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sábado, 28 de janeiro de 2023

O acúmulo ilimitado de bens e a ilimitação econômica sob a ótica da Filosofia greco romana.




Faz parte das manobras da modernidade e do discurso americanista, urdido pelos pastores, classificar todos os opositores do capitalismo ou do liberalismo econômico clássico como comunistas, marxistas, bolchevistas, etc Falso dilema que ainda faz bastante sucesso entre as massas desorientadas produzidas pelo próprio capitalismo. 


No Brasil por sinal, o surto psicótico americanista, alimentado pelo sectarismo bíblico ou protestante, tem resultado em posturas para lá de bizarras - Posto que temos visto inúmeros personagens de nossa história e arquitetos de nossa cultura (Cristãos apostólicos inclusive!) apontados como comunistas ou marxistas mesmo quanto tenham vivido antes do nascimento de Marx ou ignorado supinamente o teor de suas obras... Tais os delírios a que temos assistido nos últimos anos. Indício seguro de que tudo sempre pode piorar... E de fato piora.

José Bonifácio de Andrada e Silva, patriarca de nossa independência; D Pedro II, monarca bragantino; Getúlio Dorneles Vargas, um dos maiores adversários da ideologia comunista; Goulart, Santiago Dantas, Jânio Quadros, Leonel Brizola, D Helder Câmara, dentre outros... foram ultimamente matriculados, pelos zumbis americanistas, como comunistas ou bolchevistas... pelo simples fato de que em maior ou menor grau cada um deles afastou-se do modelo capitalista, da mercadolatria ou do economicismo crasso, orientando a economia noutros sentidos possíveis. 

Nenhum deles no entanto combateu a legítima posse da propriedade pessoal ou mesmo a posse privada dos meios de produção... Eliminando tampouco a liberdade econômica em sua totalidade. De modo que nenhum deles foi Comunista ou aplicou soluções marxistas no contexto brasileiro - Embora seja exato que tenham dirigido e portanto limitado politicamente a economia, nos termos já enunciados por Leão XIII, papa romano, na Rerum Novarum - A situações de tal gravidade, no que tange a condição dos trabalhadores, que é não apenas lícito mas necessário que interfira o poder político... (Citação de memória!). 

Não aniquilaram ou exterminaram a liberdade do Mercado como preceituam os bolcheviques, porém inspirados por ideais tomados a Tradição Cristão ou ao Evangelho - E tenhamos sempre em mente o franciscanismo! - estabeleceram justos limites tendo em vista reduzir ou reprimir a proliferação da miséria. O que repito é ideal precipuamente Cristão ou antes humano e humanista, não marxista. 

Alias se há no comunismo algo de superior em comparação com o capitalismo ou com o liberalismo crasso é a sensibilidade para perceber que algo está errado face a tanta miséria ou face a tão grande desigualdade. Tem o marxismo pelo menos um ponto a seu favor, reconheceram diversos sacerdotes papistas - Anteriores ao Vaticano II com efeito: O fato de destoar do materialismo assumido e deitar um olhar crítico, logo ideal e idealista, sobre a realidade. Pois para os liberais economicistas é a miséria algo absolutamente comum... Para os positivistas nos devemos conformar com a realidade dada - O viés conservador é explícito - e abdicar de transforma-la ou de torna-la melhor.

Em que pesem seus defeitos, como a abominável Ditadura do Proletariado, o comunismo tem consciência de que algo não vai bem ou de que algo está errado numa sociedade em que alguns não tem pão ou leite para dar aos pequenos enquanto outros tomam banho de champanhe ou comem bife temperado com ouro em pó... O comunismo percebe o drama da miséria ou da pobreza e quiçá comove-se sinceramente. O capitalismo é absolutamente insensível face a tais situações de sofrimento até a crueldade e a indignidade humana não lhe diz absolutamente nada...

De fato essa inconformidade face a realidade dada, essa revolta, essa indignação produzida por um tipo ideal é comum ao autêntico Cristianismo, filho do Evangelho; e ao comunismo. É um vínculo que nos une e um laço que nos liga: A compaixão, associada a vontade de ajudar, de melhorar, de beneficiar, de mudar, de fazer algo enfim... Podemos até desfrutar do melhor sistema já elaborado - No entanto é esse 'melhor' demasiado miserável, insuficiente e deficitário; e sempre podemos avançar e melhorar mais a partir do que temos! Naturalmente que a partir dessa vontade magnânima, que consistem em mudar para melhorar as condições de parte da sociedade, podem resultar, como resultam, diversas situações de conflito provocadas por aqueles que temem a mudança de uma realidade que os beneficia... Aqui porém a responsabilidade é deles - Dos egoístas e acomodados, que pensam apenas em si mesmos.

Ora o Cristianismo nos ordena cuidar do outro, beneficia-lo ao máximo, resgatar a dignidade alheia e minorar o sofrimento humano - Por isso nossos ancestrais e avoengos sempre tiveram diante dos olhos, como autêntico fim da vida política o "Bem comum", pois tal é o sentido da palavra "República". Não foi de Marx, Engels ou Lênine que partiram eles mas do Evangelho, da tradição patrística e mais remotamente - Como patenteia a Teologia escolástica do Aquino. - de Aristóteles, o lógico, o peripato e 'Mestre consumado de todos aqueles que sabem algo.'

E no entanto há quem, diante da economia dinâmica vivenciada pela Hélade, ouse divisar nela o liberalismo econômico clássico ou algo semelhante ao capitalismo atual. 

Em que pese aquela espécie de Loas, registrada na Política de Aristóteles, o Theorikon de Péricles, os deveres do Corego, etc há quem nos deseje apresentar Atenas como uma plena economia de mercado. Eu no entanto, diante de tais leis e de outras tantas compendiadas pelo macedônio Craterus, o máximo que posso distinguir ai é um estado de Bem estar ou Welfare State, como as atuais repúblicas do Norte da Europa, cujo modelo é absolutamente diverso do modelo Norte americano, o mais próximo dos ideais postos pelo liberalismo clássico ou pelo neo liberalismo. 

Penso estarmos de acordo - Podemos não estar! - que o principal representante do pensamento Filosófico grego foi Sócrates de Atenas, filho de Sofronisco e Fenarete. 

Em diversos aspectos seguidor de Aristóteles e Antístenes ou Diógenes, devo confessar a primazia de Sócrates. 

Conhecida a apreciação de Rousseau, o qual situava o pensador ateniense imediatamente abaixo de Jesus Cristo, com o qual tantos pontos teve em comum - Assim com Buda e Confúcio, outros dois grandes mestres que viveram mais ou menos ao mesmo tempo que ele. 

Admiro Sócrates antes de tudo por ter enfrentado serenamente a morte para não abdicar de seus pontos de vista.

Poderia ter deixado a pólis que o viu nascer e ido viver com sua esposa e filhos noutras paragens - Não o admitiu...

Anaxágoras, Protágoras e Aristóteles, dentre outros, acharam por bem fugir... O que lhes era defeso e sequer merece reproche... 

Sócrates, como disse, recusou-se a fugir - E aceitou morrer em nome dos princípios e valores que acreditava serem seus. Não foi apenas um mártir da liberdade de pensamento - Foi convicto e acima de tudo corajoso.

Quiçá pudesse subverter a Atenas de seu tempo - Tal sua fama. - e tomar o poder... Como Jesus Cristo porém...

Além disso, ao contrário do que dizem, foi ele, Sócrates, o maior benfeitor da Democracia, por denunciar o mecanismo equivocado do sorteio indiscriminado ou incondicional e insistir na formação.  Caso Sócrates tivesse sido ouvido e suas críticas tivessem sido acatadas quiçá a democracia ateniense tivesse durado mais de mil anos...  Foi aquele olhar acurado e atento que pela primeira vez distinguiu o populismo ou a OCLOCRACIA (Degeneração política voltada para as baixas aspirações e vícios das massas!) - Mais tarde descrita por Aristóteles e Políbio! - e buscou advertir seus pares, em vão!

Platão (E Critias é claro e Alcebíades.) sobretudo, foi que entendeu suas críticas equivocadamente, e por rancor, opôs-se a qualquer tentativa democrática. Platão sempre alterando o pensamento de seu mestre... E que seria de nós sem um Xenofonte ou um Esquines...

Por fim foi Sócrates quem retirou a Filosofia das quatro paredes em que fora contida por seus predecessores - Em especial Pitágoras e seus pupilos, para os quais era uma espécie de Maçonaria. - para leva-la as praças, ao grande público ou ao homem comum! Sendo consequentemente apresentado por Melito como corruptor da juventude, pelo simples fato de levar o pensamento crítico ao jovem do povo. Pois o mesmo pensamento era já levado, a peso de ouro, pelos sofistas aos jovens eupátridas...

Alias palmas a Sócrates por ter criticado igualmente o tráfico da erística, copiosa fonte de renda para os sofistas de então. De fato nem todos os sofistas tinham o mesmo comprometimento com a educação e a democracia que um Protágoras. 

Agora o que pensava Sócrates sobre o acúmulo ilimitado de riquezas ou a avareza, i é sobre o espírito do que chamamos capitalismo...

Começarei citando o Alcebíades:

"Sócrates: Quem cuida de sua fazenda, não cuida de si mesmo ou de suas coisas, senão que muito está afastado delas.
Alcebíades: Assim o é.
Sócrates: O homem de negócios, portanto, não realizado o que há de mais importante, que é cuidar do que lhe é próprio." 

E mais além:

"Portanto não se escapa a desgraça acumulando riquezas, mas acumulando a sabedoria."

Passo agora ao Eutidemo:

"Demonstrado esta que não obteríamos vantagem alguma, em possuir, sem trabalho ou sem aperfeiçoar a terra, todo ouro do mundo. Poderíamos até saber tranformar rochas em ouro: E tal conhecimento não tería valor algum, porque se não sabemos tirar proveito do ouro, por si mesmo, já o sabemos, utilidade alguma nos trará ele..."

Poderia multiplicar as citações ao infinito. Mas não desejo ser fastidioso...

Arrematarei assim com a famosa crítica ao consumismo - Motor da economia progressiva. - transmitida pelo divino Laércio (Vida e doutrina dos Filósofos ilustres.) - 

Tinha Sócrates o costume de levantar-se bem cedo e dirigir-se ao grande mercado de Atenas, indo de barraca a barraca e contemplando os diversos produtos. Por fim, ao retirar-se sem nada comprar, explicava: Gosto de passear pelo Mercado para ter uma ideia precisa de quantas coisas não precisamos por serem inúteis.

Ora toda nossa economia exuberante, e consequentemente a explotação irracional dos recursos naturais bem como a produção de resíduos ou poluição, vive disso: Da comprar e venda de coisas que não são absolutamente necessárias. De fato preciso eu de um celular ou de um refrigerador, de um fogão e de um ar condicionado, de uma bicicleta e de um liquidificador (O que em si já é problemático pois somos oito bilhões de criaturas humanas!) mas não precioso trocar de celular, carro, ar condicionado, fogão, etc podendo utilizar os mesmos aparelhos por anos a fio ou até que quebrem sem maiores problemas. Os meios de comunicação ou a propaganda é que nos convoca a desfazer periodicamente dos aparelhos mesmo estando ainda bons e isso apenas em benefício do Mercado e consequentemente da explotação de recursos e da poluição ambiental...

Mais do que a temida Revolução comunista, uma simples mudança de postura, nos termos racionais de um Sócrates, seria algo ameaçador para essa máquina chamada mercado... Pois atingiria esse sinônimo de miséria interior ou de pobreza de alma chamado consumismo. O sistema em que vivemos não apenas produz pessoas enfermas ou neuróticas mas afirma poder cura-las fazendo-as depender de si pelo simples fato de consumirem ao máximo. 

Todas as pessoas que acumulam coisas: Das que acumulam tampinhas de garrafa ou alfinetes as que, como o tio Patinhas, acumulam imensas fortunas, moradias ou automóveis são pessoas doentes e neuróticas, pessoas frustradas, pessoas mal resolvidas... enfim pessoas interiormente mendicantes ou mendigas. São os mendigos do Ser - Pois floresce o SER  na proporção inversa do SER e, quanto mais se tem menos se é. Não podendo nos sobrepor aos outros ou supera-los na esfera do Ser, por meio da virtude ou da prática do bem, optamos - Quiçá inconscientemente. - por ter mais coisas do que eles.

E se oito bilhões de humanos é uma calamidade, oito bilhões de acumuladores é um flagelo... Portanto o resto, deve ser composto por despojados ou miseráveis - Até por questão de sobrevivência.

Passo a Antístenes - O mais genial, leal e sublime entre os discípulos de Sócrates.

Que nos diz eles sobre a posse ilimitada ou o acúmulo de riquezas...

Como Sócrates, Antístenes identificava a riqueza com a sabedoria. O que não é para surpreender.

No entanto o que ele diz concretamente sobre a posse das riquezas é imensamente precioso:

"Quanto ao sábio, seja o total de seu dinheiro, o que um homem de porte mediano possa levar ou transportar."

De Crates de Thebas ou Athenas sabido é que após ter lido as obras do divino Antístenes colocou todo seu ouro numa carroça e lançou-o no fundo do mar, após o que teria exclamado:   'Agora livre' - Assumindo, o que seu mestre chamava Autarquia ou autonomia. 

Tendo tomado conhecimento de sua atitude, um certo Diógenes, ao ser exilado de sua terra natal, Sinope, desfez-se igualmente de todas as suas posses limitando a portar uma túnica surrada, um bordão e uma cuia. Segundo diziam os antigos teria vivido, ao menos durante certo tempo, num enorme barril ou melhor dizendo numa imensa ânfora de vinho ou azeite. 

Sobre esse sábio, contam as anedotas que tendo Alexandre se aproximado dele, com o objetivo de ve-lo, foi atalhado com as seguintes palavras: Afasta-te um pouco porque me tapas o sol. E noutra oportunidade, tendo o homem mais importante e poderoso do mundo lhe perguntado se poderia conceder-lhe algum favor, ouviu estas outras: Nada me podes dar que já não tenha eu!

Mesmo Aristóteles, que costumava ser muito mais moderado em seus juízo e apreciações teria criticado a sugestão sobre o acumulo limitado de bem, com o declarar que tal era impossível num sistema finito. 

Mesmo Platão, que era de família aristocrática e rica e malquistava com o regime democrático, na sua conhecida República, determinou que o grupo mais importante, o dos guardiães, formassem uma comunidade tanto de bens quanto de filhos. Pois acreditava que os Filósofos reveriam dedicar-se a refletir sobre o poder político e concentrar-se na resolução de tais problemas sem se desviar. 

Que podemos inferir a partir da solução posta por Platão...

Que ele percebeu certa rivalidade entre a esfera do público e do privado, optando, diante disso, por eliminar o privado. Sobretudo intuiu, como pode ser observado por Arendt, que dentre os diversos setores do privado, o que mais tende a absorver os humanos é o econômico, a ponto de esvaziar o político e reduzir sua qualidade. De modo que também Platão, teme o economicismo. 

Continua



quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

A inexistência de uma economia de Mercado antes da Idade Moderna.



É objetivo deste artigo demonstrar que a ideia capitalista de ilimitação econômica ou liberalismo crasso, bem como as perspectivas individualista e economicista, enquanto emergências conceituais modernas ou contemporâneas, foram supinamente ignoradas tanto pelos antigos gregos e romanos quanto pelo Cristianismo apostólico, ancestral, histórico ou primitivo. 

Por que tanto esforço para nada dizer de novo ou repetir o que já se sabe a exaustão...

Porque a um lado há pessoas desonestas que se esforçam para demonstrar o oposto i é que gregos e romanos ou mesmo egípcios e sumérios conheciam o princípio capitalista da ilimitação e a outro pessoas incoerentes que buscam associar a ideologia mercadista ou economicista aos construtos éticos das escolas filosóficas pré cristãs ou do cristianismo apostólico, o que alias é fácil em tempos de pós modernismo, quando dissociações e associações incoerentes, sincréticas e aberrantes proliferam em todas os domínios da cultura.

Por mais que as esquerdas modernista e pós modernista, detestem ouvi-lo é necessário repetir que o pós modernismo irracionalista e assistemático é uma ferramenta de grande importância a serviço do capitalismo. Ignora-lo é ignorar o óbvio e ser cego. No entanto, desde Marx, são as esquerdas ortodoxa e 'heterodoxa' reproducionistas, assumindo acriticamente um cem número de elementos culturais de origem capitalista ou positivista. Observem que essa esquerda já entrou no jogo do capitalismo ao apresentar-se como materialista e o jogo positivista, ao apresentar toda vida Ética como relativa e subjetivista... Por que admirar-se de que tenha ido mais além e sorvido a azeda taça do modernismo... Fazer o que...

Porém do lado de lá também há gente idiota e má.

Aos maus corrijamos ou refutemos, como nos bons tempos antigos. Aos idiotas repitamos o óbvio a exaustão, até soletrar quando necessário. 

Os povos antigos nada sabiam em termos de capitalismo.

Quanto as culturas primitivas leia-se antes de tudo Karl Polayni, na 'Grande transformação'. Guiavam-se tais grupos pela Ética da reciprocidade ou da gratidão, jamais pensando em termos de lucro.

Já com relação as primeiras civilizações sabido é que reconheciam o primado da religião, da crença ou do espiritual, a partir do qual ordenavam suas vidas.

Assim a principal aspiração de um antigo egípcio não era se tornar escriba ou general, comprar uma casa maior ou palácio ou adquirir uma liteira ou um cavalo e sim adquirir um túmulo, um sarcófago, um plano de embalsamamento... ou amealhar joias para enterrar! 

Então havia quem lucrasse com isso... gerenciando as avós de nossas modernas funerárias, as 'Casas dos mortos'. Sim, havia. E no entanto, mesmo os sacerdotes e embalsamadores amealhavam riquezas para levar com eles em túmulos ainda maiores e mais suntuosos...

Outro dado relevante e constatado ainda neste séculos pelo Dr Zahi Hawass diz respeito a como foram construídas as grandes pirâmides de Gizah ou sobre a Vila dos construtores de pirâmides, cujos restos dão testemunhos sobre o cuidado dos Faraós com os camponeses que realizavam tais trabalhos, a ponto de podermos falar numa espécie de plano assistencial, inclusive com recursos médicos. Portanto, já por volta de 2,400 a C os governantes do Vale do Nilo preocupavam-se com a qualidade de vida - I é com alimentos, bebidas, roupas, habitações e medicamentos. - daqueles que construíam seus túmulos. 

Seja como fosse o móvel interior deste ou daquele, o mercado é que não ditava as regras naquela Sociedade. O governo é que organizava as expedições ao Punt ou a Serabit e que dispunha dos bens, quase sempre em favor da fé - Tipo: Incenso para os deuses, fossem Phtá, Rá, Hórus ou Amon...

O mais importante aqui é o quanto lemos na novelinha judaica ou bíblica de José: Quando por qualquer motivo de ordem natural, fosse seca ou excesso de chuvas, grassava a miséria, os governantes mandavam abrir os celeiros públicos com o objetivo de evitar que os súditos morressem de fome. De modo que o valor da vida humana se sobrepunha a valores de ordem financeira ou econômica. 

Observem que em nossas Sociedades 'cristãs' foi tolerado ou encarado como absolutamente comum a prática dos produtores destruírem alimentos quando os preços caiam, e com a premeditada intenção de aumenta-los. Isso numa realidade de miséria em que até crianças morriam de fome seja na Etiópia, no Haiti ou no Nordeste do Brasil... mesmo assim os produtores 'sifilizados' lançavam centenas ou milhares de toneladas de trigo, arroz, feijão ou batatas as chamas ou em algum rio com o objetivo de obter lucros - E a vida humana, encarada como coisa de pouca monta, era largada...

Inconcebível que qualquer sociedade antiga, pagã ou pré Cristã assim procedesse... Alias caso qualquer produtor egípcio concebesse a ideia de queimar o trigo ou lança-lo ao Nilo com o objetivo de que Roma pagasse um preço maior por ele, iria direto para o Circo Máximo tornando-se pasto de feras! Isso já no quadro de uma economia imperial muito mais dinâmica.

Agora passarei a largo da Suméria, onde há quase 4.500 anos, Urukagina de Lagash, que nada podia saber de Marx e Engels - implementou a primeira grande reforma social em nome dos deuses, i é, do pai Anu e seus companheiros. E também passarei a largo da Judeia, onde os atrasados hebreus tiveram tino suficiente para estabelecer um regime de redistribuição de terras permanente em nome de seu javé, evento de que os judaizantes americanizados jamais se lembram...

E irei direto a Grécia. Onde para começar temos o Teórikon de Péricles, que era um subsídio concedido aos atenienses pobres para que pudessem assistir os espetáculos teatrais. Quiçá pareça pouco a alguns. Todavia entre os mais de trinta mil decretos aprovados pelo povo de Atenas, arquivados no 'Mentron' e consultados por Craterus da Macedônia, há um, citado por Aristóteles na Política, que corresponde a nosso Loas, fixando um subsídio para os deficientes ou enfermos que não se podiam sustentar. 

Nem Mercado, nem indivíduo. Mesmo após a emergência gradativa da pessoa, os antigos gregos jamais perderam de vista o que chamavam de 'Pólis' e portanto um gênero de vida coletivo, gregário e social. Aristóteles na Política, alias, nos informa que um certo Filéias de Calcedônia estabelecera um regime 'socialista' estabelecendo a igualdade de bens, um gerenciamento comum ou democrático e a instrução pública.

Bom lembrar que a instrução pública foi estabelecida igualmente pelo democrata Protágoras de Abdera na Constituição de Túrio. 

Quanto aos romanos sabido é que não poucos autores insistem no Jus abutendi com o objetivo de sancionar a doutrina da posse incondicional da terra ou dos latifúndios porventura improdutivos. Sem que quanto a isso se recordem que os romanos fossem pagãos - Só se lembram disto quando se trata de costumes sexuais... A bem da verdade lemos em Aulo Gélio sobre um dispositivo legal que estipulava a perda da cidadania por quem não cultivasse seu campo... Por onde se vê que o direito de propriedade ou proprietarismo entre os antigos romanos não era absoluto, e que eram abertos ao princípio da propriedade pessoal ou funcional, enunciado pelo grande cristão Henry George há século e meio.

Que dizer então sobre o primeiro Estado assistencial e humano em larga escala que foi o Império bizantino, ao menos quanto a isso fiel aos princípios Cristãos tradicionais. 

Restaria-me expor sobre a Idade Média latina ou ocidental.

Quanto a isto porém nada diverso dos ensinamentos patristícos nada liberais em termos de economia. 

Quanto a isso consulte-se J Luridan "Por que a Igreja crítica os ricos.", o "Socialismo Católico" de Nitti ou ainda as obras do Pe Bigo, etc

Os escolásticos prosseguiram na mesma direção e nada inovaram, antes aprofundaram e ampliaram esse ideal servindo-se de Aristóteles. 

Eis porque nenhum estudioso sério do campo da Teologia escolástica ou do tomismo ousaria falar em livre mercado na Idade Média Cristã ou em adotar semelhante discurso.

O que nos ajuda e entender porque os 'tomistas' Chesterton e Belloc postularam o distributivismo, porque Maritain insistiu em opor-se ao capitalismo e finalmente porque no fim de sua vida o professor Jorge Boaventura, personalidade muito querida dos militares e da Biblioteca do exército, reconheceu, com grande estardalhaço (Sendo chamado de 'senil') - Pelos idos de 1990 - que o capitalismo e o Cristianismo tradicional ou apostólico eram, como são, fenômenos incompatíveis ou excludentes. 

Segue - Na segunda parte o veredito das diversas escolas filosóficas gregas sobre a ilimitação, o economicismo e a avareza.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Nótulas sobre a Filosofia antiga ou clássica.

 - Diversos autores teem classificado os jônicos (Pré socráticos), até Anaxágoras, como monistas materialistas, pelo simples fato de terem buscado saber qual fosse o elemento primordial (Arkhé). Talvez fossem dualistas e para eles a existência de um elemento diretor Imaterial/intelectual não passasse duma obviedade.

- Uma coisa é certa. Pitágoras foi o primeiro a enfocar um elemento estrutural abstrato. Quiçá sua teoria não tenha sido bem compreendida a seu tempo. Seja como for ele parece ter antecipado Descartes, Newton e Einstein no sentido de afirmar que nosso universo possui uma estrutura matematicamente inteligível.

- Podem chorar os pós modernistas e todo rebanho de céticos, relativistas e subjetivistas, o princípio de 'Não contradição' expresso por Parmênides de Elea continua sendo para a Filosofia o que a alavanca era para a Física de Arquimedes. Por isso Aristóteles declarou que os maiores vultos do pensamento anterior a Sócrates haviam sido Parmênides e Anaxágoras, concordo.

- Anaxágoras não excluiu nem poderia ter excluído o elemento material, alias eterno. Realista por definição considerou que aquele elemento era inerte ou passivo por carecer de inteligência e por isso enfatizou a ação do elemento intelectual/Imaterial ou Espiritual sobre o elemento material ou caótico, o qual ciclicamente reorganizava, conforme já havia sido descrito pelo não menos genial Anaximandro. Quiçá o Apeiron e o Nous sejam termos similares.

- Heráclito foi quem forneceu base a Protágoras de Abdera, o qual repudiava a apreensão da verdade por parte do intelecto por julgar que o fluxo da natureza fosse demasiado fugaz. Quando o homem cuidava ter apreendido determinada impressão, já esta se havia convertido em qualquer outra coisa.

- Demócrito não foi pré socrático mas contemporâneo tanto se Sócrates quanto de Platão. Provavelmente foi ele o primeiro materialista, bem como o primeiro a analisar a moralidade humana, antecipando o trabalho de Sócrates.

- Sócrates foi um dos primeiros, senão o único (Mas recordo Carneádes e Epicteto), filósofo de origem humilde. Até seus dias era a Filosofia exercício das elites, executado entre as paredes de alguma Escola e sob a direção de escolarcas bem remunerados. Havia assim uma espécie de monopólio ou segredo. Sócrates foi quem pela primeira vez levou a Filosofia a praça ou as ruas de Atenas, colocando-a no acesso do grande público ou de todos. Sua atitude crítica face aos tabus e preconceitos vigentes foi encarada como perigosa pelos proprietários, sacerdotes, militares e pelos conservadores de modo geral. Anito, Melito, Licon e Diopeites moveram-lhe processo e fizeram-lhe entornar a cicuta sob a acusação de ter corrompido a juventude, pelo simples fato que que a fizeram pensar... Tudo muito atual.

- Platão tentou superar a tensão - Universal/particular ou Repouso/movimento, tradicionalmente posta pelo pensamento grego e disto resultou sua Teoria das formas representada pelo 'Mito da caverna'. É citado como idealista no sentido de imaterialista ou espiritualista, todavia ao que parece o seu 'mundo das ideias' não era isento de materialidade física.

- Como Newton, Aristóteles teve seus pés postos sobre os ombros largos de um Aristócles (Platão) e por isso elaborou uma teoria das formas bem mais realista e consistente além de ter especulado sobre todas as áreas da Filosofia e mesmo do que viria a ser chamado 'Ciência'.

- Pirro, o primeiro cético, tomou sua doutrina ou melhor postura, ao Budismo quando com Alexandre, o grande, vagava pelos confins da Índia. A epokhé ou anulação da vontade, conduz ao Nirvana que é a Ataraxia ou Apatheia. A princípio - Apud V Brochard - tentou Pirro dar aplicação prática a sua doutrina, disto resultando diversos acidentes. Diante disto converteu-se ela em simples negação de qualquer ideal metafísico e os céticos em conservadores por definição. O ceticismo com efeito afirmou-se no mesmo exato momento em que o ideal político dos antigos gregos entrou em colapso após a morte de Alexandre, durante as guerras empreendidas pelos diádocos e epígonos.

- Quiçá epicurismo e estoicismo, se bem compreendidos e despidos dos possíveis extremismos não sejam inconciliáveis pelo simples fato do sofrimento físico ou corporal ser quase sempre compensado por um outro tipo de prazer, interior ou da consciência, sempre que cumprimos com nossos deveres e exercitamos a virtude. A virtude é quase sempre deleitosa ao ser racional, mesmo quando o corpo físico seja esmagado pela dor.

- Nos últimos séculos antes desta Era o aristotelismo havia dado origem a doxografia e aos estudos gramático literários em Alexandria e Pérgamo, bem como a pesquisa científica a partir de Teofrasto de Éreso e Straton de Salônica ou Dikaiarkos de Messina. Foi trágico que por volta do século I a C esta corrente se esgotasse e cedesse passo, primeiramente ao platonismo. O platonismo a seu tempo de releitura a releitura chegou ao neo platonismo e através deste a simples teurgia i é a magia. Isto no exato instante em que outros tantos cultos de mistério, como o mitracismo, o orfismo, o serapismo, etc invadiam o mundo greco romano. Toda uma cultura de massas, de comboio na miséria e instabilidade social, precipitou as multidões nos abismos do misticismo... Nem mesmo os pensadores ficaram indiferentes a este movimento de convergência, disto resultando um continuo e sucessivo declínio em termos de pensamento filosófico. Sendo inútil evocar causas externas ou lançar a culpa no dorso do Cristianismo emergente. Tudo estava decidido e decidiu-se ao cabo do conflito platonismo/aristotelismo e a derrota deste último enquanto padrão de pensamento realista favorável já a ciência já a um raciocínio vigoroso. Vencido o aristotelismo/realismo ficou selado o destino da Filosofia clássica já porque não podia o platonismo deixar de receber outros significados e enquanto neo platonismo de resistir a tempestade mística em formação.

- Resta declarar que nos primeiros séculos desta Era o predomínio do neo platonismo em todas as Escolas nos obriga a dar o exercício filosófico como agonizante e esta magistral criação do espírito humano as portas da morte. Pois em lugar de Parmenides, Anaxágoras, Anaximandro, Pitágoras, Aristóteles ou Dikaiarkos o que temos é a triste figura de um Jâmblico praticando puro e simples wiccanismo e dedicando-se a pressagiar o futuro...

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Éticas ou Ética...

Num dias destes, proseando com um amigo, atalhou-me ele para postular a existência de diversas Éticas ou de Éticas diferentes, contrárias, etc tal e qual sucede a moralidade ou aos costumes, de fato relativos ao tempo e ao espaço.

Bem sei que eu que a par de diversas revelações ou grupos religiosos, existe certo número de predicações valorativas que revindicam ser Éticas. Revindicar porém não é ser, e devemos investigar os fundamentos.

Como Socrático e humanista que sou, julgo ela existência de uma única Ética autêntica ou bem fundamentada. As demais teorias e sistemas que revindicam este título seriam tão equivocadas quanto as moedas falsificadas.

Nem poderiam ser opostas e verdadeiras ao mesmo tempo. Declarar aceitáveis diversas éticas contraditórias equivaleria renunciar a verdade, e a contentar-se com aparências ou palavras.

Remeto meus críticos ou objetores ao princípio da contradição.

E diante dele dirijo-me aqueles que compreendendo a importância vital do tema estão dispostos a investigar e a descobrir qual seja a Ética verdadeira.

Você pode demonstrar por qualquer meio (Que não o religioso é claro!) que a Ética deva contemplar a espécie ou a sociedade ao invés do indivíduo??? Nada na natureza obriga o indivíduo a ceder lugar ao grupo. Nada, em absoluto. A empiria esta a favor dos individualistas. Aqui concordamos com eles, e chegamos, pelo que é ou a observação dos fatos, ao individualismo... Com todos os problemas subsequentes.

Kropotkin demonstrou que os animais costumam a auxiliar uns aos outros. Certo, é fato. Mas o que temos de indagar aqui é em que circunstâncias ajudam-se ou se ajudam-se mesmo com prejuízo de si mesmos e de seus interesses, i é, se os animais de imolam pelo outro e se isto é habitual entre eles. Quanto a este tipo de consciência gregária, quanto a imolar-se pela espécie, não tenho qualquer notícia entre os animais. Observo-o nos homens, mormente quando instigados por alguns credos religiosos. Ademais em situações ou circunstâncias anormais ou desfavoráveis tendem os animais a 'pensar' somente em si mesmo ou em termos individuais, exceto talvez da prole (inda que com reservas!) que é a continuação deles mesmos.

As Éticas empíricas não tem podido ultrapassar o abismo do individualismo.

Podem escapar ao abismo do utilitarismo chão???

Pode você leitor demonstrar-me, partindo do que é ou da experiência, que devamos construir princípios e valores que transcendam a utilidade ou aquilo que seja útil ao individuo, cogitando sofrer prejuízo em nome da justiça, como tantas vezes foi cogitado por Sócrates?

A simples vivência irrefletida e irredutível a razão jamais ultrapassa o ponto de vista de Trasímaco, inda que este, qual Morfeu, mude de feições com o passar das gerações. Excluído o elemento comum da reflexão metafísica ou do arrazoado racional, sustentará o homem a busca pelo seu prazer sem cuidar de outra coisa. Moral ou Ética sera sempre fruição de vantagens, benefícios, prazer, etc e não se sai disto. Assim a política será apenas uma questão de poder ou força, a serviço não do bem comum, mas da fruição individual... E atrelado a fruição do prazer e do poder teremos a posse de bens materiais até o abuso, garantindo acesso ao poder a ampliando o acesso ao prazer. E tudo fica nisto: Prazer, poder e fortuna em termos individuais.

Este tipo de 'Ética' sequer nega mas simplesmente despreza ou ignora a existência de seres sofredores, enfermos, escravizados, dominados ou injustiçados; pois os outros só existem para ele enquanto meios para se obter ou consolidar o próprio bem estar. O outro aqui é sempre um objeto ou uma coisa a serviço dos interesses individuais e não uma outra pessoa ou um igual, com o qual nos devemos solidarizar. A empiria não cobra essa equalitarização porque não observa a igualdade na ordem do mundo mas a desigualdade, a qual encara como natural e irreformável. Não se questiona a realidade porque inexiste o padrão ideal posto pela razão ou pelo exercício da metafísica.

Por isso considero apenas uma Ética como autêntica ou legítima em seus fundamentos: A Ética racional, que parte de uma problematização e reflexão profundas, construindo seus princípios e valores em termos de algo tão abstrato como a humanidade, face a qual todos são iguais em termos de relação. Este elemento comum ou 'elo de ligação' universal só se apresenta a razão, não a experiência, e é com base nele que disciplinamos o convívio, dando-lhe uma conotação marcadamente social a um tempo e abstrata ou ideal a outro.

Apenas esta reflexão, que ultrapassa a mera observação dos fenômenos materiais e cogita naquilo que é abstrato e social, poderia ter criado na noção de Bem Comum. Ora a noção embrionária de bem comum, afirma-se teoricamente com o Estagirita, embora esteja já presente em Platão, Sócrates ou na mentalidade da polis grega enquanto busca. E quando dizemos busca, dizemos busca racional.

O conceito em questão não foi apenas formulado pelos grandes sistemáticos do pensamento clássico, mas também provido de fundamentos estáveis ou essenciais.

Por este motivo quanto escrevo Ética, escrevo em singular e quero dizer sempre esta Ética que remonta a Sócrates, passa por Platão e é por assim dizer 'acabada' por Aristóteles, ao menos quanto a seus elementos mais relevantes.

As demais são aparências de Ética, muito mal construídas.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

O critério da boa política 'sicut' Aristóteles

Segundo o pensamento contemporâneo é a forma que dá legitimidade a política, no caso a forma democrática. Para os teóricos da modernidade a democracia corresponde a uma espécie de estrutura 'Revelada' ou sagrada e sua negação, seja por via da aristocracia ou da monarquia equivaleria a uma heresia.

Claro que os ingleses que são um povo por temperamento tradicional, em dado momento de sua História formularam um sistema eclético chamado parlamentarismo. Por essa solução mantem-se a velha forma monárquica, esvaziada do poder e implementa-se uma democracia.

As demais Sociedades optaram por soluções mais drásticas. Baniram a monarquia ou a aristocracia, como se queira, e estabeleceram o que chamamos de República mas que é na verdade o presidencialismo, se bem que mais tarde tenham se produzido um sincretismo entre a República e o Parlamentarismo.

Os EUA adotaram o modelo republicano presidencialista, organizado-o a sua moda. E endossaram a fórmula de Rousseau segundo a qual a soberania parte sempre da vontade popular ou que todo poder pertence e parte do povo, ao qual cabe escolher representantes para si, efetuando a transferência de poder por meio do voto ou das eleições, o que em suma remonta a John Locke. J J Rousseau no entanto insiste na vontade popular enquanto critério de legitimidade. Parece que o genebrino jamais cogitou que a vontade popular pudesse optar conscientemente pela tutela do Rei, e pior, que uma vontade popular desorientada pudesse optar pela guarda de um déspota, tirano ou ditador. Claro que ele sequer podia cogitar na teoria Freudiana sobre o sentimento de culpa ou o masoquismo.

As coisas de fato são assim e nossos juízos incidem quase sempre sobre as formas políticas. Até certo ponto isto não é um problema e alguns tem ensaiado justificativas interessantes. O problema e o grande problema é que em matéria de democracia nos habituamos a identificar nossas formas e nossos juízos com os dos antigos gregos, falseando a História.

Claro que não havia um juízo unitário entre eles, mas opiniões divergentes.

No entanto mesmo sem ser predominante a de Aristóteles era certamente uma das mais conhecidas e discutidas.

Grosso modo podemos dizer que Sócrates, Platão e Aristóteles não partilhavam deste nosso fervor em torno da forma democrática. Eram bem mais realistas, ao menos o primeiro e o terceiro, e todos os três, certamente, muito bem intencionados.

Sem chegar a ser um anti democrático Sócrates destacou-se como crítico da democracia leviana. Por democracia leviana queremos dizer aquela em que os cidadãos não precisam de preparo algum para participar, e que franqueava tudo a todos. Para Sócrates a escolha devia se dar entre homens dignos e as candidaturas abertas a todos que buscassem dignificar-se pelo saber, pela habilidade, pela perícia... Temos aqui uma democracia responsável ou com condições e certamente um tema bastante atual. Afinal a inserção das massas na democracia - das massas incultas e despreparadas (sic) - sempre poderia degenerar em Oclocracia.

Platão como todo sabem não acreditava nas formas democráticas, e sim o ofício do ditador/educador, tendo inclusive chegado a crer numa organização social fixa e imutável conforme o modelo das formigas ou termitas. Nesta Sociedade desigual a chave seria a colaboração entre as castas.

Aristóteles não é nem democracista nem adversário a democracia. Mas ele não acredita que qualquer modelo de política deva ser julgado pela sua forma. Homem genial ele imaginava que cada cultura, povo ou nação haveria de identificar-se como determinada forma. Melhor dizendo - Acreditava que qualquer grupo social podia tentar compor e recompor as três formas ecleticamente e assim produzir uma forma adequada a sua realidade. E desconfiava das soluções tipo bula de remédio ou receita de bolo.

Quanto a julgar as formas ou estruturas a demanda por um critério fez com que ele conceitua-se o que chamamos de 'Bem comum'. Desde então a política de modo geral foi conectada com a doutrina do bem comum, em oposição ao interesse particular. Foi Aristóteles que acenou com uma distinção mais nítida entre o objeto da política ou o que chamaríamos de público - em latim 'res publica' coisa pública - e o que chamaríamos de privado e que posteriormente seria reservado a ação pessoal.

É o BEM COMUM aquilo que é útil ou benéfico a todos os habitantes de polis i é da cidade.

Conforme a doutrina do Filósofo existiriam três formas ou estruturas, ambas politicamente admissível ou aceitável e três formas corruptas ou adulteradas que corresponderiam a um desvio por parte das formas aceitáveis. O padrão que separaria umas das outras seria, como já foi dito, o bem comum.

Segundo aduzimos de seus escritos a Monarquia corresponderia ao governo de um só homem, tendo por objetivo O BEM COMUM. E este objetivo a faria legítima. A Aristocracia corresponderia ao governo de parte ou de alguns tendo em vista O BEM COMUM. Já a Democracia corresponderia ao governo de todos ou da maioria tendo em vista o mesmo BEM COMUM.

Em oposição a estas formas teríamos a Tirania, que seria o governo de um só tendo em vista seus interesses particulares. A Oligarquia seria o governo de alguns tendo em vista os mesmos interesses particulares. A Demagogia enfim seria o governo de muitos tendo em vista o mesmo fim, a saber, interesses particulares.

Por ai se vê que Aristóteles partilhava da crença de Platão quanto a possibilidade de um monarca, absoluto inclusive, interessar-se pelo bem estar ou pela qualidade de vida dos cidadãos. Como acreditava que um grupo qualquer fosse capaz de encarnar este ideal de abnegação.

Necessário dizer que partindo de semelhante juízo fica impossível estabelecer o dogma da necessidade absoluta da democracia. O máximo é que se pode chegar dentro da linha de raciocínio de Aristóteles é que a democracia, sem ser a única forma autorizada, seria a forma mais segura, eficaz ou excelente pelo simples fato de corresponder a um maior número de cidadãos pensantes, o que nos levaria ao adágio 'várias cabeças pensam melhor do que uma.'. Segundo esta perspectiva a democracia, sem corresponder a única forma ortodoxa, seria a que nos ofereceria melhores garantias. Isto é deduzível a partir do pensamento aristotélico, o jacobinismo radical ou democraticismo, de modo algum.







quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Analisando o roteiro do positivismo ou a afirmação do materialismo nas ciências humanas


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Os antigos, queremos dizer os pensadores greco romanos, não tinham qualquer problema em busca fragmentos ou pedaços da mesma verdade por três vias diferentes: A fé religiosa, a especulação filosófica ou metafísica e a investigação científica.

No compreensivo e vasto esquema do divino Aristóteles há espaço para a investigação cientifica em termos de experiencialidade - princípio largamente aplicado no Liceu - para a reflexão filosófica e até mesmo para a religiosidade. Bom lembrar das clássicas passagens em que o perípato pondo em dúvida a possibilidade de demonstrar a imortalidade da alma humana por via de demonstração racional (em oposição a Platão e ao próprio Kant) assegurava abraça-la por via da religião. Equivocam-se aqueles que, guiados por Afrodísias alegavam que a mortalidade da alma - demonstrada pela razão - podia ser negada no campo da religião, e que ambas as teses podiam ser professadas pelo mesmo indivíduo em que pese a contradição existente entre elas.

Não a texto algum de Aristóteles em que se encontre a afirmação de que a inexistência ou destruição da alma fosse racionalmente deduzível. A posição dele a respeito da imortalidade em termos puramente racionais parece equivaler a dos agnósticos, os quais nada pretendem afirmar, negar ou saber; daí socorrer-se da fé religiosa quanto a este tema.

Embora alguns Filósofos como Alexandre, Evemeros e Diagoras fossem não apenas irreligiosos mas inimigos da religião e sobretudo de seu aspecto mágico/fetichista, de modo geral, os grandes Filósofos como Sócrates e Platão, Antístenes, Zeno, Cleantes e Crísipo mostraram-se receptivos a algumas verdades religiosas de caráter universal ou comum. A oposição ou fragmentação não foi generalizada no contexto da antiguidade em que pesem inúmeras divergências a respeito do fetichismo, do politeísmo, da superstição, etc Aqui o mal estar não degenerou em ruptura e por isso os primeiros Cristãos e os padres da igreja puderam recorrer com bastante sucesso ao testemunho dos antigos Filósofos com o objetivo de promover seu monoteísmo revelado.

Quanto ao contesto Cristão devemos observar a existência de certas prevenções anti filosóficas e anti científicas localizadas - desde Tertuliano ao menos - no setor latino ou ocidental da igreja, cuja antropologia foi tornando-se cada vez mais problemática e negativa até Agostinho. O qual certamente nutria dúvidas bastante sérias face ao conhecimento humano ou a capacidade cognitiva do homem e certo desprezo pelo mundo externo e material. As invasões bárbaras e a destruição das escolas, museus, bibliotecas só farão acentuar ainda mais este tipo de mentalidade.

Outra no entanto era a situação do Oriente. Poi se Justiniano haviam mandado fechar os antigos institutos filosóficos atenienses, já dominados pelo irracionalismo neo platônico e, pasme leitor, pela teurgia ou pela magia (de fato os derradeiros escolarcas como Porfírio, Hierócles, Jâmblico e outros eram 'bruxos' ou magos, da mesma cepa que um Eliphaz Levi ou um Aleister CrowleyMarciano e seus sucessores fundaram a Magnaura, o segundo complexo universitário da antiguidade ou se preferirem da Idade Média, sob os auspícios do Cristianismo. E lá se conservavam os registros científicos do passado e dava-se continuidade a reflexão filosófica, de que temos exemplo em Eustátio de Tessaloniki, nos criadores da Suda, em Psellos, etc Em Bizâncio, em que pese o declínio da produção científica, Filosofia e Teologia caminhavam lado a lado.

De modo geral, os antigos padres e doutores da igreja, por uma questão de fluxo cultural, abraçaram ao platonismo e depois ao neo platonismo, aqui certamente com graves prejuízos em todos os sentidos. Afinal quando o Cristianismo principiou a afirmar-se decididamente entre os gentios, pelos idos do ano 100 desta Era, a partida já esta vencida e tanto o materialismo epicurista (embasado nas lições de Demócrito de Abdera) quanto o realismo aristotélico (em que pese suas realizações prodigiosas) - para não falarmos nos ceticismos - esmagados pelo platonismo com toda sua carga idealista.

Alias a questão crucial em termos de platonismo - e não nos devemos iludir a respeito - não implica saber se os tipos ideais ou proto tipos eram materiais ou ideais. Inda que fossem materiais ou realistas estavam situados noutro plano, para o qual - EM DETRIMENTO DA VIL CÓPIA QUE É NOSSO MUNDO - deviam convergir nossas atenções. Importa saber que o platonismo desviava os olhares desta realidade para outra direção...

Tal a escola filosófica com que o Cristianismo encontrou-se e com que ligou-se por séculos a fio, e é de se imaginar que seu viés anti científico fosse antes tributário desta visão idealista - que já havia massacrado o realismo aristotélico do que - que da própria cultura judaica. O contato certamente foi prejudicial ou danoso, mas os preconceitos partiram do platonismo. Ele é que bem antes do advento do Cristianismo havia se negado a olhar para este nosso mundo e se apegado a tradição anti sensorial dominante como a uma tabua de salvação.

O que devemos ressaltar aqui é o surpreendente e quase miraculoso renascimento aristotélico promovido na grande e antiga igreja por S João Damasceno, um de seus principais teólogos. A bem da verdade o Aristotelismo fermentava já entre os assírios e siríacos desde os seculos VI e VII desta Era, sendo as obras do Filósofo estudadas e copiadas nas acadêmias médicas do grande império persa.

Curiosamente o salutar movimento teológico/filosófico iniciado na Igreja Bizantina haveria de ser assumido e desenvolver-se no terreno de uma igreja latina ou romana já socialmente recuperada e em franco desenvolvimento a partir do século XI e mais ainda a partir do século XIII. No contexto Oriental reproduziu-se novamente o velho conflito Platão ou melhor neo platônicos versus Aristóteles agora no plano da teologia, sendo o escolasticismo ancestral e até certo ponto os fundamentos racionais da patrística, arrasados pelo palamismo o qual corresponde a uma corrente neo platônica que remonta ao livro do pseudo Dionísio, a Evágrio e a João Clímaco. Todos estes homens tomaram o caminho inverso ao da imanência, ao da Encarnação e do realismo epistemológico, embora mantivessem a excelente doutrina da Theosis.

A principio também os latinos apegados a Platão e o que é muito pior, a Agostinho, os latinos repudiaram a doutrina de Aristóteles como perniciosa. Assim em 1270 Estephanus Tempier arcebispo de Paris lança um interdito em torno dos escritos de Aristóteles. Evidentemente que naquela altura do campeonato sequer podiam distinguir o Perípato do árabe Ibn Rodh como o próprio Ibn Rodh não conseguia distinguir o comentarista (Alexandre de Afrodísias) do Perípato uma vez que a crítica textual era incipiente e tudo se achava misturado de modo que Siger de Brabante - o 'averroísta 'cristão' de Ernesto Renan - acaba aceitando tudo e, tendo em vista a salvaguarda da fé ou da teologia cristão, formulando a doutrina relativista da dupla verdade.

De um modo ou de outra após os sucessivos renascimentos: Literário, Filosófico e Científico ao cabo dos séculos XII, XIII, XIV e XV as letras clássicas, a reflexão filosófica e a retomada da produção científica, obedecendo a um projeto unitário e grandioso, vão caminhando juntamente com a fé Cristã Católica, a teologia e religiosidade; como que formando um todo ou uma visão integrada e total da existência. Foi um tempo no mínimo interessante pela simples busca de um esquema compreensivo, amplo e abrangente que conciliasse todos os meios de conhecimento, o religioso, o filosófico e o científico além das linguagens literária e artística. Clássicos são os estudos ou analises históricas, geográficas, sociais, culturais, etc em torno do espírito universalista característico do século XIII.

Não, não sou dos ingênuos que pretendem ocultar as trevas e a sujeira debaixo do tapete. Claro que não era a igreja como um todo que apoiava este direcionamento, mas haviam muitos eclesiásticos relacionados com ele, assim Nicolau de Cusa e Marsiglio Ficcino... Claro que o número de pessoas toscas e ignorantes era colossal, claro que haviam massas incultas e lideres religiosos fanáticos, claro que haviam controladores oportunistas, místicos embiocados, agostinianos, sectários, judaizantes, gentes da bíblia, inquisidores desmiolados, e toda uma turba multa de anões e paraplégicos do espírito. O que não elimina o espírito reinante e significativa adesão por outra parte da igreja, a melhor e a mais lúcida.

A tentativa como disse, de manter o são equilíbrio entre as três vias do conhecimento humano, segundo a velha tradição romana, representava um ambicioso projeto arquitetônico, que veio a ruir e a desabar fragosamente no dealbar dos séculos XVI e XVII, enchendo a Europa de ruínas no campo do espírito, rompendo o equilíbrio, fragmentando a cultura e engendrando a crise. Desde então a civilização ocidental combate entre si, dispersa suas energias e dissolve-se. Pois há quem queira pura e simplesmente destruir a religião, como há quem queira substitui-la pela Bíblia ou pelo antigo testamento, como há quem faça guerra a metafísica até os catões da ética. Desde então Filosofia, Religião e Ciência travam entre si a mais pavorosa e insensata das batalhas, perdeu-se definitivamente a compreensibilidade e o resultado mais dramático aqui foi - e é onde queremos chegar com este ensaio - o falseamento do quanto chamamos Ciências humanas ou do homem.

Lançando um primeiro golpe de vista poderíamos nós supor que a quebra da paz ou a ruptura partiu dos ateus, materialistas ou incrédulos. Bom lembrar que - cf Lucien Febvre 'O problema da incredulidade no século XVI' - ao dealbar do século XVI inexistiam ateus e materialistas na plena acepção da palavra. Haviam quiçá alguns sujeitos na periferia da Igreja ou nos confins da Ortodoxia, alguns revoltados, heterodoxos, etc Não materialistas, positivistas, cientificistas ou místicos da técnica.

Neste caso de quem é que parte a ruptura???

Para compreendermos o sentido da ruptura e seu significado imenso para a cultura temos de lançar nosso olhar sobre um cantão tanto mais atraso ou primitivo da Europa, ao menos em comparação com a Itália ou a França. Refiro-me ao Império Germânico ou a Alemanha, onde o Imperador Maximiniano acaba de baixar a sepultura, enquanto iniciava-se uma briga de monges travada entre Dominicanos e Agostinianos em torno da doutrina das indulgências, uma doutrina bastante problemática formulada alguns séculos antes pelo grande fabricante de novidades Alexandre de Alés, quiça inventor da fé romana ou papista, digo de seu conteúdo específico.

Não nos importa aqui entrar nas minudências do conflito Tetzel Lutero, alias bastante conhecido de todos. Nem nos importa entrar nas minudências da doutrina luterana ou das origens da fé protestante. Sintomático aqui é que Tomás de Aquino também foi lançado ao fogo junto com as decretais do Papa romano logo após a condenação das Teses fixadas a porta da Igreja de Wutemberga. E com Tomás de Aquino lá vai Aristóteles. 
Desde as priscas Eras de Orígenes com seus 'Princípios' buscava a Igreja oferecer aos que pediam as razões de sua bela esperança ou expor o conteúdo da fé revelada em termos racionais criando o que chamamos de teologia, postura que veio a ser vital no momento em que a Filosofia viria a recobrar sua importância. Pois ela surge e ressurge a princípio como Ancilla da Teologia, i é como serva, escrava ou auxiliar. Caso predominasse o 'Esta escrito' e tudo fosse resolvido através de citações 'bíblicas' a Filosofia teria permanecida em seu limbo... A teologia latina ou escolástica como demonstram Gilson e Grabmann é que veio a resgata-la. Gostem ou não os incrédulos é pura verdade ou como se diz fato.

Desde então a igreja romana, em que pesem seus erros e equívocos, buscou apresentar sua fé em termos de sistema teológico coerente e acessível a razão, buscando superar certas contradições e sempre servindo-se do aparato lógico de Aristóteles, aproximando-se na mesma medida de sua orientação realista, compreensiva e favorável a um diálogo com a imanência em termos científicos. Daí a ciência ser cada vez mais cultivada e as investigações ampliarem-se mais e mais desde Alberto Magno, Roger Bacon, John Buridan, Robert Grosseteste e outros. Caso lancemos nosso olhar sobre a sociedade Cristã da Itália, nos séculos XIV e XV, se nos parece estar contemplando a Bizâncio dos séculos XI e XII com os Cristãos dispersos pela imanência demonstrando interesse por literatura clássica, botânica, zoologia, mineralogia, economia, geográfica, etnografia, etc. Sim há monges, há teólogos, há homens de fé e o mais surpreendente é que não são infensos a este movimento na medida em que as próprias celas dos mosteiros convertem-se em oficinas artísticas, escritórios ou laboratórios rudimentares.

O efeito do contato efetivado entre a teologia Católica com a Filosofia aristotélica foi fecundo no sentido de despertar parte dos letrados e inclusive dos clérigos para o valor da imanência. Impondo-se cada vez mais a exótica figura de um Willian de Baskerville i é do padre ou monge cientista, artista, inventor - assim Mendel no século XIX e Lemaitre no século  XX - Claro que dessa dispersão ou divisão de forças ressentiu-se o campo religioso propriamente dito, sentindo-se como que desfalcado e nem todos os homens daquele tempo podiam compreender o que podia levar um monge, um padre ou mesmo um devoto a gastar tanto tempo observando animais, plantas ou mesmo estrelas.

A reação a este tipo de secularismo religioso provocado pela Teologia escolástica e sobretudo pela doutrina de Aristóteles foi captada perfeitamente por Lutero e assumida pela Reforma protestante. Para tanto devemos compreender que não poucos Católicos receberam a doutrina de Aristóteles nos moldes tradicionais da religião, tomando-o por papa ou guia infalível a propósito de absolutamente tudo, e numa época em que sequer se sabia com certeza o quanto fora escrito por ele... Naturalmente que este tipo de postura suscitou a princípio críticas justas e em seguida criticas cada vez mais destemperadas e radicais por parte dos próprios Católicos e de alguns religiosos. Críticas que foram levadas aos campos da epistemologia e da gnoseologia, resultando disto uma retomada dos princípios ou preconceitos agostinianos; assumidos declaradamente pelos franciscanos, dentre os quais W de Ockham um dos principais críticos do Filósofo e promotores da visão 'tradicionalista' ou fideísta.

Os místicos em especial tomaram este caminho, devassado igualmente pelo Dr Gabriel Biel, cujo Manual de Teologia prevalecia em diversas escolas alemãs ao tempo de Lutero. Mesmo na França Erasmo não poupava cargas contra os monges, os escolásticos e os aristotélicos obtusos...

Importa saber que a negação de uma única doutrina é suficiente para desestabilizar o sistema Católico, o único existente até então e dentro do qual fácil era argumentar numa linha de coerência. Lutero no entanto havia reassumido - como Fulgêncio de Ruspe, Goteschalk e Wicleff - os pressupostos agostinianos em sua integralidade, e não podia faze-los concordar com a doutrina oficial da igreja romana ou com seu sistema teológico razoavelmente bem articulado. Quando esboçou a doutrina da salvação pela fé somente, que é a sua contribuição individual a reforma protestante, sua posição tornou-se insustentável nesse quadro. E no entanto, seguindo Aristóteles e buscando conduzir Lutero ao absurdo, os teólogos Católicos apelavam dramaticamente a lógica, a razão, a coerência, etc Queriam sobretudo demonstrar que a doutrina da salvação pela fé somente não se podiam conciliar com os demais elementos do sistema Católico posto que havia ali contradição formal.

Lutero não era bobo. Sabia muito bem que todo aquele discurso em torno da coerência, da concordância, da lógica ou da racionalidade estava fundamentado na Filosofia aristotélica. Assim no mesmo instante em que aderiu formalmente ao fideísmo de Agostinho, rompeu com a Teologia latina e canonizou o irracionalismo principiou a atacar furiosamente ao 'pagão' Aristóteles e a sua Filosofia e ataca-la com o mesmo empenho com que atacava o Papa. A razão passou a ser apresentada como uma louca ou uma bruxa e a Teologia - ao menos durante algum tempo - substituída pela Bíblia e pelo estava escrito na dimensão subjetivista que tão bem conhecemos. Ao menos durante a vida de Lutero o luteranismo e o protestantismo nascente assumiram uma feição notadamente anti aristotélica, fazendo-se herdeiro e porta voz de toda aquela crítica precedente. Assim se os aristotélicos e racionalistas apegaram-se a igreja romana os irracionalistas abraçaram entusiasticamente a nova forma de Cristianismo.

Desde então podemos dizer que houve um retorno a 'fé' - compreendida como fé cega ou fideismo ingênuo - ao livro (ou ao princípio do Sola Scritura), a cultura judaica, a religiosidade mórbida e fechada, etc Por fim a própria doutrina da igreja invisível, da união imediata com Deus (sem sacramentos), da presença simbólica, do repúdio as obras, enfim quase tudo no sistema protestante cheirava a ruptura com a imanência - desde já encarada pelos protestantes como pagã - a platonismo, a neo platonismo, a uma espiritualização ou a elaboração de um Cristianismo cada vez mais transcendente e separado do mundo a exemplo rabinismo e do islã. Zwinglio por exemplo, é apresentado por diversos teólogos contemporâneos como um aluno de Plotino ou neo platônico, a orientação no entanto é geral e se manifesta até mesmo no repúdio as imagens e no desprezo pela simbologia cultual. Todo sentido de lei Cristã e a consciência social do Cristianismo sai de cena passando o matrimônio a ser encarado como mero caso de polícia ou política. Toda direção religiosa, todo sentido, toda orientação volta-se para o outro mundo, para o além túmulo ou para o invisível enquanto busca frenética por uma salvação mágica.

Com a Reforma protestante no século XVI, o Cristianismo por assim dizer desencarna-se e desprende-se do mundo para refugiar--se nas alturas do céu. Nada mais platônico ou neo platônico. Até certo ponto devia o próprio leigo comportar-se como um monge as antigas e dedicar-se apenas a oração, ao culto, a leitura da bíblica e as discussões doutrinais i é a teoria, ao invés de ocupar-se em observar o mundo material. Sintomático aqui que Lutero tenha arremetido furiosamente contra Copérnico, o diácono da Igreja que se dedicara a observar o orbe estelar. Para ele os médicos eram embusteiros e o único meio de obter a cura para os males físicos era a fé, a oração ou o milagre. O afastar-se de Aristóteles e o aproximar-se de Agostinho ou Plotino implicou na deserção do mundo material ou natural por parte da Cristandade européia do século XVI. Foi uma passagem da curiosidade incipiente quanto ao mundo para a Bíblia, um exílio espiritual, um retrocesso em todos os sentidos, um imenso e colossal atraso.

Mas e quanto a Igreja romana i é a outra parte da Cristandade ou da Sociedade européia, que aconteceu?

Deflagrada a reforma, enunciados os novos princípios e produzido o novo modelo cultura nada tornou a ser como antes. Nem em termos de política, pois a igreja antiga achava-se enfraquecida, nem em termos de contato com o mundo, porquanto havia sido deflagrada uma guerra e ela, a igreja antiga, achava-se desfalcada em seus quadros. Desde então o quadro de monges e padres dedicados a produção cultural ou científica reduziu-se consideravelmente na medida em que foram sendo deslocados de setor ou mobilizados com o objetivo de entrar na controvérsia religiosa suscitada pelos reformadores. Veja que a partir da reforma protestante e ao cabo de uns cem anos a Europa como um todo a absorvida pela questão religiosa mergulhando de cabela na polêmica Católico/protestante. Diante deste fenômeno singular há quem, e Católicos inclusive, se deixe tomar pelo entusiasmo face a todo este delírio religioso, encarando-o como um efervescer de espiritualidade. E no entanto o que temos aqui são as fastidiosas controvérsias bíblicas, quase sempre de teor subjetivo até a chicana... 

É uma controvérsia inglória, um dispersar de energias, um afã estéril que nada viria a produzir de concreto senão mais e mais incredulidade, materialismo e ateísmo.

O que era de fato importante em termos de Cristianismo. Projeto sócio econômico, elaboração de uma ética essencial, produção artística, pesquisa científica, promoção humana, etc Tudo quanto realmente vale foi abandonado em benefício desta polêmica insana. Por cem anos a Reforma desviou a Europa de sua rota. Interrompeu bruscamente uma linha de progresso iniciada três séculos antes e abandonou o campo da imanência. Levando parte dos papistas a fazerem o mesmo.

É verdade que a partir do século XVII a pesquisa científica vai sendo paulatinamente retomada na Europa, mesmo no contesto protestante, na mesma medida em que as pessoas vão se cansando da Bíblia, das controvérsias e da religião. De modo que ao contrário da Idade média, a pesquisa e produção científica já não são assumidas por homens sinceramente religiosos, mas cada vez mais e numa escala mais larga por homens irreligiosos, e enfim pelos materialistas e ateus, alguns dos quais aspiravam destruir a própria religião.

A ideologia e a cultura no entanto eram Cristãs, formalmente Cristãs e portanto espiritualistas ou abertas a imaterialidade. Aqui a ruptura foi quiçá mais intensa do que aquela outra representada pela passagem do paganismo ao Cristianismo. Pois o homem moderno, o homem irreligioso não conseguiu elaborar uma espiritualidade irreligiosa como o homem antigo havia elaborado uma religiosidade monoteísta. Parte cada vez mais considerável deste homens irreligiosos mostrou-se incapaz de cultivar uma religião natural, a exemplo dos antigos Filósofos gregos, abraçando com fervor não apenas a tese do materialismo, mas inclusive a do ateísmo uma perspectiva combativa. E é evidente que a adoção a priori da tese materialista - por simples ódio ou repúdio a religião - fechou todas estas mentes para a simples possibilidade do imaterial presente na materialidade. Para nossa cultura pós reforma protestante a imaterialidade converteu-se em tabu, ficando relegada ao setor religioso.

A princípio esse aparelho conceitual materialista e ateu - ora assumido aprioristicamente, a semelhança de um credo, não apenas pelos cientificistas mas por muito cientistas (Mesmo no campo das ciências humanas) com a maior boa fé - inexistia, precisando ser fabricado. A nós cabe compreender a fabricação deste credo materialista em termos de epistemologia ou melhor de metafísica, para poder avalia-lo com máxima justeza, sabendo que não corresponde ele mesmo a um dado empírico, sensível e observável mas uma formulação conceitual, produto da especulação filosófica ou da metafísica que eles mesmo arrenegam hipocritamente, permitam me dizer.

O aspecto mais angustioso do materialismo é justamente sua recusa desonesta e terminante em assumir-se a si mesmo como aparelho conceitual ou ideológico e não como fenômeno observável.

A princípio os ingleses, segundo sua tradição empirista - que como vimos deita raízes na Idade Média - dedicaram-se a investigar a capacidade do aparelho sensorial e da percepção, e da experiência, tendo em vista construção do conhecimento humano. Assim F Bacon ao tecer suas criticas, até certo ponto justas, aos aristotélicos obtusos. Assim Locke ao retomar o esquema Aristotélico da Tábua rasa. Tal e qual na antiguidade, a partir do enfoque empirista, chegou a Filosofia contemporânea a Davi Hume, o qual não tornou-se seu Copérnico, justamente por alienar-se dela, digo da Filosofia. Afinal, segundo V Brochard (cf Céticos Gregos) o ceticismo crasso é antes de tudo uma recusa ao dialogo e a Filosofia. Hume é o patriarca do ceticismo contemporâneo enquanto afirmação contraditória em torno de uma dúvida absoluta ou enquanto simples negação do discurso e de todo discurso. Claro que Hume se tornou famoso, mas jamais conquistou a adesão geral dos pensadores, e isto mesmo em tempos de crise (O ceticismo é um dos sintomas da crise).

Devido a seu paralogismo fundamental nem pode afirmar-se como Filosofia, quando não assume o lema da Epoché ou da ataraxia, tomada por Pirro de Elis a fé búdica. Para por ai e por ai fica enquanto apologia da inércia.

Diante disto outros caminhos, e bastante radicais no âmbito da Filosofia, tiveram de ser deslindados e quase que paralelamente, se quem que seguindo tradições totalmente distintas. Assim na França Católica da Universidade de Paris, centro universal da escolástica. Assim na Alemanha Luterana e anti escolástica.

Os franceses juntamente com os ingleses se vão pela via do empirismo, chegando demasiado cedo ao sensualismo crasso com Condillac e ao materialismo epicurista com P Gassendi. Curioso aqui é que tanto Condillac quanto Gassendi eram padres e ao que parece sinceros em suas convicções religiosas. Afinal não é nesta mesma França que deparamos com um grupo de 'céticos' Católicos ou melhor dizendo de agostinianos puros, tradicionalistas, filo luteranos... representados por Gentian Hervetius (Um dos campeões na luta contra o protestantismo) e sobretudo M Montaigne autor dos famosos Ensaios??? Então a que propósito vem escocês Hume, a pouco citado?

Hume por não ter religião ou fé era um cético completo. Os franceses eram céticos quanto a tudo, os sentidos, a razão... mas não quanto a fé. M Montaigne é a seu tempo reprodutor de monumentos antigos e sobretudo consumado literato. Hume é quem aprofunda e amplia as reflexões céticas contribuindo com algo de propriamente seu por ser posterior ao grande Locke e poder expô-lo ao crivo da crítica, bem como ao velho F Bacon.

Herdeiros deste espírito escolástico essencial alguns iluminados franceses é que por primeira vez levarão a cabo o plano ambicioso de novamente inserir o materialismo e por primeira vez inserir o ateísmo nos domínios da Filosofia produzindo por assim dizer uma metafísica materialista e ateia. Diga-se deles que estavam equivocados mas nunca e jamais que foram desonestos. Assim D Holbach, La Metrie e o Dr Pierre Cabanis os quais formularam seus sistemas conforme os princípios da Metafísica pelos fins do décimo oitavo século.

Enquanto isso pelas Alemanhas, mais precisamente na pitoresca Koenisberg, alguém estava decidido a vindicar sua fé ancestral e a levar os preconceitos irracionalistas, anti escolásticos e anti aristotélicos os domínios da Filosofia. Tais os planos do sr Immanuel Kant. O qual além de ser profundamente ilustrado - basta dizer que era geógrafo - possuia conhecimento incomuns e matéria de lógica e de pura lógica aristotélica. A princípio parece ter lido algumas linhas em termos de escolástica, no entanto pouco mais tarde desejou queimar toda produção medieval, julgando ter sido acordado ou iluminado pelo iconoclástico Hume, o qual tampouco lograva satisfaze-lo por duvidar de absolutamente tudo e nada deixar ao homem.

Hume precisava ser consertado e Lutero glorificado. Kant era aquele que elaborando o idealismo crítico deveria fazer uma e outra coisa, estabelecendo as fronteiras do conhecimento e negando metafisicamente a metafisica. Metafisicando estabeleceu Kant que só podíamos conhecer ou ter acesso aos fenômenos através da querida ciência com seu paradigma da materialidade. Já o que se achava por trás dos fenômenos nada se podia saber de concreto ou definitivo, devendo o homem abster-se de afirmar e conformar-se com sua ignorância. Fé religiosa ou cega e ciência era tudo quanto tínhamos. A metafísica e por ext quase toda Filosofia (inclusive suas investigações epistemológicas, gnoseológicas e éticas) não passavam de opinião ou de fantasia e o raciocínio, a lógica, a dedução, separados da experiencialidade pura para nada serviam.

Tal o idolatrado Kant da Razão pura. 

A princípio houve quem o aplaudisse entusiasticamente por ter degolado o monstro repugnante do Deísmo. No entanto quando o outro lado percebeu que também a metafísica negativa ou ateística dos iluminados franceses era igualmente repudiada, e que Kant nas entrelinhas, antecipava o agnosticismo insonso de Comte e Huxley os aplausos foram cessando. Doloroso e sumamente doloroso para os ateístas terem se ouvir que Kant sendo agnóstico condenada sua metafisica tão arrevezadinha repetidamente surrada por escolásticos, aristotélicos, deístas, platônicos, ecléticos, etc E o grande Kant não lhes podiam socorrer. Mas como se Kant, a exemplo de Aristóteles quanto ao tema da alma, afirmava a existência de Deus com base na fé???

O fato é que havia coisa ainda mais séria ou pior para os produtores desta ideologia ou aparelho conceitual apriorístico.

Kant, que era muito dado a refletir ou a metafisicar com seus botões estava destinado quase que a ser revisionista de si mesmo. Pois quando postula a impossibilidade do conhecimento metafísico esta a bem da verdade fazendo um recorte e por metafísica querendo dizer Teodicéia. Tudo quanto ele quer dizer é que a existência de Deus não pode ser provada dedutivamente. Metafísica do conhecimento ele mesmo faz santo Deus! Acaso não esta ali escrevendo resmas e resmas de folhas sobre Epistemologia e Gnoseologia??? Pois bem agora na 'odiada' - um dos livros mais sabotados e odiados de todos os tempos - Razão Prática, que fará ele?

Eis que agora eu desdigo o que digo ou desminto o que falei...

Afinal, por conhecer de passagem as páginas monumentais de Vitória, Soto, Bañes, Cano e Suarez ele bem sabe que não é possível haver ética essencial e objetiva da pessoa humana nos termos de um Sócrates ou de um Platão sem postular uma Lei natural, como sabe do mesmo modo que é impossível postular a existência de uma lei natural, universal e imperativa sem admitir, necessariamente, a existência de um Legislador ou princípio Supremo ou transcendente. Mais ainda, sendo muito bem informado, Kant como V Brochard sabia que esta fora a cruz do ceticismo antigo e que o ateísmo e o materialismo não dariam uma ética essencial da pessoa tal e qual um boi não dá leite e galo não deita ovos.

Deu, merda e no campo da Ética o genial e arguto Kant afirmou exatamente o que negará no campo da teodicéia. É como se o alemão dissesse: Teodicéia é bobagem e não podemos atingir em si mesma a existência de Deus ou demonstra-la, no entanto no campo metafísico da Ética, relativo ao comportamento e interação social entre os seres humanos é absolutamente necessária a existência de um padrão externo, universal e objetivo ou seja de Deus. Morto ali ei-lo por absoluta necessidade ressuscitado aqui.

Que concluir a partir disto?

O grande público imparcial e objetivo conclui sem mais pela genialidade ímpar do Kant do primeiro livro e pela boçalidade extrema do Kant do segundo livro, o qual certamente já devia estar gagá ou esclerosado como os ex ateus Litreé e Flew antes de terem morrido.

Para fazer um justo juízo sobre Kant deveríamos ler ambas as obras, mas, os emancipados ateus e materialistas não leêm a 'Crítica da razão pura' o verdadeiro patinho feio da Filosofia.

Até aqui vimos que Kant não prestou lá grandes serviços a ideologia ateística, chegando a ultraja-la por sinal, em que pese ser considerado o mais arguto dos filósofos contemporâneos. Vejamos agora os serviços que prestou no campo do materialismo, do cientificismo, da ciência e da materialidade.

Continua -


domingo, 14 de maio de 2017

Buscando superar o psicologismo freudiano e o sociologismo marxista; uma leitura marxista de Freud ou freudiana de Marx I

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Prelúdio


Temos duas visões antagônicas e inconciliáveis no monismo materialista esboçado pelos diversos sociologismos, inclusive pelo marxista e no monismo idealista esboçado por diversas correntes religiosas, filosóficas e psicológicas.

São de fato dos extremos que acabam por tocar-se, e que aparentemente ao mesmos remontam aos primórdios do pensamento Filosófico.

Assim temos Demócrito para o monismo materialista (Há quem faça recuar esta posição até Tales cuja arché era a água) e Platão (e para muitos Pitágoras) para o monismo idealista compreendidos como 'arché' ou princípio primordial de que surgem todos os outros. Para os partidários do Abderita este princípio é a materialidade representada pelos átomos. Mesmo que haja algo de imaterial, surgiu 'a posteriori' ou seja a partir da materialidade. Tal a perspectiva de Marx segundo a clássica comunicação de Engels segundo a qual o ideal ou a idealidade deve ser compreendida sempre como epifenômeno da materialidade, inda que possa exercer certa influência sobre ela. Importa que na ordem ontológica a prioridade temporal pertence a matéria, a materialidade.

Claro que na maioria dos casos, os materialistas metafísicos mais coerentes, na impossibilidade de determinar como a imaterialidade ou idealidade surgiu a partir de sua negação ou de seu oposto que é a materialidade, optam, via de regra, por negar a existência da imaterialidade. Tal o sentir do materialismo crasso ou absoluto de La Metrie, Clothes, D Holbach, Moleschoot, etc que E Ditgen tentou introduzir, sem sucesso, no marxismo, dando equivocadamente por cientificamente demonstrada a materialidade da mente e tendo que ser corrigido pelo honesto Engels. Mesmo Lênin no 'Materialismo e empiro criticismo' teve de admitir que a tal demonstração ainda não havia sido fornecida pela ciência.

Outra no entanto é a concepção do materialismo crasso ou dialético, sempre interessado em identificar as forças que atuam no processo histórico. Assim se é certo que tal corrente super valoriza o aspecto econômico da produção de bens, nem por isso ousa negar por completo ou absolutamente a atuação de forças ideais ou imateriais, as quais por sinal concede o apanágio de 'autorizar' a ordem vigente imposta pelas relações econômicas, disfarçando-a, e, consequentemente alienando os oprimidos. O materialismo metafísico ou crasso jamais chega a tanto... A distinção portanto é justa, conveniente e oportuna.

Quanto ao imaterialismo temos já ao menos um esboço nas especulações de Pitágoras a respeito do número. Embora não possamos nem devamos avançar e declarar que ele, como Anaxágoras sejam monistas. E o mais certo é que não sejam. Teriam enfatizado o imaterial apenas enquanto princípio operatório dinâmico, sem excluir a eternidade do elemento material. Certamente não eram partidários de uma criação 'ex nihilo' e não há elementos que nos forcem a compreende-los doutra forma.

Ora, o mesmo já não se sucede com o Acadêmico já influenciado pelas considerações de Pitágoras, já influenciado pelos cultos de mistério - Órficos, eleusinos, etc trazidos, segundo alguns do Oriente - e, em cujo pensamento parece haver já uma certa ideia de criação ou de produção do material pelo imaterial (Daí a ideia de Demiurgo, embora alguns queiram apresentar esta entidade apenas como organizadora - No esmo sentido em que o Nous de Anaxágoras - e não como 'criadora' ). A dar por certo ou mais plausível este ponto de vista, temos aqui a primeira afirmação de um monismo idealista ou espiritualista entre os antigos gregos.

Para muitos a ação do demiurgo no Timeu deve ser compreendida como ordenar e não como criar ou produzir algo a partir do 'não ser'. Assim Margarida Nichele de Paulo apud 'Indagação sobre a imortalidade da alma em Platão' p 50 nota 136 da por razão de sua negativa, o 'fato' do antigos gregos ignorarem o conceito de 'nada'. A alegação, permitam-nos declarar, é pífia pelo simples fato de Parmênides ter trabalhado com o 'conceito' de 'Não ser' ou nada apenas para pode nega-lo! Pois como poderia ser 'Não ser' e ser algo ou alguma coisa??? Não estou dizendo nem mesmo sugerindo que Parmênides fosse dualista ou criacionista, de modo algum. No entanto que estava familiarizado com o conceito de 'nada' equivalente ao de 'não ser' estava.

Não sei quanto há de verdade na narrativa segundo a qual pretendia Platão queimar as obras de Demócrito. Agora quanto aos pensamentos de ambos corresponderem aos dois extremos do monismo não tenho a mínima dúvida.

Resta saber agora qual fosse a opinião ou ponto de vista dos demais pensadores gregos, os não alinhados. Tal o posicionamento do Estagirita.

Via de regra podemos classificar todos estes pensadores - A exceção talvez de Tales (Monista materialista?) e Pitágoras -  como dualistas no sentido de que afirmavam a coexistência eterna de duas arché(S) ou princípios: O imaterial e o material. Os manuais no entanto costumam apontar Anáxagoras como o primeiro dualista 'ex professo' pelo simples fato de ter apresentado o Nous i é a mente ou o espírito como princípio ordenador (organizador) da matéria eterna. Bom salientar que na opinião de Aristóteles, Parmênides e Anaxágoras teriam sido os pensadores pré socráticos mais vigorosos.

Em termos teológicos esta doutrina posteriormente classificada como panenteísta. Em termos epistemológicos costumamos classifica-la como realista. Em termos psico cognitivos como interacionista ou construtivista. Podemos no entanto manter o velho termo dualista uma vez que os demais já não pressupõem a equivalência eterna dos princípios em termos de temporalidade, tendo se conciliado já com o monismo idealista 'criacionista'. Descartes assumiu esta perspectiva e revesti-a de uma nova forma mais atual.

Com raras e louváveis exceções temos aqui uma espécie de racha ou conflito - artificial e pernicioso - entre sociologia e psicologia. Esta tudo atribuindo tudo em absoluto, e portanto até mesmo a organização social, a atividade humana ou mental e assumindo o caráter de psicologismo, aquela tudo atribuindo, inclusive a formação da personalidade, a organização social em termos de materialidade, transtornando em sociologismo. Ali temos minimizado o papel exercido pelo grupo social ou a estrutura econômica, ficando tudo compreendido como epifenômeno de relações meramente pessoais. Aqui damos com um menosprezo quase que rancoroso pelo homem, pela interação pessoal e pelas decisões livres. Ali a sociedade é encarada como puro e simples agregado artificial de indivíduos e portanto regulada pelas mesmas leis psicológicas que regulam a interação pessoal. Aqui o homem tem sua liberdade completamente negada, não passando de cópia 'determinada' pela sociedade. É por assim dizer fruto exclusivo do meio em que nasce ou produto duma conjuntura em termos de tempo e espaço, noutras palavras 'algo dado'.

No primeiro caso chegamos a uma noção romântica, em termos de uma liberdade ilimitada e de infinitas possibilidades. E atingimos os confins do voluntarismo... No segundo caso temos o determinismo ou a total negação da liberdade humana. E nos achamos, mais uma vez diante de dois extremos no mínimo problemáticos.

Que a ação do homem seja limitada pela realidade externa a si, fica demonstrada pelas milhões de vontades frustradas representadas pelas pessoas mais pobres ou oprimidas. As quais mesmo desejando saborear um bife todos os dias, por mais que aspirem e se esforcem - Trabalhando, inclusive - tem de se contentar com um pedaço de pão. Sem contarmos com as que ainda morrem de fome ou com aqueloutras que tendo forrado o bucho desejariam estar em Paris ou Veneza, e não estão...

Mas se esforce!

No entanto de que vale esforçar-se se não existem oportunidades ou chances oferecidas. De que vale um jovem negro ou pardo de periferia, sacrificar-se, esforçar-se, dignificar-se, se as vagas de trabalho - Por uma questão de maximização de lucros - estão reservadas a jovens brancos? De que adiantaria a uma jovem há cem anos atrás preparar-se para ser motorista ou policial se as vagas eram reservadas exclusivamente a rapazes? Considere portanto que as sociedades impõem certos limites e restrições além dos quais não se pode ir se se quer forrar o bucho e viver.

Imagine a condição da mulher em certas sociedades muçulmanas a exemplo do Paquistão, do Afeganistão, do Iraque, da Síria, etc e considere se aquela mulher pode de fato realizar tudo quanto quer ou satisfazer todas as suas aspirações.

Mas ela sempre poderá abandonar aquela sociedade ou sair de lá???

Já leu a Topofilia de Yfu Tuan ou a Geopsique?

Por outro lado mesmo que uma ou algumas (raras exceções) destas infelizes - Rompendo com todos os laços afetivos, espaciais e familiares, e vendendo todos os obstáculos postos pela cultura - fossem bem sucedidas em transferir-se para o Ocidente, em que isto alteraria a realidade social das demais mulheres que por lá permanecem??? Acaso poderiam todas as mulheres ou ao menos a maior parte das mulheres iraquianas ou paquistanesas deixar seus países e instalar-se em nossas Sociedade ocidentais? Alias qual país ou república ocidental haveria de receber tantas refugiadas? Haja avião e navio para transportar tanta gente! Quem não percebe que tal sugestão é sumamente absurda.

Nem podem tais mulheres, numa dimensão social, abandonar as sociedade em que vivem e nem podem, vivendo em tais sociedades, definir suas próprias vidas.

Tal a condição dos operários, dos trabalhadores e das pessoas mais humildes em nossas sociedades ocidentais. Na fruição de uma liberdade bastante reduzida...

Isto quanto aos voluntarismo psicologistas ou individualistas.

Por outro lado caso o homem tenha todos os aspectos de sua vida determinados pela organização social, de modo que não lhe resta liberdade alguma já não se pode explicar porque as próprias sociedades mudam e porque a História é dinâmica e não estática. Caso a Sociedade determine o homem por inteiro já não há elemento que possa transformar qualquer coisa e alterar a Sociedade, de modo que todas as relações deveriam repetir-se 'ad infinitum'.

Se os primeiros homens, que já viviam em sociedade, tiveram suas mentes invencivelmente plasmadas por aquele tipo de organização e assim todas as gerações subsequentes, como o gênero humano veio a superar aquele estádio social e passar a outro, diferenciado e superior? Que elemento introduziu a mudança?

Teria a Sociedade mudado a si mesma?

Teria a produção mudado a si mesma?

Teria a estrutura mudado a si mesma?

Quem não percebe que essa simples sugestão implicaria atribuir características humanas, como a inteligência, a criatividade, a livre iniciativa e a liberdade a uma órgão puramente estrutural que é a Sociedade. O qual não possuindo cérebro, racionalidade ou liberdade, não pode criar e tampouco transformar-se. Pois se a Sociedade se move ou se transforma e não é o elemento humano que a transforma temos de indicar o elemento dinâmico responsável por suma alteração!

Poderão os sociólogos materialistas sejam deterministas geográficos ou deterministas econômicos, apontar-nos qual seja este elemento dinâmico???

Certamente que não uma vez que nem a terra em os meios de produção materiais ou tecnológicos, pensam ou trabalham por si mesmo tendo sido criados e manipulados pelo elemento humano, este sim pensante e criativo, este sim responsável pelas mudanças que ocorrem no âmbito social sempre de compreendem a dinâmica social e atuam em sintonia com ela.

Constamos assim que nem uns nem outros estão certos.

Pois o constatar-nos que a  liberdade a liberdade humana não é ilimitada ou incondicionada não nos obriga a esposar a opinião oposta segundo a qual não resta qualquer medida de liberdade para o homem. Temos então de buscar um meio termo realista e postular a existência de uma liberdade limitada, condicionada e relativa. Relativa porque sempre relacionada com o grau de instrução do sujeito, condicionada pelo meio em que vive e limitada por sua situação sócio econômico; e sem embargo disto real.

Continua -

sexta-feira, 17 de março de 2017

Programa de restauração das fontes da cultura III

Eis-nos chegados aos sistemas naturalistas, pós liberalismo econômico:

  • Comunismo
  • Positivismo
  • Fascismo
  • Nazismo

    Mais:

    Socialismos materialistas e irreligiosos
    Anarquismo socialista

Todos pontuando os defeitos do Capitalismo, fazendo-lhe oposição e aspirando substituí-lo ou sucede-lo. No primeiro caso temos quatro sistemas totalitários em maior ou menor grau e no segundo sistemas politicamente liberais ou democráticos, ou melhor policráticos e ao menos quanto a este tema, o da organização política, estamos decididamente com o segundo grupo, i é com Bakhunin, Kropotkin, Poulantzas e alguns outros teóricos da democracia direta, que é a saída inversa para a democracia indireta ou representativa e saída pela superação não pela negação.

Aqui nossas diferenças são apenas quanto as fontes e os métodos, pois nós, com Sócrates, Platão e Aristóteles partimos da essencialidade Ética, encarando o socialismo como manifestação ou expressão de uma justiça cósmica e consciência universal, eterna, imutável... E acreditamos na via institucional ou das reformas políticas, sem no entanto repudiar a doutrina da guerra justa. Todavia encaramos com máxima cautela a 'mística da violência' e preferimos, sem duvida, o método da desobediência civil. Pelo simples fato do sistema capitalista ser vulnerável a inação ou a paralisação do elemento produtor. O que no entanto exige introjeção e expansão de consciência, alias tarefa precípua a que não se pode fugir impunemente.

O homem deve ser educado para o socialismo no âmbito da cultura. Introjetar princípios e valores socialistas neste homem e revolucionar sua mente, e revoluciona-lo internamente, e alterar seus paradigmas é categoricamente imperativo. E arma alguma tem ou terá poder suficiente para produzir tal consciência. Sem a qual todas as Revoluções revertem quando cessa a coerção externa ou física. Tornando aquele homem a ser cooptado pela ideologia capitalista.

Que dizer agora sobre os totalitarismos?

Todos tem calcanhares aquileus ou pés de barro: Ali o ateísmo que conduz sempre e necessariamente ao relativismo, ali o cientificismo sem consciência, mais adiante o autoritarismo e reducionismo cultural e mais além a superstição abjeta e hedionda do racismo...

Aqui o homem é convertido em fração do partido, ali em cobaia, acolá em membro de uma pátria abstrata e por fim em lixo... E esmagado sem maiores contemplações em nome de tais realidades superiores quais sejam o partido, a ciência, o estado ou a raça; o homem racional e livre desaparece e com ele, ainda aqui e mais uma vez, nossa herança grega!

Organização política - não necessariamente partidária - é bom, ciência é excelente, cultura é vital... desde que cada um destes elementos seja vivificado por uma consciência Ética que reporte a dignidade humana, ao bem, ao amor, a justiça. Dispersos e isoladamente elevados acima do homem tornam-se igualmente daninhos e degeneram.

Sem a ideia de um Sumo Legislador cujas leis sejam racionalmente acessíveis ou de uma Revelação divina jamais saímos disto.

E ficam os naturalismos em continua luta, a semelhança das seitas protestantes que os precederam, ampliando a confusão reinante, alimentando o ceticismo e não poucas vezes fortalecendo a resistência do Capitalismo e demais formas de individualismo, bem como a alienação fundamentalista.

Eles são, me perdoem a crua expressão, como larvas a alimentarem-se de carne podre. Pois quando aparecem em cena o protestantismo e capitalismo já corromperam por completo a sociedade e a cultura, e capitalismo é necessariamente materialismo e por fim ateísmo, então não saímos disto. E tampouco encontraremos qualquer adjutório ou apoio nas doutrinas transcendentes, descarnadas e supersticiosas alimentadas pelos fundamentalismos de matriz semítica... Protestantismo Ortodoxo e islamismo aspiram cremar o cadáver e espalhar suas cinzas pela terra... Situação dramática!

Sem maiores evasivas direi que precisamos de algo que esteja situado entre o ateísmo e o materialismo a um lado e a religiosidade mística ou descarnada a outro. Como uma crença que incorpore a imanência, valorizando-a. Pelo que chegamos ao deísmo ou a religião natural dos antigos gregos e dos iluministas franceses ou ao Catolicismo antigo fundamentado nos Santos Evangelhos e na tradição. Talvez aqui possamos encontrar um critério Ético que seja saudável. Penso que ao menos devamos ouvir a um Sócrates e a um Platão ou a um Jesus Cristo e escutar-lhes as propostas.



Por que jaz o Ocidente prostrado face ao islã e correndo risco iminente de ser absorvido por ele?

Por que chegamos a semelhante estado de coisas, tão deplorável e tão arriscado?

Por que nos encontramos acuados e ameaçados?

Elemento houve em nosso passado que desagregou-nos e desde então esta desagregação não cessou de progredir e de avolumar-se.

E a melhor forma de conquistar um Império qualquer é dividi-lo.

"Divide e impera.", tal a divisa de César.

Quando a Europa era Una pela Cultura ou quando era inspirada pelos valores comuns instilados pelo Cristianismo antigo, soube resistir ao islã como um só homem, conte-lo e faze-lo recuar.

Passado os áureos dias de Lepanto, desde o século XIX, o islã tem retomado sua expansão as custas de uma civilização superficial envenenada pela confusão e pelo ceticismo.

Quem ensinou-nos a ser céticos e a duvidar de tudo???

Foulcault e os pós modernos, Kant antes deles e antes de Kant, Hume. Foram eles que demoliram as certezas pelas quais bem se vive e se ousa morrer. Foram eles que assassinaram a Verdade que regula as vidas. Foram eles que removeram o espírito que anima as consciências. Mas eles são produtos do protestantismo ou do ambiente protestante.

Lutero foi quem abriu a primeira brecha em nossa cultura fazendo com que o homem duvidasse da Igreja, até chegar a duvidar da Ética proposta pelo Evangelho. Quando este homem chegou a acalentar duvidas sobre o Cristo, teve de buscar outras fontes para sua Ética e não podia deixar de chegar aos confins do relativismo e do subjetivismo. Ou de precipitar-se no legalismo de religiões menos evoluídas... Abandonou o Evangelho que inspira para ser comandado por patrões, líderes, partidos, etc

Após o triunfo do ceticismo religioso por meio da reforma protestante o espírito do homem não mais achou repouso, fatigou-se, extenuou-se, dissipou-se... A ponto de negar a realidade percebida pelos sentidos! Tal o abismo em que veio a precipitar-se.

Não nos congregamos mais como irmãos e membros da mesma cultura com o objetivo de dar combate ao inimigo comum e insidioso.

Porque a fé que nos unia pela produção da cultura foi abatida.

Mas o protestantismo nos trouxe a Bíblia!

Nós trouxe os mitos e fábulas dos antigos judeus que face a ciência não podemos suportar e, consequentemente decepção e ceticismo!

Nos trouxe o livre exame, individualista a subjetivo com que se destrói a mensagem do Evangelho possibilitando a construção de diferentes e múltiplos Cristos!

Nos trouxe, vitorioso e triunfante aquele pessimismo agostiniano que nem mesmo o talento e gênio de um Montaigne ou de um Hervetius haviam conseguido injetar na sociedade papista como um todo.

Pela judaização, pelo livre examinismo e pelo agostinianismo, com sua teoria sobre a corrupção absoluta da natureza o protestantismo instilou o veneno do ceticismo nas veias da cultura européia. E no entanto este homem, europeu, asiático, americano ou africano, anseia por verdades sobre as quais apoiar suas ações... Assim se o ocidente nega-as, o islã oferece-as; e arrasta multidões de homens, inclusive de homens sábios e prudentes como um Roger Garaudy!
Natural que num cenário de pessimismo epistemológico, por detrás do qual avista-se o pessimismo antropológico de Mani, as pessoas flertem com o islã ou com qualquer outra coisa...

O islã é certamente falso. Mas sabe afirmar-se obstinadamente como verdadeiro! E nosso homem confuso, ansioso, angustiado, aflito, desiludido... deixa enganar-se pela aparência da verdade. E prefere a aparência da verdade a negação da verdade ou a dúvida metafísica e invencível enunciada por aqueles que sobreviveram ao triunfo efêmero da variedade das seitas protestantes.

Pois foi a variedade e a disputa que alimentou o ceticismo!

Foi o Biblismo, foi o livre examinismo, foi o agostinianismo... Tal a matriz de nossos males, de nossa crise, de nosso abalo! Tal a porta de entrada da nova ordem naturalista e dos posteriores conflitos - O protestantismo! A reforma!

Foi ela que restabeleceu a doutrina dos antigos sofistas em detrimento da via indicada por Sócrates e enfim por Platão e Aristóteles.
Foi ela que desfez a mentalidade racional e racionalista de nossas ancestrais, até certo ponto incorporada pela escolástica latina!

A reforma foi nosso desvio de rota! Foi o primeiro passo que nos conduziu a esta via dolorosa e val de lágrimas da cultura. Foi ela que engendrou a crise! Foi ela que corrompeu as fontes da cultura!

Então sabemos até onde devemos retrocedes e recuar!

Temos de revisar, de retroceder, de recuar, antes que o abismo nos engula.

Não temo dizer e declarar que precisamos nos reconciliar com o passado. Com as fontes e raízes da nossa cultura. 

Alias a própria igreja romana precisa recuperar-se, precisa lavar-se e purificar-se da poluição protestante com sua RCC... Precisa superar seu tradicionalismo formalista amancebado com o capitalismo... Precisa construir uma teologia da libertação fundamentada na tradição dos antigos padres, etc Precisa recuperar sua identidade e sua consciência. Ou ser substituída inexoravelmente pelo Catolicismo Ortodoxo... 

Com ou sem as igrejas romana e anglicana precisamos resgatar o nosso passado ante protestante. Nosso passado de unidade e fé. Nosso passado de Ética e amor. Nosso passado de Evangelho e tradição. Temos de retornar até ele para fazer frente ao islã. Richard Dawkins reconheceu-o honestamente. Não saímos desta crise funesta sem cristianismo e sem cristianismo Católico, porque nela fomos postos e iniciados pelo pseudo Cristianismo protestante com seus delírios individualistas, subjetivistas e relativistas...

Precisamos resgatar a preciosa noção de Verdade que conduz a Unidade e leva a ação.

Temos de nos reconciliar socialmente com o Catolicismo ou no mínimo com o Socratismo, matriz de nossa cultura. Desprovida de seus alicerces e fundamentos a cultura vem abaixo como uma residência sujos alicerces foram removidos. O alicerce de todas cultura é a religião, ou, subsequentemente a Filosofia. Comte iludiu a humanidade fazendo-a crer que a ciência era capaz de substituir a Filosofia, e isto pelo simples fato que esta raramente e com suma dificuldade consegue substituir a religião. Infiéis ao absoluto como serão os homens fiéis ao relativo e ao subjetivo??? Mas a percepção??? A percepção comum as pessoas sãs (Alf Ross). Bravata, pura Bravata pois após a razão ou a negação da razão tudo acaba cedendo... Ademais Hume a semelhança de Protagoras (Alf Ross) já teceu cerrada crítica aos sentidos e a razão, asseverando que não há certeza alguma e que o conhecimento científico é tão aparente, ilusório e enganador quanto os conhecimentos religioso e metafísico.

Kant por mais ginástica mental que tenha feito morreu a praia e reconheceu que os sentidos sempre distorcem a realidade. Ciência só é exteriormente ou externamente válida porque produz resultados vantajosos, o que tampouco torna-a verdadeira... A realidade permanece sempre oculta por trás do véu e o homem ignorando a 'essência' de um simples alfinete, em seu estado de ignorância invencível e absoluta. Nada sabemos quanto ao que se acha para além do fenômeno e jamais deixamos de pertencer ao império da ignorância.

Sem fé, sem razão e sem percepção; eis o homem contemporâneo nu e cru... Morre junto com a noção de divindade e miseravelmente perece dentro de si tendo suas habilidades negadas! Que resta a este homem: NADA, NADA, NADA... A reta final e o ponto de chegada de tudo isto é o nihilismo. O fim de toda esta escolástica irracional, anti sensorial e anti humanista. Nada resta ao homem, apenas um nada absoluto no lugar do absoluto. Não há Deus, mas também não se pode dizer que há homem, que há universo... Pois este ser infeliz chega a duvidar da própria existência e da existência do universo, chega as fronteiras da loucura, a insanidade! E os clamores da razão que nele habita e que não pode calar atormentam-no como Tântalo. E ele sofre por ter negado a si mesmo e profanado sua condição!

É este homem pós moderno ou kantiano, ou cético pior do que uma jabuticabeira. Esta corresponde a seu fim produzindo jabuticabas. Os sentidos jamais atingem seu fim, que seria informar o homem sobre a realidade externa a si. Antes pelo contrário desinformam-no na medida em que alteram a realidade e produzem realidades diferentes e antagônicas inclusive. E a jabuticabeira atingindo seu fim atinge-o inconscientemente, enquanto, oh desgraça suprema, o homo sapiens ou melhor non sapiens tem consciência de sua frustração, enfim de que é um ser desajustado ou inepto!

Para que consciência então???

Não era melhor permanecer na inconsciência de tão deplorável estado?

De tão calamitosa realidade, a saber, de que desconhecemos ou ignoramos a realidade?

Tolo o que dá ouvidos ao falastrão A Comte apegando-se a ilusão da ciência como uma náufrago apega-se a uma tábua em meio a vastidão do mar imenso... Apenas para prolongar-lhe a agonia! Protágoras, Hume e outros já mandaram ao fundo o batel de I Kant seu mestre. Fez água e afundou-se. Tudo quanto resta após Nietzsche e Foulcault são interpretações ou leituras. Que se constrói com interpretações ou leituras em termos de Cultura ou Sociedade? NADA, NADA, NADA...

Os homens que lançaram os fundamentos de nossa Sociedade, lançaram-nos porque acreditavam numa verdade, fosse religiosa ou metafísica e foi a verdade que levou-os a atuar buscando criar ou transformar a realidade. Negado o acesso a realidade por meio da verdade fica o homem entorpecido e paralisado. Para criar é necessário saber e saber de fato... A ignorância nada cria, abismasse e fechasse em si mesma. Nega o mundo, nega a sociedade, nega o homem, nega a dor, nega o sofrimento e por isso é incensada pelo liberalismo econômico. Ademais aquele que não chega a solução final como o jovem Werther, aliena-se consumindo... e alimentando o Mercado. Esse homem não se posiciona, não contesta, não faz nada e permanece sempre em mórbida contemplação de si mesmo, em estado de inércia, babando diante de sua estupidez.

Não será agente da civilização, não será atuante face ao islã... Pois não se arriscará e tampouco morrera pelo que é ilusório ou aparente. O que crê ou julga saber algo tem motivos para resistir, o que nega a realidade tenderá a acomodar-se... e a fazer concessões. Mas nós precisamos de lutadores e combatentes. De pessoas que vivam e morram pela cultura ancestral. Por isso temos de retomar o espírito que produziu esta cultura, por isso temos de nos reportar aos pensadores gregos ou aos padres da igreja em busca de salutar inspiração.

Temos de destroçar este cipoal de naturalismos e cortar o górdio do ceticismo, e só podemos faze-lo retrocedendo ao estádio anterior ao protestantismo i é a fé Católica, a lei de Cristo, a voz do Evangelho, a luz da tradição... Não ao Catolicismo ocidental desfigurado pelo agostinianismo maniqueista, mas ao Catolicismo antigo, legítimo, Ortodoxo que afirma e reconhece as capacidades do homem, seja sua racionalidade ou sua livre vontade e capacidade para o bem e a virtude.

Somente por via do Catolicismo ou do deísmo (talvez) atingiremos os ideais gregos da liberdade e da justiça ou seja da democracia e do socialismo superando as ilusões do totalitarismo e do individualismo, os quais não fazem parte da nossa cultura.