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quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Os erros e acertos do Sardinha (Antonio in 'Glossário dos tempos' 1942) II


Agora damos que esse Sardinha, que tanto censura os demais por terem assumido ideais estrangeiros ou galicanos (Franceses), não pode deixar de citar seu guru francês que é o excomungado Charles Maurras, criador da Ação francesa e pai do integralismo.

Crítica os ancestrais lusos reprodutores de Rousseau, Barras, Robespierre, etc - E copia outro francês...

E assim caminha a pobre e infeliz humanidade, de abismo em abismo - Abyssus...

Trágico é que o pobre Sardinha copia muito mau o seu guru francês.

O qual vivendo nas Gálias bem podia observar muito de perto o que sucedia nos cantões da majestade luterana i é do Kaiser Guilherme...

Justiça seja feita ao velho Maurras, como proto fascista tinha ele certa compreensão realista da cultura (Não era um Weber é claro mas não lhe faltava gênio!) e perfeito entendimento - Tal e qual o insuspeito Comte e muitos outros - quanto ao significado do protestantismo e a cultura produzida por ele. Da qual absolutamente nada esperava.

De fato esses franceses, geniais mesmo quanto equivocados, como Comte, Maurras, Gaxotte, etc muito teriam a dissertar sobre os EUA, o norte americanismo, o protestantismo e o tempo presente, quiçá superando o velho Tocqueville. Já o pai de Montaigne e sobretudo Guilherme Postel haviam percebido diversos aspectos do éthos protestante quando este ainda dava seus primeiros passos.

E todavia a pobre humanidade e os franceses de hoje, e os latinos, parecem se ter esquecido de tudo, de tudo...

Sendo velho o mal...

Como podemos detectar no Sardinha, patriarca dos integristas lusitanos - Muito mal orientados... Pois com que incredulidade não lemos, á página 74 do citado Ensaio, seus votos pela vitória do imperialismo alemão. Para ele a humilhação de uma França politicamente liberal e laicista pelo império luterano alemão representaria a regeneração da Europa... Não era simples questão de reprochar os excessos anti clericais de uma França desorientada por Clemenceau, mas questão de admirar o éthos Alemão pautado na submissão passiva do cidadão a qualquer lei ou mesmo decisão do líder - Submissão cega e irracional de que resultaram mais tarde os nefandos crimes do nazismo.

Éthos inseparável do luteranismo ou de um calvinismo reinante, ou ainda de um jansenismo que jamais se impôs a França - Tudo derivado da antropologia podre de Agostinho, do irracionalismo e da negação da liberdade, negação em nome da qual os senhores luteranos, desde 1525, impuseram - Aos camponeses ou servos! - um regime mais rigoroso e estreito do que o vigente na odiada Idade Média romano papal. Desde então foi a vontade tomada ao povo alemão, e converte-se este num boneco ou naco de cera sempre submisso ao poder.

E Sardinha, sem investigar fontes e causas, admira a disciplina dos cidadãos ou soldados alemães. Morre de amores, esse luso tão confuso, pelos pais daqueles que mecanicamente sujeitos a uma ordem ou palavra exterminaram sem inibição aldeias inteiras na Grécia, Itália, França, Rússia, etc metralhando milhares de mulheres, crianças, idosos ou mesmo animais, todos inocentes... Exatamente como no adorado velho testamento. Tudo em nome desse culto supersticioso e horrendo a obediência cega e a ordem, o qual foi e é um verdadeiro flagelo.

Sem jamais ter lido uma palavrinha do quanto escreveram os insuspeitos pastores protestantes Monod, Wagner, Viénot e Monnier sobre as atrocidades cometidas pelos soldados do Império Germânico em conexão com o éthos protestante, a sardinha lusitana vê em tudo isso Redenção!!! Como os europeus latinos e sulistas de hoje, Sardinha é angelical, e nada desconfia do protestantismo alemão... Ele que ufanava ser bom católico - Tal e qual os 'bons' católicos (Ou Ortodoxos) de hoje, alinhados com os EUA ou o americanismo. De século a século o engano é o mesmo...

Ora aliados dos Alemães ou dos Norte americanos vão os romanos sacrificando suas tradições e cultura a interesses políticos ou econômicos, pelo que se tornam súditos desses países protestantes, apaniguados de sua cultura e por fim conquistados...

Outro aspecto curioso deste ensaio integralista foi ter carregado fortemente contra o liberalismo político francês sem ter tocado mesmo de leve nos problemas muito mais sérios e graves do liberalismo econômico inglês ou mesmo Norte americano ou ventilado que aquele poderia corresponder apenas a simples passagem de qualquer modelo tradicional para este último. Noutras palavras - Que as transformações políticas bem podiam ter por objetivo e fim a criação de uma sociedade econômica ou economicista em que os bens e serviços violentamente tomados a igreja de Roma em nome do laicismo bem poderiam vir a ser, em qualquer momento, adjudicados a indivíduos ambiciosos, como sucede hoje por meio das assim chamadas privatizações ou da tal desestatização.

Bem se percebe que Sardinha não fez qualquer contribuição relevante neste terreno, sendo incapaz de superar o tosco padre Murillo, o qual tendo olhos apenas para o liberalismo político não quis ou pode ver senão a pontinha do iceberg. 

Hoje, quando apregoam a passagem do político ou estatal para o privado ou individual podemos contemplar, ao menos na imaginação, o corpo do iceberg.

Querem que no futuro, absolutamente tudo seja pago $$$... Ao menos o quanto os padres, monges e freiras faziam era oferecido a todos, inclusive aos mais humildes e não apenas aos ricos ou a quem podia pagar. Havia vícios e defeitos... Aos montes... E por isso o poder político, alegou tomar posse de tais instituições e oferecer tais serviços sempre com a ideia de torna-los mais e mais universais por meio da gratuidade. 

Eis que agora, os descendentes daqueles que, em nome da acessibilidade e da igualdade, tomaram tais bens e serviços a velha igreja romana, pretendem vende-los a particulares de modo a autoriza-los a converter tais bens e serviços em fontes de lucro, com exclusão dos que mais necessitam. Que lógica há nisso...

Já vimos o mesmo embuste e falso enleio, no berço da reforma protestante. Quando o povo, acreditando nas promessas dos reformadores, apoiou o confisco dos bens eclesiásticos, por acreditar que obteria parte deles...  O que aconteceu depois disso já foi descrito por Janssen e Cobbett. Os príncipes e nobres amealharam tudo e os pobres ficaram ainda mais desassistidos, não tendo a quem recorrer.

Parece que a passagem do religioso para o político e sobretudo a atual tentativa de passagem - Exigida pelo Mercado todo poderoso - do político para o econômico (Por meio das tais privatizações) reflete um tipo de movimento análogo, se bem que mais sútil.

Apenas consumada a afirmação dessa sociedade econômica por meio do esvaziamento do político e da, consequente, dominação absoluta do poder econômico, poderíamos dar razão aos tradicionalistas e avaliar a passagem do religioso ao político, por passageira, como danosa. 

Naturalmente não nos foge a memória que nos reinos ibéricos, ao tempo em que a América foi ocupada, admitiu-se a participação da iniciativa privada em certos setores da atividade humana. Mas não na Educação e tampouco na Saúde... Setores essenciais eram retidos pela coroa e permaneciam em suas mãos, uma vez que a religião, a ela unida, era espécie de repartição de Estado. 

Posteriormente, tiveram os Estados de assumir a exploração das riquezas naturais, comunicações e transporte - Ao menos em grande parte. - por considerar que eram setores vitais ou estratégicos. E de fato a questão premente é se a totalidade de tais serviços ou mesmo parte deles deva passar a mãos de particulares e ser geridos objetivando apenas e tão somente a aquisição do lucro.

Quanto ao transporte e comunicações não nos opomos a participação da iniciativa privada sob a fiscalização efetiva e rigorosa de um Estado popular ou democrática, agora quanto a extração das riquezas naturais e sobretudo quanto a Educação e a Saúde, temos que devam permanecer nas mãos do poder público e oferecidas por ele observando rigorosos critérios de qualidade. Postulamos uma gestão pública ou democrática sob a égide de determinados postulados éticos. 

Pois quando se tem em vista o lucro acima de tudo é absolutamente normal que se proponha sempre a contenção de gastos ou a economia sem seu sentido estrito e chão, o que nos domínios da Educação e da Saúde são sempre funestos, pelo simples fato de que determinado aluno ou paciente, cuja condição implique excesso de gastos, vir a ser encarado como causa de prejuízo. Estamos acompanhando esse tipo de problemática - Mais comum do que se imagina - no Seriado Norte Americano 'The good doctor', transmitido alias pela Rede Globo. Não é produção de Michael Moore financiada pelos comunistas porém relato insuspeito sobre o gerenciamento privado da saúde nos EUA.

Tivemos aqui em Santos um caso acontecido nos anos 90 em que o Hospital Beneficência portuguesa, por questões de ordem financeira, não achou conveniente trocar uma peça do aparelho destinado a Radioterapia - Conclusão, por anos a fio, os pacientes cancerosos foram submetidos a um tratamento inócuo ou assassinados porquanto o câncer não foi debelado.

Posteriormente tivemos o caso da Prevent Senior em que, tendo em vista minimização de gastos, tais e tais tratamentos custosos eram recusados a pacientes idosos cuja condição fosse demasiado grave. Eu mesmo testemunhei cenas chocantes nas assim chamadas retaguardas de certos Hospitais privados desta região, as quais não hesitaria qualificar como criminosas. 

Quando um diretor de Hospital ou sua equipe consideram como prioridade o lucro e não a recuperação do paciente, ainda que onerosa, tais instituições convertem-se em autênticos açougues. 

Outra não é a situação das Escolas. Há escolas privadas que a preço de ouro oferecem educação esmerada, como ferramenta de poder, as elites. Tais o Dante Aligheri ou o Bandeirante... Como há diversas Instituições de Ensino superior que vendem diplomas... Situação que se vai tornando cada dia pior. 

Mesmo porque as pessoas, em geral, atribuem maior valor a vida do corpo físico do que a vida do espírito, que é a Educação. Do que resulta ser, o espaço da saúde, fiscalizado com mais intensidade e atenção. O Hospital é certamente muito mais cobrado que a Escola... E nele não toleraríamos jamais o que toleramos nela... Resulta tal menosprezo numa cultura de mortos vivos ou zumbis a que chamamos massas, associada a abominável oclocracia.

Mesmo quando refere as Danaídes, Sardinha, não percebe que ajustar os modelos sociais, políticos, morais, etc ao novo modelo econômico criado pelo protestantismo, i é, ao capitalismo, equivalia a uma utopia como outra qualquer. Pois como verificou o insuspeito Le Play as relações de convívio familiar que suportam aquele tipo de moralidade são as primeiras a serem destruídas no contexto urbano implementado pelo capitalismo.

A tão acalentada moralidade é moralidade de pequenas comunidades camponesas, agrícolas ou interioranas, e como tal infensa a um ambiente urbano em que o ritmo do trabalho, sendo alucinante, absorve a totalidade das energias e ocupações humanas.

No ambiente urbano, sob a égide das relações de mercado, política, comunidade e família cedem passo a produção de bens de consumo e são trituradas pelas engrenagens do capitalismo. Pai e mãe desertam do lar, abandonam a prole e a partir daí a cultura antiga desaba ruinosamente. O afeto se perde, o calor humano se acaba, o convívio desparece, os corpos se alienam, o educação se obscurece e o espírito entorpece... As pessoas se despersonalizam e os humanos se desumaniza. 

Não foi qualquer ideologia posterior que destruiu a família tradicional com seu modelo de moralidade, foi o liberalismo econômico!!! 

Não se pode conservar tudo e liberalizar apenas a economia como querem os tradicionalistas do Plínio C de Oliveira... O conservadorismo só seria viável em bloco, conservando o modelo econômico medieval. Os neo romanos no entanto, e por mero oportunismo, estabelecem compromissos levianos com o liberalismo econômico, ponta de lança do americanismo, que é um modelo de cultura protestante.

Scruton percebeu-o claramente no fim de sua vida, assim como nosso Jorge Boaventura... E ai temos o mitológico tonel.

Não acredito num conservadorismo total - Que ultrapasse o domínio da fé. - como D Lefebvre, mas admiro lealmente a honestidade de seus defensores. Quanto as soluções de compromisso são todas grotescas... Admitido o liberalismo econômico os modelos sociais legados pela antiguidade ou pela I Média estão condenados - Impossível salva-los.

Impossível evitar a mudança - Viver é transformar-se.

É no entanto, perfeitamente possível, orientar a mudança imprimindo-lhe direção. 

A direção imposta pelo capitalismo está errada, pelo simples fato de que após ter destruído diversas formas de convívio dignas de terem sido conservadas, ameaça a natureza, o planeta e a sobrevivência da própria espécie.

O fim do paraíso bucólico ou do idílio campestre era algo que talvez pudesse ter sido suspeitado por Sardinha como o foi por T S Elliot, Bernanos, Valéry, Hesse, Wolf, etc mas não o foi... 

O lusitano bisonho desconfia tanto dos tentáculos do capitalismo quanto do luteranismo germânico, o qual saúda como aurora dedirósea da civilização...

Abominável inversão tão comum em nossos dias - Concede-se máxima e irrestrita liberdade ao Mercado enquanto se lança pedras a liberdade política ou a democracia, bem como ao liberalismo moral (Por parte da hipocrisia moralista.)... Diante disso como não dar total razão ao verso do Evangelho: A luz manifestou-se aos homens e eles preferiram as trevas! Ainda preferem...

E o Antonio Sardinha foi um deles, como são seus leitores e os do pobre Corção, e os do Olavo... Como Marta, eles escolheram a pior parte... a parte mais infectada ou podre da modernidade.











sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Sexualidade, afetividade e família.





Tenho sido acusado de arrenegar ou combater a instituição da família enquanto vínculo afetivo estável entre determinado número de pessoas com o objetivo de educar os jovens e as crianças.

A bem da verdade, mesmo após ter lido a República, a Utopia e a Cidade do sol não me dei por convencido de fosse possível substituir a instituição familiar por qualquer tipo de organização educativa de caráter coletivo.

Não quero dizer com isto que a educação familiar não deva ser necessariamente completada por uma educação ética, cívica e social oferecida em escolas públicas, cuja frequência deva ser obrigatória e o regime absolutamente laico.

Ponto pacífico quando a educação pública, gratuita, compulsória e laica destinada a criar vínculos de solidariedade entre os diversos membros da sociedade.

A simples existência de instituições privadas de ensino fere na base mesma aquela igualdade de oportunidades que deveria ser oferecida a todos os cidadãos da República.

Tornando a instituição familiar sabemos muito bem que o próprio Platão foi obrigado a rever seus pontos de vista nas Leis, a obra mais importante de sua maturidade. Temos aqui um Platão realista e não haveria eu de ser mais idealista do que ele...

Após as Monografias de Le Play fica difícil conceber a erradicação da instituição familiar cujos laços de afeto devem corresponder a aspirações mais ou menos constantes da própria natureza humana.

Ao que tudo indica tem o ser humano necessidade de construir relações afetivas duradouras ou vínculos afetivos relativamente estáveis.

Embora alguns por receio, medo ou insegurança possam fugir a regra geral, ao menos aparentemente a instituição familiar parece corresponder a uma situação de normalidade entre praticamente todas as sociedades humanas, das mais primitivas as mais civilizadas.

Ao que parece a primeira Sociedade que tentou aluir até certo ponto a instituição familiar foi a URSS, ao menos em seus primórdios, i é nas décadas de 20 e 30 do século passado. Em que pese os esforços do regime Comunista soviético a instituição familiar, mesmo entre eles, atravessou triunfalmente o século XX até o final dos anos 80 quando o regime desmoronou.

Não é portanto a família, enquanto vínculo afetivo estável existente entre certo número de pessoas, que dirigimos nossas críticas, mas sim a uma determinada forma de família ou a uma estrutura familiar relacionada com um determinado tipo de cultura, a saber a cultura judaico/rabínica.

Não bíblica ou vetero testamentária, uma vez que para o azar dos fundamentalistas, o primeiro padrão familiar em termos bíblicos é poligâmico, não monogâmico. Haja visto que não apenas os ditos reis da casa de Israel como Dawid e Suleiman, mas os próprios patriarcas dos hebreus como Abraão e Jacó possuíam, cada qual seu serralho. Ora, não pode o Deus santo e imutável aprovar o pecado, como não pode fazer acepção de pessoas...

Nem afrontariam aqueles homens as leis de seus deuses...

Donde se infere necessariamente que a poligamia era situação comum entre os antigos hebreus, tal e qual é hoje entre os árabes maometanos.

Assim o surgimento da monogamia entre os antigos judeus nada tem a ver com qualquer Revelação divina, mas com o desenrolar de um processo histórico em termos naturais.

Para os escribas, fariseus e rabinos do século I desta Era no entanto, era já uma instituição dada como sacratíssima. O Cristianismo surge neste contesto e incorpora naturalmente este ponto de vista, em que pese não ser legitimamente Cristão no sentido de que tivesse sido fixado por Deus.

É verdade que Jesus Cristo apela ao mito de Adão e Eva com o objetivo de dificultar a concessão do divórcio, o que naquelas circunstâncias significava proteger a mulher. Mesmo porque devia assumir a cultura judaica para poder dialogar com os judeus, o que de modo algum deve levar-nos a imaginar aquela cultura ou seus mitos como sagrados. Para argumentar com os antigos judeus somente recorrendo a seus mitos, tal o propósito de Jesus, convencer os judeus e não pronunciar-se a respeito da validade intrínseca de seus mitos.

Portanto o que contestamos antes de tudo é o caráter monogâmico, hétero normativo, patriarcal e indissolúvel do matrimônio, i é a receitinha judaica assumida pelo Cristianismo. Asseverando que nenhum destes carácteres foi Revelado sobrenaturalmente pela divindade. A única regra fixada pela divindade quanto as relações matrimoniais é que, sendo fechadas, devem ser honestas. Portanto a única regra vinculada ao matrimônio, em condições de contrato exclusivo entre duas pessoas, é a fidelidade mútua, expressa pela condenação do adultério.

Parece-nos óbvio e evidente que a traição ou o adultério só fazem sentido, como por sinal lemos em Crime e Castigo, quando há um contrato fechado ou exclusivo, conforme a vontade dos nubentes. Caso não haja sentido de posse ou de posse exclusiva, mas um contrato aberto, em que ambas as partes permitam-se o fruição de uma vida sexual livre, a simples hipótese de traição ou adultério torna-se absurda. Não há traição onde há permissão ou necessidade de engado onde há autorização mútua. Porém no contesto de um contrato fechado, o compromisso de fidelidade assumido por ambas as partes deve ser honrado.

Nossa crítica principia por aqui. Pois embora a lei celestial discipline um contrato fechado pela condenação do adultério, em parte alguma do Evangelho ou mesmo do Decálogo topamos com a exigência de que a forma do contrato fosse fechada. Assim a lei trata com uma situação dada pela cultura e não com uma situação determinada pelo sagrado e isto pelo simples fato de que aos homens cabe o justo direito de determinarem suas relações afetivas.

Assim se o dolo de uma traição toca essencialmente as coisas divinas pelo simples fato da esperteza e do engano; a forma mesma do matrimônio ou sua estrutura é indiferente. Desde que haja um vínculo afetivo ou amor. Eu mesmo compreendo, e ouso confessa-lo, que o amor entre duas pessoas apenas me pareça superior ou mais elevado. No entanto quem sou eu - enquanto ser humano inserido numa determinada cultura - para julgar os outros? Não, não posso ser árbitro daqueles que consideram possível partilhar o amor com duas, três, quatro, ou mais pessoas. Não vejo absolutamente dada de divino contra a poliandria ou a poligamia, e penso que devêssemos encarar tal assunto como pessoal ou livre. O contrário disto seria opressão.

Claro que podemos optar pela monogamia ou preferi-la. Agora querer impo-la a todos os outros e em nome de Deus me parece o supremo absurdo. Deus certamente observa em primeiro lugar o sentimento do amor do que o número. E quem sabe até sem numa família do tipo poligâmico ou poliândrico não pode haver mais amor, carinho e afeição do que em algumas famílias monogâmicas que vivem de aparências?

Cessemos portanto de apontar, de julgar e de condenar o outro porque isto certamente não é nem um pouco Cristão.

Afinal tantos daqueles que batem no peito declarando-se monogâmicos possuem mais amantes ou casos fora do casamento do que os próprios poligamistas???

Aquele que tem fé viva a simplicidade da sua fé sem observar como vivem os outros.

Devemos portanto estar abertos para aceitar diversos tipos de organizações familiares. E não permanecer inutilmente apegados a abstrações metafísicas ou a agregados culturais persistentes.

Tampouco cabe a nós Cristãos impugnar o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo. Se você não concorda, é muito simples - Não pratique. Certamente ninguém haverá de obriga-lo a casar-se com outro homem ou com outra mulher. Não precisa nem mesmo ir a cerimônia de casamento ou levar presente, mas certamente precisa respeitar duas pessoas que se amam ou que se gostam, porque se elas se amam o Deus de amor se faz presente entre elas e santifica esta relação.

Tais pessoas não são safadas ou imorais, ou promíscuas porque pensam o sexo distintamente de você. Como não são monstruosas as que aderiram a uma dieta distinta da sua... Quando vamos a um restaurante há quem prefira salada e há que prefira churrasco, além é claro do que preferem frutos do mar... O que não há nem poderia haver é policiamento... Não podemos sair na mão por conta de hábitos alimentares distintos... Como não podemos agredir o outro por causa de suas preferências sexuais. O cardápio, o figurino, as sensações sexuais pertencem ao outro não a nós e o outro deve ser reconhecido como livre e senhor de si. O contrário disto é opressão.

Nem me diga que é a homossexualidade um pecado terrível porque serão os homens arremessados no mítico inferno. Remeto meus críticos a descrição, sucinta porém necessariamente completa oferecida por Nosso Senhor Jesus Cristo no vigésimo quinto capítulo do Evangelho de Mateus - Tive fome e me destes de comer, tive sede... é o que encontramos ali e não Destes teu rabo ou esfregaste tua vagina noutra vagina... Não isto não lemos. Deste juízo sexual, homofóbico, moralista e puritano não há vestígio no santo Evangelho. Destarte somos autorizados a declarar em alto e bom som que o Deus dos Cristãos não é vigia do ânus, do pênis ou da vagina de quem quer que seja... Não temos um Deus no controle de órgãos sexuais, o Evangelho não nos apresenta um Deus que nos julga por nossas preferências sexuais mas por nossos corações, indagando-nos apenas sobre que fizemos de nosso semelhante ou se a semelhança dele amamos o próximo como a nós mesmos.

Lamento mas a homofobia não esta fundamentada no terreno do Sagrado Evangelho. Lamento mais a titulo algum é Cristão. Portanto se duas pessoas do mesmo sexo desejam estabelecer vínculos estáveis ou um compromisso afetivo e adotar, e educar crianças ou jovens, rejeitados por heterossexuais despudorados e sem consciência nada há de anti natural nisto. Anti natural é uma pai ou uma mãe repudiarem seus próprios filhos, os quais geraram tendo em vista a conservação da espécie. Isto sim, o repúdio é aberrante. Não o acolhimento ou a adoção, parta de quem parta.

Tanto pior do ponto de vista natural ou civil, segundo o qual assiste a tais pessoas, enquanto contribuintes o direito líquido e certo de registrar suas relações afetivas obtendo amparo por parte do estado.

Por patriarcal temos o matrimônio machista, em que uma das partes é tida em conta de essencialmente inferior ou de prestadora de serviços (serviçal). É patriarcal o tipo de relação não igualitária em que é defeso ao marido comandar a mulher e os filhos exercendo caprichosamente a tirania sob ambas as partes segundo o modelo tradicional do 'pater familias' romano. Aqui a mulher é tida em conta de serva sexual ou de empregada e os filhos de tutelados sem vontade própria. Já o macho dominador converte-se em deus na terra... Claro que a suposta superioridade do homem é, como não podia deixar de ser, coisa de livros religiosos e não da natureza.

Os povos semitas, vivendo nas areias do deserto e tomando por padrão social a força física não apenas deram a mulher por inferior ao homem como atribuíram esta distinção a divindade. No entanto todas as situações em que a mulher aparece fruindo duma condição inferior ao homem são dadas pela cultura, não pela natureza. Intelectualmente é a mulher tão capaz quanto o homem desde que se lhe dê as mesmas oportunidades. Além disto tem o poder de levar a cabo a geração, coisa que o homem não pode fazer por si só... Klein por sinal, lanço a tese segundo a qual o homem se sente incomodado por essa capacidade da mulher levar a cabo a geração, sem necessidade dele ou de converter-se em 'pai' e mãe...

Cada vez mais se impõem a necessidade de que a Igreja (do ponto de vista administrativo não doutrinal), a escola, o clube e o próprio matrimônio assumam cada vez mais pressupostos democráticos com o propósito de produzirmos uma cultura ou um espírito democrático. Relações hierárquicas e autoritárias na base da cultura certamente fragilizam a produção de uma consciência democrática. Esposas (ou maridos, porque também existem) e filhos submissos jamais serão bons cidadãos em estado de liberdade. Por isso todas as decisões de uma família devem ser tomadas em comum, partindo de um conselho familiar. Assim discutidas e votadas, jamais impostas verticalmente.

Tampouco vemos que seja ou deva ser o matrimônio indissolúvel por qualquer razão, mas solúvel como todas as coisas que porventura não deem certo. Por isso o Salvador do mundo autoriza subsequentes matrimônios em caso de adultério para a parte inocente. Afinal nem poderia o inocente, sob qualquer título ser penalizado da mesma forma que o culpado ou suportar um jugo mais pesado; seria injusto. Isto disse ele para evitar que as mulheres judias fossem repudiadas por qualquer motivo leviado e lançadas no olho da rua para que morressem de fome. Restringiu o divórcio entre os judeus e os primeiros cristãos procedentes da judiaria com o objetivo de proteger a mulher.

Num regime de liberdade no entanto para que deveriam as partes esperar serem traídas uma pela outra? Haveria conselho mais insensato??? Claro que numa situação diversa da que vigorava entre os primitivos judeus seria defeso ao casal desfazer o matrimônio por mútuo acordo, antes que chegassem a situações de adultério ou violência, sendo defeso tanto a um quanto a outro contratar novo matrimônio.

De tudo quanto dissemos acima ressalta a tese segundo a qual as relações matrimoniais foram dadas ao homem para que ele mesmo as gerencie racionalmente da melhor maneira possível.

Resulta deste gerenciamento mútuo que possam, na medida em que se mostrem maduros e capazes, de administrar a sexualidade do matrimônio, sem confundi-la com a afetividade ou o vínculo. Defendemos assim o amor livre ou o sexo livre dentro do casamento ou do matrimônio. Noutras palavras defendemos a existência de um matrimônio sexualmente aberto ou de vínculos afetivos estáveis que não pressuponham controle ou monopólio sexual.

Já esta mais do que na hora da sociedade aprender a separar amor de sexo e sexo de amor. O que produz um vínculo entre duas ou mais pessoas é o sentimento, o carinho, o amor, o afeto, a confiança, etc não o sexo. Em que pese a existência dos vínculos e da união, a sexualidade de ambas as partes podem continuar sendo livre se ambos o quiserem e assim decidirem.

Se amar é querer ver o outro feliz não me parece condizente com a vontade de reprimir os impulsos ou desejos sexuais alheios. A que título você pensa poder cobrar que a pessoa a que ama faça sexo apenas com você ao invés de autorizar que tenha uma vida sexual livre com outras pessoas? A única explicação possível aqui é que a maioria de nós sente-se inseguro com relação ao próprio desempenho sexual temendo ser superado por alguém e eventualmente posto de lado. No entanto se o que conta de fato numa relação estável é de fato o amor, o carinho, etc não é de se esperar que esta relação permaneça firme, forte e inabalável para além de qualquer outra possível experiência sexual???

Por outro lado não é até melhor que a pessoa a que amamos tenha uma, quem sabe, uma experiência sexual mais intensa com uma outra pessoa, desde que consentida por nós? Será que um tal tipo de liberdade não reforçaria ainda mais os laços de admiração, gratidão, carinho e amor? Isto pelo simples fato de que o amor nos faz aspirar ver o outro feliz e realizado em todos os sentidos... No fim das contas por que odiar a alguém por dar prazer a quem dizemos amar? Acaso dar prazer a alguém não é um bem e fazer alguém feliz não é igualmente um bem?

Então por que queremos monopolizar sexualmente o outro e restringir sua liberdade e experiencialidade sexual se sabemos que será uma fonte de angústias e neuroses para ele?

Mas quem ama deve controlar-se?

Controlar-se porque o exigimos? Controlar-se por que é objeto ou propriedade nossa? Controlar-se por que é monopólio nosso? Que temos aqui nesse sentido de posse, amor ou egoísmo?

Que queremos de fato que o outro nos faça feliz submetendo-se a nosso controle ou que o outro seja feliz???

Mas quem ama deve fazer sacrifício?

Neste caso olhe para dentro de si mesmo e responda se esta sinceramente disposto a fazer grandes sacrifícios pelo outro.

Se responder sim, estamos conversados...

Agora se hesitar por um instante, permita que lhe pergunte:

Desde quando exigir sacrifício por parte do outro é amar?

Afinal sacrifício é dor ou desconforto não?

Permita-me insistir teimosamente e dizer que amar é querer fazer o outro feliz?

Como posso fazer o outro feliz submetendo-o a situações limites, cobrando-o, vigiando-o, policiando-o, tratando-o como um objeto ou uma propriedade?

Perdoem-me a ignorância mas não posso ver como tantas e tantas exigências possam corresponder ao amor, ou por que deva o amor imiscuir-se nos domínios da sexualidade.

Por que motivos não podemos construir laços familiares duradouros com base no amor e ao mesmo tempo conservar a liberdade sexual evitando tantas situações de neurose e conflito que chegam até a violência?

A instituição família penso eu continuará a existir por séculos ou milênios.

Assumirá no entanto novas formas passando por múltiplas transformações.

Assim o que repudiamos não é a instituição em si mas determinada forma 'fixa' ou imutável enquanto produto natural da cultura e não uma emanação do Sagrado. Nós aceitamos todos os tipos ou modelos de família desde que santificadas pelo vínculo do amor. E acreditamos acima de tudo numa adoção, cada vez maior, dos casamentos sexualmente abertos, o que por sinal é bem mais conforme a dignidade da criatura racional.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O acúmulo de bens materiais a luz da Filosofia antiga

Cuidam os liberais estúpidos que a primeira objeção contra o acumulo de bens materiais tenha partido dos Comunistas ou de seu patriarca Karl Marx.

Nem pode a mediocridade ou melhor nulidade liberal fugir ao vezo de tudo atribuir aos tais comunistas, Marx, Engels, Lênin, etc

De minha parte ja era socialista convicto, bem antes de ter ouvido falar pela primeira vez em tais nomes pelo simples fato de ter encontrado nas páginas do Evangelho os seguintes mandamentos:

  • NÃO JUNTEIS tesouros neste mundo onde a traça e a ferrugem devoram os elementos, mais forcejai por juntar um tesouro incorruptível no mundo celestial.
  • NÃO PODEIS ADORAR A DEUS E AO DINHEIRO.
  • É MAIS FACIL UMA CORDA PASSAR PELO FUNDO DE UMA AGULHA DO QUE UM RICO ENTRAR NO REINO DOS CÉUS.

E como ex protestante eu já estava imunizado contra o vício do livre examinismo que consiste em atribuir as palavras de Cristo, sentido diverso ou mesmo oposto, ao que lhe é próprio e de distorcer sua mensagem.

Diante disto também não me deixei enganar facilmente pelo livre exame exercido pelo clero papista, apenas mais sutil, por estribar-se em 'tradições' eclesiásticas forjadas durante a Idade Média por clérigos de idoneidade suspeita.

No entanto a igrejas romana prestou-me imenso serviço por ter colocado em minhas mãos as tradições genuínas dos padres antigos, cujas raízes tocam a mais remota antiguidade. Refiro-me a publicação da ed Paulinas  'Por que a igreja crítica os ricos', que consiste numa coletânea de passagens tomadas as obras dos antigos elderes da igreja, sobre a riqueza, a pobreza, a justiça, etc

Este contato com a genuína tradição e alma do Catolicismo foi que consolidou para sempre minha orientação social em torno dos ideais justicionistas.

Foi da tradição da Igreja Católica, de deus evangelhos, de seus Bispos e de seus escolásticos que recebi o espírito anti economicista ou anti liberal a que tenho permanecido fiel até o tempo presente. Moço novo eu nada sabia sobre Marx, Engels, Kautsky, Plekanov, Lênin, etc Alemães e russos eram até então um mistério para mim e minha mente encontrava-se firme presa a Jerusalém, Damasco, Antioquia e Alexandria. Eram Newman, Montabembert, Pressensé, que eu lia...

No entanto como o Cristianismo, no dizer que Orígenes e outros,  fora direcionado as massas grosseiras e incultas, julguei ser necessário completar, alargar, aprofundar minha formação.

A quem me dirigi?

Aos comunistas??? A Nietzsche, Stirner, Rand, Heidegger, Delleuze, Derrida, Foucault, Sartre e demais profetas da modernidade?

Sou eternamente grato a igreja romana e ao padrão Católico por ter-me guiado a Atenas e me matriculado na Escola de Sócrates.

Jesus conduziu-me a Sócrates. (consequentemente a Platão e a Aristóteles) Assim pude aprofundar minha formação Ética, contemplando minha condição de ser racional.

E lá também topei com a mesma condenação ao acúmulo desmedido de coisas materiais.

Adquiridos em prejuízo da educação filosófica.

Desde então pude observar que o frade mendicante da Idade Média, fustigado sem misericórdia pela látego da Burguesia ascendente e pela nova religião protestante, limitava-se a reproduzir as denuncias levantadas pelos ANTIGOS CÍNICOS face a uma sociedade cada vez mais seduzida pelo brilho das falsas riquezas. Todas as críticas e escárnios empregados pelos 'neo' humanistas e protestantes contra os frades não passavam de reedição das velhas críticas que os hedonistas e materialistas da antiguidade haviam lançado contra Diógenes, Crates e toda escola.

Então, ainda mais uma vez, somos levados a enfiar o dedo dentro da ferida...

Não se importando com o sangue e o pus...

E como extremo sempre produz extremo... nada mais natural que o mundo do luxo e do supérfluo produzir um mundo paralelo de miséria. O qual tornando milhões de homens e mulheres prisioneiros de suas necessidades básicas impede-os por assim dizer que cultivar o estudo da Filosofia ou de buscar a verdadeira religião... oprimidos e esmagados pelas exigências da materialidade e da vitalidade nem se pode negar quão pouca seja a liberdade de tais criaturas. E quão longe achem-se do bem, da verdade e da beleza...

Nem podemos nós buscar qualquer valor ou benefício numa miséria que lhes é dada ou melhor imposta pelo sistema e a qual não podem fugir facilmente. Antes devemos encarar este tipo de miséria dada ou imposta como verdadeiro crime.

Todavia há também neste cenário um tipo de miséria CRÍTICA ou virtuosa livremente adotada por pessoas sensíveis e solidárias: assim o cínico dos tempos antigos, assim os monges do Catolicismo... os quais até mesmo da vida sóbria e moderada abrem mão com o objetivo de cultivar apenas e tão somente a sabedoria, apontando a uma sociedade enferma quais sejam os verdadeiros objetivos da existência humana. Consideram-se o cínico e o monge verdadeiramente livres e desimpedidos na mesma medida em que não se deixam afetar pela aspereza, o frio, o calor, a fome, a sede, os apetites, os desejos e a vontade e sempre podem tomar as atitudes que melhor convém no momento.

Por estarem tais pessoas afeitas de certo modo a dor, ao incomodo e a morte e consequentemente privadas do temor da morte, podem sustentar sem maiores receios a nobre e excelente causa da justiça ou porém-se a serviço do bem e da verdade sem temer as represálias com que os tiranos costumam punir aqueles que ousam resistir-lhes, a saber a privação, a tortura e a morte... Eis porque os déspotas e senhores sempre temeram acima de tudo ao Filósofo e ao Monge; as únicas categorias de pessoas capazes de resistir-lhes por terem superado o temor do sofrimento e o medo da morte.

Nem se pode negar que tal gênero de pessoas: que nada receiem da dor e da morte sejam capazes de falar livremente, declarando face aos poderes deste mundo quais sejam seus pensamentos e de se opor a qualquer ordem ou mandamento que não seja justo!

Antes de tudo é escravo o proletário ou trabalhador porque tendo constituído família - as vezes por imposição da própria sociedade - deve suprir as necessidades básicas da esposa e dos filhos e nem pode pensar em deixar de faze-lo, seja quais forem as condições. Assim a esposa e os filhos são como elos de uma cadeia que tornam-no dependente do sistema, e do sistema que o oprime não pode desligar-se por causa deles! Agora outra é a situação daquele que tendo triunfado dos apetites sexuais e subjugado-os ao talante da vontade, a ninguém quis ligar-se e a ninguém gerou. Agora por estar só é livre para fazer aquilo que julga ser necessário...

Imensamente mais grave e triste é a situação daquele cuja família assumiu uma mentalidade burguesa em torno das necessidades artificiais impostas pelo consumismo.

Este cobiça um carro novo por ano, sua esposa por uma nova cozinha por ano, o filho por um computador novo por ano e a filha por um celular de ultima geração... ali até o cachorro e o gato são servidores do deus Mercado. Agora como um homem destes ou uma mulher destas haverão de ser dependentes de um determinado salário ou escravos do trabalho???

Creem ser livres e felizes mas perdem o contato um com o outro e com os próprios filhos. Infeliz desta família contemporânea que só se encontra pela noite para dormir pesadamente ou nos fins de semana e feriados! Nem vejo que vantagem há em ter família apenas para os fins de semanas ou feriados!!! O trabalho aqui fica com a maior parte do tempo, em razão das despesas ou dos gastos, com o supérfluo e artificial e não com o necessário ou fundamental... Quantas pessoas endividadas e escravizadas passam a maior parte do tempo distante de seus filhos!!!???!!!

Que liberdade é esta?

Permitam-me questionar este tipo de felicidade esquisita,  na esteira alias dos antigos cínicos.

Parte de vocês vivem falando a respeito da família e exaltando-a até os céus, para... sacrifica-la as exigências do trabalho, do econômico, do mercado!

Sim, em nome de gastos inúteis, em nome do supérfluo e do luxuoso, alienam suas liberdades e exilam seus pobres filhos em creches, escolas ou sei lá mais o que, acreditando ou fingido crer que tal gênero de vida lhes faça bem. Mas não faz, pois o que os filhos desejam antes de tudo é a presença ou a companhia de seus pais!

Filhos não querem babás, professores, tranqueiras, etc precisam acima de tudo dos pais!

Mas os pais nunca estão, pois sempre estão trabalhando para pagar dívidas ou honrar despesas.

Neste caso trabalham para que? Para o bem estar de seus filhos??? Não, mas para o bem estar das empresas, do mercado, da economia... Pois esta mania de adquirir o que não é necessário beneficia apenas o econômico... Ficando a família, o cônjuge e os filhos a ver navios...

E não havendo contanto, morre o afeto e desfazem-se as famílias...

Tudo graças a que?

As exigências do trabalho, a jornada de trabalho, as imposições do mercado, aos gastos, as despesas; enfim a este consumismo acrítico que leva famílias inteiras a adquirir um montão de coisas de que não precisam.

Agora levassem nossas famílias um regime de vida mais sóbrio, crítico, equilibrado e são; quais seriam os efeitos concretos deste regime de vida?

Menos gastos, menos dívidas, menos dependência, menos escravidão e consequentemente mais liberdade, mais autonomia, mais tempo para passar com o cônjuge e os filhos alimentando os laços do afeto e cultivando a verdadeira intimidade.

Não se trata aqui do pai ou mesmo da mãe não trabalharem.

Trabalhar é necessário.

Trata-se apenas de não ser mais um prisioneiro ou refém do trabalho.

Em tempos de Dilma posso até aconselhar as famílias a gastar menos para fazer uma reserva ou poupança tendo em vista o futuro. Para que não se tornem reféns, escravos, bonecos nas mãos de seus patrões; ousando falar com eles livremente e e revindicar seus direitos: suas férias, a recusa de fazer hora extra, o descanso dominical; enfim tudo quanto possa redundar num contato maior com a família.

É necessário colocar as necessidades da família acima das necessidades do trabalho. Para tanto porém faz-se mister romper com o padrão do consumismo acritico, com o fetiche TER, com a mania de comprar coisas mais caras ou desnecessárias. Claro que jamais se poderá fruir do mesmo nível de liberdade que um cinico ou um monge; mas sempre será possível ampliar a esfera da própria liberdade. destruindo os laços artificiais de dependência.

Se o filósofo e o monge são capazes de viver em estado de necessidade ou carência voluntária não seremos nós capazes de contar nosso consumo passando a viver sobriamente?

Especialmente se sabemos que este novo regime de vida nos faria mais livres.

Menos dependentes do salário, do emprego e do mercado; aos quais oferecemos a maior parte de nosso tempo e boa parte de nossas vidas.

Possibilitando uma redistribuição do tempo e um contato mais próximo com a família, instituição que tanto encarecemos com palavras mas que não valorizamos verdadeiramente, subordinando a outro tipo de relação.

Então eu acredito que devemos por diante de nossas vistas o exemplo daqueles homens e mulheres que esforçaram-se por quebrar todos os laços artificiais e impostos para viver uma vida mais natural e livre. 

Não nos enganemos... não é possível servir bem ao dinheiro e a família, um aqui ficará mal servido.

Nossas famílias estão muito mal servidas justamente porque são servidoras do dinheiro.

Não é o dinheiro que tem servido as famílias.

Famílias é que tem sido alienadas pelo poder do dinheiro, por falsas necessidades econômicas, por exigências inumanas de um mercado... famílias é que tem sido desestruturadas e destruídas pela mística do consumismo, pelo endividamento, pelos gastos e pela nova escravidão!

Como Marx disse e com razão absoluta disse: Os comunistas não precisaram bradar contra a família tradicional, encontraram esta instituição completamente arruinada pelo liberalismo econômico e suas exigências.

Muito antes que o sociólogo barbudinho tivesse registrado as palavras acima a gente do campo e os padres romanos ja haviam publicado este diagnóstico e proclamado a incompatibilidade entre a organização tradicional da família e a ordem urbana ditada pelo capitalismo!!!

Não foi o comunismo que atrelou nossas famílias ao carro triunfal do deus mercado, foi o capitalismo. Este sistema é que separou Pai, Mãe e Filhos enfiando cada qual numa fábrica ou setor diferente da mesma fábrica! Foi o capitalismo que drenou-lhes as forças, comprometeu-lhes a saúde,  que barbarizou-lhes o caráter, obscureceu-lhes a razão... este sistema é que retirou-os do lar, alienou-os a natureza, contaminou-lhes o ambiente e exilou-os num mundo artificial de feiura controlado pelos ponteiros de um relógio.

Separou a família do ambiente, separou os trabalhadores da corporação, os familiares do lar, etc tudo fragmentou, isolou e dividiu para poder com mais facilidade dominar.

Não sou e jamais serei contra o trabalho da mulher.

No entanto se em tempos passados um só é que trabalhava para sustentar a todos, porque raios hoje, os dois não podem trabalhar menos e permanecer cada um certo tempo em casa junto dos filhos?