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quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Psiquiatria e Psicologia - A busca pela Interação

Durante as aulas de teoria é bastante comum nossos alunos formulares a seguinte questão: Professor, qual a diferença existente entre a Psiquiatria e a Psicologia?

E tenho para mim que não seja pergunta de pouca importância.

Como de costume partiremos das raízes gregas para formular a resposta.

Psiquiatria é expressão de origem grega formada por duas palavras: Psique compreendida como alma ou mente e iatria ou medicina. Temos então medicina da alma.

Psicologia também é expressão de origem grega formada por duas palavras: Psique e Logia ou estudo e temos então 'estudo da alma'.

Aparentemente seria tudo a mesma coisa uma vez que não podemos curar a mente sem antes estuda-la e conhece-la muito bem.

Nada mais distante ou afastado da verdade pois em termos atuais estamos diante de duas abordagens, ideologias ou visões de mundo que aspiram ser bastante diferentes uma da outra ou mesmo rivais.

O psiquiatra assume quase sempre uma postura materialista.

No sentido de que todo e qualquer problema mental ou neurológico possui uma origem somática, física, material, orgânica ou corporal.

Segundo esta corrente todos os estados anormais da mente humana são causados ou provocados por algum defeito ou dano relativo a estrutura cerebral ou ainda por carência ou excesso de determinados hormônios.

E não pode haver enfermidade e sintoma sem que haja mal conformação dos órgãos ou disfunção hormonal.

Consequentemente - se a causa do problema esta no corpo - o psiquiatra recorrerá invariavelmente a uma terapêutica material ou seja a intervenções cirúrgicas, choques, drogas, etc

Já o Psicólogo considera que ao menos algumas doenças ou parte delas não são causados pelo corpo físico mas pela própria mente ou por sua parte inconsciente. 

No caso o corpo físico estaria perfeitamente bem e isento de qualquer defeito estrutural. Tendo a enfermidade sua origem na mente.

Segundo algumas estimativas 70% das doenças que afligem a pobre humanidade seriam psico somáticas.

Evidentemente que admitido tal pressuposto a terapêutica sofre alteração.

Convertendo-se no que chamamos de terapia ou analise.

Terapias existem várias: laborterapia, arteterapia, pet terapia, psicodrama, etc

Análise corresponde abordagem característica do psicólogo i é a conversa, ao diálogo, ao desabafo... a partir do qual ele elabora o diagnóstico e recomenda a terapia.

Isto de modo geral.

Feita tal distinção, segue-se a segunda pergunta:

Qual das duas estaria certa professor?

Minha resposta: Como somos dotados de mente e corpo penso que ambas estejam corretas.

Explico: Há enfermidades cuja causa encontra-se certamente no corpo físico e todos conhecemos muito bem o exemplo de Phineas Gage . E enfermidades cuja causa encontra-se na mente, como as que eram 'curadas' por F A Mesmer e estudadas mais tarde por J M Charcot, Bernheim e pelo grande Liébeault. 

Do que resulta a necessidade de uma ação coordenada entre o psiquiatra e o psicólogo, ou ao menos de um diálogo entre estes dois profissionais. O que por preconceito ideológico infelizmente não se dá. Arcando os enfermos com o prejuízo, que é imenso.

Evidentemente que nos referimos a realidade brasileira, em que ainda predomina a rivalidade.

Basta dizer que entre nós o número de psicólogos ainda é exíguo, e o acesso em termos financeiros dispendioso. Isto a ponto do SUS contar com pouquíssimos psicólogos e mesmo psiquiatras.

É também questão de cultura e já foi dito que o brasileiro investe mais nos dentes do que no cérebro.

Outro aspecto da cultura predominante é que psiquiatra e psicólogos são médicos de louco, do que decorre certo receio, certa distância e não poucas situações de preconceito.

Para algumas pessoas cogitar em procurar o psiquiatra ou o psicólogo já é um drama...

Por isso que fecham-se em si mesmas e ficam amargando seus problemas até o suicídio. 

Agora quando a pessoa procura algum destes profissionais muitas vezes o faz porque já se considera louca!

Via de regra a pessoa costuma procurar um psiquiatra, o que esta certo. Pois somente após a avaliação física por meio de exames é que se pode excluir a causalidade orgânica e postular uma causalidade psíquica.

Diante disto qual deveria ser a atitude comum a nossos psiquiatras?

Interrogar o enfermo sobre o estado geral do corpo, algum possível acidente, pancada, etc e solicitar exames de RMN, tomografia, Raio X, sangue, etc

Disto resultará a existência ou não de algum defeito ou disfunção orgânica.

Comprovada a existência do defeito em questão, segue-se o diagnóstico e o tratamento segundo a praxe psiquiátrica. Dispondo-se o caso a cura ou ao menos a eliminação dos sintomas.

Verificada a inexistência de qualquer defeito ou disfunção orgânica seguir-se-ia o encaminhamento ao psicólogo...

Tal o roteiro a ser seguido.

Pelo que chegamos a terceira e última pergunta: Procedem assim os nossos psiquiatras, digo, a maior parte deles???

Escusado responder que não.

E por que?

Primeiramente por que alguns psiquiatras, dominados pelo preconceitos materialistas, não admitem a existência de enfermidades psico somáticas e tampouco que a psicologia seja uma Ciência.

Evidentemente que para tais profissionais toda e qualquer enfermidade mental esta relacionada com algum problema estrutural ou hormonal em termos físicos, devendo resolver-se em seus consultórios.

E quando após a realização de todos os exames a causa física não é encontrada?

Neste caso supõem sempre que exista embora permaneça desconhecida e inacessível devido a precariedade do aparato tecnológico...

Neste caso que fazem eles?

Receitam invariavelmente algum hipnótico com que dopam o paciente 'suprimindo' os sintomas ou parte deles. E desde então fica ele lento ou lerdo como dizem... E sem perspectiva de cura. Tais os casos perdidos da psiquiatria e não são poucos.

Outro problema não menos sério diz respeito aos exames, que sendo bastante complexos são igualmente custosos e em alguns casos não cobertos pelo convênio...

Aqui é que conhecimento geral que boa parte dos psiquiatras não solicitam os tais exames da cabeça ou os tais exames hormonais, como seria de esperar-se...

Talvez por sofrer pressão por parte dos planos de saúde...

E damos ainda aqui, mais uma vez, com os hipnóticos ou com a sedação.

Na maior parte dos casos ir ao psiquiatra equivale a ser sedado...

Pouquíssimos dentre eles após terem percorrido o roteiro indicado e realizado todos os exames - em caso de não terem detectado qualquer causa somática - encaminham parte de seus pacientes a algum psicólogos. No entanto os que assim procedem é que estão salvando vidas e cumprindo com sua função!

Isto porque tanto no caso de possíveis causas somáticas não detectadas devido a não solicitação de exames, quanto no caso de prováveis causas psíquicas o recurso sistemático a hipnóticos ou sedação implica ocultação das causas por eliminação ou atenuação dos sintomas e consequentemente a permanência da enfermidade que deveria ser extirpada. Tanto do ponto de vista médico quanto do ponto de vista Ético estamos diante de problema muito sério.

Pois ocultar atenuar sintomas com o objetivo de ocultar enfermidades jamais será curar. Ademais a enfermidade permanecendo latente e e não tratada tende a evoluir e a tornar-se ainda mais resistente na medida em que vai minando as estruturas do corpo ou da mente. E de curável pode até vir a tornar-se crônica e quem o sabe... até letal.

Isto devido aos preconceitos, a incúria ou a subserviência de determinado profissional...

Evidentemente que não estou a generalizar ou a acusar 'todos' condenando toda uma categoria de profissionais. 

No entanto é manifesto que hajam abordagens deste tipo.

E prejuízos ou danos que só Deus sabe...

Em termos de Brasil urge aproximar dos dois profissionais, psiquiatra e psicólogo, desde a formação. Possibilitando que trabalhem juntos, colaborem e dialoguem desde o 'campus' universitário. É uma questão de formação e o mínimo que se espera do poder público é que examine o problema e busque reeducar a ambos os profissionais, i é, não só psiquiatra mas também o psicólogo. Assim cabe o psicólogo remeter ao psiquiatra todo o enfermo que não foi examinado por ele... Aqui o único caminho a ser seguido é o da interação na perspectiva do homem global!

Pelo visto não são poucos os obstáculos financeiros, logísticos, profissionais e educativos a serem superados. Mas temos de dar os primeiros passos, pois já estamos em 2016 e mais do que na hora de começar a cuida do cérebro, sem deixar de cuidar dos dentes é claro...

terça-feira, 25 de março de 2014

Destruindo mitos sobre testes em animais e o meu mea culpa



Ano passado após o resgate dos Beagles do instituto Royal houve um debate sobre o uso de animais em experiências científicas, o bom desse episódio foi o fato de ter trazido à tona o assunto em questão, pois chamou a atenção da mídia e das redes sociais o que obrigou os cientistas a se manifestarem e explicarem o que são e como funcionam e quais os limites dessas experimentações.

Eu mesmo no calor das emoções fiz três postagens (este, este e mais este) que hoje considero infelizes, mas não as apaguei para mostrar que posso mudar de ideias, que "prefiro ser - como cantava Raul Seixas - essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha, velha opinião formada sobre tudo". 

O que me fez mudar de ideia foi a leitura de um artigo da Revista Scientific American Brasil nº 141 página 20, escrito por Jorge Qillfeldt que é neurocientista e divulgador de ciências. O que eu gostei é que esse cientista explicou de forma clara e concisa sobre a importância dos testes dos animais e que os cientistas procuram buscar outros órgãos do governo que fiscalizam essas experiências.

Ele escreve: "O maior desafio da popularização da ciência é explicar para o maior número possível de pessoas como funciona o processo científico que produz novos conhecimentos acerca do mundo real, incluindo os conhecimentos biológicos e clínicos que não apenas melhoram a qualidade de vida, como muitas vezes representam a diferença entre a vida e a morte".

Sendo certo ou errado o resgate dos beagles no instituto Royal, repito, este ato chamou a atenção de toda a população e muitos cientistas se puseram a explicar nos jornais, revistas, tevês ou através de vlogs. Mas nem todos conseguiram ser tão claros como o neurocientista Jorge Quillfeldt.

Ele continua: Há muita desinformação neste tema e alguns setores dos movimentos de defesa dos animais pioram a situação exagerando relatos e distorcendo fatos. Apesar do crescimento da pesquisa, a quantidade dos animais utilizados vem diminuindo devido aos esforços em substituir, reduzir números e refinar procedimentos, base das chamadas políticas de bem estar animal, implementadas por lei em todo mundo, inclusive no Brasil. Há comitês de ética monitorando o uso, e os movimentos têm assento neles. A maior parte desses animais não sofre desconforto ou dor e, quando isso ocorre, é obrigatório o uso de medicamentos para atenuá-los. Ao contrário do que se pensa, há maior bem estar animal no ambiente científico que entre os animais criados para outros fins, como animais de corte ou mesmo de estimação (como aqueles confinados a apartamentos), práticas para as quais existem alternativas reais, mas não são nem questionadas nem alvo de ações organizadas".

Infelizmente poucos cientistas se dispõem a falar numa linguagem acessível ao público não especializado, evidentemente que o emocionalismo e o extremismo também atrapalham bastante o debate pois no mundo virtual mais importa ganhar o debate do que aprender bem vale a tática maquiavélica: "Os fins justificam os meios".

Reproduzo mais alguns trechos do artigo de Jorge Quillfeldt: "Apesar dos enormes avanços da medicina atual ainda estamos longe de saber tudo, e ainda existem doenças que não compreendemos a ponto de poder debelá-las. A garantia de que esses benefícios da ciência estejam igualmente disponíveis a todas as pessoas  é outro importante problema a ser resolvido: mas o certo é que, se não obtiver o conhecimento, não haverá o que distribuir.
Para dispormos de medicamentos ou procedimentos clínicos seguros e eficazes, deve haver uma série de estudos prévios. Descobrir uma substância que atua inibindo determinada doença, por exemplo, controlando um câncer in vitro, não garante que ela possa ser utilizada de forma segura em um organismo integral: o corpo humano é uma complexa rede de processos bioquímicos e fisiológicos, envolvendo vários órgãos com diferentes papéis, e uma substância “boa” aqui, pode ser “ruim” ali: nosso suposto agente anticâncer pode ser tóxico ao fígado - o que muitas vezes é letal - e acabará descartado. Mas será necessário causar a morte de uma pessoa, que poderia tentar outro tratamento possível, apenas para descobrir se o mesmo é seguro ou não?"

Em minha ingenuidade pensava eu que controlar o câncer in vitro seria suficiente para descobrir curas e fórmulas, agora começo a entender que  a coisa é bem mais complexa e que explicar como funciona a ciência como disse o doutor Jorge Quiilfeldt é um grande desafio.

Segundo Quillfeldt: "Testes de segurança contra efeitos colaterais como toxicidade, teratogênese, mutagênese ou carcinogênese sempre precedem o exame da substância em si, e geralmente são feitos em animais, até por que a validação estatística exige estudar grande número de indivíduos. O sacrifício humano acima, portanto, não resolveria a questão, e muita gente teria de morrer à toa se não pudéssemos testar antes em animais. Felizmente tal possibilidade foi banida após os horrores perpetrados pelos “cientistas” nazistas durante a segunda guerra, resultando no chamado Código de Nuremberg, fundamento de toda pesquisa científica atual com humanos. Esta pode e deve ser feita, mas apenas com o consentimento informado de voluntários, e somente em etapas posteriores do estudo, quando há menos risco de danos irreversíveis.

No presente estágio do desenvolvimento científico, não existem alternativas capazes de substituir o uso de animais, embora a busca continue. Cultura de células, por exemplo, além de extraídas de seres vivos, não permitem prever o que acontecerá com determinado fármaco ou procedimento quando aplicado num animal inteiro, com fígado e rins que os processem e modifiquem. Modelos em computador, por sua vez, incorporam apenas conhecimentos já estabelecidos, e o objetivo da pesquisa científica é acessar o que ainda é desconhecido".


Eu me senti enganado ao ver pela televisão e pelas redes sociais pessoas defendendo cultura de células e modelos em computador como alternativas, não eu não sabia, confesso que ignorava que modelos em computador só incorporam conhecimentos estabelecidos e não aquilo que é desconhecido e no tocante à cultura de células nunca parei para pensar que não se pode prever o que acontecerá  no organismo. Então esses métodos não constituem alternativas para obter novos conhecimentos. 

O doutor Quillfeldt diz que provar segurança em animais  não garante a segurança integral em humanos, por isso os testes só são aplicados depois de confirmado um alto nível de segurança. E que os testes em animais dão uma certa segurança porque apesar de sermos tão diferentes somos parecidos uma vez que todos evoluímos de ancestrais em comum. Outra coisa: a medicina veterinária segundo Quillfeldt também se beneficiou de testes em animais. Que coisa não? Pense nisso da próxima vez que levar seu bicho de estimação para o veterinário. 

domingo, 22 de novembro de 2009

O serviço irracional da saúde por Richard Dawkins

Richard Dawkins faz uma abordagem acerca das medicinas alternativas e demonstra como são falsas e as "curas" realizadas por elas são apenas placebo.