Como não sou partidário de um evolucionismo linear como Marx, Spencer, Comte, etc mas do um evolucionismo em 'aspiral' formulado por V G Childe, o qual considera a possibilidade de crises, recuos civilizacionais, declínios provisórios, etc não me assusto face a atual crise nem perco a esperança. Também o homem evolui ou progride enquanto tal, embora hajam crises, como a da adolescência, analisada com propriedade por Erickson. Homens e Sociedades, e Civilizações conhecem crises, mas as crises podem ser superadas, dentro de um quadro geral positivo.
A História conheceu já crises intensas - O primeiro período intermediário no Antigo Egito pós Fiops ou Pepi II, A destruição do império acadiano pelos gútios, A destruição da civilização minóica pela explosão de Santorini, a destruição da civilização Micenica pelos Dórios, O conflito entre epígonos e diádocos após a morte de Alexandre e por fim a queda do Império romano, a mais pavorosa de todas... e que pois fim a Idade Antiga.
Posteriormente repetiram-se novas e sucessivas crises, das quais a primeira foi a reforma protestante seguida pelas revoluções inglesa, francesa e russa, pela ascensão das diversas culturas de morte como o fascismo, o nazismo, o comunismo, o neo liberalismo, o anarco individualismo... pela afirmação de ideologias aberrantes como o ceticismo crasso, o relativismo, o subjetivismo, o positivismo... pelo assaque do islamismo, do pentecostalismo,do fetichismo, etc... pelo sucesso de diversas formas de alienação...
Eis onde chegamos...
A experiencialidade é contestada, o apanágio da razão ridicularizado, a Filosofia desmerecida (o ceticismo é a negação de toda Filosofia desde os tempos de Pirro de Elis cf 'Os céticos gregos' por Victor Brochard), o conhecimento científico endeusado por uns ou negado por outros, a religiosidade ética repudiada, a Ética natural ignorada, o humanismo vilipendiado, o estudo minimizado, as normas objetivas da produção artística postas de lado, o valor da vida humana relativizado, os direitos escarnecidos, a justiça apresentada como utópica, o quietismo louvado, a violência canonizada, o egoísmo promovido, o irracionalismo encarecido sob todas as formas, os preconceitos mais obscuros santificados, os extremos abraços com fervor, a cultura mal compreendida, todas as tradições desafiadas, toda mudança ou variação condenada... e por ai vai...
É como se todos os fundamentos da Civilização estalassem, ruíssem e viessem abaixo.
Diante disto, apenas para distrair-me, após ter assistido - como faço amiúde - mais um documentário arqueológico, desta vez sobre o antigo Egito, ou melhor, sobre a Esfinge, as pirâmides, os obeliscos e a origem de tais monumentos, fui, maroto que sou, espiar os Cocomentários...
Li algumas centenas, um mais medonho do que o outro e ouso reproduzir alguns:
Esse arqueólogo não sabe nada...
Um mistificador...
Charlatão...
Pirâmides são túmulos, onde já se viu???
Os antigos egípcios construíram as pirâmides, esse homem tá de brincadeira?
Como sempre ocultando os extraterrestres...
E a civilização Atlante, por que não disse nada sobre ela?
Alavancas e roldanas uma ova, aquilo só podia ser erguido mesmo com tecnologia de ponta vinda de outros planetas.
Quem não sabe que os egipcios ergueram tais pedras com o Mana ou com encantamentos?
Deveriam ter lido Sichtin.
Não me enganam porque li os deuses do Daniken
etc, etc, etc
99% dos cocomentários iram por este caminho ou linha de desracioncínio, chegando a vulgaridade e ao xingamento.
Pesquisadores de campo nada sabem... são imbecis, otários, idiotas, toscos, etc
Os comentaristas virtuais, muitos dos quais jamais puseram seus pés no Egito, na Suméria, na Grécia, na Itália ou na América central, sabem absolutamente tudo, porque leram a 'verdade' nas obras do Sichtin, do Daniken, do Churchward, do Braghine e de outros místicos e visionários que jamais provaram ou demonstraram suas opiniões ou crenças.
As pessoas repetem o que leram em livros escritos por charlatães, místicos, visionários, etc - os quais por sinal estão cheios de erros escabrosos - e negam-se peremptoriamente a aceitar pesquisas de campo ou estudos realizados seriamente profissionais!!! Para essa gente que vive repetindo baboseiras nada significa analisar a composição química de uma pedra, comparando-a com a composição química de outra, analisar a composição da terra, o fluxo das marés, o pólen, datar carbono 14, medir ossos, escavar tumbas e tempos, decifrar inscrições ou seja, realizar um trabalho verdadeiramente experimental. Elas simplesmente não compreendem o alcance disto tudo, dos materiais, dos fatos, da concretude... e dão preferência a suas crenças queridas...
E no entanto ciência história ou arqueológica não se faz com delírios, comunicações, visões, boatos, diz que me diz, etc mas com material coletado em campo e devidamente analisado.
É com fragmentos de restos de comida, pedaços de ossos, DNA, ruínas, cacos de cerâmica, etc que se faz a História real, quase sempre prosaicas para muitos...
É com fotos, gravações, satélites, etc que se faz a melhor geografia.
É com fósseis que se faz a melhor Biologia...
Não com bíblias, não com publicações sensacionalistas, não com afirmações gratuitas, não com suposições absurdas, etc
Ajuntem-se aos esotéricos ou místicos os criacionistas, os terraplanistas e os geocentristas e o 'samba do crioulo doido' estará completo!!!
Leram em seus livros sagrados, em seus almanaques, em seus manuais e esta lido; portanto não há qualquer necessidade de paleontólogos, arqueólogos, exploradores... enfim de pesquisa. Pois eles já foram, antecipadamente, informados sobre todas as coisas por meio de 'publicações'...
Talvez essas pessoas acreditem ou julguem que todo conhecimento foi ou é produzido por livros...
Quando é produzido por escavações, explorações, estudo de campo, analise de materiais, enfim de pesquisa ou de trabalho duro. Conhecimento não cai sobre a cabeça do historiador como chuva, não lhe entra nos miolos por osmose, não é produzido por mágica, mas, fruto do trabalho duro, perseverante e paciente... Tudo para que depois, um leigo arrogante e presunçoso venha questiona-lo, fundamentado não em evidências materiais, mas nas obras de Deniken, no antigo testamento ou mesmo numa comunicação espiritual ou psicografia... O cúmulo do absurdo.
O conhecimento do concreto é fruto da observação e da pesquisa de campo, os livros só servem para divulgar, jamais para produzir o conhecimento.
Ah mas o Daniken fundamentou sua interpretação em diversos monumentos. Monumentos que ele mesmo não encontrou ou escavou por não ser arqueólogo, mesmo amador como por exemplo Scheleimann ou Isidoro Falchi... Monumentos cuja autenticidade ou genuinidade ele não pode certificar por não ser arqueólogo... Por isso quando sua interpretação choca-se com a daqueles que escavaram tais monumentos ou estudaram-nos durante anos a fio, claro que fico com a interpretação destes... e não com a dele, uma vez que nada produziu de relevante ou nada encontrou. Tanto pior para um Sichtin ou para um Curchward, o qual declarou, como o fundador dos Mórmons, Joseph Smith, ter encontrado os arquivos de Shambala ou Lemúria, sem no entanto jamais os ter mostrado ou dado a público, exigindo fé...
Ora se você quer ter fé no Churchward ou no Sichtin, tenha fé, é um direito seu. Só não venha apresentar sua fé como ciência ou como algo concreto ou o que é pior ainda, exigir que tenhamos a mesma fé, negando assim o produto da experiência... Pois aqui sua atitude não se diferencia em nada da dos criacionistas com sua Torá ou seu Gênesis, da dos geocentristas ou da dos terraplanistas... Você apenas trocou de livro, mas o princípio é o mesmo: Livros, fé em livros, etc Nós temos um princípio mais seguro, o princípio concreto, da pesquisa de campo, da escavação, da análise de materiais, da tradução de inscrições deixadas pelos antigos, etc o que inspira uma confiança muito maior e induz a certeza absoluta.
Não creio na Batalha de Megiddo. Leio sua descrição nos painéis mandados gravrar por Tutmosis, o grande e estou a par das escavações realizadas no local... Não creio na Batalha de Kadesh, estou a par não apenas do relato mandado compor por Ramsés II, mas também do que fora redigido por ordem de Supililiuma, rei dos Hititas... Não se trata aqui de coisas sonhadas, ouvidas, escritas, etc mas de relatos de primeira mão confirmados por vestígios materiais.
Assim quando se diz que os antigos egipcios valeram-se de gruas, rodas, roldanas, rampas, fogo, talhadeiras de pedra e bronze, barcos, etc para extrair pedras, transplanta-las e grava-las; resultando de tais esforços as pirâmides ou a esfinge, temos elementos materiais ou vestígios que comprovam-no cabalmente; parte dos quais foram novamente testados, em nossa época, pelos arqueólogos, e com sucesso. Temos pinturas que representam tais esforços. Temos maquetes encontradas em túmulos de construtores. Temos ferramentas encontradas. Temos a análise de restos... Evidência de sobra!
Não há portanto qualquer necessidade de atribuir-se a construção de tais monumentos a atlantes ou Ets...
Basta aplicar a navalha de Ockam para deduzir que os Egípcios tudo fizeram e concluir pela genialidade de nossos ancestrais...
Fascinante é concluir que tais monumentos colossais foram feitos por homens como nós há cerca de cinquenta séculos.
Durante muito tempo acreditou-se que tais templos e túmulos haviam sido edificados a chibatadas por uma multidão de escravos. Hoje se sabe que foram edificados por uma multidão de trabalhadores livres, unidos pelo entusiasmo religioso ou pela fé... Coisa que hoje já não se sucede. Temos dificuldade para unir uma multidão colossal em nome de qualquer coisa... Portanto não podemos crer que os antigos tenham sido capazes de faze-lo, e nosso ceticismo falseia a realidade histórica e nos envenena.
A questão aqui não é encarar os incas ou os egipcios como incapazes, no sentido de que fossem culturas inferiores... É mais profunda e diz respeito a nós mesmos como espécie ou humanidade.
O homem contemporâneo, que parte de uma antropologia negativa, é cético, ao menos quanto a si mesmo e suas possibilidades. Ele não vê a si mesmo como capaz de erguer as pirâmides de Gizé ou de traçar as linhas de Nazca porque não vê a si mesmo como alguém capaz de conhecer por meio de seus sentidos, porque não encara a si mesmo como alguém capaz de raciocinar com propriedade e enfim porque não acredita em sua capacidade para atingir a perfeição ética ou moral...
Os antigos gregos, a exceção dos pirronianos, que importaram seu ceticismo ou pessimismo volitivo da antiga Índia (i é do Budismo), não tinham maiores dificuldades para admitir que os antigos egipcios haviam esculpido a grande esfinge ou construído as pirâmides e certamente encarariam as linhas de Nazca como produto natural da atividade humana. Nós no entanto fomos envenenados pela doutrina maniqueista ou agostiniana do pecado original i é da corrupção total da natureza e portanto de nossa fragilidade. Desde Agostinho a cristandade latina assentou a incapacidade ou a fragilidade humana como dogma inquestionável. E Lutero e Calvino manifestaram-se para reafirmar com mais intensidade ainda essa antropologia pessimista...
Via de regra a sociedade latina secularizou ou deixou de crer em tais tolices ou mitos desde o século XVIII. No entanto, a guize de repeti-los por mais de mil anos, lá ficaram seus resíduos envenenando a cultura... E fazendo-nos duvidar de nós mesmo, de nossa capacidade e da capacidade de nossos ancestrais. Nossos ancestrais no entanto, não duvidavam de si mesmos... E por isso, inspirados por outro tipo de antropologia - natural e positiva - construíram muralhas ciclópicas, pirâmides colossais, dolmens e menires, linhas e terraços de cultura... rivalizando uma com a outra.
Parte dessas construções atravessou os tempos e chegaram até nós. Do contrário negaríamos que tivessem sido feitas... Negar a existência dos terraços de cultura do Peru, da muralha da China ou da Esfinge não podemos. Neste caso fazer o que se estamos convencidos de nossa própria incapacidade??? Atribuí-las ou a supostos poderes sobrenaturais suscitados pela magia, como o mana... ou a civilizações imaginárias, como a Atlântida ou a Lemúria (cuja tecnologia era muito superior a nossa)... ou o que é ainda pior, a alienígenas ou extra terrestres, os quais teriam vindo de Órion ou das Pleíades e atravessado o universo com o propósito de amontoar pedras diante de nossos primitivos ancestrais, demonstrar um poder imenso e ser cultuados ou aplaudidos por eles...
Quem não vê que tais extra terrestres, supostamente tão evoluídos equivaleriam aqueles dentre nós que se embrenhassem no seio inóspito das mais distantes florestas com o objetivo de construir uns muros ou empilhas umas pedras para ser reverenciados pelos gorilas, chimpanzés ou orangotangos... Nós no entanto, mesmo sendo tão pouco evoluídos, não buscamos tão estranha glória. Neste caso por que seres tão evoluídos quanto os habitantes de Órion haveriam de busca-la, a saber, de buscar reverências e aplausos nesta nossa terra??? Chega a ser bizarro!
No entanto a humanidade prefere apegar-se a ideia absurda de um deus interventor nos moldes fetichistas, de Ets, de Atlantes, reptilianos, iluminatis, etc a admitir que nós seres humanos somos produtos de um lento processo evolutivo - certamente concebido por uma inteligência suprema - que a terra é esférica e gira em torno do Sol, que nossos ancestrais ergueram pirâmides e traçaram linhas tão colossais quando as de Nazca, etc
Talvez parte dessas pessoas acredite que uma História feita apenas por humanos numa terra esférica que gire em torno de um Sol inserido numa galáxia colossal - dentre as bilhões de galáxias que compõem este universo - seja demasiado enfadonha...
Todavia caso paremos um pouco para refletir talvez cheguemos a conclusão de que o fato da vida unicelular surgida neste planeta há alguns Bilhões de anos ter se desenvolvido a ponto de favorecer a manifestação de uma inteligência capaz de planejar e executar tão grandes projetos - Como as pirâmides, a grande muralha da China ou as linhas de Nazca (Em que pese a tecnologia disponível e o esforço necessário) seja uma dos acontecimentos mais significativos do universo. Será que negando nossa capacidade e nosso histórico evolutivo não estamos eliminando o mais fascinante de todos os mistérios, o mistério de nós mesmos??? Seja como for não acredito que os antigos egipcios ou peruanos acolheriam bem as nossas negações e o nosso ceticismo, fruto de uma mentalidade eurocêntrica ou melhor dizendo modernista, segundo a qual nossos ancestrais jamais poderiam ter feito algo melhor ou mais interessante do que nós mesmos, decadentes filhos do século XXI d C...
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sábado, 12 de maio de 2018
Progressos do imbecilismo contemporâneo
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domingo, 11 de dezembro de 2016
O que vi em São Paulo
Coisa de três meses sofri um acidente atípico e até patético.
Cerca de um mês antes, havia adquirido um tecido de chamalote numa feira de antiguidades.
No fim de Agosto percebi que alguns de meus livros de uso ordinário estavam com as capinhas bastante mortificadas e decidi dar um trato neles. A ideia era cobri-los com o tecido de chamalote e depois passar uma espessa camada de cola ou verniz.
Para tanto a noite de vinte e oito de Agosto, após ter me acomodado ao leito, principiei a cortar os pedaços do chamalote até o sono vir. A verdade é que eu e Morfeu não nos damos lá muito bem e que só consigo pegar no sono pelas altas madrugadas... e como a briga com a insônia é sempre inglória e perdida optei por adiantar o trabalho de restauração das capas dos livros. E não sei como adormeci cortando-os em meio aos retalhinhos, e pelas altas da madrugadas suguei ou melhor engoli um dos pedacinhos, que me veio ter a garganta.
O tanto quanto posso declarar é que acordei com aquele maldito fragmento de papel preso a garganta e que aquilo foi um drama... Pelo menos acordei, o que não teria se dado caso o aspirasse e fosse ter aos pulmões, do que resultaria, muito provavelmente a morte certa.
No entanto tendo cinquenta contra cinquenta porcento de chances, tive sorte e cá estou... Pelo simples fato do chamalote ter ido pela garganta e não pelas vias respiratórias.
No entanto o maldito fragmento de pano lá ficou preso, e eu, a um tempo sentindo-me bastante incomodado e a outro com receio dos procedimentos a serem adotados pelos médicos no P Socorro optei por ficar em casa ingerindo tudo quanto recomendado era pela experiencialidade popular: Pão, farinha, batata, bolacha, vinagre, suco de limão, etc
Até que transcorreram uns três dias e fui, apesar da irritação, sentindo que o dito cujo ou havia decido ou se achava muito bem preso a gargante e certamente desfazendo-se. Ao cabo desses três dias fui ao médico da família que concluiu ter o pano decido sem maiores problemas embora a garganta estivesse bastante irritada.
No entanto como tinha de 'pagar meus pecados' devo ter cruzado, lá no consultório, com alguém bastante resfriado e como não houvesse tomado a vacina neste ano o resultado foi catastrófico: Contraí uma baita gripe, um verdadeiro gripão após ao qual sucederam-se amigdalite, otite, bronquite, etc tudo quanto tinha direito, pelo espaço de mês e pouco. Tive de pendurar as chuteiras até meados de Outubro quando comecei a recuperar-me... Entrementes o excesso de medicamentos havia acabado com meu estomago (tinha já histórico de gastrite moderada e refluxo) passando a enfrentar refluxos e pirogastralgia contínuos... Fiquei nervoso, estressado, aflito e disto resultou ligeiro aumento da pressão arterial até então controlada... E por fim, qual golpe de misericórdia desferido pelo organismo em colapso, manifestou-se terrivelmente a insônia elevando - por primeira vez na vida - minha taxa de glicose...
Cerca de 15 de Outubro estava a passar por momentos bastante delicados tendo de controlar a pressão e a diabetes (que jamais tivera) e, portanto de controlar a crime de insônia, deflagrada, muito provavelmente, pelas toneladas de medicamentos que havia tomado... Sendo assim não tive outra chance além de marcar consulta com o psiquiatra, o qual só veio a atender-me a 03 de Novembro. Apesar de ter sido atendido pelo convênio médico - como funcionário público de duas instâncias tenho dois convênios - o atendimento foi relativamente breve devido ao colapso do SUS em minha cidade. Do que resultou um aumento da clientela particular e conveniada e digamos, ligeira queda de qualidade no atendimento, que tornou-se mais rápido...
Para resumir receitou-me o dito clínico um hipnótico bastante severo cujos efeitos colaterais resultavam visão dupla, chiado, tonturas, dor de cabeça, lentidão, etc Durante uns quinze dias mais ou menos, senti tudo e até sofri alguns acidentes...
Verti sobre mim mesmo uma caneca com chá fervendo ficando com o abdomem parcialmente queimado, quase cai e rolei de uma escadaria, por pouco não fui atropelado, fiquei com a coluna alterada e enfim, coisa de cinco dias, tropecei - sonolento - e fraturei o dedinho mindinho do pé, que hora acha-se imobilizado... Foi uma verdadeira saga.
Pior é que este fármaco mexia com as vias respiratórias, que haviam sido massacradas após a ingestão do pano...
Até o clínico geral descobri-lo já havia caído na Aminofilina e no Berotec... E a pressão piorado ainda mais. Em meados de Novembro fui obrigado a retomar o uso dos diuréticos para controlar a pressão e portanto a ir ao sanitário mais frequentemente e a não poucas vezes subir e descer escadas com prejuízo da coluna que como disse já estava moída...
Durante todo este tempo, como funcionário público que sou, estive licenciado e sujeito a periciamento médico nos termos da lei.
E como já estivesse afastado do serviço estadual por mais de dois meses lá fui convocado, há coisa de uma semana, para apresentar-me ao DPME (Departamento de Perícias Médicas do Estado) no Glicério ou Várzea do Carmo, ali junto a Avenida do Estado a R Prefeito Passos. A perícia estava marcada para as sete horas da manhã. Cheguei pelas sete e quinze e, ao contrário do que imaginava, fui muito bem atendido pelo perito de plantão e não tenho mesmo do que me queixar. Aproveitei a oportunidade para apresentar algumas súplicas ou reconsiderações e quando deixei o local ainda eram 8:30 da manhã.
Como estava medicado, havia saído demasiado cedo da Baixada e pago vinte e cindo reais de passagem, achei que devia aproveitar um pouco a 'viajem' para conhecer melhor os monumentos históricos de nossa metrópole, em especial as antigas igrejas maravilhosamente descritas na obra de Leonardo Arroyo. Sendo assim dirigi-me até a Capela da providência, sujas torres havia visto da passarela, mas estava fechada...
Foi quando avistei o belo edifício da Igreja Nossa Senhora da Paz e determinei atravessar o viaduto.
E atravessando-o topei com uma simpática feirinha organizada pelos catadores de papelão e pessoas de rua. Cada qual negociando suas coisas na mais perfeita paz e harmonia.
Como sou apaixonado por livros, em especial por livros antigos e antiguidades, lá fui eu bisbilhotar de 'barraquinha' em barraquinha onde garimpei algumas preciosidades e aproveitei para ouvir os negociantes e jogar conversa fora.
Após ter arrematado o que queria - um livrinho de 1817 inclusive - e pagar uma bagatela, despedi dos carrinheiros promentendo voltar antes do Natal pra comprar mais alguma coisinha. Foi quando eles esboçaram um sorriso e disseram: Provavelmente quando o amigo voltar o João Dolar já nos terá removido daqui, ele considera que somos todos ladrões e malfeitores e odeia-nos a não pode mais...
Até então não me havia lembrado dessa coisa. Refiro-me do joão dolár... Uma espécie de amnésia havia bloqueado minha memória e em já nem me recordava das últimas eleições e da vitória desses sujeito.
Passo após passo fui subindo a ladeira e aproximando-se daquela igreja belíssima chamada Nossa Senhora da Paz. Lamentavelmente ainda era muito cheio quando lá cheguei e a igreja estava fechada. O adro no entanto estava literalmente tomado por pessoas de origem africana das quais aproximei-me com o objetivo de perguntar sobre o horário em que as portas da igreja seriam abertas. Foi quando tive mais uma surpresa, a maior parte ou totalidade daquelas pessoas falavam francês. Eram os emigrados haitianos... Troquei com eles algumas poucas palavras em francês perguntando-lhes sobre o horário em que a igreja abriria e fui-me embora. Ao perceber que eram haitianos minha vontade foi observar melhor seus modos, interroga-los, etc mas não quis constrange-los ou quiçá parecer hostil ou suspeitoso, afinal sabemos que os imigrantes devido as situações de discriminação a que estão expostos acham-se inseguros.
http://www.a12.com/noticias/detalhes/paroquia-nossa-senhora-da-paz-acolhe-haitianos-em-sp-editando-falta-entrevista
Ao menos pude observar que a pastoral daquela igreja empenha-se em facilitar ao máximo as coisas para eles, inclusive em termos de assistência social, alimentação, ocupação, etc Pelo que foi bastante gratificante para mim constata-lo.
No entanto não era só isso...
Pois após haver dado um pulinho na capelinha de S Luzia
onde acha-se o painel votivo de Nossa Senhora da Cabeça
e chegado ao Largo de Nossa Senhora do Carmo, no termo da tradicional R do Carmo
topei com os Carmelitas fornecendo lanches e refrescos a população pobre. Passei por ele dirigi-me ao interior daquele que reputo ser um dos antigos templos mais belos da capital, o Convento do Carmo, onde vim a conhecer a servente da igreja, uma senhora muito simpática e acolhedora chamada Isabel. Ao fim da conversa, que versou sobre as pinturas de Fr Jesuíno - uma das coisas mais belas que há para se ver em S Paulo - e a assistência prestada aos mais necessitados, fui presenteado com uma bela publicação intitulada 'Carmo, patrimônio da História, arte e fé'.
Dali segui em demanda da igreja de Nossa Senhora da Boa morte
com seus característicos degraus de pedra... Tornei a subir a R do Carmo passando pelo antigo prédio do Diário de S Paulo - ora sede de uma organização protestante - cuja metade esquerda fora lamentavelmente demolida e segui até a praça da Sé onde surpreendentemente deparei com os franciscanos e a Toca de Assis prestando assistência a outras tantas hostes de sem teto e carrinheiros, tudo observado de longe pela polícia militar.
Foi neste momento mesmo, estando diante da majestosa catedral da Sé, que refleti e disse para mim mesmo: Apesar de seu estado calamitoso ainda há vida espiritual na Igreja romana e uma vida rica e bela. Enquanto o protestantismo jaz eternamente paralisado nos domínios da teoria, engessado pelo fetichismo, adormecido nos braços débeis da fé, entorpecido por uma mórbida contemplação de si mesmo, etc a igreja romana, em que pesem seus vícios e defeitos, não só atua como mostrasse solidária.
Após passar por tantas igrejas onde o povo simples rezava em atitude de recolhimento enquanto do lado de fora, os mais devotos serviam os pobres e ministravam o amor concreto de Deus aos menos favorecidos de nossos irmãos, fui levado a concluir: Aqui há Cristianismo e Cristianismo vivo porquanto Deus é amor e não qualquer outra coisa.
Apesar de não pertencer mais a comunhão romana (todo sabem que sou Católico Ortodoxo) aquela visão em termos de serviço fraterno foi como uma brise leve a refrigerar-me o coração angustiado por testemunhar tanta indiferença e mesmo crueldade por parte dos cristãos nominais...
Passei por um 'Cristão' predestinado ou remido que diante da Sé distribuía seus folhetos e gritava a respeito do Diabo, do inferno, da perdição, etc Desviei meus olhos dele e pousei-os sobre os filhos de S Francisco que ali estavam serenamente distribuindo alimentos, cortando cabelos, limpando feridas e enquanto o sucessor remoto de Lutero estendia-me um folheto (o qual evidentemente sequer toquei) as palavras do Evangelho soaram-me aos ouvidos: Tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, estive nu e me cobristes... O QUE FIZESTES A MEUS IRMÃOS MAIS PEQUENINOS FOI A MIM MESMO QUE O FIZESTE... Haviam ali na praça da Sé dois Evangelhos rivalizando, mas eu sabia qual era o Evangelho verdadeiro - Este povo me honra com as palavras e a boca mas seus corações estão apartados de mim, considerei ainda; e por fim: Não é aquele que diz Senhor Senhor que entrará no Reino do Céu, mas quem executa a vontade...
Enquanto cogitava a respeito de tudo isto havia já cortado a praça João Mendes e entrado na Igreja de S Gonçalo da qual, após ter feito ligeira prece, parti em demanda do Largo de S Francisco, termo final de minha peregrinação, pois já eram cerca de 11 horas e devia chegar a casa em S Vicente pelas 13. Ali pude contemplar outras tantas pinturas maravilhosas, colírio para os olhos e sobretudo para a alma e adquirir, a porta da igreja, um delicioso pão recheado com frutas passas...
Como estava com pressa limitei-me a atravessa a colunata externa da Faculdade de Direto e a trocar umas poucas palavras com o porteiro... Caso tivesse a tarde livre iria certamente ao Museu do Fórum, ao Líceu de artes e ofícios, a Casa da marquesa se Santos, etc, etc, etc Bem como as Igrejas de S Bento, S Benedito, Rosário, S Efigênia, etc O fato é que minha veneranda e preocupada mãe esperava-me para o almoço e então tive de despedir-me de minha querida S Paulo e de regressar a este triste exílio ou vale de lágrimas que é para mim este abafado litoral...
Senti no entanto ter encontrado uma S Paulo muito mais humana e acolhedora para com seus filhos mais necessitados. Uma S Paulo mais sensível e fraterna. Uma S Paulo em que parte do 'Catolicismo' ou da igreja romana reencontrou o caminho do Cristianismo que é o amor ou o serviço concreto tendo em vista minorar os sofrimentos alheios.
Igrejas Cristãs, mas do que locais de culto devem ser exatamente isto: locais ou santuários de atividade e serviço social. É o que podemos chamar de prece ou missa contínua, pela qual servindo oramos sem cessar e mantemos nossa comunicação com o Pai das Luzes. Já o Dr Alexis Carrel costumava dizer: Não adianta rezar devotamente pela manhã e viver ao cabo do dia como um bárbaro.
Não existe essa coisa de 'Missa est' A verdadeira Missa, a Missa eterna jamais termina, permanece sempre dentro de nós levando-nos a fazer o bem sem olhar a quem.
Resta acrescentar que não creio nem em visões, nem em revelações individuais, nem em místicos ou misticismos. Mesmo quando ainda era membro atuante da igreja romana, não acreditava nessas bobagens (no dizer do piedoso Arthur Weigall) Meu catolicismo, ainda romano, havia descartado há muito tempo as tolices de Fátima ou mesmo Lourdes e se concentrado na Tradição patrística e na doutrina social e também na escolástica... Pelo que Tereza D Avilla não faz sentido algum para mim, exceto quando corajosamente (face aos inquisidores) que Deus deve ser amado e servido pelo que é - ou seja enquanto Deus mesmo - e não pelo temor de supostos castigos...
Tereza D Avilla me parece ter sido uma mulher inteligente e até fascinante, mas não creio de modo algum em suas supostas experiências místicas ou comunicações ou em qualquer outra. Tudo isto permanece nos domínios da subjetividade e mesmo se houvesse algo de verdade, estaria no acesso do individuo apenas. A comunidade Cristã deve viver daquilo que é comum: A palavra de Cristo registrada nos Evangelhos e a tradição primitiva e apostólica.
No entanto, e penso que é aqui que o Cristão se distingue do sectário e do fanático, o fato de não crer em Tereza D Avilla ou na mística espanhola, ou na mística carmelitana (com seu culto supersticioso ao escapulário - Arthur Weigall, intelectual Católico) não me impede de modo algum de apreciar a beleza das pinturas do Convento do Carmo ou de atribuir-lhes um sentido espiritual bastante rico. Não preciso crer na veracidade de uma cena pintada para comungar de sua perfeição estética e cuido que o sentido da beleza tenha valor em si mesmo exprimindo um dos múltiplos aspectos do Uno.
Não posso compreender como alguém se exaspere face a beleza e menos ainda que postule sua destruição.
O fato de não crer na temática da pintura não me torna insensível a seus traços delicados, a suas cores, a harmonia dos tons, etc
Por isso sempre disse e digo-o mesmo que um dia viesse a romper com a Ortodoxia jamais deixaria de apreciar a beleza das ícones, do ritual, da música sacra, da arquitetura religiosa, etc Não preciso crer para sensibilizar-me diante da arte ou da beleza, aqui basta sentir. É outra categoria, distinta, de sentimento e de vivência...
Daqui há uma semana lá estarei de novo para ser periciado...
Uma vez que meu dedinho mindinho esta quebrado e imobilizado rsrsrsrs
Mas nem por isso, após a perícia, deixarei de ir me arrastando e com todo cuidado visitar mais algumas igrejas e monumentos da grande S Paulo. Espaços em que entrarei em contado com o que há de mais nobre em nossa humana condição: o exercício da fraternidade e a presença da Beleza, pois como dizia o literato russo: "A beleza, a beleza, ela salvará o mundo."
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