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terça-feira, 10 de outubro de 2023

O cerco contra a educação


Os primeiros esforços significativos em prol da educação no Brasil remontam a assim chamada era Vargas e foram, em sua maior parte, implementados pelo então ministro Gustavo Capanema.


Antes disso, já em 1932, foram estabelecidas as aulas de 'Canto orfeônico'.

De 1932 a 1971, i é, por quase quatro décadas ou ao cabo de quarenta anos, obtivemos amplos resultados por parte desse esforço educativo.

Desde então, 1971, principiaram os ataques, a desconstrução, o sucateamento, etc a princípio tímido, e em seguida vertiginoso e voraz - A ponto de podermos falar numa Cruzada massificadora.

De fato nos últimos cinquenta anos os esforços do poder constituído traduziram-se em massificação, com o Estado de São Paulo a frente desse processo vergonhoso.

E quero deixar bem claro que o empenho em produzir massas alienadas e acríticas é intencional e consciente. 

Desarticulado porém, partiu de diversos setores da sociedade brasileira - Cada qual com um propósito ou motivo peculiar...

Para começo de conversa quero citar os 'bondadosos' militares, endeusados por tantos e tantos imbecis - E aqui a conversa é velha pois o papo remonta a Sócrates e seus detratores Anito, Licon e Meleto. e toda a essência da Filosofia ou do pensamento crítico.

Começaram os ditadores, em 1971 (LDBN) abolindo as aulas de música e diluindo esse conteúdo no curso de arte. E desde de então, pelo espaço se meio século, não temos tido aulas de música ou formação musical de qualidade. 

Oportuno indagar sobre as causas da ascensão do pagode, do sambão (Não estou falando no Samba bahiano dos Caymmi ou dos Demônios da garoa.) e enfim do rock pauleira, do Funk e do gospel... E mais ainda dos ideólogos que se empenham em defender a estética elevada do Funk ou do pagode em suas investigações 'sociológicas' - Pobre Sociologia pessimamente normativa...

Em São Paulo a educação musical permaneceu no Currículo até cerca de 1986, quando foi cancelada pelo PMDB i é pela vanguarda democrática das Diretas já e quanto a isso podemos adiantar que neste estado ou província a nova democracia foi ainda mais insidiosa que os milicos no sentido de tornar a escola em algo absolutamente inócuo, até converte-la em mero depósito de jovens que pouco ou nada aprendem. Enfim a pá de cal lançada na Escola pública do estado de S Paulo foi o Novo ensino médio - Do golpista temeroso, e isso foi um desígnio...

A questão dos militares é que receiam quanto a formação do ser humano integral e quanto a implementação de uma cultura humanista. Como Cálicles e Trasímaco eles acreditam, quiçá honestamente, no padrão da força bruta e consequentemente da obediência cega, o que de modo algum se ajusta com a racionalidade, a capacidade reflexiva, o pensamento crítico, etc que eles encaram como ameaçador e subversivo. 

Por isso Sócrates, ao questionar os mitos, a arbitrariedade das definições - Inclusive da justiça... e tantas outras coisas tornou-se perigoso, e teve de beber cicuta. Já antes dele Pitágoras, Zenon, Anaxágoras, etc  e depois dele Aristóteles, Epicteto, etc envolveram-se em tais conflitos e levaram a pior... 

O dilema continua até os dias de hoje - Pois de modo geral policiais e militares tendem a assumir esse padrão de cultura irracionalista e autoritário, e a desconfiar dos professores e dos filósofos. 

Isso se reflete inclusive na dinâmica da violência, porquanto os autoritários e seus aliados tendem a apoiar toda sorte de abusos e excessos como perfeitamente naturais, enquanto que os cidadãos éticos e críticos encaram-nos sempre como violação de direitos.

Há no entanto outros atores sociais nesse cenário anti educativo ou deseducativo, uns e outros já representados na trama histórica do Areópago - Pois além do chefe militar ali estão, não menos firmes, o demagogo político, o fanático religioso e o capitalista, patrão ou investidor... Cada um mais ou menos delineados.

Ali, cerca de 399 a C, assassinaram Sócrates... Hoje impedem que Sócrates renasça ou 'reencarne' em cada cidadão - Pois teem medo dele e receiam da liberdade.

Outros diriam que o ódio é potencializado pelas atitudes daqueles que cultivando a autonomia, despertam a inveja e o rancor nos submissos e os submissos são rancorosos mesmo... 

Tornemos porém aos personagens - O Demagogo... Inserido no sistema democrático!

O demagogo chega a ser pior do que o déspota ou que o tirano.

Ao menos no Brasil ou em S Paulo foi e tem sido.

O demagogo concluiu que a ignorância propicia o acesso ao poder, através dos sufrágios oferecidos por toda gente massificada.

Pão e circo é seu lema e ele depende de que hajam consumidores de churrasco e cerveja - Ou cachaça... - Potenciais vendedores ou traficantes de voto. É necessário reproduzir esse tipo de pessoa ou personagem... O que só é possível fazer destruindo o que chamamos instrução, pois o fim da instrução ou da educação é produzir um cidadão consciente, que participe, que denuncie, que mobilize; e que jamais se venda ou venda seu voto.

Para que hajam corruptores ou vendedores de voto é necessário que o ensino ou a escola falhem miseravelmente e por isso o demagogo encara todo e qualquer sucesso educativo como perigoso.

Naturalmente que a imposição do voto obrigatório é um dos fatores mais tóxicos.

No entanto é absolutamente necessário que o eleitor constrangido seja perfeito idiota, porque se for consciente e tiver mínima ideia sobre a importância de militar e mobilizar, além de votar... O perigo será o mesmo.

Urge portanto converter a escola pública numa fábrica de zumbis, de palermas, de otários, de tontos, de imbecis, de idiotas, etc E lamentavelmente tal tem sido feito em âmbito institucional.

Todas as vezes que me deparo com a propaganda babosenta do PSDB na televisão e com o esforço heroico em desprender-se da Hidra bolsonarista ou da canalha anti democrática, quase me urino de tanto rir. Pois sei que essa Horda liberticida sendo composta por mentes massificadas ou vazias, alimenta-se de ignorância... Agora, quem fabricou a ignorância com que se banquetearam...

Reportemos a inditosa ou desditosa memória do governador PSDBesta Mário Covas... O mesmo governante que desmantelou o investimento mais do que secular, de nossas Ferrovias públicas, que acabaram sucateadas - Do que resultou a tirania dos caminhoneiros, a rede dos pedágios, o aumento do custo dos alimentos e de tantos outros produtos, etc 

Mário Covas fez algo muito pior e superou a si mesmo ao desmontar as bem estruturadas escolas padrão do estado de S Paulo, outro investimento de cinco anos destinado a recuperar a qualidade das escolas deste estado. As salas ambiente foram desfeitas, os laboratórios desativados e todo aquele material disperso, uma calamidade. Era o ano de 1995. 

Ali o militar, aqui o demagogo... produtor da oclocracia.

Dois adversários implacáveis do ensino ou da escola pública de qualidade.

Não os únicos - Pois temos ainda o Mercado, os patrões ou os investidores, os quais atacam a escola por motivos de diversa monta. Os patrões, a exemplo dos milicos, desejam que seus servidores, os operários, sejam totalmente submissos ou dedicados. Querem que se dediquem ou consagrem a uma causa que não é deles > O enriquecimento alheio a custa do lucro. Quanto mais idiota ou estúpido for o operário melhor: Bom que saiba ler, soletrar, calcular, puxar umas alavancas, etc Importa que ele jamais questione a realidade que lhe é dada ou imposta... Um operário demasiado crítico ou questionador jamais é bem visto, pois poderia recusar a ser o que é ou a contentar-se com o pouco que tem, chegando inclusive a fazer greve, o 'pecado original' dos proletários.

Tal a perspectiva dos patrões... Que temem a escolarização ou a produção de cidadãos conscientes.

Há no entanto algo ainda mais soturno nesse setor do liberalismo econômico.

Tais os potenciais investidores, com suas reservas e o desejo de investigar em alguma coisa.

Agora não basta que tal coisa seja monetarizada ou precificável... Deve ser algo lucrativo, logo algo privado. 

É o ideal funesto das privatizações ou da tal desestatização, o qual deve ser bastante ponderado a luz da História. Pois quando nossos ilustres ancestrais, atacaram a ferro e fogo, com ferocidade e violência, a Igreja antiga, o objetivo foi sequestrar uma série de serviços, como a saúde e a educação, com o intuito de que, desvinculados da fé, se tornassem acessíveis a todos os homens e mulheres. Os ideais norteadores, ao menos da maioria dos teóricos, parece ter sido melhorar a acessibilidade e a qualidade de tais serviços, no caso gerenciados por um Estado (Como parte do que chamamos bem comum.) mais ou menos democrático.

Paulatinamente a ideia, até certo ponto saudável, de concorrência, introduziu a iniciativa privada em quase todos esses setores. Desde então apareceu e tomou corpo, toda uma rede de serviços privados, no acesso dos que pudessem pagar e fora do acesso dos que não podem arcar com os custos. Isso em nada prejudicou o atendimento dessa clientela, incapaz de pagar, pois sempre puderam recorrer aos serviço público e gratuito. 

E as redes de serviço pública e privada floresciam lado a lado, a primeira mantida pelo Estado (A custo de impostos.) tendo em vista a clientela mais simples ou humilde, composta por sinal, pela grande maioria dos trabalhadores pertencentes ao setor privado. 

Até que cerca de 1989, por meio do Consenso de Washington, os EUA, visando fortalecer seu poderio ou império financeiro, impuseram aos países Latino Americanos uma série de medidas inspiradas no modelo capitalista - Dentre as medidas preconizadas estavam o assim chamado controle fiscal, compreendido como teto de gastos e redução de investimentos em áreas não consideradas como essenciais, o que atingiu de cheio inúmeros programas sociais. 

Num primeiro momento Educação e Saúde foram excetuadas, agora a tendência - Vigente no governo Bolsonaro. - é incorpora-las, expondo os mais vulneráveis a morte e a indignidade inclusive, como assistimos durante a epidemia de Covid. O resultado desse tipo de política economicista, desumana e cruel foi suficientemente exposto nos documentários de Michael Moore como Sicko ou SOS saúde. 

Em seguida vinha a cereja do bolo i é as Privatizações ou desestatizações i é a passagem dos serviços públicos e gratuitos, tomados a Igreja pelos jacobinos, ao setor privado ou ao Mercado, com a necessária monetarização... Sem que subsista qualquer nicho público e gratuito a que os mais humildes possam recorrer, donde resultam - Por pressão econômica em situação de doença ou impossibilidade. - uma série de abusos repelentes como empréstimos a juros exorbitantes, hipotecas, etc E no final do túnel quem lucra, a custa da dor e do sofrimentos alheio, são as grandes instituições financeiras. E aqui, não nos enganemos, por meio de tais medidas (Como a bela desestatização.), os interesses individuais (O lucro ou ganho) sobrepõem-se ao ideal precipuamente ético e político de BEM COMUM, o qual sai de cena... Tal e qual a fé religiosa, como relíquia do passado.

Tolerável que haja alguma privatização em alguns setores periféricos, sempre calculada, dirigida e fiscalizada. Outro o caso dessa mística da privatização que aspira devorar a Educação e a Saúde, direitos primários e essenciais de todos os cidadãos brasileiros senão de todos os seres humanos. Do contrário porque tirar os serviços essenciais a Igreja velha... Para passar as mãos dos particulares ou de indivíduos ambiciosos, movidos por interesses meramente financeiros... Caso tenha sido essa a intencionalidade reconheçamos com o Mestre Garrett, que cometemos um erro fatal. Então temos que evitar o abismo e manter a todo custo o serviço público, de caráter universal, aberto e gratuito> O SUS e a escola pública, principal alvo do desmantelamento.

Não nos enganemos. 

Não nos iludamos.

Não nos enredemos.

É necessário remover a qualidade da Escola pública ou impedir que seja eficiente para que se possa argumentar a favor da gestão privada. E isso é intencional.

Políticos há, postados a favor do grande capital e do capital estrangeiro ou estado unidense, que sabotam a educação e a saúde públicas. Aspiram desmonta-las com o objetivo final de vender ou leiloar em hasta pública a quem mais oferecer... E esperam colocar toda essa grana nos bolsos, pois são vendilhões...

Pugnam os interesses privados contra a qualidade da Escola pública - Pois há milionários ou afortunados que desejam converter hospitais e escolas em empresas, querem investir, dizem eles. Desconfio que queiram lucrar... Saúde e Educação até podem ser economicamente exploradas, desde que haja um espaço reservado para o poder público - Ao que se opõem o Consenso de Washington com a ideologia da desestatização, alias em grau absoluto ou com abertura para o que chamam capital internacional > E o ideal aqui é que as empresas Norte Americanas comprem todas essas estruturas a preço de bananas com o propósito extrair imensas fortunas, transferidas em parte para a grande República anglo saxã. 

De comboio no controle fiscal, na privatização e na abertura ao poder econômico imperialista ou estrangeiro; temos ainda a proposta de uma Reforma fiscal destinada a desonerar os mais ricos - E consequentemente de desamparar o Estado ético ou humanista de Bem estar social (Bem comum) e por fim a desregularização do mundo do Trabalho i é um decidido retorno a maravilhosa Inglaterra liberal anterior a 1870. Eis todo o pacote de malignidades, etiquetadas com os rótulos de econômicas.

Após o Militar, o Demagogo e o Capitalista ou Patrão tem a escola e quiçá o Hospital, um outro grande inimigo. Não o homem ou a mulher religiosos, que cultivam uma espiritualidade qualquer. Nem, julgo eu, o rabino, o bonzo, o médium ou mesmo o padre romano. Porém o pastor protestante, fundamentalista, bíblico, sectário, etc nos exatos moldes do 'made in EUA' - Não menos que o Ulemá sunita > É o mesmo espírito tacanho e farinha do mesmo saco...

Charlatães, cobram por curas pseudo miraculosas que de modo algum realizaram, e depreciam os verdadeiros heróis: Médicos, enfermeiros, etc assim tratamentos, hospitais, etc E já foi dito que se existissem curas divinas ou miraculosas, a sra economia nos mandaria investir em pastores ou pagar dízimos... 

Tanto pior o caso das Escolas, da instrução, da formação racional, do pensamento crítico, etc 

Basta lembrar o processo do macaco, nos EUA, sofrido pelo heroico prof Th Scopes. 

Tanto a presença de primitivos mitos no Antigo testamento quanto a crença continuísta na existência de milagres no tempo presente - E portanto um éthos mágico fetichista. - fazem com que os pastores sejam os mais denodados amigos da ignorância e adversários do pensamento reflexivo.

Não podendo dominar e usar a escola numa perspectiva confessional o pastor aposta em sua perda de qualidade. É outro personagem que, como o militar e o demagogo, aposta na ignorância humana, na imbecilidade e na massificação para tirar proveito próprio. Talvez, mais do que todos os outros o pastor dependa da falência da escola ou do sistema educacional.

Outro aspecto danoso a ser considerado com relação a este último personagem é o moralismo (A simples moralidade mecânico formal.) ou o puritanismo em oposição ao pluralismo escolar e o consequente liberalismo moral que tanto exaspera os bíblicos. Para eles a escola pública e laicista é uma aberração por não aderir a moralidade tosca do pentateuco ou mesmo os preconceitos legados pelo paulinismo. O fanático não sabe conviver com a liberdade e aquele todo aquele que escapa ao sistema de opressão do qual ele faz parte converte-se numa ameaça, ou, como dizem num mau exemplo - Daí desejar ele o insucesso da escola. 

Eis porque jamais houve medida destinada a sucatear a educação pública ou a prejudica-la que não contasse com o decidido apoio da sinistra Bancada Evangélica. 


Continua





domingo, 15 de janeiro de 2017

Problemas de ateísmo e Ética

Não é propósito deste Blog atacar quaisquer pessoas ou mesmo ideologias e crenças. Pois embora Sam Harris tenha apresentado o ateísmo como fato consumado, ainda concebemos fatos como eventos ou fenômenos acessíveis aos sentidos ou imediatamente perceptíveis.

Tal o caso da última chuva, vi-mo-la, ouvi-mo-la e toca-mo-la inclusive. No entanto jamais vimos, ouvimos ou tocamos ou ateísmo.

Salvo engano nosso não é fenômeno físico, material e perceptível como supõem o sr Harris mas fenômeno interno, imaterial, psicológico ou mental, forjado ou concebido pela mente humana como qualquer crença ou ideologia. Em termos de essência entre ateísmo ou teísmo não há qualquer diferença... É tudo construção teórica ou visão de mundo com maior ou menor fundamento.

Caso nossos amigos ateus venham a discordar de nosso 'juízo valorativo' adiantem-se e apresentem-nos o peso, medida, densidade, extensão, etc do 'fato' ateu ou da 'coisa' ateia.

Feita esta ressalva - Pois ateus há que se julgam tão 'perseguidos' quanto nossos neuróticos pentecostais...  - necessária principio declarando que o único propósito deste artigo é questionar. Os ateus ou melhor os ateístas não apreciam questionar todas as religiões ou mesmo o simples deísmo? Bebam pois a mesma poção que não lhes fará mal algum! Ademais todo e qualquer sistema depura-se e torna-se mais consistente na medida em que fica exposto as críticas de seus contrários, os quais no fim das contas prestam-lhe bons serviços.

De modo que se os apóstolos do ateísmo congregados numa nova Agora, perguntassem que pena mereço eu por questiona-los, não hesitaria reproduzir as palavras do divino Sócrates: Ser alimentado graciosamente no pritaneu! Calma, bem sei que não existe mais pritaneu, mas bem que os ateístas poderiam fornecer-me cestas básicas gratuitamente por no mínimo um ano.

Alias o questionamento me interessa pelo simples fato de ser mestre ou professor de Ética e interessar-me sobre o tema ou assunto da vida Ética. Tema por sinal exaustivamente abordado e explorado por filósofos religiosos, deístas, agnósticos, materialistas e ateus desde o décimo nono século.

De minha parte, tal e qual I Kant, na "Razão prática" considero absolutamente normal que qualquer sistema metafísico (ateísmo e teísmo/deísmo) ou não (agnosticismo e materialismo) seja 'posto na parede' e irremissivelmente julgado e sentenciado tendo em vista os princípios e valores que inspira.

Claro que estou cônscio e até farto de ouvir a resposta fornecida pelo senso comum ateístico, segundo a qual há ateus bons como há religiosos, inclusive Cristãos malvados.

E é assim, com o afirmar que há ateus bons e religiosos maus que muitos dão a questão por encerrada.

Quanto a nós que diremos?

Negaremos a assertativa acima e diremos que todos os ateus - sem exceção - são maus e todos os religiosos bons?

Nada mais tolo e pífio do que negar a realidade.

Eu poderia negar, gritar, bater os pezinhos, etc

E vós brindar-me com exemplo semelhante ao de Unamuno, em seu São Manuel Bueno mártir.
Ou o que é ainda pior lançar-me em face os nomes horrendos de um Torquemada, de um Calvino, de um Malacraia, de um Felicianus, de um Cunha, de um Edir Macedo, de um RR Soares, de um Valdomiro, de um G W Bush, etc

E eu teria de calar-me envergonhado.

Péssimo Cristão é coisa que não falta ou até sobeja.

E certamente há ateu que seja bom no mundo felizmente.

Logo...

Logo o que?

Logo a conversa esta encerrada. Pois a ideia de um Deus nada tem a ver com o bem e o mal, o vício e a virtude, o certo e o errado, com a Ética enfim!

Errado, tem muito a ver ou melhor tem tudo a ver.

Mas não acabas de dizer que há ateus bons e religiosos canalhas?

Exatamente.

Então que raios deus ou cristo tem a ver com a 'moralidade'?

Tudo quando eu digo é que devemos problematizar a situação, questionar e investigar mais a fundo e quando digo isto, como culturalista que sou, penso que devamos examinar antes de tudo a questão da cultura.

E já adianto-me e digo que tal e qual os marxistas e anarquistas, os ateus relacionados com os mais variados modelos sociais e políticos, inclusive os liberais (que se julgam completamente distintos), sofrem do mesmo 'mal' ignorando por assim dizer o tema da dinâmica da cultura, em termos de produção, afirmação, declínio, assimilação, etc

É vezo comum a nosso tempo e aos religiosos fanáticos por sinal, os quais votam ódio imenso ao tema da cultura. Isto porque é da cultura, considerada em sua dinâmica, demolir todos os ídolos, sejam os 'cristãos', sectários, marxistas, anarquistas, liberais ou ateísticos... E vão parar todos na mesma cloaca dos 'mitos'.

Assim o primeiro fator que devemos considerar é que via de regra, as pessoas são incoerentes, especialmente as menos instruídas.

De fato é a incoerência problema universal e bastante sério.

Assim os 'católicos' afrontados em comício fascista por Unamuno (1936) o qual mesmo sendo incrédulo, soube opor a seus instintos vis e homicidas as mesmas palavras do Evangelho lidas em cada missa, ao invés de terem chorado e se lançado ao solo pedindo penitência, apontaram suas pistolas contra aquele que havia se limitado a repetir as palavras de Jesus Cristo...

Assim os anarquistas que em nome da liberdade destruíram os símbolos religiosos contra a vontade da população rural, alegando que eram 'símbolos de opressão'... E com maior opressão eliminavam os tais símbolos de opressão atraindo contra si mesmos o ódio das massas.

Assim os comunistas russos, russificando o marxismo e contento a tal 'Revolução' em que pese as advertências de Trotsky

Assim a população budista do Japão endossando a febre do consumo e a cultura produzida por ela...

Assim os 'liberais' abatendo e traindo o liberalismo político ou a democracia em nome dos interesses do mercado ou do liberalismo econômico.

As incoerências multiplicam-se por este mundo afora.

Cristãos há que estão plenamente cônscios a respeito da Ética do Evangelho, mas recusam-se a vive-la...  Claro que eles deveriam ser advertidos e submetidos a regra da penitência, há quem lute por isso. Também o Cristianismo precisa passar por uma purificação ética e livrar-se de tantos quantos encaram a religião como simples questão de fé.

Este enfraquecimento da consciência Cristã remonta ao alemão Martinho Lutero patriarca do solifideismo. Felizmente não somos luteranos ou protestantes.

Outro grande fator que devemos considerar é a ignorância e a falta de instrução.

Assim como há ateu sem embasamento teórico algum por jamais terem lido o Faure, o Stirner, o Feuerbach, o Duhring, o Freud, o Hitchens, o Dennet, o Sam Harris ou o Dawkins; há muito Cristão nominal que jamais leu o Evangelho de Cristo ou o livrinho de catecismo.

E como a comunidade Cristã é muito maios (100 vezes mais) do que a comunidade ateística, há de se convir que o número de iletrados e analfabetos seja muito maior. O que nos leva a um problema educativo, a Igreja tem tido dificuldade para educar toda essa gente, pois trata-se de um esforço colossal. Então temos de considerar que parte dos Cristãos forma como que uma massa inconsciente em termos de doutrina.

Há enfim aqueles que são além de letrados e instruídos, resistentes! Há ainda quem professe o Cristianismo externamente apenas e que o pratique mecanicamente i é indo as missas, rezando, etc Mas por mera questão de 'aparência' ou oportunismos, agradar a sociedade, garantir o emprego, manter a paz familiar, conservar os amigos, etc Essas pessoas sabem ler, sabem o que deveriam fazer... Mas não creem.

Mais um problema a ser corrigido pela penitência eclesiástica. Lamentavelmente a igreja, infectada pelos ensinamentos de Lutero e da pseudo reforma insiste mais a respeito da fé e faz vistas grossas a prática das virtudes Cristãs. A virtude para aquele que aderiu a fé Cristã já não é questão de liberdade mas de estrito dever. Aquele que recusa-se a cumprir concretamente com seu dever deveria ser excomungado.

Temos enfim todo um problema de educação e de disciplina.

No entanto quando tais problemas são vencidos, o Evangelho é lido, conhecido e meditado; a tradição estudada, a lição do catecismo assimilada, etc Temos o católico consciente e coerente e o resultado disto foi o aflorar da espiritualidade franciscana no século XIII e do Catolicismo social no século XIX, e da 'Teologia da libertação' no século XX.

E desta consciência evangélica surge um São João de Deus, um São Camilo de Lelis, um São José Cotolengo, um São João Bap de la Salle, um São João Bosco, um F Ozanam, um Pe Bento, um Pe Ibiapina, uma Irmã Dulce, uma Madre Tereza, um Abbe Epeé, um Pe Gapon, um Pe Lebret, um Abbe Pierre, um Pe Julio Lancelotti, um Alexandre Schmorel, uma madre Maria Skobtzoff, um Pe Maximiniano Kolbe, uma Anália Franco, um Von Keteller, um Lammenais, um De Mun, um Meignan, um La Tuor du Pin, um Wietling, uma Simone Weil, uma Mother Jones, uma Dorothy Day e tantos e tantos homens e mulheres comprometidos com a promoção integral do ser humano. Estes entretiveram um relação orgânica com o Evangelho, buscaram imitar e honorificar Jesus Cristo, foram coerentes.

Cristianismo conhecido, refletido, esclarecido, vivido e coerente reverte sempre em benefício da pessoa humana, desde os tempos de Basílio, o Grande, Fabiola, Ambrósio, Patrício, Crisóstomo... 

Tanto mais conhecido, refletido e vivido o Evangelho numa perspectiva tradicional ou Católica, isenta de contaminação platonizante, e tanto mais é beneficiada a Sociedade com escolas, hospitais, orfanatos, asilos, dispensários...

Não, a alegada 'malignidade' de certos cristãos (Católicos é claro) não parte de sua intimidade ou proximidade com o Evangelho mas da distância e alienação face a seus imperativos divinos de amor e justiça. A quase totalidade dos maus cristãos é iletrada, estúpida, incoerente e acomodada. Ignoram assim qual seja a essência de sua religião e por isso negam com as obras o que com a boa afirmam crer.

Não se trata duma situação de obediência ou cumprimento. Não odeiam, matam, roubam, mentem e cometem injustiças porque Jesus Cristo o tenha determinado, mas justamente porque ignoram o que o fundador de sua religião determinou... Jesus jamais ordenou a seus seguidores que odiassem, praticassem o mal ou exercessem a vingança, mas que amassem, se abstivessem de julgar, desistissem de condenar, etc Se parte dos cristãos desobedecem-no livremente a culpa certamente não é sua, embora a igreja mereça ser questionada neste sentido, e parte de seus filhos questionam-na.

Sei que tampouco os principais teóricos do ateísmo - digo sua grande maioria - aconselharam seus seguidores neste sentido, de praticar maldades e cometer crimes, e que alguns até tentaram honestamente produzir uma Ética ateística. No entanto devemos confessar que tais esforços falharam miseravelmente, e é o que veremos mais adiante.

Digo sua grande maioria porque minoria houve que optou por trilhar outros caminhos e produzir, e justificar uma Ética, oposta a pessoa humana e sua dignidade.

O problema havia sido lançado e era relevante desde os tempos de D Holbach (século XVIII) em seus sistema da natureza, obra em que pretendeu substituir o sistema de ética afirmado pela Igreja por um novo sistema de Ética fundamentado no ateísmo e no materialismo.

É verdade que a Cristandade - Influenciada pelo judaismo, pelo maniqueismo, pelo platonismo e pelo neo platonismo - havia cometido gravíssimos erros neste campo pelo simples fato de condenar os prazeres naturais que encontram-se no acesso do corpo. Sem embargo disto, ela continha e trazia em si mesma um sentido 'vital' em termos de Ética, o sentido da empatia ou da alteridade. Princípio que o materialismo por assim dizer desamparou completamente.

Por isso que em termos de moralidade o Barão D Holbach refere-se a busca pela realização pessoal e pela felicidade em termos de 'Poder, riqueza e prazer'. Tal a orientação que ele imprimiu a Ética e embora pretendesse criar uma moralidade tanto mais social, teve de contentar-se - como Adam Smith inclusive - em tecer algumas conjecturas em torno de uma amabilidade o simpatia natural. Ele tinha fé na bondade natural do homem e acreditava que tudo daria certo. Pois não havia conhecido aquele novo mundo produzido pelo 'deus' Mercado em meados do século XIX e tampouco as duas grandes guerras mundiais, o holomodor, etc

Impossível é para o homem do século XXI ter fé na bondade natural de seus semelhantes...

Daí a necessidade de falarmos numa Educação Ética ou conscientização em torno de princípios e valores humanistas. E de construirmos um sistema de Ética significativo.

Já o abade N S Bergier havia notado o vício original desta 'ética' materialista e ateística e salientado que ela perdera de vista o outro, a existência do outro e as dores do mundo - tema tão caro a Schopenhauer e a Freud. No entanto grande parte da existência humana consiste mesmo na experiencialidade da dor... Face a qual o Cristianismo, a guiza de solução ou suavização, ofereceu-nos uma Ética fundamentada na solidariedade. Segundo esta 'Filosofia' bárbara também achamos realização, conforto e felicidade ao amenizar o sofrimento alheio. Agora esta concepção tirava sua razão de ser dum evento histórico revestido de significado religioso, a saber da crucificação, dos sofrimentos e da morte experimentados por Deus...

O materialismo no entanto não tem Deus e muito menos cruz.

Daí sua tarefa, colossal, ingente e utópica que elaborar uma Ética voltada não para a identificação da felicidade com a fruição dos prazeres sensíveis (alias lícitos e necessários quanto a normalidade da vida) e sim como algo mais extenso e amplo, que incorpora-se os prazeres do coração ou da alma como o exercício da solidariedade. O que nos leva ao ideal de fraternidade humana!

Agora vejamos se o ateísmo estava a altura de semelhante desafio.

Enquanto Feuerbach quebrava sua cabeça e gastava incontáveis resmas de papel com o objetivo de forjar essa nova Ética a um tempo ateística e a outro ateísta, mais ousado, apareceu em cena um certo Kaspar Schmidt (Mais conhecido como Max Stirner) e num livro intitulado 'O uno e sua propriedade' iniciou a demolição da Ética humanista numa perspectiva escolástica. O homem foi terminante: partindo outros princípios não se chegará jamais aos mesmos objetivos, o Cristianismo enunciava a igualdade e fraternidade universal porque partida não apenas da existência de Deus mas da suposição absurda que ele se havia manifestado ou revelado. Como nosso ponto de partida eram outros, a saber materialismo e ateísmo, o objetivo atingido seria bem outro pelo que era necessário reconhecer que os homens não eram iguais sob quaisquer aspectos, que uns eram superiores e outros inferiores cabendo aqueles dominar ou até mesmo exterminar a estes... Claro que tinha de sobrar até mesmo para o deísmo voltairiano com seu Deus legislador e para a lei natural ou o jusnaturalismo salmanticense... Sem Legislador divino nada de lei ou direito natural.

Neste ponto a Ética ou 'moral' como era chamada ao tempo ( e ainda confundia-se com os costumes) perdeu sua essencialidade objetiva - proposta primeiramente por Sócrates e endossada por Platão e Aristóteles - para tornar-se subjetiva, e não científica e converter-se por fim em opinião individual ou mero preconceito. Do que resultou esta crise contemporânea que abalou a civilização européia até os fundamentos. Graças a mística positivista engendrada pelo materialismo foi a Ética depreciada ou abandonada por cerca de setenta anos, em que pese o clamor dos Católicos, dos deístas, dos humanistas, dos socráticos, dos aristotélicos, dos espíritas, etc e duas grande guerras mundiais com o saldo de milhões e milhões de mortos.

Claro que esta Ética ou moral frágil até mesmo no sentido de evitar-se o mal não podia encaminhar os homens a prática do bem em proporções heroicas, pelo que minguando o heroísmo e a abnegação humanas, inseriu-se o capital naquele nicho, e alimentamos ainda mais e mais o monstro que nos estava a devorar...

Retornando ao Stirner é bom saber que ele negou qualquer tipo de direito ou justiça natural, chegando a declarar que em estado de natureza o homem sequer tem direito aquilo que produz ou ao fruto de seu trabalho, e que pode ser alijado de tal fruto sem que possamos considerar tal ação como má ao menos do ponto de vista da natureza. Por onde chegamos a primazia do egoísta em posse da força. Para que relativa paz seja mantida a aristocracia do egoísmo estabelece um convenant e dita regras não apenas para si mas para todo resto da sociedade ou para os dominados, os quais recebem uma lei dada ou imposta pelos donos do poder. E fica a nova Sociedade cindida entre dominantes e dominados ou entre fortes e fracos segundo o novo paradigma ateu e materialista, A OPRESSÃO.

Em termos de moral ou ética foi isto que o ateísmo refletido ou digerido ofereceu-nos em termos de ética!

Até onde sei Nietzsche não apenas leu a obra de Stirner como referiu-se explicitamente a ele como o único pensador ou filósofo alemão. E não preciso dizer porque, e temos diante de nós o berço do 'super homem'. Eis seus cueiros... Nietzsche em certo sentido limitou-se a desenvolver os princípios enunciados por Stirner e seu padrão é a força, a insensibilidade, a indiferença, o egoísmo, a apoteose do individualismo enfim, porque o ateísmo não nos permite transcender o individuo.

Com J M Guyau que durante a juventude flertara com o estoicismo, tornamos mais uma vez a solidariedade, cujo imperativo ele reconhece ao menos abstratamente. Pois tolhido pelos preconceitos positivistas é levado a declarar que não podemos - como fez o Cristianismo - estabelecer normas ou regras concretas em termos de solidariedade. Daí também ele lançar-se para o futuro e postular que a solidariedade alimentará a estética, que esta propiciará um conhecimento mais seguro em termos de transcendência e os homens virão a amar-se mutuamente sem religião... Isto num futuro pálido e distante. Por hora reinassem as contradições sociais criadas pelo capitalismo... Ao cabo de trinta anos após a publicação deste manual de idealismo ingênuo estourou a primeira grande guerra.

Chegamos enfim a Spencer e ao darwinismo social, o qual posteriormente passou a ser compreendido como um suporte biológico - e portanto científico - fornecido aos devaneios de StirnerNietzsche. Ao que parece Darwin jamais teria esposado semelhante teoria, tal o veredito de Kropotkin. Embora outros teóricos aleguem que no final da vida tenha aderido as conjeturas de Spencer o qual partiu não de Darwin mas do velho Lamarck e de Malthus, compondo-se mais tarde com a 'Origem das espécies'. Spencer estabelece analogia entre os organismos vivos e os homens ou classes sociais e argumenta que da mesma forma como os organismos vivos aperfeiçoam-se por meio da 'seleção natural' os indivíduos e classes aperfeiçoam-se e a Sociedade evolui através de processos análogos. (cf O organismo social - 1860)
Assim ele cunha o termo 'sobrevivência dos mais fortes' falseando inconscientemente o enunciado darwiniano sobre a sobrevivência dos mais aptos e introduz esse conceito biológico na sociedade humana. Desde então não só as teorias pré fascistas e pré nazistas de Stirner e Nietzsche adquirem uma conotação científica aos olhos do positivismo sem ética, mas a própria dinâmica capitalista da livre concorrência e do livre mercado passam a ser justificadas a luz da 'seleção natural'. Passando o burguês bem sucedido ou o rico a ser identificado como um vencedor na luta pela vida e portanto como um herói e não como o 'vilão sem consciência' do socialismo legatário da 'embolorada' moral Cristã. Esta ponto foi feita pelo yankee William Graham Sumner em sua obra "O que as classes sociais deve umas as outras?" Ele responderá: Nada... pois a luz da ciência biológica o capitalismo acha-se finalmente vindicado.

Além disto Sumner como Malthus já havia feito criticou amargamente a assistência social com que os Cristãos buscam minorar os sofrimentos dos vencidos da vida... Ele declarou ainda que o posicionamento do clero anglicano em favor dos pobres e contra os ricos não passava de preconceito idiota.

Naturalmente que a ideia é importada e introduzida na Alemanha por outro apóstolo do ateísmo e do materialismo Ernest Haeckel.

Até que chegamos a Ayn Rand com seu egoísmo racional (!!!), seu repúdio formal ao altruísmo e seu apoio decidido ao sistema capitalista. Preciso dizer que também esta musa era atéia?

Toda esta 'abominação' anti humanista como se vê foi assumida ao mesmo tempo pelo formalismo político nazista e pelo formalismo economicista capitalista enquanto sistemas opostos a Ética da essência.

Grosso modo podemos dizer que o ateísmo refletido jamais saí do individualismo egoísta ou supera-o no plano da ética. Não ele não pode oferecer-nos qualquer outra coisa.

De fato os ateus bonzinhos são em sua maior parte pessoas que aderiram ao ateísmo a posteriori e que ainda não refletiram escolasticamente sobre ele. Ex deístas, ex espíritas, ex papistas, ex judeus, etc que por hábito continuam vivendo como sempre viveram e segundo foram educados. Culturalmente falando jamais questionaram os princípios e valores que haviam recebido. O ateísmo é recebido quase sempre como teoria, que pouco ou nenhum impacto produz sobre o comportamento das pessoas, em oposição a conversão religiosa. O ateísmo não possui organização, liderança ou mesmo doutrina oficial a ser assimilada pelos neo ateus... Uma revisão drástica da vida não se impõem. Deixam de frequentar suas igrejas ou clubes, mas quase nunca abandonam os 'preconceitos arraigados'. De modo que se já são bons continuam a ser.

De modo geral é assim porque o homem comum - e portanto boa parte dos ateus - não costuma a questionar e a refletir profundamente sore seus princípios e valores, as fontes da vida Ética.

Agora quando se trata de ateísmo de família ou herdado e transmitido de geração em geração a possibilidade de que haja reflexão e abandono dos princípios e valores tradicionalmente arraigados é bem maior. Na verdade tais princípios sequer são questionados, eles apenas deixam de ser repassados ou transmitidos de geração em geração devido a ausência de 'afinidades eletivas' entre eles e o ateísmo, de modo que apenas a cabo de um processo que abarca gerações, aflora uma Ética naturalmente ateísta e intuitivamente elaborada. No entanto o resultado desta construção improvisada e da solução refletida acaba sendo sempre o mesmo: A morte do homem, a negação do outro, a desaparição do semelhante e a perda quase que total da empatia, da alteridade, do altruísmo. Noutras palavras a afirmação de um egoísmo virulento e feroz.

Ao contrário do que previam D Holbach e Guyau a simpatia não foi afirmada e potencializada mas eliminada pelo ateísmo e pelo materialismo com sua ética individualista até o egoísmo.

Para finalizarmos este artigo ja demasiado longo resta descrever como e porque isto aconteceu e demonstrar que não podia acontecer de modo diverso.

O único elemento universal de convergência ou vínculo em termos de homem e virtude é Deus ou o Supremo Legislador, em cuja vontade eterna todos os princípios e valores éticos encontram-se objetivamente legitimados.

Eliminado o Legislador externo fica eliminada toda e qualquer possibilidade de lei natural, essencial e objetiva. O Bem e o mal perdem seu padrão ou critério de universalidade e objetividade.

A consequência desta perda implica admitir, e não há outro recurso possível, que o indivíduo isolado (ou como querem outros a Sociedade ou o Estado e já discutimos exaustivamente a respeito) converte-se em lei externa e absoluta para si mesmo em termos de ética e em fonte subjetiva de princípios e valores válidos unicamente para si mesmos. O indivíduo escolhe seus princípios e valores, os quais perdendo a universalidade e a objetividade convertem-se em pura e simples opinião. E a ética passa a ser identificada como opinião individual, punto e basta. Se não há Legislador externo e universal temos de reconhecer o indivíduo como árbitro supremo em termos de ética e conceder que possa julgar legitimamente em causa própria.

E não pode o outro ser seu juiz porque haverá de julga-lo segundo outros princípios e valores distintos.

Assim se alguém considerar correto matar, roubar, mentir, trair, torturar, etc quem será capaz de censura-lo???

Afinal não é ele que escolhe seus princípios e valores segundo seu ideal de felicidade?

Portanto e se esta felicidade consiste em torturar, estuprar, enganar, assaltar e tirar a vida alheia???

Mas ele não pode querer para si o que não quer para os outros???

E por que não pode? Quem é que converte o enunciado acima em lei universal se não há Legislador?

Se não há lei natural e universal tudo pode ser contestado.

No entanto, pergunta este outro ateu ingênuo, quem haverá de contestar ao menos a conveniência de identificar-se com o outro?

Ora, ora meu amigo, os pensadores e filósofos ateus Stirner, Duhring, Nietzsche, Guyau, Rand... o agnóstico Spencer... os capitalistas selvagens, fascistas, comunistas e nazistas todos.

Enquanto isto Católicos ( Ortodoxos, anglicano e papistas), espíritas, judeus, etc continuarão edificando Hospitais, Leprosários, Asilos, Escolas, Orfanatos, Dispensários, etc por toda face da terra. Lutando pela promoção humana e pela justiça social e até mesmo, quando necessário imolando-se até a morte pelo semelhante.

Agora a fundação de quantos Hospitais, Leprosários, Asilos, Escolas, Orfanatos, Dispensários, etc t foi inspirada pelos princípios do materialismo e o ateísmo? Quantos Hospitais ateus ou orfanatos materialistas existem sobre a face a terra? Quantos ateus virtuosos tem oferecido a vida pelo outro a exemplo do Cristão Oscar Schindler? Enfim quantos ateus deram suas vidas e morreram confessando ao ateísmo e declarando estar certos de que não existe um Supremo Ser?

Não sendo o ateísmo capaz de promover uma ação social em tão intensa quanto os religiosos e não sendo apto para infundir virtude tão heroica que arroste o perigo da morte pela simples afirmação da verdade como haveríamos de crer que servirá de barreira face ao capitalismo, ao nazismo, ao fascismo, ao comunismo e a outras tantas culturas de morte ao invés de alimenta-las?

Poderá o ateísmo servir-nos de barreira face as culturas de morte e salvar o ser humano de ser esmagado pelo rolo compressor da estatolatria? Vindicará ele o humanismo no mais alto grau? Fornecer-nos há os elementos necessários para a construção de uma ética essencial da pessoa? Logrará preservar-nos do flagelo do islã?

De minha parte penso e julgo que não...

Aos demais penso apenas que reflitam.










terça-feira, 29 de novembro de 2016

A falácia da reforma do Ensino





Qualquer sociedade que pretenda implementar dois tipos de 'ensino' diferentes, um 'intelectualizado', para a elite dirigente e outro para os técnicos, assume o encargo de decidir e determinar o futuro de seus membros.
Dirigir pessoas para funções de execução, alegando que estão escolhendo qualquer coisa, quando não verdade estão sendo sutilmente orientadas por uma realidade hostil e excludente é a mais refinada maneira oprimi-las.
É atitude destinada a alimentar o conformismo em torno de determinadas estruturas sociais que as elites dirigentes não desejam ver questionadas, quanto menos reformuladas. É modo porque cada um é posto em seu devido lugar e as diferenças históricas reproduzidas.

É modo porque o filho do médico continua sendo médico e o filho do funcionário continua sendo funcionário.

Penso que este tipo capcioso de política educacional esteja vinculado a polícia de cortes financeiros sempre voltados para o setor da educação.

Antes de tudo o governo golpista cortará os subsídios destinados a incluir os jovens de periferia nos cursos universitários. Em seguida criará ou ampliará ainda mais os cursos técnicos destinados a execução...

O trabalho da natureza será bastante simples: Por verem suas oportunidades educativas - no sentido de frequentar algum curso superior - drasticamente reduzidas tais jovens serão levados a abraçar o que lhes é oferecido i é as migalhas ou esmolas representadas pelo ensino técnico.

Sem maiores perspectivas, desesperançados e angustiados parte destes jovens aceitarão de bom grado a 'oportunidade' que lhes é oferecido por um ensino de segunda categoria destinado a formação de funções subalternas e não mais cobiçarão as vagas destinadas aos filhos da elite.

A simples diminuição da oferta de vagas disponibilizadas pelas universidades privadas conveniadas com o poder público determinará uma escolha que de modo algum será livre.

Por falta de investimentos educacionais não poderão escolher algo melhor.

Tampouco os pais acreditarão que seus filhos sendo pobres e estando inseridos em escolas públicas serão capazes de concorrer com os filhos dos ricos e de suplanta-los... Pelo que pressionarão seus rebentos a tomar a via mais 'realista' do ensino técnico.

A tendência dos mais humildes será oriental seus filhos desde pequenos para o ensino técnico e tirar de suas cabecinhas qualquer ambição em torno de um curso clássico destinado a inseri-los na faculdade Pública.

Os pais de origem mais simples encaminharão seus filhos instintivamente para o que esta mais próximo da realidade vivida por eles em termos de curso técnico e funções subalternas.

Eles mesmos, admitidas as exceções, não acreditam no potencial sócio transformador da educação, ao menos da educação pública.

Inserir dois tipos de cursos diferentes no Ensino público brasileiro: Um voltado para a escola técnica e outro para o ensino superior será como lançar água fria na fervura as famílias mais pobres.

As quais, caso coloquemos de lado os programas de inclusão universitária mantidos pelo Estado, em geral nutrem bem poucas esperanças, alias as mais rasteiras.

Satisfazendo-se com que os filhos sobrevivam como sobrevivem e que não morram de fome.

***

No entanto cada pessoa faz jus não a uma educação parcial voltada para o trabalho ou a função apenas mas a uma educação plena, ampla, profunda, integral e humana.
EDUCAÇÃO QUE A FORME E INFORME A RESPEITO DE SUA CONDIÇÃO, DA ORGANIZAÇÃO SOCIAL, DA PRODUÇÃO E CIRCULAÇÃO DE BENS, DA ÉTICA, DA JUSTIÇA, DA LIBERDADE, DA CIDADANIA, DA CIÊNCIA, DO MUNDO EM QUE VIVE, ETC
É por uma educação que transcenda a pura e simples sobrevivência, as necessidades econômicas, a esfera mesquinha do trabalho, aos preconceitos familiares e sociais que pugnamos. Educação que personalize, que produza pessoas, que forme cidadãos críticos e reflexivos, que estimule o pensamento livre e a criatividade; eis nossa meta.

Afinal se o sujeito não lê o mundo em que vive, não o compreende, não se posiciona face a ele, não dialoga com ele e resigna-se a aceita-lo ou a inserir-se nele. Se o sujeito não tem esperança... Se é incapaz de antever outras possibilidades é o maior analfabeto. Inda que saiba ler e calcular muito bem.

Esta compreensão humana, global e totalizante é que o educador humanista aspira partilhar com seus alunos. De modo a que possam partir e contestar, criticar e dialogar com o mundo. Visando sua transformação.

Educação deve ser compreendida como algo dinâmico, destinada a alimentar esperanças em quem jamais teve e não em formar subalternos, súditos, empregados, funcionários, servidores, etc

A todos queremos dar ao menos a oportunidade de serem iguais, partindo da liberdade como condição comum a ser ampliada.


***

Subtrair tal tipo de educação - integral e formativa - a pessoa, é certamente a melhor maneira de mutila-la, de diminui-la e de comanda-la. É arranca-la de suas condições e aliena-la. É negar-lhe sua identidade comum. É restringir suas potencialidades. É frustrar sua plena realização...
O mínimo que uma Sociedade inepta para incluir a maior parte de seus membros numa esfera superior do ensino pode fazer é propiciar-lhe uma educação humanista - de cujo currículo façam parte efetiva a Sociologia, a Psicologia, a Filosofia e a Arte (musical inclusive) além é claro da História (Que é a mestra da vida) e da geografia - já nos ensinos Fundamental e Médio!!!
Um Ensino técnico só é viável e aceitável quando seu currículo contém uma dose mínima de conteúdos humanos, destinados a alimentar a vida ética, a tolerância, a cidadania, o espírito científico, a dimensão da arte...
Eliminar por completo as disciplinas humanas de qualquer esfera do ensino público ou curso implica alienar e desumanizar esse homem com premeditado intuito de comanda-lo!
Em que pese a importância - reconhecida - das ciências exatas e da técnica para a vida, é apanágio exclusivo das ciências humanas ampliar e aprofundar a reflexão sobre o sentido das coisas bem como a direção da vida e dos atos humanos
Ignorar isto é ignorar Sócrates e todo legado clássico ou helênico que nos precede.
Xenofonte, lá no comecinho da 'Memorabilia' apresenta-nos Mestre Sócrates questionando a respeito de quem comanda e direciona a técnica e considerando que o conhecimento primordial é o conhecimento de si mesmo e da virtude, dos direitos, dos deveres, do bem e da justiça.
Pois a técnica será direcionada segundo tais valores.
Técnica é bom mas segundo Mestre Sócrates não produz consciência Ética que toque ao que seja bom ou mau, virtuoso ou viciado, certo ou errado...

A consciência Ética brota por assim dizer da consideração de determinadas situações humanas.

Jamais contempladas pela matemática, a física, a química ou mesmo a alta biologia.

Portanto se assumimos um discurso ÉTICO sejamos coerentes e admitamos a proeminência das ciências humanas e a necessidade de uma educação integral i é ao menos em parte humanista.

Do contrário resignemos a não viver este padrão ético de vida.

Sejamos enfim honestos e coerentes porque a dimensão ética da vida não brotará de declinações verbais, equações, inequações, tabelas periódicas, etc...

Ah deixaremos a ética, numa perspectiva relativista e subjetivista, ao encargo de cada indivíduo (o qual poderá inclusive não ser ético rsrsrsrs). MAS ISTO JÉ É UM OPÇÃO IDEOLÓGICA BASTANTE DEFINIDA E ANTI SOCRÁTICA E ANTI HUMANISTA. Na medida em que deixa antever não ter a ética muito valor ou a impossibilidade de estabelecermos uma ética comum... ORA TUDO ISTO É IDEOLÓGICO ANTI SOCRÁTICO E ANTI HUMANISTA...
Enfim uma educação de seja apenas e tão somente técnica e tecnicista sempre será mutiladora e miserável.
Implementar um tipo de Educação como este é semear com os nazistas, fascistas, comunistas, teocráticos e COM TODOS OS TOTALITÁRIOS ADEPTOS DA CULTURA DA MORTE.
Caso estejamos decididos a semear ventos não reclamemos quanto as tempestades e tormentas que sobrevirão em seguida!

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Diágoras de Melos

Diágoras de Melos é um vulto da história da filosofia que me fascina, era ateu, mas sabia como combater o fanatismo. Não é como muitos desses ateus que tem faniquitos fazendo do ateísmo a religião dos sem deus. Quem escreve esta postagem é um cristão ortodoxo copta mas que é marxista e evolucionista, que aceita a ciência e que não vê no que a fé cristã possa ser incompatível com a ciência, até porque se assim fosse, Dobzhanski teria abandonado a Igreja Ortodoxa, uma vez que era cristão ortodoxo russo. E Ernst Mayr disse sobre Dobzhansky: Vocês sabiam que Dobzhansky, que eu considero o maior evolucionista do século passado, se ajoelhava e rezava para Deus à noite, antes de dormir? Mas não é dele que eu quero tratar, mas de Diágoras de Melos.

O filósofo de quem eu vou falar viveu no século V a.C, era um verdadeiro pedagogo. Certa vez levaram-no a um templo e um homem lhe disse: "Veja Diágoras essas imagens são os ex-votos daqueles que escaparam dos naufrágios, aqui eles cumprem o que prometeram aos deuses. Replicou o pensador: Gostaria de ver os ex-votos dos que morreram afogados, pois no auge do desespero acredito que fizeram votos para salvar-se".

De outra feita fez lenha com uma imagem de Héracles (Hércules) e disse: "Eis o décimo terceiro trabalho de Héracles, cozinhar nabos para Diágoras".

Diágoras não negou abertamente a existência de Deus ou de deuses, mas deu a entender que se existem não se preocupam conosco. E ainda mostrou que os que morrem em desespero fizeram a mesma coisa que os sobreviventes.

Quando ele fez lenha com a estátua de Hércules, foi apenas para mostrar que não existem imagens milagrosas, pois se assim fosse, ele deveria ter sido fulminado pelo pai dos deuses: Zeus. Bom como cristão, eu venero ícones, mas não acredito em ícones milagrosas, elas são como quaisquer objetos e estão sujeitas as leis naturais, mas venero ícones pelo que representam para mim, assim como uma fotografia de minha falecida mãe, representa a que amei (e que ainda amo), mas como objeto não tem valor e nem é portador de milagres. Eu mesmo acho que os ícones ditos "milagrosos" deveriam ser destruídos para que assim sejam destruídas as superstições das pessoas.

Não sei se Diágoras tinha a intenção de levar o povo ao ateísmo ou se queria que a religião fosse mais próxima da realidade possível, todavia creio que o seu ateísmo é uma ajuda para todas as religiões, ajuda para que se tornem moderadas. Creio que algumas críticas dos ateus são válidas e mesmo que as suas intenções sejam outras, as religiões podem fazer o seu mea-culpa e seguir pelo caminho do equilíbrio.