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quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

A Escola e o Terror da Reprovação...

Não sei porque pegou na Escola o gosto pela aprovação automática ou por meio de decretos políticos que fixam o número dos alunos que podem ser reprovados por sala, turno ou unidade... Alias assim fica fácil para o mesmo governo alegar que a educação esta dando excelentes resultados, uma vez que, por decreto, determina a aprovação dos que não estão aptos a serem promovidos.

Agora quanto os motivos, creio serem de natureza diversa. Há é claro o bônus pago pelo Estado ou pelas prefeituras com base nos resultados educacionais ou no número dos alunos aprovados. E quem desejará reter se é pago para promover... 

Mas há também outros fatores.

Pois há quem acredite e afirme que reprovação seja sinônimo de Evasão e portanto que é necessário aprovar o dito cujo ou a dita cuja para que não deixe a escola e fique nas ruas... Melhor o aluno na escola, bagunçando, fingindo que aprende, enrolando ou sendo promovido sem saber, do que nas ruas, a mercê das drogas ou da violência.

Por essa altura a escola cesso de ser escola ou instituição suja precípua função é instruir e educar. E virou já abrigo, ou hospedaria, ou qualquer outra coisa.

Reconheço o problema mas não posso admitir que passar o aluno sem nada saber seja a solução.

E quando esse aluno chegar aos anos finais e deixar a escola sem conteúdo algum... Que será dele em tais circunstâncias...

E caso não saiba ler bem e obtiver um serviço em que a leitura seja indispensável para o bom desempenho de suas tarefas...

Há quem opine que o aluno X não possa ser retido porque tem determinadas limitações (Não laudadas.) e jamais obteve assistência especializada na escola. 

Me permitam então fazer um aparte sobre o aluno devidamente laudado que nem sem obtém a devida assistência.

Seja porque seus pais ou responsáveis cobraram o poder público... 

Os pais eram omissos...

Neste caso que fez o serviço pedagógico da Unidade escolar... 

Não há orientador naquela rede. - De fato o caso é grave.

Afinal para que serve o Conselho tutelar... 

Se é apenas para amolar professores e gestores, recambiando as escolas e salas os alunos problema, ouso te-lo em conta de inútil. Útil seria caso observa-se as redes de ensino, fiscaliza-se as unidades, denuncia-se as prefeituras e fizessem que a inclusão fosse de fato inclusão e não enrolação ou abandono criminoso. Reparem para que de fato cada aluno especial, em qualquer sentido, tenha um auxiliar, de preferencia com formação pedagógica - Pois assim tal clientela adquiriria ao menos os conteúdos que é capaz de adquirir!

Abandonar a criança ou as crianças numa sala superlotada sob a regência de um professor sobrecarregado e não qualificado é ato criminoso, pois implica descumprimento efetivo da lei. A criança deve sim, estar no meio natural, porém, sendo assistida por um monitor habilitado. 

Neste caso todos: Pais, professores, gestores e conselheiros deveriam acorrer ao poder público e a seus órgãos com o objetivo de prover a criança da assistência a que faz jus. É o caso de reivindicar ou cobrar antes de aprovar.

Este aluno no entanto, justamente por ter suas possibilidades limitadas, será promovido - Havendo amparo legal para isso. 

Já quanto ao aluno não laudado, deve a Orientação pedagógica, a equipe gestora ou o Conselho tutelar, solicitar aos pais ou responsáveis a ida ao médico, a realização de exames, etc sob pena de responsabilidade ou abandono. 

Agora enquanto não obtiver laudo ou a conclusão do médico for negativa, inexistindo qualquer problema físico ou mental, seja tratado como responsável, punido e se necessário reprovado.

Similar o caso do aluno materialmente necessitado ou cuja família seja problemática.

Insumos, como uniforme, merenda, material, etc ele efetivamente deve receber e recebe.

Neste caso esforce-se o mestre ou a mestra por ser receptivo, carinhoso, atento, cuidadoso, tolerante - Até onde se possa, etc 

Que se lhe ofereçam atividades de reforço ou complementares.

Satisfeitos, quanto possível for, tais demandas, seja esse aluno cobrado> Em termos de educação (Atitudinal) ou responsabilidade (Produção) tal e qual os demais.

Quando os pais e responsáveis se esquivam, o que todo esse povo > Professor, orientação, coordenação, gestão, conselho, etc deve fazer é trabalhar e colocar esses alunos em condições para serem devidamente cobrados e não ficar de braços cruzados para chegando fim do ano letivo alegar que tais alunos, por omissão da parte do poder público, fazem jus a aprovação - Quando por vezes absolutamente nada fizeram. E há meios porque possa ser o poder público cobrado e responsabilizado. 

Há quem alegue enfim, que a reprovação é sempre um ato subjetivo de rancor ou vingança por parte do professor, e devo dizer que é um argumento reducionista e miserável.

Claro que há professores que fazem mau uso da reprovação. Como o assassino faz mau uso de uma faca... E... nem por isso deixamos de usar a faca

Como diziam os antigos romanos: O Mau uso ou abuso não tolhe o uso.

Destarte se é execrável o uso da reprovação a guisa de vingança, outro o caso quando corretamente empregada, tendo em vista certos norteamentos pedagógicos, como um grau ou nível elementar de aproveitamento.

Injusto seria aprovar um aluno que não apenas nada aprendeu como não buscou aprender ou nada fez para aprender, e promove-lo nas mesmas condições que um aluno aplicado e responsável. 

Promover aquele que se esforçou ao máximo para adquirir o conteúdo mínimo exigido e reprovar aquele que pouco o nada fez para adquirir esse conteúdo é algo perfeitamente justo, desde que garantidos a todos os alunos as condições mínimas em termos de insumos e assistência.

Promover em massa ou como rebanho os que se aplicaram e os que não mostraram qualquer interesse é desestimular os primeiros ou sugerir-lhes que tanto dá estudar como não estudar.

Por isso tenho dito que não há ensino sem reprovação, como não existe educação sem punições ou castigos (Claro que não estou me referindo a castigos físicos ou a agressão!!!). Educar é sempre restringir. Ensinar é sempre considerar a retenção de determinados conteúdos, até que sejam eles atingidos. Aquele que em condições de igualdade com os demais e que tendo recebido a assistência a que faz jus, não atingiu o nível estipulado para cada conteúdo - Mesmo após diversas tentativas de recuperação! - permaneça no mesmo ano até atingir o nível estipulado. 

Mas professor, nesse caso o aluninho se sentiria humilhado...

Melhor a sala inteira se sentir injustiçada não é mesmo...

E assim caminha a humanidade por seus tortuosos caminhos. 


quarta-feira, 21 de julho de 2021

Crônicas de uma subida... De Santos a São Paulo - SP

Como frequentemente faço embarquei pela manhã, alias manhã ensolarada, no Terminal Rodoviário de Santos - SP, rumo a S Paulo Capital. 

Trajeto que há dois séculos passados levaria mais de um dia e nos séculos XVI/XVII cerca de dois dias.

Horrendo era o caminho do Pe José, o qual parece que subia de penedia em penedia através de colossais torrões de barro... As coisas só vieram a melhorar no final do século XVIII com a calçada do Lorena e, em seguida, com o aterra do Cubatão e o caminho novo ou do Imperador, embora D Pedro I tivesse seguido pela calçada do Lorena. Depois vieram a Estrada velha, a Anchieta e enfim a nova Imigrantes, pela qual fazemos o mesmo percurso em menos de uma hora e sem quaisquer solavancos.

Excepcionalmente - Ao menos para mim que subo algumas vezes por mês - era possível contemplar, em meio ao azul oceânico, a distante Ilha da Moela. Na qual Paulo Freire de Andrade assentou o primeiro Farol do Estado de São Paulo em 1830, isto sobre um cômoro de noventa metros de altura. Uma bela e grandiosa visão. - A qual não tardou a desfazer-se...

Pois assim que chegamos ao Planalto pudemos observar ao lado esquerdo, praticamente dentro da Mata Atlântica uma espécie de bairro cuja presença ainda não havíamos detectado, o qual pela extensão e pela visão do barro remexido nos pareceu ser recente. Tenho certo para mim que aquele espaço é de preservação. Pois como disse é uma espécie de ilha no meio da Mata... 

E assim, de uma visão celestial, produzida pela natureza, chegamos a uma visão infernal produzida pelos seres humanos: A destruição da natureza...

Pois é enquanto alguns parasitas sem consciência tomam um foguete e vão passear pela estratosfera é esta terra, sobre a qual pousamos os pés, diariamente agredida e desfigurada.

Afinal se ao subir a serra do Mar, no curso da nova Imigrantes, e, de dentro de um ônibus, somos capazes de perceber o crime abominável, como crer que as policiais - Ambiental, militar ou civil não o percebam? Ou será o caso - Mais grave ainda - de que o tenham percebido e, se omitido, nada tenham feito? Agora se nada querem fazer por que raios não acionaram as autoridades ambientais, o ministério público, etc Não se sentem seguros para realizar uma operação? Por que então não recorrem ao Exército, a propósito do qual é costume recorrer a propósito de qualquer coisa neste país?

Hábeis para agredir e surrar professores, trabalhadores, cidadãos que protestam contra o governo tirânico, alienados mentais, etc, etc, etc por que temem defender a mãe natureza e, se necessário for, remover aqueles que porventura tenham ocupado espaços de proteção ou reservas?

A resposta face a omissão do Estado, da Sociedade e dos poderes públicos parece ser simples: A natureza não fala, a flora não grita, a fauna não berra... É a natureza muda e nós surdos face a seus clamores. Ficando ela sujeita a toda sorte de abusos e crimes monstruosos.

Inútil criar leis e estabelecer decreto se a natureza não pode clamar por proteção, assim falar, gritar, berrar, denunciar os crimes cometidos contra si e clamar por providências. Quem deveria fiscalizar, falar, gritar, berrar e clamar por ela somos nós... E por isso vai mal e muito mal a situação.

Pois a maior parte de nós ou daqueles que se dizem Sapiens ainda não conectaram nossa sobrevivência a sobrevivência do planeta.

Cegos pelo antropocentrismo cultural acreditamos pertencer a uma espécie a parte e poder viver sem a natureza. 

De fato a maior parte de nós é ignorante, burra, desinformada, estúpida, imbecil, tola, idiota... semi alfabetizada, etc tendo muito dificuldade para compreender o ciclo do ar ou da água. Mais fácil imaginar nosso Bom Deus lançando água a terra com um regador gigante ou fabricando ar... 

Tais os alienados, que se preocupam mais com a sexualidade alheia, com o cardápio alheio, com o traje alheio, etc do que com o que realmente importa: A condição da natureza, o crescimento populacional e a miséria - Já por que a miséria interage com o crescimento populacional, estimulando-o... e dando origem a um ciclo vicioso mortal. O que deveria chocar os seres verdadeiramente humanos, racionais e conscientes não é nudez alheia mas a extinção de qualquer espécie vegetal ou animal, o que infelizmente, encaramos como algo trivial... Sim, para nós o desaparecimento de uma forma de vida que levou milhões e milhões de anos para manifestar-se não passa de banalidade> A novela, o futebol, o carnaval e o frenesi religioso parecem bem mais importantes do que condição da terra nossa mãe.

Classificarei socraticamente a gente acima como parte das massas alienadas.

Há no entanto aquele outro perfil ou tipo de gente, ignorado pelo moralista grego. 

Refiro-me aos malvados i é aos voluntariamente maus.

Asim aquele que diante deste grande problema, que é o problema ecológico (O mais premente dentre todos!), limitam-se a dar com os ombros e a cogitar: Após mim o dilúvio, julgando que quando a catástrofe começar não mais estarão por aqui. Aqui o pior tipo de gente, a gente individualista, egoísta e desalmada, a qual não se importa sequer com o futuro de seus próprios filhos, netos e descendentes. Pouco se lhes dando que vivam em cercados por uma atmosfera poluída, em meio a excessos de calor, caminhando sobre uma terra contaminada, servindo-se de água suja, sujeitos a situações de fome e contemplando um cenário de imensa feiura... Tais os arquitetos do inferno, do inferno concreto, do inferno real, que desde alguns séculos aperta seus tentáculos em volta desta pobre terra.

Essas pessoas respeitáveis, que pensam somente em trabalhar, vencer, lucrar, enricar e desfrutar. Essas pessoas maravilhosas que pouco se informam sobre as condições do planeta e se recusam a criticar o sistema. Essas lindas e mimosas criaturas que folgam em negar o óbvio, estão condenando os homens e mulheres do futuro próximo a uma morte lenta, indigna e dolorosa num cenário de horror. Pois estão sujando, poluindo, emporcalhando e devastando nosso ambiente, nossa casa, nosso lar... Mesmo quando sabem muito bem que não dispomos de outro, ao menos fora da ficção científica.

Aquele que se recusa a considerar o futuro de seus próprios filhos, carne de sua carne e sangue de seu sangue, só pode ser visto como pérfido mau caráter, como canalha e como sacripanta. Afinal quem não tem compaixão de seus próprios descendentes, recusando-se a pensar neles, como haverá de se preocupar com os demais seres humanos? Desde que eu esteja bem, os demais que se ferrem... Tal o lema dessa gente para a qual a causa a ecologia é ociosa. Pois aqui já não estamos mais diante dos devaneios metafísicos de comunistas e anarquistas em torno da querida revolução, e sim diante de um problema palpável e real, que diz respeito ao futuro da espécie. 

Curioso que os marxistas ortodoxos, sejam comunistas ou anarquistas, tenham de fato admitido tão estúpida e cruel premissa segundo a qual deve o capitalismo desenvolver-se ao máximo sem quaisquer empecilhos ou atenuantes, quando de tal desenvolvimento só poderia resulta a calamidade e ora temos a desdita de contemplar: O colapso da mãe natureza, a agonia do planeta, a destruição de Gaia... Do desenvolvimento estrondoso das forças de produção capitalistas - Em que pese o imenso esforço de reformistas de toda casta no sentido de conte-lo. - o quanto resultou foi termos acionado a sexta grande extinção em massa. A qual, não fossem o empenho de gerações e gerações de socialistas parlamentares, reformistas utópicos, sociólogos de gabinete e humanistas de casta, teria já explodidos há dois ou três séculos, essa bomba mais letal do que milhares de bombas de neutrons.

Sejam os créditos atribuídos ao capitalismo, mas também aos marxistas etapistas, materialistas e deterministas, com sua política diabólica do 'Quanto pior melhor' ou de dar corda ao capitalismo e sabotar o reformismo. 

A bem da verdade o capitalismo, esse monstro de avareza e irracionalismo, jamais devería ter vindo a luz do sol. Deveria ter permanecido trancafiado no abismo em que fora posto pela Igreja antiga e lá ficado, contido e preso. A Reforma no entanto destampou a caixa... Enquanto os etapistas julgaram proveitoso contemplar o crescimento da Hidra... O que vemos hoje é, repito, a mãe natureza agonizando. Chegamos as portas do abismo e nada de gatilho metafísico ou de transformação mágica. Nem depois, nem antes, posto que a URSS foi o que tinha de ser: Um estrondoso fracasso. Assim o México e a China... Enquanto tais peripécias aconteciam era a natureza atacada por todos os lados, como continua sendo atacada hoje, uma vez que não pode defender-se ou gritar.

A força ou melhor dizendo a violência foi aplicada na direção errada. 

Pois poucos cogitaram ou cogitam defender os vegetais e animais que sofrem violência por parte dos homens irracionais.

Poucos, muito poucos tem cogitado não em revolução mas em algo bem mais simples, i é em proteção, em proteger a natureza nossa mãe contra o terrorismo do capital.

Capitalistas, comunistas e parte dos anarquistas são culpados face da destruição do planeta e o extermínio de tantas formas de vida. 

Bem, tornando a serra do Mar, a Baixada, a S Paulo, devo dizer que antes de chegar ao Planalto, ainda na Baixada ou Cubatão também pude observar que a comunidade carente que fica localizada a esquerda da Imigrantes se tem alastrado ainda mais em direção do Manguezal, que é um bioma protegido por Lei. Mas quando não se trata de bater em professores ou grevistas onde está a Lei? Quem ousa ir até lá fiscalizar, conter, remover??? Ninguém... Ninguém... Pois o manguezal não fala, não grita, não pede socorro - Agoniza lentamente... E para muitos sequer passa de um lugar lamacento ou sem importância alguma.

Cadê o exército? A polícia civil? A política ambiental? O ministério público? Os políticos gananciosos por votos? Os cidadãos??? 

Ao subir a baixada e observando como ocupações ilegais proliferam de cima abaixo fico a pensar sobre quanto tempo o entremeio i é a mata existente na escarpa da Serra sobreviverá - Pois houve ou há ali uma Vila Parisi... Quanto tempo levará para que, face a conivência das autoridades, passem os desterrados a ocupar as as margens do Rio Quilombo, o Vale e em seguida todos os declives daquela selva ou melhor, daquele paraíso terrestre tão poeticamente descritos por um Mawe, por um Pinck, por um Zaluar, etc Naquele triste dia, graças a omissão geral que lavra neste tempo, as árvores e cachoeiras se tornarão tão históricas quanto as figuras de um Anchieta ou de um Pedro I, e existirão apenas enquanto vestígios do passado. Será que ainda existiremos nós enquanto espécie? E qual será a condição de nossos filhos?



sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A luta anti manicomial e a vida vivida.

A abordagem de hoje diz respeito a luta anti manicomial.

O que sugestionou-nos a escrever este artigo foi a morte recente do 'poeta' (não aprecio arte moderna.) Ferreira Goulart. 

Cerca de seis ou sete anos lemos uma entrevista concedida por ele em que tecia críticas a alguns partidários da luta anti manicomial.

Até então éramos totalmente simpáticos a esta luta e ainda o somos atualmente só que de modo crítico ou com restrições fundamentadas na realidade brasileira.

Aqui seria mesmo o caso de dizer: Não estamos na Escandinávia ou na Bélgica ou ainda na Suíça ou na França...

Brasil é Brasil e não 'merry England'... e as coisas aqui frequentemente azedam, especialmente sob a perspectiva do trabalho.

Sei que há muito acadêmico, militante, idealista; gente de 'gabinete' enfim, envolvida nessa luta e isso francamente me assusta.

Pois é muito fácil para qualquer um, mesmo em nome de uma ideologia mais humanitária, clamar pelo que julga ser mais conveniente ou mais correto sem ouvir a outra parte, alias a parte diretamente afetada pelo problema...

Quero dizer que a opinião de pessoas eruditas e estudadas que não são cuidadoras ou que não teem parentes enfermos não me parece lá muito relevante.

Claro que tais pessoas devem ser ouvidas. No entanto existe uma outra parte, uma parte que convive com o problema, que tem contato direto, vivência ou experiencialidade. E essas pessoas, os familiares dos enfermos, não tem recebido a atenção que merecem.

Então vamos começar a ouvir e a colocar-nos no lugar do outro?

Pois é muito mas muito fácil e comodo julgar situações reais a partir do próprio gabinete ou como costumamos dizer, da platéia.

Daí insistir sobre o tipo de contato que você tem com a doença mental... seu contato a prático ou meramente teórico???

Voltando ao F G consta ter tido ele três filhos, todos atingidos em maior ou menor medida pela doença mental.

Nem podemos ignorar que o 'poeta' sendo famoso e consagrado tivesse recursos para 'em tese' manter os filhos em casa consigo.

E no entanto foi justamente este F G que veio a público defender a existência de instituições destinadas ao tratamento de doentes mentais, os famigerados manicômios.

O histórico dos manicômios conhece-mo-lo muito bem e sabemos ser, via de regra, um histórico de terror!

Durante décadas a fio os nomes 'Anchieta' e 'Juqueri' representaram o que há de pior possível em termos de qualidade de vida e sofrimento humano.

Sem fiscalização efetiva os alienados mentais, quase sempre indefesos, eram submetidos - pelos médicos, enfermeiros e funcionários - a toda sorte de castigos, mal tratos e humilhações. Havia o choque, sob pretexto terapêutico, havia a camisa de força, o quartinho de isolamento, os banhos de água gelada, etc Isto ainda muito tempo depois de Pinel e Esquirol terem clamado por um tratamento mais humanitário lá na França...

Segundo o imaginário popular ou o folclore os alienados eram submetidos a testes e experiências escabrosas. As mulheres e moças estupradas... E alguns dos pacientes assassinados inclusive!

Isto para não falarmos no descuido e na sujeira, que eram igualmente proverbiais!

Era todo um sub mundo de horror a que poucos, muito poucos tinham acesso pois as curas e altas era coisa demasiado rara.

Compreenda-se portanto que semelhante estado de coisas acabaria por inspirar o movimento anti manicomial. Movimento que preconiza o tratamento do paciente em seu próprio lar em companhia de seus familiares.

Nada mais louvável que a reinserção de um alienado no recôndito de seu lar. Opor-se a isto, já dissemos, é opor-se aos mais elementares princípios de humanidade. Ademais concedemos também certo valor terapêutico ao convívio familiar. Afeto, amor e carinho são certamente fatores que favorecem a recuperação do enfermo.

O ideal de reinserir a maior parte dos alienados em seu lar merece total apoio da Sociedade e o P Público. E dele precisa.

No entanto precisamos admitir - e aqui cumpre como sempre por totalmente de lado o idealismo, o romantismo e a ingenuidade - que nem todos os pacientes podem ser reinseridos e que isto depende da enfermidade, do grau da enfermidade e da resposta aos tratamentos. Pacientes há que são demasiado agressivos e agitados, oferecendo perigo tanto para si mesmo quanto para os seus. Pacientes há que de nada se recordam e que tendem a fuga! Pacientes há que precisam tomar tais e tais medicamentos de tantas em tantas horas! Pacientes há que precisam receber os cuidados básicos, inclusive sendo acompanhados ao banheiro e alimentados!

É aqui que as palavras do citado escritor vem a calhar: "Pai algum deseja internar seu próprio filho. Então quando um pai roga para que seu filho seja internado é porque a situação tornou-se insustentável."

Julgo que tais palavras dispensem qualquer comentário.

Situações há que pedem cuidados intensivos. Cuidados que em mesmo alguém bem situado como o poeta é capaz de oferecer...

Ademais como poderia uma mulher ou mesmo homem idoso imobilizar seu próprio filho surtado quando num manicômio ou hospital três ou quatro enfermeiros não dão conta dele???

Implica o pai, a mãe ou mesmo um irmão mais velho aplicar-lhe injeções de Thorazine, o que é absurdo!

Aqui o problema adquire a mesma conotação que a dita 'preservação' da estrutura familiar ou da participação dos pais na vida escolar dos filhos que são outras tantas lutas mantidas por outros tantos grupos sociais e muitas vezes inutilmente.

Tanto os conservadores e moralistas (que dizem lutar pela manutenção da estrutura familiar tradicional), quando os pedagogos otimistas e os militantes da luta anti manicomial parecem ignorar uma das características ou aspectos mais marcantes da realidade contemporânea: o contesto capitalista. Referi-mo-nos ao mercado, ao mundo do trabalho e a suas exigências.

Na Sociedade contemporânea o contato e as relações humanas tem sido amplamente dificultados pelas exigências advindas do trabalho e sua jornada. Os diversos modelos familiares ( e compreendo família como um agrupamento de pessoas que se amam e se cuidam, e vivem juntas sem preocupar-me com a forma) estão todos expostos a esta influência desagregadora e por isso a família tradicional tomba vitimada. Devido a falta de tempo e a falta de convivência. Outro não é o problema da interação da família com a escola; os pais ou responsáveis não acompanham a vida escolar de seus filhos porque consagram praticamente todas as energias ao mundo do trabalho. Chegam cansados em casa e dispõem de tempo apenas para tomar banho, alimentar-se e descansar ou dormir. Parte deles faz hora extra, trabalha nos fins de semana ou leva trabalho para casa... E os filhos ficam mesmo abandonados ou a ver navios...

A educação das crianças foi relegada as escolas e isto parece ser irreversível ao menos que revejamos a organização do trabalho ou promovamos melhorias sociais em termos de aumento de renda. O lar foi igualmente abandonado e até mesmo as relações pessoais de amizade. As pessoas estão cada vez mais isoladas e estranhado-se mais mesmo quanto vivendo juntas! E tudo isto decorrer do mundo do trabalho de suas exigências. Dir-se-ia que o capital absorveu todas as esferas, inclusive as mais primárias, da existência humana levando-as ao colapso e a dissolução.

Diante disto como reinserir os alienados no lar se a maior parte dos lares esta a desagregar-se? Como reinseri-los no seio do lar se o lar não esta no lar mas fora dele ganhando o pão? Como inseri-los num meio em que ficarão abandonados e sem receber os cuidados necessários a manutenção da vida???

Certamente que não estamos falando nos lares dos trabalhadores e das famílias de baixa renda...

Espaços e ambientes saturados de stress, de angústia, de dor e de sofrimento em que as doenças mentais deitam e rolam por assim dizer...

Quanta vez a enfermidade mental não tem sua gênese no conflito familiar, no deterioramento da convivência, na pressão econômica, nos desencontros pessoais, na solidão acompanhada, na rejeição, etc

Tudo isto, digo a reinserção dos alienados, no seio familiar das famílias mais humildes, supõem a existência de uma estrutura de apoio que não pode ser criada 'a posteriori' mas 'a priori'. Aqui a ordem das coisas foi invertida pois o principal objetivo da luta anti manicomial deveria ser acionar e cobrar o P Público no sentido de investir e criar organismos destinados a auxiliar e apoiar as famílias e não lançar os enfermos no seio da família para depois criar os organismos de apoio.

Imaginar que as famílias em dissolução que sequer teem tempo para acompanhar os estudos dos filhos haverão de rebelar-se e de cobrar ativamente o P Público é a suprema das utopias. Mais fácil elas acorrentarem seus familiares enfermos em porões insalubres do que exercer cidadania... Cultura não se produz sob pressão mas apenas por via educacional.

Aqui a visita do médico de família a casa deve ser assídua, o acesso a mediação rápido e efetivo, o fornecimento de insumos igualmente rápido, o acesso ao serviço psicológico franqueado a toda família, etc Aqui o mínimo que se haveria de esperar e sabemos o quanto estamos muito longe disto. Agora como manter um alienado mental em casa sem acompanhamento médico efetivo? Sem orientação e formação? Se acesso imediato aos medicamentos??? Sem o fornecimento de insumos vitais ao paciente???

Perdoem-me os lutadores de boa fé mas aqui mandar o enfermo de volta a casa equivale a abandona-lo ou a joga-lo na sarjeta sem qualquer assistência.

Cadê a atuação complementar do P Público atuando eficazmente junto a essas famílias???

A propósito não seria ocioso propor a criação de uma bolsa ou estipêndio financeiro para tais pessoas. Sei que já existem alguns programas neste sentido. Precisam no entanto funcionar melhor, contemplar a todos e fornecer uma quantidade maior de insumos.

Isto quanto aqueles quadros em que a reinserção seja possível.

Agora devemos considerar, como disse F Goulart, os quadros em que a reinserção não é possível ou viável por colocar em risco a segurança do paciente ou da comunidade. Quadros que exigem internação no mínimo provisória e portanto a existência de manicômios ou se preferirem de instituições especializadas, clínicas ou hospitais.

Penso que se trate de um aspecto da realidade que não possa ser ignorado ou disfarçado, e que precisamos lidar com isto.

Não adianta fingir que não existe e tentar convencer a pobre família, muitas vezes completamente esgotada, a permanecer com o doente em casa. Em determinados casos é desumano...

A menos que o pobre enfermo agitado tivesse de ser dopado em dose máxima e posto em coma!

Nestes casos melhor dopa-lo o menos possível e imobiliza-lo ou isola-lo provisoriamente numa cela. Uma vez que a longo prazo o excesso de medicamentos poderia prejudicar-lhe seriamente a saúde.

Então entre encher uma pessoa de hipnóticos para disfarçar-lhe os sintomas ou suavizar-lhe a agressividade melhor seria mante-la o mais lúcida possível num recinto acolchoado, ao menos até que o acesso parasse.

Em casa terão de dopa-la ou de induzi-la ao sono ou ao topor e eu não penso que seja a medida mais acertada.

O que nos leva ao velho ideal proposto por Pinel e Esquirol a humanização do regime manicomial, uma vigilância efetiva por parte do P Público e dos coletivos sociais, a tentativa de fazer com que a família mantenha contato com o paciente por meio de visitas periódicas, e consequentemente a manutenção ou criação ao menos de alguns institutos de isolamento destinados a internação de pacientes em estado de crise.

Isto como já dissemos a par da implantação de uma estrutura de apoio destinada a orientar e auxiliar as famílias que estiverem dispostas a manter os pacientes mais estáveis ou menos graves em suas residências. Enquanto as famílias, já pressionadas pelo mundo do trabalho e cobradas pela organização escolar, não receberem este tipo de apoio julgo que a luta anti manicomial continuara sendo utópica. Para ser realista precisa antes de tudo oferecer soluções práticas as famílias e aos cuidadores e não sufocar suas vozes e clamores ou deixar se ouvi-los. Sim, o ponto de vista e opinião dos familiares precisam ser levados em conta.

Sei que este artigo não agradará a muita gente e que os intelectuais e ideólogos de gabinete ficarão injuriados, mas é o mínimo que se pode fazer no que tange a condição das famílias, especialmente das mais humildes.