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segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Comunismo > Uma metafísica paralítica

Já nos expressamos inúmeras vezes a propósito do Comunismo.

Primeiro enquanto ideologia reprodutora, a qual além de assumir um tipo ideal posto pelo Cristianismo antigo ou pelo socratismo\platonismo,  reproduziu igualmente diversos vícios do capitalismo, do liberalismo político primitivo e do positivismo, como o materialismo economicista, o 'método' revolucionário e o relativismo ético - Isto a ponto de formar uma construção sincrética.

De fato não se pode negar que apesar de todos os seus erros possuí o Comunismo algo em comum com o socratismo e o Cristianismo antigo, que é a sensibilidade face a injustiça e a aspiração de reformar a ordem natural das coisas, eliminando a injustiça. 

Enquanto que a suprema miséria do capitalismo, do positivismo e do darwinismo social, bem como do ceticismo é conformar-se com o mundo tal qual é, aceitando suas mazelas e avaliando-as como algo comum ou mesmo invencível. 

Em que pese o materialismo tomado ao capitalismo, os comunistas não acompanharam seus companheiros 'coerentes'. Mantendo o ideário Cristão segundo o qual deve a realidade do mundo conformar-se com um ideal Ético ou com uma Lei natural e suprema. 

Por parte do Cristianismo antigo, conformar-se com o mundo e seus pecados, seus vícios ou suas maldades é blasfemo, devendo a ordem do mundo ser corrigida e reformada segundo a lei natural e suprema.

Portanto o Cristianismo leal ao Evangelho e o Comunismo partilham do mesmo sentimento de revolta. 

Sendo em parte o Comunismo, um Cristianismo apostólico secularizado. Tal e qual o capitalismo e o destino manifesto são secularizações do protestantismo. Em certo sentido o conflito "Catolicismos" ou "Ortodoxia" e protestantismo, prolonga-se no conflito "Socialismos" X Capitalismo. Apenas a luta secularizou-se, mas mantém o sentido. 

Naturalmente que o materialismo, sendo necessariamente mecanicista, não se encaixa com esse sentimento de inconformidade ou mesmo com o método revolucionário.

Justiça seja feita a Marx, porquanto era ele etapista - Reconhecendo que caberia ao processo histórico ou a evolução interna do próprio capitalismo que produziria as condições necessárias para que a Revolução fosse bem sucedida. Cabendo ao comunista estar atento para reconhecer o sinal dos tempos, e atuar em comunhão com a História.

Foi Lênin que, partindo de Sorel, objetor e adversário de Marx, eliminou o etapismo ou o determinismo materialista e propôs que a Revolução poderia ser feita noutros contextos. Talvez por isso as revoluções Comunistas tenham revertido e falhado. Por outro lado Marx não foi capaz de perceber a habilidade do capitalismo para adaptar-se as condições externas, inclusive restringindo-se, contendo-se ou limitando-se quando sob pressão ou ameaçado pelas sociedades tradicionais.

Sorel sendo irracionalista, meio idealista e próximo ao anarquismo com o paradigma do espontaneísmo ou da imprevisibilidade, o qual de modo algum se encaixa com o materialismo e seu decorrente determinismo\etapismo.

Bom lembrar que esse ideal revolucionário jacobinista surge não num contexto materialista dialético porém num contexto materialista mecanista ou formal e de uma total incompreensibilidade em termos de cultura. A ideia, bastante ingênua por sinal, é que o poder, a violência, a força ou o terror pudessem mudar a cultura ou dos padrões de comportamento pessoal e social.

Basta dizer que serenado o terror os padrões culturais anteriores são restabelecidos. E as tais revoluções, após tantas calamidades, revertem. E tal se dá porque a cultura tem dinâmica própria, a qual não é necessariamente material.

Outro aspecto é o relativismo ético, comum aos pós modernistas e derivado do positivismo. O qual dificilmente concilia-se com um ideal de justiça que leva a reforma. 

No entanto o que mais choca o observador atento quanto o comunismo é sua fixação no século XIX. A qual chega a ser escrupulosa, uma vez que atribuem aos escritos de Marx, Engels e Lênin o status religiosos da infalibilidade e da irreformabilidade - Como se tivessem esgotado todas as possibilidades do passado, do presente e do futuro. 

Não poucos entre eles continuam reproduzindo a milonga positivista e anti racionalista, derivada de Kant e Condorcet sobre a ciência ser a única forma digna de conhecimento, etc Quando é, o materialismo querido, uma elaboração metafísica, por violar a demarcação kantiana. 

Outro aspecto simplório do comunismo é a imagem do proletariado urbano e industrial como agente redentor. E consequentemente o menosprezo pelo homem do campo, as prevenções contra aquele funcionariado público que representa a odiada classe média, o horror ao lupem proletariado... 

Continuam eles, os comunistas, encarando a História como um combate épico, binário e maniqueísta entre dois grupos ou facções: Burguesia e proletariado... Enquanto a partir de 1870\80 tornou-se a sociedade capitalista muito mais complexa e variada, com inúmeras sociais intermediárias... (E aqui temos Sorokin, Parsons e Timacheff, dentre outros). Eles porém não abrem mão de seu reducionismo simplista e de sua narrativa ingênua e romântica - Na qual tudo gira em torno de um choque entre dois grupos.

Para eles o mundo jamais mudou e continuamos situados no século XIX...

Outro rudimento metafísico é a concepção do conflito como motor da História. Pois eles mesmos admitem que o conflito parte da propriedade privada (Não necessariamente da propriedade privada dos meios de produção - Pois aqui, com Marx - há certa plausibilidade.), a qual é posterior a Idade primitiva, o que implica situar a Idade primitiva fora da História, justamente devido a sua 'imobilidade' ou ritmo lento, não marcado pelo conflito em torno da posse da propriedade, uma vez que era comunal.

Bem, o que questionamos aqui não é o movimento ou o progresso porém seu ritmo acelerado face a limitação dos recursos materiais de que dispomos. 

Outro o caso do futuro - Pois se a cosmovisão marxista (Que gira em torno de uma Dialética que parte do conflito e da propriedade.) assumir que a derradeira fase - Inaugurada pelo advento do Comunismo - implica a cessação do conflito, teremos de admitir o fim do movimento dialético e por consequencia o fim da História. E aqui é a História como uma espécie de túnel porque passa a humanidade... Pois ao fim tornaríamos ao repouso ou a imobilidade do começo i é da Idade primitiva.

De minha parte encaro esse túnel ou sanduíche como algo muito menos aberrante que o progresso ilimitado ou infinito dos positivistas - Pois tudo quanto começa deve ter um fim. Sem embargo disto, os comunas, ao serem questionados pelos positivistas, anarquistas e outros, alegam que o fim do conflito ou da dialética e o advento do comunismo não marcará o fim de todo conflito porém apenas do conflito economico, que incide sobre as classes. Obviamente que existem ou surgirão outros conflitos (De natureza diversa) que darão continuidade a outro ciclo de movimentação dialética. Mas quem não percebe que essa resposta vai pelos caminhos da imaginação e da fantasia. Pois teria havido outro ciclo de movimento dialético, de outra natureza, na Idade primitiva...

Agora - Existe de fato um motor da História... Ou é ela movimentada por diversos motores...

Já disse que Marx focalizou a propriedade dos meios de produção, relacionada com o modelo capitalista. E aqui parece haver certa verdade, vislumbrada ante dele por um Sismondi, dentre outros... Outro problema do Marxismo é a visibilidade limitada da História de que dispunha Marx em seu tempo - Tempo em que a egiptologia de Champollion e Lepsius e a sumeriologia de Grotefend e Rawllinson estavam a dar os primeiros passos e a idade primitiva de Pertez e Lartet engatinhava... 

Foi as apalpeladas ou tateando que Marx tentou elaborar um esquema tanto mais amplo e metafísico - No pior sentido do termo. Assim a questão do conflito como motor de todas as fases da História, de grupos lutando uns contra os outros, de reformulações sintéticas, etc Através das quais o esquema Burguesia X Proletariado se antecipa e perpetua sob outros termos, como senhor e servo ou dono e escravizado... 

Todos estes esquemas genéricos, como o de Vico, o de Adam Smith, o de Lord Kames, o de A Fergunson, o de St Simon, o de Comte e enfim o de Marx representam uma fase bastante rudimentar da sociologia. 

Quanto a proposta de Marx ou sua tentativa metafísica de classificar as fases ou períodos da evolução social de nossa espécie é importante dizer que teve continuidade sob a escola de Lukács e seus seguidores. Os quais fazem incidir suas críticas não apenas sob a atual forma de posse da propriedade privada i é quanto aos meios de produção, mas sobre todas a propriedade privada como um todo. Por isso registrei acima que os lukacscianos identificaram o ponto de partida do conflito a partir do fim da propriedade comunitária e o surgimento da propriedade privada> A partir daí só mudam os nomes e podemos definir a História humana como uma luta por propriedade ou poder. (E chegamos a Adler, transfuga de Freud)

Naturalmente que nenhuma dessas especulações pode ser rigorosamente demonstrada. E tanto pior para elas enquanto atreladas ao falso paradigma positivista da monocausalidade. Se é certo que o regime de propriedade influencia a produção da cultura, nada nos indica que ele apenas determine a totalidade dos elementos de uma cultura.

E Ratzel teria mais razão em apontar a terra e o regime alimentar como criador de técnicas agrícolas e de técnicas alimentares plasmadoras de cultura. De modo que teríamos antes uma cultura do arroz, uma cultura do trigo, uma cultura do sorgo, uma cultura do milho, uma cultura da batata, uma cultura da mandioca, etc que uma cultura de patrícios e clientes ou de pillis e maceuallis... 

Não quero lançar fora deste processo formativo o dono e o escravizado ou o senhor e o servo, quero porém inserir o ambiente: Gélido, montanhoso, paludoso, florestal, etc as matrizes alimentares... A Escrita, o Bronze, a Ceramica, as Crenças religiosas, etc Numa perspectiva pluri causal, tendo em vista a complexidade da cultura e o processo de sua afirmação.

Certamente o regime de propriedade teve lá seu papel e importancia, mas, não atuou sozinho.

Outro equívoco que atribuo ao marxismo\comunismo e que deriva da ideologia materialista diz respeito diz respeito a compreensão deles a respeito do que seja Capitalismo. O qual definem como uma modo de produção. Do qual deriva um modo de remuneração> O salário. E enfim certas relações estruturais. 

E toda uma definição formal, mecanica e material do liberalismo economico.

Eu no entanto considero tanto mais exata e profunda a definição posta por Sombart, em termos de 'Geist' ou espírito - Quero dizer enquanto conjunto de princípios e valores que derivam da consciencia ou como uma emanação psicológica ou mental que se faz social e cria estruturas.

De fato suponho e creio ter razões para tanto, que o éthos capitalista é um tipo de mentalidade que deriva da pessoa, uma tendencia do caráter... etc e relaciono esse espírito com o que os antigos chamavam de avareza ou acúmulo.

Foi a partir dessa distinção que o padre Meinvielle - Servindo-se da linguagem aristotélica (Em torno das causalidades) - tentou explicar porque a igreja papa, ao condenar o comunismo não condenou o capitalismo ou ao menos sua totalidade. O quanto o Cristianismo pode e deve condenar sem remissão é a fonte do Capitalismo i é seu espírito 'geist', a avareza, o acúmulo desmedido, a ambição ilimitada, o materialismo, etc não a estrutura por ele produzida, a qual sendo neutra, bem poderia ser reutilizada caso tal espírito fosse contido. Não é o caso de que não possa ser destruída (Como querem os comunistas - Pois a proposta meramente econômica dos comunas não se opõem a fé!) e sim de que essa destruição não é imposta pela fé porém assunto por assim dizer puramente humano.

Agora limitando-se a condenar o espírito 'geist' do capitalismo, não fornece o Cristianismo qualquer tipo de chancela divina ou religiosa a estrutura do regime capitalista, como querem os oportunistas infiltrados na Igreja. Ao menos o Cristianismo Ortodoxo, fiel a tradição da Igreja, jamais poderá santificar a propriedade privada dos meios de produção. 

Outro o caso da propriedade privada pessoal derivada do trabalho. Esta o Cristianismo assume como religiosa e intocável enquanto expressão de um direito natural estabelecido pelo poder Supremo. O quanto a pessoa obteve por meio de seu esforço pessoal e de que faz uso para manter-se pertence-lhe legitimamente e não lhe pode ser tomando sem que tal constitua-se em roubo, logo pecado. Neste caso toda e qualquer apropriação, tendo em vista o Bem comum, exige uma indenização por parte do poder público ou do Estado.

Quanto ao espírito materialista, excessivamente ambicioso ou avaro do capitalismo, já no berço, avaliou-o a igreja como maligno.

Até aqui nossas críticas ao Comunismo ou melhor dizendo, apenas algumas delas.

Obviamente que não pode o Cristão aderir ao sistema comunista em sua totalidade - Pelo simples fato de dogmatizar em torno da ideologia ateísta e afirmar-se como materialista. 
 

Conheça também os demais artigos da série 'Culturas de morte': 


  • Americanismo
  • Conservadorismo
  • Anarquismo
  • Positivismo
  • Protestantismo
  • Capitalismo
  • Fascismo
  • Pós Modernismo
  • Sionismo 
  • etc


quarta-feira, 14 de julho de 2021

Revolução, violência e Contra Revolução.

Admitido que a Revolução ou o revolucionismo - Em oposição a Reforma ou ao Evolucionismo - seja erro crasso, não é a contra Revolução erro menos fatal e metafisicamente podre.

Destarte se o homem refletido, em especial o Cristão Ortodoxo - Mesmo quando como nós admita recurso instrumental a violência - jamais assimilará esse espírito turbulento que é o espírito da Revolução, por razões ainda mais altas e fortes tampouco aderirá a essa outra petição a força chamada contra Revolução e jamais será contra Revolucionário. 

E para ser suficientemente claro, de modo geral ou teórico (Pois exceções há em que poderá apoiar ou combater certos tipo de Revolução - e já o veremos porque.) será o homem sóbrio e refletido sempre neutro face as manobras revolucionárias, mantendo-se a distância ou a parte delas. Pois é certo que não comunga desse furor metafísico em torno qualquer fator que possa transformar o homem ou a Sociedade rapidamente ou excluindo o processo ordinário, e lento, de formação da cultura. E menos ainda crerá ele que um tal fator esteja no acesso de conflitos físicos... que possam fugir a dinâmica corrente da História como que fosse saltando. Aqui temos de ser enfáticos, não se adianta a História por meio da violência e toda e qualquer tentativa será emenda que sairá pior do que o soneto - Tal o caso das Revoluções Francesa, Russa, Mexicana e Chinesa, as quais desandaram uma após a outra, em que pesem terem imposto imenso sacrifícios ao povo e feito correr rios de sangue.

Bem a única delas, que ao menos até o tempo presente, parece ter oferecido resultados minimamente positivos. Tal constatação no entanto só será definitiva quando a civilização democrática e nossa política liberal for posta a prova em algum momento decisivo do futuro, só então saberemos se do jacobinismo cego surgiu algum espírito. Talvez 'a posteriori' e graças a um empenho formativo/educacional, tal espírito, sentido ou consciência tenha surgido. Seja como for a manobra jacobinista, enquanto expressão revolucionária, não passou de uma inversão.

As demais, como as ondas do mar, foram e voltaram, avançaram e recuaram, apenas prolongando a própria agonia. Foi o próprio Lênin que avaliou a NEP de Bukharin como um recuo, outro não foi o veredito da Esquerda comunista de Trotsky e Preobrajenski e enfim do próprio Stalin. Em seguida tivemos a guinada democrática intra partidária e a retomada da perseguição religiosa pelo líder Khrushchov e por fim a glasnost e a perestroika de Gorbatchov, sucessão interminável de idas e vindas permeadas por expurgos. Situação muito parecida com a da Reforma inglesa de Eduardo a Elizabeth...

Outro não foi o curso da interminável Revolução Mexicana e por fim da Revolução Chinesa com sua Revolução cultural e enfim com sua adaptação ao modelo de mercado...

Neste caso por que não conter as Revoluções apoiando as forças anti Revolucionárias?

Sim, concordamos, necessário é conter a Revolução.

Não no entanto imitando, como macacos, os revolucionários, rebentos do erro jacobinista e do erro protestante. 

Embora a Revolução não passe de devaneio metafísico concebido por alguns intelectuais, só pode vir a luz e afirmar-se num quadro social muito bem definido e num quadro social de crise. É a crise que dá oportunidade a Revolução. O que jamais se sucede numa sociedade estável. Portanto antes da Revolução há o problema social, já definido pelos Sociólogos como uma patologia, doença ou enfermidade.

É a Revolução um sintoma. Sintoma de que a organização social não vai bem ou de que a Sociedade está enferma.

Para os Revolucionários é necessário que a infecção se desenvolva até matar o enfermo. 

Já os contra Revolucionários creem que para salvar o corpo social é necessário decapita-lo ou ao menos mutila-lo, cauteriza-lo, etc Vertendo tanto sangue e impondo tantos sofrimentos quanto os revolucionários. Entre revolucionários e contra revolucionários adeptos do padrão da violência ou da força o pobre povo é posto entre a cruz e a espada e me ocorrem diversos filmes sobre a Revolução Espanhola em que o dois lados acusavam a gente do campo de traidora e passava-lhes a metralha, enquanto as vítimas sequer sabiam porque estavam a morrer, ignorando supinamente os ideários anarquista e fascista e toda essa dicotomia estúpida. É esta situação comum pois mesmo quando o espírito ou a metafísica da Revolução e da Contra Revolução sejam distintos a técnica ou o método truculento é igual. 

Buscar manter uma realidade social problemática ou conter mudanças estruturais indesejáveis por meio da força é algo equivalente a superstição revolucionária. Estes querem ativar forças mágicas ou alimenta-las. Estes aspiram conter pela força a dinâmica social. Se a História não pode ser levada adiante na proporção imaginada pelos revolucionários tampouco pode ser o seu fluxo contido pela força física.

Antes do cautério, da mutilação e da eutanásia e antes antes que a Revolução se afirme cabem dietas, vitaminas, vacinas, antídotos, remédios e tratamento. 

Para que a Sociedade não se desintegre ou adoeça necessário é implementar continuas reformas sociais e econômicas.

É por força da adaptação que se afasta o espírito revolucionário. 

A tarefa do médico competente é impedir que o cliente adoeça (Portanto antes de tudo profilática.) ou que o doente piore. 

Um médico que espera seu cliente adoecer ou piorar até tornar-se moribundo não faz jus a seu título e sim a pecha de charlatão.

Permitir que a doença ser desenvolva sem intervir equivale aqui a um crime.

Tal a missão do legislador sábio e prudente.

Impedir que a patologia social evolua e avance é o seu dever.

Daí seu aspecto de reformista. Pois reforma para não perder.

Desde seus primórdios, graças a falsa doutrina da auto regulação, tem o liberalismo econômico causado distúrbios e tumultos sociais onde quer quer se afirme, e por isso em sua rabeira, seguem, inevitavelmente o Comunismo, o Nazismo ou o Fascismo. Pois o liberalismo econômico, recusando aceitar o primado da Ética, tende a opor-se a toda e qualquer reforma que por força da ingerência politica, queira manter o convívio e evitar a crise.

E, da recusa face as ditas reformas vai, dia após dia, aumentando aquele estado de oposição vigente entre as classes como pode observar Henri George  a mais de século em 'Progresso e pobreza' - até resultar em luta aberta.

Diante disto não é para estranhar que muitos revolucionários, sejam anarquistas ou comunistas, apostem no máximo desenvolvimento do liberalismo econômico, para, a partir de suas oposições ou da crise social engendrada por ele entrarem em cena.

Beneficiam-se os revolucionários das condições sociais indesejáveis produzidas pelo sistema capitalista, o qual funciona como gatilho mais remoto de todas as Revoluções. 

Portanto antes das Revoluções ou antes que surjam elas, com seus discursos mais ou menos demagógicos, temos um problema causado pelo liberalismo e seu espírito conservador até o irracionalismo. É esse problema que deveria ter sido evitado pelo legislador sábio e prudente, por meio de reformas muito bem calculadas. Num plano ideal o poder político - Policrático - deveria funcionar como instância que alivia as tensões, atenua o conflito e impede o choque assegurando a paz e a concórdia. 

O poder econômico no entanto, encara tal atividade como vil usurpação, recusa-se a toda e qualquer reforma inspirada em padrões éticos e muito se assemelha as passageiros de um avião que em meio a forte turbulência recusam-se a lançar fora suas bagagens... 

A bem da verdade os economicistas conservadores ou capitalistas tem imenso receio de toda e qualquer reforma ou limitação imposta pelo poder político por saberem que cumulativamente tais reformas produziriam um sistema não capitalista ou em certa medida socialista. Os comunistas e anarquistas recusam-se a admitir tal realidade muito bem exposta por M Deat, não os liberais economicistas, os quais desconfiam de toda e qualquer reforma e resistem ferozmente. 

O que eles não percebem ou fingem não perceber é a atmosfera de ódio e rancor que se vai acumulando e que servirá de motor para as revoluções e conflitos.

É portanto o liberalismo econômico a grande sementeira de culturas de morte, tumultos e confusões que se sucedem e acumulam. 

Inútil tolerar seus caprichos e depois querer afogar a tal Revolução num mar de sangue. Se antes nada se fez no sentido de atenuar o conflito e de evita-la não há que se reclamar depois.

Por isso tinha razão Berdiaeff ao declarar que o Cristão Católico Ortodoxo ou mesmo apostólico jamais formará fileira com os contra revolucionários, especialmente se forem eles economicistas conservadores como aqueles que nos lançaram no abismo, mas permanecerá aparte, assumindo uma neutralidade consciente e a toda prova. A tal Revolução, seus distúrbios, sofrimentos, angústias e dores terá em contra de PENITÊNCIA por seus pecados sociais ou pela omissão dos Cristãos, e tudo sofrerá como mártir. Jamais fará o jogo leviano e irresponsável dos contra revolucionários.

Exceção se fará caso os sofrimentos impostos ao povo pelo modelo liberal forem demasiado cruéis e intoleráveis. Neste caso apoiará o emprego da violência e poderá juntar-se aos Revolucionários com a nobre intenção de aliviar o povo, tal decisão, no entanto, ficará sempre na esfera da consciência pessoal. Cada qual deverá avaliar a situação a partir dos Evangelhos, da Tradição e da Doutrinal social Cristã e tomar sua decisão. Quiçá a providência favoreça os Cristãos no sentido de impedirem que o emprego da violência chegue a esfera do convívio, de evitarem possíveis abusos e de pugnarem pela justiça.

Já face a contra Revolução só poderão endossa-la caso os Revolucionários animados por algum tipo de religiosidade sectária tenham em vista qualquer modelo teocrático que ponha em risco o exercício da liberdade Religiosa. Neste caso é necessário abraçar a contra Revolução. 

Advirto no entanto que o parágrafo acima não se refira aos ateus, materialistas e irreligiosos que nós odeiam e perseguem por constatarem como os liberais hipócritas instrumentalizam nossa fé, ou por confundir nossa postura com a dos protestantes ou ainda com a venenosa cultura americanista, pois como já foi dito certo número de neo cristãos sem consciência tem assimilado essa xaropada. Triste mas compreensível que parte dos miseráveis e perseguidos detestem nossa religião uma vez que alguns daqueles que estão entre nós ousem afirmar que tal situação corresponda a vontade de Cristo e seja normal. Se eles afirmam que o pecado da injustiça é aceitável como admirar-se de que sejamos combatidos pelos injustiçados?

Por isso quanto me refiro aos inimigos da Religião me refiro explicitamente aos calvinistas e pentecostais, aqueles por terem deflagrado as primeiras Revoluções modernas e Teocráticas no século XVI e estes por adotarem os mesmos princípios (Truculentos e anti democráticos.) no tempo presente. A estes fanáticos é dever dar combate por meio da força pois equivale sempre a defender-se. A eles se deve resistir em nome da Constituição e das leis. Não re refiro aqui aos muçulmanos sunitas - Igualmente perigosos. - pois embora santifiquem a força e a agressão por meio de sua jihad não empregam o conceito de Revolução, o qual está muito distante deles. O conceito de Revolução é conceito reflexivo que se movimenta no domínio da metafísica. O islã contenta-se com petições ao Corão ou no máximo a uma tradição autoritativa em termos de fé.

Continua. 



terça-feira, 13 de julho de 2021

Socialismos, o espelho do Cristianismo II

Já expusemos honestamente nossa vergonha.

Materialistas, mecanicistas, economicistas e positivistas há que ousam revindicar para si mesmos o título nada honroso de cristãos capitalistas ou liberais mercadistas. Fossem eles protestantes não nos admiraríamos disto - Oh Sancta Simplicitas... Pois é o protestantismo individualista, transcendentalista, livre examinista; sancionando quaisquer distorções subjetivas dos textos sagrados, etc

Incoerente, grave e escandaloso é que Cristãos apostólicos: Romanistas, Anglicanos e Católicos Ortodoxos tenham assimilado tão levianamente esse cipoal de heresias filosóficas e sociais enquanto berram como pegas no cio: Comunistas, comunistas... 

Ora, os comunistas não fazem parte da Igreja e aqueles que simpatizam com algumas de suas visões e métodos equivocados devem ser reorientados com toda paciência pela autoridade eclesiástica, ou, constatada a má fé, disciplinados. Aqueles que de fato se preocupam com os oprimidos e cuidam da justiça não terão dificuldade alguma em submeter-se. Pois é de nossa tradição mover guerra espiritual a avareza e denunciar a opressão sob todas as suas formas. É da Igreja tomar o partido dos fracos e oprimidos e vindicar-lhes a causa. No entanto são nossas fontes espirituais e nossos meios específicos.

Não somos comunistas nem nos fazemos comunistas por denunciar como devemos o pai do Comunismo, o Capitalismo esse filho terrível, afilhado ou enteado do protestantismo. 

O protestantismo, temos sempre de bater nessa tecla, foi quem lançou as sementes venenosas do individualismo ou do egoísmo. Foi ele que (Não estou atribuindo este erro fatal a Lutero! - O qual jamais negou as obras e sim que as obras salvassem!) apartou a Cristandade das obras e da imanência, ferindo de morte o ideal insercionista inaugurado pela Encarnação de nosso Deus. Foi ele que dando as mãos ao neo platonismo criou esse cristianismo descarnado, fantasmagórico ou 'espiritualizante'. Foi ele que por necessidade histórica deitou nos braços do poder estabelecido. Foi ele que tornou-se lacaio do Estado e por meio desse servo de forças econômicas. Foi ele que editou a nova versão 'frágil' do Cristianismo, esse Cristianismo fala mansa ou água com açúcar. Foi ele que converteu o Cristianismo em sedativo e tornou-o socialmente irrelevante ou inútil. Tudo isto fez o protestantismo, acalentando a víbora materialista/economicista em se seio e dando-lhe vida.

Aspiravam os poderes econômicos por semelhante oportunidade. De revindicarem autonomia e assumir a soberania. Demandavam portanto por uma Igreja submissa, sem Bispos, monges, conventos, cruzes e sinos... O protestantismo esvaziou e enfraqueceu o nosso Cristianismo, curvando-o face a outros poderes, quando lhe estava reservado o comando (Indireto ou via Ética) de tudo, assim a direção do processo histórico.

Tampouco pôde o protestantismo com sua petição grosseira a bíblia ou ao antigo testamento, assumir tal encargo ou a missão que revindicava. Impediam-no a divisão em seitas e consequentes disputas, a petição ao exame particular, o viés transcendentalista, etc E só por um tempo o monstro de Genebra, com a Torá entre as unhas, governou a ferro e fogo, fazendo verter torrentes de sangue humano e criando - Segundo Pierre Van Paassen (Com o apoio de Stefan Zweig) - o primeiro campo de concentração da História. Afinal a cegueira bíblica ou judaizante só poderia mesmo prevalecer por meio da força... 

Foi um triunfo efêmero.

O protestantismo fragmentou a igreja cismática de Roma num amontoado de seitas e proclamou altissonante seu triunfo, e sem embargo falhou miseravelmente por não ter sido capaz de substituir a igreja rival. O protestantismo de modo algum tomou a condução dos destinos do mundo mas abriu mão dela, e isto equivale a capitulação espiritual do Cristianismo histórico, esse refúgio na extremidade do 'espírito', nas nuvens ou nas alturas - Pelo simples fato do Deus do Evangelho se ter aproximado do mundo e entrado na História por meio da Encarnação. Com o triunfo do protestantismo e sua alienação ou esvaziamento neo platônico perdeu o Cristianismo sua vocação. 

Por incapacidade do protestantismo mitológico (Por via do antigo testamento) e sectário (Por via das seitas) o Cristianismo perdeu a direção das coisas e cessou de inspirar cada vez mais as ações dos homens imprimindo-lhes um cunho social. 

O protestantismo foi e é recuo, abandono e fracasso. Uma opinião firmada em Agostinho e segundo a qual mesmo em posse da graça o homem sequer pode transformar a si mesmo, devendo desesperar-se por completo do mundo e, necessariamente (Como ocorreu e ocorre) tornar-se catastrofista e apocalíptico, assimilando o derrotismo dos antigos hebreus. Toda essa carga de negatividade e pessimismo existente já na literatura judaica ou judaizante dos primeiros séculos o protestantismo absorveu, e a ponto de criar um lema: O mundo não tem solução.

Agora ao recuar de seu posto, até então ocupado, ainda que sofrivelmente pela igreja romana, mas ocupado, o protestantismo permitiu que um outro tipo de poder, o poder material ou econômico, se instala-se em seu lugar inaugurando um novo ciclo na História da Humanidade, o ciclo das ideologias naturalistas ou das culturas de morte, todas ao menos implícita ou dissimuladamente materialistas até os confins do ateísmo, e relativistas (Quando não negacionistas) quanto aos valores espirituais, e isentas de qualquer sentido metafísico profundo, que transcenda o mercado, a pátria, a raça e outras categorias inferiores senão vulgares da existência. O espírito perdeu seu primado já há muito disputado como jamais perdera nos piores momentos da História antiga...

Como de Ideologia em Ideologia, de cultura em cultura, de mística em mística não chegaríamos a borda do abismo que é a negação e a extinção do homem.

Não foi o Deus, assim o teísmo naturalista dos pensadores gregos e tampouco o Deus encarnado e presente do Evangelho que morreu, bateu botas e apodreceu, mas o homem. Nossa espécie é que ora agoniza e se vê prestes a morrer miseravelmente em meio a águas, ares e terras poluídos e a falta de comida! E isto tudo por falta de Ética, por falta de sólidos fundamentos espirituais... E o caminho disto foi a bíblia, digo e repito, o biblismo, o livre exame, o sectarismo. O protestantismo foi o começo de tudo. Precipitou-nos inclusive no vórtice das Revoluções, outra ilusão, delírio ou quimera perniciosa. Fala-nos mesmo por meio de Kant, Nietzsche, Sorel, etc e sempre para o mal ou para o pior... Por isso ele não nos poderá salvar, e tampouco conter este ciclo de culturas de morte que acionou.

E se você leitor protestante, nada percebe ou vê além do falso dilema papismo/protestantismo desespere de toda salvação e aguarde pela pior das mortes no único e verdadeiro inferno produzido pela avareza, pelo individualismo, pelo egoísmo e pelo mar de irracionalismo, e é claro pela falta daquela Ética filha do Evangelho vivo e redentor.

Agora ao estender meu olhar sobre o corpo da Igreja que vejo em termos de consciência social Cristã, de ideários, planos, propostas, métodos, etc

Contemplo antes de tudo aquela multidão de Cristãos alienados que nada sabem sobre as condições do mundo atual e que tampouco se importam com ele, caminhando como cegos ou zumbis em direção do abismo hiante. Tais os Cristãos que se reproduzem organicamente, os de tradição cultural, os reprodutores, os imitadores, os apenas batizados, etc - Nossas massas, como diria J H Newman. Aqueles que receberam o Cristianismo de seus ancestrais mas que jamais sentiram-no ou refletiram sobre eles. Esses homens sem espírito, sem alma ou consciência; nos quais não brilha o amor pelo bem, pela verdade ou pelo belo. Os Maria vai com as outras. Os que concordam com tudo. Os que aceitam tudo. Os mal formados. Os desinformados. Os incoerentes... Nossas massas, nossa cruz. Porque devemos sofrer e chorar com a mãe Igreja.

Deixados estes formalistas e confortáveis de lado devo mencionar os Cristãos que tem consciência de sua fé, digo os que sabem o que sua fé significa e o que espera deles. Estes como Peguy sabem o que devem fazer... Sabem que o Cristianismo Católico ou Apostólico não se limita a missa de Domingo, as procissões e almoços de família... Sabem que Catolicismo não é esse paraíso burguês fechado em torno do jardim... Sabem que esse mundo artificial encerrado numa cúpula - Com sua atmosfera de intangibilidade, nada tem de Cristão. Quem espera repouso não é sabe que é Cristianismo. Pois é o autêntico Cristianismo a mais heroica das religiões e a única destinada a confrontar o mal ou a afronta-lo audaciosamente. É fé de homens e mulheres audazes e corajosos, que nos primeiros séculos suportaram horrendas torturas. Cristianismo é isto, mesmo para o leigo - Incomodo, desafio, perseguição e trabalhos: Ou não seria cruz! Ao menos a consciência de cada Ortodoxo deve sentir o impacto do desafio!

Não e não. Não se pode permanecer neutro face ao reino do dinheiro, a força do lucro, o poder do capital, a sanha da avareza. São ações e fatos que exigem postura clara e decidida. De que lado está você??? 

Pode você face a tanta fome, ignorância, nudez, enfermidade, violência, etc declarar que a vontade de Cristo se realizou nesta terra pela qual pedimos todos os dias ao repetir: Seja feita a tua vontade na terra e nos céus???

Então bata no peito, faça um junto 'Mea culpa' e em seguida se pergunte sobre o que pode fazer ou sobre qual seja teu dever, o dever do Cristão!

Amai-vos uns aos outros como vos amei, diz o Mestre.

E agora examine sua consciência e indague se aquele que explora, oprime, domine e exerce a injustiça ama!

Tornemos já, do Oriente ao Ocidente ao herói Peguy!

E cessem as relações promíscuas com o Império de Mamon! Que Mamon seja definitivamente expulso dos domínios sagrados de Jesus Cristo, nos quais devem impor-se a solidariedade, a justiça e o amor.

Apresentar nosso irmão batizado e filho de Deus como um rival ou concorrente é atitude essencialmente maligna.

Ignorar o irmão que passa fome, sede, frio, etc é ser insensível e ser insensível é não ser Cristão.

Priorizar relações e investimentos econômicos é pecar e nada mais.

Caso o Evangelho que lemos sem artifícios e atenuantes sacrílegos esteja certo o mundo em que vivemos está demasiado equivocado, e se está equivocado é nossa missão corrigi-lo.

Advertir os que erram é obra de misericórdia imposta pela verdadeira religião. Por isso nossa Sociedade não deve ser acalentada com afagos ou aplaudida mas corrigida. E exorta-la é dever que nos impõem o Evangelho. 

Assim se você se diz súdito do reino celestial por que acumula ou junta tantas tranqueiras na terra?

O melhor médico não é aquele que se dirige ao doente com palavras doces. Mas aquele que determina a dieta ou a morte. E que emprega o bisturi e o cautério. O que corta e extirpa os tecidos putrefatos e saneia o corpo por meio da cirurgia, não o que distribui confeitos...

E no entanto esses meios dizem respeito a mente e a privação das coisas sagradas no seio da Igreja.

Resta-me dizer por fim que mesmo entre os Ortodoxos ou apostólicos romanos que aspiram confrontar e transformar o mundo nem todos estão de acordo quanto aos meios e também entre os nossos há muito que existem os adeptos da ruptura radical e da inserção, da revolução e da evolução, da sedição e da reforma. E já advirto que mesmo admitindo o emprego ocasional ou circunstancial da violência, o Cristão opta certamente pela via da inserção, da institucionalidade e acima de tudo da educação, da formação ou da produção da consciência como algo que não apenas promoverá a mudança estrutural como prepara-la-a. 

É um movimento concomitante de certo modo, posto que o acúmulo das sucessivas reformas terá como resultado uma transformação gradativa. Todavia se considerarmos que os responsáveis por dar impulso as reformas - Sejam meros cidadãos engajados ou políticos de carteirinha. - estão sempre na dependência de uma educação/formação ético pessoal, concluímos que o que aciona o processo social é o espírito ou a ideia. Nem poderia a estrutura material e isenta de vida resistir como muralha invencível a ação humana. Transforma-se a sociedade como transforma-se a estrutura econômica, não magicamente ou por si só, mas sempre por ação de algumas pessoas que se acham a frente de seu tempo, são elas que dentro de limites e medidas levam a sociedade adiante, pois não se move a sociedade por si só como algo a parte, sendo movida pelos atores que moveu e move. Há pois um duplo movimento: Um que parte da estrutura e dá vida a cultura, outro que partindo do homem altera a cultura, recria as estruturas e reinventa a sociedade.

Equivocou-se Marx: Não é o modo de produção que determina a consciência. Determina as consciências das massas e influencia a todos, sendo no entanto influenciado e transformado por certas consciências bem formadas. Que tenham as tais consciências, vinculadas a diversos modelos de cultura tradicionais, resistido as investidas do modelo capitalista e contido tais investidas por séculos a fio foi suficientemente demonstrado por Polanyi e Hobsbawm. Que os efeitos das transformações impostos pela toda poderosa estrutura econômica tenham de ser sancionados pela instância do ideal confessou-o Marx. Que haja interação entre ambas as forças concedeu Engels. Que a instância imaterial tenha produzido uma cultura e que essa cultura, em diversos nichos, tenha resistido as pretensões postas pela estrutura econômica ja havia sido demonstrado por Fustel de Coulanges. Que hajam diferentes formas de constelações sociais cristalizadas em torno de princípios e valores de modo algum econômicos foi demonstrado por Sorokin. 

Se bem que não se tenha equivocado tanto ou como um Lênin. Pois era Marx, o Marx autêntico, Etapista. Fosse quais fossem suas diferenças com Hegel Marx jamais concebeu o processo social ou o fluxo histórico como cera quente. Tinha a História para ele um ritmo, sendo necessário ao Revolucionário conhece-lo bem, de modo a perceber o kairós i é a oportunidade, e atuar em comunhão ou sintonia com esse ritmo. De modo que o Revolucionário, se faz avançar um pouco a História, sempre tem consciência de seus limites. Mesmo o conjunto dos homens ou parte da Sociedade atuam sempre dentro de certos limites dados pela estrutura. 

É somente por essa via que pode a Revolução obter acesso ao poder, alterar radicalmente as estrutura e então, magicamente, alterar toda marcha da sociedade. 

Assim se nem toda Revolução é ou se dá nos termos materialistas de um Marx ou de um Bakhunin e da modernidade que é materialista - Pois como veremos toda Revolução (Como a força ou a violência) é instrumental, ficando sempre na dependência de um conceito chave ou matriz geracional que pode ser ou não ser materialista. - é certo que materialismo e Revolução combinam perfeitamente e que, bem ponderado, o conceito de Revolução conduz facilmente ao materialismo.

Explico. O que Revolucionário algum pretende é transformar a sociedade pela simples mudança em termos de pessoal, ou fica abortado o conceito de revolução. O que ele busca é um elemento chave, material ou imaterial capaz de mudar a cultura e por meio dela as pessoas. O que ele julga ter obtido através de seus estudos é a compreensão de qual seja esse mecanismo responsável pela produção e manejo da cultura. Para em seguida, por meio da violência, tomar posse desse mecanismo e, através desse mecanismo mudar a sociedade.

Importa saber algo.

Que mesmo quando é este elemento imaterial como uma nova fé, o culto a liberdade, etc ele só pode ser manipulado por quem detém o controle da força, o qual depende em última instância de um embate ou confronto físico. Parece que aquele mecanismo a ser acionado está na dependência de alguma estrutura política de poder já em parte material. E que essa estrutura de poder está na dependência de um conflito físico de forças entre corpos e munições. Porquanto o princípio da Revolução ou sua matéria é a violência.

Teríamos assim o seguinte esquema: O confronto físico entre os corpos franqueia o acesso a estrutura em parte física do poder e este por fim ao mecanismo capaz de alterar a realidade social e o comportamento das pessoas. Posso conceber, como fiz acima, uma variante; apenas por trocar o lugar das duas últimas premissas, e conceder que alterando o comportamento das pessoas altero a estrutura da sociedade; e assim atenuo o materialismo, mas não o suprimo. Como não o suprimo ao identificar o mecanismo capaz de transformar a sociedade ou a vontade pessoal com qualquer elemento imaterial. 

O revolucionismo, a metafísica revolucionária, o pensamento revolucionário, deveria, por necessidade, fazer-se marxista porque já nele está contida uma premissa materialista. Uma vez que sua petição secundária é a estrutura política (Tão material quanto a econômica.) enquanto que sua petição primária é a força física. Pois o que faz diferir a Revolução da Guerra não é a matéria mas a forma, porquanto a matéria é a força e apenas se aspira alterar toda uma estrutura ou todo um universo por meio da força física de corpos, armas e bombas, e não por meio da Educação ou da tomada de consciência. Diversos sociólogos intuíram esse aspecto, i é, o antagonismo existente entre o padrão revolucionário da violência (Que descambou no materialismo.) e o padrão evolucionário da formação/educação. Percebeu-o claramente Sorel inclusive. Dando a entender todo um quadro metafísico ou ideológico por trás de ambas as opções.

Exatamente por isso o Cristão, mesmo quando admita - Como eu - a petição a força, jamais pensará a força nos termos de um revolucionário i é como algo algo ampla e profundamente transformador ou princípio de uma nova ordem. Mesmo quando a violência for admitida em sua cosmovisão, o Cristão jamais fará dela ou centro ou o motor dessa cosmovisão, tal como a alavanca de Arquimedes, e a força será apenas um aspecto isolado e circunstancial. 

E será esse Cristão evolucionário, insercionista, institucionalista, reformista, etc mesmo quando partindo da noção perfeitamente Cristã de Guerra, ou de defesa social ou de ordem justa e desejável, admitir que em algumas situações, esgotados os demais meios, cabe e é necessário recurso a violência. Pois a demanda pela justiça institucional só é tolerável até certa medida. Claro que essa situação de violência e conflito que diz respeito a pura e simples troca de pessoas no exercício do poder e que ficará sempre na dependência de relações políticas numa ordem o mais democrática possível, não pode nem deve ser confundida com Revolução. Nem toda forma de violência contra o governo, comporta as ilações metafísicas de uma revolução. 

Tal a questão das estruturas minimamente ou apenas formalmente democráticas. As quais mesmo não correspondendo a um tipo ideal (Que se identifica com a democracia direta ou a policracia.) ou a uma estrutura perfeita, prestam-se no sentido de dar acesso a Evolução ou progresso social, o qual alias se dá nessa estrutura, i é por dentro, devendo partir dela a democracia plena ou resultar ela em democracia direita, mas não por golpe e sim por pressões sociais convertidas em leis. Por isso, ao contrário dos jacobinistas, somos contrários a qualquer sedição ou golpe democrático ou policrático (No cenário de uma democracia formal ou indireta.) e em franca oposição aos primeiros lideres protestantes, que se estribaram no Antigo Testamento, somos decididamente contra qualquer tipo de golpe ou violência religiosa. Somos contra todo e qualquer golpe cujo objetivo seja acionar forças que movam estruturas ou pessoas. Nós não cremos nisto.

Portanto mesmo quando assumirmos o padrão da força lhe daremos outro sentido, assim removeremos pessoas, em beneficio de pessoas mais dignas e melhores. Não acionaremos gatilhos e não buscaremos mudar estruturas exceto por meio da produção de consciência, da educação, da formação, a qual para nós é a chave da cultura. E e claro que o objetivo de toda essa movimentação de consciência tem por fim produzir uma cultura ética e essencial da pessoa humana, valendo-se de nossa herança Cristã que é o Evangelho (Não a bíblia e menos ainda o antigo testamento e seus preconceitos tolos.) e de nossa herança Socrática. 

Eis porque não será o Cristão revolucionário, COMO JAMAIS SERÁ CONTRA REVOLUCIONÁRIO opondo-se ativamente e por meio da força a qualquer Revolução, exceto se religiosa ou credal. 

Por isso no próximo artigo, considerando Sorel, avaliaremos a questão da violência face a razão, para em seguida reforçar nossa oposição ao contra revolucionarismo hipócrita.



sábado, 26 de setembro de 2015

Nem reacionarismo nem iconoclasmo mas dialética e integração!

São as Revoluções de modo geral ferozmente iconoclásticas, encarando como nefasto tudo quanto esteja relacionado com o passado ou seja antigo. Talvez por isto contem com o apoio decidido de parte da juventude. Não de sua totalidade pois existe quase sempre um núcleo mais ou menos amplo de jovens reacionários, a par de um pequeno grupo de idosos revolucionário. Pelo que não se trata duma realidade simples mas bastante complexa!

Já as contra revoluções são essencialmente reacionárias, tendendo ao extremo oposto, ou seja, a encarar o novo como sinônimo de mau. E aspirando por a sociedade descarrilhada nos velhos trilhos!

Não poucos ainda hoje partilham do delírio revolucionário, inaugurado pelos jacobinos em 89. Assim os comunistas e grande parte dos anarquistas. Para uns e outros é a tal revolução uma espécie de panaceia destinada a extinguir todas as mazelas que afligem a pobre humanidade.

Nem por isso a arqueologia ideológica das Revoluções deixa de ser interessante. De fato o revolucionarismo surge inconsciente - apenas enquanto método violento e não como via de transformação social - com a reforma protestante, adquire certo grau de consciência com a Revolução inglesa, até tornar-se plenamente consciente em 89; a partir daí assume o caráter místico a que nos referimos e torna-se parte essencial de todos os credos iconoclásticos.

A par dos revolucionarismos outrora dominantes, temos hoje os revolucionarismos invertidos ou reacionarismos. Os quais buscam reproduzir um estádio histórico já superado ou restaurar nos mínimos detalhes as estruturas sociais já desgastadas. O método no entanto é sempre o mesmo: o golpe ou a violência. Ademais os reacionarismos do tempo presente, como o fascismo e o nazismo são tão anti humanos quanto os revolucionarismos e tributários da mesma cultura de morte.

Nem uns nem outros lograram compreender a dinâmica das sociedades e o processo histórico.

Os revolucionários por encararem as Revoluções como um começo ou ponto de partida, quando são na verdade o ponto final de uma civilização ou o colapso de uma cultura. De fato as revoluções são para o organismo social o que a decomposição é para um corpo morto. Quando o espírito ou a ideologia que inspirou a composição de uma dada sociedade deixa de existir, a estrutura social se desfaz juntamente com ele.

Assim, se por um lado não podemos aplaudir as Revoluções ou entusiasmar-nos por elas; também não podemos cogitar em evita-las e muito menos sataniza-las mas buscar compreender suas causas. Na maior parte das vezes são as Revoluções inevitáveis. Pois correspondem quase sempre a uma necessidade imposta pelo processo histórico. Para a maior parte dos teóricos sequer é possível humaniza-las ou suaviza-las; pois é da natureza das Revoluções fugir ao controle ou a um planejamento racional.

É uma fermentação que não pode ser contida.

Até que os excessos e abusos tenham sido purgados.

Caso alguém aspire por atalhar uma Revolução deverá atuar a longo prazo buscando sanear o corpo social, identificar suas patologias e preceituar-lhes os remédios que melhor convém. Neste sentido podemos dizer que as reformas sociais são os únicos medicamentos capazes de, a longo prazo, barrar uma Revolução. Impedir que o corpo social adoeça ou em caso de doença propiciar-lhe a melhor das terapias é o caminho mais acertado.

Implica admitir que alterações e mudanças devem ser institucionalmente viabilizadas. Na maioria das vezes é o conservadorismo beócio matriz de todas as Revoluções e aqueles que gostam de repetir que tudo esta bem são seus verdadeiros patrocinadores. Manter a todo custo uma ordem meramente formal  ou uma desordem institucionalizada e isenta de ética é alimentar o sentido da Revolução.

No entanto, é vezo do reacionarismo cego imaginar a revolução como capricho arbitrário da vontade humana ou algo produzido por forçar individuais. O máximo que o carisma pessoal é capaz de fazer, é reconhecer os 'sinais dos tempos' e evocar o espírito da Revolução. A Revolução só ocorrerá de fato se o discurso emitido por ele encontrar consonância no corpo social, então obterá apoio e a Revolução será feita. Não pode a pessoa ser bem sucedida em seus apelos revolucionários caso as devidas condições sociais estejam ausentes.

Revolução, como febre é sempre sinal de problema.

Agora implementada a Revolução, jamais a Sociedade será capaz de retornar as condições anteriores a ela. Daí a total inutilidade dos reacionarismos truculentos. Força ou poder algum será capaz de restabelecer por completo as estruturas demolidas.

Pecam os reacionários em quase sua totalidade por recusarem-se a ver algo de positivo nas revoluções.

O único tipo de reacionarismo viável aqui seria crítico, seletivo e essencialmente pacifico, porquanto fixado na ordem das ideias, buscando planejar um novo tipo de Sociedade, capaz de conciliar o que havia de bom no modelo antigo com a satisfação das novas demandas sociais. Para além disto é próprio do descontrole e dos abusos produzidos pela Revolução, despertarem uma certa reação, arrefecimento ou recuo. Já se disse que a Revolução, a semelhança de Cronos, devora seus próprios filhos... que degenera em lamentáveis abusos, que torna-se criminosa e contraproducente...

Trás assim, em seu bojo, os elementos teóricos ou ideológicos duma crítica contra revolucionária.

Esta será cega e odiosa caso desconsidere o sentido da Revolução e suas causas.

Lúcida e refletida caso incorpore a si a parte justa das demandas suscitadas e os anseios da população.

Do que resultará um novo tipo de sociedade a um tempo reacionária e a outro revolucionária, segundo a acomodação das necessidades e elementos.

Será reacionária por não ser iconoclástica e tomar ao passado ou a realidade anterior elementos que sejam atemporais, imperecíveis e saudáveis. Contemplando o passado sem ódio, mas igualmente sem qualquer servilismo tosco, quiçá como fonte de inspiração. Será revolucionária por incorporar todas as críticas que sejam justas ou eticamente fundamentadas. E sendo assim nãos será uma coisa nem outra...

Dialeticamente os extremismos tenderão as ser superados, dando espaço a uma saudável acomodação e a um padrão mais equilibrado de Sociedade.

Querem evitar o cataclismo das revoluções?

Neste caso não ignorem as demandas sociais permitindo que se acumulem.

Não permitam que a situação das massas torne-se desesperadora ou angustiosa. Pois s revolução alimenta-se justamente de angústia e desespero.

Neste sentido cabe ao poder político atuar como elemento regulador da atividade econômica impedindo que os mais ricos e poderosos oprimam o elemento produtor. A limitação das ambições econômicas individuais por um poder político cada vez mais independente, bem como a afirmação de garantias e direitos sociais, a contenção da miséria, a eliminação da ignorância, a promoção integral do ser humano, a ampliação das oportunidades, etc constituem o melhor caminho a ser tomado caso desejamos colher serenamente os frutos da paz e da concórdia.



quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Problemas em torno do anarquismo: anarquismo, socialismo e individualismo I

I - A questão dos golpes ou das Revoluções


Não costumo a apresentar-me como anarquista. Todavia como tenho o costume de apresentar-me como Socialista libertário, Socialista liberal (em política não em economia), Socialista democrata (não do partido brasileiro que ostenta este nome nem na acepção moderna ou representativa mas à la grega) ou Policrata, poderia muito bem apresentar-me como Socialista anarquista ou Anarco socialista.

Como anarquista apenas jamais me apresentaria e por um motivo bem simples: a existência dos anarco individualistas e dos ANACAP.

Trata-se no entanto de um motivo apenas. Há outros.

Começando como sempre pela questão dos meios. A mesma que nos separa dos comunistas.

Politicamente aspiramos por um fim bastante próximo ou semelhante. Que eu coloco em termos de democracia direta.

Os anarquistas no entanto, digo-o de modo geral. Estão cindidos em duas facções ou grupos: os que cedem a tentação de apressar a História e apostam no golpe (no passado classificados como libertários) como os comunistas e os que apostam no abstencionismo, boicotando a democracia indireta ou representativa julgando ser possível produzir um colapso em termos de política e destruir o sistema.

Eu não pertenço a qualquer destes grupos.

Encaro o golpe/golpismo (idéia de Revolução sangrenta) como uma traição ao realismo ou como dizem ao materialismo na medida em que pretendem instaurar uma ordem para qual a Sociedade não esta culturalmente preparada ou que não faz sentido para aquela Sociedade. As verdadeiras Revoluções se de fato existem são levadas a cabo pelo povo ou pela Sociedade como um todo e não por Elites... e massas inconscientes e amorfas por elas cooptadas. Todas as Revoluções da modernidade tem sido golpes de carater elitista, alheios ou até opostos a vontade popular.

Tudo quanto temos construído a custa de suor, sangue e lágrimas em termos de política, tem sido artificial, superficial e por isso malbaratado.

É o golpismo atitude essencialmente elitista, ilusória, idealista e trágica. É essencialmente idealista porque recusa-se a acompanhar o ritmo do processo Histórico e a dinâmica da cultura. São indivíduos ou grupinhos que acreditam ser capazes de alterar o curso da História com suas espadas, lanças, rifles ou canhões quando a História só pode avançar dentro de certos límites quando se altera ou muda o espírito, a idéia, os princípios, os valores, as crenças; enfim a cultura.

É a alteração da consciência coletiva que produz novas estruturas sociais. Agora depende esta alteração de diversos fatores quais sejam a educação, a fé religiosa, a ética, etc

Por ignorar tal sentido a Revolução mostra-se ingênua. O golpe não pode deixar de acontecer como um virus não pode deixar de produzir uma infecção dentro do organismo. As Revoluções não são, creio ei evitáveis... Isto não significa que devamos aspirar por elas, colaborar com elas, aplaudi-las ou sauda-las como um evento cósmico de natureza redentora ou como uma panaceia.

Revoluções não são terapias, jamais foram. Revoluções, golpes e movimentos bruscos no corpo da sociedade são mais sintomas ou moléstias do que outra coisa. A cura vem depois... de maneira dialética, incorporando novos valores de certo modo divulgados e trazidos pela revolução. Os quais criam um mundo diferente, de que farão parte elementos do antigo regime e do novo, da revolução e da reação. Após a revolução sempre há certo saudosismo e certa medida de reação. Daí os recuos... Não duvidamos que permaneça algo de bom.

Agora se a Revolução foi hecatombica, como a de 89 e a de 17, ceifando multidões de seres humanos e aniquilando dezenas de milhões de vidas. Se o saldo de mortes foi bastante elevado. Então somos levados a nos perguntar se valeu a pena ou se a humanidade não chegaria aos mesmos resultados ao cabo de alguns séculos produzindo uma economia significativa de sangue.

Que restou? Que foi obtido? Quais os resultados concretos? Quantas vidas se perderam? Quanto de nosso patrimônio histórico e cultural foi sacrificado? Quantos bens foram destruídos?

São perguntas problemáticas que impõem-se aos apóstolos da Revolução.

De minha parte repugna contemplar tanta carniçaria.

Dirão alguns, com Max Nordau, que o regime anterior a Revolução matava lenta e sutilmente, por meio da opressão, sem efusão de sangue, abreviando a tempo de vida dos dominados. Assim os camponeses franceses de 89 debilitados pela fome... assim os proletários e mujiks de 17. Seria necessário fazer a conta bem como adicionar a dor de ser decapitado ou fuzilado. Sim porque a maior parte das mortes produzidas pela Revolução parecem ser violentas e dolorosas. Então devemos considerar a dor... e a consciência de estar em perigo ou de estar fadado a morrer. A situação pode até matar. Mas a revolução, quase sempre, acrescenta a morte um conteúdo dramático que poucos seres humanos estariam dispostos a aceitar.

Pessoas não desejam morrer estouradas por bombas ou queimadas por Napalm. Preferem viver um tiquinho mais, inda que seja de vida abreviada e precária.

Já vi Revolucionários classificando tais pessoas como covardes e acomodadas. É julgamento de muito pouco valor, que ignora supinamente as razões alheias. Ademais o juízo de quem lança bombas ou fuzila é essencialmente diverso do juízo das vítimas civis. As quais parecem aborrecer qualquer tipo de Revolução ou golpe, seja de direta ou esquerda. Quem combate em qualquer um dos lados costuma a encarar a morte como heróica. O bom povo, em sua simplicidade e covardia bem sabe que não há nobreza alguma na morte e que quase toda morte é dolorosa, imunda e feia.

Toda e qualquer cultura militar ou marcial, seja de direita ou de esquerda mistifica em torno da morte, buscando encobrir seu lado trágico. O povo simples por instinto abomina a morte. Prefere inclusive sofrer a morrer porque a vida trás esperança... Prefere mesmo viver sob o jugo da servidão a morrer, porque na vida há esperança. A morte no entanto conhece gêneros dolorosos porquanto há diversas formas e modos de morrer. Nem preciso dizer que a revolução trás em seu bojo vários tipos artificiais de morte...

Eis porque o senso comum abomina quaisquer Revoluções ou estados próximos a anomia. Preferindo uma segurança precária. Revoluções são situações de descontrole radical, em que possibilidades de excessos em termos de injustiças, vinganças, crueldades, etc tornam-se mais fáceis, senão oportunas ou reais. Ocorre-me a execução de um Lavoisier por mera intriga!

Penso que hajam guerras, conflitos, batalhas, revoluções necessárias; sobretudo quando a injustiça torna-se crônica e as o número de mortes por carência de condições materiais vultoso. Mas... tampouco creio nessa mística produzida em torno da violência, do golpe e das revoluções. Mística que não contabiliza a soma de vidas perdidas e que desconsidera o fator do sofrimento. Mística que recusa-me a fazer cálculos. Mística que chega as raias do sadismo! Desta mística segundo a qual a Revolução é sempre oportuna, boa ou necessária não partilho. Desta mística segundo a qual ela é sempre o melhor ou o único caminho a ser trilhado não comungo.

Revolução deve ser encarada com um purgante ou remédio amargo e não como xarope.

Admito que algumas revoluções, golpes e distúrbios sejam impossíveis de serem evitados dadas as condições de determinada sociedade. Mas não posso encara-los com entusiasmo. Não posso testemunhar tais cenas de iconoclasmo e destruição com um sorriso nos lábios como não poderia encarar de tal modo a destruição do Templo de Diana pelos gôdos, a queima do fórum romano pelos bárbaros germânicos, a aniquilação da Biblioteca de Alexandria por Amru Al Ass, o saque da Biblioteca do Vaticano pelos lasquenetes alemães em 1527... Por natureza aborreço a fúria, os excessos e os abusos e por isto suspeito das revoluções.

Nisto aparto-me da maior parte dos anarquistas e dos comunista.

Não sou um Revolucionário no uso comum do termo. O que busco resignificar, transformar, subverter, reformular, etc é o universo das ideais. O que busco incendiar, demolir, extirpar, etc são teorias, opiniões, palpites, doutrinas, crenças e não pessoas. O que desejo revolucionar de fato são os princípios e os valores.

Nem por isso sou pacifista ingênuo e radical. Já disse que diversas situações justificam o emprego da força, a resistência, a defesa, a reação, a subversão. Há que se lutar e que se combater, mas também há meios mais seguros e prudentes, como a desobediência civil de Thoureau, as greves, passeatas, manifestações, etc Inumeras possibilidades a serem esgotadas antes de se partir para o conflito aberto.