfolamento, tortura, etc representadas nos painéis dos palácios assírios no contesto da antiga China? Por que no Egito temos um Akhenaton abolindo os sacrifícios sangrentos e cogitando sobre a igualdade existente entre todos os homens enquanto o rei da Assíria declara estimar tanto a boa leitura quanto o hábito de cortar as orelhas e narizes de seus prisioneiros de guerra? Por que os Egípcios após terem tomado uma cidade limitavam-se a matar ou escravizar os combatentes enquanto que o 'povo eleito de jao' i é os antigos israelitas massacravam sem piedade até mesmo as crianças, os idosos e os animais que habitavam as vilas tomadas por eles? Por que os indianos ou mesmo os egípcios não saíram pelo mundo afora gritando 'Converte ou morre'? Então pelo amor de Zeus não venham dizer-me que a violência estava presente com a mesma intensidade na antiga China e na Assíria. Na antiga Índia e no antigo Israel. Na cultura islâmica e no antigo Egito.

Indianos, Egípcios e Chineses mal saíram de seus domínios com o intuito de conquistar outros povos ou de submeter outras culturas e mesmo quando foram levados a faze-lo (no caso do Egito após as invasões dos Amu) fizeram-no muito a contragosto e obedecendo determinados padrões de humanidade. Sumerianos e mesmo os Babilônicos, durante certo tempo, tampouco fugiram a estes padrões. Outro é o caso dos Assírios, dos antigos hebreus e dos árabes cujas façanhas todos nós conhecemos muito bem. Assírios pilhavam e aterrorizavam outros povos. Os hebreus promoveram ao que parece o primeiro genocídio de que temos notícia na História e os muçulmanos, a princípio árabes em sua totalidade, buscaram levar sua jihad aos confins da terra. Do que resultou uma quantidade de agressões, mortes, derramamentos de sangue e destruição apenas comparáveis as futuras guerras dos cem anos, dos trinta anos e mundiais...

Certamente que algum estudioso tanto mais realista fará questão de apontar-me os determinantes geográficos ou climáticos, o que vem sendo apontado desde os tempos de Ibn Khaldun e foi assumido entre os nossos, pela primeira vez, por Montesquieu. Os povos do deserto - e estamos diante de três culturas sêmitas - tendem a ser mais rudimentares, agressivos e belicosos do que os povos agrícolas das planícies ou cidades, em função de suas vicissitudes como o nomadismo ou a falta de recursos. Longe de mim questionar que tais fatores possam também eles cooperar quanto a gênese deste espírito belicoso. Suspeito no entanto que neste terreno qualquer enfoque monocausal seja improcedente, e que devamos tal caráter a uma convergência de fatores, assim em parte ao clima ou ao solo, mas não somente a ele.

Há aqui algum ou alguns fatores a mais e nós acreditamos poder identificar um deles com a negação do corpo e a restrição da sexualidade intencionalmente decretadas pelo legislador com o objetivo de potencializar ou de aumentar ao máximo esta alegada agressividade já favorecida pelo meio. Que a cultura semita se tenha esforçado - muito provavelmente mais do que quaisquer outras culturas - no sentido de ocultar o corpo humano e em nega-lo se me parece indubitável. Que tenha adotado igualmente uma série de tabus com relação a fruição do prazer sexual não me parece menos evidente. Tal o escopo - a princípio - do machismo e da homofobia, e posteriormente - já no contesto judaico 'cristão' da modernidade - da monogamia, da indissolubilidade matrimonial, etc Até a formação de um super ego estritamente moralista, em conexão com uma cultura moralista, a qual impôs o recalque dos desejos como sinônimo da virtude ou ideal a ser alcançado por todo homem piedoso.

Certamente resultaria de tais medidas uma epidemia de neuroses a ponto destas assumirem um caráter coletivo, isto caso as religiões de Assur, Javé e Ala, não canalizassem toda a agressividade latente produzida pelo recalque sexual para os domínios da guerra religiosa, tornando tais povos mais agressivos do que já eram ou belicosos no mais alto grau. Pelo que vinculamos essa produção intencional de agressividade e violência a afirmação desse padrão cultural maniqueísta ou puritano e a revolta instintiva latente nesta multidão de recalcados. Em certo sentido a negação da sexualidade chegou a produzir um sentido de Tanatos, um certo desprezo pela vida e uma certa tendência para morte decorrente da infelicidade e da frustração. Não é sem menos razão que podemos relacionar a mística revolucionária assumida por certas pessoas com problemas, desajustes ou disfunções de caráter sexual a apresentar ao menos alguns revolucionários fanáticos como não realizados sexualmente e portanto como seres amargurados. A frigidez, a impotência e a impossibilidade do orgasmo tirou de tais pessoas a vontade de viver a ponto de converte-las em suicidas inconscientes. Guerras, sedições, conflitos, etc dependem de eunucos ou de meios eunucos, enfim de gente que não goza... Assim é que se formam os exércitos e multidões de incendiários revoltosos, os quais ligam muito pouco valor a suas próprias vidas.

A Idade média tinha de ser combativa. Grécia e Roma tiveram de ser combativas; pois havia toda um conjuntura externa que favorecia a combatividade. As idades moderna e contemporânea não conheceram semelhante conjuntura, e no entanto foram ainda mais belicosas. Desde o século XVI ao XIX o número de guerras e conflitos recrudesceu, declinando apenas a partir de meados do século XIX. Durante todo este tempo que vai da reforma ao período vitoriano os ideais maniqueístas e puritanos embutidos na sociedade Cristã pela cultura judaica não cessaram de consolidar-se. O que não pode ter deixado de aumentar ainda mais a pressão do recalque e portanto a produção da agressividade e o desejo inconsciente pela destruição. Desejo que originalmente inexiste, sendo produzido, bom dize-lo, pela cultura da repressão. Seja como for, durante quase trezentos anos este desejo alimentou um sem número de guerras e conflitos estimulados e sancionados pelo fanatismo religioso. Esta relação - Repressão, agressividade, conflito e Religião, marcou toda uma Era, até os idos de 1830 ou 48. Desde então assistimos, sem que o puritanismo saísse de cena (afinal estamos em sua Idade dourada que o período vitoriano), uma redução do número das guerras e dos conflitos ( a qual se prolonga até o surgimento da primeira grande guerra mundial). Neste caso que foi feito de toda esta agressividade?

Desde 1830, com a consolidação do modelo de produção liberal ou capitalista nos moldes clássicos, foi a agressividade canalizada para outros fins, assim para o mundo do trabalho, tornando sua relação com a própria sexualidade ambivalente. Até que Freud apareceu em cena, e após ele os contraceptivos e as Revoluções sexual e feminina, dispondo todas estas relações doutro modo.