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quinta-feira, 8 de novembro de 2018

E Gibbons, Maquiavel, Guicciardini - O Catolicismo e a queda do Império romano




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Cristãos há, Católicos por sinal, que ficam abalados face a declaração de Gibbon segundo a qual o Cristianismo - das obras é claro e portanto Católico - foi o grande pivô ou responsável pelo colapso do Império romano. Já ao tempo de Gibbon esta tese escandalizava a muitos...

E no entanto já havia sido esboçada com maestria pelo neo pagão Nicolau Maquiavel. Claro que Maquiavel encara o Cristianismo na perspectiva do pacifismo tolo, e não podemos negar que durante toda sua História o Cristianismo contou com um grupo de pessoas que se identificava com este tipo de mentalidade, quiçá predominante em alguns períodos. Mesmo estabelecida a distinção necessária entre não violência - ideário distinto do ideário Cristão - e não agressão Maquiavel haveria de manter suas críticas... Afinal o que constituiu a República não foi uma violência defensiva e portanto eticamente justa e socialmente admissível, mas um instinto agressivo ou belicoso.

Aqui Maquiavel foi genial - Pois de fato o Cristianismo autêntico nada tem de agressivo ou belicoso. Faz emprego social da violência apenas para defender-se e manipula-o com prudência e cuidado. Os pagãos ou romanos tinham inclusive deuses guerreiros... Para eles o ataque, a agressividade ou a conquista era algo absolutamente natural e assim o domínio e a opressão. Assim o que era virtude cívica para os antigos romanos é vício ou pecado para os Cristãos.

Quais haviam sido e eram os fundamentos sociais inamovíveis do Império e responsáveis por sua estabilidade social e econômica?

Em primeiro lugar e antes de tudo a guerra. A princípio defensiva, ao menos na Península itálica, onde os latinos viviam cercados por povos aguerridos e conquistadores. Posteriormente, após a unificação da Itália, agressiva ou de conquista, visando ampliar o território. Do que resultou primeiramente a conquista de Corinto e Cartago em 146 - assim a incorporação da Grécia e do Noroeste da África - e em seguida a conquista da Síria, da Palestina e do Egito - esta em 31 a C - fechando o circuíto do Mediterrâneo.

A guerra no entanto não era um fim em si mesmo mas via de acesso a pilhagem e a obtenção da mão de obra, que eram os escravos. Os escravos, ao menos após as conquistas de 146, estavam na base da produção romana ou seja da economia do pais. Generalizado o emprego de escravos na produção, o trabalho tornou-se vergonhoso ao homem livre além é claro de desvalorizar-se... Desde então avolumaram-se as massas ociosas, devendo ser sustentadas pelo Estado... Pois os senhores de Roma temiam que a fome fizesse com que elas se amotinassem.

Desde que o Império cessou de crescer após a derrota de Teutberga, no começo do século primeiro desta Era, cessaram as guerras de conquistas. A única exceção deste quadro foram as Ilhas britânicas. Sendo assim a obtenção de escravos ficou na dependência da procriação e de possíveis rebeliões internas como as duas revoltas dos judeus, a de 70 e a de 134, as quais aqueceram o mercado de escravos e a economia do Império. A partir de 134 todavia, com a quase total cessação de conflitos internos, a obtenção de novos escravos tornou-se muito difícil. E para agravar a situação já grave a estrutura social, política e jurídica do império facilitava a emancipação dos escravos, de maneira que ano após ano o número de libertos ampliava-se e o número de escravos minguava.

Isto por si só já era preocupante. Imagine então o aparecimento de uma ideologia religioso cujos membros mais destacados e fiéis eram anti escravistas e defendiam a abolição??? Claro que haviam Cristãos e em grande número que defendiam a manutenção da relação amo e escravo, mas numa perspectiva religiosamente igualitária - e incoerente - que da mesma maneira solapava a instituição do escravismo. O que por si só ameaçava o Império... Cuja econômica dependia do trabalho escravo. Assim, menos escravos menos produtos, logo inflação...

Pois bem. Desde então cogitou-se em guerras e enfim haviam os neo persas lá nas fronteiras do Império - o que tornava as expedições bastante onerosas... Acontece que os mesmíssimos Cristãos que afirmavam a fraternidade humana e condenavam os maus tratos aos escravos ou mesmo a escravidão condenavam com ainda mais veemência e uniformidade as guerras de conquista ou o espírito agressivo e belicoso. E isto a ponto dos antigos elderes, como Tertuliano e Hipólito, dentre outros, condenarem o serviço militar. Não porque empregasse a força mas porque estava a serviço da agressão, do ataque e do imperialismo.

Os Cristãos jamais foram perseguidos por motivos de ordem religiosa ou credal porque os romanos eram tolerantes e não se ocupavam de tais assuntos. E os judeus podiam bem podiam viver no Império sem ser molestados, em parte é claro por não serem proselitistas, mas sobretudo por não serem contra a escravidão ou contra a guerra. Os Cristãos além de abolicionistas e anti imperialistas eram proselitistas e buscavam converter os pagãos a sua fé... Isto atingia em cheio o coração do Império pois mexia com sua estrutura sócio econômica, e o Legislador prudente não podia permiti-lo.

Foi a praxis social dos Cristãos e não sua fé ou teologia, assim sua recusa em adorar os deuses da multidão que resultou nas terríveis perseguições. Os Cristãos não juravam face aos estandartes e não reverenciavam o Imperador. Eram anti sociais, traidores e apátridas por isso mesmo odiados. O império romano e os cidadãos mais inteligentes sabiam que a cultura estava sendo boicotada.

Veja o pandemônio que esta opção ou prática provocou ao longo do tempo. Foi uma luta de vida e morte. A sobrevivência desta religião revolucionária e desta ética humanista implicava a morte do Império tal e qual o socratismo... curiosamente os cristãos - como os antigos socráticos de Atenas - devido a sobriedade de suas vidas eram a parte melhor preparada do império para combater, e justamente eles não queriam combater. Já as massas amolecidas pelo pão e circo ou degeneradas pelo luxo não o podiam, inda que quisessem.

A míngua de guerras o número de escravos foi paulatinamente diminuído e assim as próprias riquezas do erário, já devastadas por Neros, Calígulas e Domicianos... já repassadas as massas sob a forma de subsídios alimentares... Uma vez que podiam ser alimentados na cidade não queriam os homens, em sua maior parte entrar no exército e defender as fronteiras. Momento houve em que mercenários de origem germânica - os quais viviam na periferia do Império - tiveram de ser contratados e pagos... Mais despesas para o Império.

Escravos que era bom não se obtinham e daí resultou, a partir do final do século II uma inflação galopante que jamais cessou de crescer e que convulsionou as bases do Império em que pese o tabelamento de preços imposto por Diocleciano. Tuto, tudo foi em vão. Sem escravos a produção foi parando e os produtos se tornando cada vez mais caros... Tendo em vista manter o sistema de repasses ou os subsídios alimentares, só restou ao Império aumentar os impostos ou melhor taxar a produção agrícola, em parte fruto do trabalho livre. Foi dar os pés pelas mãos... Pois os agricultores fossem pequenos ou grandes não podiam pagar os trabalhadores e os impostos. Resultado: Uma parcela cada vez maior deles começou a abandonar os campos e partir para os grandes centros urbanos, em especial Roma, onde podiam viver de subsídios... Até que o governo imperial prendeu os pequenos cultivadores e os trabalhadores livres a terra, segundo muitos dando origem ao sistema feudal auto sustentável, ao menos nas Vilas.

Num determinado momento teve o Império de decidir entre manter os subsídios alimentares ou manter as fronteiras e é claro que optou por manter os subsídios e desguarnecer as fronteiras. O resto é já sabido - Os germânicos, empurrados pelos hunos, atravessaram as fronteiras... Até que mesmo os subsídios cessaram de ser fornecidos, momento em que as Igrejas Católicas ou episcopais assumiram a tarefa de alimentar as multidões de pobres que viviam nos grandes centros urbanos e viriam a ser aniquiladas pelas invasões e suas consequências, como por exemplo a peste.

O Epílogo é que em 410 Roma foi tomada por Alarico e em 476 o Império estalou e ruiu sob Rômulo Augusto.

E por que ruiu o Império?

Porque suas bases e fundamentos sociais mais remotos estavam assentados sob uma base desumana, anti natural e cruel assim a belicosidade e as guerras de conquista assim o escravismo. Criado desta forma o império romano só podia subsistir enquanto tais valores não fossem questionados. Nem sabiam os romanos bem intencionados ou os Cristãos ou que fazer no sentido de reformar socialmente o Império, pois nada sabiam em termos de Sociologia ou de ciências sociais e nem seria fácil substituir o trabalho escravo pelo trabalho assalariado e livre aquele tempo. Seja como for a escravidão tinha de ser removida e as guerras de serem questionadas.

Maquiavel e Gibbon estavam completamente certos e não temos que nutrir qualquer sentimento de culpa devido ao fato do Cristianismo, com sua moral prática e humana, ter colaborado ativamente para a destruição de um Império cujas bases não eram sadias ou éticas mas desumanas. Desabou o Império romano por ter sido edificado sobre fundamentos podres e carcomidos e não poderia ter deixado de desabar e de desabar fragosamente. Não é algo para se lamentar ou chorar mas para se vangloriar.

Afinal o Cristianismo antigo ou Católico chocou-se com esta estrutura opressora, chamada Império, justamente por ser portador de valores novos ou distintos como a dignidade da pessoa humana e a sacralidade da vida, valores perenes, imortais e gloriosos que o espírito romano supinamente ignorava.

Resta concluir estabelecendo que ao menos em parte o Renascimento, mais romano do que grego, muito literário e nem sempre humano, mais individual do que comunitário ou social, equivocou-se cabalmente ao vivificar tais valores como o espírito belicoso ou agressor e o desprezo pelas pessoas mais simples e humildes, a ponto de reviver aquele mesmo espírito insensível e desumano que amiúde manifestou-se nos escritos que os principais advogados do paganismo lançaram contra o Cristianismo. E a suprema objeção era de que o Cristianismo violava a barreira das 'classes' ou categorias sociais, aproximando as pessoas. Isto era intolerável aos olhos dos bons romanos para os quais eram os escravos seres inferiores, desprezíveis e sem direito algum... Se bem que os ditos humanistas italianos, como Maquiavel e Guicciardini, não tenham dado largas a tais pensamentos não duvido que os tenham acalentado.

Agora quanto ao espírito de violência, conquistam agressividade e imperialismo não souberam dissimular, apresentando a ética Cristã da violência defensiva como inadequada e tosca a preservação das liberdades cívicas, o Cristianismo como responsável por efeminar a Sociedade, o sentido humano do Evangelho por torna-la frágil, vulnerável e indefesa. Eles viam apenas derrota e insucesso onde não havia delírio de conquista... O Cristianismo era para eles uma acovardamento, uma queda de ideais, um declínio, uma corrupção, pura treva... Era o principal inimigo de um Estado forte, coeso e expansionista. Era o supremo obstáculo aos imperialismos. Claro que eles de referem ao Cristianismo autêntico e não ao neo Cristianismo protestante, favorável a violência, a agressividade, ao imperialismo, etc por via do antigo testamento. Guicciardini disse que teria amado Lutero com todas as forças pois Lutero como Hutten e Munzer era profeta da violência, desde que não fosse direcionada contra quem deveria, os reis, os senhores, os opressores, os dominadores... com os quais o reformador das alemanhas identificava-se, pelo simples fato de terem apoiado e ampliado sua reforma...

Posteriormente os mesmos argumentos apenas ensaiados pelos humanistas neo pagãos seriama assumidos e desenvolvidos por Hobbes e enfim por Rousseau, ao mesmo tempo em que Gibbon estabelecia processo contra o odiado Catolicismo incriminando-o por ter demolido aquele 'belo' Império escravista e conquistador no qual os seis mil sobreviventes envolvidos na Rebelião de Spartaco foram crucificados as margens da via Ápia... Mas... que se esperar de uma religião fundada por um marceneiro e divulgada por pescadores? De uma religião cujo fundador não teve escravos? De uma religião cujo fundador foi executado pelo Estado judaico e condenado a pena capital? De uma religião cujo fundador não fazia acepção de pessoas... O único resultado esperado e previsível é que se chocasse com a máquina do império, que a destruísse e lança-se os fundamentos de uma nova civilização, alias salvando os fragmentos mais nobres da antiga...

Felizmente, foi o que aconteceu, por força de coerência, justamente porque os ideias éticos do Cristianismo ainda não haviam sido falseados.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Algumas considerações sobre o declínio da República romana e a 'Pax augusteana'

Embora Montesquieau, Gibbon, Sismondi, Ferrero, Villa e tantos outros tenham buscado analisar e compreender a queda do Império romano, compreendida como seu progressivo colapso de Comodo (190) a tomada da cidade por Alarico, os teóricos renascentistas, por identificarem-se com a forma republicana - vigente nas cidades do Regnum Italicum desde 1085 - concentravam suas inteligências buscando compreender o declínio da República e a retomada da forma monárquica sob Júlio César.

Maquiavel, num golpe de gênio, intuiu que para compreender o que estava sucedendo as repúblicas italianas de seu tempo ou a sua idolatrada Florença, devia voltar-se para o passado e estudar o declínio da República romana, buscando suas causas. E no final do 'Discorsi' (1525? - Maquiavel com objetivos oportunistas costumava alterar as datas de suas obras) acaba por abraçar a tese polibiana - ora Spengleriana - em torno dos ciclos de civilização. Segundo a qual, ao modo dos homens, as civilizações nascem, crescem, enfermam e morrem.

Já nos referimos diversas vezes a esta construção. No entanto, como repetir é a um tempo ensinar e fixar ou reaprender: Todas as cidades eram governadas por príncipes, as vezes eletivos ou mesmo provisórios. Num determinado momento tais príncipes fizeram-se hereditários e a hereditariedade, naturalmente, descambou em tirania ou despotismo. Desde então principiaram a conspirar os aristocratas, até que efetivamente tomam o poder. Passadas algumas gerações converte-se a aristocracia numa oligarquia opressora. O povo no entanto, por ter retido na memória a felonia dos nobres ou optimates, derruba a oligarquia e converte-a em democracia ou governo popular, o qual não tarde em degenerar, transformando-se em oclocracia, demagogia ou anarquia... condições em que a monarquia é restaurada. Iniciando-se um novo ciclo.

Antecipando uma possível pergunta sobre a melhor solução possível quanto a retardar este processo degenerativo e prolongar a estabilidade, a sugestão, aprimorada por Aristóteles, encontra-se no Diálogo platônico 'As leis' e consiste no afamado governo misto ou republicanista. O qual o filósofo com suma prudência declara ser o melhor de todos. Implica ele fugir as formas puras e misturar monarquia, aristocracia e democracia. E já se divisa uma espécie de poder moderador inserido numa estrutura bi cameral. O rei, cônsul ou presidente - eleito periódica ou vitaliciamente - encarna o princípio monárquico, o pequeno senado a forma aristocrática e o grande conselho de cidadãos ou o comício a forma democrática e já se vê que temos diante de nós a Constituição da República romana, ainda mais favorecida por instrumentos como o plebiscito e o referendo, além do tribunato.

Satisfeita a possível pergunta devo tornar a desilusão maquiavélica e a petição que faz ele em torno da História para advertir que Guicciardini, seu jovem amigo e antagonista intelectual, antecipa as críticas de um Dilthey, de um Winbeldand, de um Eucken ou de um Marrou em torno de um processo histórico mecanicista, estrutural, rígido, formal, inelutável e absolutamente previsível quando não determinista. Sem negar que haja um ciclo civilizacional inelutável, Guicciardini insiste que certos atos ou fatos, quer repercutem nesse quadro, procedem do acaso ou da ação livre dos homem, não podendo ser compreendidos como resultantes de uma Lei fixa e rígida. Dentro deste quadro há considerável variação ou diversidade.

Em certo sentido Guicciardini - perdoem o anacronismo - parece insinuar o paradigma da compreensibilidade, tendo em vista a ação de elementos estocásticos ou humanos que fogem a rigidez monolítica da Estrutura. E antecipar a noção de tendências predominantes, face a noção de Leis imutáveis.

Agora tornando a república romana, sendo provida duma estrutura tão arrojada e eficaz, por que teria colapsado?

Autores de diversa lavra e separados por séculos uns dos outros - assim Bruneto Latini, Mussato, Salomonio... e mais próximos a nós: Polanyi, Arendt e mesmo Durkheim - referem-se a avareza, a busca pela riqueza privada, o aumento da desigualdade social, enfim, algo em torno das finanças ou da economia.

Para Durkheim as relações financeiras ou econômicas tendem a isolar socialmente os homens ou a afasta-los. Arendt gasta farta quantidade de papel e tinta com o objetivo de demonstrar que a expansão da esfera do econômico ou privado ocorreu as custas da diminuição da esfera do político ou público com a consequente perda de qualidade. Para Polanyi o economicismo contemporâneo destruiu os laços de solidariedade existentes nas culturas antigas e primitivas. John Gray, Roger Scruton e Russell Kirk tiveram de admitir, de bom grado ou a contra gosto que o liberalismo econômico punga contra o sentido comunitária presente nas culturas e civilizações tradicionais, o que por sinal já havia sido demonstrado fartamente por R Guénon.

No que diz respeito a Roma e o eclipse das virtudes republicanas a questão da concentração da riqueza por particulares, do luxo e da suntuosidade já havia sido apontada por mestres clássicos como Salústio e Juvenal, a quem seguiram Latini, Mussato, Salomonio, etc Alias, esta sugestão já havia sido desenvolvida por Agostinho e enfim por Ibn Khaldun num sentido que faz lembrar a Sócrates. Mesmo porque as civilizações antigas eram basicamente militares.

De fato os romanos assomam a História como um povo agro pastoril, cujos hábitos eram frugais, sóbrios ou quase ascéticos, e que por isso mesmo, ameaçados a um lado pelos poderosos e refinados Etruscos - que lhes impuseram a realeza até 509 a C - e a outro por oscos, samnitas, etc tornaram-se belicosos. O ambiente político da Itália, sua instabilidade e insegurança, definiu as qualidades militares dos antigos romanos.  E estes jamais cessaram de expandir-se pela península até domina-la.

E assim correram as coisas até as guerras púnicas ou ao menos até 146. 146 é uma data chave na História da civilização romana. Pois foi neste ano de Cipião, vencendo Anibal em Zama, conquistou e destruiu Cartago. Enquanto L Múmio destruia a soberba Corinto e conquistava a Grécia. Desde então escravos e riquezas inimagináveis afluíram a Roma e ela jamais foi a mesma. Pois como diria o já citado Juvenal, os romanos entrando em contato com outros, povos 'mais avançados' se deixaram conquistar pelos hábitos deles. Abandonando a frugalidade ancestral do mingau e das azeitonas, e tornando-se ainda mais ambiciosos.

No entanto eles ainda aspiravam por lutar e por conquistar as joias da coroa, assim a Síria e o Egito, antigos principados helenísticos e as nações mais ricas da terra, com exceção talvez da longínqua Índia... E de fato vieram a conquistar a Síria em 63 sob Pompeu Magno e o Egito em 31, após Augusto ter vencido Marco Antonio - em Accium - e fechado o circuíto do Mar mediterrâneo, agora 'Mare nostrum' ou lado privado dos latinos.

Agora consideremos as consequências de tudo isto.

Se já era difícil congregar o povo em comícios para decidir a respeito da cidade ou da Península como governar um Império gigantesco recorrendo ao povo e em tese a um povo romano espalhado por todo este Império? Se Salutati, Bruni, Patrizi e muitos outros referiam amiúde ao desafio que era congregar o povo de Florença, que dizer dos cidadãos do Império romano? A estrutura do macro estado associada a precariedade dos meios de transporte e comunicação, tornou o exercício do poder popular impensável. Sartori redefiniu nossa situação nos mesmos termos em meados do século XX. Mas estamos falando do século I a C... Sendo assim temos de admitir que um governo centralizado condizia melhor situação geográfica ou espacial do Império. Mesmo os atenienses do século V a C ou os humanistas italianos do trezentos ou do quatrocentos admitiriam a distinção... Diante disto que sacrificar? O Macro estado ou as formas democráticas?

Outra consequência - a somar-se com a econômica e com a política - é de origem militar. Mais conquistas e escravos demandavam mais guerras e mais guerras demandavam maior efetivo militar. Nos últimos cem anos da República foi Roma uma nação em campanha... E como sabemos o éthos militar - cf Nisbet - nada tem de democrático. Os Filósofos gregos e os primeiros Cristãos sabiam-no muito bem... Uma situação de conflito prolongado numa dimensão democrática não tarda a engendrar duplicidade. Por isso que das Revoluções procedem regimes autoritários (Nisbet). Tal o caso de Roma, desde o momento em que prolongou o comando dos ditadores. A partir de então alguns generais passaram a conviver por anos a fio com as mesmas tropas, a ponto destas converterem-se em clientes, lacaios ou cabos eleitorais seus. Não é por acaso que Caio Mario e Sila tiveram exércitos seus, com fidelidade jurada. E servindo-se deles puderam subverter a república, a este tempo convertida em aristocracia de poltrões senatoriais, com exclusão do povo. Por isto Sila ao penetrar o recinto da cúria com suas tropas acusa os senadores de covardia e declara que o povo nem os amava nem choraria ou lutaria por eles.

Júlio César com seus dedicados veteranos esta apto para colher o fruto maduro i é o poder Imperial, restabelecendo a monarquia.

Pois as elites estavam completamente corrompidas pelo luxo ou amolecidas.

Enquanto o povo, antes aguerrido, temos em Juvenal, passou a ser controlado pela política do 'panem et circenses'. Desde as vésperas da conquista de Cartago, pugnavam os plebeus - a gente comum - por um parte mais significativa no 'butim' ou saque que os romanos levavam aos povos vizinhos. Assim, no ano 123, sob Caio Graco, obtiveram a suprema igualdade e a redução do preço do trigo. E desde 59 pela lei Clódia, passam a ser alimentados pelo Estado, com a distribuição de rações de trigo. Desde então o Senado se sente completamente seguro. Pois o povo se acalma por completo, e abandona a arena da política.

Garantidos alguns diretos básicos e o alimento quotidiano acomodou-se a plebe.

Desde então puderam os líderes militares mais espertos, com a ajuda de suas tropas, exercer o poder sem quaisquer objeções.

Augusto foi um homem esperto, que soube colher os frutos semeados por seu tio, e em comunhão com a elite militar, completar as ansiadas conquistas e exercer um poder discreto. Foi o homem de seu tempo. Pois o declínio da República, iniciado por Mário e Sila, antecipou o caos que haveria de ser o século III d C, o qual teria antecipado o fim do Império. Prolongando-se indefinidamente o conflito entre os generais pelo comando supremo do Império. Os próprios militares do tempo de Augusto devem ter dado conta disto. No entanto nem o povo nem o senado estavam dispostos a lutar pelas antigas liberdades. Como as barrigas e os cofres estavam cheios tudo quanto eles queriam era paz e sossego ou estabilidade para gozar a vida. E como ninguém mais estivesse disposto a combater, os militares, juntamente com Augusto puderam assumir o poder, mantendo, ao menos em princípio as aparências.

A República havia declinado, indubitavelmente, mas não o poder romano. Pois por duzentos anos manteve-se o Império e até conquistou, em que pese a derrota de Teutberga, sob Varus. Ao menos até Cômodo, foi o Império um período de estabilidade e assim de recuperação, após o ocaso vergonhoso da República. Claro que não podemos compara-lo com os tempos dos Mânlios, dos Camilos ou dos Cipiões... No entanto após Mario, Cina, Sila, César, Crasso, Pompeu, Brutus e Cássio foi ele um refrigério.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

As mutações da Comunidade...



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Algumas Reflexões sobre Formas de comunidade, Sociedade política, Apogeu, Declínio, Crise, Anomia, Anarquia, Despotismo, Totalitarismo, Democracia, Liberalismo político, etc tomadas as diversos autores.



Muito se tem discutido em torno do termo 'político', o qual a bem da verdade, numa perspectiva mais estrita ou policrática, deveria acoplar-se ao termo 'sociedade'. Todavia é certo que o político e o social movimentaram-se separadamente por muito, muito tempo. Sempre que isto aconteceu o político ou permaneceu apenas em potência ou degradou-se. E a comunidade permaneceu militar - apesar do apelo político - ou tornou-se econômica, deixando de captar a intensidade do político. A Piccarolo e R Nisbet

Precisamente por isso - dando que o político e o social andaram separados por um bom tempo - aqueles que definem a ação política enquanto relações de poder, encaram tanto a monarquia quanto a aristocracia como entidades políticas, no sentido já explicitado, duma estrutura política que não se identifica plenamente com o que chamamos sociedade. Claro que essa política, feita a chicote e espada não pode ser a boa política, mas uma política de segunda classe ou categoria.

A política só adquire qualidade e se torna consciente de si mesma quando se faz democrática ou quando o discurso e a argumentação substituem a espada, enfim quando se busca livremente o consenso ao invés de estabelecer um acordo formal por meio da coerção externa.

Portanto, se num sentido 'lato' temos de considerar a monarquia e a aristocracia como formas políticas, num sentido mais estrito ou purista apenas a democracia o é - e quando dizemos democracia queremos dizer democracia verdadeira: Inclusiva, liberal e direta (inclusiva e liberal por nós e direta pelos gregos rsrsrs) - pelo simples fato de apenas ela comportar cidadania.

Monarcas e aristocratas tem súditos i é pessoas que aceitam submeter-se a um poder externo a si e portanto imposto. Na forma policrática o cidadão identifica-se com o governante manipulando ele mesmo, diretamente, o poder. É ele um co governante com os demais cidadãos membros do corpo social. Daí a identificação - Governo/Sociedade. É exatamente este aspecto que torna a vida democrática intensamente rica em comparação com as formas precedentes, que ressentem a militarismo, a autoritarismo, a coerção, a imposição, a arbitrariedade...

Sabido é de todos ou de quase todos que a Democracia foi criada ou inventada pelo ateniense Clístenes no ano 509 a C, uma data memorável. Claro que não se trata de nossa democracia anglo saxã, obra de John Locke.

O que poucos de nós sabem ou imaginam - e de fato é insólito - é que o conceito de cidadania ou participação política antecede o conceito de pessoa. É a democracia anterior ao que chamamos de liberalismo político. Compreendido como espaço próprio da pessoa ou privado, ou ainda como santuário inviolável da consciência. Já Fustel de Coulanges, na clássica 'Cidade antiga' referia-se a esta verdade. De que nos tempos antigos era a cidade Estado tudo e a pessoa nada... posto que as leis invadiam e regulavam todos os setores da existência humana, de modo que nada tocasse a liberdade ou a autonomia.

Além de exclusiva, no sentido de excluir o escravo, a mulher e o estrangeiro, foi a democracia grega não menos totalitária do que a monarquia ou a aristocracia, e não devemos nutrir ilusões a respeito. 
 
 De fato os gregos conceberam a ideia genial de que polis fosse governada pela totalidade dos cidadãos. O que ele jamais imaginaram é a existência de setores da vida humana que não fossem determinados ou controlados pela polis.

Para as antigas civilizações, anteriores ao advento do Cristianismo, tudo, inclusive a religiosidade, dizia respeito a família ou ao estado, a tradição ou as leis cabendo ao homem amoldar-se. Após ter absorvido a família com suas tradições a polis, por meio da lei escrita, tornou-se senhora absoluta das existências. Um dos primeiros juízos que define e restringe com precisão a esfera e o alcance do político e por ext do social, encontra-se na clássica passagem de Suarez: "O objetivo da sociedade cívil - leia-se estado, poder público, etc - é o BEM COMUM TEMPORAL."

E no entanto estes gregos, que não era tontos, puderam imaginar as decorrências da vida democrática.

Por isso, durante cero tempo, parte dos gregos pôde - ao menos quanto o foro interno da consciência - desprezar as instituições e tradições, inclusive religiosas.

E no entanto esta convenção, que separava a liberdade de pensamento da liberdade de expressão, estava longe de corresponder ao nosso Liberalismo, filho do Cristianismo e do martírio.

Pois jamais grego algum acalentou a possibilidade assumir publicamente suas negações ou ceticismo. Formal ou publicamente eram todos adoradores dos deuses, todos religiosos, todos devotos... E ofereciam sacrifícios! Os gregos mantinham as aparências ou a ficção com firme zelo, sabiam até onde podiam chegar. Um mínimo desvio, com efeito, implicava beber cicuta, ser exilado (assim Aristóteles) ou arrastado a um processo ignominioso (assim Anaxágoras)... Não havia liberdade alguma para ser diferente ou e tinha os filósofos de suportar a canga da hipocrisia.

Portanto, os refinados atenienses jamais imaginaram um setor qualquer da existência separado da polis ou privado. É justamente este setor da existência, setor pessoal ou privado -  fundamentado num direito mais alto ou natural (Lembre-se de Antígona) - que possibilita a qualquer homem apelar ao tribunal interno da consciência face as ambições totalitárias do poder público (Lembre-se de Creonte). Os antigos atenienses não tinham para onde apelar. Nós reconhecemos que a existência corresponde a duas esferas bem distintas, uma privada e regulada pela própria pessoa e outra pública, regulada pelo poder político. E admitimos que cada uma delas seja soberana em sua própria esfera. De maneira que o privado/pessoal não se sobreponha ao público na esfera do político e que o público não invada a esfera privado/pessoal. Os gregos nada conheciam neste sentido.

Assim se Locke concebe uma democracia capenga ou representativa - Inventando um processo por meio do qual o poder é transferido do povo para alguns poucos representantes - ao constatar que os produtores não podiam não podiam participar integralmente da atividade política - como na polis grega - sem causar graves danos a atividade econômica, ou que trabalhando excessivamente não podiam fazer a boa política, Platão opta pela solução radicalmente oposta. E - ao menos quanto aos viligantes - eliminando a família busca atingir a vida privada em seu coração. Desde então o estadista platônico poderá consagrar-se por completo a atividade pública ou política. 

Se o inglês, comprometido com o capitalismo emergente, restringe a esfera da coisa pública, falseando a ordem democrática (Arendt), o grego de ombros largos cogita suprimir a esfera do privado, caindo, é claro, em mais uma utopia, corrigida, posteriormente através das 'Leis', obra do Platão mais maduro e realista.

Bem, chegamos a Platão, e Platão é sempre um tema interessante.

Karl Popper na Sociedade aberta e seus inimigos, divisa em Platão o Patriarca das sociedades fechadas e busca relaciona-lo com o quimérico passado de Atenas. O equívoco salta a vista pelo simples fato da antiga sociedade ateniense ter sido do tipo familiar, enquanto que Platão, como vimos, preconizava uma Sociedade sem famílias. Acerta no entanto ao alista-lo entre os teóricos da sociedade fechada e alias como seu primeiro grande teórico. Alias Platão já foi classificado como fascista, comunista, etc

Que Platão seja decididamente social ou comunal cheira a obviedade. Apesar disto não sei se poderíamos classifica-lo como socialista. Os socialistas assumem a liberdade humana, Platão... Tampouco era ele comunista ou fascista...

Então que era ele???

Era platão totalitário e despótico, assim como os comunistas e fascistas. Nem por isso era comunista ou fascista pelo simples fato de ignorar supinamente o quanto seja característico de tais sistemas. Totalitário e despótico sim, e por isso não poucas vezes odiado... Platão de fato exaspera os liberais e os democratas. Todavia devemos tentar ser justos com ele e buscar compreende-lo, inserindo-o no quadro a que pertence. Pois compreendendo os medos de Platão estaremos aptos para diagnosticar nossa própria época.

E para compreender o homem devemos situa-lo em seu tempo e situa-lo com exatidão.

E que é este Platão senão um testemunho eloquente da decadência de Atenas e de uma democracia em colapso?

De fato se compreendemos que Atenas atingiu seu apogeu ou zênite entre 509 e 429 - assim por cerca de oito décadas - saberemos que Platão nasceu - em 427 - quando ela principiara a morrer... Lavrava a pavorosa guerra do Peloponeso, ganha em 404 pelos espartanos. Os quais impuseram a indômita Atenas 51 tiranos. A princípio Platão acreditou que eles saneariam moral e politicamente sua querida cidade... E no entanto que fizeram eles senão justiçar precisamente aquele que melhor conhecia os problemas em questão? Paradoxalmente aquele Sócrates, que criticando honestamente a democracia, poderia te-la seneado...

De fato todo caminho precorrido por Platão, da morte de Sócrates a sua própria morte foi um caminho em direção a Esparta, não a Atenas da tradição ancestral, mas a militar, belicosa, despótica e totalitária Esparta. Afinal não esmagará ela a brilhante Atenas???

Eis um evento que impactou poderosamente as mentes de todos os gregos, sem falar nos próprios atenienses.

Importa saber que Platão jamais o perdeu de vista...

Quanto a nós, esforce-mo-nos por relacionar a nova ordem policrática com o novo padrão de pensamento, racional.

Já dissemos que imperava a convenção, que as aparências deviam ser mantidas e que nem todas as tradições reconhecidas pela Polis podiam ser formalmente negadas. O equilíbrio social exigia um tal sacrifício ou uma tal restrição.

Resultou disto uma estabilidade bastante precária e posteriormente - após o fim da Idade Média - viemos, nós mesmos, a conhecer semelhante estado.

Mesmo buscando alguns compromissos a razão nem sempre podia abster-se de questionar os mitos e mesmo o surgimento da alegoria ou do simbolismo - que buscava amortece-lo - o choque chegou a ser traumático. Platão ousa clamar contra Homero e Hesíodo, educadores das gerações precedentes... Sócrates tampouco pode admitir que os deuses praticassem imoralidades e acima deles sobrepõem um Ente racional, invisível, ilimitado, etc Entidade a respeito da qual Xenófanes, Anaxágoras, Apolônio e outros já haviam insistido, inconvenientemente...

Após a religiosidade praticamente tudo foi submetido ao crivo da razão e logo, em alguns casos, a experiência. A medicina já havia ensaiado tais passos... Desde então os rios se convertem em fluxos d água e os astros em pedras flutuantes... com grande agravo de Diopeites e das massas populares que clamavam contra tais impiedades. Afinal de contas a identidade social, o sentido de pertencimento, os princípios, os valores, tudo enfim, repousava sobre tais crenças... critica-las era como golpear a raiz de uma árvore... Num determinado momento parte das pessoas sentiram-se desenraizadas, confusas, fragilizadas, desprotegidas, ameaçadas.

Em Atenas, como observamos, este movimento pode assumir uma forma marcadamente política através da democracia e desenvolver-se. Noutras cidades, onde exasperou os monarcas e tiranos, foi violentamente suprimido. Pitágoras queimado vivo em sua Escola, Zenon moído vivo numa mão de pilão, etc Como não existisse um Basileu em Atenas, esta situação de crítica se foi acentuando mais e mais... E os intelectuais se tornando cada vez mais ousados.

Por algum tempo, tempo daquele equilíbrio e são 'realismo' que caracterizam o apogeu de qualquer civilização (Sorokin), a razão e a sobriedade lograram manter-se no controle, alias respeitando a ficção ou tentando substitui-la discretamente.

Em seguida porém, cindiu-se aquela sociedade em dois grupos radicalmente opostos. E a ruptura, seja dito, não partiu dos conservadores ou tradicionais mas dos próprios filósofos ou melhor dizendo, de sua ala mais radical; os sofistas que agora voltavam-se contra o critério comum da razão. E antes que a razão substituiu-se a fé ou a tradição era já solapada por eles...

Agora veja o leitor - De um modo ou de outro lograram a razão e a experiência, inserir-se num espaço até então completamente dominado pela tradição, ensaiando os primeiros passos do pensamento naturalista e do conhecimento científico. Os sofistas no entanto, antecipando Hume e Kant, levaram o processo crítico a razão, que era o elemento comum porque os essencialistas buscavam substituir a superstição e a autoridade. E o resultado disto foi a elaboração de uma teoria subjetivista e relativista, a princípio e, em seguida totalmente cética. Isto num ambiente cujas estruturas eram totalitárias, despóticas e solidárias.

Não 'a humanidade' através do elemento comum da razão, mas o individuo isolado, converteu-se em medida de todas as coisas, produzindo sua verdade parcial, pela qual bem podia pretender guiar-se, e assim matar ou roubar, caso tivesse tais ações em conta de boas... Observe a extensão de um problema que é nosso e que hoje se exprime pela negação de uma Lei Natural, único fundamento plausível de uma Ética objetiva ou universalmente válida, para homens de todos os tempos e lugares.

Foi em oposição a esta maré individualista, subjetivista, relativista e cética que levantou-se a maré conservadora ou reação, tudo engolindo pela frente, inclusive o genial Sócrates, mesmo porque, o grande público ou a massa, alheia aos grandes temas da Filosofia, era incapaz de discernir entre uma corrente e outra. Destarte toda Filosofia, compreendida como sofística, tornou-se ameaçadora. Mesmo sem terem conhecido o liberalismo político, os gregos tiveram uma experiência de liberalismo metafísico extremo (epistemológico e ético) a qual não lhes foi nada agradável, e chegou a aterroriza-los...

Na medida em que o ensinamento dos sofistas era assimilado pelos elementos mais jovens da comunidade o pouco que restava dos laços sociais anteriores a afirmação da comunidade política principiou a dissolver-se muito rapidamente, dando lugar a uma situação de anomia, de anarquia, de caos, de conflito generalizado... face a qual parte significativa da sociedade sentiu-se nostálgica quanto a um passado já em parte idealizado.

De modo geral os atenienses do século IV a C não estavam preparados para testar aquele futuro ou para ver até onde as coisas chegariam... Sabiam intuitivamente que sem religião, fé, Deus, deuses... cada individuo converter-se-ia em padrão absoluto de bem e mal, e deduziram as consequências sociais desde individualismo crasso.

Quanto aos culpados, como já dissemos, foi bastante fácil identifica-los com a Filosofia e a Democracia, cuja relação, aos olhos eles, era bastante nítida. O elemento racional comum a ambas era o elemento por assim dizer corruptor, que envenenará a Sociedade. Não a crítica a razão ou a metafísica... Eles não sabiam distinguir racionalidade de empirismo crasso ou ceticismo...

Assim a anti comunidade de Platão é idealizada em oposição a 'comunidade caótica', anômica ou anárquica dos sofistas (Nisbet) identificada com a comunidade democrática ou como consequência dela.

O remédio aqui era olhar para a polis vitoriosa, Esparta, cidade militarista e fiel a suas tradições, que jamais se deixará desviar pelo fantasma da razão, pai filosofia e da democracia. É nesta perspectiva e em oposição ao veneno instilado pelos sofistas/filósofos que Platão escreve seu clássico. Não é a democracia que ele leva combate, mas a sua forma decadente e corrompida... A qual no entanto, para ele, é consequência dela.

Isto não foge a experiência que ora vivenciamos ou ao choque entre as diversas formas - corruptoras - de individualismo, assim: Relativismo, subjetivismo, ceticismo, anarquismo individualista ou ANCAP, liberalismo econômico, plutocracia, democracia meramente formal ou representativa, etc a um lado, e as soluções totalitárias, como nazismo, fascismo e comunismo a outro... É um dilema bastante parecido.

A Democracia perdeu seu espírito, acomodou-se estrutural ou formalmente, deixou-se dominar por outros setores (não políticos), desvinculou-se do essencialismo ético, deixou-se impregnar pelo individualismo, foi abalada pelo ceticismo, etc, etc, etc Entrando em declínio, o qual ora vivenciamos... Em que pese os arroubos de jacobinismo típicos dos EUA...

O fato é que nossa democracia por descuido educativo ou formativo quanto o espírito, não consolidou-se. Antes, colonizada pelo capitalismo, converteu-se em instrumental do poder econômico e não do bem comum, como queria Aristóteles. Tudo quanto temos hoje é demagogia, plutocracia, oclocracia... não democracia, pois não há cultura democrática, espírito, profundeza. E essa forma instrumental ou espúria é a que tem sido propagada pelo jacobinismo yankee, posto que os N Americanos como os ingleses, não distinguem um liberalismo do outro, tomando liberalismo por uma coisa só.

Destarte tem sido o liberalismo político, que é essencial a vida democrática  - juntamente com o liberalismo religioso e o liberalismo moral - sucessivamente traído pelo liberalismo econômico e sacrificado em seu benefício e já aludimos ao sacrifício primordial quando nos referimos a Locke e ao que Arendt definiu como um esvaziamento do político em benefício do econômico ou ainda do público e comum em benefício do privado.

Não atingimos ou perdemos nosso ponto de equilíbrio. A balança tem pendido decididamente para o individualismo, com as mais terríveis consequências... E os EUA alimentado doentiamente este padrão.

Mas já se pode observar um fenômeno análogo ao observado durante o período entre guerras que é a reação totalitária e despótica ou o renascimento das diversas culturas de morte, como fascismo, comunismo e nazismo, as quais tem entrado em choque entre si, com o anarquismo, com a democracia formal e com as teocracias, disto resultando um clima próximo ao caos - EIS A ATENAS DE PLATÃO... Eis a decadência da cultura democrática e a total perda do equilíbrio... A um lado um materialismo que chega ao ateísmo, ao nihilismo e como já dissemos ao relativismo e a anomia (em termo sociais) e a outro um idealismo - não poucas vezes representado por formas primitivas e obscuras de religiosidade - tão totalitário e despótico quanto o de Platão. O ateísmo/materialismo pela anarquia absoluta e o Idealismo/fideísmo pela repressão e pelo controle absolutos. Uma Era de extremos. Quiçá a sofisticada Atenas do século IV a C tenha vislumbrado este cenário.

Agora, ao tempo de Platão não era, a solução totalitária ou despótica, tão variegada quanto a nossa mas, até certo ponto unitária e portanto tanto mais sedutora. Platão emprestou-lhe as tintas de poeta e moralista, mas não pode ver sua realização.

A um tempo a democracia estalou, veio abaixo e caiu, dando espaço ao Imperialismo de macedônico. Alexandre inspirava as melhores esperanças, pois havia sido aluno de Aristóteles... e Aristóteles, como já dissemos, ao menos quanto a política e suas estruturas não era metafísico mas empirista, realista ou relativista. Tudo quanto ele fazia era associar o ideal de 'bem comum' a determinada estrutura e assim legitima-la. Sob este aspecto era a monarquia tolerável, e até desejável, caso tivéssemos em mira a destruição do império persa. Esperava-se inclusive que Alexandre tivesse assimilado as lições do Filósofo e que inaugura-se uma nova era da ouro. Eram expectativas gerais, que malograram logo após sua morte. Sucedendo-se o inferno dos diadocos e epígonos... E a crise filosófica representada pela afirmação, ainda mais decidida, do ceticismo (cf V Brochard).

Agora como aproxima-se este Platão de Esparta se os tiranos, empossados pelo poder Espartano deram cabo de seu Mestre?

Ao tempo em que Sócrates fora condenado a beber cicuta o equilíbrio entre as facções era precário ou melhor dizendo delicado. Górgias de Leontinum e Protágoras haviam assestado golpes não apenas contra a razão mas também contra a tradição posto que eram uns iconoclastas nihilistas... Por outro lado temos o discípulo ingrato de Sócrates, Alcebíades, fazendo das suas... E sobretudo Aristófanes, que representa o sentir geral, não só ridicularizando os sofistas mas apresentando Sócrates como um deles, o que ele de modo algum era...

Já a entente conservadora precisava obter um bode expiatório e correr com ele da cidade, para dar exemplo. Em geral os Filósofos, uma vez acuados, fugiam... Era necessário fazer um deles fugir e Sócrates, em função das circunstâncias acima descritas, foi o escolhido. Ele no entanto não era o que dele pensavam. Não estava disposto a fugir, não fugiu e por isso mesmo converteu-se em mártir, não da democracia, a qual criticava positivamente, mas do pensamento crítico ou da liberdade de expressão. Ele insistiu muito nisso e podia ter aberto um 'nicho' favorável a pessoa... Disto beneficiariam-se igualmente os radicais. Portanto Sócrates tinha de ser imolado.

Em certo sentido Sócrates foi o único representante do liberalismo pessoal ou político em Atenas. Foi o dissidente, foi a objeção de consciência, foi o elemento discordante e acreditava ser direito seu portar-se assim. Certamente esta irrupção do pensamento liberal numa Atenas que sequer era democrática chocou há muitos e exasperou os ânimos. Sempre podia ser explorada pelos individualistas, anômicos, nihilistas, etc como sói ainda hoje. Mas os atenienses não estavam dispostos a arcar com o ônus social que semelhante exigência implicava.

Ainda hoje, e com plena razão, os extremistas irracionalistas, individualistas, relativistas... que tomam carona no liberalismo político ou moral, produzem escândalo entre os elementos ponderados da Sociedade e mesmo alguns distúrbios isolados. Tentem conceber a sensação que estas remoras ou sanguessugas da democracia produziram nos Atenienses há dois mil e quinhentos anos... Comprometeram e ainda comprometem as instituições democráticas esses extremistas e radicais, pelo que merecem ser ferozmente impugnados no plano das ideias.

Identificado, de um modo ou de outro, com os sofistas e portanto com o mal, foi Sócrates imolado pelo partido da ordem ou conservador. E no entanto era ele o médico... O único que criticando positivamente as falhas da democracia podia ter lhe dado vigor e vida. Pois a democracia precisa justamente de críticas construtivas e seus melhores amigos são aqueles que apontam seus defeitos. Pela que o democrata fanático ou formalista, de ontem ou de hoje recuse-se a percebe-lo.

Ainda aqui genial, Sócrates percebeu o descompasso - e como já dissemos isto é atual - entre uma boa estrutura e a falta de preparo ou de capacidade dos homens que a compõem ou que nela estão inseridos.

Não foi contra a democracia mas a favor de uma aristocracia aberta que Sócrates posicionou-se. De uma aristocracia potencialmente democrática, de uma aristocracia do saber, de uma aristocracia do mérito ou da competência, franqueada a tantos quantos buscassem dignificar-se. 

Sócrates percebeu o óbvio. Percebeu que a democracia demanda preparo por parte dos homens ou dos cidadãos de modo a não transforma-se numa oclocracia. Postulava que os juízes fossem escolhidos, dentre aqueles que conhecessem as leis... Postulava que os generais fossem escolhidos, dentre aqueles que conhecessem a arte da guerra... Postulava que aqueles que tivessem conhecimento a respeito de determinado tema ou assunto fossem levados em consideração pelos demais... Queria trazer qualidade a vida democrática. Suas críticas no entanto foram muito mal compreendidas e os democratas fanáticos jamais o perdoaram...

O próprio Platão pode ter tomado a crítica de seu Mestre noutro sentido. No entanto não há qualquer evidência de que Sócrates fosse tão totalitário ou despótico quanto seu pupilo. Seu liberalismo político coadunas-se mais com a forma democrática. De um modo ou de outro foi Sócrates um democrata lúcido ou crítico, que conhecia os defeitos ou vícios do sistema e buscava elimina-los. Por isso, ainda hoje é ele consumado modelo de polícrata para nós... Que sabemos faltar cultura ou espírito onde sobejam estruturas... prenúncio de morte.

Resta esclarecer que Atenas, quanto o passado, é o que temos mais próximo de nós. Nela podemos observar uma trajetória social bastante parecida com a nossa. Digo das sociedades 'políticas' que tendo ultrapassado o modelo romano, calcado no Digesto, tornaram-se ao menos formalmente democráticas.

Atenas surge, a exemplo das demais cidades, como uma comunidade familiar, que se faz militar e logo democrática com Clístenes, até aproximar-se por fim de algo como um mercado desregulado ou de um liberalismo econômico que sem embargo não se faz pleno. Pois os resíduos familiares, religiosos, militares e políticos o sufocaram; até que esta trajetória foi por assim dizer 'cortada' por Alexandre, seguindo outros rumos.

Atenas não nos segue ou acompanha até o fim embora a sucessão de formas comunitárias porque passou seja a que mais se aproxime da nossa. Por isso o estudo da civilização grega ou ateniense e seus problemas é tão fecundo para nós.

Roma não. Roma é outra coisa.

Associamos Roma a Grécia, porque após sua vitória em Queroneia tornou-se Roma província cultural de Atenas. E isto a ponto de tomar Platão por guia ao descrever o poder Cesáreo. Neste sentido Roma é grega, enquanto platônica no campo da política.

E nossa Renascença foi muito mais romana do que Grega ou ateniense. Aulo Gélio já o havia dito. Roma não manteve o sentido humano da coisa, descambando num eruditismo pedantesco e frio. Assim os humanistas da Renascença.

Roma, a exemplo de Atenas, começa como uma Sociedade familiar ou tradicional e militar na qual aos poucos - i é durante a República - vai se formando uma aristocracia aberta em posse de uns instrumentos semi policráticos quais sejam os plebiscitos e referendos. Tal seu elemento característico ou seu diferencial.

Roma sempre fora militar e jamais deixou de se-lo para tornar-se política.

Admitido que existiu nela uma orientação para a democracia, ao menos num determinado momento de sua trajetória, é necessário reconhecer que ela frustra a si mesma, embota-se e fica sem realizar-se. Roma jamais se tornará democrática. Através do Império Roma retorna ao ideal monárquico em termos ainda mais enfáticos e já foi sugerido (Antonio Piccarolo) que o Imperador associou-se as massas com o objetivo de suplantar aquela aristocracia senatorial que num dado instante fechou-se em si mesma.

Fato é que o impasse entre as aspirações populares e as aspirações acalentadas pela elite senatorial resultou numa pavorosa guerra civil, a qual perdurou por quase um século.

E como durante as revoluções e guerras a parte mais vulnerável é sempre a mais humilde, não nos devemos admirar de que, num determinado momento as camadas populares, fatigadas, se tenham inclinado a paz... Júlio Ceśar e Otaviano, que eram mentalidades genais, captaram muito bem esta situação propícia e buscaram explora-la em favor de si mesmos, colocando-se desde então ao lado do povo e contra o Senado.

Eles também eram lideres militares muito bem sucedidos e até mesmo estimados.

Diante disto o Senado, em situação de isolamento, apelou a ficção, passando a validar tudo quanto desejava o 'Imperador'. O Império nada mais era do que o comando supremo das forças armadas ou do exército e uma instituição belicosa... A paz augusteana foi mais uma paz interna do que externa, embora a paz externa tenha sido imposta pelas circunstâncias, assim pelo desastre de Teutburg, onde Varo perdeu suas legiões. Com Roma jamais entramos na política e jamais saímos da caserna. Assim após sua morte é Augusto divinizado, e quase nos sentimos no antigo Egito... Essa Roma que é a um tempo familiar, religiosa e militar, jamais se torna propriamente política, em termos estritos. Porque jamais se faz democrática.

Importa que todos estavam felizes: Os militares porque vigiavam as fronteiras colossais do Império em troca de soldo, a casta burocrática dos funcionários públicos, a hierarquia religiosa, o povo romano que recebia benefícios ou moedas de ouro e até mesmo o Senado que mantinha uma aparência de autoridade 'respeitada' pelo Imperador... Sendo assim Augusto tinha mesmo de ser canonizado ou divinizado. Era o arquiteto de algo mais ou menos estável trezentos anos após Alexandre. É como se todos estivessem dispostos a pagar pelo fim do conflito com o sacrifício da liberdade e dos direitos, i é com  submissão e este é o grande dilema das democracias formais parasitadas pelo capitalismo ou do estado mínimo o qual nada oferece as massas, o que torna essas democracias desinteressantes para elas e o odiado Comunismo, atrativo...

As liberdades abstratas e utópicas não atraem estômagos vazios ficando esta democracia censitária ou economicista sempre ameaçada pelos totalitarismos, desde que saibam manejar um simples prato de comida. A combinação democracia e miséria não é nada propícia aos valores democráticos.

Assim, se a jurisprudência romana coloca o Imperador acima da lei a redescoberta das Institutas ou do Digesto (Pandectas) durante a baixa Idade Média servirá para justificar ideologicamente o absolutismo ou o direito divino. Ainda aqui foi Roma uma fonte de atraso, estagnação social e inquietação para nós.

E quanto a economia?

Teria a sociedade romana atingido o mesmo grau de desregulamentação que antiga Atenas?

Talvez ao tempo de Augusto ou durante o século I, enquanto o poder Imperial ainda estava sendo construído. Pois desde o século II esse poder se vai ampliando e invadindo todas as esferas da vida humana - inclusive a religiosa, a ponto de conflitar com o Cristianismo nascente - até absorve-las por completo.

Temos assim, ao cabo do século III diversas leis destinadas a regular a atividade econômica. No entanto, por esse tempo, avança já a crise simultaneamente econômica e social, provocada pelo escravismo, pela estagnação territorial e pelo abolicionismo Cristão; dos quais resultou a inflação, o aumento de impostos, etc. O grande problema da economia romana foi o escravismo. A Grécia, de modo geral, não parece ter passado por isso...

A bem da verdade, a impressão que se tem é que na Atenas do século IV a C ou na Grécia antiga o número de pequenos ou médios empreendedores livres sempre foi maior. Assim o número de trabalhadores livres... tradição que parece prolongar-se no Império Cristão Bizantino. É uma hipótese a ser averiguada.

Em Roma temos, ao que parece, a macro empresa formada por um imenso número de escravos sob a tutela de um só homem. E um bando de homens teoricamente livres sustentados pelo imperador ou pelo poder público. Eu até ousaria dizer que Roma faz lembrar o capitalismo de Estado... não fosse a forma escravocrata. Em Atenas as coisas não se dão em tais termos...  

Seja como for, graças ao histórico do Império sabemos que não existe uma ordem fixa ou metafísica de sucessão quanto as formas de comunidade, e que nem sempre as coisas se sucederão como em Atenas.

Quanto a sociedade europeia contemporânea temos a ligeira impressão de que tendo partido de um modelo familiar/militar comum aos germânicos e análogo ao romano, tornou-se político na Inglaterra do século XVIII ou na França pós Revolucionária de 1789 para logo tornar-se econômico e dar lugar a uma terrível crise de cultura e identidade, semelhante aquela vivenciada por Platão. Karl Polanyi Resta dizer que o liberalismo político é uma construção comum, assim como o liberalismo religioso e o liberalismo moral. Há afirmações suas na Espanha, na França, nos EUA, na Inglaterra e mesmo, pasmem, na Rússia Csarista; pelo simples fato de ser um princípio Cristão.

Curiosamente a França revolucionária ou se preferirem jacobina construiu um modelo de democracia despótica - no sentido de que poderia ser imposta externamente a uma determinada sociedade -  análogo ao modelo ateniense ou ainda mais virulento ora assumido pelos EUA. Bem antes do Comunismo e do Anarquismo revolucionário, e do fascismo o jacobinismo desesperou da Educação e da Cultura i é do Espírito, assumindo um deplorável formalismo, inspirado no materialismo crasso.

Posteriormente, foi a mesma visão bizarra de uma democracia imposta por golpe ou oferecida por uma minoria, legada ao positivismo, o qual por sua vez inseriu-a em nosso pais... Onde democracia brota como Atenas da cabeça de Zeus, de um golpe militar, assumindo um viez militarista. Donde resultam todos os nossos problemas, assim os sucessivos golpes reencarnados e avatares ditatorais, filhos de uma democracia mal consolidada, meramente formal, sem espírito, consciência, cultura; numa só palavra - profundidade. Filha do jacobinismo é nossa democracia superficial.

O Comunismo percebeu a incongruência do jacobinismo, manteve o golpe, eliminou a liberdade e jamais compreendeu a dinâmica da cultura... Quanto ao liberalismo é certo que a França promulgou os direitos do homem e do cidadão, mesmo quando concedeu a doutrina da vontade geral uma abrangência tal que dificilmente encontraria apoio nos escritos daquele que a formulou e a ponto de tornar esta vontade totalitária. Numa perspectiva democrática mais direta admitimos que a 'vontade geral' seja internamente soberana em sua esfera - pública ou política  - mas não que seja totalitária, a ponto de imiscuir-se no que diga respeito ao privado... A separação entre o público é o privado é princípio de que não podemos abrir mão, assim o espaço sagrado da pessoa humana face a estatolatria. Ficamos assim entre o totalitarismo estatólatra e o individualismo, condenando veementemente a ambos, pois como declarou o Filósofo: Os extremos sempre se tocam.

Após ruminar tais pensamentos, colhidos neste ou naquele autor - Fustel de Coulanges, Crane Brinton, Hannah Arendt, K Popper, John Gray, R Nisbet, Ortega Y Gasset, P Sorokin, Victor Brochard, Alfred Weber, Antonio Piccarolo, Nicolas Berdiaeff, V G Childe, Harold J Laski, Jacques Maritain, Emanuel Mounier, etc -  entrega-mo-los ao juízo do amigo leitor...



quinta-feira, 25 de maio de 2017

Conversações amistosas com Mr Ladrofê sobre a gênese do autoritarismo e suas fontes face ao espírito do Catolicismo II


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Ulpiano



No artigo anterior examinamos os argumentos com que nosso ilustre amigo Mr Ladrofê, julga poder amparar sua concepção autoritária de vida numa perspectiva Católica, demonstrando o quanto esta equivocado, afinal.

"Onde esta o espírito, ali esta a liberdade." não sou eu quem o diz, mas o querido Paulo, ídolo dos neo Cristãos paulinistas. Até ele...

Afinal não fomos nós chamados a liberdade dos filhos de Deus?

Não ao temor e a servidão, mas ao suave jugo do amor?

Identifiquemos agora as fontes históricas do autoritarismo para saber quando, como e porque modo enquistou-se como uma câncer no seio da instituição Cristã.

Antes porém digamos algumas palavrinhas sobre a fonte mais remota, que se acha no lá no fundo da mente humana, lá no inconsciente. Antes arreliavamos com os autoritários assim como arrelianos ainda com os avarentos ou capitalistas. A leitura de S Freud convencendo-nos de que o ethos autoritário reflete problemas de convivência com o pai, tornou-nos mais condescendentes e tolerantes.

Questões de vontade - inda que inconsciente - já dizia o santíssimo Orígenes, são irrefutáveis. Inútil argumentar quando não se quer ou não se pode assimilar, tendo em vista condição. No entanto é sempre útil dialogar, ao menos enquanto exercício dialético e estimulo a pesquisa. Alias sempre aprendemos algo ouvindo ou lendo.

Bom esclarecer, antes de tudo, que nem a passagem da República para o Império romano foi drástica em termos duma ruptura absoluta com as tradições do passado e nem o caráter do Império deixou ou pode ter deixado de ser misto duma hora para a outra.

O Imperador, a partir de Otávio Augusto, sobrepõem-se ao Senado, que é uma órgão aristocrático, não o aniquila.

Otávio alias afetava enorme respeito pelo Senado, de modo que ao invés de ordenar ou constranger, limitava-se a solicitar perante aquela organização tradicional. De modo geral os imperadores julianos que foram sãos: Tibério, Claúdio e Nero antes da loucura, e assim os Flavios: Vespasiano e Tito, limitaram-se a imitar o procedimento de Otávio, no mais solicitando, raras vezes demandando, quase nunca obrigando o Senado, embora este sempre pudesse ser facilmente comprado. Abolir o Senado e assumir um poder absoluto é coisa que jamais se pensou, pois os cidadãos romanos, ao menos afetavam ou fingiam ter dignidade e serem cidadãos, não escravos.

As aparências democráticas e aristocráticas até certo pondo tinham de ser mantidas.

Apenas os Césares loucos como Caio, Nero e Domiciano ousaram ameaçar e constranger, e humilhar, e oprimir, e abater os senadores e patrícios. Sem no entanto sequer terem cogitado, dissolver o Senado e governar como senhores absolutos. O máximo que Botinhas fez foi introduzir seu cavalo Incitatus naquele nobre corpo e proclama-lo senador...

Durante o século seguinte, sob os Antoninos, a influência e poder do Senado, por afetação da antiguidade, aumentou ainda mais.

Nem sinal de teorias ou doutrinas absolutistas.

Tinha vergonha de doutrinar a respeito do que haviam posto em prática.

De fato caso sigamos de trás para frente o advento desta doutrina obscura que é o autoritarismo ou absolutismo, que alguns cuidam vender como Cristã, chegamos aos juristas franceses como Jean Bodin. Destes aos teólogos imperiais ou Cesaropapistas, como M Patavinus, os quais buscavam combater a monarquia e teocracia papal fazendo petições a um documento descoberto pelos ocidentais por volta de 1100. O Digesto de Justiniano ou melhor de Trebonianus (Mas também de Teófilo, e outros dezesseis). Neste registro temos a pristina fonte do autoritarismo.

Agora nos perguntamos sobre qual fossem as referências ou as fontes do Digesto, os filósofos, os santos padres e Bispos, os sínodos, os apóstolos, o Evangelho... Nada, nada disto.

A principal fonte quanto ao autoritarismo nobre leitor, diz respeito ao jurista pagão i é não Cristão e não Católico Ulpiano, o qual foi contemporâneo de Modestino e Papiniano, tendo sido prefeito do pretório e florescido sobre Caracala, o filho degenerado de Septimius Severo e assassino de Geta, logo fratricida.

Ao dito Ulpiano atribuem estas duas expressões infelizes:  "Quod principi placuit legis habet vigorem." pt - O QUE AGRADA O IMPERADOR TEM FORÇA DE LEI e esta outra não menos absurda: "Princeps legibus solutus." pt - O PRINCIPE NÃO JAZ SOB O JUGO DA LEI ou não esta obrigado a observar as leis.
Temos aqui o mesmo conceito que os semitas aplicam a seus deuses - jao, ala, etc - e segundo o qual por serem todo poderosos estão acima de quaisquer leis, podendo cometer crimes e pecar...

Pois se a lei humana é expressão de uma lei natural e eterna, é necessariamente boa. E sua inobservância má. Logo o príncipe, tem o direito de pecar ou de cometer o mal, recusando-se a observar a lei que é boa. Atribuem-se assim o direito de matar, roubar, mentir, etc, o que é abominavelmente monstruoso.

Chegados a este ponto temos de nos perguntar sobre o que aconteceu ao império romano a ponto de um de seus maiores juristas ter cometido um descalabro destes, identificando a vontade caprichosa e arbitrária de um indivíduo como lei para os demais.

Estamos no século III.

Momento em que, após Comodus, o pode imperial é sucessivamente encampado pelos militares ou chefes das legiões ou da guarda pretoriana, os quais fazem e desfazem imperadores, põem e depõem príncipes, elevam e derrubam reis, e amiúde lutam uns contra os outros ensanguentando o Império e fomentando seu declínio.

Sendo militares eles trazem para o governo Imperial e mentalidade rasteira prevalecente entre quase todos os militares, a da obediência passiva, cega, mecânica e absoluta. É neste momento que as figuras dementes de Caio ou Nero convertem-se em ideais recorrentes e dominantes até Constantino. E não é mera coincidência que os Cristãos tenham sido expostos a perseguição com maior fragor ainda neste século, devido a insistência mórbida a respeito da estatolatria ou do culto ao gênio de roma e da fé imperial, cristalizada na pessoa dos césares mais abjetos!

É deste ambiente corrupto, decaído, degradante, indigno, que aflora ou assoma a 'bela' doutrina do autoritarismo ou do absolutismo régio. Com que dor no coração devo lembrar que o infeliz Ulpiano viveu não sob o jugo de um Otávio ou de um Antonino, ou de um Marco Aurélio, aos quais certamente teria repugnado a ideia de um poder supremo ou absoluto, mas sob um farrapo humano chamado Caracala, o qual mimoseou com aquelas frases servis contida no Digesto, isto por achar-se, como seu colega Papiniano sob constante ameaça por parte do déspota irascível, o qual acabou por mata-lo a pontapés (Enquanto o outro foi decapitado!).

Tal a fonte mais pagã mais remota do absolutismo régio, puramente pagã e nada mais que pagã e nem um pouco Cristã ou Católica.

No artigo de amanhã discorreremos a respeito das outras duas belas fontes:

A cultura judaica endeusada pelos judaizantes, o 'cristianismo ' paulinista e o heresiarca Justiniano. E por ai já se ve que os padrinhos são rabinos, escribas, fariseus, judaizantes e heréticos; nada, nada de muito Católico, nada de Padres da Igreja, doutores, sínodos, concílios, etc porque estas perto da imensa sabedoria dos juristas pagãos da decadência, dos judeus e dos heréticos são mesmo umas Bestas! Espertos mesmo os reformadores protestantes né???

domingo, 16 de abril de 2017

Sobre as diversas fases porque passou o municipalismo Ibérico

As linhas que seguem correspondem apenas a um esboço para posterior discussão e reflexão em torno da sobrevivência do sentido municipalista na consciência da Península Ibérica através dos séculos. 




I - Período pré romano - Iberos, Ligures e Celtas. Período de completa autonomia dos ópidos, castros e aldeias e total ausência de unidade política. As confederações só se formavam, como na antiga Grécia, devido a pressões externas, de caráter militar, exercidas por outros povos.

Estes povos já praticavam formas simples e sumárias de eleições por meio de sortes tendo em vista a distribuição das terras a serem cultivadas, daqueles que haviam de levar o gado comum para pastar, da ordem em que fornos e outros estabelecimentos comuns seriam usados por cada família, etc

II - Composição entre as aldeias, convertidas em municípios e o Imperium de Roma com sua maquina administrativa aglutinante já proconsular, já senatorial.

"As cidades hespanholas, como as da Gália, tiveram seus senados e seus magistrados eletivos a imagem dos da metrópole." Genoulhiac 'História geral do direito francês' p 60 e seguintes apud Sylvio Romero 1906 p 356

Com um amplo período de crise e obscurecimento das classes médias e liberdades municipais a partir da segunda metade do século III e no curso de todo século IV.

Essa crise é salientada por M Guizot no Regime municipal do Império romano no século V da era vulgar. Atentes-se ao fato de que o Historiador descreve situações típicas dos séculos V e IV, que remontam no máximo a segunda metade do século III e que não pretende, sob quaisquer pretextos, analisar a situação dos municípios do Império romano nos dois primeiros séculos desta Era, ou seja durante seu florescimento.

Acentua ainda as causas de ordem econômica que atuando sobre a macro estrutura política, engendraram a 'crise' que acabou oprimindo as municipalidades através da cobrança de pesados impostos.

III - Manutenção de estruturas e tradições municipalistas 'sacralizadas' pela Igreja. Séculos V a XI

Relembremos tudo quando disse Leon Moulin sobre a praxis democrática nas mais antigas ordens religiosas. Também fora das grandes ordens religiosas, as igrejas particulares - a exemplo da Igreja Católica, com seus Concílios gerais (O primeiro congregado em Nikaia 325 contra o heresiarca Ário de Alexandria.) - adotaram com maior ou maior empenho o sistema sinodal, onde cada problema teológico ou ético era discutido pelos Bispos e clérigos e enfim votado por eles.

Para além do Noroeste da África não conhecemos outra província que tenha abraçado com mais fervor o regime sinodal do que a Espanha visigótica com seus diversos Sínodos toledanos.

Já quanto a administração profana ou secular: "Após o passamento do rei, congregava-se a assembléia com representação de todo reino para escolher em eleição o sucessor." Fávila Ribeiro 1996

IV - Renascença do Espírito municipalista e reafirmação de suas estruturas por meio das comunas ou do movimento comunal.

"Após a queda dos godos, tal proceder foi mantido nas Astúrias e no principado de Leão."
Por outro lado nas côrtes portuguesas, a partir de Elvas, as municipalidades sempre contaram com grande número de representantes.
V - Séculos XVI a XVIII, obscurecimento do municipalismo sob pressão do absolutismo monárquico.

Na Espanha por sinal, a primeira tentativa, feita pelo alemão Carlos V, se reduzir as liberdades comunais, redundou em sedição aberta pelos idos de 1528. E diga-se de passagem que Carlos V era o senhor da Europa e dono do mundo.

VI - Retomada da proposta municipalista por algumas vertentes anarquistas. Séculos XIX e XX.

Evidentemente que os ideais e tradições municipalistas serviram como ponto de apoio para a introdução do moderno pensamento democrático na Península, embora não faltassem teóricos que aspirassem por concilia-las com uma forma monárquica esvaziada.

Floresceu inclusive, pelos idos de 1860 - E contando com a adesão decidida de um Latino Coelho - a proposta de uma Unidade Ibérica pautada numa confederação de municípios diretamente governados pelos cidadãos. Sendo alguns de seus aderentes - a maioria - pela forma consular ou presidencial e outros poucos pela forma monárquica, importa saber que num caso ou noutro o poder supra municipal seria praticamente simbólico, em termos de paternidade cultural comum.

VII - Recuo franquista.

VIII - Retorno do tema no período pós franquista.

IX - Em Portugal o municipalismo manteve-se relativamente mais forte, mesmo a partir do século XVI e ainda durante o período salazarista.

Conclusão: A presença do municipalismo na Península Ibérica, seja em termos de espírito, estruturas ou tradição jamais pode ser completamente extirpada refazendo-se após cada alteração política.

Leon Metchnicoff - A civilização e os grandes rios históricos

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Contribuições há, feitas a História, que não podem permanecer esquecidas, devido a sua continua, para não dizer eterna, atualidade.

Assim a de Leon Metchnicoff, irmão dos igualmente célebres Ellie e Ivan, na humilde e ao mesmo tempo colossal obra 'A civilização e os grandes rios históricos' dada a imprensa, post mortem, em 1889. O autor havia falecido no ano anterior 1888.

Trata-se a meu ver de uma dessas obras imortais e que marcam época a exemplo da Decadência do Império romano de Gibbon (Assim as obras QUASE homônimas de Sismondi e Ferrero) da História da conquista da Inglaterra pelos Normandos de Aug Thierry, da História dos Gauleses de Amadeu Thierry, da História do direito de Savigny, da História do povo alemão de Jahnsen, da História das Cruzadas de J F Michaud, da História da Reforma na Alemanha de Doellinger, da História da conquista do México, História da Conquista do Peru e da História do reinado de Fernando e de Isabel, a Católica por W H Prescott, dos Tempos pré históricos de John Lubbock, do Regime municipal do Império romano no século V de Guizot, da História dos monges no Ocidente de Montalembert, da História do helenismo de Droysen, da Sociedade antiga de L H Morgan, da História dos Papas de Leopold Von Ranke, da Cidade antiga de Fustel, da História das perseguições religiosas no Império romano de Paul Allarddos Primeiros habitantes da Europa de Arbois Jubainville, do Marco Aurélio e o fim do mundo antigo de E Renan, da História da Civilização na Inglaterra de Buckle, do Fim do Paganismo e da África romana de Gaston Boissier, dos Gauleses de André Lefevre, do Espírito do Capitalismo e a Ética protestante de Max Weber (Dentre todos o primeiro!), das obras de Denifle e Grizar sobre Lutero, da História da Igreja antiga de Louis Duchesne, da Historia da Literatura latina na Africa de Paul Monceaux, do Maomé a Carlos Magno de Pirenne, do Amanhecer da consciência de Breasted, da Sociedade Feudal e da Apologia da História de M Bloch, da História da incredulidade no século XVI e da Europa: gênese da civilização de Lucien Febvre, do Outono da idade Média de Huizinga, da Trilogia de V G Childe, do Renascimento de Edith Sichel, da História da riqueza do homem de Huberman, do Feudalismo de Ganschoff, da História social da criança e da família e da História da morte no Ocidente de Aries, das Fontes democráticas nas ordens religiosas da Idade Média de Leon Moulin, do Processo civilizatório de Norbert Elias, da Trilogia de Duby (1976/1978/1981), do Novo conceito de Idade Média de Le Goff, do Mediterrâneo de F Braudel, da Civilização do Renascimento por Jean Delumeau, da Conquista da América por Todorov, do Cristianismo, tolerância social e homossexualidade e Uniões do mesmo sexo na Europa pré moderna de John Boswell, de Como os irlandeses salvaram a civilização por Th Cahill, da Democracia bizantina de Kaldellis, etc

Assim A civilização Egea e a Cidade grega de Gustav Glotz, a História de Roma por Mommsen bem como os estudos subsequentes de Leo Homo e Pierre Grimal; Os aztecas de Solustelle, as obras de Paul Lemerlle e Runciman sobre Bizâncio, as de Christopher Hill sobre a Revolução Inglesa, as de Lamartine, Thiers, Sybel, Jaures, Soboul e outros sobre a Revolução Francesa, as de Robert Darnton sobre o iluminismo e as brilhantes sínteses cultuais elaboradas por Christofer Dawson e Butterfield.

Isto só para lembrar algumas leituras clássicas indispensáveis em termos de compreensão Histórica.

Há muito que se falar, debater, dialogar e discutir sobre cada uma delas.

No entanto, para este Domingo, escolhemos a obra de Metchnicoff justamente por ser pouco conhecida e divulgada entre nós. Apesar de contar já com mais de século.

Assim se Le Goff revolucionou o conceito de Idade Média, evidenciando que as tais 'trevas' - Saídas da pena protestante, logo partidária ou preconceituosa - não passavam de fábulas, se Elias salientou as teias de interdependência cultural, se V G Childe mantendo a ideia de um progresso linear e contínuo admitiu a existência de recuos, durante as crises; além de descrever a ampliação do círculo da cultura no Oeste da Europa, se Breasted cunhou o termo 'crescente fértil', se Max Weber conceituou as afinidades eletivas, o mérito de Metchnicoff consiste em ter relacionado a propagação da cultura com o meio, postulando certas 'rotas' culturais.

E nem poderia ter sido mais exato, preciso e ponderado pelo simples fato de que antes dos romanos terem estabelecido suas estradas por toda Europa - investindo em meios de transporte e comunicação enquanto disseminadores da cultura a serviço do poder - já os persas haviam construído sua estrada real, que ligava o gigantesco Império de Susa, junto ao golfo Pérsico, a Sardes na Ásia menor, cortando cerca de 2.700 Km. A cuja extensão haviam associado um primitivo serviço de malas postais ou Correio, idealizado por Dário, o grande.

Já os gregos, habituados, por tradição, a navegação, espalhavam-se, a exemplo de seus predecessores fenícios e Minoicos, pelas bordas do Mar, acompanhando o litoral do Mediterrâneo ou do Mar negro, e semeando-os com inúmeras cidades ou colônias.

Faz pleno sentido que assim tenham procedido quando as vias para o interior ainda não haviam sido franqueadas na Europa Ocidental. Naturalmente que sempre existiram veredas ou caminhos, semelhantes aos que eram percorridos por nossos índios aqui na América antes da chegada do Europeu. E até caminhos mais largos e bem cuidados, a exemplo do nosso Peabiru. Rotas, como a do âmbar ou das conchas, existiam desde os tempos imemoriais.

Não de trata no entanto, de vias suficientemente amplas e cuidadas a ponto de permitirem um tráfego de carros rápido e eficiente; ou a rápida marcha de um povo, montado ou desmontado. Bem como o transporte de bens materiais e tecnológicos em quantidades relevantes. Tal só se deu após a conquista romana.

Fica posto o problema dos meios de transporte ou das comunicações - e portanto da transmissão e dilatação da cultura - onde não haviam rios caudalosos o suficiente para permitir a navegação.

Via de regra as grandes migrações pré históricas, as maiores, ao menos, devem ter acompanhado os cursos dos grandes rios navegáveis, fossem o Danúbio, o Pó, o Garona, o Ebro, o Tejo; as primeiras vias de transporte fornecidas pela própria natureza, e as primeiras rotas de cultura.

Penso que não seja preciso insistir muito a respeito de que as primeiras grandes civilizações do Velho mundo: Egipcia, Sumeriana, Indiana e Chinesa desenvolveram-se todas, no final da Idade Primitiva, junto aos grandes rios, sejam o Nilo, o Tigre e o Eufrates, o Indo e o Ganges ou o Huang Ho.

Não porque pudessem explorar o potencial hidráulico de tais correntes, mas porque podiam explora-lo tendo em vista a irrigação das terras ribeirinhas, aumentando a produção de alimentos, e consequentemente o acumulo de suprimentos. De que resultou singular benefício: Que alguns elementos daquelas sociedades não precisassem plantar, colher ou pastorear, podendo exercer outros misteres e, consequentemente especializar-se. Tais os albores da ascensão artística e científica característica da Revolução Urbana.

Desde então alguns puderam ser pedreiros, marceneiros, oleiros, tecelões, sapateiros, médicos, padeiros, cervejeiros, cantores... Recebendo em paga por seus serviços uma determinada quantidade de alimentos.

Esta dinâmica nos ajuda a compreender porque as primeiras vilas ou cidades tornaram-se tão atrativas aquele homem recém saído no neolítico. Porque havia oferta de serviços até então desconhecidos e portanto vantagens ou benefícios em termos de qualidade de vida. Ali apenas havia acesso a uma série de produtos ou serviços - quais fossem sapatos, vestimentas, pães, cerveja, medicamentos, etc - especializados e portanto executados com maior esmero. Bastando para adquirir tais produtos ou serviços estar em posse de algum excedente em termos de suprimento, ou recebe-los como pagamento oferecido pelo sacerdote rei.

Alias nada mais promissor do que dominar alguma espécie de saber ou aprende-lo. Pelo simples fato de poder empregar-se no palácio, antes de tudo uma enorme oficina e depósito de produtos administrada pelo rei sacerdote.

Devido a tudo isto a cidade, desde sua invenção, converteu-se no objeto dos sonhos das populações mais afastadas e rudimentares fossem sedentárias ou não. Todos aspiravam habitar nela de modo que elas atraíam multidões cada vez maiores, e se alargavam, e cresciam junto as margens dos grandes rios.

Isto a ponto de no Egito, pelos idos de 3500 a C coligarem-se em diversas federações, em dois reinos mais ou menos extensos - O do Norte ou baixo e o do Sul ou alto Egito - os quais acabaram unindo-se pelos idos de 3000 a C sob o cetro de Menés ou Narmer, o primeiro Faraó. Evidentemente que antes disto, e bem antes - Ao tempo do rei Escorpião (Alto Egito - 3200 a C) - a administração dos grandes reinos, do Sul e do Norte, exigiam já a formulação de um código escrito.

Afinal a produção ou coleta - o primitivo imposto - bem como a distribuição - o primitivo salário - precisavam ser anotadas e controladas de modo que o pagamento dos serviços jamais superasse a arrecadação produzindo 'deficit'. Daí a necessidade de medir, contar, pesar e classificar... Sem a qual, um tipo tão complexo de organização social não podia manter-se.

Mesmo nas cidades autônomas, e sem embargo grandes, da Suméria, do Indo e da China, um tal tipo de controle se fazia indispensável e por isso, a partir de tal necessidade, nos deparamos com a formulação de códigos linguísticos escritos - os primeiros do planeta - aparentemente, sem que houvesse qualquer relação de dependência.

Ainda hoje as escritas Egipcia, Sumeriana, Indiana e Chinesa aparentam ser diferentes umas das outras e não inter relacionadas.

Alias ao tempo em que vieram a luz - cerca de 3200, 3000, 2500, 2200 a C pouco antes ou depois - achavam-se tais pólos de cultura mais ou menos isolados; a exceção talvez do Egito e da Suméria.

A maior parte dos assiriologistas e sumerólogos considera que quando estabeleceram-se relações comerciais entre as cidades Sumerianas e as cidades do Indo (Harapinas) por volta de 2400 a C, ja ambos os modelos de escrita achavam-se elaborados. Podendo-se dizer o mesmo sobre o Vale do Indo e o Vale do Huang Ho, separados ou melhor dizendo, isolados por cordilheiras e desertos ao tempo em que ambas escritas haviam sido inventadas.

Atualmente a tese da difusão, da origem comum e da inter dependência dos primeiros modelos de escrita torna-se cada vez mais vulnerável e indefensável.

Seja como for, por volta de 2000 a C senão antes, estamos diante de quatro civilizações letradas ou polos difusores de cultura.

Quanto a Mesopotâmia apenas, devemos considerar diversos elementos, indispensáveis ao avanço posterior da Civilização como um todo. Assim o arado, a roda, a roda do oleiro e talvez o Bronze, seja como for procedente daquele entorno.

Quanto ao Egito temos o vidro, o papel, a medicina...

Tocando a tais elementos culturais é que chegamos a Metchnicoff. O qual nos oferece a melhor ferramenta para compreendermos porque a Europa Ocidental chegou a ser o que é ou porque o Mediterrâneo foi o que foi.

Para tanto faz-se necessário acompanhar os cursos destes grandes rios ou a direção que cada um deles percorria. Porque a cultura acompanhou tal direção e disseminou-se a partir das fozes de tais rios, e as vezes até a partir das nascentes.

Assim o caso do Eufrates ou Puratu, o qual era facilmente navegável contra corrente até Kish - Logo por toda Suméria - e relativamente navegável até Mari, cidade cujo Reino, chegou a estender-se até as proximidades de Halab a atual Alepo, já as portas da Ásia menor.

De fato a saída cultural sumeriana foi dupla e a princípio, ao menos aparentemente sua cultura foi despejada no Golfo Pérsico já em Dilmun, já no Elam. Embora alguns escritos deem a entender o sentido oposto i é de Dilmun - possível ponto de partida ou origem dos misteriosos 'cabeças negras' - e/ou Elam para a Mesopotâmia e desta, indo contra corrente, a Assíria, ao Reino de Mari, a Síria, e enfim - Di-lo Sargão - ao Chipre e a Anatólia, já na Ásia menor.

Sargão por sinal, orgulha-se de ter lavado sua espada nas águas do grande Mar, ou seja do Mediterrâneo.

Temos aqui uma direção cultural bastante esclarecedora, que partindo da Suméria ou mesmo - Quem o sabe? - de Dilmun e Susa, atinge a Ásia menor, em cuja costa Ocidental haviam de se estabelecer os Jônios, corridos pelos Dórios cerca do século XII a C. Estamos portanto ao lado da península balcânica ou da Grécia.

Indiretamente, assumido e levado adiante por babilônicos, assírios, sírios, palestinos, hititas e fenícios sucessivamente o legado cultural dos antigos sumérios acabou por impor-se no que chamamos atualmente de Turquia, enfim no espaço que mais tarde viria a ser ocupado pelo tronco grego dos jônios.

Perguntemos agora que rumo tomou o patrimônio cultural do antigo Egito?

Se a um lado atingiu Meroé e Sudão, dissipando suas energias na África negra até ser removido pela islamização, a outro pela foz, atingiu a costa leste ou oriental do Mar Mediterrâneo, irradiando-se pela Palestina, até dar com a Fenícia, onde encontrou-se com a cultura sumeriana, trazida pelo Eufrates.

Primeiramente através dos minoicos, depois indiretamente, através dos fenícios e enfim diretamente por iniciativa dos próprios gregos chegou esta cultura até a Ásia menor e Península balcânica, onde misturando-se a cultura mesopotâmica deu origem a primeira grande síntese cultural elaborada pelos gregos. Síntese que foi contributo particular ou específico do gênio grego, quiçá ensaiada já pelos fenícios... Não foram estes que legaram-nos o alfabeto? De fato não sabemos o quanto nós ou os gregos devemos aos antigos fenícios, posto que só temos conhecimento do quanto  produziram através dos gregos, seus sucessores e rivais.

Seja como for a grande alavancada proporcionada por essa convergência - Alias coisa única no mundo - entre duas culturas magníficas, aconteceu na Grécia. O que herdaram dos egípcios e sumérios, eles levaram adiante ou desenvolveram. Se não arquitetaram esta síntese - Hipótese em que teriam-na recebido dos Fenícios - ao mesmos tornaram-se dignos depositários dela tornando-a fecunda.

Já as culturas chinesa e indiana, seguindo os cursos de seus caudais e atingindo mares geograficamente isolados, perderam-se por eles e jamais puderam encontrar-se. A espacialidade geográfica impossibilitou que tais culturas convergissem para o mesmo ponto e formassem brilhante síntese. Tal e qual a cultura egípcia refluindo pelo interior da África, diluíram-se e perderam-se assim as culturas Indiana e chinesa, mesmo considerando que tenham civilizado diversas Ilhas. No caso da China por sinal Japão e Coréia. No caso da Índia o Ceilão, as Filipinas e a Indonésia.

Que teria produzido um síntese entre ambas as culturas, Chinesa e Indiana, tal a pujança de cada uma, é o que jamais viremos a saber?

Foi no Mediterrâneo que Eufrates e Nilo despejaram o legado cultural de dois povos essencialmente criadores: Babilônia e Egito...

Como já dissemos acontecimento único e singular proporcionado pelo meio.

A partir da Jônia, passou este legado a Península Balcânica, onde já havia sido ensaiado muito provavelmente pelos fenícios.

E a partir da Península balcânica, como já dissemos, no dorso das naus de casco negro, os gregos foram disseminando tal espírito ou cultura por todo circuíto do mediterrâneo de Trapezunt a Emporiae passando evidentemente por Massilia.

E foi a partir de tais cidades que os conquistadores romanos, adotando como sua a cultura helênica, levaram-na - em termos de idioma comum, filosofia, ciência, teatro, etc - até a coração da Europa, civilizando-o. Também empreenderam-no na África até os confins do Saara. Em todo circuíto do mediterrâneo. A partir do qual, com os Portugueses e Espanhóis, ao fim da Idade Média, despejou-se pelo Mar Oceano, ou pelo Atlântico, atingindo o Novo Mundo e propiciando outras sínteses culturais não menos interessantes no México, a partir de um substrato Azteca bastante rico e mais ainda no Peru e adjacências, onde encontrou-se com a multi milenar e ultra sofisticada civilização peruviana, contributo de diversas culturas quais sejam Chavim, Paracas, Nazca, Mochica, Chimu, Wari, Inca, etc

Foram caudais de culturas desembocando uns nos outros sempre a partir dos grandes rios, seguindo seus cursos e precipitando-se primeiramente nos mares e depois nos Oceanos até dilatarem-se pelo mundo afora. Encontro de que resultou não poucos conflitos, mas, cremos nós, numa perspectiva futura e global, propiciou também a chave para o progresso das Sociedades humanas, o qual só se faz pela troca de experiências culturais.

Este fascinante caminho, provido pelo meio ou pela sorte, foi devassado, a menos de cento e trinta anos pelo brilhante cientista Leon Metchnicoff em A civilização e os grandes rios históricos, leitura ainda hoje proveitosa que a todos recomendamos.