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segunda-feira, 26 de julho de 2021

Viagem a Marte - Para além da simplicidade Julesverniana...

Muito antes que o sr Jeff Bezos fosse chamado a luz da existência e cogitasse passear pela órbita espacial, um francês de nome Júlio Verne cogitava uma viagem até a lua. 

Enquanto alguns questionam a ida do homem a luz em 2021 Verne era capaz de imagina-la no século XIX??? - A um lado a mente idiota e a outro a mente genial...

Desde que foram os homens a lua, no final dos anos 60 ou em qualquer momento dos anos 70, muita água rolou por debaixo da ponte.

E se antes o objeto era a lua não tardou a converter-se em Vênus ou em Marte.

Vênus no entanto é demasiado quente...

Já o frio, ainda que excessivo, conseguimos burlar.

Por outro lado sempre que pensa em Marte pensa o homem em água.

Quiçá possamos criar naquele planeta uma atmosfera artificial. A água no entanto seria de grande valia caso por lá existisse em estado líquido ou ao menos em estado sólido i é congelada.

De fato há ali água sob três de seus estados, preponderando no entanto como gelo. E se é a Antártida um continente gelado é Marte um planeta gelado.

Agora por que tanto interesse no distante planeta gelado e tão pouco interesse no Planeta azul em que vivemos.

Por que buscar partículas de microscópica vida lá enquanto extinguimos onças, antas, tigres, leões, girafas, elefantes, zebras, etc  por aqui?

Serão tais formas banais apenas por estarem perto de nós ou por existirem?

E as de lá maravilhosas por existirem apenas em nossas cabeças ou estarem tão distantes?

Talvez seja o caso. 

Afinal é vezo nosso e vezo sinistro valorizar o quanto perdemos...

Ademais ainda estamos acostumados a ver leões, zebras, girafas e gorilas em quantidade, o que nos leva a conceber a existência deles como vulgar...

Poderíamos gastar bilhões com o propósito de limpar nosso planeta, assim para descontaminar as águas, o ar ou a terra... No entanto preferimos investir em Marte ou na Lua. 

De fato enquanto alguns multi milionários parasitas colhem ovações e aplausos pelo fato de poderem excursionar em torno do planeta,vai nosso pobre planeta passando do azul translúcido ao cinza ou marrom...

Obra nossa ou melhor dos nossos excelentes industriais e empresários impulsionados pela ideia absurda de um progresso econômico e técnico ilimitado.

Por mais resistente que seja, a mãe natureza não poderá resistir indefinidamente a nossos ataques e agressões. 

E nós ou alguns de nós intensamente preocupados com Marte ou com a Lua.

Não, não é problema de sistema, embora o sistema seja abominável. É antes de tudo problema humano, antropológico, ético ou moral, o qual gira em torno da virtude. Foi o homem que concebeu, alimentou e ainda insisti em manter esse sistema abominável, julgando ser o melhor possível...

Sócrates já o havia previsto e antevisto - Divino ateniense! 

Pois ao denunciar o formalismo estrutural da democracia ateniense e postular a formação de homens leais, honestos, capazes e democráticos, teve de antepor o auto conhecimento ou o conhecimento de si próprio a todas as outras formas de saber, inclusive ao conhecimento do mundo externo e da técnica.

Do ponto de vista socrático o que aqui temos, há vinte cinco séculos é uma inversão. 

Pois iniciamos a construção do saber pelos elementos do mundo externo e não por nosso universo interior que tudo maneja. Tal nosso drama.

Aprendemos a controlar o mundo externo ou o universo, porém jamais cuidamos em controlar a nós mesmos ou nossos impulsos com seriedade.

Em seguida, já na modernidade, cuidamos planejar as mais belas instituições e estruturas, antes de cogitarmos na fruição de direitos, na justiça ou na virtude.

O fruto de tudo isto é uma sifilização formalista até o mecanicismo estrutural. Um formalismo democrático de teor fetichista, um agregado de leis formalistas, a ideia imbecil de um mercado que se regula por si mesmo, o socialismo bizarro - Mecanicista e etapista - de K Marx, o cientificismo/tecnicismo positivista... Abismo após abismo, miséria após miséria... Afora de Sócrates, Platão, Cícero, Quintiliano... de Jesus Cristo e dos Padres da Igreja, preocupação alguma com o elemento humano.

Até que a magnífica ciência levou-nos a lua e brindou-nos com bombas de destruição maciça - a uns seres pretensiosos que a bem da verdade são pouco melhores ou quem sabe até piores do que seus primos macacos... 

Podia este homem, a ser educado, civilizado e virtuoso - Segundo o propósito de um Confúcio, de um Sócrates ou de um Jesus. - ajudado pelas máquinas e por todo este excesso de tecnologia, ter convertido este nosso mundo num Paraíso. Nós no entanto continuamos engatados naquela resoluta marcha rumo ao único inferno, este que ora construímos por meio da extinção, a poluição e da sujeira...

Para que tanta tecnologia se os olhos da maior parte dos seres humanos continuam focados em Marte ou na Lua? Ignorando ou fingindo ignorar as necessidades reais deste planeta, nossa casa e nosso lar?

Por pouco uns homens loucos, escolhidos a dedo ou eleitos pelas massas, não reduziram este planeta a pó com o apertar alguns botões ou com o estralar dos dedos...

Criamos brinquedos mortais com que dar cabo não apenas de nossa espécie mas também de todas as outras e aniquilar o trabalho evolutivo de dois bilhões de anos.

Sim, brinquedos. Pois não passamos de crianças nos termos rasgados de um Freud. Crianças porque ainda não fomos curados do egoísmo, nosso pecado original.

Divinas e núncias das realidades celestiais por saberem confiar. Mas também egoístas até a crueldade. O que no entanto facilmente se cura por meio da pesquisa e da instrução.

Pesquisando sobre nós mesmos por meio da introspecção e conhecendo o defeito congênito aplicando as medicinas dos grandes Mestres citados: Buda, Confúcio, Sócrates e sobretudo Jesus de Nazaré... 

Mas é como disse: Só podemos lidar perfeitamente com aquilo que conhecemos e na medida em que melhor conhecemos.

E negligenciamos o conhecimento de nós mesmos, desse imenso universo que em parte permanece indevassado. Dispersa-mo-nos pela Via Láctea, guiados por quiméricos sonhos, porém jamais ousamos examinar a fundo nosso universo interior. Construímos bombas e foguetes, computadores e TVs, trens elétricos e automóveis capazes de guiarem a si mesmos; mas continuamos a fugir da 'Longue chaise'... Exatamente por onde deveríamos ter principiado - O Metronomo e a Longue chaise...

Triste a sorte de um mundo ou de universo controlado por um ser descontrolado, incapaz de impor limites éticos a si mesmo ou de controlar-se. 

Como pode controlar algo aquilo que não se controla?

Desde Fechner, Wundt, Freud, Jung, Frankl, Winnicott, Blowby e outros tornamos a levantar a tampa do alçapão tenebroso. Os fantasmas porém há muito que haviam escapado... sem que nos déssemos conta ou nos importássemos. 

Nós que não nos identificamos uns com os outros e que tampouco nos compadecemos dos animais ousamos produzir maquinários e parafernália capaz de aumentar milhares de vezes nosso raio de ação não poucas vezes destrutivos. 

Antes de criar todo esse mundo artificial ou cibernético por que não nos desprendemos do consumo de carne vermelha?

Aqui certamente teríamos feito algo de relevante ou uma espécie de Revolução. E nos preparado para grandes conquistas. Porém guiados pela injustiça matamos pelo prazer do sabor sem ousar refletir ou raciocinar.

Por isso nos convertemos em vermes nauseabundos que em louco festim devoram a carcaça deste pobre Planeta enquanto olham embevecidos para Marte ou para a Lua.

Sabe Deus nossas intenções perversas?

Não apenas ele porquanto a ficção científica - Acurada desde os tempos de Verne, Salgari, Reid, etc - já deslindou o segredou e colocou-o diante de nossas vistas > O cúmulo da profanação!

Não romantizemos as coisas nem nos enganemos por um instante sequer a respeito deste falso encanto falso encanto diante do universo externo. Amamos nesse universo imenso o que ele nos pode dar, o que desejamos e esperamos que haja nele.

Não foi o Cristianismo antigo ou apostólico que impulsionou a pilhagem da América. Triste - Tentou inutilmente conte-la e até conteve-a em certa medida. Coisa que não faria este neo cristianismo protestantizado e canalha, incapaz de produzir um Francisco Vitória, um Banez, um Soto, um Cano, um Las Casas, um Suarez, um Benci, um Pedro Claver, um Martinho de Porres, etc

O futuro porque aspiramos é o pior do quanto nos legou o passado, assim a explotação do Oeste pelos colonos Norte Americanos, esta não somente incontida como estimulada pelos pastores com suas bíblias ou velhos testamentos - Do que resultou o pior genocídio da História. Tal o modelo de futuro que temos...

Pois como predadores aguardam esses homens ímpios por uma nova América ou por um Novo mundo quiçá repleto de humanos, de animais ou de minerais a que pilhar, torturar e matar. Rogo aos céus que tais mundos estejam bem distantes de nós e assim a salvo. Rogo a Providência celestial que não estejam na periferia desta Via Láctea... 

Encontrado este outro Planeta com ar, água e riquezas minerais sucederá a passagem, a migração das larvas insaciáveis ou a colonização e degradação do novo espaço. 

Como disse acima, caso hajam lá outras formas de vida, racionais ou não, seguirá a catástrofe. Principiaremos a matar e a escravizar uns e outros, quiçá em nome desse novo Evangelho parceiro do darwinismo social e do mamonismo. 

A grande diferença em termos de processo histórico é que enquanto após o descobrimento da América foram as massas empobrecidas e miseráveis que para cá migraram ora teremos algo quiçá mais diabólico, posto que aqui não há mais para onde correr. Destarte premidos pela geografia ou pela imutabilidade do espaço quem se deslocará serão os multi milionários como o sr Bezos e serão eles os únicos e próprios 'deuses astronautas' a migrar para outras plagas em que não hajam pobres. Os demais vermes cá ficarão para disputar os ínfimos restos de uma carcaça nauseabunda. Num contexto em parte já sabido com falta de água, de espaço, de ar limpo... e é claro com superabundância de sujeira. 

O quadro de nosso possível futuro foi descrito qual profecia ou vaticínio no Filme Elysium (2013). Outro propósito não tem os multi milionários, ricos, empresários, industriais, banqueiros e seus títeres políticos quando ao invés de descontaminarem este nosso lar investem imensa fortuna em máquinas, foguetes e viagens inter planetárias, etc O quanto querem é encontrar um refúgio para em seguida deixar este Planeta quase irrecuperável, e multidão de miseráveis nele a formigarem como vermina. 

Tal o panorama e o significado de tais investimentos e excursões; havendo quem apoie abertamente tais desígnios. 

Movidos por insaciável ambição que jamais se contém ou reforma tais homens dão já nossa casa por  irrecuperável e perdida. E não se sensibilizam - pretendendo antes começar tudo de novo num outro local. Dando sequência a essa saga de sangue, suor e lágrimas... a esse rosário de sofrimentos e dores, previsto já pelos homens póstumos, pelos supremos representantes da espécie. O quanto posso imaginar face a esse quadro é uma chusma de ratos (Os ratos que não me levem a mal.) prestes a abandonar o navio prestes a sossobrar... 

Para piorar ainda mais o cenário já aterrador surge pergunta que não quer calar:

Terá você amigo leitor, ou algum de seus descendentes, possibilidade de morar nesse modelo de paraíso chamado "Elysium"??? 

Ou ficará abandonado com os céus numa terra convertida no pior dos pesadelos imagináveis?

Para, pense, reflita, revise suas concepções e considere não apenas cuidar do Planeta mas pressionar as autoridades para que dele cuidem.

Informe-se sobretudo a respeito da proposta realista em torno de uma 'economia estacionária'. 



quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Algumas considerações sobre o declínio da República romana e a 'Pax augusteana'

Embora Montesquieau, Gibbon, Sismondi, Ferrero, Villa e tantos outros tenham buscado analisar e compreender a queda do Império romano, compreendida como seu progressivo colapso de Comodo (190) a tomada da cidade por Alarico, os teóricos renascentistas, por identificarem-se com a forma republicana - vigente nas cidades do Regnum Italicum desde 1085 - concentravam suas inteligências buscando compreender o declínio da República e a retomada da forma monárquica sob Júlio César.

Maquiavel, num golpe de gênio, intuiu que para compreender o que estava sucedendo as repúblicas italianas de seu tempo ou a sua idolatrada Florença, devia voltar-se para o passado e estudar o declínio da República romana, buscando suas causas. E no final do 'Discorsi' (1525? - Maquiavel com objetivos oportunistas costumava alterar as datas de suas obras) acaba por abraçar a tese polibiana - ora Spengleriana - em torno dos ciclos de civilização. Segundo a qual, ao modo dos homens, as civilizações nascem, crescem, enfermam e morrem.

Já nos referimos diversas vezes a esta construção. No entanto, como repetir é a um tempo ensinar e fixar ou reaprender: Todas as cidades eram governadas por príncipes, as vezes eletivos ou mesmo provisórios. Num determinado momento tais príncipes fizeram-se hereditários e a hereditariedade, naturalmente, descambou em tirania ou despotismo. Desde então principiaram a conspirar os aristocratas, até que efetivamente tomam o poder. Passadas algumas gerações converte-se a aristocracia numa oligarquia opressora. O povo no entanto, por ter retido na memória a felonia dos nobres ou optimates, derruba a oligarquia e converte-a em democracia ou governo popular, o qual não tarde em degenerar, transformando-se em oclocracia, demagogia ou anarquia... condições em que a monarquia é restaurada. Iniciando-se um novo ciclo.

Antecipando uma possível pergunta sobre a melhor solução possível quanto a retardar este processo degenerativo e prolongar a estabilidade, a sugestão, aprimorada por Aristóteles, encontra-se no Diálogo platônico 'As leis' e consiste no afamado governo misto ou republicanista. O qual o filósofo com suma prudência declara ser o melhor de todos. Implica ele fugir as formas puras e misturar monarquia, aristocracia e democracia. E já se divisa uma espécie de poder moderador inserido numa estrutura bi cameral. O rei, cônsul ou presidente - eleito periódica ou vitaliciamente - encarna o princípio monárquico, o pequeno senado a forma aristocrática e o grande conselho de cidadãos ou o comício a forma democrática e já se vê que temos diante de nós a Constituição da República romana, ainda mais favorecida por instrumentos como o plebiscito e o referendo, além do tribunato.

Satisfeita a possível pergunta devo tornar a desilusão maquiavélica e a petição que faz ele em torno da História para advertir que Guicciardini, seu jovem amigo e antagonista intelectual, antecipa as críticas de um Dilthey, de um Winbeldand, de um Eucken ou de um Marrou em torno de um processo histórico mecanicista, estrutural, rígido, formal, inelutável e absolutamente previsível quando não determinista. Sem negar que haja um ciclo civilizacional inelutável, Guicciardini insiste que certos atos ou fatos, quer repercutem nesse quadro, procedem do acaso ou da ação livre dos homem, não podendo ser compreendidos como resultantes de uma Lei fixa e rígida. Dentro deste quadro há considerável variação ou diversidade.

Em certo sentido Guicciardini - perdoem o anacronismo - parece insinuar o paradigma da compreensibilidade, tendo em vista a ação de elementos estocásticos ou humanos que fogem a rigidez monolítica da Estrutura. E antecipar a noção de tendências predominantes, face a noção de Leis imutáveis.

Agora tornando a república romana, sendo provida duma estrutura tão arrojada e eficaz, por que teria colapsado?

Autores de diversa lavra e separados por séculos uns dos outros - assim Bruneto Latini, Mussato, Salomonio... e mais próximos a nós: Polanyi, Arendt e mesmo Durkheim - referem-se a avareza, a busca pela riqueza privada, o aumento da desigualdade social, enfim, algo em torno das finanças ou da economia.

Para Durkheim as relações financeiras ou econômicas tendem a isolar socialmente os homens ou a afasta-los. Arendt gasta farta quantidade de papel e tinta com o objetivo de demonstrar que a expansão da esfera do econômico ou privado ocorreu as custas da diminuição da esfera do político ou público com a consequente perda de qualidade. Para Polanyi o economicismo contemporâneo destruiu os laços de solidariedade existentes nas culturas antigas e primitivas. John Gray, Roger Scruton e Russell Kirk tiveram de admitir, de bom grado ou a contra gosto que o liberalismo econômico punga contra o sentido comunitária presente nas culturas e civilizações tradicionais, o que por sinal já havia sido demonstrado fartamente por R Guénon.

No que diz respeito a Roma e o eclipse das virtudes republicanas a questão da concentração da riqueza por particulares, do luxo e da suntuosidade já havia sido apontada por mestres clássicos como Salústio e Juvenal, a quem seguiram Latini, Mussato, Salomonio, etc Alias, esta sugestão já havia sido desenvolvida por Agostinho e enfim por Ibn Khaldun num sentido que faz lembrar a Sócrates. Mesmo porque as civilizações antigas eram basicamente militares.

De fato os romanos assomam a História como um povo agro pastoril, cujos hábitos eram frugais, sóbrios ou quase ascéticos, e que por isso mesmo, ameaçados a um lado pelos poderosos e refinados Etruscos - que lhes impuseram a realeza até 509 a C - e a outro por oscos, samnitas, etc tornaram-se belicosos. O ambiente político da Itália, sua instabilidade e insegurança, definiu as qualidades militares dos antigos romanos.  E estes jamais cessaram de expandir-se pela península até domina-la.

E assim correram as coisas até as guerras púnicas ou ao menos até 146. 146 é uma data chave na História da civilização romana. Pois foi neste ano de Cipião, vencendo Anibal em Zama, conquistou e destruiu Cartago. Enquanto L Múmio destruia a soberba Corinto e conquistava a Grécia. Desde então escravos e riquezas inimagináveis afluíram a Roma e ela jamais foi a mesma. Pois como diria o já citado Juvenal, os romanos entrando em contato com outros, povos 'mais avançados' se deixaram conquistar pelos hábitos deles. Abandonando a frugalidade ancestral do mingau e das azeitonas, e tornando-se ainda mais ambiciosos.

No entanto eles ainda aspiravam por lutar e por conquistar as joias da coroa, assim a Síria e o Egito, antigos principados helenísticos e as nações mais ricas da terra, com exceção talvez da longínqua Índia... E de fato vieram a conquistar a Síria em 63 sob Pompeu Magno e o Egito em 31, após Augusto ter vencido Marco Antonio - em Accium - e fechado o circuíto do Mar mediterrâneo, agora 'Mare nostrum' ou lado privado dos latinos.

Agora consideremos as consequências de tudo isto.

Se já era difícil congregar o povo em comícios para decidir a respeito da cidade ou da Península como governar um Império gigantesco recorrendo ao povo e em tese a um povo romano espalhado por todo este Império? Se Salutati, Bruni, Patrizi e muitos outros referiam amiúde ao desafio que era congregar o povo de Florença, que dizer dos cidadãos do Império romano? A estrutura do macro estado associada a precariedade dos meios de transporte e comunicação, tornou o exercício do poder popular impensável. Sartori redefiniu nossa situação nos mesmos termos em meados do século XX. Mas estamos falando do século I a C... Sendo assim temos de admitir que um governo centralizado condizia melhor situação geográfica ou espacial do Império. Mesmo os atenienses do século V a C ou os humanistas italianos do trezentos ou do quatrocentos admitiriam a distinção... Diante disto que sacrificar? O Macro estado ou as formas democráticas?

Outra consequência - a somar-se com a econômica e com a política - é de origem militar. Mais conquistas e escravos demandavam mais guerras e mais guerras demandavam maior efetivo militar. Nos últimos cem anos da República foi Roma uma nação em campanha... E como sabemos o éthos militar - cf Nisbet - nada tem de democrático. Os Filósofos gregos e os primeiros Cristãos sabiam-no muito bem... Uma situação de conflito prolongado numa dimensão democrática não tarda a engendrar duplicidade. Por isso que das Revoluções procedem regimes autoritários (Nisbet). Tal o caso de Roma, desde o momento em que prolongou o comando dos ditadores. A partir de então alguns generais passaram a conviver por anos a fio com as mesmas tropas, a ponto destas converterem-se em clientes, lacaios ou cabos eleitorais seus. Não é por acaso que Caio Mario e Sila tiveram exércitos seus, com fidelidade jurada. E servindo-se deles puderam subverter a república, a este tempo convertida em aristocracia de poltrões senatoriais, com exclusão do povo. Por isto Sila ao penetrar o recinto da cúria com suas tropas acusa os senadores de covardia e declara que o povo nem os amava nem choraria ou lutaria por eles.

Júlio César com seus dedicados veteranos esta apto para colher o fruto maduro i é o poder Imperial, restabelecendo a monarquia.

Pois as elites estavam completamente corrompidas pelo luxo ou amolecidas.

Enquanto o povo, antes aguerrido, temos em Juvenal, passou a ser controlado pela política do 'panem et circenses'. Desde as vésperas da conquista de Cartago, pugnavam os plebeus - a gente comum - por um parte mais significativa no 'butim' ou saque que os romanos levavam aos povos vizinhos. Assim, no ano 123, sob Caio Graco, obtiveram a suprema igualdade e a redução do preço do trigo. E desde 59 pela lei Clódia, passam a ser alimentados pelo Estado, com a distribuição de rações de trigo. Desde então o Senado se sente completamente seguro. Pois o povo se acalma por completo, e abandona a arena da política.

Garantidos alguns diretos básicos e o alimento quotidiano acomodou-se a plebe.

Desde então puderam os líderes militares mais espertos, com a ajuda de suas tropas, exercer o poder sem quaisquer objeções.

Augusto foi um homem esperto, que soube colher os frutos semeados por seu tio, e em comunhão com a elite militar, completar as ansiadas conquistas e exercer um poder discreto. Foi o homem de seu tempo. Pois o declínio da República, iniciado por Mário e Sila, antecipou o caos que haveria de ser o século III d C, o qual teria antecipado o fim do Império. Prolongando-se indefinidamente o conflito entre os generais pelo comando supremo do Império. Os próprios militares do tempo de Augusto devem ter dado conta disto. No entanto nem o povo nem o senado estavam dispostos a lutar pelas antigas liberdades. Como as barrigas e os cofres estavam cheios tudo quanto eles queriam era paz e sossego ou estabilidade para gozar a vida. E como ninguém mais estivesse disposto a combater, os militares, juntamente com Augusto puderam assumir o poder, mantendo, ao menos em princípio as aparências.

A República havia declinado, indubitavelmente, mas não o poder romano. Pois por duzentos anos manteve-se o Império e até conquistou, em que pese a derrota de Teutberga, sob Varus. Ao menos até Cômodo, foi o Império um período de estabilidade e assim de recuperação, após o ocaso vergonhoso da República. Claro que não podemos compara-lo com os tempos dos Mânlios, dos Camilos ou dos Cipiões... No entanto após Mario, Cina, Sila, César, Crasso, Pompeu, Brutus e Cássio foi ele um refrigério.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Fragmento de Sociologia - Que é 'Contexto' social (Lahire)

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"“Contextos” é uma espécie de conceito guarda-chuva, no entanto, que abarca tudo com que os atores se deparam no seu ambiente e que impinge sobre suas ações no presente e a partir do exterior (classe, poder, organizações, instituições etc).

A noção pode designar (1) espaços sociais abstratos que são vertical e hierarquicamente estruturados em termos de classe e de diferenciais de poder (o sistema de classes de Marx, o campo do poder de Weber, o espaço social de Bourdieu) e domínios institucionais ou funcionais horizontalmente diferenciados em sociedades complexas (as esferas de valor de Weber, os campos de Bourdieu, os mundos de Becker, os subsistemas de Luhmann etc.), mas também é ocasionalmente usada para se referir mais concretamente aos (2) microcontextos (famílias, escolas, fábricas, clubes esportivos etc.) e (3) situações (as sociações de Simmel, as ordens da interação de Goffmann, as quididades de Garfinkel etc.) que formam o pano de fundo imediato da ação.

Juntos, os contextos estrutural (1), institucional (2) e interativo (3) engatilham ou inibem..."

A Sociologia na escala individual Margaret Archer e Bernard Lahire* Frédéric Vandenberghe

1 - Em termos de estruturas temos o quanto haja de mais simples e amplo em termos de contextos, entidades ou unidades sociais, assim a própria Ideologia (social) e Técnica pertenceriam a esta categoria (estrutural) bem como os nichos de casta, classe, estamento, categoria, etc

2 - Em termos de Instituições temos desde o Estado Nacional ao município, a família, a igreja, o clube, a escola, a fábrica, o sindicato, etc

3 - Em termos de situações temos a Revolução e em termos de condição devemos considerar a etnia e o gênero.

Esta é a melhor definição - tomada a Lahire - a respeito do campo dos estudos Sociológicos que pudemos encontrar.