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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O convidado que chegou atrasado ou dialogando com Roger Scruton (Como ser um conservador) I - Como me defino eu> Um sócio conservador kkkk







Após ter lido Russel Kirk e a "Anatomia" de John Gray eis que estou a ler o recentemente falecido Roger Scruton (Como ser um conservador, 12 Ed, Record, 2020) e consequentemente a dialogar com ele, posto que toda leitura crítica é um diálogo e a única leitura reverente ou acrítica que faço é a do Evangelho (Não disse bíblia ou antigo testamento ou mesmo Novo Testamento, mas apenas e tão somente Evangelho i é as palavras de Jesus Cristo). 

No entanto antes de iniciar meu dialogo com o sr Scruton desejo fazer algumas observações bem humoradas sobre mim mesmo e sobre o conservadorismo, assim sobre o conservadorismo brasileiro.

Principio registrando que a sociedade brazundanga adora falsos dilemas, radicalidades inúteis, extremismos tolos, etc 

De modo que faz eco das inanidades 'made in EUA' (E de Scruton)> Quem não é capitalista é um comunista ou bolchevista e quem não é bolchevista deve ser, necessariamente um entusiasta do liberalismo econômico (Nome científico do Capitalismo - Afinal os cientistas não dizem 'Limão' porém 'Citrus limonum' e tampouco 'gato' mas 'Felix catus'). Para nossos 'civilizados' brazundungas, encantados pelos pastores yankees, não há socialismos, ou anarquismo ou mesmo algo próximo de uma doutrina social da igreja, porém apenas liberalismo econômico e comunismo diabólico e se você se recusa a admitir o batismo e canonização do lib. econ. naturalmente que está do lado do capeta...

Naturalmente que não me enquadro nesse esquema simplório e dualista, fruto de mentes rasas e infantis. 

Comunista não são por diversos motivos, especialmente devido a tal ditadura do proletariado. Quanto a isto tenho é - Ainda que leves e críticas. - tendências anarquistas (Lamentavelmente Scruton não preparou capítulo com o título: 'A verdade no anarquismo') e consequentemente repudio todo e qualquer tipo de ditadura, tirania, despotismo, etc  seja de direita, esquerda, centro, etc E concordo com Scruton e outros quanto a liberdade corresponder a um valor essencial e inegociável que nos foi legado pela civilização. E quando me refiro a liberdade no seu contexto político me refiro a democracia e ao liberalismo político, com as decorrentes limitações éticas impostas pelos direitos essenciais da pessoa humana.

Nem creio que possam, a justiça ou a liberdade, serem outorgadas, dadas ou concedidas por qualquer elite, grupos, quadros, etc 

E tampouco creio em qualquer tipo de Revolução iconoclástica capaz de alterar a dinâmica da cultura por meio da violência ou da força. Admito sim a aplicação controlada da violência, atrelada ao conceito de sedição, ou na eliminação de uma ordem insuportável e cruel. Não a mística de uma violência desbragada com poderes mágicos quanto as estruturas culturais estabelecidas, e quanto a isto sou um cético absoluto. As revoluções são todas falaciosas - Desde a revolução primordial, i é, o protestantismo, até as mais recentes, i é, o comunismo. - já devido ao montante humano sacrificado (Vejam só o Paul Pot citado por Scruton) já porque revertem. Portanto a questão do custo benefício é especiosa, mesmo quanto as mais bem sucedidas, como a francesa e a russa.

O que não quer dizer que não venham a acontecer. Sendo quase que inevitável sua afirmação. Não por culpa dos revolucionários malévolos, como talvez suponha o sr Scruton, e sim por culpa da ordem precedente e de seus vícios insuportáveis. De modo que se, como dizem foi a dita reforma protestante (Eu discordo) uma resposta a condição do papismo na Europa ocidental, com mais razão foi o comunismo uma amarga resposta a uma ordem ainda mais amarga i é a do liberalismo econômico em seu auge. (E aqui eu concordo).

Por não crer na Revolução não sou anti revolucionário no sentido de fazer oposição ou dar combate violento a qualquer revolução. Creio na profilaxia social, toda a revolução se evita com sábias e oportunas reformas - Já dizia o sábio chinês Confúcio... Outras até merecem adesão e apoio, não porque se creia em seus objetivos gerais, certamente utópicos, mas apenas por se oporem a uma ordem excessivamente injusta e cruel. Há quem aqui prefira a neutralidade, eu no entanto me recordo da lei grega de Sólon sobre os que não assumem facção ou tomam partido.

Seja como for não creio em Revoluções e as tenho por trágicas, assim a guerra de modo geral, embora não a possamos evitar tendo em vista as exigências da justiça.

Outro aspecto que me põem em acordo com Scruton é que essas místicas sociais ou ideologias, adotam um modelo social geométrico, com propósitos demasiado abstratos e uniformes além de planos que implicam uma hierarquização e centralização excessivas ainda quando pretendem das combate a alguma tirania e até mesmo conquistar certas liberdades. Tudo muito burocrático e metódico, a parte da estrutura ou da realidade social e na dependência de um futuro aparelho repressor.

É o quanto me basta para incompatibilizar com o comunismo, mesmo quando alguns de seus membros aspirem sinceramente pela redenção do homem, i é, pela erradicação da injustiça social, pela supressão da miséria, pelo fim da exploração assassina, contra a desumanização, a alienação, a massificação, etc Ainda que nosso objetivo fosse similar, como declara o profo Lizandro de la Torre, nossos métodos seriam sempre distintos, senão opostos. É o que diz Scruton sobre os esquerdistas companheiros de seu pai: "As queixas de meu pai eram reais e bem fundamentadas, mas as suas soluções eram fantasiosas." Op cit pag 13.

É exatamente isto que distingue e separa as inúmeras correntes socialistas (O termos remonta a Owen ou Leroux) - Entre as quais me situo no plano da economia ou da produção e distribuição de bens. - do comunismo, por mais que a opinião pública desleal e o próprio Scruton busquem oculta-lo ou mesmo nega-lo, tudo lançando debaixo da senha 'esquerdista'.

É por isso que gosto de Dietrich Von Hildebrand, o qual dissertou magnificamente sobre quão vaga é a senha direita e esquerda. Naturalmente que há quem se encaixe perfeitamente na caixinha, se adapte e fique contente. Todavia bem pode o homem superior ser de direita aqui e de esquerda acolá, e em diversos nichos variar de posição... Tal o meu caso. E já o veremos.

Analisemos brevemente a questão econômica que cinde a humanidade em dois campos> Liberalismo econômico ou capitalismo e Socialismos. 

Analisemos isto com a seriedade que bem merece.

E o façamos a partir dos pressupostos teóricos do liberalismo econômico, cujos fundamentos foram lançados - Ainda que doutro modo (Diz Scruton na abertura do capítulo II, intitulado 'Começando de casa' aludindo a obra mal querida de Smith "Teoria dos sentimentos morais")  - por Adam Smith e, posteriormente por Ricardo, Petty, Bastiat, Molinari, etc Qual a linha condutora, o primeiro princípio, a ideia geradora, etc nesses teóricos... A ideia da não intervenção social e\ou política nas operações econômicas, dando espaço ao que chamam de livre iniciativa.

Naturalmente que os primeiros teóricos, como Smith, tiveram em mira aquele amplo conjunto de regulamentos arbitrários e caprichosos legados já pela idade média ou pelas monarquistas absolutas, que de fato travavam uma saudável iniciativa social no plano da produção e distribuição de bens. No entanto desde logo surgiram reivindicações e propostas no sentido de que não houvesse limitação ou controle algum desse setor ou seja em torno de uma ilimitação ou de um descontrole absolutos, como seja a produção econômica constituísse um setor a parte da sociedade ou mesmo da humanidade.

Nem temo dizer que o ANCAP é decorrência ou desenvolvimento natural deste tipo de pensamento.

A ideia aqui, e o ideal de sociedade perseguido, era o de uma não interferência absoluta por parte da sociedade ou do poder político no setor da economia e de uma independência total. O que de pronto se situa nos termos de uma utopia, como o comunismo, o anarco individualismo. 

Podemos portanto, ao menos teoricamente, e com toda justiça, definir como Socialismo, qualquer ideologia ou proposta que exerça oposição ao ideal acima descrito, que admita qualquer nível ou grau de interferência externa no plano econômico e a simples existência de leis destinadas a regular o Mercado (Como por exemplo a Lei antitruste - No Brasil n 12.529 - 2011), o recolhimento de impostos ou as relações de trabalho, ainda que de número bastante reduzido. 

A própria existência de um ministério da economia ou de um Banco central, com decorrente emissão de moeda, choca-se com o ideal livre economicista em sua puridade.

Destarte a simples concepção de um liberalismo econômico ou de um capitalismo controlável externamente em qualquer medida é antitética ou contraditório. 

Propor um capitalismo externamente controlável pelo poder político ou pela sociedade, como capitalismo ou como terceira via é algo inteiramente desonesto. As expressões terceira via ou Estado de bem estar social, cunhadas para batizar as soluções derivadas do Keynesianismo são de fato falaciosas. O que temos na doutrina de J M Keynes é também socialismo, gostem ou não os defensores do salvador do 'capitalismo'. Keynes nada salvou na medida em que foi contratado pelo Estado mais próximo do modelo liberal economicista tendo em vista um plano de intervenção estatal e decorrente legislação, que salvasse o monstro agonizante> E o que Keynes fez, foi justamente criar regras tendo em vista uma ação externa manobrada pelo Estado.

Conclusão: Tudo quanto foge a utopia liberal economicista da ilimitação absoluta não pode ser visto como capitalismo ou liberalismo econômico, mas como um tipo de socialismo, variando apenas o nível, o grau ou a forma de intervenção. 

É o que se sucede desde os tempos das reformas sociais implementadas desde Urukagina de Lagash, há quase quarenta e cinco séculos, passando por Faléas da Calcedônia (Citado por Aristóteles na Política), até chegarmos aos padres romanos Mably e Morelly no século XVIII, sem falar em S Tomás Morus e no Padre Th Campanella. Tais os socialismos sagrados ou de matriz religiosa, totalmente alheios a cepa materialista criticada pelos papas romanos e outros líderes religiosos.

No entanto é tudo, repito e insisto, o mesmo socialismo: O modelo bizantino, o modelo ocidental controlado pela igreja romana (Que proibia por Lei a cobrança de juros), o modelo inca, o modelo dos padres franceses acima citados, os modelos que os comunistas ferretearam como 'utópicos' e os de 'água benta' iniciados por Von Ketheller de Magúncia e continuados por Darboy de Paris, Daens, E Mc Glynn, Ireland, Mercier de Malines, Mother Jones... até as doutrinas de fundo tomista, pautadas na noção aristotélica de Bem Comum, legadas pelos escolásticos da Idade Média, em particular por Aquino e que inspiraram a Rerum novarum de Leão XIII, a qual, por sua simples existência, implica em categórica negação das pretensões liberais economicistas. Aos quais se juntaram mais tarde a proposta de Maritain, a de Bastos de Ávila, com o solidarismo, o comunitarismo, o cooperativismo, o distributivismo de Belloc e Chesterton, o já citado georgismo de Henry George, o personalismo de Mounier, etc 

Quanto a outras propostas de vária inspiração temos as de Leroux, J Jaurés, L Herr, Nitti, L Blum, De Gaulle, Marcel Deat, etc, O fabianismo dos Webb, que contou com o apoio de Shaw, Wells, Lodge, Ellis, Russel, etc Todas são socialismos, a começar por Keynes ou passando por ele. Pois o que há de comum a todos esses pensadores é que há algo de profundamente errado com o conceito de ilimitação e sua prática - O que alias, o próprio Sidwyck observou e constatou.

Portanto lançar todas essas ideias riquíssimas, destinadas a combater uma efusão de injustiças e crueldades agravadas pelo novo modelo econômico a cabo de mais de século, na mesma sarjeta que o comunismo, com sua ditadura do proletariado e mística revolucionária, me parece o cúmulo da desonestidade intelectual, coisa digna apenas de pastores ignorantes ou fanáticos que buscam satanizar o outro. Declarar que é tudo o mesmo 'esquerdismo' de inspiração residual anarquista é algo que não se pode dar por sério ou aceitar.

Neste sentido - Face a repulsa pelo modelo capitalista ou pela ideologia do liberalismo econômico (Não de um mercado relativamente livre> Regulado porém livre.) posso declarar-me socialista, ou social democrata, ou socialista religioso, ou socialista humanista, ou, caso o termo aterrorize alguém, posso declarar-me fabianista, georgista, solidarista, comunitarista, distributivista, etc

Não porque defenda a extinção da propriedade privada pessoal (A qual considero de direito natural e portanto sagrada) e sim porque questione sua origem, uso, acumulo, limite... (Quanto a posse dos bens de produção, considero a questão neutra, assim quanto a questão do regime assalariado). De modo a que possa, esse modelo de propriedade (Pessoal) ser democraticamente ampliado e consolidado ou porque busque sua disseminação.

Mas sobretudo porque seja partidário decidido da regulação do trabalho por um Estado cada vez mais democrático. Isto por considerar indesejável o quanto sucedeu na Inglaterra na Idade de ouro do que chamamos liberalismo (O que sabemos ter sido o mais próximo possível do ideal da não interferência) e foi descrito pelo talentoso e honesto Ch Dickens, o qual, até onde sabemos, não tinha qualquer relação com o partido comunista ou com a revolução bolchevique. Basta dizer que alguns escritores avaliaram a situação dos trabalhadores de Manchester e dos principais núcleos industriais ingleses daquele período (1830 a 1880) como pior ou sensivelmente mais grave do que a dos escravizados africanos no Brasil. 

O que não logro entender é porque tantos conservadores tardam em perceber ou jamais percebem (Deveriam ter lido "A grande transformação" de Karl Polanyi) que tudo quanto dizem amar intensamente: A micro sociedade, a paróquia, a piedade religiosa, a arte, o artesanato, o patrimônio histórico, o folclore, a família e até mesmo a própria natureza, a puridade dos ares, águas, etc a vida dos animais e vegetais, foi destruído sem misericórdia ou melhor triturado por esse poder econômico que se queria colocar acima de todas as leis e que por isso mesmo transformou-se num outro padrão cultural, chamado economicismo, no qual, como diz Scruton, nada tem valor intrínseco porque tudo tem preço e etiqueta para se comprar ou vender. 

Grande a cegueira dos ditos conservadores em sua maior parte, quando a esse aspecto da ação de um mercado todo poderoso e descontrolado, até alterar o ritmo ou a dinâmica das relações sociais e destruir aquela cultura ancestral que todos amamos - Eu em primeiro lugar, aquela cultura dos quadros de Paul Nash que nos preservava do tédio, da angústia e da depressão.

Amigo Scruton, esteja onde estejas, devo dizer-te> Aquele mundo foi votado a morte antes de tudo pela reforma protestante, mas, sobretudo pelo modelo capitalista. 

Foi ele que removeu os camponeses de suas terras, onde bem ou mal viviam em certa proximidade com a natureza e junto aos túmulos e relíquias de seus ancestrais, mesmo quando faziam suas manufaturas ou bordavam seus panos. 

Antes de tudo, em todos os lugares a que chegou a ideologia de mercado, onde quer que existissem terras comunais, sejam egidos ou rocios, foram estas terras vistas como fontes de renda e sujeitas a especulação para que servissem como pastos ou granjas modelos em que animais fosse criados intensivamente para serem devorados pelas massas empobrecidas, aumentando ao máximo o lucro dos granjeiros - Isto a custa dos pobres que foram expulsos a força, da natureza que foi destruídas e dos animais torturados e mortos, sobrando a terra poluídas pelos resíduos, muitas vezes venenosos dessa produção que objetivava ter por ter...

Para o conforto dos empreendedores, os quais instalaram suas fábricas nas proximidades das minas, foram os operários i é os co produtores da riqueza, instalados em 'cidades' não planejadas a parte do mundo natural e desumanizados ou despersonalizados tanto pelo contato prolongado com as máquinas quanto pela separação forçada dos animais e vegetais que até então formavam seu entorno e tornava a rotina da vida menos penosa. Nem puderam mais pescar algum peixinho, a sombra de uma macieira, junto a ribeirões de água cristalinas, passando a viver cercado por fétidos canais cheios de esgoto.

Presos a máquina por um período de tempo não regulado e sujeitos ao controle mecânico do relógio, passaram essas multidões a ser de tal modo drenadas pela dura rotina de trabalho que só lhes sobravam mínimo tempo para dormir. Como poderiam dedicar-se ao artesanato, ao lazer ou mesmo as atividades da paróquia, acabaram-se portanto, para esse homem apanhado pelo mercado livre, os feriados, as diversões, as tradições e a vida religiosa ou paroquial. Foi o operário e ainda hoje o é - Apartado da vida paroquial: Das confrarias, das procissões, das rezas e ofícios, etc chegando a empobrecer e alterar tremendamente a vida espiritual da Igreja.

E nem mesmo a família, como constataram Le Play e seus sucessores, escapou inume a sanha das máquinas e de seus proprietários sedentos por mais e mais lucro. Pois sendo o chefe ou pai da família remunerado apenas para sobreviver e inexistindo o que ora chamamos 'salário família' (Uma conquista dos rebeldes socialista e não um presente dos simpáticos empreendedores.) tanto a esposa\mãe, quanto os avós e os filhos, todos enfim, deviam fazer turno da fábrica para complementar a renda doméstica. Ficando alienados uns dos outros durante a maior parte do tempo e só se encontrando no momento de dormir, quando estavam em frangalhos e tomados pelo sono. Então deveria ser excelente e estimulante convívio...

Agora imagine o sr Scruton, que com razão, repito com razão, ficou horrorizado com as condições de vida no Leste europeu, controlado pela URSS, por serem infensas a liberdade de pensamento e de expressão, a condição de seus conterrâneos ingleses de cem anos passados, os quais não tinham leis, logo não tinham justiça e por não terem justiça não tinham pão - Quero dizer, o mínimo para viverem com dignidade e pensarem nas maravilhosas liberdades inglesas. Pois ali, entre os operários ingleses que viviam sob a nova realidade ('promissora') da liberdade do mercado, o que faltava não era algo abstrato (Concedo, essencial, porém abstrato) como a liberdade (Pela qual certamente devemos lutar e morrer!) mas comida, roupa limpa, espaço, saúde, distração, normalidade mental... enfim absolutamente tudo. Sendo aquele mundo áureo do liberalismo econômico ou do capitalismo um mundo de miséria e crueldade como raramente foi visto na história humana (Digo, quanto a ação intencional dos seres humanos.).

Onde penetrou esse poder ou essa força de uma economia descontrolada ou soberana todo esse idílio do sr Scruton em torno das pequenas comunidades em comunhão com o meio e dotadas de vida espiritual acabou-se, dando lugar ao cenário de horror, descrito com precisão e vivacidade pelo renomado autor de "Um conto de Natal". Pois não pode a bela 'Lei comum' fazer frente aos Scrooges da vida, e não houve final feliz. E de fato não puderam as leis antigas e tradicionais fazer frente a esta catástrofe ou diluvio de calamidades pelo simples fato de não poderem oferecer qualquer resposta a um fenômeno social (O liberalismo econômico) que até então inexistia - Não preciso ler Cujas ou Savigny para saber que a Lei não pode solucionar um problema a seu tempo inexistente. E é exatamente por isso sr Scruton que precisamos de novas leis, para solucionar os problemas causados pelos novos fenômenos sociais que simplesmente surgem. 

As leis tradicionais podem nos fornecer pressupostos para as novas leis, porém se mostram inevitavelmente inoperantes face a qualquer novo modelo social que venha a surgir. Daí a necessidade de que aparecesse - Não os comunistas ou a tropa revolucionária de Marx e Engels ou melhor de Lênin. - desde Davi Ricardo (Possivelmente ele próprio) ou Leroux, essa turba multa de intelectuais de classe média, religiosos ou racionalistas, que movidos por algo a que ora chamamos empatia ou alteridade, se compadeceram do operariado e, assumindo o nome de socialistas, combateram politicamente nos parlamentos para que tal condição fosse radicalmente alterada, digo a condição do trabalho - Lançando ao vinagre as pretensões dos empreendedores e seus fâmulos (Os teóricos) em torno do dogma da não intervenção ou do caráter 'imexível' da produção e distribuição das riquezas.

Acontece, nobre escritor, que até hoje, os paladinos do livre mercado, ainda não se conformaram com a realidade da restrição externa (A Tatcher foi um perfeito exemplo disto) jamais cessando de tentar reverte-la, inclusive financiando a eleição de agentes políticos (Por meio do Lobby) ou comprando-os, enquanto simultaneamente continua a destruir nossos maiores tesouros: O patrimônio histórico (Por meio da especulação imobiliária > Veja o triste exemplo da Avenida Paulista na capital do Estado de S Paulo em que as mais belas construções do Brasil foram criminosamente demolidas apenas para serem substituídas por horrendas caixas de sapatos!), o patrimônio cultural (Rezas, procissões, confrarias, etc) e por fim o patrimônio ecológico ou natural (Escuso dar eu a lista de animais e vegetais extintos devido a explotação!)... 

Ao contrário da maior parte dos conservadores não posso encarar o liberalismo econômico ou o capitalismo como algo inocente ou como algo menos perturbador do que a objeção comunista. Do contrário o que teria de mim seja um tonel de Danaides...

Caso de fato queremos manter ou conservar o patrimônio estético, tradicional ou cultural e ecológico legado por nossos ancestrais tendo em vista fruição de nossos descendentes não há como deixar de analisar criticamente a ideologia economicista da ilimitação, jamais posta de lado pelos teóricos do sistema, alias açulados pela ideia nada racional ou melhor bastante passional de um progresso científico ou econômico ilimitado (Uma das místicas mais destrutivas já produzida por nós). Pois há espectros do positivismo ou do cientificismo cercando-nos, apesar de J S Mill e sua economia estacionária, único modelo realista e racional de que dispomos.

Por todas essas razões por mais que tenha os mesmos sentimentos de conservação que os conservadores quanto a todas essas coisas, não me encaro como um e não posso deixar de ser, antes e acima de tudo, um socialista de água benta ou 'pequeno burguês' saudosista, como dizem os sectários comunistas. E assim o é. De fato os radicais até me classificam como 'conservador', posto que estou com vocês conservadores quanto a questão da cultura e o repúdio ao relativismo cultural, criado ou concebido não pelos comunistas, mas por liberais ou semi anarquistas como Boas, Benedict e Herskovits. Como estou com vocês e até os ultrapasso quanto a questão da objetividade estética e a repulsa ao modernismo, o qual encaro (Não menos que os odiosos e odiados nazistas) como uma degeneração. E estou ainda com vocês contra o relativismo metafísico ou contra toda essa pseudo filosofia contemporânea de procedência Alemã, e assim ao primado do subjetivismo, do solipsismo ou do ceticismo, posto que partidário decidido da Filosofia clássica ou perene da escola de Sócrates e enfim da do estagirita. E naturalmente que estou com os mais ajuizados de vocês quanto a sociedade secular ou quanto a objeção a qualquer forma de teocracia (islâmica ou protestante\calvinista) como fundamento pétreo da civilização.

Temos muitas, muitas coisas em comum, em que pese minha adesão ao socialismo e repúdio decidido ao liberalismo econômico, por encara-lo com destruidor do quanto amamos e desejamos conservar tendo em vista o deleite das gerações futuras.

É como disse, junto com um mundo livre, aspiro também, como Sócrates na República e contra Trasímaco, por um mundo justo, e limpo, e belo, e digno... Liberalismo é importante, necessário, fundamental, porém insuficiente. 

Termino este artigo confessando que para mim Conservador é um termo ainda mais vago que socialista ou esquerdista.

Conservar o que de que época ou de que lugar...

Conservar tudo ou a sociedade paralisada, sabemos ser impossível.

Então que valerá a pela ser conservado e transmitido. Que selecionar para ser conservado.

Aqui nos separamos talvez.

Pois acho banal um brasileiro, lusitano ou latino querer adotar ou conservar qualquer coisa de inglês ou pior de Norte americano, dada a diversidade da cultura.

Sem constrangimento algum encaro alguns aspectos da cultura europeia como objetivamente superiores face a aspectos de qualquer outra cultura e assim a Filosofia clássica ou perene de um Aristóteles ou a Ética socrática ou ainda o ideal estético grego, assim o direito romano, assim o que chamamos de Cristianismo apostólico. 

Outro o caso da cultura Norte americana derivada da rebelião individualista protestante e do liberalismo econômico, que é sua extensão. E não vejo, por coerência, como um brasileiro se possa dizer conservador de um modelo cultural que não é seu e que não lhe pertence.

Não vejo pingo de coerência em ser um conservador brasileiro e adotar um repertório iankee ou mesmo inglês.

De fato capitalismo não faz parte de nossa cultura ou pensamento social e econômico, protestantismo ainda menos.

Teríamos aqui, por força da coerência tornar as fontes e valorizar o que é nosso. 

Naturalmente que nem tudo é possível ou mesmo desejável, como a atrocidade do escravismo ou as agressivas relações que estabelecemos com os povos originários. Naturalmente que tais equívocos devem estar fora da pauta e devemos tornar a noção essencialmente cristã e católica de um direito natural inerente a pessoa humana (Segundo a forma de Francisco de Vitória). Temos que direcionar nosso conservadorismo as fontes humanas e humanistas de nossa cultura, o que nos separará do iankee e de sua cultura.

Para mim esse conservadorismo de improviso focado na 'American way of life' que incluí o modelo yankee do século XX com o imaginário calvinista de uma guerra fria (Alias tendo a Rússia, não mais comunista, como vilã) e o universo capitalista não tem sentido algum no Brasil. Pois não faz parte de nossa experiencialidade histórica ou de nossa realidade. Outro tipo de conservadorismo pelo qual tenho vivo horror é o modelo moralista individualismo ou puritano, frequentemente associado ao fundamentalismo religioso, uma vez que aderindo a corrente de pensamento Cristão sistematizada, em certo sentido por Vitória e desenvolvida até os teóricos do iluminismo, adiro firmemente os direitos essenciais da pessoa humana em sua escala mais amplas. Por fim deploro igualmente qualquer padrão político ingênuo de conservadorismo como o daqueles monarquistas que julgam poder mudar radicalmente a sociedade ou faze-la retroagir por meio de uma solução monárquica. Hoje nada tenho a objetar quanto a uma monarquia constitucional desde que esclarecida e progressista, porém não acredito em qualquer possibilidade de alteração cultural significativa e encaro essa postura dos monarquistas como algo bastante próximo do misticismo revolucionário dos comunas e anarcos.

Como disse as vezes o termo conservador me parece vago e movediço, tipo qualquer um decide conservar o que deseja ou o que quer. Portanto um conservadorismo acrítico sempre poderia ser portador de valores exógenos a nossa cultura, como o modelo iankee e quanto ao que tem de pior: O Capitalismo, ou até mesmo o protestantismo. 

Talvez por isso, apesar de ser progressista no campo da moralidade e da ciência e conservador no campo da arte ou da estética e mesmo da epistemologia, quiçá no campo da política (Com a policracia ou democracia direta e do socialismo) prefira dizer que sou reacionário. Fujo a banalidade. Escapo a caixinha em que tantos estão fechados ou ao sectarismo. Assumo-me como eclético - Não como sincrético e quiçá seja não uma metamorfose ambulante porém certamente um mosaico ambulante no qual existe uma presença objetivista, realista e conservadora bastante forte, e eu me orgulho dela. Há em meu peito ou em minha alma um conteúdo conservador, mas não coaduna com o que percebo no conservador brasileiro médio, antes conflita com ele conflita.


sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Breve ensaio sobre os escombros> Positivismo, Ceticismo, Etica e Utilitarismo...

 Certa vez ousou Nietzsche declarar que a cultura de seu tempo assemelhava-se a um grande campo juncado por ruínas... E já aludi a esta visão a um tempo feérica e a outro melancólica ou mesmo patética diversas vezes.

Jamais me esqueci de uma ilustração vista numa Enciclopédia ainda quando garoto - A qual mostrava Goethe com o olhar perdido diante das ruínas do fórum romano.

E no entanto Goethe contemplando o passado longevo e glorioso dos Césares e memorando os feitos de Scevolla, Furius, Cincinato, Cléia, Cornélia, etc sabe a um Homero, pois tem grandiosidade Épica.

Outro o caso de Nietzsche, o qual possuído pelo espírito dionisíaco assemelhava-se mais aquele profeta judeu que aspirava tudo arrancar pelas raízes para depois replantar; tudo abater para em seguida reconstruir, começando pelos fundamentos. São homens que empunham o camartelo e estilhaçam o belo mármore sem derramar uma lágrima sequer... Tais os iconoclastas. Os iconoclastas - Recicladores de ideais.

Tal nossa civilização - Campo em ruínas ou cemitério de ideologias putrefatas?

Desde que o Catolicismo, a ortodoxia ou a fé apostólica foi imobilizada e lançada por terra após ter imperado soberana por milênio e meio é possível parafrasear os Atos dos apóstolos e dizer a respeito de cada um dos sistemas que o sucederam: "Onde a pouco caiu teu esposo hás de cair tu também, e eis que os coveiros já se acham as portas."

Efêmero foi o triunfo do protestantismo, com seu furor bíblico e altas pretensões - Pois pelos idos de 1700 era já a intelectualidade inglesa descrita como incrédula pelos habitantes do outro lado da mancha. Que dizer então do outro lado do Reno, onde um Reymarus declarava que apodreceu o corpo de Jesus em alguma cova ignorada após ter sido roubado pelos apóstolos com o objetivo de simular sua ressurreição. Sem mencionarmos o imenso enxame de seitas descrito por Voltaire nas "Cartas da Inglaterra" e a sucessiva falencia do projeto totalitário calvinista...

Substituiu-o efetivamente a ordem materialista do liberalismo econômico ou do capitalismo, a qual, desde então, tem o protestantismo servido como um lacaio.

Entrementes veio o convívio democrático a triunfar num cenário, ainda maior: A França. Assim, em menos de século e meio as ruínas do protestantismo foram adicionadas as ruínas do antigo regime.

Resta-nos mencionar as contradições internas do capitalismo. As quais, como registrou Marx,  não tardaram a produzir miséria ou pauperização e, por consequencia a suscitar uma oposição socialista e por fim o advento do comunismo. E se o liberalismo econômico triunfara na Inglaterra de 1643, com a revolução Inglesa; seu antípoda viria a triunfar na Rússia de 1917 com a Revolução russa

Assim, cerca de 1917 as ruínas do protestantismo, do antigo regine e do capitalismo atulhavam o horizonte da civilização e prenunciavam seu ocaso. 

Em que pese outros colossos terem sido erguidos sobre elas - Ao lado do edifício um tanto combalido, mas ainda sólido, da igreja antiga. Assim o Comunismo, a democracia formal e o Positivismo (Sucessor da fé e da Filosofia) enquanto outros como o Fascismo e o Nazismo estavam a ser edificados, sendo aparentemente promissora a arquitetura do século XX...

E no entanto, abalo após abalo, todas estas construções portentosas estremeceram e vieram abaixo com grande estrondo... Até que não sobrou pedra sobre pedra.

O positivismo, que como sereia augurava as novas gerações um paraíso sobre a terra, começo a ruir pelos idos de 1918, até perder quase que todo seu encanto após a segunda grande guerra. A abominação nazista veio abaixo em 1945 juntamente com o Fascismo. Já o todo poderoso Comunismo resistiu por cerca de setenta anos, esboroando-se em 1990.

E no entanto, o desabamento mais fragoso no entanto deu-se em 1962 - a partir do Vaticano II - com a queda da igreja romana, assediada pela maçonaria, comprada pelo americanismo, flagelada pelo ecumenismo, contaminada pelo protestantismo (Protestantizada) apartada de suas tradições e privada de sua identidade... e reduzida a quase nada > Em comparação com o que fora cinco séculos antes.

E tudo quanto restou de grandioso (Junto com o livre arbítrio - Posto na mira dos ateístas e materialistas) foi a crença infantil e leviana nessa democracia meramente formal ou sem espírito, a qual é mais cria do positivismo do que herança legada pelos antigos gregos. Embora haja quem ouse apresenta-la como algo pronto, acabo e incapaz de ser aperfeiçoado, isto é, como o 'fim da História' ou o Capitalismo de Fukuyama - Pasme o leitor inteligente...

Ora, uma coisa é admitir que corresponda ela, hoje, ao melhor do quanto nos tenha restado (Refiro-me apenas a democracia ou ao liberalismo político, de modo algum ao capitalismo) e outra que não possa ou deva ser aprimorada i é ampliada, aprofundada, etc tornando-se mais funcional, eficaz, direta e popular.

Pois o palpite capitalista, segundo a qual, nossa democracia sem consciencia, se sustentará tal e qual é, ou seja, com suas limitações, vícios e defeitos, demanda uma profissão de fé bastante ousada. A qual não me disponho a fazer.

Alias - Quantos e quantos já não escreveram sobre os seríssimos problemas que envolvem nossa democracia mecanica e sem vida? Revel, Sartori, Bobbio, Ameal, Maurras, Huntington, Lucáks, Poulantzas, Gramsci, Cahn, Lindsay, Moss, Tocqueville, etc 

Há portanto chances bastante concretas de que mais e mais ruínas acumulem-se sobre a seara do velho mundo ao cabo deste século... 

Do capitalismo, que parece recuperar-se, nada devemos esperar, exceto que esgote todos os recursos naturais disponíveis, fabrique mais massas desmioladas paras serem manipuladas, incentive o crescimento irresponsável da população e conduza a humanidade a destruição, caso não entre em colapso.

O irracionalismo reinante todavia, serve-lhe de couraça impenetrável. 

Mesmo considerando que as fontes do Capitalismo ou sua causa eficiente, encontram-se dentro do próprio ser humano ou na esfera da vontade, ainda que a razão estivesse em seu zenite teria de despender considerável esforço para 'conte-lo'. Que dizer então sobre o nosso tempo ou a era do pós modernismo...

Suas contradições internas, ou fazem-no entrar em colapso ou levam nossa espécie a extinção, para a sorte das espécies que não chegamos a extinguir e que talvez sejam contempladas com uma nova chance. Salvo se a disputa pelos tais mercados conduzirem-nos a uma terceira grande guerra nuclear...

Caso o edifício da democracia formal, entre em colapso e venha abaixo, antes de converter-se numa democracia popular, real ou direta as perspectivas me parecem bastante sombrias. Na medida em que virá ela a ser substituída por novos totalitarismos - quiçá religiosos (Teocracia) - ou pelo anarco individualismo, compreendido como dissolução do que chamamos convívio social (O sonho de Max Stirner e Ayn Rand) e aqui temos algo que sequer podemos conceber, uma vez que não podemos imaginar o que jamais existiu.

Mesmo esta democracia precária, e que precisa ser ultrapassada, nos tem de fato beneficiado pelo simples fato de preservar--nos desses dois extremos perigosos representados pela tirania, o despotismo ou a ditadura de um lado e a anomia do outro.

Necessário entender que a democracia, para adquirir vitalidade, deve deixar de ser simples forma ou casca para atuar como espírito ou mentalidade na dimensão da cultura. Deve a liberdade, ao invés de ser negada pelos neuro cientistas levianos e irresponsáveis, converter-se em um valor significativo, em nome do qual as pessoas aceitem viver ou desejem morrer caso preciso for. Caso ela não produza conquistas significativas, caso não desperte amor, lealdade e coragem, caso não melhore as vidas das pessoas, correrá o risco de tornar-se indesejável e inútil.

Já as relações humanas, dentre elas a produção de bens ou seja o setor da economia, devem ajustar-se, acima de tudo as exigências da justiça. Não é o Mercado, porém a necessidade humana que deve determinar o salário, impedido assim a afirmação da miséria e evitando que a divisão social aumente até o conflito entre as classes. Tudo isto implica que a economia reconheça o primado da Ética. Me parece que não há melhor caminho que a liberdade no plano da política e restrição ou contenção Ética no plano da economia.

Resta-nos então alguma esperança?

Sim, certamente há alguma esperança, como também parece haver um poderoso obstáculo

Pois se o positivismo desabou como sistema fechado há no mínimo oitenta anos, permanece ainda vivo e pujante no plano da cultura, a partir de seus elementos dispersos ou dos escombros reaproveitáveis.

Mas qual será o problema do positivismo? Perguntará o católico ou o ortodoxo estúpido que só tem olhos para o comunismo, para o anarquismo e quem sabe para o capitalismo...

Cumpre dizer em primeiro lugar, que este modelo, pautado nas ciências exatas e biológicas, tudo envenenou e desvirtuou ao inserir-se nos domínios das ciências humanas, questão examinada com propriedade de Dilthey a Poincaré (Convencionalista) ao cabo de décadas. Mas quem hoje lê Dilthey ou presta atenção a Poincaré ou a seu cunhado Boutrou...

Observemos de passagem os estragos que causou apenas nos campos da Psicologia e da Sociologia. Quanto ao primeiro deu ele origem a toda uma corrente espúria chamada Behaviorismo - Uma análise superficial do Behaviorismo encontra-se no livro de Marilynne Robinson 'Além da razão' ed Nova Fronteira 2011 capítulo I pg 17. Já no campo da Sociologia a diversos sistemas, todos materialistas e mecanicistas, como os de Marx e de W Pareto.

Alegadamente é o positivismo (Mesmo o francês, herdeiro do iluminismo e portanto destemperado desde o berço!) enquanto filho do criticismo kantiano e do ceticismo Humeano, uma forma de agnosticismo. 

O que deveria força-lo - A respeito de tudo quanto ultrapasse da demarcação imediata dos sentidos (A empiria) - a restrição e ao silêncio, como enfatizaram os ingleses Huxley, Mill Spencer.

Apesar disto, foi o positivismo de Litreé (Alegadamente anti metafísico) sob a forma cientificista, endossando cada vez mais abertamente o materialismo, até vende-lo como científico, enquanto que a ciência, sendo estritamente empírica, é por assim dizer agnóstica face a tudo quanto ultrapasse a simples materialidade. 

Dado por inverificável o quanto esteja para além dos sentidos, fica inviabilizado ou impugnado o discurso materialista. Uma coisa é declarar que o campo da investigação científica restringe-se ao campo da materialidade ou que a ciência seja material e outra, totalmente distinta, é assegurar que não exista qualquer coisa para além da matéria - O que justamente não se pode investigar por meio dos sentidos ou da percepção. Pois dado que existisse algo para além da matéria jamais poderia ser percebido.

É coisa de simples entendimento - Sucede todavia que nem todos os cientistas são versados em Gnoseologia ou Epistemologia...

Diante disto, ao cabo de todo século XX o positivismo, sob a forma acintosa do cientificismo, tornou-se porta voz do materialismo. 

Nada contra os materialistas que tem a lealdade de fugir ao positivismo ou ao kantismo e de apresentarem-se como metafísicos.

Obviamente que tal não é o caso dos positivistas - Os quais aspiram promover a ideologia ou a elaboração mental\conceitual do materialismo como 'ciência' ou dado empiricamente constatado... Aqui há quem pretenda inclusive ser cético (rsrsrs) e ateu, cético e materialista, cético e positivista... 

No plano da cultura o quanto foi dito a respeito do ceticismo por Victor Brochard, em sua extensa monografia sobre os céticos gregos foi reproduzido em gênero, número e grau pelo insuspeito G Sorel.

O qual também pode verificar que é o materialismo - E ainda mais o ceticismo - uma ideologia 'de crise', a qual ele vinculou ao fim do mundo antigo... Antes do mundo antigo ter se lançado aos braços do mitracismo, do gnosticismo e do Cristianismo havia se lançado nos braços do ceticismo e do materialismo. 

Não passou em sua totalidade da razão a fé ou ao fanatismo, mas, a partir da segunda metade do século III d C do irracionalismo ao misticismo (No qual o próprio neo platonismo se havia transformado) e enfim as crenças; sendo recuperado para a razão ou a teologia, por um Cristianismo (A Ortodoxia oriental a partir do século VI d C) que havia incorporado Aristóteles e que viria dar origem as diversas escolásticas. 

Embora alguns digam que este homem antigo fartou-se da razão, parece que foram mais propriamente as condições sociais adversas que fizeram este homem dela desconfiar até a negação ou ainda que a dúvida insuperável e pessimista foi potencializada pela situação externa do mundo, (Assim por calamidades naturais, conflitos bélicos, epidemias, miséria, etc) a qual parece ter repercutido negativamente nos domínios do intelecto, fazendo com que muitos passassem a desconfiar até mesmo de si próprios.

Assim o homem de hoje é precipitado pela crise do tempo presente nos braços das ideologias negativas que reforçam essa mesma crise. 

O homem angustiado ou neurótico da Sociedade do capital - Que trocou a família pelo culto ao trabalho e a viu sucumbir. - chegou a duvidar seriamente de sua capacidade e a sentir-se de todo incapaz ou inábil. 

Isso a um tal ponto que bastou a falsa religião apresenta-lo como culpado, impuro, corrupto e isento de qualquer qualidade para ele acreditar e encarar a si mesmo dessa forma.

Desde então a própria sociedade, enquanto convívio dos homens, não encontra regeneração... Uma vez que a partir do nada ou do vazio não se constrói coisa alguma. Uma vez que o nada o torna ainda mais frustrado. Uma vez que a impotência produz apenas decepção. 

Mesmo antes de ter tirado sua máscara e assumido aquele viés materialista que haveria de caracteriza-lo posteriormente, o positivismo, desde os tempos de Litreé, tendo declarado guerra a metafísica ousou repudiar a viabilidade da Ética enquanto valor universal e unificador. 

Já Brochard, em sua já citada obra, havia registrado que os antigos céticos costumavam ficar exasperados quando seus contraditores embrenhavam-se pelo caminho da ética, uma vez que nada tinham a oferecer e eram levados a admitir que absolutamente tudo era permitido... 

O que evidentemente assombrava seus contraditores, embora de modo algum assombre o homem leviano do século XXI. 

Mason acaba de morrer e esse Mason que acaba de morrer, foi quem urdiu o assassinato de Sharon Tate, seu filhinho e seus hóspedes, alegando que 'Tudo era permitido' uma vez que ele e seus seguidores não admitiam que assassinar, roubar, etc era errado... E como nada de externo ou de objetivo ao individuo além da sociedade falível... Como não há uma Ética transcendente, universal e unificadora... Com que direito podemos nós, a partir de nossos princípios e valores individuais, subjetivos e relativos julgar um Mason, um Streicher ou um Maníaco do parque e com que direito os podemos julgar e punir...

O que nos faz julgar e punir, com absoluta propriedade, tanto um Hitler quanto um Goebels ou um Himler é uma lei natural, essencial e comum que transcende a cada individuo e é fonte de direitos inerentes para todos os seres humanos. É sobre este conceito ou noção que se assentam os fundamentos mais remotos de nossos aparelhos judiciários.

Eliminado esta lei natural e estes direitos inerentes, como querem Kelsen Ross, apenas a instância social ou o poder político sobrepõe-se a pessoa.

Aparentemente semelhante doutrina não parece apenas inofensiva mas até sensata... 

E no entanto quantos não foram os crimes cometidos pelas sociedades, estados e organizações políticas ao cabo da história... A escravidão negra nos EUA, o Apartheid na África do Sul, os Campos de concentração nazistas na Alemanha, etc 

Daí Thoureau ter elaborado a doutrina da desobediência civil, embasada na consciência pessoal, a qual é tão digna e nobre quanto o poder político o é. 

Assim se Ross Kelsen personificam CreonteAntígona é feita valer pelo autor de Walden. Importa que hajam valores objetivos, comuns e essenciais acima de Antígona, Creonte, Ross, Kelsen, Hitler ou Mason... Aos quais se possam reportar todas as pessoas e sociedades.

O positivismo, todavia - E por questão de crenças ou de metafísica. - não o pode admitir...

Afinal Justiça e Liberdade são conceitos puros, que não podem ser experimentados, vistos, pesados, medidos, contados, etc E, sendo assim não existem apenas nos diferentes indivíduos, porém de diferentes formas. E o que é liberdade para um já não o é para outro... Nada de objetivo e externo aqui. 

Caso a justiça exista externamente e tenha uma forma comum, terá de existir e de subsistir imaterialmente... 

O que o positivismo não pode admitir. 

Sendo assim todo essencialismo ético, todo universo socrático/platônico é fundamentalmente abalado pelo positivismo. Pois é metafisico duma metafisica imaterialista ou espiritualista sem a qual a solução ética formulada pelo filho de Fenarete vem abaixo e desabada fragosamente. Enquanto ali, ao lado, diante dele, está Trasímaco, partidário de Creonte ou da força, do poder arbitrário.

Lamento te-lo de repetir pela milésima vez neste tempo em que se fala, tanto e tão levianamente, sobre ética. 

Afinal o grande mérito do pós modernismo anti positivista foi dar razão aos Católicos e reabilitar o tema da ética. Sem no entanto saber ou poder soluciona-lo, pela via do irracionalismo. Posto que por via do irracionalismo nada se soluciona ou conclui. 

Seja como for do positivismo jamais partiu qualquer sistema de ética, e ele jamais ocupou-se da ética mesmo quanto não chegou a nega-la honestamente com Litreé... O máximo a que seus profitentes chegaram foi a identificar a ética ou os valores com uma dada cultura humana, o que nos leva, não apenas ao relativismo, mas, como já foi dito, a instância da sociedade, como sendo o padrão com que nos deveríamos conformar. 

Ao postular o relativismo Etico ou cultural Durkheim, Levy Bruhl e os seus, ao menos remotamente, forneceram um suporte perfeito para Kelsen e este um suporte perfeito para a estatolatria e conformismo típicos do ceticismo enquanto negação de um modelo ideal. 

Foi assim com Pirro na antiga Grécia, e, ninguém mais conformista e conservador do que ele, dirá o citado Brochard... e não poderia ter sido diferente, pois como assevera Recaséns Sichens, não há crítica ou resistência, ou oposição possível a um dado concreto sem que haja uma instancia ideal. 

Negando doentiamente essa instância ideal e portanto, na mesma medida, a correção ou mudança, ceticismo e positivismo (Um Ceticismo ametafísico ético e estético.) tendem a ser conformar com o que é e a fazer com que nos submetamos docilmente a um veredito social que nem sempre é certo.

Remova a ética no entanto e que nos restará: O racismo, o escravismo, a tortura, o machismo, a pedofilia, a guerra, a matança de animais, etc

Irrelevante ou mesmo ocioso condenar tais monstruosidades em nome do individuo, da autoridade ou do grupo social. Pois alguém mais atilado, como um Mason, percebendo o logro, sempre poderá classificar tal condenação como mera opinião e discordar. 

É necessário condenar o machismo, o racismo, o odinismo, o adultismo, o especismo, o escravismo, etc em nome de um princípio objetivo, comum e superior a todos. De modo que a condenação seja categórica e o castigo justo.

É necessário fulminar tais vícios com uma condenação absoluta e  irretorquível. 

A qual independa da anuência ou da vontade dos indivíduos. 

Em nome de uma lei a que eles não poderão furtar-se porquanto sob quaisquer alegações.

O que sempre nos levará ao conceito de Lei natural, digo de que a Etica corresponde a uma Lei natural tão impositiva quanto a Lei física ou a Lei biológica.

O materialismo jamais ultrapassara o utilitarismo crasso i é aquele de Benthan, o da pior espécie... Mesmo porque Benthan, por questão de princípios jamais poderia considerar algo de unificador num universo puramente material. O quanto podia ele ver eram apenas elementos dispersos: Arvores, animais, casas, grupos sociais, culturas, opiniões, pontos de vista, etc sem qualquer mínima conexão ontológica.

Todos estão fartos de saber que o utilitarismo original, concebido por Benthan a partir do ateísmo ou do materialismo foi um utilitarismo individualista capaz de justificar Mason, Hitler, Tamerlão, etc

O que forçou J S Mill inserir naquele sistema o elemento da alteridade ou da empatia, o qual ele disse ter tomado ao catecismo ou ao Evangelho. Que os ateus, materialistas e positivistas (Não me refiro a bíblia ou antigo testamento e nem mesmo as cartas dos apóstolos porém as lições de Jesus ou a suas palavras assentes nos quatro Evangelhos - Quero deixar isto bem claro.) encaram como uma produção grosseira.

Solidariedade ou empatia empiricamente falando nada é. 

Por via do materialismo somos seres separados uns dos outros e não podemos jamais fugir ao individualismo com todas as suas funestas decorrências. 

Mas temos os mesmos corpos! 

Não, não temos os mesmos corpos. O que temos são corpos semelhantes quanto a forma ou a constituição, mas diversos quanto a extensão e por isso a dor sentida por um não jamais se propaga ao corpo do outro... 

Mas eu talvez venha a passar pela mesma situação... Isto continua sendo sempre uma mera suposição, a qual, rigorosamente falando não nos obriga a coisa alguma. 

Todo e qualquer sistema de ética que parta do materialismo jamais conseguirá opor-se com sucesso ao individualismo. Serão individuos buscando suas vantagens, bem a gosto do darwinismo social, o primo cientificista do utilitarismo benthaniano por sinal.

Considere o leitor o caso de tais indivíduos terem que matar, roubar, mentir, trair, etc 
para obterem os resultados a que aspiram, se realizarem e assim conquistar a felicidade? 

Fará voce um belo sermão dizendo que cada um deles deve abrir mão da própria felicidade ou imolar-se... Com base em que experiencia ou constatação empírica... Só se for com base nos romances da Bárbara Cartland...

Dirás que o direito deles termina onde começa o do outro... Que devem se colocar no lugar do outro... Que é errado... Etc

Pois bem, onde e por que modo são tais afirmações comprovadas pela ciencia.

Pelo contrário> O que mais vemos nesse curioso mundo são cientistas de tendencia darwiniana (Pobre Darwin) ou darwinistas sociais, publicando livros nos quais declaram que a traição, a mentira, etc corresponderam a mecanismos ou a estratégias evolutivas...

Teme ao menos - O criminoso, dirá voce. - ser apanhado pela justiça, ser descoberto, ser preso, ser punido, etc

O conselho até seria bom caso não deixa-se implícito que um crime não descoberto ou punido nada significa. 

Aqui, o quanto nosso defensor da 'Teoria pura' esta fazendo é, na prática, estimular o crime perfeito, por parte dos que se acham habilitados. Provavelmente voce responderá dizendo que não existe o crime perfeito - Ao que posso objetar: Alguns crimes são de fato tão perfeitos a ponto de voce, ignorando-os poder negar confortavelmente sua existencia. Direi no entanto que antes do DNA inumeros crimes foram 'relativamente' perfeitos e que outros só foram descobertos décadas após as mortes de seus autores, os quais de fato jamais responderam por eles ou receberam punições conseguindo burlar a justiça humana.

Naturalmente que se alguns conseguiram, alguns outros que tem perfeito conhecimento dos fatos e que se julgam competentes - Já dizia Cecília Meirelles Nada mais comum do que alguém atribuir a si mesmo excessivo valor... 

Sendo assim, ao menos para algumas pessoas pretenciosas a  impunidade por si só, face as autoridades humanas, equivaleria sempre a um estímulo ou a uma permissão, para que cometessem crimes.

Senso assim a doutrina utilitarista individualista corresponde, sob todos os aspectos possíveis a um fiasco completo.

Hume merece certamente ser aplaudido por sua honestidade e franqueza, quando partindo de seu ceticismo inveterado, teve de concluir que o assassinato não constitui um mal em si mesmo e que a única coisa que o transforma em crime é a lei baixada pela sociedade. 

Portanto não havendo punição ou lei externa não haveria crime.

Tortura e estupro tampouco seriam males condenáveis em si mesmos, exceto se condenados pela sociedade. 

Agora imaginem uma Sociedade que aprovasse a tortura, como a Comunista, a Fascista, a Nazista - ou uma outra, como a islâmica, onde estupro de vulnerável ou de infiel fosse autorizado... 

Eis para onde nos levam Hume e o querido ceticismo...

Agora reflitamos sobre o que sucederia caso as pessoas, em especial as massas ouvissem-no e o levassem a sério.

Reflita! 

Imagine uma Sociedade em que o sistema de Mill fosse adotado sem os atavios tomados ao Cristianismo (Tornando a ser o de Benthan) com sua ética revelada... Sim, pois o outro nome do utilitarismo individualista é darwinismo social; amiguinho Benthan e amiguinho Spencer estão de mãos dadas... E nessa sociedade regida por princípios egoístas; compaixão, amor, justiça, etc não apenas carecem de todo sentido ou são meros nomes como representam desvantagens em conflito com as investigações científicas.

Agora veja um clamoroso exemplo ou reflexão que tomo Peter Singer - Por que raios continuamos a torturar e matar animais inteligentes, como cobaias, ratos, macacos, cavalos, cães, gatos, etc com as bençãos dos cientistas positivistas e dos patrões ou empresários apenas para emprega-los em 'experiencias' (Torturas escabrosas, repito) e ter uns sabonetes, perfumes, xampus e desodorantes, e medicamentos, melhores ou ainda para adquirir uns certos conhecimentos... Por que continuamos a fazer isso após sabermos que tais seres não apenas são sensíveis, como auto conscientes, resistentes a morte e sobretudo inteligentes...

Trasímaco responde: Fazemos isso primeiramente porque podemos ou temos força, armas, etc e em segundo lugar porque obtemos vantagens ou benefícios> Eis ai o belo utilitarismo produzindo seus frutos podres i é uma autentica hecatombe! E os cientistas acríticos e negadores da Etica e de lei natural, executam, aplaudem e defendem tudo isso, para depois criticarem os religiosos ignorantes e iletrados que sacrificam animais a seus deuses... Eis a estirpe dos evoluídos positivistas...

Observem mais uma vez este trágico quadro - Utilitarismo, Individualismo e Darwinismo social... 

E reflitam sobre de que maneira poderiam tais doutrinas servir de anteparo as culturas de morte do Anarco individualismo, do Fascismo, do Nazismo e do Comunismo... 

O positivismo, o cientificismo, o ceticismo, o materialismo e sobretudo o ateísmo jamais poderão servir de fundamento a qualquer sistema de Etica nimiamente humanista i é capaz de proteger, valorizar e promover o ser humano face aos clamores das culturas de morte acima citadas! Que dizer então sobre uma Etica supra especista capaz de vindicar os direitos dos animais acima citados!

Afinal sempre serão sistemas estruturais ou funcionalistas a que sempre se poderá escapar. 

Não cogitam em eles em liberdade ou justiça e por isso jamais serão capazes de inserir vida em nossa democracia semi morta ou de reformar as instituições econômicas produzindo uma sociedade mais solidária e fraterna. 

Não devemos esperar qualquer redenção do positivismo ou de seus tentáculos, tampouco do empirismo e do ceticismo e enfim do pós modernismo. Desse balaio não saí Etica alguma. 

Assim enquanto mais e mais escombros vão caindo sobre nossas cabeças (E diante do cenário feérico que é este imenso campo, coberto por ruínas monumentais.) só nos resta ir bater a outras portas...

Seremos capazes de reconstruir alguma coisa??? Não sei, não sei, não sei; mas certamente devemos tentar...

Poderemos aproveitar algum material?

Mármores e pórfiros sempre podem ser reaproveitados com sucesso...

Reciclagem é sinal de inteligência...

Algo há que possa ser recuperado?

Veremos, veremos...

Precisamos porém de um elemento coordenador...


Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte': 


  • Americanismo
  • Protestantismo
  • Capitalismo
  • Comunismo
  • Anarquismo
  • Conservadorismo
  • Pós Modernismo
  • Sionismo 
  • etc

quinta-feira, 15 de julho de 2021

A metafisicalização das verdades e a deturpação da realidade.

Nobre é a busca pela verdade e preciosa sua aquisição.

Há mais de milênio e meio disse alguém que toda e qualquer verdade procede, ao menos remotamente, do Espírito divino.

De fato qualquer verdade, por ínfima e humilde que possa parecer é como que uma cor ou tom no caleidoscópio do infinito.

Da combinação química presente no molho béarnaise e da formula da água as complexas fórmulas matemáticas que exprimem a realidade da física, assim a Teoria da Relatividade.

Agora por belas e majestosas que sejam certas verdades matemáticas expressas por gênios como Tales ou Pitágoras, Euclides ou Arquimedes, Euler ou Gauss, tem elas seu próprio lugar ou espaço no plano da realidade. 

E mal fica que um Pareto as queira transplantar a fina força para o plano da economia com a esfarrapada desculpada de que é a economia uma ciência exata e assim tão matemática como a física.

Como mal fica a matematicização total iniciada por Descartes e completada por aqueles (Dentre todos por Comte.) que, a modos de novos Pitágoras, aspiraram levar as fórmulas newtoneanas a Filosofia, a Biologia, a Geografia, e assim por diante. E daí surgiram sistemas ideológicos aberrantes.

Não que deseje increpar as matemáticas apenas. Que os matemáticos, face os religiosos, os biólogos, o sociólogos e outros foram humildes. 

Comecei pelos matemáticos e ideólogos matematicizantes, geralmente de inspiração positivista, apenas para obter exemplos.

A partir dos quais a escamoteação da realidade ficasse suficientemente clara, e se pudesse perceber o processo de metafisicalização urdido pelos ideólogos inconsequentes.

O qual consiste em detectar uma verdade qualquer situada em determinado campo da realidade e estende-la a todos os outros campos, qual fosse, um princípio universal capaz de tudo explicar quando na verdade mística e obscurece a contemplação da realidade.

E é esta manobra tão aberrante a ponto de que, quando certo fato nela não se encaixa, destoando do esquema, bastar para que o dito fato - E outros mais - seja negado. E negam-se fatos que são verdades em nome da teoria ou do esquema querido. 

Partindo da fé religiosa por exemplo, que é, do ponto de vista Cristão Ortodoxo e Católico, imutável e autoritativa, concluiu certo grupo, representado de modo geral pelos integralistas, que também a organização política e social deva ser imutável e autoritativa ou autoritária, isto a ponto de apresentarem seu monarquismo ou despotismo e seu conservadorismo tosco como espécie de dogmas de fé (O que de fato converte-os em heréticos.). Quanto ao papismo já disse que o insuspeito Joaquim Pecci ou Leão XIII, desferiu rude golpe sobre tais homens desorientados ao declarar, como era esperado e justo, que a organização democrática é perfeitamente compatível com a fé, o que é igualmente válido quanto a fé Ortodoxa ou qualquer Igreja apostólica. 

Já quanto o conservadorismo tosco, que é um pensamento rasteiro e falsa apreensão da dinâmica social escusado seria que um papa romano, patriarca, Bispo, presbítero ou clérigo qualquer o refutasse.

Afinal quem autorizou tais pessoas a ultrapassarem os limites do sagrado e aplicar as notas que pertencem exclusivamente a revelação divina, a realidade sublunar e as instituições humanas. Agora porque a Revelação divina é autoritativa e divina desde quanto as instituições políticas e sociais devem ser autoritativas e divinas? Nada mais ímpio do que divinizar o humano, pois é aproximar-se da idolatria. 

É o quanto basta sobre nossos irmãos desorientados. 

Passo agora os agostianianos e heréticos da mesma cepa, representados por Calvino e por diversas seitas protestantes, os quais estendem sua crença ímpia sobre a corrupção total da natureza humana e a inexistência do livre arbítrio ou o determinismo sagrado a realidade vivida como um todo. 

E tocando a questão da epistemologia advogam que o homem nada pode saber fora da Revelação, posto que os sentidos e a razão enganam-no. Pronto temos o ceticismo...

Agora como é o homem um ser sempre depravado, apesar da graça e do batismo, é necessário que seja objeto de uma educação repressora. Pronto temos o moralismo ou puritanismo.

E como mesmo essa educação não basta para redimi-lo precisamos de uma estrutura eclesial ou secular com que fiscaliza-lo e disciplina-lo, mantendo-o sob controle. Pronto temos o autoritarismo.

E como todo esse ordenamento procede da fé imutável temos o conservadorismo.

E como a experiência e a reflexão nada são, a ciência - Especialmente se oposta aos mitos judaicos do antigo testamento. -  tampouco vale alguma coisa - Pronto temos o negacionismo, do qual procedem criacionismo, geocentrismo, terraplanismo, etc 

Agora veja como temos aqui um perfil ideológico bem definido procedente do agostianismo/calvinismo com sua antropologia e psicologia estendidas a diversas outras áreas da existência.

E não é para admirar que a mesma criatura que se recusa a reformar a Sociedade ou a moralidade, após ter reformado muito mal o Cristianismo ora pretenda reformar a História, a Geografia, a Física, a Química, a Biologia, a Psicologia e todos os conhecimentos sólidos e seguros aduzidos pelo gênero humano.

É toda uma escolástica de matriz religioso parte parte de um dado equivocado.

Pois aqui não se trata de verdade alguma. No entanto mencionamos a tragédia, por ser correlata ao fenômeno que relatamos quanto a profanação da verdade.

Ainda no plano religioso dos erros temos o princípio individualismo canonizado pelo protestantismo já em seus primórdios, o qual foi sendo sucessivamente secularizado e aplicado a outros campos da realidade pelos protestantes. De que resultou uma economia individualista a que chamamos liberalismo econômico ou capitalismo. Uma negação da política, a que chamamos anarquismo, especialmente a partir de Stirner. E uma proposta 'ética' que conservou o termo individualismo com Ayn Rand, havendo quem por força de coerência sejam protestante, capitalista, a anarquista e individualista - Assim um ANCAP. E temos pessoas com esse perfil nas Igrejas Ortodoxa e romana nas quais as normas e regras são totalmente opostas a esta visão, por partirem de um princípio diametralmente oposto ao individualismo, como o solidarismo ou fraternalismo.

No entanto essa infecção ideológica saiu de controle, deixou seu campo - que era o protestantismo, um campo religioso - e contaminou diversos outros, produzindo alias um sistema de cultura, tanto mais firma nos EUA e tanto mais preciso sob a forma ANCAP, que é produto final de tudo isso.

A partir do anarquismo, surgiu esse negacionismo iconoclástico radical, adversário de todas as instituições e não apenas da política, o qual estendeu-se ou alastrou-se a quase todas as áreas da realidade como uma espécie de rival do conservadorismo. E se o conservadorismo, sem fazer mínima distinção entre bem e mal ou entre o que merece e não merece ser conservado segue seu caminho, o anarquismo, assumindo um progressivismo virulento de origem metafísica, vai pelo extremo oposto. 

No plano institucional esse anarquismo (A que Sorel credita o mérito de o te-lo em conta de incoerente. Rappoport) negou-se a inserir-se onde quer que fosse: Parlamento, sindicato (Sorel, Kropotkin e os seus o fizeram por conta e risco e enfrentaram o repuxo da 'Ortodoxia'.), escola, igreja, etc apregoando a deserção do mundo e a destruição completa do mundo burguês por meio de uma Revolução não poucas vezes sangrenta. Pouco mais tarde completou o anarquismo seu trajeto e coroou sua visão totalizante com a negação da cultura teórica: Da Filosofia, assim da gnoseologia; da ciência, assim da epistemologia e enfim da estética, negando o passado em sua totalidade. Aqui encontrou-se ele com o ceticismo, em parte já secularizado e com o relativismo/subjetivismo kantiano tributário de Lutero e assim de Agostinho. Sem averiguar as possíveis fontes de suas crenças carregou e trouxe consigo o anarquismo, um travo pessimista quanto o passado do homem, no qual viu apenas opressão.

De modo que o partindo da negação do parlamento ou do politico e passando pela negação das instituições atuais, chegou o anarquismo a manifestar-se e impor-se como modelo ideológico completo, aqui sustentando posições céticas e relativistas, ali posições anarquistas (Vide a posição de Feyerabend quanto a pesquisa científica.), e por fim quanto as artes, posições psicologistas que ajudaram a criar essa arte sinistra que é a arte moderna, alias com grande dose que pragmatismo burguês advindo da cultura capitalista. 

Podemos dizer assim que o espírito anarquista alastrou-se pelo universo e consolidou-se em diversas áreas que sequer faziam parte da proposta primitiva. E produziu-se como dissemos uma visão anarquista totalizante, um óculos ou uma lente a partir da qual se busca ver o mundo através da mesma perspectiva e manter certa dose de coerência.

O que queremos dizer ao fim deste artigo é que elementos das matemáticas cartesiana e newtoneana, da Revelação Cristã ou da heresia agostiniana e enfim da postura anarquista - E são apenas alguns exemplos - foram recortados ou descolados e inseridos artificialmente noutras tantas áreas da existência ou do conhecimento de modo a tudo explicarem ou darem origem a visões de mundo que obscurecem a própria realidade. Daí resultaram diversas ideologias ora reinantes como o positivismo, integralismo, o puritanismo, o conservadorismo, o autoritarismo, o determinismo, o negacionismo científico, o irracionalismo, o ceticismo, o negacionismo social, o psicologismo, o modernismo estético, etc todo esse cipoal que não poucas vezes se enlaça e encontra, complicando ainda mais a compreensão e consequentemente a exposição das ideias.






quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Modelos estanques de Ética e teoria política resultante

John Gray - na Anatomia - em suas reflexões, insiste repetidamente na incompatibilidade irredutível de certos conceitos ético/valorativos como ponto de partida para a elaboração de sentidos políticos conflitantes. Há por trás disto a pressuposição instrumental segundo a qual as pessoas adotam uma determinada forma política com o objetivo de legitimar os valores que norteiam suas vidas. E não podemos duvidar de que a maior parte das pessoas assim procedam e julguem as teorias ou seus resultados concretos a partir de valores estanques e unívocos.

Diante disto a saída apontada por Gray, se bem o compreendemos, gira em torno de um ceticismo ou relativismo ético a que chama pluralismo. Pois ele julga que as pessoas prendem-se metafisicamente a um determinado valor e a visão política que dele decorre, julgando-as verdadeiras e passando a combater ferozmente as demais. O máximo que ele pode dizer é que essas pessoas devem tolerar as visões contrários ou opostas que procedem de valores divergentes.

Por isso ele condena veementemente não apenas o espírito jacobinista, que busca expandir belicosamente a ordem democrática, mas o simples espírito democrático que encara a ordem democrática como a única aceitável face a aristocracia ou a monarquia. Claro que ele sabe desvincular, com maestria a pura forma ou estrutura democrática dos Liberalismos Político e Pessoal, apontando para a boca do abismo - que é o formalismo vazio, e enfim para o fenômeno monstruoso do totalitarismo democrático, alias já presente em Rousseau, o 'Hobbes' da democracia...

Evidentemente que sua análise recorda, de longe, a análise estrutural, realista e funcional a que Aristóteles submeteu as formas políticas todas, buscando legitima-las teleologicamente através da meta do 'Bem comum'. Todavia não é menos verdadeiro, que o mesmo Aristóteles - aberto a aceitação de qualquer forma política - antecipando Platão, nas leis, e a própria organização da República romana, aponta o sistema misto ou republicanista como sendo o mais adequado a vida social.

Maquiavel no entanto, apelando a experiência faz duas declarações bastante interessantes. A primeira delas diz respeito ao reduzido número de exemplos históricos alusivos a bons monarcas. E se recorrêssemos a Voltaire, ele nos diria que até mesmo as páginas da suposta História sagrada ou da monarquia controlada por deus (de Judá e Israel) não faz exceção a regra... Para cada Pedro II há centos de Hitleres, Timures, Stalines, Ivans, etc O que nos ela a tese do poder absolutamente corruptor...

A outra alegação é até mais filosófica. O povo ou a multidão, correspondendo a diversos cérebros, via de regra, decida melhor e governa melhor, desde que educada é claro. Devemos convir com Aristóteles, Ortega y Gasset, Patrizi e outros em que a Oclocracia ou governo das massas incultas e bárbaras seria pior do que o governo aristocrático ou nobiliárquico. Assim, caso tenhamos de escolher entre "O domínio só da nobreza e o domínio somente da plebe, que o governo fique nas mãos da nobreza e não da plebe.". 

A bem da verdade não há mesmo receita de bolo ou bula de remédio para o problema das formas políticas. No entanto a prudência e a razão parecem recomendar ou a policracia de Atenas ou o regime misto - republicanista - da Roma anterior a César.

Sou até levado a concordar com Gray e antes dele com Guicciardini no sentido de que outras culturas e sociedades conservem as antigas formas monárquica ou aristocrática até que a consciência democrática surja a partir delas mesmas. O problema aqui é mostrar-se tolerante com a instalação de regimes tirânicos ou despóticos em sociedades que conheceram ou conhecem as formas democráticas. Claro que as formas democráticas por si só não são perfeitas. Há o problema latente do economicismo, por exemplo. De modo que nossas formas democráticas carecem de uma orientação ética, a qual lhes apure e depure. No entanto a precariedade das mesmas não justifica sua substituição por formas totalitárias ou ditatoriais. A solução deve dar-se no sentido oposto - por mais democracia e menos pressão por parte do poder econômico.

Seria pedir demais aos cidadãos conscientes, herdeiros do pensamento de um Cícero, de um Mussato, de um Latini, de um Marsiglio... que tolerassem o desabrochar e o florescer de principados autoritários no berço das democracias antiga e moderna. Olhar o agonia, a crise e o colapso das formas democráticas ocidentais com indiferença constituiria para muitos de nós uma traição, senão um sacrilégio e é aqui que não podemos acompanhar Gray em seu comodo relativismo, já ético, já político. Mesmo admitindo o papel da consciência social ou pessoal nós encaramos o exercício da liberdade como um valor ôntico ou essencial, mesmo quando assumimos a doutrina da liberdade negativa ou instrumental i é para a verdade. Pois como disse Valera a democracia é justamente isto - Um terreno livre de todas as peias, a partir do qual podemos exercer uma atividade livre, embora toda atividade tenha um fim e o fim da atividade intelectual seja a Verdade e o fim da atividade ética o Bem.

A parte construtiva de Gray - Mesmo admitindo que ele não percebe no bem, na verdade e na beleza, nada mais que convenções - (E ela é atual) diz respeito a nossa visão estanque, compartimentada ou desarticulada de virtude. Erro cabal mas comum a Humanistas e a Cristãos... com a decorrente cristalização do sentido político. O analista conservador, de modo geral, seleciona, argutamente três valores perfeitamente distintos. Assim a Liberdade, a Paz e a Justiça, declarando que nossa civilização não cessa de contrapo-los uns aos outros, construindo sentidos políticos contraditórios que vivem a se chocar...

Deve, creio eu, ter lido a análise penetrante do florentino. Maquiavel - com a sagacidade que lhe é peculiar - já havia relacionado a opção radical ou prioritária pela Paz com o modelo conservador e assim com derivativos em torno da estabilidade, da tranquilidade, da imobilidade social, etc em torno dos quais constroem seu ideário. Do outro lado situa os partidários da Liberdade - Liberais Políticos ou Pessoais - os quais em nome da própria dignidade estão sempre postos a sacrificar os derivativos acima, não recuando mesmo face ao conflito, a violência, a força, ao tumulto, a instabilidade, sempre que necessário for. Não prezam como dizem uma paz de escravos ou a porção do cão acorrentado a parede.

Gray - e nós com ele - acrescentaria, a visão de Maquiavel, um terceiro grupo, os partidários da justiça ou progressistas ou ainda - caso levemos em conta que Platão era justicionista - reacionários/progressistas (parece paradoxal mas não é). Estes concordam com os Liberais no sentido de sacrificar a paz as exigências da justiça, admitindo pagar tributo a insegurança, a instabilidade, a confusão, etc caso seja necessário. Mais, alguns deles - os totalitários e despóticos - admitem inclusive sacrificar a própria liberdade as exigências da justiça. Assim os radicais.

Ambos os grupos em questão concordam que a paz não pode ser encarada como valor supremo. A ponto de abraçarmos com fervor uma paz indigna ou injusta. Claro que a paz deve ser estimada ou prezada, mas apenas até certo ponto. É a paz um valor derivativo ou relativo, que deve sempre estar conectado com a liberdade e com a justiça, os quais estão bem mais próximos do absoluto.

Será este o sentido do Evangelho ou de Jesus Cristo. Muitas vezes apresentado como pacifista radical, a semelhança de Tolstoi, Gandhi ou Thoreau. É indubitável que Jesus amasse a paz e a tivesse em conta de importante valor. A ponto de inclui-la nas bem aventuranças. E quanto a esfera da vida pessoal ou provada de sancionar a não violência ou a não agressão, além de condenar terminantemente a vingança. A questão é se ensinou-nos já na vida pessoal já na vida social a suportar uma paz indigna ou injusta em nome da religião.

Aqui parte das pessoas costumam sair-se com o texto clássico do 'dar a outra face...' e o exagero oposto é toma-lo por metáfora. Dar a outra face é de fato uma ênfase, no sentido de jamais dar vasão a cólera e exercer a vingança. Não esta contra V Ihering, quando declara que buscar a justiça face a uma agressão qualquer faça parte de nossa própria dignidade. O Cristão agredido ou prejudicado na esfera da vida pessoal sempre poderá ou deverá recorrer aos magistrados ou ao tribunal, pois não é isto vingança e sim demanda pela justiça.

Agora em que me baseio para dizer tais coisas? Acaso não estarei fugindo a tradição, livre examinando como Lutero e transtornando, criminosamente, o sentido da palavra de Cristo? Não, não fugimos ao Evangelho, mas recorrendo as ações ou ao exemplo de Nosso Senhor podemos compreender melhor o sentido de suas palavras.

Assim quando é esbofeteado pelo oficial do sumo sacerdote, Jesus não fica calado, mas replica: Se mal falei, demonstra; mas se bem falei porque me bates? Como quem demanda por justiça, mesmo sem saber que não seria atendido. Mas se sabia que não seria atendido porque demandou? Para dar-nos exemplo. Para dar exemplo aos que haveriam de crer e estimula-los a perseguir a justiça!

É como dissesse: Se eu falei algo errado tens razão em bater-me, mas se eu falei a verdade com que direito me bates?

Esta embutido nesta pequenina frase a própria definição de justiça: Dar a cada um o que lhe convém. Assim punir o que mente e premiar o que declara a verdade!

Podemos declarar que a justiça faz parte do Evangelho, e a demanda, e o clamor pela justiça, tal e qual o apreço pela paz. E nem pode ser Jesus a favor de uma paz social que seja injusta. Justiça e paz devem abraçar-se e caminhar juntas.

Assim a liberdade. Posto que Jesus reconhece o direito dos hierosolimitanos que se recusavam a crer nele, além de declarar ter se manifestado para tornar o homem verdadeiramente livre. Não falsamente livre ou livre pela metade apenas. Claro que a liberdade parte antes de tudo do interior do homem e por isso diz Jesus que o ímpio pode tirar-nos a vida mas de modo algum atingir a alma e contamina-la. Fica de algum modo assente que também o ambiente externo, o mais condizente com a condição livre do homem, deve facilitar ou promover esta liberdade externa e por isso o Império romano procedia com dolo ao martirizar os primeiros Cristãos.

Disto se segue que a liberdade também é valor precipuamente evangélico, que acompanha o espírito, e onde há espírito há liberdade e não há espirito sem liberdade.

Temos assim que a proposta do Evangelho não se cristaliza em torno de um destes valores apenas, qual fosse estanque ou unitário, com a exclusão dos demais, mas conecta-os organicamente uns aos outros ou articula-os hierarquicamente. É uma visão harmoniosa, não sectária ou radical.

É a paz qualidade preciosa, mas relativa ou seja sempre que associada a realização da liberdade e da justiça com a exclusão das quais perde seu sentido e se torna indigna. Por isso os Cristãos buscam sempre e antes de tudo resolver os problemas da liberdade e da justiça pela via democrática, legal ou institucional, não deixando inclusive de exercer a desobediência cívil de Thoreau caso necessário seja e em seguida de rebelar-se e de exercer a violência - nos mesmos termos de G Sorel - caso seja necessário. O que deve ser feito sem mínimo constrangimento. Tal a clássica doutrina da guerra justa e a doutrina consequente da justa rebelião e do tiranicídio. Tudo isto é doutrina Católica, Ortodoxa e clássica, assente na nossa tradição e na alta teologia.

Partimos de Marsiglio, Mussato, Latini, Salutati, etc passamos por Tolstoi e Thoreau, mas, se preciso chegamos a Sorel. Pois não admitimos paz de escravos, servil ou indigna.

Após a paz segue a liberdade. Não como fim em si mesmo - a própria atividade não é fim em si mesma - mas como via de acesso a Kalokagathia. Embora não constitua a Liberdade um fim em si mesmo, constitui um precioso valor pelo simples fato de corresponder ao curso natural em que nós, seres humanos, devemos nos desenvolver. A liberdade é nosso caminho e não podemos prescindir dela o negocia-la. Por isso os que costumam isola-la e opo-la a justiça com o objetivo de nega-la cometem um erro terrível. Optar entre liberdade e justiça será sempre um falso dilema. É necessário conserva-las ambas, e onde falta a justiça, combater por ela, sem jamais suprimir a liberdade.

É assim a liberdade necessária. É valor necessário mas não suficiente e não nos podemos satisfazer com ela caso falte a virtude mais excelente em termos qualitativos e propriamente divina, que é a justiça. Deus não é livre. E não pode deixar de ser justo.

Assim a mesma relação da paz com a liberdade se reproduz na relação da paz com a justiça, devendo a paz ceder. E o Cristão amando e cultivando a paz; e repudiando a agressão, não se torna pacifista ou ao menos pacifista crasso. E sendo assim jamais será conservador. Exceto se a sociedade a ser conservada for livre e justa e se os valores da liberdade e da justiça realizarem-se nela, do contrário...

Será o Cristão ou o humanista racional, Liberal e sempre Liberal, especialmente quanto a politica e a ética (religiosidade). Como seja justicionista, solidarista, comunitarista, socialista pelo simples fato de jamais perder a noção do outro e alienar-se dele. Será solidário, jamais egoísta. Assim os termos liberal e social ou socialista, se bem compreendidos não se excluem, se articulam e completam.

Portanto não há este homem de escolher ou de optar entre qualquer dos três valores mas de cultiva-los justos, organicamente. E de construir um sentido misto - Liberal, Social e quanto possível em conexão com a paz ou pacífico. Pacífico sem ser pacifista, social sem ser totalitário ou comunista e liberal sem ser economicista ou capitalista. Situará a comunhão no plano da economia, o liberal no plano da política e a paz como objetivo prático.

Destarte não precisaremos relativizar, com grave risco, tais valores, pelo simples fato de podermos coordena-los.

Relativizar a justiça ou a ética como costumam fazer or teóricos do direito puro, como Kelsen e Ross, equivaleria a negar a lei natural e a solapar os fundamentos do liberalismo pessoal e político, dando-o por meramente convencional. Relativizar a liberdade reforçaria ao máximo a negação acima. E o resultado disto tudo seria fortalecer o Estado, alias e inclusive, totalitário e despótico, até chegar ao absolutismo, ao direito divino, a servidão, ao escravismo, ao nazismo e a outras tantas culturas de morte, venenosíssimas, sempre.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Egiptologia e conservadorismo

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Costumamos ler e ouvir, amiúde, em diversos artigos, livros ou documentários a respeito do antigo Egito que esta Civilização manteve-se praticamente imutável e estática ao cabo de quase três mil e quinhentos anos a contar de Scorpion ou Narmer (Menés) a bela Cleópatra. Especialmente no campo da religião e da arte nada teria mudado... Recordo-me bem de que no quinto ano, quando contava com doze anos de idade, ao ficar ciente disto - i é da suposta imutabilidade egípcia - fui fortemente impactado.



Psicologicamente aspirava pela estabilidade. Foi o início de minha jornada conservadora, alias alimentada pela cultura tomada ao protestantismo e sua moralidade tosca. Desde então o Antigo Egito converteu-se na pupila de meus olhos e no foco de minhas atenções; e tudo quanto era livro didático corroborava a fábula ou mito do Egito imutável.

Para minha maior sorte, desde os vinte anos, comecei a pesquisar por mim mesmo e ler coisinhas mais sérias assim Lange, Pierre Montet, Vandier... até que cheguei a Etienne Drioton... E toda quimera se desfez. Cedendo lugar a uma compreensão mais objetiva e real. Um dia temos de tomar vergonha e folhear Moret ou de dar ouvidos a Dra Fletcher ou a Gunther Dreyer... Então os ídolos partem-se e caem todos por terra.

Não, o Egito não foi a Sociedade imutável dos idealistas e românticos. Foi uma cultura estável e resistente, mas, de modo alguma uma sociedade paralisada por três mil anos. Ademais uma tal visão seria tão utópica quanto o livre mercado dos liberais, o fim do estado dos anarquistas ou o futuro sonhado pelos comunistas. Nem mais nem menos.

A pirâmides por exemplo não foram uma constante... As primeiras foram supinamente ignoradas por Narmer, Aha, Djer, etc e assim até Djoser, que floresceu em 2.615 a C, durante a quarta dinastia. E já haviam caído em desuso durante o novo império, de modo que as últimas foram construídas para servir de tumbas aos construtores das tumbas reais do Vale dos Reis - que moravam em Deir el Medina - pelos idos de 1100... A bem da verdade outras tantas centenas de pirâmides foram erguidas do oitavo século a C aos primeiros séculos de nossa Era, mas pelos faraós ou melhor pelas faraonas negras (Candaces) de Meroé ou Khush, assim Amanitore, Amani Shesketo, Amanirenas, etc os quais desejavam ser mais egipcios do que os próprios egipcios... No Egito porém já haviam saído de moda há mais de milênio. Ademais os meroíticos, núbios ou etíopes nem sempre respeitaram a forma da pirâmide egipcia - cuja base era quadrangular - chegando a edificar pirâmides de base triangular ou perfeitamente triangulares.

As próprias múmias, que constituem para muitos uma constante na História daquele pais, remontam a Snefru, o construtor da primeira pirâmide em Dashur. Anteriormente as múmias eram produto natural do meio e não produto de intervenção humana. Por outro lado, embora a mumificação só tenha sido abandonada nos primeiros séculos desta Era, devido a influência da fé Cristã, com seu conteúdo judaico, a máscara com que buscavam reproduzir as feições do falecido não conservaram a mesma forma. Assim, alguns séculos antes desta Era, os fayumitas passaram a introduzir nas faixas da múmia umas tabuas ou painéis pintados conforme o gosto helênico ou romano ao invés das velhas máscaras de madeira ou metal que reproduziam o gosto estético dos egípcios. Ao que parece este novo estilo arraigou-se por todo Delta...

Mesmo a medula da religião egipcia, centrada na vida eterna, segundo Drioton, não deixou de passar por drásticas transformações no decorrer dos séculos. Trata-se de um histórico a ser melhor considerado e Drioton pode defini-lo como uma paulatina democratização. Pois a princípio apenas o Faraó tinha acesso a vida eterna, caso os ritos funerários fossem executados. Posteriormente no entanto, a guiza de recompensa, o faraó adotou o costume de conceder tumbas, rituais e consequentemente o acesso a vida eterna seus familiares e colaboradores, assim ao vizir e aos nomarcas; assumindo o além uma forma aristocrática. Com a generalização da mumificação, do jazigo e dos livros mortuários; no Novo Império, a maior parte dos egípcios passou a revindicar acesso a vida eterna, com o 'placet' de seus reis...

Além disto a própria concepção de vida eterna não cessou de transformar-se durante todo este tempo. Pois se é certo que os primeiros faraós, adeptos de uma simples dicotomia - acreditavam que passariam a eternidade ressuscitados em suas tumbas consumindo oferendas, os textos gravados na pirâmide de Unis ou Venis, dão já a entender que ao menos durante o dia o Faraó podia tomar carona na Barca de Rá ou ascender aos céus. Passados alguns séculos a adoção de um modelo tricotômico possibilitou que o espírito do Faraó ascendesse ao mundo divino enquanto que seu corpo ressuscitado (ou habitado pela alma) continuasse a viver em sua sepultura... Os próprios nobres e populares adotaram semelhante modelo, passando a crer que enquanto seus corpos ressuscitados tornariam a viver nas tumbas, o espírito migraria para um local bastante parecido com as margens do Nilo ao que passaram a chamar 'campos elíseos'.

Portanto sequer o cerne da religiosidade permaneceu estático ou fixo entre eles mas sujeito a constante alteração. O mesmo pode ser dito com relação aos deuses. Uma vez que o posto de deus supremo ou rei dos deuses sempre coube ao principal deus cultuado na capital do pais - O Rá da Heliopólis pré dinástica, Phtá de Mênfis durante o antigo Império e por fim o todo poderoso Amon de Tebas, durante o Novo Império. Daí o esperto Usirmaré Setepenre Ramsés II, fazer-se ladear por Rá, Phtá e Amon em seu templo de Abu Simbel. Assim a fama ou status da divindade acompanhou as mudanças administrativas porque o pais passou em seus três mil anos... Até chegarmos a Serapís, o grande deus do período helenístico, cujo principal centro foi Alexandria.

A própria concepção de divindade não deixou de conhecer significativa alteração. Uma vez que Akhenaton aspirou substituir o henoteísmo vigente pelo monoteísmo, da mesma maneira como o henoteísmo havia eclipsado o politeísmo vigente nas primeiras dinastias. Nem foi o culto popular ou folclórico aos animais tão marcante como após o século XII, chegando a predominar no período helenístico. Após ter sido incipiente após o antigo e o médio impérios.

Diga-se o mesmo a respeito de diversas técnicas ou modos de produção. Os quais apesar de sua repugnância os egipcios tiveram de adotar e alterar, tendo em vista a perpetuação de sua autonomia. Assim o emprego dos carros e cavalos, do arco duplo e da machadinha estreita tomados ao invasor Hicso ou Heka Shasut. E mais tarde, ao tempo dos Hititas, a adoção das armas de ferro, em detrimento as de bronze...

Mesmo no plano da arte não se puderam manter estáticos. E se a arte de Amarna apresenta sérias rupturas as estátuas de Senusret III, que remontam ao Império médio, denotam um realismo espantoso. Já ao tempo de Ramsés III, a arte minóica faz sua primeira aparição no Delta...

O próprio caráter ou significado mais íntimo dos faraós também apresentou significativa alteração. Assim nos impérios antigo e médio, o rei é encarado como divino enquanto sacerdote ou representante da divindade; mas só se torna um 'deus' efetivamente, após sua morte. É filho adotivo ou como querem alguns emanação do Sagrado, mas não uma divindade como Rá, Phtá ou Amon aos quais deveria servir. Mentuhotep e Senusret estavam, ao que parece, bastante conscientes de sua humanidade...

É ao correr do Novo Império que as coisas assumem nova configuração, em conexão com o culto do todo poderoso Amon, a esta altura hipostasiado com o velho Rá, o Sol. Hatchepsut, filha de Tutmósis I e esposa de Tutmósis II, buscando legitimar seu poder, em detrimento do enteado - o futuro Tutmés III - e com o decidido apoio de Hapuseneb, alto sacerdote de Amon, não hesitou em recorrer a patranha e recorrer a um mito em torno de sua concepção miraculosa. O deus Amon, assumindo forma humana, havia coabitado com sua mãe... sendo ela filha do próprio deus e portanto uma deusa ou deus encarnado... Desde então pode governar sossegada pelo espaço de uns quinze anos. O preço que pagou pelo poder no entanto foi bastante caro...

Pois cada Faraó deveria compor-se com o poderoso clero de Amon para manter tais fábulas. Não Tutmés III, o Napoleão do antigo Egito, que manteve sua reputação ímpar, devido a seu staus de guerreiro invencível. Seja como for ele não deixou de despejar toneladas e mais toneladas de ouro no Ipet Sut, e de fortalecer o sacerdócio... e assim seus fracos sucessores. Até que o grande sacerdote tornou-se tão poderoso quanto o Faraó, é uma ameaça a seu poderio... Foi quando Amenhotep III, sem romper com os sacerdotes de Amon, retomou, discreta, mas decididamente, a estratégia de Hatchepsut.

Até então, o maior templo do pais estava situada na banda Leste do Nilo, em Tebas, a capital e era Karnak ou o Ipet Sut, com seus quase quarenta acres e oitenta mil servidores, um autêntico feudo sacerdotal... Amenhotep no entanto, optou por construir um templo ainda maior na outra banda, a banda Oeste do rio, a saber seu templo funerário ou necrópole, onde viria a ser adorado após a morte. Era este templo algo absolutamente soberbo e sem precedentes no pais e apenas Abu Simbel viria a faze-lhe sombra século e meio depois. Atualmente restam dele apenas os dois colossos, ditos de Mennon, cada qual com vinte e um metros de altura. Champollion e Rosellini chegaram a ver os pedaços de outros dezoito, alguns dos quais estão sendo desenterrados e restaurados enquanto escrevemos estas linhas. Quantos haviam na realidade não o sabemos... Compunham um verdadeiro exército de gigantes... Amenhotep faz-se apresentar tal e qual os deuses, em pé de igualdade... A mensagem é bastante clara: Ele mesmo é um deus vivo a ser cultuado sobre a terra e assim sua esposa Tyi. Mas não é certo que seu pai fosse Amon, quiçá fosse o velho Rá ou Aton, importava que ele era um deus vivo, concepção que seus sucessores - Horemheb, Seti e sobretudo Ramsés II, jamais abandonaram.

Também a forma do trabalho alterou-se significativamente no decorrer daqueles três mil anos. Devido a experiência porque passaram os antigos hapiru ou semitas, o modo grego de encarar o mundo e as películas de Cecil B de Mille fomos levados a crer que as pirâmides e a grande esfinge de Gise, haviam sido construídas por hostes ou multidões de escravos, conduzidos a ponta do chicote. Hoje, graças a descoberta da Vila em que viveram os construtores de tais monumentos, sabemos ser tal visão completamente falsa ou anacrônica. Tais trabalhadores eram livres e trabalhavam durante as cheias, sob corvéia; sendo além disto alimentados, vestidos e assistidos pelo estado. Acreditavam além disto que erguendo o túmulo do Faraó estavam colaborando em sua deificação e consequentemente colaborando para que a maat ou ordem das coisas fosse mantida.

Posteriormente no entanto foi o carater das coisas sendo paulatinamente modificado. Assim Senusret despeja no Egito milhares de escravos trazidos da Núbia. Tutmés III despeja outros tantos infelizes trazidos da Núbia e em seguida da Palestina após cada uma de suas campanhas e o Egito vai sendo atulhado por escravos estrangeiros cuja mão de obra deve ter sido ostensivamente empregada por Amenhotep III, Seti e Ramsés em suas obras colossais ou 'faraônicas'...

A conclusão a que buscamos chegar é bastante simples: A ideia segundo a qual o Egito se manteve imutável e estático durante todo este tempo é artificial e forçada e corresponde mais a nosso desejo de que as coisas não mudem ou de que o fluxo das mudanças torne-se menos intenso, do que a realidade e somos nós que projetamos nossas inseguranças e temores no passado formando uma imagem 'conservadora' do antigo Egito, uma imagem que é bastante cara para muitos, mas que jamais existiu... Enfim nossa imagem forçada daquele antigo país não passa de mais um álibi ideológico com que procuramos reforçar nossas aspirações e esperanças. Nada de Histórico, concreto ou real. Afinal nem o Egito antigo nem qualquer outra sociedade poderiam fugir aquele fluxo dinâmico que caracteriza tudo quanto é propriamente humano.