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domingo, 20 de junho de 2010

Espiritismo e Socialismo

De ontem para hoje li o livrinho (na expressão máxima da palavra) Socialismo e Espiritismo de Leon Denis. Quando comprei a obra pensei que se tratava de uma defesa do socialismo feita pelo sr. Leon Denis, em casa pude folhear o livro e vi umas críticas ao marxismo assim como vi de relance uma suposta defesa a outros tipos de socialismos não marxistas, relutei em ler a obra, porque estava dedicando parte de meu tempo a leitura de revistas de divulgação científica e revistas de filosofia. Mas ontem tomei ânimo e comecei a ler o livro e terminei hoje à tarde. E agora passarei as considerações sobre o socialismo do sr. Leon Denis.

Escreve o autor espírita:

"Nasci na classe operária e nela não conheci senão lutas e privações. Meu pai era canteiro, depois se tornou pequeno empreiteiro, mas o trabalho faltava muitas vezes e era preciso mudar de profissão. Eu mesmo, depois de ter recebido uma instrução muito sumária, me iniciei como pequeno empregado de comércio e o labor manual não me é estranho. Já aos doze anos eu
descolava flans de cobre na Casa da Moeda de Bordeaux e meus dedos de criança, sob o atrito do metal, muitas vezes se tingiam de sangue. Aos dezesseis anos, em uma fábrica de faianças em Tours, eu carregava o cesto nos dias em que se fazia o desenfornamento das peças. Aos vinte anos, em uma manufatura de couros, eu carregava peles nas horas de aperto ou manobrava la marguerite, grosso instrumento de madeira que serve para amaciar os couros. Obrigado, durante o dia, a ganhar o meu pão e o dos meus velhos pais, eu consagrava muitas noites aos estudos, a fim de completar minha ligeira bagagem de conhecimento, e daí data o enfraquecimento prematuro de minha visão".

O fato de alguém nascer numa família de proletariados não faz dele um proletariado, tampouco o fato do sr. Denis ter sido operário não faz dele um amigo dos trabalhadores. Friedrich Engels era filho de um industriário e Marx era de uma família de classe média, seu pai era advogado, as posições sócio-econômicas dos ilustres pensadores não determinaram que deveriam ser burgueses, ambos tomaram a defesa dos explorados contra os exploradores. O sr. Leon Denis, que foi operário tornou-se um aliado da burguesia, mesmo porque era membro da franco-maçonaria.

Leon Denis após falar de como fôra operário se põe a fazer explanaçãoes do espiritismo, de como foi ajudado pelo "lado de lá", de como teve o dom da mediunidade e coisas do gênero. O autor espírita fala contra o materialismo dos comunistas mas não refuta e contrapõe "as leis do universo", leis essas que ele não definiu, mas parecem ser mágicas.

"O que se chama de “luta de classes” não existe senão no papel".

Interessante, a luta de classes existe somente no papel, na verdade os operários são amigos dos patrões e vice-versa. Os patrões querem seus empregados como a filhos, os patrões nunca exploraram os empregados. Mas não nos enganemos a luta de classes existe e não foi apenas um termo criado por Marx, mas uma constatação da realidade pura e simples.

"Todo trabalhador econômico pode se tornar patrão".

Ora se todo trabalhador econômico pode se tornar patrão, os que não se tornam é porque são dissipadores. Quem acredita nessa ideologia de bosta quinta categoria? O líder espírita metido a sociólogo não demonstrou como um trabalhador pode conseguir se tornar patrão, isto é, burguês. Quem acredita nisso acredita em qualquer coisa. Essa frase idiota me remete a uma lembrança de quando eu ainda era entregador de jornais. Tive um colega de trabalho, já falecido, que se chamava Durval, já um senhor de idade, pertencente à Assembleia de Deus, homem de pouca instrução. O pobrezinho, sempre denfendia o patrão quando eu propunha fazer greve ou simplesmente falava mal dos parasitas, ele dizia: "O patrão tem tudo porque trabalhou duro", "você pode comprar sua casa própria em alguns anos se economizar uns R$ 5,00 por dia, se não conseguir é porque você é um gastador" e outras pérolas do gênero. O salário que eu recebia como entregador de jornais oficialmente era de um salário mínimo, mas sempre descontavam os jornais que entregávamos e que os assinantes alegavam não ter recebido e cada entregador via R$ 70,00, R$ 50,00, R$ 40,00 descontado por mês.

Leon Denis critica a escola laica que não ensina "as leis do universo" e que deixa a juventude sem fé e sem aquele alicerce que é a moral, segundo ele, essa escola é fruto da escola congregacionista da Igreja Romana, dita Católica, escola essa que ensinava dogmas ultrapassados e que de certo modo seu ensino foi o responsável pela situação de então na França.

"O problema social é, sobretudo, um problema moral, dissemos. O homem será desgraçado enquanto for mau".

É encantador como Leon Denis explica o problema social, é de uma candura sem limites. ele bem que poderia ter sido romancista, faria um enorme sucesso. De acordo com o sociólogo arrivista, o problema social está ligado ao problema moral. Nossa, que gênio!!!! E Marx nem se deu conta disso, teve que escrever tantos livros para explicar o porquê da exploração do homem pelo homem. Convençamos, o ladrão que é errado roubar, convençamos a prostituta a abandonar sua vida de "vícios" e quando todos se tornarem bons mesmo sem saúde, mesmo sem segurança, mesmo sem educação, a sociedade se transformará num passe de mágica: ABRACADABRA!!!

Edgar Quinet via corretamente quando escrevia: “Como não se aperceber de que o problema religioso envolve o problema político e econômico e toda a solução deste último não tem senão valor de uma hipótese há tanto tempo que ainda não se resolveu o primeiro”.

Que maravilha, então todosos problemas sócio-econômicos decorrem do problema religioso, caso se resolva esse problema tudo se resolve. E como resolver o problema religiosos? Adotando o espiritismo. Tão simples não? Aposto que Engels deve estar se revirando no túmulo.

Com efeito, é preciso lembrar que é em sua fé religiosa que as comunidades cristãs do oriente e do ocidente e, na América, as Sociedades dos Quakers, dos Chacres, etc., encontraram as regras de disciplina, o princípio da associação e de devotamento que assegura o bem-estar, a prosperidade dessas instituições e de seus aderentes.

Realmente os EUA que é uma nação religiosa encontrou bem-estar sim, dizimando os indígenas e os búfalos na corrida para o oeste e tudo isso em nome de Deus!!! E hoje em dia os pobres tem a chance de tirar o pé da lama, é só alistar-se nas forças armadas, os jovens vão para as guerras inventadas por seus insanos presidentes, os que morrem realmente deixam sua vida de miséria, mas os que sobrevivem, ficam num estado ainda pior.

Destas considerações resulta que a reforma social, para ser mais segura e mais prática, deveria começar pela reforma do homem em si mesmo. Se cada um se impusesse uma disciplina intelectual, uma regra capaz de asfixiar, de destruir um fundo de egoísmo e brutalidade que nos foram legados pelas idades, toda a bagagem mórbida que trazemos ao nascer e que é a herança de nossas vidas passadas, e isso de modo a fazer renascer em nós um homem novo, a evolução do meio social seria rápida.

Novamente o "iluminado" fala de reforma interior, mas como falar de reforma interna a quem passa fome, a quem é explorado e não tem acesso à educação? Acaso esqueceu o escritor que o homem é também um animal e precisa satisfazer suas necessidades básicas? E que é o modo de produção capitalista que condiciona o ser humano a ser o que é? O teólogo espírita supõe que os seres humanos são anjos e que podem mudar suas atitudes independente dos condicionamentos a que estão expostos.


O estado social não sendo, em seu conjunto, senão o resultado dos valores individuais, importa antes de tudo obstinar-nos nessa luta contra nossos defeitos, nossas paixões, nossos interesses
egoístas. Enquanto não tivermos vencido o ódio, a inveja, a ignorância, não se poderá estabelecer a paz, a fraternidade, a justiça entre os homens; e a solução dos problemas sociais permanecerá
incerta e precária.


Novamente Leão Denis apela à reforma íntima, como se os problemas sociais pudessem ser resolvidos apenas com a vontade de cada um em ser melhor. Ideologia burguesa, para ludibriar os incautos.


Na realidade, o Estatismo enfraquece o poder das Nações, sua livre expansão e sua afirmação diante do mundo.

Aqui, nosso cientista político demonstra como o estatização é obra má. Não é preciso ser um gênio para perceber que a privatização é um mal, e que o governo FHC foi o que mais prejudicou o Brasil com sua mania de privatizar tudo. Pena que Leon Denis não entendia nada de política nem de economia. Pena que não pôde ver o estrago que fez o capitalismo no mundo, mas se alma é imortal (eu creio que é), então hoje ele sabe...

Não se poderia sonhar com a possibilidade de estender a aplicação a nações inteiras, a milhões de homens nos quais as variedades de caracteres e de temperamentos fariam laboriosos e
sábios os estúpidos, os preguiçosos, os imprevidentes e os debochados. Em todos os casos, não será através do crime e pelo sangue que se poderá fundar um regime de fraternidade, de
solidariedade e de amor!


Para Leon Denis, o comunismo é irrealizável porque não se pode aplicar essa lei geral a nações inteiras onde há temperamentos de todos os tipos. Ele não admite que um preguiçoso, um debochado possa se tornar um trabalhador, um sábio.

Quanto à Alemanha, não temos elogios para as idéias que há mais de um século nos vêm deste lado. Seja seu militarismo brutal e devastador ou o materialismo grosseiro de Buchner e Moleschott, ou ainda aquelas mais refinadas, porém não menos egoístas, de Nietzsche e,sobretudo, o socialismo de Karl Marx, homem ácido e odioso, cujo objetivo principal é a guerra de classes, tudo isso desprovido de generosidade e de grandeza e não leva senão à investida, ao esmagamento de uns pelos outros.

Além de não ter conhecido política e economia também ignorou a filosofia, uma vez que atacou Nietzsche e Marx e atacou-os sem ter lido suas obras, puro exemplo de desonestidade.
No que tange Marx ser odioso e ácido vejamos o que disse um agente da polícia que foi à sua casa na Inglaterra:

"Marx vive num dos bairros piores e, portanto, dos mais baratos de Londres. Ocupa dois aposentos. O que dá para a rua é a sala, sendo o dos fundos o quarto. No meio da sala há uma mesa grande e antiga, coberta de manuscritos, livros e jornais, bem como brinquedos, utensílios de costura de sua esposa... Mas nada disso causa o menos constrangimento a Marx nem a sua esposa. Eles recebem a visita com muita amabilidade, oferecendo-lhe o que houver para oferecer. Aos poucos toma forma uma conversa inteligente e interessante, que compensa todas as deficiências domésticas...Como marido e pai, apesar de seu temperamento instável e inquieto, era o mais doce e meigo dos homens". [1]

Antes de Karl Marx o socialismo era profundamente simpático; graças a ele, é hoje execrado. A luta de classes é uma tática perniciosa que desviava do Socialismo aqueles que seriam seus melhores elementos, sem lhe conceder a mínima força.

Socialismo sem luta de classes, é piada? Karl Marx é odiado porque conseguiu desmascarar a burguesia. Porque ousou dizer: "O rei está nu".

É preciso também confessar que muitos dentre eles, na hora atual, adotariam voluntariamente a senha: detestar e possuir. A massa cega procura acima de tudo o dinheiro e seus prazeres; ela não tem outro deus que não seja o lucro e outra regra que não seja o apetite.

São as massas sofredoras que detestam seus semelhantes e amam o dinheiro e seus prazeres ou são os burgueses que nunca se saciam com seus lucros advindos da exploração do homem pelo homem? Não será a burguesia que não tem outro deus a não ser o lucro? Pois que motivos tem a burguesia para pagar um justo salário a seus trabalhadores? Nenhum, por isso não paga. Motivos tem para pagar salários de fome, pois a burguesia tem fome e sede de lucros.

Entre os “burgueses”, muitos trabalham tanto quanto os operários. O homem que possui um capital e que o faz produzir, pode parecer desocupado, entretanto ele presta serviço ao seu país, pois que seu capital, frutificando, permite-lhe empreender obras novas. Se eles fracassam, a perda não atinge senão ele e não a coletividade.

Pode ser que no mundo dos espíritos a burguesia possa trabalhar tanto quanto os operários, mas isso não acontece no mundo real. O homem que multiplica seu capital ajuda o seu país? Como assim? Multiplicando as dores e as misérias? Se um burguês vai à falência é só ele quem perde e não a coletividade? E a crise financeira iniciada nos EUA não começou por culpa da burguesia? eles não lucraram sozinhos? Mas as perdas tiveram que ser socializadas!


O povo viu aumentar seu bem-estar físico, porém não é mais feliz: tornou-se mais exigente, mais descontente, menos consciencioso. E, entretanto, para mudar tudo isto, bastaria inculcarem todos o amor pelo trabalho e a confiança na vida, que não são mais, em realidade, que a elevação lenta e gradual para a luz, a perfeição.

Realmente o povo devia ser mais feliz quando trabalhava dezesseis horas por dia em condições subumanas, quando não tinha direitos. Fico impressionado com o sr. Leon Denis, como ele filosofava!!!
Para que os males da sociedade sejam sanados basta inculcar o amor ao trabalho e a confiança na vida. Que encantador!!! É a velha história das forças reacionárias: "O trabalho dignifica o homem". Mas faz-se mister inverter o enunciado: "É o homem que dignifica o trabalho".

O que é o verdadeiro socialismo para o sr Leon Denis? Vejamos:


O Socialismo não é, pois, em realidade, senão a aproximaçãodos fluidos de uma mesma natureza, sua fusão e sua harmonia na vida humana e segundo o grau atingido ao curso de existências
percorridas. O conhecimento das leis espirituais é, pois, indispensável para estabelecer a verdadeira natureza do ser e sua possível adaptação aos diferentes meios sociais. É preciso que cada ser, possuindo uma força irradiante, um poder atrativo, o transfira, por via de vibrações, àqueles nos quais o mesmo fluido circula mais fracamente. Isto seria o verdadeiro comunismo. O objetivo essencial é obter uma correlação direta entre os pontos de vista moral, fluídico e material.


Interessante visão de socialismo e de comunismo para um hospício e não para pessoas sérias. Em todo o seu livro não encontrei sequer um pingo de socialismo, isso só demonstra como o seu autor de duas uma: ou era hipócrita ou louco.

Um pouquinho de neoplatonismo:

Somos não apenas irmãos por nossa origem comum e nossas finalidades, sendo todos filhos de Deus e destinados a junto a Ele nos reunirmos, mas ainda porque somos chamados em virtude da
lei da necessidade a percorrer juntos a rota imensa que conduz a Ele, Nele nos reencontrar, nos reconhecer, para trabalhar e sofrer juntos a fim de que nosso caráter se corrija e nossas qualidades se desenvolvam ao sopro purificador e regenerador da adversidade.


Agora o sr Leon Denis "refuta" o socialismo de forma cabal:

Entre as doutrinas sociais correntes, esta é uma das mais contestadas. Não há igualdade na natureza e, igualmente, não o há na Humanidade.

Segue-se então que os ensinamentos de Jesus de amar o próximo como a si mesmo, é um ensinamento falso. Pois para amar alguém como a mim mesmo, preciso considerá-lo igual ou ao menos semelhante. Como pode o então o sr. Leon Denis amar e admirar a Jesus e seus ensinamentos?
Segue-se ainda que o capitalismo está certíssimo pois na natureza não há nada igual se não há nada igual, querer o igualitarismo é contra a natureza, em outras palavras, o socialismo é antinatural, logo quem tinha razão era Herbert Spencer com o seu darwinismo social.

Conclusão: Ao ler o livro supracitado pude compreender o que Marx quis dizer com a sentença: "A religião é o ópio do povo".

Eu poderia tecer mais comentários sobre o livro de leon Denis, mas creio que já me estendi mais do que devia e peço perdão ao leitor por tão longo artigo, mas foi necessário.

NOTA:
[1] GADOTTI, Moacir. Transformar o Mundo. FTD, São Paulo, 1991.