- Gostando ou não é o pensamento moderno é, ao menos em parte, filho da Teologia Escolástica ou uma secularização daquela Teologia. Como é igualmente filho da cultura bizantina, representada por Gemistos Phleton e demais emigrados. E filho em parte de um Renascimento literário autóctone. Claro que estas correntes nem sempre estiveram em sintonia.
- A meu ver o primeiro pensador moderno ou filósofo propriamente dito foi Pietro Pomponazzi, já por ter iniciado a crítica das fontes aristotélicas, buscando separar o elemento medieval do elemento original, já por ter examinado a questão da imortalidade da alma de um ponto de vista puramente natural e separado da fé religiosa. Situaria Telesio em segundo lugar pelo simples fato de Erasmo ter sido mais um literato e teólogo do que um filósofo propriamente dito. Ao tempo de Pomponazzi ou mesmo Telesio a reflexão Filosófica ainda não fizera sua aparição na França, que dizer então sobre a Inglaterra ou a Alemanha?
- Mesmo Maquiavel e Morus estão mais relacionados com a ciência política e a organização social do que com o exercício metafísico ou a abordagem propriamente Filosófica.
- Sobre Bacon se diz ter escrito sobre ciência sem ter feito ciência. Em geral os Filósofos da Ciência ou da Natureza não são cientistas, como os críticos não são literatos. Nem Descartes foge a esta regra. Isto coloca Da Vinci, Vesalius, Galileu, Harvey e Kepler a frente dele, mas não anula seus méritos ou os de Descartes. Dilthey, Kuhn e Medawar foram geniais, mas não se equiparam a um Darwin ou a um Einstein.
- Nem Spinoza nem Descartes foram Luteros ou mesmo Copérnicos da Filosofia, posto que não a demitiram até os alicerces ou buscaram reforma-la por completo. Descartes limitou -se a indicar os caminhos a serem seguidos pela Filosofia natural, proclamando em alto e bom som que eram distintos da Metafísica tradicional. Concedeu espaço a pesquisa científica moderna com seu método próprio, porém jamais repudiou formalmente a Metafísica. Spinoza e Descartes jamais negaram a importância da Metafísica ou disseram que não se deveria fazer Metafísica, o que aliás demonstra a genialidade de ambos.
- Montaigne, como Pirro após a fragmentação do Império de Alexandre e Agostinho após a queda do Império Romano, foi filho de sua época, época em que a França e o resto da Europa eram convulcionadas pela reforma protestante é as guerras religiosas. Daí seu desencanto face a razão e seu ceticismo, aliás incompleto ou fideista e tributário de Agostinho. Ceticismo e ideário dos tempos de crise, em que os homens deixam de confiar em si mesmos ou de acreditar em suas possibilidades. Daí sua ascensão em tempos de pós guerras e guerra fria, assim de colapso ecológico. O fim ou desagregação dos grandes impérios foi substituído pela reforma protestante e pelo capitalismo enquanto desafios a nossa racionalidade.
Pirro, Agostinho, Al Gasali e Montaigne eram ambos conservadores e quase certamente vim nos ideais éticos alimentados pela racionalidade ou pelo racionalismo socrático/platônico os elementos responsáveis pela fragmentação e conflitos sociais que tanto aborrecia-os. Eis porque conformavam se com a realidade dada, abdicando dos ideais, fossem quais fossem, em benefício da estabilidade politico/social. Preferiam o paradigma da Paz injusta ao da Justiça 'caótica'. Jean Bodin pensava exatamente assim...
- Leibnitz foi quem impulsionou remotamente o idealismo alemão pelo simples fato de especular desbragadamente, e fazer com que Kant enjoasse e vomitasse no século seguinte.
- Para muitos Locke remontaria a uma tradição empirista própria da Inglaterra, a qual remontaria aos tempos de Roger Bacon, Buridan, Bradwardin, etc Ele retomou a lição da 'tábua rasa' formulada por Aristóteles, não a inventou mas, contestou o inatismo dominante. NÃO nos esqueçamos que o inatismo de Chomsky é puramente estrutural e não formal. O empirismo se bem entendido diz respeito apenas as informações arquivadas na memória ou ao conteúdo, não as operações ou relações mentais.
- Hume aderiu com atraso a um pirronismo já assumido por La Mothe Vayer, Bayle e outros modernos (cf Luciene Febvre "A origem da incredulidade no décimo sétimo século") mas celebrizou se por atacar o paradigma da causalidade, já posto em dúvida por Arcesilas ou em todo caso pela terceira academia três séculos antes desta Era ( cf V Brochard 'Os céticos gregos'). Repetiu quase tudo quanto os céticos gregos haviam dito quiçá ignorando a réplica elaborada por Antioco de Ascalon. Foi em que disse desejar lançar ao fogo todas as obras obras Teológicas da Idade Media, por odio a Filosofia escolástica, acho isto bem pouco filosófico...
- Th Reid foi uma grande luz em meio as trevas modernas e contemporâneas.
- Os franceses do século XVIII criaram uma metafísica materialista mecanicista de fundo empirista que se antecipou ao positivismo. Essa construção, que muito influenciou o jovem Marx, é bastante discutível. Quiçá tentando demonstra-la La Mettrie morreu literalmente empanturrado ou de indigestão. De modo geral os iluministas, como Diderot, Voltaire, Rousseau, etc eram deistas e aborreciam o ateísmo. De Holbach, Helvetius e o citado La Mettrie no entanto parecem ter sido ateus declarados. Deste meio saiu Condorcet, o qual secularizando a escatologia Cristã concebeu um progresso infinito e um Paraíso terrestre viabilizados pelo conhecimento científico. Não podemos substimar este deslocamento enquanto ideologia.
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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020
Notulas sobre o pensamento moderno
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sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
O ateísmo, o agnosticismo, a Kalokagatia e a morte da estética II
Continuação
Após Baumgarten ter retomado o tema da estética, foi Kant que pela primeira vez propôs sua revisão ou releitura à la 'Germânica' quero dizer, a moda alemã.
Não foi sem razão que I kant foi descrito por alguém como sendo o 'Copérnico' da Filosofia.
E já veremos que se trata de um Copérnico as avessas ou invertido. Afinal Copérnico avançou da terra ao Sol, desbancando o geocentrismo, o qual em última análise era apenas disfarce com que se ocultava o nosso insopitável antropocentrismo. Queríamos ser o centro das atenções. Queríamos que nossa terra constitui-se o centro do universo. O diácono polonês deslocou o centro do sistema para o astro rei, merecendo inclusive os insultos de Martinho Lutero.
Non Kant...
Kant fez o percurso oposto no campo da Filosofia, ou melhor da epistemologia, colocando o homem ou sua vontade no lugar do Objeto ou da coisa, enquanto centro do processo cognitivo. O qual fica sendo precipuamente psicológico, subjetivo ou voluntarista, não sensorial, não racional e tampouco conceitual como supunham os helênicos em sua maior parte.
É verdade que parte dos críticos Católicos tendem a espinafrar com o francês Descartes e com o inglês F Bacon, buscando responsabilizados pela balburdia subsequente e futuro descrédito da Filosofia. Assim o Pe Leonel Franca, em seu curso de Filosofia editado pela Agir, assim Tasso da Silveira em diversas de suas obras de crítica literária.
Tampouco os Católicos, assim Jacques Maritain, no Humanismo integral e um Ortodoxo, Berdiaeff na Nova Idade Média abstiveram-se de assestar suas baterias contra o Renascimento. Afinal como poderia um agostiniano ou alguém influenciado pelo agostinianismo ou por qualquer tipo de antropologia negativa ou pessimista compreender o Renascimento, o dealbar do espírito científico ou mesmo a doutrina social da Igreja???
A respeito de Bacon e Descartes, tudo quanto tentaram dizer a seus contemporâneos é que a ciência empírica não podia sair da Metafísica. Não se tratou aqui de negar radicalmente a Filosofia, a especulação ou a razão e a formulação de conceitos; mas de criar-se um nicho específico para a ciência e de fornecer-lhe um aparato metodológico próprio assim a dúvida metódica, Descartes e Bacon jamais postularam a dúvida metafísica ou invencível de Pirro, Timon, Carneádes, Enesidemo, Montaigne ou Hume. Mas dúvida construtiva e provisória no campo da ciência.
Grosso modo Descartes limita-se a tomar Agostinho quando elabora uma metafísica imanente a partir do eu e portanto psicologista, sem no entanto negar o valor da antiga. O 'Penso logo existo' e portanto a consciência de si como ponto de partida para a demonstração do mundo externo e de Deus já se encontra presente na obra de Agostinho e temos de admitir que é uma abordagem válida. Ademais Descartes desenvolve-a sempre segundo os princípios da razão - assim suas Meditações sobre a existência de Deus - jamais contestando os princípios da lógica formal (como o de contradição) ou pondo em dúvida as conclusões sacadas as premissas.Toda esta argumentação é escolástica ou metafísica e tradicional.
E Hume? Hume é uma reedição inglesa e tanto mais sofisticada de Pirro ou melhor de Enesidemo. Por Victor Brochard somos informados que quase tudo dele já estava lá, presente em Arcesilau, Carneádes, Enesidemo...
E Kant?
Kant não.
Kant faz uma metafísica cerrada em torno do irracionalismo e tenta demonstrar racionalmente a incapacidade da razão, ao menos para metafisicar.
É verdade que ele reconhece que nossa ciência é válida quando descreve fenômenos, sabendo que os fenômenos não passam de aparência. A ciência não toca a realidade íntima das coisas. Nada toca.... Ficamos conhecendo aquilo que ao menos em parte elaboramos uma vez que a realidade externa do ser é em parte ao menos elaborada por nossos sentidos ou por categorias impressas por nós. Fabricamos, ao menos em parte, a realidade externa do mundo. Nossos sentidos não nos informam sobre a coisa ou o objeto, alteram-nos, transtornam-no e portanto enganam-nos... O quanto podemos dizer sobre a ciência é que por vezes funciona e não que nos informa fielmente sobre o ser, o ser fica sempre oculto, misterioso e intangível.
Julgamos ter diante de nós um objeto externo que é o universo, mas temos apenas uma ideia ou uma elaboração da nossa vontade. Eis o sr voluntarismo ou idealismo, filho do psicologismo crasso ou da epistemologia subjetiva e antropocêntrica responsável pelo deslocamento do processo cognitivo do objeto ou da coisa conhecida para o elemento cognoscente. Foi de fato uma Revolução, uma Revolução germânica, uma Revolução individualista, filha legítima da Reforma protestante. Uma contra Revolução caso tomemos por parâmetros a escolástica ou a Filosofia clássica. As raízes de tudo isto remontam é claro a Agostinho, passam pelo sunitas Achari e Gazalli, confluem para Ockan e os franciscanos e chegam a Lutero, o qual toma Aristóteles por seu supremo inimigo após o papa romano e a racionalidade por uma prostituta louca. Afinal não fora este homem transtornado pelo pecado original? A ponto de assemelhar-se a um pedaço de pedra ou de madeira...
No entanto como se sustentarão a ética e a estética sem uma epistemologia objetiva ou realista que lhes sirva de suporte? Não se sustentarão. Pois o kantismo ou criticismo e o positivismo lançarão dúvidas cada vez mais sérias sobre tudo quanto não seja absolutamente empírico.
É sempre a aplicação dos mesmos princípios e reedição da mesma teoria irracionalista. A fonte da sensação estética nada tem a ver com a contemplação racional de formas definidas conforme determinado cânone estético. É subjetiva, irracional e portanto arbitrária. A fruição da beleza estética é puramente subjetiva ou melhor solipsista. Sou eu que julga algo belo ou feio com critérios psicológicos válidos apenas para mim. Resta nos perguntar por que a rebelião modernista demorou tanto tempo para ocorrer? Se as portas já estão abertas para o dionisíaco de Nietzsche i é para as emoções, os impulsos, os instintos, os desejos... enfim para tudo quanto seja psicológico ou oposto a razão, até que a uniformidade racional seja comparada a uma tentativa de controle ou a uma espécie de autoritarismo. Pois esta arte puramente psicologista não conhece quaisquer regras.
O mundo a ser reproduzido aqui não é mais o mundo externo reduzido a hipotéticas formas puras, mas o mundo interno da mente, do inconsciente, da fantasia, da imaginação desbragada, do sonho ou mesmo do pesadelo, onde cada um reformula a realidade externa e é regra absoluta para si mesma. Este mundo interno que a razão pretende controlar é emancipado por Kant, ao menos no terreno da arte e da estética. E nada mais existe de absoluto neste terreno, o feio e o belo são eternos relativos.
A pouco nos perguntamos sobre que evento teria impedido ou evitado um desabrochar do modernismo logo após Kant? Por que tivemos de esperar até Nietzsche? Por que a perspectiva, a rima e os arranjos não tombaram de imediato e saíram logo de cena ao cabo do século décimo nono?
Aqui, paradoxalmente, o positivismo recusou-se a seguir Kant ou a acata-lo. Mas como se deu isto? Aqui a estética foi mais feliz do que a Ética, pois esta carecia mais do que aquela de um fundamento superior ou invisível. E esses mesmos sequazes de Comte, que liderados por Litreé repudiam a ética essencialista e toda ética, apresentando-a como absolutamente relativa ou cultural, recusam-se a privar-se da beleza em sua expressão clássica definida, e sentem necessidade dela. Eles simplesmente tomam os cânones estéticos da civilização clássica e afirmam sua objetividade em termos universais, sem no entanto levar em consideração os fundamentos metafísicos desta elaboração clássica levada a cabo por Platão e Aristóteles. É como uma cabeça separada de um corpo ou um castelo desprovido de seus fundamentos, a estética neo clássica dos positivistas tem sua base no ar ou no nada, e por isso tomba miseravelmente ao primeiro sopro da rebelião modernista com seu ideário psicologista.
E pensar que esses positivistas, cientificistas, ateus, agnósticos, materialistas... ergueram magníficos templos a 'religião da humanidade' nos mesmos moldes que os antigos templos pagãos e que as igrejas Católicas. E que elaboraram um ritual secularizado com que substituir as cerimônias pagãs ou a missa... Eles assumiram um aparato estético e não o fizeram a toa... Sabiam o que estavam fazendo. Embora o positivismo fosse um programa quase que completo - pelo simples fato de negar a dimensão ética da existência - tinha sérios defeitos estruturais e por isso veio a tombar após um efêmero esplendor.
Fora das velhas igrejas, ora convertidas em baluartes do quanto havia de clássico sobre a face da terra, o modernismo campeou triunfante. Em poucas gerações nosso homem fatigou-se da feiura oferecida e chegou a crer, e ainda cre, que a estética ou a contemplação da beleza é algo supérfluo ou dispensável. Cem ou quarenta mil anos após a elaboração das primeiras obras de arte no recôndito das florestas ou das cavernas, homens há que tem feito o caminho oposto. E eles até se vangloriam de estar em posse de altas Verdades, desvinculadas da ética e da estética, perdendo de vista o ideal da kalokagatia.
No próximo capítulo diremos o que pensamentos a respeito de tais ideologias, porque nos frustram e que esperávamos delas.
Continua -
"A beleza salvará o mundo" Dostoeffsky
Após Baumgarten ter retomado o tema da estética, foi Kant que pela primeira vez propôs sua revisão ou releitura à la 'Germânica' quero dizer, a moda alemã.
Não foi sem razão que I kant foi descrito por alguém como sendo o 'Copérnico' da Filosofia.
E já veremos que se trata de um Copérnico as avessas ou invertido. Afinal Copérnico avançou da terra ao Sol, desbancando o geocentrismo, o qual em última análise era apenas disfarce com que se ocultava o nosso insopitável antropocentrismo. Queríamos ser o centro das atenções. Queríamos que nossa terra constitui-se o centro do universo. O diácono polonês deslocou o centro do sistema para o astro rei, merecendo inclusive os insultos de Martinho Lutero.
Non Kant...
Kant fez o percurso oposto no campo da Filosofia, ou melhor da epistemologia, colocando o homem ou sua vontade no lugar do Objeto ou da coisa, enquanto centro do processo cognitivo. O qual fica sendo precipuamente psicológico, subjetivo ou voluntarista, não sensorial, não racional e tampouco conceitual como supunham os helênicos em sua maior parte.
É verdade que parte dos críticos Católicos tendem a espinafrar com o francês Descartes e com o inglês F Bacon, buscando responsabilizados pela balburdia subsequente e futuro descrédito da Filosofia. Assim o Pe Leonel Franca, em seu curso de Filosofia editado pela Agir, assim Tasso da Silveira em diversas de suas obras de crítica literária.
Tampouco os Católicos, assim Jacques Maritain, no Humanismo integral e um Ortodoxo, Berdiaeff na Nova Idade Média abstiveram-se de assestar suas baterias contra o Renascimento. Afinal como poderia um agostiniano ou alguém influenciado pelo agostinianismo ou por qualquer tipo de antropologia negativa ou pessimista compreender o Renascimento, o dealbar do espírito científico ou mesmo a doutrina social da Igreja???
A respeito de Bacon e Descartes, tudo quanto tentaram dizer a seus contemporâneos é que a ciência empírica não podia sair da Metafísica. Não se tratou aqui de negar radicalmente a Filosofia, a especulação ou a razão e a formulação de conceitos; mas de criar-se um nicho específico para a ciência e de fornecer-lhe um aparato metodológico próprio assim a dúvida metódica, Descartes e Bacon jamais postularam a dúvida metafísica ou invencível de Pirro, Timon, Carneádes, Enesidemo, Montaigne ou Hume. Mas dúvida construtiva e provisória no campo da ciência.
Grosso modo Descartes limita-se a tomar Agostinho quando elabora uma metafísica imanente a partir do eu e portanto psicologista, sem no entanto negar o valor da antiga. O 'Penso logo existo' e portanto a consciência de si como ponto de partida para a demonstração do mundo externo e de Deus já se encontra presente na obra de Agostinho e temos de admitir que é uma abordagem válida. Ademais Descartes desenvolve-a sempre segundo os princípios da razão - assim suas Meditações sobre a existência de Deus - jamais contestando os princípios da lógica formal (como o de contradição) ou pondo em dúvida as conclusões sacadas as premissas.Toda esta argumentação é escolástica ou metafísica e tradicional.
E Hume? Hume é uma reedição inglesa e tanto mais sofisticada de Pirro ou melhor de Enesidemo. Por Victor Brochard somos informados que quase tudo dele já estava lá, presente em Arcesilau, Carneádes, Enesidemo...
E Kant?
Kant não.
Kant faz uma metafísica cerrada em torno do irracionalismo e tenta demonstrar racionalmente a incapacidade da razão, ao menos para metafisicar.
É verdade que ele reconhece que nossa ciência é válida quando descreve fenômenos, sabendo que os fenômenos não passam de aparência. A ciência não toca a realidade íntima das coisas. Nada toca.... Ficamos conhecendo aquilo que ao menos em parte elaboramos uma vez que a realidade externa do ser é em parte ao menos elaborada por nossos sentidos ou por categorias impressas por nós. Fabricamos, ao menos em parte, a realidade externa do mundo. Nossos sentidos não nos informam sobre a coisa ou o objeto, alteram-nos, transtornam-no e portanto enganam-nos... O quanto podemos dizer sobre a ciência é que por vezes funciona e não que nos informa fielmente sobre o ser, o ser fica sempre oculto, misterioso e intangível.
Julgamos ter diante de nós um objeto externo que é o universo, mas temos apenas uma ideia ou uma elaboração da nossa vontade. Eis o sr voluntarismo ou idealismo, filho do psicologismo crasso ou da epistemologia subjetiva e antropocêntrica responsável pelo deslocamento do processo cognitivo do objeto ou da coisa conhecida para o elemento cognoscente. Foi de fato uma Revolução, uma Revolução germânica, uma Revolução individualista, filha legítima da Reforma protestante. Uma contra Revolução caso tomemos por parâmetros a escolástica ou a Filosofia clássica. As raízes de tudo isto remontam é claro a Agostinho, passam pelo sunitas Achari e Gazalli, confluem para Ockan e os franciscanos e chegam a Lutero, o qual toma Aristóteles por seu supremo inimigo após o papa romano e a racionalidade por uma prostituta louca. Afinal não fora este homem transtornado pelo pecado original? A ponto de assemelhar-se a um pedaço de pedra ou de madeira...
No entanto como se sustentarão a ética e a estética sem uma epistemologia objetiva ou realista que lhes sirva de suporte? Não se sustentarão. Pois o kantismo ou criticismo e o positivismo lançarão dúvidas cada vez mais sérias sobre tudo quanto não seja absolutamente empírico.
É sempre a aplicação dos mesmos princípios e reedição da mesma teoria irracionalista. A fonte da sensação estética nada tem a ver com a contemplação racional de formas definidas conforme determinado cânone estético. É subjetiva, irracional e portanto arbitrária. A fruição da beleza estética é puramente subjetiva ou melhor solipsista. Sou eu que julga algo belo ou feio com critérios psicológicos válidos apenas para mim. Resta nos perguntar por que a rebelião modernista demorou tanto tempo para ocorrer? Se as portas já estão abertas para o dionisíaco de Nietzsche i é para as emoções, os impulsos, os instintos, os desejos... enfim para tudo quanto seja psicológico ou oposto a razão, até que a uniformidade racional seja comparada a uma tentativa de controle ou a uma espécie de autoritarismo. Pois esta arte puramente psicologista não conhece quaisquer regras.
O mundo a ser reproduzido aqui não é mais o mundo externo reduzido a hipotéticas formas puras, mas o mundo interno da mente, do inconsciente, da fantasia, da imaginação desbragada, do sonho ou mesmo do pesadelo, onde cada um reformula a realidade externa e é regra absoluta para si mesma. Este mundo interno que a razão pretende controlar é emancipado por Kant, ao menos no terreno da arte e da estética. E nada mais existe de absoluto neste terreno, o feio e o belo são eternos relativos.
A pouco nos perguntamos sobre que evento teria impedido ou evitado um desabrochar do modernismo logo após Kant? Por que tivemos de esperar até Nietzsche? Por que a perspectiva, a rima e os arranjos não tombaram de imediato e saíram logo de cena ao cabo do século décimo nono?
Aqui, paradoxalmente, o positivismo recusou-se a seguir Kant ou a acata-lo. Mas como se deu isto? Aqui a estética foi mais feliz do que a Ética, pois esta carecia mais do que aquela de um fundamento superior ou invisível. E esses mesmos sequazes de Comte, que liderados por Litreé repudiam a ética essencialista e toda ética, apresentando-a como absolutamente relativa ou cultural, recusam-se a privar-se da beleza em sua expressão clássica definida, e sentem necessidade dela. Eles simplesmente tomam os cânones estéticos da civilização clássica e afirmam sua objetividade em termos universais, sem no entanto levar em consideração os fundamentos metafísicos desta elaboração clássica levada a cabo por Platão e Aristóteles. É como uma cabeça separada de um corpo ou um castelo desprovido de seus fundamentos, a estética neo clássica dos positivistas tem sua base no ar ou no nada, e por isso tomba miseravelmente ao primeiro sopro da rebelião modernista com seu ideário psicologista.
E pensar que esses positivistas, cientificistas, ateus, agnósticos, materialistas... ergueram magníficos templos a 'religião da humanidade' nos mesmos moldes que os antigos templos pagãos e que as igrejas Católicas. E que elaboraram um ritual secularizado com que substituir as cerimônias pagãs ou a missa... Eles assumiram um aparato estético e não o fizeram a toa... Sabiam o que estavam fazendo. Embora o positivismo fosse um programa quase que completo - pelo simples fato de negar a dimensão ética da existência - tinha sérios defeitos estruturais e por isso veio a tombar após um efêmero esplendor.
Fora das velhas igrejas, ora convertidas em baluartes do quanto havia de clássico sobre a face da terra, o modernismo campeou triunfante. Em poucas gerações nosso homem fatigou-se da feiura oferecida e chegou a crer, e ainda cre, que a estética ou a contemplação da beleza é algo supérfluo ou dispensável. Cem ou quarenta mil anos após a elaboração das primeiras obras de arte no recôndito das florestas ou das cavernas, homens há que tem feito o caminho oposto. E eles até se vangloriam de estar em posse de altas Verdades, desvinculadas da ética e da estética, perdendo de vista o ideal da kalokagatia.
No próximo capítulo diremos o que pensamentos a respeito de tais ideologias, porque nos frustram e que esperávamos delas.
Continua -
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