Mostrando postagens com marcador Max Nordau. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Max Nordau. Mostrar todas as postagens

domingo, 29 de julho de 2018

O veredito de Henri Mann - E A C Grayling, Pinker, etc II

Resultado de imagem para Henri de Man belga







Aqui chegamos a De Mann, e o deixamos para o fim apenas por ter concentrado sua crítica numa destas culturas de morte, o comunismo ou marxismo ortodoxo. Grosso modo De Man não nega o Marxismo, aprofunda-o. Parte dele e ultrapassa-o dialeticamente. Não toma Marx e Engels como escrituras canônicas e inspiradas, dialoga com eles, buscando isolar-lhes dos defeitos, para consolidar-lhes os méritos.

Os marxistas não levam isto a bem. Pois animados por uma mística secular ou por uma religiosidade inconfessável não podem admitir que Marx ou Engels, como seres humanos que eram, se tenham equivocado. Para eles criticas Marx ou Engels equivaleria a criticar o Evangelho para um Cristão, a criticar a Torá para um judeu ou a criticar o Corão para um muçulmano, equivaleria enfim a uma heresia... Do contrário os marxistas dialogariam com Marx tal e quam dialogamos com Platão, Cícero ou Agostinho... Entre eles no entanto Marx é citado como autoridade, em termos de 'Magister dixit' tendo inclusive sucessão apostólica, ao menos para os leninistas... Lembrem-se das carinhas e do culto a personalidade tão característico entre eles como a devoção aos santos entre os Cristãos. É todo um Vaticano em miniatura, digo o partido comunista russo, com seu CC, politburo, etc i é Rota romana, santo ofício, papa, cardeais... No entanto, como os 'católicos' integralistas estão acostumados a saber rsrsrsrsrs tomar soluções políticas a modelos religiosos não é nem um pouco recomendável...

A primeira dentre as conclusões sacadas por Man é que o marxismo só é válido enquanto teoria econômica, o que sabe a Herr, Jaurés, Andler, Bauer e toda escola de Franckfurt...

Outra constatação sua, que sabe a Grayling e que chega a ser obvia é que o Marxismo corresponde a ética ou ao ideal Católico secularizado. Tornou-se - o socialismo antes do comunismo - vingador de um ideal Cristão que a igreja, em determinado momento havia abandonado. Como fora também, em certos casos, herdeiro de um ideal tanto mais apurado de democracia (popular, direta, semi direta) sacrificado pela burguesia vitoriosa. Dito isto De Man recorrer ao argumento clássico e irretorquível segundo qual o socialismo realizou-se apenas nas velhas sociedades cuja cultura era Cristã, e digo mais Católica. Pois como salienta Sombart pais protestante algum - até a Escandinávia já descristianizada dos anos 30 - assumiu esta pauta, especialmente os EUA, que a ela se mostraram refratários, passando a comandar a resistência anti socialista (cf Sombart 'Por que o socialismo não floresce nos Estados Unidos'?)

De Man responde com simplicidade declarando que: É do Cristianismo que procede este sentimento de igualdade acalentado pelas massas; da época feudal, com o equilíbrio entre direitos e deveres... De fato fora este Cristianismo e não o arreio dos cavalos, como quer o Dr Noel, que havia convertido o escravo ja em homem livre ou em servo, mesmo quanto limitara-se em afirmar a plena igualdade religiosa entre os homens, verdade jamais admitida pelo paganismo antigo, para o qual os escravos eram escravos ou seres inferiores mesmo face aos deuses e em tudo quando concernia a vida religiosa. Pois este homem não pode ser igual face aos deuses sem que se torne igual a todos os homens! Ademais os escravos sempre se poderia atribuir outras funções aos escravos, e nada implicava a necessidade absolutas de liberta-los!

"Os móveis da convicção socialista não são criação do tempo presente, tem seu ponto do partido num passado remoto."Tão remoto quando chega a um Urukagina de Lasgash ou, numa perspectiva Cristã, a Orígenes, Cipriano, Justino... ou ao tempo em que os Cristãos tendo vida em comum tudo partilhavam uns com os outros; ideal assumido perpetuamente pela instituição modelar dos mosteiros. Em que os heróis da fé vivem vida sóbria ou regular, servindo de exemplo a toda comunidade, com o objetivo de lembra-la de que estamos de passagem neste mundo, e de que acumular corresponde a um objetivo sórdido e egoísta, a avareza.


O socialismo já existia antes de qualquer movimento operário e antes mesmo do surgimento da classe operária. E mesmo Henry Beer, autor insuspeito, teve de dedicar uma sessão em sua 'História do socialismo' ao Catolicismo antigo, chegando a citar Jerônimo de Stridon e Ambrósio cuja condenação a acúmulo é mais severa do que a condenação lavrada pelo comunismo. Assim Benoit Malôn no 'Socialismo integral' (1891) vol I, decida um capítulo inteiro ao Catolicismo antigo e seu conteúdo social. E mais recentemente o erudito Luiz Francisco F. de Souza em sua obra monumental "Socialismo uma utopia Cristã". Assim o florilégio patrístico intitulado 'Por que a igreja condena os ricos' editado pela casa Paulinas...


Já Tasso da Silveira, o crítico literário Católico ventilará a hipótese de que os russos haviam abraçado equivocadamente o comunismo devido a um marcado sentimento de justiça, introduzido pelo Cristianismo tradicional ou Católico Ortodoxo. E salienta que tal fora a fonte do jovem Maxim Gorki cuja pregação socialista, tão benéfica ao comunismo, jamais deixou de ter acentos Cristãos e profundamente humanos. Lembremos ainda que esse mesmo Gorki não hesitará em reprochar a Lênin seus métodos desumanos e maquiavélicos...


"Não foi por mero acaso, que os primeiros militantes do movimento NÃO HAVIAM SIDO OS OPERÁRIOS DAS FÁBRICAS, mas os obreiros semi artesãos da pequena indústria tradicional ameaçada: tipógrafos, gravadores, marceneiros, chapeleiros, relojoeiros, etc" continua o Dr De Man acrescentando o apoio dado pelos intelectuais ou funcionários públicos. Marx e Engels, como Bakunin e Kropotkin, Caffiero e Kautsky, Ruskin e Owen, etc, etc, etc Noventa por cento dos ideólogos socialistas pertenciam a classe alta, a nobreza ou a média burguesia e não a classe predestinada do proletariado. Daí ser já no princípio e se ter tornado um socialismo cada vez mais reformista ou pequeno burguês, como dizia Marx e cujo ideal era sempre parar a História ou faze-la recuar, o que Marx, progressista entusiasta, de modo algum admitia. O choque foi inevitável e para Marx o socialismo pequeno burguês converteu-se no mais odioso inimigo, por não compreender que o capitalismo devia seguir em sua marcha proletarizadora... No entanto aqueles homens queiram defender suas posições, e nem eram eles que oprimiam os proletários. Curiosamente Marx, postou-se ao lado daqueles que oprimiam os proletários e ameaçam os ofícios tradicionais, sendo, a seu tempo, encarado como traidor por eles.


O que a ideologia Marxista jamais logrou explicar foi como a consciência social dos proletários, apareceu primeiramente no setor médio ou pequeno burguês, e por que este setor não reproduziu a ideologia capitalista imposta pela ordem dominante??? Talvez como hoje, tenha havido mais adeptos da ideologia capitalista entre operários idiotas do que entre os odiosos pequeno burgueses, dos quais partiu a primeira reação ou esclarecimento.


Max Nordau, nas mentiras convencionais já aludia a esta maior sensibilidade do homem instruído e culto face as condições de injustiça, opressão e miséria. Constatando ser mais fácil o homem iletrado e ignorante suportar uma carga maior de exploração e que o funcionário publico ou o intelectual exasperava-se facilmente ao testemunhar a prosperidade do homem vulgar ou medíocre. Assim a indignação que levou a tona o velho ideal socialista não parte de proletários narcotizados mas da angústia interna ou moral de que é vítima o trabalhador intelectual, via de regra pequeno funcionário público mal remunerado. Nietzsche inclusive não pode deixar de perceber a inveja que corroía este homem desde que observava o capitalista emborcar uma garrafa de vinho do porto. O que Nietzsche não aquilatou foi que aquela inveja era justa, justa pelo simples fato de no mais da vezes aquele capitalista não passar de um charlatão fraudulento ou de um vil bajulador, enquanto que aquele, intelectual era honesto, virtuoso e capaz; enfim superior. O que nos leva a duvidar de que a atividade econômica guiada pelos movimentos do mercado favoreça a excelência e não a vulgaridade ou a mediocridade. Pareto também parece não ter levado em conta este problema e verificado se suas elites superiores eram verdadeiramente competentes em máximo grau ou as mais merecedoras.


Não adiante tentar fugir a esta verdade intuida por Platão e considerada por Gramsci:

"Os intelectuais estão na gênese da civilização. No mundo atual desempenham um papel bastante importante já que teem posse de parte do estado ao menos. Não são nem proletários nem capitalistas e me parece até que sejam mais hostis a burguesia do que os proletários, já que estão menos dominados por necessidades aquisitivas imediatistas." Lefranc 349


"Assim se para criar uma nova cultura, apenas os operários poderiam obter sucesso, apenas os intelectuais poderiam concebe-la." id ibd
O que nos leva ao dia posterior a revolução i é a tomada de poder, e a resolução dos problemas administrativos. Tão presentes no pensamento de um Bauer, de um Herr, de um Andler ou de um Blum... quanto relegados ao acaso por nossos anarcotiticas ou anarcotontos espontaneístas e irracionalistas. De fato suas conjurações ou revoluções mais celebradas foram pro vinagre como a de Paris e a Espanhola, uma e outra devido a defeitos de coordenação interna; e caso saíssem vitoriosas não podemos ter certeza de que disto não adviessem ainda piores males para a população, devido a falta de planejamento i é a leviandade.

A obra de Man segue elencando os vícios, que não são poucos, do Comunismo e como Sorel ele não pode deixar de apontar para o dogma materialista mecanicista. Que conduziu o grosso dos epígonos e diadocos de Marx a social democracia.

Ainda aqui a abordagem de De Man é significativa.

Quanto aos trabalhadores rebelados identifica ele um complexo de inferioridade face a realidade econômica e não um ódio essencial. Tudo quanto parte dos trabalhadores aspira ou deseja são compensações afirmativas por meio de leis. Identificam-se com o reformismo ou com um capitalismo limitado pelo poder político (Social democracia), com um socialismo de mercado ou estado de bem estar, que segundo creem permitirá que cada qual ascenda segundo o mérito. Sentem-se desfavorecidos pelo regime de herança, pela educação desigual, pela democracia representativa, etc e por isso aspiram por uma igualdade de oportunidade ou ponto de partida, a partir da qual a desigualdade relativa se torne justa. O que nos lembra a doutrina de Bakunin.

Ao que parece o grosso do proletariado não aspira por uma igualdade absoluta que nivele a todos ou pelo paraíso marxista sem classes. Contenta-se com o assim chamado socialismo pequeno burguês satanizado por Marx, aspira que do lado de cá a proletarização seja revertida e que tudo desemboque numa ampla classe média, não mais média é claro. Sonham com o oposto a proletarização e a expressão concreta deste sonho seriam as leis trabalhistas, a educação pública para todos, uma democracia mais participativa. Querem condições iguais para seguirem adiante, algo que não seja nem comunismo nem capitalismo ao menos o capitalismo do Laissez faire.

Destarte quanto mais reformas são implementadas e quanto mais o capitalismo é limitado ou contido, tanto mais os trabalhadores contentam-se com a situação. Tanto mais o bolo é levado a partilha por força da lei e os trabalhadores inserem-se no sistema tanto mais conformam-se com sua condição. Tanto mais é o capitalismo freado e sua marcha contida, a reação trabalhista vai perdendo sua força. E fica sendo o socialismo reformista ou trabalhista o principal 'obex' no sentido de se atingir o paraíso comunista por meio do inferno capitalista, os trabalhadores e o povo de modo geral, se não querem ver o Capitalismo desenvolver-se - exceto nos EUA e nas sociedade infectadas pelo americanismo - tampouco aspiram destrui-lo por completo. Inclinam-se como já foi dito a uma terceira via entre Comunismo e Capitalismo ou a algum tipo de socialismo ameno.

Aos marxistas restou apenas a atitude especiosa de fazer causa comum com os Capitalistas, lutando sempre pelo 'quanto pior melhor'. Devem destruir todas as situações de equilíbrio e produzir situações de conflito com o objetivo de chegar ao paraíso prometido. Caso declarem abertamente que é necessário deixar livre o curso do Capitalismo para que se desenvolva ao máximo e produza as condições históricas necessárias a revolução, se converterão em chacota. Caso assumam sua 'simpatia' pelo capitalismo selvagem chegarão ao ridículo... Tudo quanto nos resta fazer é escolher entre as duas tradições: A social democrata, que nos levará ao reformismo e a uma estabilidade que os marxistas no fundo execram ou o Leninismo, cujo idealismo implica adiantar o impossível i é a revolução, desconsiderando, do mesmo modo, o ulterior desenvolvimento do Capitalismo. Poucos são os que desejam assumir o ritmo de Marx ou caminhar com ele, e uns apostam na contenção do capitalismo enquanto outros apostam no adiantamento da revolução; e tratam-se ambas as partes por heréticas, como os protestantes que discutem sobre o que sucederá antes, durante e após a segunda vinda de Jesus... A situação é parecida.

domingo, 10 de setembro de 2017

Por que os professores se tornam socialistas ou comunistas - Uma leitura de Max Nordau


Resultado de imagem para professor socialista




Após ter, apenas de passagem, aludido a minha fé Socialista numa determinada redê social de que faço parte, um de meus amigos enviou-me a seguinte mensagem:

Percebo que a maioria dos professores são comunistas - socialistas, por que?
Existiram e existem vários lugares em que não deram certo.
Na prática aqui no Brasil daria certo?
Não é uma ideologia ultrapassada?
A ideia de Marx daria certo no nosso contexto hoje?

Por tratar-se de um jovem sincero e de boa vontade, animado pelas melhores intenções e não de um 'conspirador burguês e malvado' segundo o clichê de alguns radicais, vou tentar responder as questões levantadas segundo minhas possibilidades.

Como se tratam de cinco questões, vamos por partes, analisando uma de cada vez.

Percebo que a maioria dos professores são comunistas - socialistas, por que?

De modo geral não sei se a maioria dos professores são socialistas e menos ainda comunistas.

Eu suponho, diante da distinção que faz - socialistas/comunistas - que esteja a par da diferença existente entre os socialistas ou sociais democratas (grupo com que me identifico) e os comunistas, bolchevistas, marxistas ortodoxos, etc

Seja como for vou reforçar. A distinção é muito bem marcada por Kautsky discípulo de Engels nas Tres fontes do marxismo em suas derradeiras páginas; retomada e muito bem exposta pelo argentino Lisandro de La Torre no seu "A questão social e os cristãos sociais". Lisandro na esteira do velho Kautsky declarava que embora os objetivos do Socialismo e do Comunismo sejam próximos ou mesmo idênticos, eliminar a injustiça e estabelecer uma condição de igualdade social, estão em desacordo quando aos métodos uma vez que o socialista, via de regra, aceita a via institucional da democracia e das sucessivas reformas enquanto o comunista, via de regra, opta pela solução da força ou da sedição.

Sem embargo disto há outras disparidades não menos importantes; o aparato conceitual do Comunismo é um. Os socialismos possuem diversos aparatos conceituais, mas, em geral não dogmatizam ou insistem doentiamente sobre o ateísmo e o materialismo, havendo inclusive grupos de Católicos que sempre se apresentaram como socialistas ou sociais.

O comunismo é monolítico. São chamados 'revisionistas', 'traidores' ou renegados os que flertaram com alguma forma de social democracia; assim Plekhakov, Kautsky, Bernstein, Rosa, Bukharin, Lucaks, Althusser, etc Os quais são para o PC o que os heréticos são para a Igreja Católica. Socialismos há quanto cabeças, o Católico, o marxista heterodoxo, o anarquista, o humanista, o babovista, o georgista, o keynesiano, o distributivo, etc

Todo o que pretenda controlar externamente o Mercado, no mínimo grau, interferindo em sua dinâmica externa, pode ser definido, partindo do conceito liberal, como socialista.

Quanto a sua pergunta não tenho certeza de que a maioria dos professores atuais seja socialista.

Talvez tivessem constituído a maioria - provavelmente constituiram - entre os anos 60 e 80.

Hoje sua prevalência da-se apenas no campo das ciências humanas e o mínimo que podemos dizer é que de modo geral os professores de humanidades - História, Geografia, Sociologia, Filosofia e Psicologia, dentre outros - adotam uma postura crítica face ao sistema capitalista, que suspeitam dele, que repudiam-no e que uma parte considerável do professorado adere a algum tipo de solução socialista, havendo até certo número de comunistas.

Seja como for a identificação do professor de humanas ou mesmo de História com o militante comunista não prevalece.

Quanto ao professorado de modo geral, englobando os professores de ciências exatas e naturais, posso dizer que há um bom número de neutros e não posicionados a respeito dos problemas sociais, e um resíduo de liberais e conservadores cada vez mais atuante.

Por que a maior parte dos professores de humanidades são socialistas?

Tal sua pergunta.

Num primeiro momento direi que os professores de humanidades tendem a refletir bastante sobre o homem e a sociedade levando em conta a diversidade história no decorrer do processo histórico. Quero dizer que costumam ter uma visão de conjunto, bem mais ampla que a do leigo, e que amiúde levam em consta as variantes.

O que os leva a questionar a realidade dada ou predominante.

A maioria de nós é levada a crer a a pensar que o mundo sempre foi tal e qual o encontramos ou que as sociedades não mudam.

O Historiador no entanto pode traçar uma lista cronológica em que conste o ano em que surgiram o computador, o avião, o automóvel e tudo quando o homem de hoje julga ser indispensável a vida.

Ele sabe até mesmo que diversos modelos de organização social, assim de matrimônio, vigoraram em determinadas épocas e locais.

O que o leva a adotar uma postura tanto mais crítica e questionadora a respeito do atual modelo de organização social.

Geralmente imaginamos que as coisas são assim porque são e que não poderiam ser de outro jeito.

O Historiador, o Sociólogo, o Geógrafo, vão noutra direção e costumam a indagar se as coisas não poderiam ser diferentes e por que são diferentes.

Tendem portanto a não se contentar com o que é, tendem ao progressismo ou a mudança. O que já os aproxima do Socialismo.

Agora por que aderem a soluções socialistas?

Primeiramente porque mesmo no tempo presente - embora cada vez menos - o socialismo subjaz na cultura e especialmente no terreno da ética.

Basta dizer que nossas Sociedade até bem pouco tempo foi agrária e tradicional. O índice de coesão social e solidariedade mesmo sendo inconsciente, é bastante marcante em tais sociedades.

Temos, em nossa maior parte, ancestralidade indígena. Os índios certamente não possuem uma ideologia ou teoria socialista - como não há possuíam os antigos orientais, inclusive os judeus - na prática todavia seu modo de viver esta mais perto do modelo socialista pelo simples fato de que os índices de coesão social e de solidariedade são marcantes em tal sociedade. O que vale para todas as comunidades primitivas cf A grande transformação de Karl Polayni 

Oriundo de uma Sociedade agrária e tradicional também o Catolicismo trás este legado socialista em seu bojo. Haja visto que nossa oração padrão é o Pai Nosso não Pai meu e que nossa liturgia também possui certo índice de consciência social. A adoração Católica é regulada ou comum.

O que quero dizer é que o socialismo esta no ar ou na cultura e que suas raízes no Ocidente remontam a Sócrates, Platão e Aristóteles de modo que o simples estudo das doutrinas sociais destes pensadores nos põem em contato com ele.

Os próprios romanos apesar de sua boçalidade insistiram demasiadamente a respeito do que chamamos justiça e criaram todo um aparelho legal destinado, ao menos em parte, a promove-la.

Para onde olhamos damos com um socialismo difuso presente em diversas fontes. Não precisamos sequer olhar para Marx ou recorrer a ele.

Aqui estão Platão, Jesus e Treboniano em coro dizendo que algo esta errado em nossa Sociedade... E insistindo aqui e acolá numa princípio ideal chamado justiça.

Segundo o qual deve ser dado a cada um o que lhe pertence.

O próprio Marx, que folgava ser ateu, principia suas críticas no capital, tomando um verso do antigo testamento - não dos esqueçamos de que um dos Isaías insiste bastante a respeito da justiça em sua dimensão social - "Ganharás o pão com o suor do teu rosto." o que o leva questionar sobre o porque daquele que sua não ter pão ou morrer de fome enquanto aquele que não sua banquetear-se fartamente... Estará isto de acordo com a tal ordem divina???

Se colocarmos a pergunta nestes termos: Estará isto de acordo com a ordem natural? ou ainda Estará isto de acordo com a Ética? Não mudamos muita coisa...

De modo que tal pergunta ocorre muito facilmente aos estudiosos no campo das ciências humanas.

Há no entanto um outro fator decisivo que empurra os professores de humanidades a uma solução socialista.

Em geral os professores são pessoas muito inteligentes, as quais por algum motivo - quase sempre de ordem econômica - não puderam tornar-se bacharéis no ramo em que licenciaram-se ou seja advogados, beletristas, psicólogos, sociólogos, historiadores, etc Tornamos mais uma vez a questão das elites que são circulam ou dos homens capazes que não ascendem socialmente.

O máximo que tais pessoas conseguem é se tornar professores ou funcionários públicos, quiçá inserindo-se na ordem mais baixa da classe média.

Um professor, especialmente se funcionário público não ascenderá aos píncaros da classe média e menos ainda comporá com as elites dirigentes.

Em geral as pessoas mal informadas, medíocres, sofridas, faltas de inteligência, alienadas, etc conformam-se com o que tem. Pelo simples fato de que suas necessidades pessoais são básicas ou porque ignoram quais as condições de vida das elites. cf Max Nordau 'Mentiras convencionais de nossa civilização'
O funcionário público, em geral o professor, não só é melhor informado sobre o regime de vida das elites, como ciente de seus méritos e possibilidades. Tornando-se consciente de que não ascende ou de que não vai mais longe porque é barrado e barrado justamente por um sistema que alega hipocritamente franquear-lhe todas as possibilidades. Mas ele sabe que esta fadado a ser professorzinho de aldeia, jamais medico da corte ou advogado de renome...

Como qualquer pessoa este professor ou funcionário público tem sua família e despesas. Foge a penúria, satisfaz suas necessidades básicas definidas como alimentação, roupa, educação dos filhos, etc num termo médio de insumos. Mas certamente não lhe resta nada ou quase nada. Para viver ou manter-se gasta tudo quanto ganha, quando, por ocasião de uma crise não se endivida e passa por apuros.

E no entanto este tipo de homem, intelectualizado, não vê porque deva passar por apuros e vexames ocasionais sendo bem mais sensível a eles do que qualquer outro homem. Inimaginável a posição de um pequeno funcionário público, professor de aldeia ou intelectual de periferia, que esteja prestes a perder sua única casa... Há quem aceite o fato e vá para o cortiço ou para debaixo da ponte debulhado em lágrimas. Quanto a este homem, simples ameaça ou perigo remoto de passar por semelhante situação é capaz de leva-lo ao paroxismo, a instabilidade ou insegurança econômica inerente ao sistema capitalista incomoda-o instintivamente.

E no entanto este professor de aldeia ou pequeno funcionário público aspira ler Ovídeo ou Italo Calvino (cultura tem custo), ir ao Teatro, frequentar assiduamente o cinema, bebericar um Benedictine ou Hanessy, adquirir lá uma tela ou antiguidade, etc Tem necessidades estéticas ou culturais que não são experimentadas por outras categorias da sociedade. Aspira, inda que moderadamente, ter acesso aos mesmos prazeres que a elite econômica cuja mediocridade costuma perceber. Destarte saber que eles podem provar patê de figado de ganso ou assistir a Antígona, enquanto ele não pode, exaspera-o. cf Nordau.
O Intelectual ou homem capacitado que não atinge seu fim por saber-se limitado arbitrariamente já pelas oportunidades iniciais impostas arbitrariamente pelo sistema, torna-se frustrado, revoltado, exasperado... E naturalmente abraçará a uma proposta qualquer que acene com o velho ideal da justiça: A cada um o que lhe pertence.

Aspirará no mínimo por chances ou oportunidades iguais para as crianças e jovens (seus filhos e netos) ou por uma igualdade absolutamente necessária no começo da corrida.

Os professores via de regra são intelectuais e enquanto tais mais sensíveis a qualquer grau de injustiça, miséria, privação ou necessidade, e este aspecto psicológico tenderá, em caso de que a circulação das elites seja estancada - o que o capitalismo não cessa de fazer - a lançar todos estes homens e mulheres descontentes nos braços do Socialismo. Quanto aos princípios e valores já estão embutidos e dispersos por toda cultura latina e brasílica.