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sábado, 19 de junho de 2021

A tarefa de um diretor habilidoso.





Qual a tarefa de um bom Diretor de Teatro ou Cinema?

A tarefa, missão ou vocação de um Diretor eficaz consiste em explorar ao máximo as potencialidades de seus atores e a partir delas utilizar-se de todos os meios possíveis para torna-las visíveis.

Logo a atribuição dos papéis sempre deverá levar em conta três tipos de expressão:

A expressão postural.

A expressão plástica ou gestual. E-

A expressão facial, E -

A expressão e sonora.

Eis o que faz um ator. Eis o que faz o ator.

Cria e recria ele o personagem imprimindo-lhe tais expressões. 

De modo a oferecer um todo harmonioso, sempre conforme o perfil do personagem em questão.

Define a postura o personagem. 

Pois uma é a postura do Rei e outra a do súdito. Como será outra a postura de um rei débil, e outra a postura de um súdito arrogante...

Postura é aquilo que faz o ator identificar-se com o personagem ou incorpora-lo.

E já foi dito mil e uma vezes que se trata de algo intuitivo. Como se o intuitivo ou natural não pudesse ser aprimorado pela técnica ou pelo treino.

Cabendo aqui uma direção e um Diretor.

Outro caso se houver falta de discernimento ou de intuição. Não sabendo o ator assumir porte - Ou 'ares' como se dizia outrora - de rei ou de mendigo. 

Pois foi o porte, intuitivo por sinal, que fez um Olivier, um Gielgud, um Autran, um Abujamra, uma Robson, uma Staunton, Flanagan, Ferrati, Carrillo, Rachel...

Melhor dizendo: Um Hamlet, um Chang, um Baldaracci, um Ravengar, uma Valentine... - Tipos consumados de príncipe, criado, padrasto, mago e rainha.

Tipos de fato existem. Coisa diversa é encarna-los com facilidade e suma raridade encarna-los muitos ou todos como um Chico Anysio.

Ao porte segue a modulação dos gestos, outro aspecto importante da linguagem corporal que se torna vital para aquele que interpreta.

A modulação dos gestos é que produzirá as variantes impostas pela trama.

Assim um padrasto abnegado - Posto que a padrastos e madrastas abnegados, em que pesem os estereótipos - ou um padrasto cruel. Uma rainha séria ou cônscia de sua dignidade com Flora Robson (1937), Ferratti, Carrillo... Ou uma rainha caricata como Valentine, a qual Tereza Rachel, emprestando o timbre da voz, tornou clássica. Um homem efeminado ou possuído por um espírito feminino como Steve Martin ou Tony Ramos ou um machão como os que fazem a fama de Fagundes. Mesmo um avarento como Nonô Correia tem seus gestos característicos. Todo o personagem os tem. Sendo papel do Diretor fazer com que o ator desenvolva essa percepção.

Observe como Antonio Abujamra sabia modular os gestos para compor o personagem Ravengar, como sabe o momento exato de cruzar os braços, ergue-los, erguer apenas o dedo, curvar-se, etc Observar este personagem é uma autêntica aula de linguagem gestual e vale por muitas aulas de interpretação.

Segue a expressão facial. Tão importante nos cômicos ou comediantes, a exemplo de um Rogério Cardoso, dum Walter D'Avilla, dum Brandão Filho, quanto nos trágicos, como uma Nathalia Timberg, a qual sempre explorou esse tipo de expressão ou recurso e ocorre-me a inesquecível vilã D Idalina. 

Postura e expressão plástica sem expressão facial seria como uma casa sem teto ou telhado.

Pois a expressão facial é que completa e dá vida a postura e a expressão plástica, aproximando da perfeição.

Agora o arremate da perfeição é a entonação da voz. 

Pois a voz do ator precisa ser modulada.

Afinal há falar de rei, falar de mago, falar de líder sindical, falar de político, falar de operário, etc diversos falares e tons, os quais precisam ser manejados pelo bom ator.

Ouso, ainda mais uma vez, aludir ao personagem Ravengar, cujo manejo da voz em sintonia com o discurso é para mim proverbial. 

Outro ator notável pelo toque e a modulação de voz foi o falecido Jorge Dória. Escusado descreve-lo. 

Assim o Paulo Autran, Ary Fontoura, Walmor Chagas, Paulo Gracindo, Lima Duarte... 

Os quais é sempre útil e proveitoso ouvir.

Relacionados os quatro tipos de expressão com o tipo ideal do personagem que se quer cabe ao diretor escolher o ator que melhor corresponda a esse tipo e ajuda-lo a desenvolver, em máximo grau, cada expressão. 

O que se consegue através do treino.

O segundo passo na arte da direção é deixar o dirigido brilhar.








segunda-feira, 16 de julho de 2018

Comunistas, anarquistas e humanistas e a Revolução ou Revolução, Ética e Liberdade.

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Um dos problemas postos por Jonh Gray em torno da Ética, que não crê ser universal, mas relativa é a suposta incompatibilidade existente entre as exigências da paz e as exigência da justiça. A argumentação do autor, aparentemente ao menos, justifica-se tendo em vista duas opções extremistas e excludentes - A do pacifismo crasso, assumida por certo número de Cristãos de boa vontade, e a do revolucionarismo atrabiliário, professado por diversas correntes sociais de vanguarda.

Assim se os primeiros sempre sacrificam as exigências da justiça em troca duma paz não gloriosa e tampouco digna os demais fazem muito pouco caso da paz e da vida. O que segundo Gray, aponta-nos soluções éticas antitéticas, excludentes e inconciliáveis... A situação - ao menos para ele - é esta, e não há solução.

Diante disto a questão proposta por nós assume a seguinte forma - Será possível, do ponto de vista ético, conciliar os interesses da paz com os interesses da justiça? Até quando será possível manter a paz? Quando será necessário sacrificar a paz em nome da justiça ou melhor quando uma virtude deverá ceder espaço a outra? Como pugnar por uma luta ou por uma revolução ética? Será isto possível? Adotada a solução policrática, como conciliar a estrutura de uma organização revolucionária com as exigências da liberdade humana?

Num primeiro momento devemos ter consciência, e mesmo o homem pacífico e bem aventurado, de que a paz é um bem desejável, mas relativo. Na hierarquia de valores há valores superiores a ela e um deles é a justiça. E não é possível aconselhar a alguém que suporte a injustiça em nome da paz. A paz só assume a conotação de um valor absoluto quando identificada com a 'não agressão'. Da mesma forma o pacifismo consistente deve significar sempre 'não agressão', é filho da paz aquele que podendo atacar opta livremente por não faze-lo, como é filho da paz aquele que se defende ou que recorre a violência defensiva. É tão inimigo da paz aquele que ataca quanto aquele que comete qualquer injustiça.

Por isso Ihering define a injustiça como uma profanação da dignidade humana. Todo injustiçado é de alguma forma profanado...

Diante disto como exigir deste homem violado no mais íntimo de seu ser que se conforme???

Apesar disto milhões de Cristãos, mal orientados, declaram que a injustiça é coisa que se deva suportar. Uma vez que o Mestre de todos disse: "Aquele que te bate numa face dá a outra face."

Querendo dizer que jamais é lícito defender-se ou exercer a violência defensiva; e que nos devemos deixar esmurrar em quaisquer circunstância.

Antes de tudo devemos compreender que aquele que é agredido ou esbofeteado repentinamente perde o controle e que ao perder o controle foge-lhe a razão. Ele voa sobre o outro, o outro voa sobre ele, começa ai uma briga e não poucas vezes destas brigas resulta uma morte ou dano mais grave. Já aquele que ao ser subitamente agredido ou atacado logra controlar-se adquire um bem relativamente valioso - O auto controle ou controle de si mesmo, o qual lhe permitirá avaliar a situação com serenidade, e tomar a melhor decisão possível.

É significativo que esse texto seja precedido pela fórmula de talião - Olho por olho, dente por dente. O que nos levaria a concluir que o vício condenado por Jesus é a vingança e não a defesa. Ademais está Jesus referindo-se a conflitos pessoais que sucediam amiúde nos ermos da Judeia, degenerando em brigas... com as consequências que acabamos de descrever acima. Neste caso por que colocar a própria vida ou a vida de outro em risco devido a posse de uma túnica? Se a vida de qualquer homem vale mais do que uma túnica???

Diversa é a situação em que o agredido que logrou controlar-se, deduziu ter sido injustiçado e chamou a polícia ou recorreu a lei - assim em Roma, na Grécia ou nas atuais nações civilizadas. Vinganças, brigas, linchamentos, explosões irracionais de violência, etc parece ser tudo quanto Jesus quisera condenar. Não a busca da justiça por meio das leis numa sociedade civilizada ou o recurso a violência defensiva em casos premeditados.

Claro que a solução dada por Jesus refere-se a conflitos pessoais ocorridos em sociedades demasiado arcaicas ou primitivas. Não a conflitos sociais ou impessoais sucedidos em sociedades civilizadas, e que correspondem a uma demanda pela justiça. Claro que tais situações fogem a 'cena' descrita pelo Mestre e assumem outra conotação.

Aqui importa uma única coisa - O sentido mais profundo da paz enquanto não agressão. Antes de ser aquele que em tese suporta qualquer tipo de agressão como um cordeiro, é o Cristão cordeiro que jamais agride. Assim caso existam Cristãos que agridam a outros Cristãos ou mesmo aos não Cristãos É DEVER DA IGREJA REPRIMI-LOS DURAMENTE, ATÉ A EXCOMUNHÃO. Não é ao agredido ou ao que sofre violência que a igreja deve dirigir sua voz para apaziguar, mas ao agressor, para condenar! E não se trata de reprimir apenas o mais comum dos tipos de agressão, a agressão física, mas de reprimi-la sob todas as formas, inclusive a econômica. A igreja não pode tolerar agressores em seu seio.

Por outro lado a sociedade pluralista não é guiada pela lei ética dos Cristãos. Tolerará ao menos a agressividade sútil, que atingirá cristãos e não cristãos, colocando-os num mesmo plano. Deve aqui a igreja condenar os Cristãos que juntamente com os não Cristãos pugnam pela justiça? Certamente que não, como não pode condenar a guerra justa. Assim, o máximo que a igreja pode e deve fazer é gerenciar essa luta ou essa guerra fornecendo uma diretriz ética que exclua a vingança e a tortura; é o quanto bastará por merecer os aplausos da humanidade. Uma vez que os guerreiros após terem pelejado como leões no campo de batalha, devem tratar os vencidos e prisioneiros com cordialidade e doçura.

Importa que numa crise social todos os recursos possíveis sejam empenhados no sentido de manter a paz sem sacrificar a justiça. Todavia esgotados os recursos, a guerra torna-se justa e enquanto justa boa, e enquanto boa desejável. O Cristão não deve avaliar a violência, a guerra ou a revolução enquanto tais ou fins em si mesmas - a violência pela violência será sempre inaceitável já dizia Sorel - mas como meios ou instrumentais para superar uma situação insuportável de injustiça. A injustiça é que fará delas algo absolutamente necessário. Devemos compreender que os conflitos bélicos e as revoluções acontecerão e fornecer uma critério ou padrão ético porque o Cristão possa julga-las. Este padrão é a justiça.

Em certos casos abster-se é colocar-se ao lado dos iníquos e fortalece-los. O Cristãos sempre combaterá ao lado dos atacados, dos agredidos, dos injustiçados, dos oprimidos, dos explorados, etc Sem se preocupar com as facções ou bandeiras ideológicas. Caso a sociedade em que vive agredir ou atacar alguma outra, então poderá não apenas abster-se de lutar em favor dela mas combater tal guerra por meio da pena e da palavra, exercendo oposição ideológica. Nenhuma guerra de conquista deverá contar com o apoio dos Católicos.

Quanto a própria comunidade o critério mais seguro face a uma Revolução - daí o termo violência defensiva - é a quebra da ordem democrática por meio de um golpe, como acabou de acontecer no Brasil, em 2016, com a deposição da presidente legitimamente eleita. O que equivale a uma situação de agressão e injustiça, justificando a resistência ou a sedição. Quanto a tais situações, chamadas golpe de estado, julgo que haja suficiente clareza, uma vez que se trata de eventos de ordem política. Outras situações não são tão claras, na medida em que envolvem a conjuntura econômica ou negação de direitos por meio de massacres e tortura.

Claro que mesmo uma situação de guerra justa ou revolução, inda que desejável, não basta para despertar o que chamam de entusiasmo. Se as crises correspondem a situações anômalas - como as enfermidades ou doenças na vida de um ser humano normal - as revoluções e guerras só podem corresponde a remédios amargos, cauterizações ou cirurgias... Situações relativamente necessárias, não idílicas. Por isso estamos tão longe do contra revolucionarismo tosco quanto da mística revolucionária. Quando esgotadas todas as outras possibilidades aceitamos as situações de Revolução sem nos deixar iludir ou entusiasmar e sem esperar demais... Não cremos que da Revolução ou de qualquer guerra surgirá uma nova sociedade totalmente diversa da anterior ou um paraíso sobre a terra. Não nutrimos sonhos futuristas ou milenaristas em torno das Revoluções, tudo quando esperamos é uma ordem menos iníqua ou suportável.

Por fim enquanto policratas e simpatizantes com aqueles poucos anarquistas bem informados que sabem ser o anarquismo uma luta pela democracia direta  -  acima de tudo a nível de micro estado ou municipalismo - e pela esfera intangível da liberdade pessoal (mencionada por Rousseau nas primeiras páginas do 'Contrato') temos de nos perguntar a respeito de como será a guerra justa ou a revolução. A pergunta se faz necessária porquanto os nazistas, fascistas e comunistas e todos os demais liberticidas acham-se em seu terreno e os amigos da liberdade política não, quando falamos em militarismo ou em algo do tipo militar, como supõem uma revolução ou uma guerra bem sucedida.

Observemos antes de tudo os conflitos gerenciados pelos anarquistas. Primeiramente aquele tipo individualista chamado propaganda pelo fato. De que resultou uma tempestade repressora por parte do estado burguês. Colocando em risco a causa socialista como um todo e alienando não apenas as massas mas o bom povo quanto a tão justa causa. Caso passemos as conjurações, que os anarquistas tomaram ao jacobinista e totalitário Blanqui através de Proudhon, temos o exemplo malfadado da comuna de Paris. Enfim quanto a Revolução espanhola temos um federação de guerrilhas ou conjurações muito mal coordenadas, cada uma atuando a seu modo... Claro que nenhum desses tipos de 'revolução' poderia dar certo.

As guerras e as revoluções que acontecem no cenário de um macro estado unificado exigem um nível mínimo de coordenação, de um comando centralizado e o que é pior de obediência mecânica ou de submissão, sem os quais não podem sair vitoriosas. No entanto esta obediência mecânica, num nível maior, choca-se tanto com os princípios anarquistas quanto com os princípios cristãos ou humanistas de larga tradição filosófica. As relações militares durante uma guerra são em certo sentido arbitrárias, intuitivas e irracionais... As massas incultas conformam-se com elas sem questionar. O Filósofo dificilmente. Não foi por acaso que Carnéades e seus companheiros foram corridos da Roma militarista pelo grande Catão... De modo geral os belicosos romanos, senhores do mundo, encaravam os gregos, com seu apego a arte e a filosofia, como um 'povo' degenerado.

Amigo algum da liberdade, Cristão, anarquista ou humanista, consciente de sua dignidade pessoal, pode deixar de sentir este dilema como a um espinho na carne. Pois dificilmente estará disposto a curvar-se face ao que julgar não passar de caprichos de seu superior... E no entanto a tática da guerra parece depender disto, deste deixar-se controlar por um superior que conhece melhor o conjunto. O sucesso da Revolução ou da guerra parece depender do mando e da submissão e de um cérebro que esteja acima de todos coordenando tudo... Face as este cérebro os mais deveriam estar paralisados, passando a agir como braços e pernas. É exatamente aqui que surgirão conflitos de consciência e tumultos no caso dos Cristãos... Caso se lhe peça que torturem ou massacrem já prisioneiros, já civis inocentes, coisa que ele não poderá fazer em hipótese alguma. Julgo que alguns anarquistas de boa vontade e humanistas concordarão com eles. Formarão objetores de consciência... Isto terá de ser discutido previamente. De modo a obter-se algum tipo de acordo. Não sendo assim a Revolução ficará comprometida.

Mesmo em alguns outros casos surgirão problemas entre os amigos da liberdade. Pois certamente haverá quem se recusará a massacrar animais. Como quem se recusará a comer carne... O anarquista, o católico, o humanista, dificilmente se deixará padronizar. Já as operações de guerra bem sucedidas parecem depender das massas ou dos homens padronizados e sem vontade própria. Levantemos a hipótese segundo a qual tais homens se deixem controlar caprichosamente apenas durante o período em que durar a Revolução - a qual pode prolongar-se por alguns anos ou mesmo décadas. Quem garante que esta situação não servirá como um treino destinado a amestrar homens livres tendo em vista a instauração de uma ordem despótica ou totalitária. Neste caso não estaríamos a nos adaptar antecipadamente, sacrificando nossos ideias, princípios e valores???

Não quero dizer que as Revoluções devam ser contidas.

Estruturas econômicas, religiosas, políticas, etc entrarão em colapso e criarão situações potencialmente revolucionárias para as quais devemos estar preparados. Daí a necessidade de levantar a discussão, inclusive em torno de uma ética revolucionária. E de indagar sobre como seria o futuro post revolucionário e a distribuição dos poderes... Temos de saber antes de tudo que uma Revolução bem sucedida não ocorre as vésperas, exige tempo, planejamento, armamento, técnica, disciplina pessoal, treino, etc, etc, etc Supõem um corpo de guerrilha preparado... Quase todo discurso revolucionário feito pelos místicos de hoje tem sido leviano e espontaneísta. Nada muito sério. O que nos faz nutrir séria reservas quanto a viabilidade de tais revoluções mais parecidas com as grotescas conspirações blanquistas criticadas por Engels em 1895. Não se faz revolução com drinques, pizza, cigarro, maconha, etc Não se faz mesmo... Os profetas da revolução atual bem fariam ler a vida de Marighela.

As revoluções acontecerão. Mas também poderão abortar ou ser sufocadas por falta de seriedade e comprometimento.

Como poderão dar vezo a surtos de psicopatia e crueldade; assim como resultar em totalitarismo e barbárie...

Comportam riscos.

Por isso dissemos - Elas só serão viáveis em situações de injustiça extrema após esgotados todos os outros meios: Ação parlamentar, greves, protestos, marchas, desobediência civil... Só serão aceitáveis como respostas a um golpe ou a um massacre. Será respostas a determinadas situações ou conjunturas históricas, jamais receitas de bolo ou bulas de remédio.

Certamente a mística revolucionária que anima o Comunista, o nazista ou o fascista não deverá contagiar o Cristão ou o humanista; mesmo o anarquista, na esteira de um Kropotkin ou de um Tolstoi acalentará maior ou menos nivel de reserva face a ela.

Ps.: Reservamos outro artigo para dialogar com G Sorel.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Riqueza, conforto e miséria; luxo, sobriedade (temperança) e ascese.

Também este artigo tem em vista distinguir certos estados ou regimes de vida que o vulgo tende a confundir. Implica definir cada coisa com exatidão, fixar os limites e apontar as diferenças. O que tende a facilitar o diálogo e o esclarecimento.

Por riqueza definimos o acumulo exagerado de bens. O rico possuindo além do que é necessário tendo em vista a sobrevivência e dignidade detém o supérfluo.

Por conforto definimos o uso moderado dos bens. O confortável contenta-se em reter para si apenas o que é necessário a sobrevivência e a dignidade, abrindo mão do que é supérfluo.

Por miséria definimos a carência do quanto seja necessário a sobrevivência e a dignidade.

O supérfluo pode ser igualmente relacionado com o luxo ou a suntuosidade. O conforto com a sobriedade ou a temperança e a miséria ou a ascese.

Importa não confundir sobriedade ou temperança com ascese.

Sócrates, Jesus, Buda e Confúcio; sem condenar a ascese, não foram ascetas e jamais recomendaram ascese mas a sobriedade. A respeito de Sócrates contamos com o testemunho de Ésquines de Aesfeatum, o qual no "Telauges" apresenta o Filósofo a reprovar tanto os excessos de ascetismo de Telauges quanto a vã ostentação ou luxo de Critóbulo filho de Criton e argumentando a favor da vida sóbria ou moderada.

Antes porém recordemos o que cada um destes grandes mestres ensinou a respeito da riqueza, da fortuna, do acúmulo irrestrito de bens, do supérfluo, do luxo, da suntuosidade...

Sócrates num de seus diálogos transmitidos por Xenofonte (Memorabilia) refere que "Sabes assim que o ouro e a prata não tornam os homens melhores do que são, ao passo que as sentenças dos sábios tornam mesmo o pobre rico em virtude." já Platão memora o passeio de Sócrates pelo Mercado de Atenas e seus comentários sobre as inutilidades ali dispostas... e noutro passo declarou que a única utilidade das riquezas era a possibilidade de serem divididas com os amigos possibilitando o convívio ameno entre os amantes da virtude.

Quanto a Jesus foi ainda mais insidioso a ponto de declarar que era impossível cultuar a Deus e as riquezas, de fechar os ricos as portas do reino celestial e de aconselhar seus seguidores a juntarem tesouros imateriais ou espirituais no mundo celestial e não coisas materiais destinadas a corrupção.

Paulo, aqui fiel interprete seu, conjecturou com propriedade que a raiz de todos os males humanos estava no amor ao dinheiro, no desejo pelo lucro, na cupidez ou na avareza. Que a igreja antiga classificou como um dos grandes pecados.

A respeito de Sidarta Gautama conhecido também por Çakia Muni, Buda ou Tatagata é sabido que tendo nascido filho de Régulo (Sudodana era o nome de seu pai) imensamente rico, abriu mão de todas as riquezas para viver moderadamente e que impôs voto de sobriedade aos membros da sanga.

Os budistas de modo algum - e isto vale para os Católicos - fazem apologia da MISÉRIA ou da POBREZA, mas do contentamento ou contenção dos desejos, o que podemos traduzir sem medo de errar por conforto ou sobriedade.

Importa saber que ele também condenou tacitamente o acumulo ilimitado e o apego aos bens materiais.

Ele considera o monge ou o laico que se contenta com o necessário para viver dignamente como um pássaro que voa e toma a direção que deseja, sendo por isso mesmo livre.

Faz recordar Sócrates quando declarou que o homem apegado as riquezas ou escravizado pelos apetites sensoriais era inferior a um escravo porquanto escravo dos apetites, dos desejos ou do corpo. Para Sócrates era livre apenas aquele que fosse capaz de controlar seus apetites e desejos.

Limitar-me-ei por tomar esta citação: "Uma é a senda que conduz as riquezas, outra a que conduz ao Nirvana." 

Outro não é o parecer do grande Mestre da China, Confúcio:

"O homem vulgar só cuida de comprar e vender." 

Nenhum deles mostrou-se simpático ao acumulo ilimitado de bens materiais, 'nuvem conquistada por meios injustos.' id Mas também não inclinaram-se para o ascetismo - Jesus, Buda e Confúcio sem condena-lo jamais abraçaram-no ou recomendaram-no a seus seguidores - enquanto busca pelo sofrimento ou por situações desconfortáveis.

Sócrates apenas parece ter recomendado uma dose mínima dele e por uma razão bastante compreensível, a frequência das guerras, o exemplo dado pela sociedade militar e ascética formada pelos espartanos - guerreiros invencíveis - e a decorrente necessidade de conte-los. Efetivamente o ascetismo afirma-se no tempo de Sócrates mais por via militar do que por via filosófica ou religiosa. O ascetismo foi até certo ponto sancionado por Sócrates devido a sua relação com a disciplina.

Posteriormente, durante as perseguições promovidas pelo Império romano, também a igreja Católica recomendou o ascetismo, por uma questão de funcionalidade. Posteriormente no entanto, graças a teoria herética do maniqueísmo, logrou o ascetismo fixar-se ontologicamente no seio da comunidade Cristã, embora o clero sempre tenha invocado razões funcionais ou de natureza prática com que justifica-lo.

Nem podemos fugir totalmente a tais razões caso concebamos os Bispos e padres como homens destinados a múltiplas e dificeis tarefas como: ministrar os sacramentos, sustentar o direito dos pobres, instruir os broncos, evangelizar os infiéis, dar exemplo de abnegação e virtude, etc Ora toda esta vida de dedicação e disponibilidade implica disciplina rigorosa, o que de algum modo nos conduz ao ascetismo ou a certa familiaridade com o desconforto, como diria Sócrates.

Cuidava Sócrates que uma certa medida de ascetismo ou de contato esporádico com o sofrimento, funcionava como uma espécie de vacina ou contraveneno predispondo o homem a enfrentar futuras situações de desconforto ou sofrimento com maior firmeza de alma. Daí a necessidade de eventualmente, o soldado, passar por uma experiência de sofrimento, como ainda hoje nossos jovens aspirantes realizam testes de sobrevivência.

As fileiras do clero Cristão ou das hierarquias Católicas tomaram por exemplo ou norma de vida, a disciplina do exército ou um regime espartano. Constituindo o exército espiritual de Cristo ou milícia Cristã. Daí a afirmação do ascetismo entre o clero e os religiosos, porquanto favorecia a disciplina ou a vida regular. Aos fiéis no entanto foi sempre permitido levar uma vida morigerada, sóbria, temperante, equilibrada ou mediana.

Não enriquecer no sentido contemporâneo ou acumular riquezas ilimitadamente, que isto sempre foi visto pelos elderes e doutores do passado como pecado de avareza ou materialismo. A antiguidade Cristã jamais abençoou ou sancionou o regime de vida contemporâneo cultivado pelos ocidentais. Como jamais fez apologia da miséria, mas da vida sóbria ou morigerada nos mesmíssimos termos que Buda, Confúcio, Sócrates, Epicuro, Bion, etc

Julgo que a confusão efetuada no período moderno, entra vida sóbria e ascetismo foi artificialmente criada e promovida com o intuito de batizar e crisma o que os antigos sempre classificara como avareza. A Cristianização de Mamon ou seja das riquezas fundamenta-se amiúde neste falso dualismo tecido em torno de dois extremos: o da riqueza e o da miséria. Inconsciente ou conscientemente houve sempre certo emprenho em eliminar uma possível terceira via construída em torno da sobriedade, vida média, caminho do meio, etc

A justificativa do materialismo economicista em termos Cristãos não pode apartar-se deste padrão de pensamento superficial e binário em torno do acumulo ilimitado ou da privação, e tem se mostrado sempre incapaz de postular uma posse limitada ou relacionada com a satisfação das necessidades pessoais/familiares.

Henry George no entanto demonstrou cabalmente que ainda aqui os extremos continuam a tocar-se e que do luxo procede a miséria, da riqueza a pobreza, do acumulo a falta, da suntuosidade a indigência... Diante disto só nos restar inclinar-se diante daquela sabedoria ancestral que recomendou a vida média, sóbria ou confortável face aos que vivem do supérfluo e aqueles aos quais é negado o necessário a manutenção da vida....

Nós no entanto nos acostumamos a viver entres extremos e aprendemos a tolerar tanto situações de esbanjamento, quanto situações de privação ou carência.

E assim nos fizemos traidores de Sócrates, de Jesus Cristo, de Buda, de Confúcio, os quais com os lábios reverenciamos mas que de modo algum estamos dispostos a imitar reformulando nosso modo de vida materialista, insensível e cruel.

Não sei em que o ascetismo nos transformaria nem posso sabe-lo. Mas sei que a avareza tornou-nos vulgares, grosseiros e cruéis; degeneramos porque inclinando nossos corações as riquezas perecíveis e ilusórias e acumulando ouro, prata, jóias, dolares, ações, etc não melhoramos em nada deixando de acumular as riquezas verdadeiras, imateriais e incorruptíveis, em termos de princípios e valores, méritos, hábitos saudáveis, conhecimento, instrução, educação...

Não sou partidário do ascetismo em termos essencialistas ou ontológicos, o que a meu ver não passa de maniqueísmo. Compreendo no entanto seu papel funcional em determinadas conjunturas sociais. O ascetismo é uma espécie de treino ou adestramento que produz determinados hábitos para a vida, como a disciplina ou a regularidade e mesmo a resistência a dor ou ao desconforto, o que em certas situações sociais é extremamente vantajoso.

A riqueza ou a suntuosidade, como apontou já Agostinho na 'Civita Dei', tende a tornar os homens escravos dos apetites, a amolecer os corpos, a indispor para o trabalho, a malquistar com o esforço e o sacrifício; isto em tempos em que as guerras e batalhas eram decididas mais por homens do que por máquinas. E nem preciso dizer quem é que em estado de guerra levaria vantagem... Segundo o já citado Agostinho, seguido por Ibn Khaldun quando um povo qualquer acumulava riquezas em excesso, olvidando por completo a vida sóbria ou ascética dos ancestrais, tornava-se mole e prestes a ser dominado por qualquer outro povo mais rude, grosseiro, sóbrio, resistente e valoroso.

Em termos de antiguidade e i Média tal explicação parece conter certa parcela de verdade.

Naqueles tempos belicosos o ascetismo agrade-nos ou não parecia contemplar uma função social.

Sócrates, Agostinho, Kaldhum e muitos outros parecem ter tido esta percepção.

Os sábios, como já dissemos, permaneceram equidistantes tanto do acumulo irrestrito de bens, quanto do ascetismo ou da miséria, amiúde fruto da opressão. Face a ambos os extremos recomendaram as massas o exercício da vida sóbria ou moderada, definida por Buda como caminho do meio.

Nós nos desviamos por outras sendas e caminhos.

Apenas não tivemos sinceridade suficiente para classificar Sócrates, Jesus, Buda ou Confúcio como tolos.