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quinta-feira, 16 de março de 2023

Psicologia, psicanálise, Freud e a questão da multiplicidade de existências - Reflexões sobre a obra de Hermínio C Miranda 'A memória e o tempo' Edicel 1984 - Parte III

 A comédia behaviorista


             


      

         No entanto os senhores e profetas do materialismo não descansam. E a exemplo de Jao jamais dormem ou cochilam...

          E por isso resolveram tomar a Psicologia de assalto e introduzir a querida ideologia no território do espírito, que é a mente.


          Foi essa façanha realizada nos EUA por um certo J B Watson, o inventor daquela Psicologia 'materialista' e 'científica' - Em oposição ao Freudismo e a Psicanálise -  chamada behaviorismo.

           Tem a expressão behaviorismo sua origem em Behaviour ou comportamento, pelo simples fato de limitar-se a analisar aqueles fenômenos externos aos quais damos o nome de comportamento. 

            Em suma o behaviorismo ocupa-se apenas do quanto aflora a consciência do sujeito ou a suas interações com o mundo.

            Isto porque, para seus teóricos, algo semelhante a uma mente ou agregado de ideias, conceitos, opiniões, crenças, esperanças - IMATERIAIS, não pode ter existência própria ou real e menos ainda atuar sobre o corpo físico. 

             Portanto, caso esse ente, cognominado mente exista, é por assim dizer inacessível ou incognoscível (Quem aqui lembra do sr Kant...) i é não pode ser estudado ou conhecido. Dando na mesma avançar e declarar que a dita mente inexiste ou que foi inventada por Freud e seus sequazes...

              Necessário dizer que o behaviorismo ou melhor seu pai, Watson, parte do fisiologista russo Pavlov, o qual, há cerca de um século, trabalhando com cães, descobriu o reflexo condicionado ou o condicionamento comportamental - Nos cães e por ext em gatos, ratos... A esse tempo era já ateu e materialista, por obra e graça do partido comunista...

              Era algo relativo ao comportamento de certos animais que ora sabemos serem dotados de inteligência - O que obviamente nada tem a ver com o tal condicionamento, pelo simples fato de ser fenômeno totalmente distinto e irredutível a ele. 

              E no entanto teve o Behaviorismo a 'magnífica' ideia de aplicar o dito condicionamento aos seres humanos com exclusão de quaisquer fenômenos propriamente mentais, como se tudo explicasse. Pelo que batizaram o condicionamento associado ao comportamento - Humano ou animal, uma vez que para eles dá sempre no mesmo. - sob a alcunha de reforços. 

              Observe a equação: Dos impulsos ou sensações neuronais (Portanto materiais) parte o condicionamento, do condicionamento os reforços e dos reforços o comportamento e tudo quanto nós idiotas temos em conta de consciência ou personalidade.

               Pois se não existe mente não pode existir consciência ou personalidade na acepção clássica dos termos. 

               Portanto inexiste qualquer solução estável ou coerente face ao mundo externo e menos ainda qualquer centro ou polo organização 'mental'. É como se a aberrante doutrina do Caos surgisse primeiramente no campo da Psicologia, pelo simples fato de converter o ser humano num confuso agregado de ações externas. 

                Mesmo algo mais ou menos estável como princípios, valores e crenças resultam em última análise de interações neuronais, quiçá, ao menos em parte causadas ou provocadas pelo condicionamento externo ou melhor dizendo pelos reforços positivos e negativos. 

                 Adiante: A Sociedade, de alguma maneira, tendo em vista certos interesses misteriosos, treina ou amestra os atores sociais para que assumam determinadas posturas. 

                 Perceba o amigo leitor nos domínios da Psicologia, por obra e graça do behaviorismo, o mesmo reducionismo - Afilhado do materialismo e por ext do positivismo! - presente na Biologia... Desde agora convertidas em desdobramentos da Química e da Física, inclusive sujeitas as mesmas leis básicas. 

                  Perceba ainda que ao fim dessa linha tudo quanto resta é Química ou melhor dizendo Física, diluindo-se todo conhecimento nela. Pelo behaviorismo é eliminado o conceito de mente no Homo Sapiens (O qual, por puro preconceito, jamais fora aplicado aos outros animais.). Ficando o humano nivelado a caricatura que fazíamos das 'bestas'... Pelo behaviorismo homem e animais são nivelados pela eliminação da inteligência, da consciência, da personalidade, da mente... De tudo quanto distingue homem e animais dos vegetais ou dos minerais. 

                      Convém lembrar aqui que Kant não apenas reconhecia a necessidade de produzir uma área dedicada ao conhecimento do mundo mental como a colocava ao lado da física e da Filosofia. Kant 197. B 876. 

                       Eis porque, o behaviorismo, eliminando todas essas entidades ou fenômenos que fogem a compreensão de seu materialismo crasso,  elimina precisamente o humano, e consequentemente - Desumaniza, despersonaliza, reduz, simplifica, empobrece... até apresentar humanos e animais como agregados de sensações ou de impulsos neuronais necessariamente caóticos.


                       De fato o ideólogo materialista Buchner (O mais mansinho deles) refere-se ao homem nestes termos: "Não sendo senão produto da matéria, não é o ser que os moralistas pintam." - O que por sinal tem lá uma pitadinha de Sade... E nem poderia ser ético sem estar em posse de sua liberdade ou livre arbítrio.

                       Tal o serviço prestado ao homem, a criatura racional e livre, pela ideologia materialista. Entre nós e um pé de couve ou uma bananeira não há qualquer diferença essencial. 

                        Agora sem objeto próprio, admitida a xaropada reducionista, tanto a Psicologia como a Biologia perdem por completo a razão de ser, por perderem o objeto próprio, no caso da primeira a mente e no caso da segunda a vida. Considere que se tudo quanto há é comportamento ou ação e que essas por meio do reforço ou do condicionamento, partem dos neurônios tudo quanto temos é medicina, fisiologia, biologia... Pois fica a Psicologia sendo caso de interações ou contatos neuronais, a serem estudados, repito, pela Fisiologia ou pela Biologia. 

                     Por fim se a Biologia reverte, não sei porque processos misteriosos, a Química ou da Física, convertendo-se em bailado de átomos ou em equações e fórmulas matemáticas, já não existe Biologia propriamente dita. 

                     A conclusão a que se chega é simples: Privadas de seus objetos específicos Biologia e Psicologia desaparecem por completo ou saem de cena sem deixar vestígios. A menos que se convertam em departamento da Química e da Física pelas quais são absorvidas. 

                     A bem da verdade, amigo leitor, quanto a Psicologia, sequer o nome os positivistas apreciam, como podemos ler nesta peça de E J Litreé: "Talvez pareça insólita a expressão de 'fisiologia psíquica'. Poderia ter escolhido Psicologia para designar o estudo das faculdades intelectuais e morais... porém sendo certo que a Psicologia foi, em sua origem, e ainda é o 'estudo do espírito' considerado como distinto da substância nervosa, NÃO DEVO NEM QUERO SERVIR-ME DUMA EXPRESSÃO QUE PERTENCE A UM TIPO DE FILOSOFIA MUITO DIFERENTE DAQUELA QUE EMPRESTA SEU NOME AS CIÊNCIAS POSITIVAS. NESTAS CIÊNCIAS NÃO SE CONHECE PROPRIEDADE ALGUMA DISTINTA DA MATÉRIA... Daí ter escolhido eu a palavra 'fisiologia' e bem poderia ter optado por 'fisiologia cerebral' embora esta envolva assunto bem mais vasto... tudo quanto aqui pretendo é... inculcar que a descrição DOS FENÔMENOS PSÍQUICOS, COM SUA SUBORDINAÇÃO E ENCADEAMENTO, ENQUANTO PURA FISIOLOGIA EM TERMOS DE FUNÇÃO E EFEITOS. Desde que a Psicologia rompeu com as ideias inatas e adotou o esquema de Locke APROXIMOU-SE DA FISIOLOGIA. E tanto mais a Fisiologia se de conta da extensão de seus domínios, tanto menos se assustou com os anátemas da Psicologia... HOJE NÃO RESTA JÁ DÚVIDA ALGUMA DE QUE OS FENÔMENOS INTELECTUAIS E MORAIS SÃO FENÔMENOS PERTENCENTES AO SISTEMA NERVOSO E QUE O TIPO HUMANO NADA MAIS É QUE UM ELO (UM TANTO MAIS LARGO) DUMA CADEIA QUE SE PROLONGA, SEM NÍTIDOS LIMITES ATÉ AS MAIS SIMPLES FORMAS DE VIDA... contanto que empreguemos o método descritivo, derivado da observação e da experiência, será ela FISIOLOGIA." Litreé "A ciência sob o ponto de vista filosófico" Paris 1873 p 306 e "A filosofia positiva' 23 de Março de 1860. - Percebe como tudo quanto existe para o sucessor de Comte é Psiquiatria...

                     Aqui Mirville "A ordem começará a reinar na mente humana apenas no dia em que a Psicologia se transformar numa espécie de física cerebral e a História numa espécie de física social." 

                     Destarte o complexo humano torna-se incrivelmente simples e compreensível. Somos agregados de nervos que são agregados de átomos... Nada a mais, nada além. E tudo quanto fuja a esse esquema, como a Evolução das formas de vida ou a mente, seja eliminado, oculto ou posto debaixo do tapete. E tudo fica muito bem assim porque o sr materialismo o quer...

                       Átomos que ligam-se uns aos outros numa loteria da sorte... Células que se unem umas as outras noutra loteria de sorte... Tecidos que se encontram, mais uma vez, numa terceira loteria de sorte... E desse turbilhão confuso de matéria, saem - Como Atena armada da cabeça de Zeus seu pai... - leis físico químicas, vida e pensamento> Tudo numa palavra: Golpe de sorte... Resultado de átomos e células e tecidos bailando ao acaso...

                   Melhor descomplicar e após falsear a Evolução dos seres vivos eliminar a mente...

                   Destarte facilitam-se as coisas para o materialismo e quem discordar deixa de ser científico... Quanta manipulação ideológica e desonestidade.

                    Isso num tempo em que podemos, a força de demonstrações, reverter toda xaropada e admitir que grande parte dos animais - Por questão de estudos me limito aos mamíferos! - possui não apenas inteligência, mas vida metal e portanto mente, da qual resultam fenômenos psicológicos complexos...

                     Já não se trata, como no miserável esquema behaviorista, de reduzir a criatura humana a uma 'animalidade' já mutilada e muito mal compreendida e sim de atribuir ao animal uma vida psíquica ou mental injustamente negada. Pois cães e gatos sonham... e tem neuroses, traumas, fobias, etc

                     Podemos portanto falar já não em reducionismo físico químico mas em Psiquismo e Psicologia animal. Fútil a tentativa ideológica de eliminar a mente e a razão no Ser humano quando a primeira manifesta-se já nos animais mais próximo senão em quase todos. 

                      Enfim para poder entrar no esquema materialista deve a condição humana ser simplificada ou melhor despojada de elementos constituintes que lhe são essenciais como a racionalidade e o livre arbítrio. Pois somente com a negação de tais elementos pode enquadrar-se no esquema materialista equivalendo já a um pé de couve ou a uma laranjeira... Admitida sua complexidade manifesta e sua vida mental ou psicológica fica o materialismo em maus lençóis...

                   Não sei porque caminhos confirma-se um veredito lavrado em séculos passados e segundo o qual a destruição de Deus e da Imortalidade - E não estou falando de fé ou religião. Vão estudar Aristóteles e Platão seus burros! - resultariam na destruição ou mutilação do próprio ser humano. E o behaviorismo nos domínios da Psicologia nada mais é do que isso: Uma mutilação, negação e empobrecimento da natureza humana...

              Reservo para o fim a resposta de Paul Janet a Litreé e os positivistas
: "A mentes que foram criadas nas ciências exatas e positivas, mas que, entretanto, sentem como que um impulso irresistível para a Filosofia. E elas não podem satisfazer um tal instinto senão com os elementos que já têm em mãos. IGNORANTES EM CIÊNCIAS PSICOLÓGICAS E TENDO ESTUDADO APENAS OS RUDIMENTOS DA METAFÍSICAS, estão dispostas todavia, a combater, tanto a metafísica quanto a psicologia, sobre a qual quase nada sabem. Tendo feito isso, elas se imaginam criadoras de uma ciência positiva, no entanto o que elas criaram foi uma teoria metafísica nova, mutilada e incompleta. Arrogam-se a autoridade e infalibilidade que pertencem as ciências reais, baseadas na experiência e no cálculo; mas elas são desprovidas dessa autoridade, pois as suas ideias, tão defeituosas quanto possam ser, pertencem a mesma classe daquelas que buscam combater." Janet "Revue des Deux Mondes; 01 de Agosto de 1864 p 727 sgs 


 


          

domingo, 29 de janeiro de 2023

Um SOS pela cultura...






Que Huizinga, Toynbee, Spengler, Lewis Whydan, T S Elliot, Berdiaeff, L Bloy, Maritain e outros tantos pensadores tem em comum...

Sabido é que todos eles, em maior ou menos grau, reconheceram que nossa cultura e civilização estão em crise.

Nossas raízes clássicas ou greco romanas tem sido arrancadas desde seus fundamentos mais remotos pelo protestantismo judaizante, pelo capitalismo, pelo comunismo, pelo anarquismo, pelos modernismos, etc e após tudo isso está e vem o islã iconoclasta e arabizante...

Considere amigo leitor que cerca de seis séculos antes de Cristo floresceu uma cultura refinada que logrou manter-se por mais de mil anos...

Uma constelação de Filósofos, poetas, dramaturgos, historiadores, geógrafos, astrônomos, ensaístas, novelistas, etc  

Basta dizer que suas obras foram reunidas na grande Biblioteca de Alexandria - A qual em seu zênite deve ter contado com certa de meio milhão de tomos ou meio milhões de capítulos e umas setenta ou oitenta mil obras produzidas por cerca de uns dezesseis ou mesmo vinte mil autores, talvez um pouco mais.

Nas principais cidades do Império - Roma, Cartago, Atenas, Constantinopla, Antioquia... Haviam instituições similares, como se fossem uns arquivos do saber ou CPUs de computadores... Toda nossa cultura ancestral estava concentrada nos centros urbanos acima citados.

Ali estavam umas oitenta peças de Ésquilo, umas setenta de Sófocles, outras sessenta de Eurípedes, as poesias completas de Sapho e Cneus Nevius, as crônicas Históricas de Adibenos, Beroso, Apion, Maneton, Justo de Tvérias, Craterus, Alexandre Polihistor, Xanto, Helânicos, Ctsias, Éforos, Teopompo... Os cento e quarenta tomos de Lívio, M T Varrão, Catão - o antigo, Labeão, Tuberão... As Histórias do Imperador Claúdio sobre os estruscos e os cartagineses... os cento e quarenta e dois tomos dos Pinakes de Callimaco de Cirene, os Mapas de Eratóstenes, o Mapa celeste de Hiparco (Primeiro catálogo de constelações!)... Os textos de Alexemenos, Simão e Esquines sobre Sócrates; as obras de Antístenes, Cleantes, Crísipo, Clitodemo, Critóbulo, Diógenes, Fílon, Antíoco, etc As Doxografias de Teofrasto, Antístenes; o jovem, Antígono de Caristo, Sátiro, Sósion, Sosícrates, Hêrmipo, Heráclides, etc Os periplos de Eudóxio, Piteas, Ciláx, etc O cânone de Polikleitos, os planos de Ifictinos e Callicrates, etc, etc, etc Tudo muito bem disposto e catalogado em uma ou meia dúzia de Bibliotecas - De modo a atravessar os séculos, os milênios ou as eras e chegar até nós...

E no entanto...

Que podemos ler de tudo isso...

Praticamente nada.

Isso mesmo - Umas oito peças de Ésquilo, entre sete e nove de Sófocles e não mais que vinte de Eurípedes. Um fragmento considerável de Éforos e seu Mapa mundi em Cosmas Indicopleutes, trinta e cinco livros de Lívio i é cerca de 25%, alguns mapas estelares de Hiparco recentemente recuperados, um diálogo lacunoso de Esquines > É praticamente o que temos das obras acima citadas! E menos teríamos não fossem os preciosos papiros de Oxirrinco, aos quais tanto devemos em termos de literatura clássica, bem como os rolos carbonizados de Herculano, os quais são para nós como que duas janelas postas para nossa cultura ancestral.

Que teria ocorrido então...

De um lado os povos germânicos... os quais por diversas vezes incendiaram a capital do Império com suas quarenta Bibliotecas, sendo que a primeira foi organizada por Asínio Póllion sob os auspícios de Júlio César ou de Otávio. 

A outro foram as hordas dos sarracenos saídas dos desertos. 

E o Epílogo dessa triste história foi a destruição da grande Biblioteca de Alexandria, no século VII, por Amr Ibn al As, sob as ordem do califa muçulmano Omar ibn Katab - "Caso os livros sejam contrários ao Corão, devem ser lançados ao fogo, caso estejam de acordo com o Corão, ao fogo com eles, pois o Corão basta a si mesmo." Tais as palavras com que foi consumado o maior atentado cultural já cometido em toda a História.

É como se naquele ano a Humanidade tivesse seu cérebro extraído, declarou um autor. Foram séculos de atraso cultural, sentenciou outro. Pois fomos simplesmente alienados de nossas raízes... 

Posteriormente, o que havia sobrevivido em Constantinopla foi paulatinamente destruído pelos iconoclastas, pelos cruzados (Em 1204) e por fim durante a tomada da velha capital por Maomé IV em 1453... 

Eis porque não devemos estar seguros de que o quanto chegou até nós esteja seguro e venha a ser conhecido pelas futuras gerações.

Pois não se trata duma questão de técnica mas antes de tudo de uma questão de cultura, de amor, de pertencimento, de identidade... E essa identidade ou sensação de pertencimento esta seriamente ameaçada por diversas correntes ideológicas. 

Assustador observar como o número de estudiosos dedicados ao estudo dos clássicos tem diminuído geração após geração seja na Alemanha, na França, na Inglaterra ou nos EUA - Basta comparar o número dos que florescem atualmente com o número daqueles que floresceram no século XIX ou mesmo no curso do século XX. 

Vários os fatores que contribuem com essa calamidade. 

Antes de tudo o fechamento dos cursos de latim e grego, sob a alegação de que não trazem proveito imediato algum, de que não são práticos ou lucrativos. O primeiro e mais rude golpe, não nos enganemos, procede do Mercado ou dos interesses financeiros, pragmáticos e, numa palavra, profissionalizantes > Top é dirigir a molecada ao universo digital ou a contabilidade (sic). Apresentar-lhes Virgílio, Horácio, Ovídeo, Estácio, Tíbulo, Marcial, Lucrécio, Lucano, Catulo, Propércio, Arquílogo, Hesíodo, Homero, etc é pura perda de tempo...

O desastre aqui é duplo: Tais obras ficam cada vez mais abandonadas e desconhecidas do grande público e o grande público cada vez mais inculto, bárbaro e massificado - Pura intencionalidade política a serviço interesses financeiros e\ou credais...

Observe-se a tendência reinante no Estado de São Paulo - Profissionalizar a juventude ou ministrar-lhes uns cursos bastante sumários nos pisados termos do positivismo: Ler, escrever, contar, somar e conhecer algum modo de fazer ou técnica. Nada além - e o resultado é a eliminação o a diminuição do conteúdo humano, crítico e reflexivo de tais cursos. Nos quais é negado ao sujeito o direito de pensar solidamente, de formular juízos éticos ou de posicionar-se diante de um fenômeno estético como uma obra de arte. 

Não ignoro, que infelizmente, o curso de Filosofia e as demais humanidades, estejam, em sua maior, parte contaminados pelo pós modernismo, e isso com pleno assentimento da esquerda cirandeira. Concedo que a orientação ideológica de tais cursos, quando oferecidos por instituições públicas ao grande público, deva ser exaustivamente discutido ou problematizado. De modo a abrir algum espaço que permita a retomada dos clássicos e da Filosofia perene. Subtrair tal conteúdo é, a meu ver, a pior das soluções possíveis. Por que não resgatar e introjetar qualidade ao invés de eliminar...

Outro aspecto lastimoso da questão é o empenho do Mercado em cooptar as mentalidades mais brilhantes para o domínio das finanças ou ao menos para os setores considerados como mais valiosos e lucrativos. Afinal dedicar-se ao estudo e intepretação dos clássicos, via de regra, não é nem um pouco lucrativo, em que pesem os esforços. 

Do outro lado, das massas alienadas, temos Caríbdes: Habitualmente as mentes mais rasteiras, cooptadas por alguma das diversas seitas protestantes ou bíblicas, não apenas preferem estudar os livros judaicos do antigo testamento, como manifestam imenso desprezo para com tudo quanto envolva nossa herança clássica, a começar pela Mitologia. O que justificam pela disparidade religiosa...

Com efeito, desamparados pelas instituições escolares, e premidos; a um lado pelas necessidades e esforços econômicos - Num contexto cultural economicista, e a outro pelo fundamentalismo sectário, os estudos clássicos tem declinado ano após ano desde o século precedente.  

Então a pergunta que se faz é qual seriam, futuramente, os efeitos de tal abandono.

Abandono que alias, atinge já, os clássicos de nossa lingua. Especialmente por parte dos fanáticos religiosos e sob a mesma alegação: Nos recusamos a estudar seriamente as obras de um Antonio Vieira, de um Manoel Bernandes, de um Heitor Pinto, etc porque eram padres... 

E pelo mesmo caminho se vai> Um intolerável desprezo por um Dante, um Cervantes ou um Camões pelo simples fato de não terem sido protestantes...

E se o ideal do islamismo é arabizar temos que o protestantismo já angliciza ou germaniza, apartando-nos de nossas raízes greco romanas...

Mas quais serão os resultados de tal desprezo...

Aquele que ao invés de apegar-se aos elementos de sua cultura e valoriza-los, ousa permuta-los, tendem a tornar-se cada vez mais volúvel.

Quero dizer que se alguém está disposto a anglicizar-se ou a germanizar-se por quaisquer motivos que sejam não pensará duas vezes antes de arabizar-se, desde que julgue ter motivos para tanto...

Quem não mostra mínimo amor ou afeto pelos elementos de sua cultura, dificilmente estará seguro no seio de uma cultura que não lhe pertence. E será um peregrino ou vagante.

Por um lado corre a cultura grande risco - O risco de perder-se ou de perder seus conteúdos, exatamente como sucedeu durante a crise do Império romano, quando parte de nossa cultura ancestral foi perdido para todo sempre... E corre-se o risco de perder-se o homem, desumanizando-se, despersonalizando-se, barbarizando-se. Pois é uma via de mão dupla.

A um lado intensifica-se a massificação, por falta de contato com as fontes da cultura ancestral, e a outro se vai dando a perda dos elementos culturais, pelo abandono material ou a falta de trato. Na medida em que as Bibliotecas, Museus e Teatros vão sendo abandonados, se vai perdendo nossa Paideia, e nossa consciência, e nosso espírito e nossa identidade - Somos em parte Europeus e greco romanos, é um conteúdo precioso que faz parte de nossa ancestralidade, de nossa História, de nossas raízes... 

Podemos discutir pormenorizadamente as condições em que se deu o contato dos espanhóis, portugueses e particularmente ingleses, com os povos da América, com os povos pre colombianos, com os Maias, Incas, etc Se de fato tivemos uma invasão e em que termos se deu ela... Bem como sobre a relevância de certos elementos culturais oriundos da ancestralidade indígena... 

O que não considero justo ou honesto é tudo misturar e, consequentemente confundir, uma vez que tais invasores sequer pertenceram ao contexto do Cristianismo antigo ou apostólico, quanto mais ao contexto cultural pre Cristão greco romano. 

Por fim, no contexto de uma cultura que é necessariamente sintética, e ao menos em parte, tributária da Europa, do Mediterrâneo, da Itália, da Grécia e ainda do Egito e da Mesopotâmia, não vejo porque abdicar desse elemento ou desprezar esse conteúdo - Pelo contrário o que vejo é a extrema necessidade de retoma-lo e de tornar a valoriza-lo justamente com o propósito de opo-lo, alternativamente, as ideologias e culturas de morte procedentes dos EUA ou da Europa contemporânea.

Tal o propósito de nossos esforços nos campos da reflexão e das artes. 

Por meio da realização de eventos culturais em nossa região (Como a encenação dos clássicos da dramaturgia grega.) e também de aulas, palestras, vídeos, material escrito, etc Este Blog e o presente artigo corresponde a uma dessas iniciativas, todas, sem exceção gratuitas e sem qualquer ônus para os interessados - Nosso único interesse é coloca-los em contato com as fontes da nossa cultura, sejam gregas, romanas ou ibéricas. 

Dispondo de certa estabilidade financeira jamais pedimos qualquer contribuição financeira a nossos leitores. Isto num contesto em que agiotas da fé, explotam a boa fé alheia traficando 'milagres' e amealhando imensas fortunas! 

Sendo assim que te pedimos em troca amigo leitor...

Tudo quanto pedimos a si é que, caso confie em nossa cultura e seja simpático a nossa proposta, compartilhe nossos artigos com seus contatos e obtenha aderentes para nosso humilde jornalzinho... Se é amigo da nossa cultura, por favor, preste-nos seu apoio e divulgue este material. Desde já nosso abraço e votos de paz e bem a si e aos seus!

Nossa Biblioteca jamais será queimada ou reduzida a pó!!! Não haverá segunda edição dos catástrofes de Roma, Alexandria e Constantinopla!

quarta-feira, 11 de março de 2020

A escola pública e o proselitismo 'oculto'

NÃO versa este artigo sobre as aulas de religião na Escola pública, as quais me oponho decididamente, seja qual for sua forma. E caso me fossem atribuídas tais aulas delas declinaria... Aqui dou razões aos anarquistas e comunistas (O que aliás raramente faço!) - Neste caso por que não aulas de economia ou de política? POR QUE priorizar a religião ou a fé se temos imenso déficit de conhecimento político básico, em termos de formas e estrutura, como sistemas, regimes, Constituição, etc???

Aulas de teoria Política e de Psicologia seriam bem mais úteis aos adolescentes, aos pequeninos elementos se Sociologia e Filosofia seriam infinitamente mais proveitosos. Com Fustel de Coulanges compreendo o poder e a força social das Religiões, mas como economia e política factual é coisa que já se aprende nas aulas de HISTÓRIA ou GEOGRAFIA HUMANA.

Não examinei teor da decisão do STF (Não repeito DOGMAS 'seculares' pois dogmas só  vão bem com a religiosidade ou a fé!) a qual como disse oponho-me com base nas alegações acima. Creio todavia que não deve autorizar ensino confessional nas escolas públicas, assim o proselitismo. Penso que a educação pública ainda não tenha sido assaltada pelos pastores protestantes...  Ao menos com o apoio do poder público ou do STF. Em que pese os esforços malignos deste governo norte americanizantes e vendido aos charlatães bíblicos.

O proselitismo oculto a que me refiro, enquanto elemento sutil porém perigoso, outra coisa é.

Por isto narrarei genericamente um fato do qual tomei parte, já há algum tempo, na Escola estadual Paulista de que faço parte, como professor concursado ou efetivo já há quase quinze anos.

A narração será genérica já por respeito as atuais diretora e coordenadora, as quais em parte deram-me razão e compreenderam meu ponto de vista, além de terem feito um legítimo contraponto e me convidado, elas mesmas, para que eu examinasse o dito projeto sendo posto em prática.

Por isso não posso denunciar qualquer coisa ou trazer tais fatos a público, o que de outro modo já teria feito. Porém, por questão de justiça, tenho de examinar os fatos mais de perto e assim as alegações da outra parte.

Servirá no entanto, quanto aos traços gerais, para suscitar uma reflexão e orientar todos os professores numa grave questão de cidadania, da qual depende a sobrevivência ou não da própria democracia.

Há tempos algumas alunas 'Caxias' - Cujas identidades preservarei até o fim e jamais divulgarei - vieram até mim e disseram estar incomodadas porque sendo de cultos africanos tinham, ao fim de certo projeto, ouvir umas preces em nome de Jesus (Devo dizer que sou Cristão e adoro Jesus.) e parece alguns versos bíblicos. Estavam elas, como é natural constrangidas e isto me alarmou.

Imaginei se eu ou filho meu lá estivessemos, numa classe pública lotada e alguém lá fosse falar sobre Maomé e depois convidar-nos a recitar a fatiha...

Passou algum tempo. Eis senão quando vou entrar em minha aula é imediatamente antes de mim entra este grupo de projeto que fora acusado... Pelo sim pelo não, tendo em vista certos precedentes relacionados com outra equipe gestora, solicitei a inspetora que os fizesse sair para que pudesse entrar e ministrar minha aula - Direito meu. Adicionando que em caso de necessidade faria um BO.

Até aqui tudo bem. Sucede que perto da inspetora se achava um aluno do tipo 'crente fanático' o qual dirigiu-me a palavra apenas pata declarar que os religiosos tinham pleno direito de orar e pregar nas escolas públicas caso os alunos quizessem. QUAIS ALUNOS? TODOS??? Mencionei as leis, a CONSTITUIÇÃO, etc com o objetivo de esclarecer o dito jovem sobre a coisa pública, o laicismo, etc Ele no entanto mostrou-se irredutível e inclusive ergueu a voz, como típico é dos sectários... Respondendo eu no mesmo tom. ATÉ QUE os voluntários religiosos deixaram minha sala e lá pude entrar..


E nem havia iniciado minha aula quando me vem a Sra coordenadora querendo falar comigo. De fato pouco receptivo fui e até aspero tendo em vista o histórico da Unidade e os fatos imediatamente ocorridos, alias supondo que ela, a coordenadora, tentaria enfiar o tal grupo em minha sala. Iniciou-se uma discussão que lá foi parar na sala da Direção.

A diretora, aliás educada e paciente, tentou entender e esclarecer a situação. Relatei a denúncia feita pelas alunas sobre orações confessionais, aliás protestantes e possível citações de sei lá que versos bíblicos e declarei irredutível que tal era violação de consciência e crime contra nossa lei maior, a Constituição.

A coordenadora, aliás espírita, disse que a dinâmica em si nada tinha de religiosa ou credal mas que no entanto após o término havia uma espécie não de 'oração', com esse nome, mas uma reflexão em que cada aluno se dirigiria ao Sagrado nos termos da sua própria religiosidade... A qual insistia ela tinha outro nome...

Repliquei declarando que o nome era indiferente se a prática era a mesma e havia uma oração confessional, mencionando bíblia, Jesus e com mínimo conteúdo protestante ou exemplo de formas tipicamente protestantes fornecido pelos organizadores.

Como de praxe declararam que na sala ninguém era obrigado a aderir a reflexão e que sendo ela livre não violava a consciência de quem quer que fosse.

Respondi que está atitude era discriminatória e que certamente constrangida os possíveis irreligiosos, ateus, etc Politeísta - pois certamente ali não se falava em deuses... muçulmanos, etc mesmo aqueles que se sentem incomodados pelos gritos e berros dos pentecostais...

Claro que chegando aqui - FUI irredutível por questão de justiça - foi me assegurada a liberdade de cátedra dada por lei e nem me preocupo com Conselho, Equipe gestora, etc caso destoem da Lei maior da Constituição, garantia da liberdade de Consciência e da igualdade entre todos os cidadãos.

Por fim indagaram a respeito de meu manifesto nervosismo. Foi quando me referi ao jovem fanático, a respeito do qual elas certamente já sabiam porque - Pasmem! - ele, muito provavelmente, já se antecipara a mim, indo a diretoria denunciar-me por defender o laicismo e a Constituição e os direitos da Consciência livre. AGORA PAREM E ANALISEM ESTA POSSIBILIDADE MONSTRUOSA... Aquele jovem certamente cria que aquele espaço público, mantido com nossos impostos, fosse propriedade, líquida e certa, da seita ou grupo a que pertence!!! ONDE CHEGAMOS...

Terminei minha entrevista com a equipe gestora declarando em alto e bom som que quando ingressei naquela unidade há doze anos, pouco mais pouco menos, a equipe gestora (DIRETOR E VICE) não apenas cediam o espaço escolar para diversas organizações religiosas protestantes - A ponto de converte-se numa seita de células aos sábados e Domingos - como promoviam shows gospeis, palestras confessionais e mesmo cultos em pleno periodo letivo e com ampla atividade proselitista, com grave dano a CONSTITUIÇÃO, digo a lei. ISTO ocorreu numa Escola pública do Estado de São Paulo a partir de 2007 e há sobejos testemunhos ja de alunos que se sentiram incomodados, ja de professores que la trabalharam, nessa Escola dirigida por um fanático truculento...

Ora, alguns colegas até gostavam de ceder suas aulas a esses doutrinadores religiosos. Nem todos e menos ainda eu. Porém por fragilidade, estando no probatório e temendo retaliações, não pude denunciar - Ademais temia pelos demais, fossem alunos ou funcionários e havia ali um espirito SECTÁRIO e inquisitorial, bastante conhecido por mim...

Dai minha prevenção contra este novo projeto, do qual se haviam queixado duas meninas.

Até aqui os fatos. SEGUEM AS REFLEXÕES -

Sendo a prece ato pessoal dos que creem não há como os indiferentes ou incrédulos não se sentirem constrangidos. Assim como cristão devo fazer justiça aos ateus e incrédulos e reconhecer-lhes o direito de não querer participar de preces ou sequer presencia-las em espaço público. Posto que tal viola o santuário divino da Consciência.

Um ateu ou incrédulo tem pleno direito de sentir-se incomodado por uma prática cujo sentido desconhece ou ignora.

Mas há ainda os religiosos que não desejam fazer preces inter confessionais - Testemunhas de Jeová, 'Católicos' tradicionais, Adventistas, Mórmons, muçulmanos, hindus, etc decididamente tais grupos não desejam rezar na companhia de pentecostais fanáticos ou a moda deles porquanto as concepções de prece são diferentes.

Consideremos ainda que em tais classes ou salas os pentecostais costumam a sentir-se mais a vontade para rezar em público, como se estivessem em suas seitas e podem se por a berrar e gritar em alta voz como já presenciei. Para outros a prece é mais sóbria, interior, recatada... E as vozes e pensamentos deles ficam abafados pela gritaria pentecostal... QUE FAZEM DAS PRECES UM MEIO DE PROSELITISMO, por berra-las.

Ademais eles bem podem ser instrumentalizados pelos pastores neste sentido (Ex protestante fui criado nesse meio inescrupuloso.), a ponto de nessas preces ingênuas ou comuns produzirem um clone tipicamente pentecostal ou sectário.
Manipulam assim uma 'reflexão' a princípio voltada apenas para o Sagrado e inter confessional. Colocam isso no papel mas na prática podem distorcer, e exercer um proselitismo oculto ou sutil.

Daí surge fatalmente a revolta, por parte dos não crentes, conflitos, problemas, discriminações e preconceitos como já testemunhei. O que é deseducativo e choca-se com a harmonia que deve reinar no ambiente escolar. Para além disto disseminam ideias anti científicas e anti filosóficas como criacionismo, terraplanismo, etc Além de conteúdos moralistas e puritanos ou mesmo teocráticos e anti democráticos; o que dificulta imenso o trabalho escolar.

Por isso sou decididamente contra as preces em ambiente escolar, mormente quando promovidas por algum grupo religiosos, e, particularmente contra preces feitas e classe ou salas de aula.

Seria menos agressivo ou invasivo caso algum membro da equipe gestora apenas convidasse, a hora da entrada, quem quisesse - Sem convocação ou fila - para parar e recitar o Pai Nosso ou fazer uma prece silenciosa no pátio, enquanto os demais iam diretamente para suas salas... Aqui se poderia apelar a cultura ou ao costume e não haveria constrangimento. Mas poderia abrir precedente para justificar outras coisas, como a oração em sala...

Nós no entanto preferimos que a letra da Constituição ou da Lei seja observada, e que evento religioso ou prece alguma seja realizada em espaços institucionais, especialmente quando existem elementos proselitistas. Assim dentro da convivência vai bem o respeito.

Concluo dizendo que vivemos um momento arriscado ou delicado em que os pastores e suas ovelhas apoiaram este governo com o objetivo de obter vantagens e benefícios, como poder político ou a possibilidade de invadir e tomar nossas escolas públicas, consolidado seu poderio. Eles parecem querer usar a educação pública com o objetivo de converter nossos jovens e crianças e estabelecer uma teocracia moralista.

Há cento e trinta anos tiramos a educação das garras da Igreja Romana para torná-la laica e democrática ou para coloca-la nas unhas desses pastores enviados pelos EUA??? Caso nossos ancestrais tenham lutado para que a educação fosse, ao fim do processo, entregue a uma agremiação ainda mais insidiosa e mesquinha do que a Igreja Romana foram perfeitos idiotas, pois ao menos a Igreja Romana, com seus Pai Nossos e Ave Marias, fazia parte de nossa cultura... Que se deixasse tudo como estava. O que nossos ancestrais conquistaram em 1891 - A Escola laica, fundamento do Estado democrática - religosamente mantenhamos.




sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Produção de consciência e sua descontinuidade no curso da HISTÓRIA humana.

Breve será o objetivo deste artigo, destinado a confrontar os sistemas ou ideologias que jamais produziram ou que cessaram de produzir a consciência social, enquanto elemento aglutinante da cultura.

Anarquismo, Comunismo, Fascismo, Nazismo, Islamismo, social catolicismo, protestantismo, o PT (rsrsrsrs) dentre outras tantas propostas não implementaram a Mimesis, continuando a digladiar-se, tendo em vista a direção totalizante ou integradora de nossas sociedades em Crise.

O comunismo a princípio, encarando a organização partidária como um veículo antes de tudo educativo\formativo e portanto tal e qual fora idealizado por Marx e Engels, foi bem sucedido, começando a ocupar os espaços desguarnecidos pela Cristandade estagnada e inoperante. Todavia na mesma medida em que, com o 'revolucionário' Lênin, torna-se vitorioso, podemos observar o organismo do partido tornando-se cada vez mais político e controlador, alias na linha da mesma violência física deflagrada pelo processo revolucionário. Neste momento a prioridade passa a ser a conservação do poder, sicut Machiavelli e 'Il principe'... Cessa o esclarecimento ou a produção de consciência ou não satisfaz a nova demanda (Por não se ter concentrado nela ou simplesmente pecado por tentar adiantar o processo histórico e ignorar a força das estruturas - Especialmente culturais!). E a URSS colapsa ao cabo de setenta anos. Talvez a exceção da pequena Cuba, onde o comunismo é ideológica e culturalmente reforçado por uma justa tradição anti imperialista ou N Americana desenvolvida por Jose Marti, todas as sociedades comunistas mantenham-se apenas superficialmente, por via de um controle externo ou físico, donde resulta sua extrema vulnerabilidade.

Seria interessante oferecer um estudo mais aprofundado sobre o tema da Revolução cultural chinesa, o qual salientaria a complexidade do problema. Por absoluta falta de espaço não podemos oferece-lo agora. Mas recomendamos esta linha de estudos, especialmente aos que acreditam apenas no padrão externo da força ou do controle estatal para manter um grupo social coeso.

O anarquismo, especialmente nos EUA, onde foi contaminado pelo individualismo (cf Murray Bookchin) converteu-se em apêndice daquela cultura, a qual espera que avance na linha do minimalismo crasso. Reverteu assim em anarco capitalismo, corrente a serviço da ideologia dominante, a qual acredita dever levar adiante como herdeiro, e não se sai disto. Em outras partes, como Europa ou França assumiu um aspecto psicologista, irracionalista, subjetivo e em parte individualismo, até ser assimilado pelo pós modernismo, disto resultou uma fragmentação sectária em torno de tipos - O negro, a mulher, o homo afetivo, a criança, o ecossistema, etc que fogem a qualquer integração, e o estereótipo do rebelde sem causa, apenas disposto a gastar as energias da juventude ou a promover a violência pela violência, a luta pela luta... até chegar a agressão gratuita, que reporta as fontes do inconsciente. Tal o quadro geral de um anarquismo que pecou contra a racionalidade e apartou-se da salutar noção de municipalismo, fundamento da policracia ou democracia direta, a qual parecem ter perdido completamente de vista. E é um quadro desolador...

O fascismo e nazismo com a mesma petição a força, inda que militar ou conservadora, presente no comunismo, no islã e no protestantismo sectário, jamais lograram em produzir consciência ou em forma-las, desdenhando ou mesmo deplorando qualquer tipo de esforço educativo\reflexivo que ultrapassasse as fronteiras de um cientificismo\positivismo, acrítico, servil e abjeto. O padrão da força, do poder ou da violência sempre temeu as expansões da consciência livre e disposta a resistência, como demonstra aquele processo levantado por Anito, Melito, Licon e Diopeites; com o apoio velado de Aristófanes, contra o mestre de Atenas. Então o 'Converte ou morre' do islã com suas espadas e ameaças produziu apenas um sistema de controle eficiente, por rotineiro. O que ali se observa em termos de cultura é a impermeabilidade do Estado a uma educação livre, científica ou reflexiva, um terrorismo antes de tudo anti educativo, destinado a aprisionar as mentes. Há uma unidade cultural, mas, apenas imposta pelo poder arbitrário com absoluto sucesso, um treinamento multi secular, através do qual as pessoas foram domesticadas. O que se vê ali não é processo interno de ascensão da consciência livre e uma associação livre de pessoas.

Outro e específico o caso do protestantismo, o qual jamais logrou a produzir (Nem mesmo na Santa Genebra de Calvino onde o controle do poder colapsou tal e qual na URSS) ou reproduzir na Europa a mesma cultura bíblica ou israelita do século VII a C, tendo de perseguir este ideal horrendo na Inglaterra de Cromwell e enfim nos EUA onde foi apenas relativamente ou em parte bem sucedido, de modo que os radicais, como apontou Décio M de Lima nos 'Demônios', tiveram de migrar para o Brasil, onde trabalham neste exato momento com o objetivo de sabotar nossas culturas e substitui-las por aquele projeto.

De fato o protestantismo produziu um dos mais poderosos éthos ou espíritos de todos os tempos, a exemplo do budismo, do Cristianismo, do Islã e do Comunismo, o qual no entanto, por mais turbação que tenha causado, dispersou-se e jamais logrou realizar por completo, por ser a História, ao menos em sua totalidade de formas irreversível e o protestantismo bíblico, ortodoxo e sectário esse olhar utópico de resgate voltado para o A T ou para qualquer fase do judaísmo pré Cristã. Ademais, reforçando a negação do mundo, assim o maniqueísmo, o neo platonismo e outras forças, ele representou, ao menos a princípio, enquanto luteranismo e em seus ensaios, mais um elemento negativo ou o decidido abandono de um ideal Cristã tradicional vinculado a concretude ou a transformação do mundo, cujos imperativos partem da própria crença na Encarnação de Deus {Nada mais miserável do que um comunista apontar-nos isto, a nós Cristãos luteranizados e adormecidos!). Assim o protestantismo, negando-se a inserir-se no mundo e opondo-se a ação dos Catolicismos abre brecha para a produção de um novo tipo de cultura, a qual não dirige (Indiretamente ou por orientação Ética) mas com a qual colabora ativamente. O protestantismo aceita colaborar com o novo espírito do liberalismo econômico, a batiza-lo, a crisma-lo e a servi-lo, sancionado-o no plano da cultura. E assim se integra a ele como elemento da nova construção cultural, iniciada na terra 'Virgem' (De herança clássica ou católica) dos EUA. O resultado disto é a produção de um novo tipo de consciência - o mais recente - a consciência ou cultura americanista, fundamentada no Capitalismo, porém, como já foi dito, com a colaboração ativa do protestantismo, num segundo plano, e de alguns outros elementos. O protestantismo tomou parte na construção deste novo padrão de consciência e dele faz parte, ainda que subordinadamente.

O social Catolicismo, surgido no século XIX, apesar de deitar raízes no século anterior e de representar enfim toda tradição anterior, antiga e medieval, bem como a própria consciência e cultura do passado não logrou afirmar-se entre os neo Católicos luteranizados. Falhou quanto a contagia-los, eletriza-los e mesmo em constituir-se como grupo majoritário destinado a comanda-los. Contou com as melhores e mais nobres almas, chegou a antecipar o justo clamor dos comunistas, mas não impos-se e não vingou como consciência ou forma de cultura, isto a ponto de, no tempo presente, a grande massa de neo Católicos ignorar a Doutrina social ou não leva-la a sério, pelo simples fato da hierarquia religiosa não te-la tornado rigorosamente impositiva, a exemplo das moralidades privadas e inúteis. A maior parte do clero não conheceu e menos aina valorizou esta corrente que é essencial.
A resistência dos neo Católicos foi insuficiente, de modo que o americanismo ou a consciência capitalista ultrapassou suas fronteiras, invadiu nossas sociedades e instalou-se nelas, nem sempre nos lombos do sectarismo protestante, mas, as vezes nas espaldas dos liberalismos ou do positivismo acrítico.

Disto resulta a puerilidade de criticar um simples partido como o PT por não ter produzido cultura nos governos Lula e Dilma, limitando-se a criar consumidores e a promover melhoramentos gerais. Devemos no entanto deplorar que sequer tenha tentado faze-lo, demonstrando vergonhoso conformismo e admitindo alianças nem sempre recomendáveis, assim com os próprios fundamentalistas como o Crivella. Tampouco é Bolsonaro fascista, nacionalista ou qualquer coisa tanto mais profunda do que um pires, no sentido de possuir ideologia, cultura ou consciência. Imaginar Bolsonaro como homem de espírito é não ter espírito... Limita-se ele, por necessidades práticas e instigação dos a aderir ao modelo vigente nos EUA. Não passando de imbecil útil, a favor de uma cultura exógena.

Então onde e quando essa integração cultural, Mimesis ou ascensão Ética verificou-se na História humana. Sem a ascensão Ética, recentemente, lá nos EUA, sob os auspícios de um economicismo ocultado pela religião morta.

Com ascensão Ética e brilho em apenas três oportunidades: No Extremo Oriente por meio do Budismo e do Confucionismo. E esta Constelação manteve-se, ao menos em parte, até meados do século XIX, com a Rebelião dos Samurais e a morte da imperatriz Tsu Hsi. Basta dizer que estes sistemas plasmaram as sociedades do Japão e da China conferindo-lhes por séculos a fio uma coesão e estabilidade que mais para o Ocidente identificamos somente no Antigo Egito. A coesão e estabilidade do antigo Egito giravam em torno de um princípio mais simples: Uma religiosidade essencialmente conservadora, reforçada por uma territorialidade fechada, ou vice versa, como quer Weber. Ali no entanto houve continuidade de algo cujas origens se perdem nos tempos e não a produção de algo que podemos acompanhar historicamente, como no caso do extremo Oriente.

A segunda construção é de matriz racional ou metafísica e naturalista. Diz respeito a antiga Grécia, relaciona-se com a afirmação do conhecimento filosófico e atinge ou conquista o Império romano (E com ele todo circuíto do Mediterrâneo). Inda que a princípio variada esta construção acabou consolidando-se em torno das figuras de Sócrates, Platão, Aristóteles e do legado Humanista transmitido por eles. Prevaleceu ela por quase mil anos, até a queda do Império romano, embora para muitos jamais tenha saído de cena mas sido assumida pelo Catolicismo ou pelo Cristianismo antigo, já na construção da Teologia, já quanto a afirmação de certos postulados Éticos, pelo que poderíamos postular certa continuidade em torno de objetivos como a superação da fragmentariedade e a busca por uma unidade essencial. Para alguns analistas este devaneio grego ainda estaria em marcha através de sistemas ideológicos progressivistas ou escatológicos que não passariam de um Cristianismo secularizado, do que resultaria a possibilidade de um paraíso aqui na terra resultando ele quer da posse dos meios de produção pelo proletariado, do progresso técnico científico, do poder do Estado\lider, do Mercado, da eugenia ou purificação da raça, etc...

A Terceira grande Mimesis ou produção, em larga escala, duma consciência comum, deve-se ao Cristianismo, como continuador ou substituto do Socratismo ou da cultura clássica. Tendo prevalecido com sucesso, por mil anos, em Bizâncio, formação político cultural importantíssima e que deveria se estudada com maior atenção pelos ocidentais e no Ocidente europeu até o fim da Idade Média ou o século XV. Claro que aqui se trata duma reconstrução após a derrocada do grande projeto romano, a qual jamais foi satisfatoriamente realizada devido a sombra do Islã e que por fim foi por completo frustrada pelo advento da reforma protestante, ocasião em que uma Europa totalmente convulsionada sai dos trilhos e entra numa crise interminável (Que se prolonga até hoje). E por ter surgido, a par das diversas culturas de morte ou ideologias, uma nova forma de consciência (Rival da antiga) na América, acentuou-se ainda mais o conflito. Resta concluir que das Idades antiga e média, a partir delas, não houve um desenvolvimento orgânico mas uma drástica ruptura, e que os elementos, princípios e valores tradicionais, ali presentes e comunicados pelo passado foram abortados. O projeto Cristão Católico, desfigurado em parte pela brutalidade medieval, legado pelo socratismo permanece até hoje inacabado. O trágico é que ele representa a expansão da Encarnação do Verbo - desta vez a nível social! - ou a Encarnação de sua palavra (O Evangelho) sob os auspícios do Espírito Santo, sempre em comunhão com a vontade dos homens bons.

Nós, os amigos de Sócrates, acreditamos na retomada deste projeto.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Curso de Política I - Voto: Entre a abstenção e o pensamento mágico.

Nada mais icônico do que a propaganda dos T. E.s sobre a importância do voto no rádio e na TV. Tem certo ar de misticismo ou melhor de fetichismo que chega a repugnância. É sem dúvida algo que baralha a realidade e mistifica.

Querem passar a impressão, leviana; de que ser cidadão resume-se em votar i é em ir, obrigatoriamente, de quatro em quatro anos participar do ritual de transferência de poder que sanciona o 'status quo'. Querem passar a impressão de que votar tudo é e tudo resolve e esta impressão é perigosíssima.

Não nos enganemos, votar é um detalhe, quiçá ínfimo. É algo que faz parte da política ou melhor da cidadania, mas que não pode esgota-la.

Votar nem nos converterá em cidadãos nem solucionará todos os nossos problemas. Faz parte, não é tudo.

Alias devemos aproveitar a oportunidade para salientar a monstruosidade do voto obrigatório num contesto democrático.

O que por sinal corresponde a uma intencionalidade, e a uma intencionalidade política - Impedir ou travar a consolidação de uma política consciente e cidadã.

Afinal aquele que vota por força da lei, obrigado, revoltado...Votará de qualquer jeito ou em qualquer um, quando não venderá seu voto aquele que pague mais. Consolidado nosso coronelismo enrustido e alimentando ainda mais a venalidade e a corrupção.

Da obrigatoriedade do voto é que resulta este mercado ou melhor a oferta de eleitores que se vendem e podem ser facilmente comprados. A massa se vende porque não vê motivo algum para votar... porque não vê sentido nesta ação... E não vendo sentido esculacha, votando no tiririca ou mesmo num bode.

No outro extremo temos os abstenceístas, muitos dos quais anarquistas.

Nós, eles e os autoritários conscientes ou fascistas temos algo em comum: Reconhecemos as deficiências, mazelas, vícios e defeitos do sistema representativo elaborado por John Locke no século XVII. Democrata que não reconheça a fragilidade intrínseca da democracia representativa ou burguesa fantasia e não pode ser bom democrata. Nós, com os contrários, reconhecemos o problema.

Os anarquistas no caso acreditam que o sistema entrará em colapso por meio do abstenceísmo i é do voto nulo ou da não participação nas eleições. No entanto, o que vemos e percebemos é que, apesar das abstenções o sistema continua firme e forte, sem dar sinais de que esteja demasiadamente abalado ou prestes a cair. Os nulos hoje ainda não passam de 20%. Será que um dia chegarão a 80%??? Tenho motivos para duvidar...

No caso deles a abstenção ou seu sucesso levaria ao colapso do que chamamos macro estado. Mas quando Brasil ou Argentina dissolverem-se política e administrativamente que haverá de substitui-las? Pequenas agremiações regionais ou mesmo municipais a semelhança das antigas cidade estados gregas? O que inclusive facilitaria, sem dúvida, o exercício da policracia ou da democracia direta. É um ideal nobre - o da policracia - e do qual partilhamos, sem no entanto nos deixar enganar pela solução das cidades estado.

As cidades estado gregas, num determinado momento assumiram, em sua maior parte, a forma democrática. Foi algo belo e esplendoroso, mas nem tudo foram rosas. Pois havia, lá fora, um colossal Império persa a espreita. O trágico aqui foi que as cidades gregas não se conseguiram entender e formar uma Unidade contra o inimigo comum, o que gerou um impasse. Durante mais de século viveu a Grécia sob pressão daquele inimigo externo unificado. Até que Alexandre conquistou-o. Não sem antes unificar a força as cidades estado e, consequentemente erradicar a democracia, exterminando-as em seu próprio berço. Não poucos teóricos alegam que teve de imolar a democracia as necessidades da cultura. Pois fragilizada pela divisão e conquistada pelos persas a Grécia viria a compor o Império e a perder dua identidade cultural.

Foi uma opção dramática, e que até hoje não podemos avaliar serenamente.

Não se diga porém que inexiste um Império semelhante ao persa disposto a ocupar qualquer nicho ou espaço criado no planeta. Seria pura ingenuidade acreditar que as cidades estado do 'aquífero' não seriam assediadas por um inimigo externo poderoso e muito bem organizado nos tempos em que a água vai adquirindo tanto valor. Seria igualmente ingênuo asseverar que nossas cidades estado brasileiras ou bolivianas manteriam a concórdia ou conservariam algum tipo de unidade militar. Francamente falando, olhando para o Norte deste continente, não creio que a adoção do modelo grego convenha a América latina. Aqui temos de ser realista.

Por isso sou favorável, quiçá seguindo o exemplo de Bolivar e de José Bonifácio, a construção de uma democracia cada vez mais direta no contexto do macro estado. Quiçá através dos meios de comunicação digitais e a exemplo do Demoex da Suécia.

Abrir mão do macro estado no atual contexto bem poderia beneficiar a construção de um imperialismo colossal.

Outros tantos anarquistas, cientes de todos estes problemas, tornam a Bakhunin com seu evasivo - Não sabemos nem queremos saber que venha ser o futuro mas apenas destruir... No entanto é próprio do homem pensar o futuro ou melhor planeja-lo. Seja como for esta evasiva me parece fútil. Pois quem sabe se destruindo o que existe sem pensar o futuro não estamos preparando um futuro pior???Refletir e buscar soluções sóbrias sempre foi o caminho mais seguro para chegar ao melhor e o ser humano merece esta seguridade. Temos assim de oferecer algo ou alguma perspectiva com relação ao futuro e não me parece que o anarquismo esteja sendo bem sucedido neste sentido.

Já dissemos quando oferece alguma resposta sobre o futuro na melhor das hipóteses recorre a experiência grega em torno das cidades estado. Experiência que como vimos não deixou de ser problemática, como não deixa de se-lo no tempo presente. Dizemos melhor das hipóteses ou mais realista pelo simples fato de que parte dos anarquistas jamais furtou-se a quimera Stirneriana em torno de uma Não sociedade ou de agremiações de indivíduos, chegando aos confins do ANCAP...  Claro que isto não corresponde aos ideais de um Kropotkin ou mesmo de um Bakhunin, e no entanto ao menos parte deles tem cogitado na eliminação do que concebemos por Sociedade. Como se vê, a confusão entre as noções de Estado e Sociedade torna o problema ainda mais sério e abre as portas para o espectro do individualismo...

Já os autoritários, militaristas, absolutistas, fascistas, etc são pela eliminação da democracia e pela adoção de uma ordem hierárquica, autoritária e despótica. A solução não podia ser pior... embora seus teóricos conheçam, talvez até melhor que os anarquistas, os vícios e defeitos da democracia burguesa.

Não poucos dentre eles - digo parte dos fascistas -  tem exposto de deplorado a existência do que chamam plutocracia ou seja, de uma regime político ou de uma democracia a serviço de interesses puramente econômicos, do mercado ou do capital. A crítica não parte apenas dos Comunistas, mas de alguns fascistas, alias classificados como socialistas. Seja como forma eles acreditam que uma autoridade 'neutra' seja capaz de julgar a questão, de fazer justiça aos injustiçados, de conter as aspirações do Mercado e de cimentar a conciliação entre as partes instaurando uma 'paz perpétua'.

O problema aqui não diz respeito a suposta neutralidade classista ou econômica da autoridade em questão. Nem poderíamos negar a priori a existência de uma autoridade ética e voltada para o bem comum. O problema aqui é de ordem histórica, matemática e psicológica. Será prudente apostar que o titular de tão grande autoridade não se deixará corromper pelo exercício da mesma? Parece-me que para cada monarca virtuoso a História nos oferece o exemplo de mil psicopatas e degenerados como Heliogabalo, Tamerlão, Hitler, Stalin ou Bush. Não eu não acho prudente apostar no poder e na autoridade de um só e julgo que o poder absoluto corrompe absolutamente produzindo apenas monstros. Aqui os nobres e virtuosos correspondem a ínfima exceção, sendo coisa rara.

Para mim a solução pelo autoritarismo seria emenda pior que o soneto. E vemos já quem em nome da autoridade, da lei e da ordem queira sancionar a praga da tortura, que é um crime contra a humanidade.

Melhor que os homens partilhem a administração das coisa pública e se contenham uns aos outros.

Tornamos assim a solução democrática, em torno da participação, do gerenciamento comum do poder e da cidadania. Sem deixar de reconhecer que nossa forma ou estrutura é viciada e que deva ser alterada de modo a tornar-se mais eficiente e assim mais democrática.

Não é nem pelo individualismo e pela destruição, necessária, do macro estado e menos ainda pelo retorno ao despotismo que devemos sair da democracia burguesa, formal, parlamentar ou representativa mas por meio da democracia direta ou da policracia.

Nosso objetivo deve ser construir, na dimensão do macro estado, novos mecanismos capazes de ampliar a participação popular ou a cidadania, além é claro de empregar os mecanismos consagrados do plebiscito e do referendo com uma assiduidade cada vez maior. Devemos além disto priorizar a política de base resgatando o velho ideal do municipalismo, pois é na esfera do município que se torna possível um nível maior e mais profundo de participação.

Dentro desta perspectiva é claro que o voto acabará perdendo seu brilho artificial. Terá cada vez mais um peso relativo.

De certo modo o próprio abstenceísmo não deixa de presumir demasiadamente do voto e de emprestar-lhe muito importância. Pois aposta que o aumento dos votos nulos levará o sistema ao colapso.

O quanto podemos dizer sobre a realidade do tempo presente chega a ser simples - A propaganda posta em circulação nos meios de comunicação e que identifica a cidadania ou a política com o ato de votar é tendenciosa. Votar não solucionará todos os nossos problemas e isto pelo simples fato de que outros também votam, de que ignorantes e canalhas votam, de que as massas sem consciência votam... Assim, a cidadania pressupõem certo 'proselitismo' ou cerra dose de conscientização. Temos de discutir, de dialogar, de debater sobre política, temos de argumentar e de ganhar o outro, temos de persuadir o outro sobre a importância do voto cidadão, temos de nos engajar na política antes de dizer que a política não presta.

Platão já dizia que não se fará uma boa política sem a participação dos bons cidadãos. E é aqui que a abstenção, fuga ou omissão dos virtuosos enojados dará espaço e poder aos maus... Caso nos retiremos o preço a ser pago será sermos dominados pelos maus ou pelos inferiores, pelos ignorantes, pelas massas...

O Brasil é exemplo vivo disto.

Bolsonaro e seus apoiantes, assim como a sinistra bancada 'evanjéguica' correspondem a minorias ou a elementos minoritários muito bem articulados que auferem imenso benefício da abstenção por parte dos que não concordam com seus respectivos ideários. Pois bem, estas pessoas virtuosas e conscientes poderiam ajudar-nos a conter estas duas ameaças, mas preferem lavar as mãos como Pilatos e não participar, não interferir.

Digo mais. Com o apoio de tanta gente boa mas desiludida seria muito mais fácil transferir o poder para pessoas que não fossem apenas honestas mas que fossem aptas, digo bem informadas, inteligentes, capacitadas, hábeis, engajadas, etc Querendo ou não as nossas vidas são reguladas e atingidas penas decisões tomadas pelo poder político; e abstenção alguma muda isto. Querendo ou não as pessoas humildes, os trabalhadores, os assalariados, os jovens, as crianças, as mulheres e até os animais e o meio ambiente tem suas existências alteradas ou influenciadas, para melhor ou para pior, pela esfera da política institucional. Querendo ou não o que eles, os políticos profissionais, fazem repercute em nossas vidas sob a forma de qualidade ou de indignidade.

Diante desta realidade inegável fico perguntando-me se não seria melhor partir de princípios e valores saudáveis para escolher representantes leais, dedicados a justiça social, a promoção humana e ao bem comum??? Talvez eleger alguém com tais características seja fazer o mínimo ou alguma coisa. Digo eleger alguém que além de honesto, probo e impoluto seja também conhecedor da realidade social e aspire transforma-la, a partir de uma demanda ética. Agora na falta de semelhante pessoa porque ao invés de criticar e maldizer também não entramos nós na arena da política levando esta ética, estes princípios, estes valores???

Votar com consciência pode ser parte mínima e cada vez mais mínima, no entanto, mesmo assim, faz parte. Não alterará radicalmente as coisas, mas talvez ajude a impedir que elas piorem radical e aceleradamente. Talvez não possamos fazer todo bem que desejamos, mas sempre será possível conter algum mal.

Assim entre a abstenção e o idealismo romântico tomemos por critério um sóbrio realismo. Quem sabe fazendo pouco ou o mínimo seja melhor do que nada fazer ou que sonhar com futuros incertos e imaginários. Talvez abandonar esta forma precária e fragilizada de democracia e permitir que se degenere ao máximo venha a ser o caminho da mais abjeta servidão. Talvez sirva não a propósitos libertários mas a propósitos ainda mais totalitários, opressores, despóticos e tirânicos dos quantos se achem em operação no tempo presente. Afinal, ao fim da linha, que poderá saber quem ou o que substituíra o sistema que temos??? Quem poderá garantir-nos de que não sobrevirá algo ainda pior, mais sórdido e mais destrutivo???


terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Buscando responder algumas objeções levantadas II



Nos domínios do absurdo



Isto parece aterrador, não ter mais sentido... Diz meu amigo.



Não parece aterrador, bom amigo. É... Simplesmente é.

E já lhe digo que caso este sentido necessário, dependa de algo transcendente, também este algo transcendente fica sendo absolutamente necessário. Não somos responsáveis pela questão do materialismo e o tema do ateísmo tocarem ao sentido da existência ou melhor por essas ideologias destruírem o sentido, encaminhando o homem ao nihilismo, ao absurdo e ao desespero total. Até destruírem o homem, fazendo com que abandone decididamente uma farsa que jamais devería ter sido iniciada. Julgo alias que uma doutrina cujo o fim último seja a decepção, a frustração, o tédio, a auto alienação e a neurose, deva ser revista com todo cuidado.

É o caso do ceticismo crasso, é pura teoria, não serve para a vida, não tem sentido vital, não pode ser vivido ou praticado. Assim o nihilismo...

Aqui chegamos a Camus, com sua teoria do absurdo.

Pois o caos, o acidental ou o absurdo é que se opoem ao sentido.Caso abdiquemos do sentido temos de chegar a loucura. Afinal por que qualquer outro aspecto da existência teria direção ou sentido num quadro geral de absurdidade? Michel Foucault, Gatarri, Derrida e outros não brincaram quando tentaram quebrar as barreiras entre normalidade e loucura... Se tudo é absurdo como estigmatizar a loucura. Afinal condenamos a loucura em nome de um certo sentido a que chamamos normalidade. Os pós modernistas foram coerentes ao avançarem do absurdo a anormalidade generalizada ou a loucura. 


Não fica mal ao pós modernismo e o irracionalismo negarem o sentido, como negam a própria empiria e a própria ciência segundo suas respectivas cosmovisões.

O problema aqui é o cientificista, que - apesar de Kant - afeta objetivismo enquanto acesso a certa dimensão da realidade, encontrar-se com o irracionalista e pós modernista apenas para negar o sentido e canonizar o absurdo.

Levando o absurdo a sério


Aqui outra arbitrariedade uma vez que o pós modernista nega absolutamente tudo, mergulhando no subjetivismo crasso, enquanto que o positivista faz um recorte arbitrário e nega apenas o sentido geral da existência reservando o absurdo para o fim. Sem perceber que afirmando o absurdo metafísico torna sua própria ciência absurda. E pouco se nos dá que esse mesmo homem dê com os ombros e declare: Eis tudo que temos! Afinal a ciência no tempo presente é privilégio de uns poucos enquanto as multidões que se arrastam pela terra caminham para a dissolução e o nada. Se as migalhas de felicidade de que dispomos dependem do conhecimento científico a condição humana é bastante deplorável.

Ah, mas minha ciência não é absurda! Querido caso o princípio seja acidental ou fortuíto e o fim igualmente sem sentido algum, como crer que o meio. Mas compreendo como é difícil para vocês abandonar a única consolação ilusória de que dispõem, i é a objetividade cientifica face a crença no absurdo total corajosamente proclamada pelos pós modernista.
E no entanto este homem auto consciente e racional demanda pelo sentido, busca por um sentido, persegue o sentido... como uma mariposa lança-se as chamas da lamparina dirá certo pensador ateísta.

Psicologicamente, seja para Jung, Frankl, Allers e tantos outros teóricos o encontro do sentido corresponde a própria sanidade mental e sua negação a uma fonte de neuroses.

Para um grupo seleto de seres humanos


Compreendo que pessoas saudáveis, bonitas, jovens, limpas e bem nutridas desdenhem do sentido, que afirmem ser tal busca ociosa, a razão um verme e absurdo tudo quanto nos envolva.

Desde que haja casa, comida, roupa lavada e certa felicidade a negação do sentido pode ser viável ou mesmo tentadora. No entanto a maior parte dos seres humanos vive sob condições distintas e ouso duvidar que um tal tipo de ensinamento - apto para satisfazer pessoas realizadas e felizes - pudesse ser seriamente enunciado num Hospital, num Asilo, num Orfanato ou mesmo numa Favela... A absurdidade da vida é doutrina bastante restrita e parece não contemplar as necessidades existenciais ou psíquicas da maior parte dos seres humanos.

Os termos finais da 'bela' doutrina...


Foi apenas após a trigésima cirurgia que Freud pode abdicar por completo da esperança e descreve-la como um verme, pouco antes de recorrer ao clorofórmio e deixar o palco ou picadeiro da vida.. Raras são as esperanças de que um jovem que nega categoricamente o sentido da existência chegue a extrema velhice após uma série de vicissitudes e calamidades.

Werther de Goethe sequer precisou envelhecer ou passar por problemas de ordem material para sucumbir ao peso de uma existência sem qualquer sentido, e o simples ceticismo, bem como o agnosticismo - para não falarmos em materialismo e ateísmo - tem sido suficientes para levar ao suicídio um número cada vez maior de cidadãos escandinavos. Onde um aluvião de suicídios tem acompanhado os passos da ideologia nihilista, o que por si só basta para excluir qualquer análise superficial e forçada em termos de clima, afinal o clima tem sido estável há centenas de anos e o aumento dos suicídios um fenômeno relativamente recente que tem acompanhado a cultura. Tampouco passam eles por qualquer problema mais sério a nivel de organização econômica ou social. As condições de vida são as melhores do planeta, e a taxa de suicídios também, bem como as afirmações em torno do nihilismo, do absurdo e da total falta de sentido.

No entanto para que precisariamos ir a Escandinávia quanto temos Elvis Presley, Jacqueline Onassis, Bob Marley, Janis Joplin, Michael Jackson, Amy Winehouse e outras centenas de multi milionários precipitando-se como mariposas nas chamas de uma lamparina, após terem declarado explicitamente em diversas entrevistas que a vida não possuía qualquer sentido e que a  existência era absurda, Ah mas eles se drogavam ou embriagavam... Tente peguntar-se por alguns instantes sobre o pôrque deles desejarem fugir a existência. Antes de declarar que se drogavam ou embriagavam forçados pelos genes. Psicologicamente falando a falta de sentido e a conclusão pelo absurdo tem sido uma porta a berta para o consumo de bebidas ou de entorpecentes, mas a farsa dura pouco, afinal como diz Vintila Horia, pela droga o homem encontra a si mesmo e seu imenso vazio, vazio existência, vazio de ser... E põem fim a farsa.



Mais contradições - O Homem e a ideologia inumana


O curioso aqui é que o homem olhe para dentro de si mesmo e 
demande por sentido. Olhe para fora de si e encontre teorias muito mal feitas, prontas para dizer-lhe - Não pergunte por isso! Não peça isso? Não pense nisso!

Mas, este homem não se conforma com a negação do sentido a que persegue.

Tece questionamentos. Apenas para ouvir que são imponderáveis e que deve se contentar com o fardo da própria ignorância.

Aspira por uma dimensão ética da existência. Dizem que ela não existe...

E este homem comum não pode viver absurdamente ou fazer o que bem quer. Do contrário vai preso com base em critérios éticos e morais sem 'sentido', e é morto como Ravachol...

Tudo porque alguns indivíduos ricos e bem nutridos, e felizes tem a posse das armas e do poder, uma vez que não existe bem e mal fora dos indivíduos e que somos regidos por instintos ou genes egoístas... E ainda sim punidos ou castigados quando os obedecemos irresistivelmente. Assim a legislação fala em delitos e crimes, embora uma determinação genética ou um impulso sendo natural, não possa ser criminoso.

"Te devoro obrigado por minha natureza." Eis o que diz o monstro do filme, vermes rastejantes, a uma de suas vítimas a ser devorada.

Pobre homo sapiens... pobre animal racional!

A negação da Estética e o desprezo pela beleza.


Aspira por uma dimensão estética da vida, mas; as verdades 'puras' que abraça estão desvinculadas por completo do Bem e da Beleza, são frias e feias e por isso não lhe oferecem poemas, óperas, peças de teatro, pinacotecas, partenons e catedrais; declarando tudo isto artificial, ocioso, supérfluo e absurdo. A esfinge, o Alhambra e o Tja Mahal são frutos de uma fé... As universidades europeias, como Nápoles, Salamanca, Paris, Cambridge, Oxford, Lovaina... de uma fé e de uma Filosofia, tal e qual os Dialogos de Platão. Igualmente frutos da fé são Ilíada, a Odisséia, a Divina Comédia, o Paraíso perdido, os Lusíadas, a Jerusalém libertada, a Messiada e o Orlando furioso. A paixão de S Mateus e os Oratórios de Haendel. O Duomo de Florença, a Piazza de S Marcos e o campanário de Ulm, bem como a catedral de Colônia. Para não falarmos na Hagia Sophia ou em La Madeleine. A fé inspirou as encantadoras obras de um Ary Scheffer, a mitologia a pena de um Virgílio, de um Ovídeo, de um Estácio, de um Terêncio ou de um Propércio. Foram homens de fé ou de reflexão Sóflocles, Ésquilo, Eurípedes, Plauto, Gil Vicente, Shakespeare, Corneille, Racine e Molière. Assim a sensibilidade ímpar de um Fédro, de um Esôpo ou de um La Fontaine tampouco procedeu da vossa ciência positiva ou melhor da ideologia materialista ou da metafísica dawkiniana. O cientificismo tem sido esteticamente estéril, e parece não preocupar-se nem um pouco com isto...

A negação da Ética ou o desprezo pelo bem

Escusado seria falar nos orfanatos, asilos, escolas, hospícios, hospitais, albergues, dispensários, etc que o cientificismo nem erigiu no passado nem cuida ou porfia erigir no tempo presente. É verdade de a legítima ciência empírica, produz técnica. Mas não é menos verdade que esta técnica entregue ao mercado é negociada ou vendida como qualquer outra coisa, convertendo-se a magnífica ciência que endeusa em fonte de lucro ou renda para ele. Consequentemente imensas vastidões do planeta, como certas paragens da África e da Ásia, jamais são tocadas por essa técnica arrojada. Mesmo os pobres das Américas dificilmente tem acesso a elas. Tendo de recorrer ao pastor ou ao xamã (curandeiro). Exceto quando algum grupo de religiosos ou de humanistas compram os aparelhos (a técnica) e movidos por sentimentos 'duvidosos' transportam-na a tais remotas paragens. Consciência, empatia, alteridade, identificação, solidariedade, é coisa que o cientificismo parece não produzir.

Os medievos e nós - A nossa crise


Os medievos a que costumamos lançar paus e pedras costumavam preocupar-se mais do que nós com o homem. Multidões de monges e freiras, sem asseio ou técnica buscavam servir aos enfermos e a minorar-lhes os sofrimentos. Por falta de ciência - e por isso dizemos que a ciência é muito importante - e técnica não havia recursos em abundância, mas havia boa vontade e sincero desejo de ser útil. Os recursos humanos no entanto sobejavam e a crise era meramente material. No tempo presente temos a ciência que produz uma técnica refinada e doentes morrendo as baldas sem assistência nas periferias, ruas, praças ou a fila do SUS. Temos recursos suficientes para curar muito mais gente bem como para erradicar a fome do planeta, e mesmo assim - milhões morrem de fome e outros tantos de doenças 'curáveis'. Agora qual a razão disto? Simples. Hoje sobeja m recursos técnicos e materiais e faltam recursos humanos ou boa vontade. A nossa crise é muito pior do que a medieval porque humana, produto de um egoísmo, de uma insensibilidade, de uma desumanidade e de uma falta de ética que nossa ciência é impotente para solucionar.

"A ignorância é uma benção."


Temos supostas verdades positivas ou metafísicas cientificistas mas elas estão definitivamente apartadas da Beleza e do Bem, e este homem emancipado do século XXI é um ser fragmentado.

Tudo por quanto este ser racional aspira é avaliado ficção, ilusão ou engano pelos gurus da modernidade.

Mas não chegamos ao fundo do poço. E segue o drama supremo!
Pois este homem é consciente... auto consciente. A respeito do que sonha, aspira, quer...

E do quanto lhe negam ou dizem ser utópico, pretensioso, impossível...

Imagine por um instante uma borboleta ou uma águia, que possua asas perfeitas e não possa erguer-se do solo e cortar as nuvens... Para que ter asas? Para que servem as asas???

E no entanto estes anima
is tem, muito provavelmente, o benefício da ignorância ou da inconsciência.


Acaso não será melhor ser um 'frustrado' ou um fracasso natural sem ter consciência disto?

Mas, oh azar, na evolução sofreu uma hipertrofia e brindou-nos com esse cérebro que não só sabe afetar os modos de uma mente como fazer perguntas irrespondíveis.

Ésquilo, Sófocles, Eurípedes e outros dramaturgos clássicos diriam que tudo isto é pateticamente trágico, mas nossos positivistas a tudo assistem sorrindo qual o desenrolar de umas das comédias de Aristófanes!

Uma bananeira que não produz bananas jamais conhecerá a infelicidade deste homem tolhido em suas legítimas aspirações, pois não foi amaldiçoada com o apanágio da auto consciência


Consciente este homem se sentirá frustrado e frustrado se tornará neurótico.

Equívoco consciente produzido pela sorte, pelo acaso ou pelo giro dos átomos eis tudo quanto é ele. Um acidente... Um aborto??? Não o sabemos! Ignorabimus!

Comunicar o absurdo...


 

Uma coisa porém julgo saber.
 

Dificilmente alguém que estivesse de fato convencido sobre o absurdo da existência ou o nihilismo, ousaria reproduzir-se, procriar ou por filhos no mundo a menos é claro que declare ser escravizado pelos genes. Do contrário seria cruel...

Afinal para que comunicar uma existência absurda a outrem, já diziam os sensatos Sartre e Simone. Para que prolongar a farsa???

Como dizer honestamente a uma criança que todos somos fruto de um acidente de percurso e que a vida é um absurdo? Como declara-lo a um jovem que passa por uma crise existencial.

Grosso modo os filhos desta geração esperam ser fruto de um planejamento  ou de algo previsto, desejado, acalentado e previamente amado, não duma camisinha furada ou de uma pílula que não funcionou. No entanto, como produtos da sorte ou do acaso, somos todos nós, seres humanos, resultados duma camisinha furada! E você ousará comunicar essa existência absurda a outrem???

E tudo termina pela mentira!




É ai que entra em cena ou darwinismo com sua nova ética ou o Dr Wilson, para ensina-lo que a mentira é um fator evolutivo e incita-lo a enganar seu filho, exatamente como os católicos desencontrados ensinam aos seus o mito grosseiro do gênesis ou como os demais cidadãos que ensinam seus filhos a esperar pelo Papai Noel ou pelo Coelho da Páscoa a cada ano...

Importante é que nossos filhos absurdizados continuem a mentir e mantenham a tradição da mentira, do contrário Werther encarnar-se-a outras tantas vezes sobre a terra.





sábado, 2 de setembro de 2017

Nas 'Revoluções' de Crane Brinton

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Reflexões baseadas na leitura de 'Anatomia das Revoluções' - Opus Majus do profo Crane Brinton


"Toda Revolução carrega em si um herança jusnaturalista em torno do direito natural na medida em que crítica o que é ou a realidade, tendo em vista o que deveria ser ou o ideal." Luiz Recaséns Siches
Procede a análise já secular de Victor Brochard, segundo a qual, toda crítica a realidade sócio política vigente, supõem certa dose de especulação metafísica, a falta da qual o indivíduo tende a conformar-se com a realidade dada. 

Eis porque o Patriarca do ceticismo, Pirro de Elis - bem como seu continuador Timon de Fleiunte - era essencialmente conservador, chegando a fazer apologia dos costumes tradicionais, vivendo como todos e deixando-se levar pela moda como gado de rebanho... Para ele a neutralidade que conduzia a ataraxia equivalia a ausência de senso crítico, cujo exercício supunha sempre perturbação. 
Toda crítica a realidade parte de um ideal que não é empírico ou verificável, e que portanto, como a Ética, é metafísico.

Acerta em cheio Crane Brinton quando declara, mais adiante, que as Revoluções supõem sempre algo de abstrato. Assim os puritanos burgueses da Revolução Inglesa, apoiaram-se na Bíblia ou no deus Bíblico; os Revolucionários franceses no Deus da razão ou na natureza, os marxistas no materialismo economicista com suas forças produtivas incontroláveis e etapas evolutivas tanto predeterminadas quanto fatais. As Revoluções são certamente provocadas pelo agravamento de certos conflitos ou condições sociais, e, sem embargo disto alimentadas por algum tipo de ideal a falta do qual jamais chegam a ser. Em oposição uma realidade desagradável os revolucionários acenam sempre com uma proposta ideal a ser implantada. A falta desta proposta ideal com que contemplam as esperanças das massas, a Revolução não se concretiza

Logo há que se distinguir nelas um elemento material de crise a ser explorado e um elemento ideal de proposta, por muitos classificado como utópico.


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O supremo erro dos comunistas ou marxistas ortodoxos foi terem adotado - sem jamais o terem admitido é claro - a mesma ética tomada por Marx ao Católico Weitling - o fundador da Liga dos Justos - privado-a de seus alicerces e fundamentos metafísicos, como a ideia de um Supremo legislador e de uma lei natural (jusnaturalismo), e buscado associa-la ao ateísmo e ao materialismo, elementos ideológicos cultivados justamente pela parte mais aburguesada da Revolução Francesa.

É sempre bom lembrar que o patriarca dos radicais (Socialistas) da grande Revolução - François Noel Babeuff - não era ateu (Escreveu pouco antes de morrer a "Nova História de Jesus Cristo) como não o era Robespierre, pelo simples fato de ter oficializado o culto ao Supremo Ser e Legislador natural, sempre associado a suas reformas de caráter justicionista. Donde se infere que a fase posterior e socialista da Revolução Francesa - em parte a primeira Revolução socialista de que se tem notícia no mundo moderno - jamais esteve assentada sobre princípios ateísticos ou materialistas, assumidos via de regra pelos liberais economicistas.
Sempre atenta e arguta a contra crítica liberal não tardou a perceber a incoerência suprema do 'comunismo' e do 'social anarquismo' e partindo do velho positivismo, apresentou a parte positiva do marxismo como de fato era, i é, como um ideal ético, e portanto como algo NÃO científico ou mesmo anti científico; melhor dizendo, como resíduo de uma religiosidade ultrapassada e algo que todos os ateus e materialistas deviam rejeitar por uma questão de coerência. Afinal era de supor que os materialistas, mantendo-se nos limites do empirismo crasso, evitassem toda e qualquer forma de crítica social, enquanto algo situado muito além das fronteiras da materialidade pura.

Assim ao mesmo tempo em que denunciava os crimes perpetrados por aquela burguesia ateia, materialista ou hipócrita e propunha-se a ataca-la eliminando seus privilégios, o marxismo, ideologicamente falando, fornecia-lhe as armas e munições com que a mesma burguesia haveria de ataca-lo e defender-se. Afinal apenas o Capitalismo, enquanto estrutura e ordem social oposta ao feudalismo, converteu-se em algo dado ou real. O socialismo (naturalista) não, assumindo antes de tudo a forma de uma crítica teórica. Agora quais os pressupostos desta crítica??? O máximo que se poderia dizer aqui é que o modelo capitalista era inviável devendo ser substituído por qualquer outra coisa. Quando ao determinar porque e como o capitalismo deveria ser suplantado, é evidente que foge por completo aos domínios da materialidade pura, embrenhando-se pelos meandros sinuosos da boa e velha metafísica!!! Por via material ou empírica dificilmente impõem-se a solução socialista - O SOCIALISMO É E SEMPRE SERÁ UM IDEAL DE ÉTICA PAUTADO NO SENTIDO DA JUSTIÇA! - menos ainda a comunista.
Weber não errou quando disse que a Sociologia, enquanto ciência, limita-se a descrever a realidade tal qual é, sem cogitar no que deva vir a ser ou no ideal. A normatividade fica certamente por conta do Homem, e bem pode ser atribuída a outra forma de conhecimento não menos válido e respeitável do que ela, assim a Ética. Não é enquanto estudiosos de Sociologia que somos socialistas, mas enquanto pensadores, humanistas e seguidores de Sócrates, Platão, etc 

Não acalentemos ilusões, o Socialismo esta inserido na Sociologia enquanto proposta social. No entanto seus fundamentos não são materiais mas ideais e Éticos. O sociólogo será sempre bom sociólogo - E Weber o maior - mesmo enquanto se limite a descrever a realidade social em que vive. Será no entanto um bom Homem ou um homem??? Eis a questão a ser posta em seus termos! O positivista metodológico limita-se a corroborar a afirmação feita por Weber, bem podendo solidarizar-se como o Socialismo e apoia-lo enquanto homem. Já o positivista metafísico jamais. A exemplo de Pirro ele abdicará de toda crítica social e condena-la-a veementemente na mesma medida em que foge ao empirismo puro e a materialidade absoluta, fortalecendo os setores conservadores da sociedade e a situação de vigente de injustiça. Sua neutralidade não passa de mero disfarce com que busca ocultar sua simpatia e servilismo face as forças desumanas e cruéis do capital. No entanto uma coisa é certa, este homem finca pé no materialismo e no ateísmo idolatrados pelo marxismo ortodoxo levando-os as últimas consequência e sem temperinhos socráticos ou Cristãos. Afinal justiça é conceito abstrato que não se ouve, vê, toca, pesa, mede, etc
O Marxismo até hoje, a falta do conceito de um Deus ou Supremo Legislador, ainda não conseguiu justificar 'material', empírica ou cientificamente seu ideal de vir a ser e sua proposta futuresca.. A realidade material ou empírica como disse Weber, conhece apenas o que é, mantendo-se sempre neutra, apática e acrítica dentro de sua esfera. Quer saber como a Sociedade funciona e não analisar ou eliminar os sofrimentos humanos. Definitivamente a Sociologia não pretende afetar a medicina ou assumir-se como uma espécie de medicina social. Toda normatividade é Ética, ideal e especulativa pressupondo certos fundamentos necessários e absolutamente necessários, sem os quais vem abaixo... Tais fundamentos no entanto, o positivismo não assume. Assumiu-os o marxismo, mas separou-os de seus fundamentos ontológicos e colocou-os no ar... Como falar em justiça natural, lei ou ética sem cogitar num Sumo Legislador??? E como negar a existência deste sumo legislador sem cair no relativismo/subjetivismo (ou culturalismo) ético dando por justificada a versão ou a melhor a negação da justiça vigente no modelo capitalista??? Meu sistema minhas regras, bradará o capitalista face a qualquer apelo a uma noção essencial de justiça.

Tal a História do Marxismo, um eterno vir abaixo, apesar de sua proposta redentora... Bem, um homem não pode caminhar sem pernas... É o marxismo coxo, e isto é uma tragédia na mesma medida em que os Cristãos são hipócritas e os Católicos traidores!

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De Bonald e De Maistre apresentaram as revoluções como pecados...

Donoso Cortês, o supremo parvo, apresentou-as como diabólicas.

O Pe Delassus e Pierre Graxotte como conspirações maçônicas.

Giovanni Gentili como algo tão necessário e dinâmico quanto a própria vida.


Bakhunin, Tchernychveski, Sorel e Lênin como o ideal supremo da existência humana. 
Quem dentre eles estará com a razão?
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Sinto que de minha parte estou bem mais próximo de um Nicholas Berdiaeff segundo o qual enquanto desenrolar necessário e fatal de uma enfermidade - aqui social - não devam elas, as revoluções, serem reprimidas ou execradas e tampouco aplaudidas mas aceitas como uma espécie de punição ou purgação pelos pecados da sociedade. (Pecados sociais evidentemente, como o egoísmo, a injustiça, etc)

Não é claro no sentido mágico e fetichista de que sejam causadas diretamente pela divindade, mas no sentido natural i é enquanto consequências necessárias dos atos humanos numa perspectiva social ou melhor dizendo como uma espécie de dinâmica ou Lei social. 
As crises são as enfermidades e a Revolução a quase morte (a melhor expressão aqui seria coma!) de um dado modelo social que não faz mais sentido ou funciona. Tal e qual o corpo físico o corpo social também entra em colapso, perde a consciência e se abre em feridas ou chagas; ao menos por algum tempo. Não as revoluções não resumem a vida - a vida é mais do que ruptura dramática e brusca - mas fazem parte dela. Na medida em que cessada a febre revolucionária, as feridas se fecham, a consciência é retomada, a febre cessa; e aquele corpo se recupera por completo, restando apenas algumas cicatrizes mais ou menos profundas. É a restauração! Jamais segundo o modelo antigo, pois a Revolução sempre trás alguns elementos novos. De qualquer forma o ideal dos próprios radicais que administraram as Revoluções é, mais cedo ou mais tarde, abandonado. Pois o pecado das revoluções ou sua limitação é não produzir uma cultura em termos de idealidade. 
De modo geral a vida só se compreende em termos de evolução, progresso ou escalada, inda que não seja linearmente, uma vez que as crises e revoluções antepõem-se, ver por outra, ao curso da Evolução e da produção de cultura. As revoluções, como já dissemos, trazem ao menos alguns elementos novos, os quais caso venham a ser socialmente repensados e trabalhados poderão entrar na dinâmica da cultura e favorecer a Evolução. Algumas revoluções no entanto poderão levar uma determinada sociedade não apenas a estagnar mas mesmo a recuar em termos de civilização; assim as revoluções de Matriz religioso ou fundamentalista, as quais apenas muito remotamente e num contexto mais geral - de humanidade - podem vir a acrescentar algo. O protótipo dessas revoluções discutíveis e problemáticas é a Reforma protestante no Ocidente com todas as suas consequências, em grande parte negativas. Podemos ainda pensar na Revolução Iraniana... e nas tais primaveras árabes ou sunitas/salafitas. 
No entanto por si mesmas - isoladamente - enquanto ruptura brusca e mais ou menos inconsciente, incompreensão da cultura e adiantar da História, as ditas Revoluções nada criam de fantástico ou resolvem. Ficando a propaganda ou as propostas muito aquém dos resultados concretos. Daí a necessidade de antes de inicia-las considerar os custos benefícios em termos de sangue e vidas ou mesmo de puro e simples patrimônio histórico/cultural. Afastemos daqui todo sentido místico e admitamos que Revoluções não são eventos mágicos ou soluções infalíveis. Acontecerão sem dúvida alguma, mas não devemos nos entusiasmar com todas elas ou com qualquer uma delas. 

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As revoluções sedições, agressivas e sangrentas por definição, que não dialogam com a cultura ou produzem cultura, não podem ser, como tantos e tantos imaginam as molas ou alavancas que movem o mundo.
Apenas as revoluções que esgotam o pleno sentido da palavra (Para os materialistas talvez não pleno justamente por faltar o conteúdo violento) ou seja aquelas que envolvem a produção, mudança e dinâmica da cultura ideal - princípios, crenças e valores - constroem algo de efetivamente sólido e duradouro.
As demais, as que podem ser definidas antes de tudo como efusões de violência, passado algum tempo tornam atrás ou revertem, dando lugar a restauração. Assim a Inglesa de 1644 teve de compor-se em parte com a velha estrutura monárquica que pretendia aniquilar e produzir algo como o parlamentarismo. Assim a Francesa sob Napoleão, o 'imperador' sic rsrsrsrsrs. Assim a Russa já com Stalin (cf Trotzky 'A Revolução traida') e especialmente após 1990. Assim a Mexicana e a Chinesa... Uma após a outra, passado o período febril, apostataram de seus ideais progressistas pelo simples fato de terem cogitado adiantar-se a História e de não terem compreendido o significado da produção de cultura por meio da formação de consciência ou da educação.
Até mesmo simples reformas empreendidas por determinada plataforma política num contesto social democrata ou institucional, correm o sério risco de serem desfeitas, na medida em que a dita plataforma se esquece de formar as consciências ou de educar as futuras gerações, tornando-se em tais casos vulnerável a uma revanche liberal. Foi justamente o que aconteceu durante o período Lula e Dilma no Brasil. As reformas jamais tocaram os setores da sociedade responsáveis pela produção da consciência - assim a mídia, a estrutura política... - daí o subsequente revertério. Meras reformas estruturais em termos socialistas não equivalem a produção de uma cultura socialista ou humanista. 
Elas, as Revoluções - ao menos parte delas - satisfizeram uma demanda pela justiça e contribuíram com elementos importantes, mas realizaram todas muito menos do que prometeram. Claro que me refiro as revoluções mais recentes e posteriores a Revolução francesa i é as Revoluções socialistas, especialmente a cubana. A Venezuela acima de tudo, cabe o mérito de ter empregado mecanismos essencialmente democráticos - como plebiscitos e referendos - em sua Revolução bolivariana, mostrando sem dúvida uma melhor compreensão da realidade político social e da cultura. 











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Até concordo que em certas situações de injustiça - como a ditadura, o totalitarismo ou mesmo a miséria - as Sedições façam jus ao apoio de todos os cidadãos, merecendo total adesão. Cada Revolução dever ser analisada com toda prudência e cautela tendo em vista os princípios norteadores da liberdade e da justiça, bem como o entusiasmo ou comprometimento do povo, e também os riscos que envolvem a reação (Custo benefício), sabendo-se antes de tudo que Revolução alguma é fácil e que não se faz Revolução com rosas. 
No entanto não devemos nem esperar nem imaginar que elas consigam - por si sós - solucionar todos os problemas a que se propõem. Por um tempo a panela de pressão deve lançar vapor fora, até estabilizar-se, e cessar de lançar vapor... De modo que ao iniciar a Revolução ou mesmo antes temos de refletir sim sobre o que virá depois ou sobre a pós Revolução e sempre na direção da auto gestão ou da democracia direta/popular, uma vez que a própria dinâmica interna e combativa da Revolução parece favorecer soluções totalitárias ou ditatoriais. A questão do papel das lideranças ou do controle interno da Revolução é um tema crucial na perspectiva democrática, a qual, ao menos a posteriori, tende, e com toda razão, a desconfiar de lideres ou chefes. É exatamente aqui que a própria ideia de Revolução torna-se problemática, envolvendo sempre o nível de participação popular e de consciência democrática na medida em que queremos que o próprio povo seja agente da História, jamais súdito ou vassalo, e em que desconfiamos de qualquer redenção dada ou oferecida de bandeja por líderes, elites ou quadros.

Caso fique evidenciado que todas as Revoluções populares exijam, a posteriori, a submissão a um ditador ou mesmo a uma 'Elite educadora', inda que provisoriamente e tendo em vista a já apontada produção de cultura democrático social, temos de discutir e refletir com ainda mais cuidado e prudência sobre a viabilidade das mesmas. É problema que se coloca desde os tempos de Platão e a respeito do qual comunistas e fascistas tem escrito oceanos de papel. Teremos a posteriori de suportar o domínio, inda que provisório, duma aristocracia 'educadora'??? Teremos de acatar, ao menos por algum tempo, ditaduras de Filósofos, Sociólogos/políticos ou proletários??? De minha parte, tendo a negativa... No entanto é algo que deve ser considerado e discutido exaustivamente. Se é para ter Revolução que seja verdadeiramente popular, que envolva o povo e busque soluções policráticas ou populares, não totalitárias ou ditatoriais. 
As Revoluções acontecerão, algumas merecerão apoio ativo, ainda que crítico, mas não mudarão magicamente a sociedade. O caminho sempre será difícil ou precário.