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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Algumas considerações sobre o declínio da República romana e a 'Pax augusteana'

Embora Montesquieau, Gibbon, Sismondi, Ferrero, Villa e tantos outros tenham buscado analisar e compreender a queda do Império romano, compreendida como seu progressivo colapso de Comodo (190) a tomada da cidade por Alarico, os teóricos renascentistas, por identificarem-se com a forma republicana - vigente nas cidades do Regnum Italicum desde 1085 - concentravam suas inteligências buscando compreender o declínio da República e a retomada da forma monárquica sob Júlio César.

Maquiavel, num golpe de gênio, intuiu que para compreender o que estava sucedendo as repúblicas italianas de seu tempo ou a sua idolatrada Florença, devia voltar-se para o passado e estudar o declínio da República romana, buscando suas causas. E no final do 'Discorsi' (1525? - Maquiavel com objetivos oportunistas costumava alterar as datas de suas obras) acaba por abraçar a tese polibiana - ora Spengleriana - em torno dos ciclos de civilização. Segundo a qual, ao modo dos homens, as civilizações nascem, crescem, enfermam e morrem.

Já nos referimos diversas vezes a esta construção. No entanto, como repetir é a um tempo ensinar e fixar ou reaprender: Todas as cidades eram governadas por príncipes, as vezes eletivos ou mesmo provisórios. Num determinado momento tais príncipes fizeram-se hereditários e a hereditariedade, naturalmente, descambou em tirania ou despotismo. Desde então principiaram a conspirar os aristocratas, até que efetivamente tomam o poder. Passadas algumas gerações converte-se a aristocracia numa oligarquia opressora. O povo no entanto, por ter retido na memória a felonia dos nobres ou optimates, derruba a oligarquia e converte-a em democracia ou governo popular, o qual não tarde em degenerar, transformando-se em oclocracia, demagogia ou anarquia... condições em que a monarquia é restaurada. Iniciando-se um novo ciclo.

Antecipando uma possível pergunta sobre a melhor solução possível quanto a retardar este processo degenerativo e prolongar a estabilidade, a sugestão, aprimorada por Aristóteles, encontra-se no Diálogo platônico 'As leis' e consiste no afamado governo misto ou republicanista. O qual o filósofo com suma prudência declara ser o melhor de todos. Implica ele fugir as formas puras e misturar monarquia, aristocracia e democracia. E já se divisa uma espécie de poder moderador inserido numa estrutura bi cameral. O rei, cônsul ou presidente - eleito periódica ou vitaliciamente - encarna o princípio monárquico, o pequeno senado a forma aristocrática e o grande conselho de cidadãos ou o comício a forma democrática e já se vê que temos diante de nós a Constituição da República romana, ainda mais favorecida por instrumentos como o plebiscito e o referendo, além do tribunato.

Satisfeita a possível pergunta devo tornar a desilusão maquiavélica e a petição que faz ele em torno da História para advertir que Guicciardini, seu jovem amigo e antagonista intelectual, antecipa as críticas de um Dilthey, de um Winbeldand, de um Eucken ou de um Marrou em torno de um processo histórico mecanicista, estrutural, rígido, formal, inelutável e absolutamente previsível quando não determinista. Sem negar que haja um ciclo civilizacional inelutável, Guicciardini insiste que certos atos ou fatos, quer repercutem nesse quadro, procedem do acaso ou da ação livre dos homem, não podendo ser compreendidos como resultantes de uma Lei fixa e rígida. Dentro deste quadro há considerável variação ou diversidade.

Em certo sentido Guicciardini - perdoem o anacronismo - parece insinuar o paradigma da compreensibilidade, tendo em vista a ação de elementos estocásticos ou humanos que fogem a rigidez monolítica da Estrutura. E antecipar a noção de tendências predominantes, face a noção de Leis imutáveis.

Agora tornando a república romana, sendo provida duma estrutura tão arrojada e eficaz, por que teria colapsado?

Autores de diversa lavra e separados por séculos uns dos outros - assim Bruneto Latini, Mussato, Salomonio... e mais próximos a nós: Polanyi, Arendt e mesmo Durkheim - referem-se a avareza, a busca pela riqueza privada, o aumento da desigualdade social, enfim, algo em torno das finanças ou da economia.

Para Durkheim as relações financeiras ou econômicas tendem a isolar socialmente os homens ou a afasta-los. Arendt gasta farta quantidade de papel e tinta com o objetivo de demonstrar que a expansão da esfera do econômico ou privado ocorreu as custas da diminuição da esfera do político ou público com a consequente perda de qualidade. Para Polanyi o economicismo contemporâneo destruiu os laços de solidariedade existentes nas culturas antigas e primitivas. John Gray, Roger Scruton e Russell Kirk tiveram de admitir, de bom grado ou a contra gosto que o liberalismo econômico punga contra o sentido comunitária presente nas culturas e civilizações tradicionais, o que por sinal já havia sido demonstrado fartamente por R Guénon.

No que diz respeito a Roma e o eclipse das virtudes republicanas a questão da concentração da riqueza por particulares, do luxo e da suntuosidade já havia sido apontada por mestres clássicos como Salústio e Juvenal, a quem seguiram Latini, Mussato, Salomonio, etc Alias, esta sugestão já havia sido desenvolvida por Agostinho e enfim por Ibn Khaldun num sentido que faz lembrar a Sócrates. Mesmo porque as civilizações antigas eram basicamente militares.

De fato os romanos assomam a História como um povo agro pastoril, cujos hábitos eram frugais, sóbrios ou quase ascéticos, e que por isso mesmo, ameaçados a um lado pelos poderosos e refinados Etruscos - que lhes impuseram a realeza até 509 a C - e a outro por oscos, samnitas, etc tornaram-se belicosos. O ambiente político da Itália, sua instabilidade e insegurança, definiu as qualidades militares dos antigos romanos.  E estes jamais cessaram de expandir-se pela península até domina-la.

E assim correram as coisas até as guerras púnicas ou ao menos até 146. 146 é uma data chave na História da civilização romana. Pois foi neste ano de Cipião, vencendo Anibal em Zama, conquistou e destruiu Cartago. Enquanto L Múmio destruia a soberba Corinto e conquistava a Grécia. Desde então escravos e riquezas inimagináveis afluíram a Roma e ela jamais foi a mesma. Pois como diria o já citado Juvenal, os romanos entrando em contato com outros, povos 'mais avançados' se deixaram conquistar pelos hábitos deles. Abandonando a frugalidade ancestral do mingau e das azeitonas, e tornando-se ainda mais ambiciosos.

No entanto eles ainda aspiravam por lutar e por conquistar as joias da coroa, assim a Síria e o Egito, antigos principados helenísticos e as nações mais ricas da terra, com exceção talvez da longínqua Índia... E de fato vieram a conquistar a Síria em 63 sob Pompeu Magno e o Egito em 31, após Augusto ter vencido Marco Antonio - em Accium - e fechado o circuíto do Mar mediterrâneo, agora 'Mare nostrum' ou lado privado dos latinos.

Agora consideremos as consequências de tudo isto.

Se já era difícil congregar o povo em comícios para decidir a respeito da cidade ou da Península como governar um Império gigantesco recorrendo ao povo e em tese a um povo romano espalhado por todo este Império? Se Salutati, Bruni, Patrizi e muitos outros referiam amiúde ao desafio que era congregar o povo de Florença, que dizer dos cidadãos do Império romano? A estrutura do macro estado associada a precariedade dos meios de transporte e comunicação, tornou o exercício do poder popular impensável. Sartori redefiniu nossa situação nos mesmos termos em meados do século XX. Mas estamos falando do século I a C... Sendo assim temos de admitir que um governo centralizado condizia melhor situação geográfica ou espacial do Império. Mesmo os atenienses do século V a C ou os humanistas italianos do trezentos ou do quatrocentos admitiriam a distinção... Diante disto que sacrificar? O Macro estado ou as formas democráticas?

Outra consequência - a somar-se com a econômica e com a política - é de origem militar. Mais conquistas e escravos demandavam mais guerras e mais guerras demandavam maior efetivo militar. Nos últimos cem anos da República foi Roma uma nação em campanha... E como sabemos o éthos militar - cf Nisbet - nada tem de democrático. Os Filósofos gregos e os primeiros Cristãos sabiam-no muito bem... Uma situação de conflito prolongado numa dimensão democrática não tarda a engendrar duplicidade. Por isso que das Revoluções procedem regimes autoritários (Nisbet). Tal o caso de Roma, desde o momento em que prolongou o comando dos ditadores. A partir de então alguns generais passaram a conviver por anos a fio com as mesmas tropas, a ponto destas converterem-se em clientes, lacaios ou cabos eleitorais seus. Não é por acaso que Caio Mario e Sila tiveram exércitos seus, com fidelidade jurada. E servindo-se deles puderam subverter a república, a este tempo convertida em aristocracia de poltrões senatoriais, com exclusão do povo. Por isto Sila ao penetrar o recinto da cúria com suas tropas acusa os senadores de covardia e declara que o povo nem os amava nem choraria ou lutaria por eles.

Júlio César com seus dedicados veteranos esta apto para colher o fruto maduro i é o poder Imperial, restabelecendo a monarquia.

Pois as elites estavam completamente corrompidas pelo luxo ou amolecidas.

Enquanto o povo, antes aguerrido, temos em Juvenal, passou a ser controlado pela política do 'panem et circenses'. Desde as vésperas da conquista de Cartago, pugnavam os plebeus - a gente comum - por um parte mais significativa no 'butim' ou saque que os romanos levavam aos povos vizinhos. Assim, no ano 123, sob Caio Graco, obtiveram a suprema igualdade e a redução do preço do trigo. E desde 59 pela lei Clódia, passam a ser alimentados pelo Estado, com a distribuição de rações de trigo. Desde então o Senado se sente completamente seguro. Pois o povo se acalma por completo, e abandona a arena da política.

Garantidos alguns diretos básicos e o alimento quotidiano acomodou-se a plebe.

Desde então puderam os líderes militares mais espertos, com a ajuda de suas tropas, exercer o poder sem quaisquer objeções.

Augusto foi um homem esperto, que soube colher os frutos semeados por seu tio, e em comunhão com a elite militar, completar as ansiadas conquistas e exercer um poder discreto. Foi o homem de seu tempo. Pois o declínio da República, iniciado por Mário e Sila, antecipou o caos que haveria de ser o século III d C, o qual teria antecipado o fim do Império. Prolongando-se indefinidamente o conflito entre os generais pelo comando supremo do Império. Os próprios militares do tempo de Augusto devem ter dado conta disto. No entanto nem o povo nem o senado estavam dispostos a lutar pelas antigas liberdades. Como as barrigas e os cofres estavam cheios tudo quanto eles queriam era paz e sossego ou estabilidade para gozar a vida. E como ninguém mais estivesse disposto a combater, os militares, juntamente com Augusto puderam assumir o poder, mantendo, ao menos em princípio as aparências.

A República havia declinado, indubitavelmente, mas não o poder romano. Pois por duzentos anos manteve-se o Império e até conquistou, em que pese a derrota de Teutberga, sob Varus. Ao menos até Cômodo, foi o Império um período de estabilidade e assim de recuperação, após o ocaso vergonhoso da República. Claro que não podemos compara-lo com os tempos dos Mânlios, dos Camilos ou dos Cipiões... No entanto após Mario, Cina, Sila, César, Crasso, Pompeu, Brutus e Cássio foi ele um refrigério.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A formação da política inglesa, a ascensão e queda do socialismo/trabalhismo

Este artigo esta fundamentado nas obras dos seguintes autores:

  • Harold J Laski
  • Christopher Hill 
  • Eric Hobsbawm
Dentre outros


Como quase todos os países europeus (Portugal, Espanha...) também a Inglaterra possui uma tradição aristocrática ou democrática - como queiram - que remonta a idade Média, as cortes, aos barões, aos municípios, etc No caso específico da Inglaterra esta tradição cristalizou-se na carta magna de 1215 assinada por João sem terra.

No entanto não é menos certo e exato que esta tradição ou espírito foi completamente obscurecido pela ascensão do absolutismo tudoriano em meados do século XVI. Mais do que em qualquer outro pais talvez, a presença da igreja romana na Inglaterra constituia uma espécie de 'poder moderador' situado entre a alta nobreza e o 'povo' ou entre a coroa e os nobres, buscando sempre conciliar as partes em conflito e evitar a concentração unilateral de poderes.

Assim sendo, quando Henrique VIII, estabelece uma igreja nacional ou independente (e este não é o problema) e submete-a a si (o problema é este) convertendo a fé em departamento de Estado e arvorando-se - como sustenta Hobbes - em chefe da igreja ou em 'Bispo secular' este equilíbrio é subitamente rompido em benefício da coroa e desta acumulação de poderes espirituais e temporais origina-se uma autocracia bastante forte.

Todavia essa mesma revolução que conferiu poderes absolutos da monarquia alimentou também seus inimigos que são esses burgueses enobrecidos pela posse das terras até então pertencentes a Igreja. Isto porque a coroa não tomou posse da totalidade delas mas partiu-as entre seus apoiantes e esses apoiantes, ao menos em parte, transformaram tais riquezas em capital primitivo, investiram e consequentemente aumentaram seus lucros, sua riqueza e seus poderes. A ponto de em cem anos poderem quebrar o absolutismo real, desafiar a coroa e a igreja, decapitar o rei e criar a primeira república em moldes burgueses de que temos notícia, isto pelos idos de 1649.

Evidentemente que ao tempo de Henrique, suas filhas e mesmo de Tiago I ninguém cogitava a respeito de um futuro tão insólito. No entanto ao mesmo tempo que aumentavam seu poder econômico os senhores burgueses afastavam-se da poderosa igreja nacional, pelo que a oposição política como sói em tais ocasiões converteu-se também em oposição e controvérsia religiosa entre os Bispos da coroa e os puritanos. Aqui misturaram-se os elementos econômicos e religiosos numa amalgama que em certo sentido esboça nossa visão culturalista da História.

A burguesia puritana, que há cem anos apropriara-se - com as graças de sua majestade - do espólio papista, aspirava agora apropriar-se das 'terras comunais' pertencentes aos campônios e desaloja-los de suas pequenas propriedades aumentando inclusive a oferta de mão de obra servil. Aqui no entanto suas pretensões chocaram-se com a opinião dos Bispos chefiados pelo grande Dr W Laud. Além de ter percebido a relação existente entre o poder econômico e o puritanismo, o velho Bispo anglicano percebeu igualmente que o controle de mais terras aumentaria ainda mais a riqueza e o poder dos puritanos a ponto de ameaçarem a um só tempo a Igreja episcopal e a coroa. Em que pese a tardança Laud convenceu o rei a atalhar e dificultar o acesso dos Lordes a tais terras...

Segundo a mentalidade episcopal e inglesa o argumento contrário as aspirações monopolistas dos puritanos foi retirado da 'tradição' atraindo de imediato a simpatia do povo, especialmente dos camponeses. Mais uma vez formou-se a conhecida aliança Coroa + povo contra a nobreza ou Monarquia + 'democracia' (permitam-nos esta liberdade) X aristocracia (de sangue e grana). O elemento de 'contato' entre a coroa e o povo foram os bispos do Estado chefiados por Laud e o veículo deles as igrejas, missas e sermões.

Desde então a Sociedade inglesa ficou completamente cindida em dois campos, os realistas, de modo geral papistas e anglicanos e campônios, e os rebeldes, de modo geral puritanos, sectários, burgueses e pessoas de ambiente urbano. Também estou disposto a crer que a maior parte dos cidadãos estivessem com a coroa. No entanto desde que a pólvora e as armas de fogo principiaram a ser utilizados, quantidade jamais foi problema em situações de guerra. Após cem anos a coroa havia dissipado parte de sua grana tomada a Igreja romana, e já não havia ameaça iminente de invasão espanhola que justificasse tributações. Esgotados os fundos e normalizada a política internacional a coroa inglesa passou a ter dificuldades para obter fundos. Pois segundo a tradição constitucional os impostos sempre deviam ser referendados pelo Parlamento... Ora formado majoritariamente pelos puritanos ou burgueses enobrecidos... Destarte como a coroa optara por dificultar o acesso deles as terras comunais e a fazer estardalhaço em torno das velhas regalias medievais de caráter popular, o parlamento optou por fechar as torneiras da coroa.

Desde então e por algum tempo a coroa passou a ter dificuldades para manter seu 'fausto'. O único caminho aqui era dividir o poder com a burguesia, recuando, satisfazendo suas aspirações e autorizando a grilagem das terras. Evidentemente que se tratava de um caminho sem volta! Pois os burgueses jamais abririam mão do poderio facultado e a coroa ficaria cada vez mais fraca até converter-se numa marionete em suas mãos ou num departamento da 'mão invisível'. O monarca britânico, confiado no apoio dos Bispos e da igreja anglicana optou por resistir e por recorrer a uma solução que lhe era facultada no sentido de obter recursos e decretar impostos a revelia de seus súditos: 'Paramentar-se', subir ao trono e como diríamos hoje baixar uma 'medida provisória' que dispensasse a aprovação do parlamento...

Os puritanos bem sabiam que caso a coroa pudesse obter recursos suplementares e 'armar-se' contra eles, seria muito mais difícil curva-la e tomar posse do poder. Portanto o empenho da coroa em obter recursos e baixar impostos de maneira 'arbitrária' deu lugar a guerra aberta, a guerra civil inglesa, ao cabo da qual os puritanos muito mais ricos e portanto bem armados esmagaram seus oponentes e derrubaram a monarquia. Desde então medidas econômicas de caráter impopular foram adotadas e os pobres camponeses esbulhados de suas terras comunais, pois Laud havia sido enviado ao cadafalso juntamente com o rei e os Bispos anglicanos postos fora da lei e substituídos por pregadores calvinistas.

Acontece que desde algumas décadas havia já em Londres e algumas outras grandes cidades uma espécie de proletariado, cuja situação era bastante precária. De acordo com uma tradição revolucionária e socialista legada pelo anabatismo (pois remonta a Thomaz Muntzer) alguns deles - eram chamados True Levellers (niveladores) ou Diggers (cavadores) - como Gerrard Winstanley principiaram a espalhar teorias e doutrinas comunistas, anarquistas e revolucionárias. O número destes panfletários anônimos não foi pequeno e o impacto de suas obras tampouco uma vez que aqueles que sabiam ler começaram a le-las em seus conventículos de modo que seu ideário tornava-se cada vez mais popular apesar da vigilância exercida por Cromwell e seus partidários. Ademais era Cromwell um lider carismático...

Seja como for o florescimento das teorias radicais não deixava de exasperar tanto aos puritanos quanto a seus adversários realistas ou anglicanos. Naquele momento não poucos foram capazes de extrair a medula do pensamento economicista liberal ou conservador segundo o qual a deposição ou a execução dos monarcas e a alteração brusca das formas políticas abria caminho para a contestação da ordem social facilitando a emergência de um pensamento econômico igualitário ou socialista. A própria implementação da igualdade política sugeria a implementação de uma igualdade econômica e apenas esta aterrorizava os donos do poder. Pois no frigir dos ovos quem controla a econômica acaba sempre interferindo na dinâmica democrática e viciando-a. Democracia associada ao liberalismo econômico é coisa que não se temia pelo simples fato de converter-se em plutocracia, apesar do nome. O que se temia na verdade é que a partir da igualdade política o povo além de deduzir uma igualdade econômica e, habituado a mudanças, passasse a lutar por esse ideal.

Noutras palavras o povão sempre poderia imitar a atitude dos burgueses e nobres e ataca-los da mesma maneira como eles haviam atacado a monarquia e deposto o rei.

Tudo levava os senhores ingleses a crer que as coisas tomariam este caminho, portanto cumpria atuar rapidamente e - pasme o leitor - dividir o poder, reconciliar-se com a monarquia e empossar um rei. Importava apenas que o poder daquele rei não fosse mais absoluto mas regulado pelo parlamento. Tratava-se de uma tentativa de composição entre a monarquia e a aristocracia ou de um modelo misto, germe das monarquias constitucionais e do parlamentarismo, cujas formas foram sendo delineadas após a restauração no decorrer do século seguinte (XVIII). Tudo quando podemos adiantar é que se trata da retomada da forma mista preconizada por Políbio segundo o modelo romana e que o primeiro delineamento teórico foi esboçado por John Locke. A esta composição entre monarquia e aristocracia (de sangue e grana) batizaram como democracia, trava-se no entanto de um 'liberalismo político' não democrático pelo simples fato de que o povão ainda não tinha como inserir-se.

Claro que a atitude dos puritanos foi acolhida de braços abertos pelos realistas. Afinal após a derrota e a execução do monarca eles haviam perdido o poder e não estavam em condições de negociar ou de exigir qualquer coisa. Sendo assim a monarquia consentiu em representar a velha farsa e em transformar-se em espantalho da democracia popular e do socialismo contendo as massas supersticiosas, ao menos por algum tempo, no respeito. A monarquia foi oficialmente restabelecida e todos acharam por bem fingir e afetar respeito para com a pessoa 'sagrada' do monarca. Todavia deste então as decisões políticas passaram a ser cada vez mais tomadas pelos líderes burgueses ou seja pelos membros do parlamentos e primeiros ministros após terem consultado e ouvido os banqueiros e industriais.

Graças a esta estratégia, que é uma pérola do primitivo pensamento conservador, o espectro de uma Revolução nos moldes populares de uma Revolução francesa pode ser conjurado por mais de século e no caso de Albion até os dias de hoje.

Todavia ainda faltava um elemento e o mais delicado e perigoso.

Afinal o próprio progresso técnico e necessidade de lidar com máquinas cada vez mais complexas, com o fluxo de compra e venda, com pagamentos de salários, etc determinou que ao menos parte dos proletários tivessem de receber uma instrução básica em termos de escrita a cálculo. A própria demanda administrativa gerada pelo capitalismo impedia que todos fossem mantidos na ignorância crassa tal como no século precedente e segundo as aspirações de Voltaire. Ao menos alguns precisavam receber uma formação sumária. O problema foram as novas perspectivas franqueadas pelo letramento de parte das massas. Afinal quem é que garantia que tais homens limitar-se-iam a ler apenas as planilhas, os livros e firma e a Bíblia?

No caso da França um letramento insipiente foi o quanto bastou para que as ideias revolucionárias suscitadas pela teoria democrática se alastrassem muito rapidamente entre as massas, já porque havia o recurso da leitura comum realizada em conventículos. Em que pesem as fiscalizações, restrições e intervenções punitivas da coroa. Solapada pelos ideais democráticos a monarquia francesa também veio a cair em 1789 e embora os girondinos, que representavam a alta burguesia nacional, forcejassem por conter a revolução nos limites do constitucionalismo e dos moldes ingleses tradicionais seus titulares foram encarcerados na torre e decapitados. Tal e qual os espertos girondinos temiam após a morte do monarca e a adoção de um republicanismo radical principiaram mais uma vez, como cem anos antes, a fermentar ideias de caráter socialista e anárquico (no sentido de uma democracia mais popular ou direta). E eis que surgem os Herbetistas e enfim os babovistas, herdeiros de Robespierre. O qual por sinal acabou decapitado...

Desde então a burguesia reassumiu o controle e guilhotinação no sentido de conduzir a república a seus limites normais i é políticos e evitar quaisquer transformações de caráter econômico.

Mais uma vez os argutos ingleses, herdeiros de um pensamento conservador atilado, perceberam os 'sinais dos tempos' deduzindo que era necessário adiantar-se e fazer uma nova composição (recomposição) de poderes ou assistir o desabrochar de uma catástrofe sem precedentes. Ademais a Sociedade inglesa estava bastante vulnerável ainda em razão da Guerra da Independência Norte Americana. Sob o impacto deste trauma e a ameça de algumas pequenas rebeliões e levantes isolados os lordes ingleses puderam compreender perfeitamente o sentido da 'fumaça' o que havia na base. O fogo deveria ser apagado a qualquer custo. Urgia implementar o pão e circo (afinal inglês algum toleraria ser enviado aos 'brioches' pelo monarca!) e incorporar certo elemento verdadeiramente democrático a estrutura do poder.

Para os lordes ingleses esta constatação deve ter causado profundo impacto e produziu verdadeiro trauma porque exatamente naquele momento cogitavam revogar por completo todas as poucas leis sociais remanescentes do período medieval e estabelecer o regime da concorrência ou livre mercado segundo os cânones clássicos de Smith e Ricardo. Logo dar poder ao povo naquele momento bem podia significar um entrave a este projeto. Felizmente o pão e circo das leis assistenciais pareceu surtir efeito, ficando as reformulações proteladas... Até que surgisse algum perigo. Mesmo porque os guardiães ingleses eram hábeis em identificar os perigos.

Curiosamente uma nova reação popular, alias bastante compósita e intensa, só veio a ocorrer após os lordes terem revogado as leis assistenciais e introduzido a dinâmica capitalista nos já citados moldes clássicos. Desde então a lutra revestiu-se de dois aspectos: a revindicação da ampliação do liberalismo político num sentido cada vez  mais democráticos e a partir da ampliação do poder político das massas a revindicação de mudanças econômicas opostas as aspirações do capital. Assim a luta inglesa foi a um tempo politica e institucional e a outro econômica. E eles usavam do poder politico adquirido para golpear o liberalismo econômico ou restringi-lo. Esta política contou com o apoio de um grupo ideologicamente bastante heteróclito formado por Anglicanos da alta igreja, metodistas, 'Católicos' sociais, espíritas, deístas, ateus, alguns quackeres e anabatistas, etc Religiosamente a resistência capitalista teve por janízaros os calvinistas (antigos puritanos) e sectários.

Como naquela dinâmica havia uma compreensão mútua entre as partes o processo encaminhou-se justamente naquela direção já prevista pelos ancestrais do conservadorismo e consistiu em abrir mais e mais a brecha feita pela democracia até conter as pretensões do liberalismo econômico e - algumas décadas antes de J M keynes - implementar um estado de bem estar social representando por um aparelho de inclusão e promoção humanas. Queremos dizer com isto que os liberais não estavam dispostos a questionar a viabilidade da democracia até a exasperação de seus contrários e o estourar de uma Revolução nos moldes da temida Revolução Francesa cujo fantasma sempre perseguia-os. Então eles conheciam os limites da resistência e até onde podiam ir sem maiores perigos. Grosso modo toda política inglesa ulterior, pautada na negociação e na conciliação a partir de uma estrutura eclética teve como parâmetro a Revolução Francesa. E quando a Revolução Francesa sai de cena pelos idos de 1900 estoura outra revolução não menos virulenta, a Russa.

A bem da verdade quando a Revolução Russa estoura em 17 o modelo trabalhista inglês ou modelo anglo saxão de bem estar social já estava completamente acabado. No entanto o fato de ter sido mantido por quase um século, até a era Tatcher que corresponde a sua demolição só pode ser compreendido a luz da Guerra fria e do receio instintivo dos ingleses face a simples possibilidade de uma nova Revolução. Os ingleses sempre foram bastante práticos, jamais perderam a cabeça e sempre souberam que eram melhor negociar e perder parte de seus privilégios ou compartilha-los do que perde-los por completo. Neste sentido souberam ser inteligentes.

Por isso que desde 1880 e ao cabo de um século adotaram um modelo socialista de bem estar e o mantiveram premidos como encontravam-se por duas Revoluções, a francesa e a russa. Eles sabiam que após ambas as revoluções o mundo não seria mais o mesmo e que a totalidade das antigas organizações não podia ser mantida. Como os passageiros de um avião que esta a cair lançam fora as bagagens eles sabiam que precisavam sacrificar algo e alterar e recompor seu modelo econômico. Dai esta associação eclética entre monarquia (elemento tradicional e simbólico), aristocracia (elemento financeiro) e democracia (elemento popular), que muitos tem em conta de genial. Que semelhante estrutura política propiciou a restrição das ambições capitalistas e consequentemente a implementação de um modelo socialista nos domínios da institucionalidade e portanto sem efusão de sangue e destruição de patrimônio cultural ninguém pode negar.

Dirá o amigo leitor que estou enganado pois o modelo trabalhista inglês acabou sendo demolido e a tal 'Revolução pacífica' ou institucional revertendo mais uma vez ao capitalismo. Neste caso eu lhe pergunto a respeito da Revoluções agressivas ou violentas. Qual delas não acabou revertendo?

A francesa reverteu em questão de alguns poucos anos após a morte do 'incorruptível'... A Russa manteve-se por cerca de setenta anos... A mexicana perdurou por trinta e seis anos (até 1946) apesar do saldo de dois milhões de mortos. Assim se a situação política e econômica da Grã Bretanha acabou revertendo ao menos a implementação do novo modelo (trabalhista) fora feito pacificamente, sem que um único cidadão tivesse de perder a vida.